Predisposição psicológica no processo de adaptação à doença de diabetes mellitus

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ARTIGO ORIGINAL

PEREIRA, Fernando Oliveira [1]

PEREIRA, Fernando Oliveira. Predisposição psicológica no processo de adaptação à doença de diabetes mellitus. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 07, Vol. 04, pp. 110-141. Julho de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/processo-de-adaptacao

RESUMO

No sistema de integração biopsicossocial, sob a influência da estrutura funcional interna, a percepção e representação que o sujeito constrói de si mesmo, da doença, das situações e circunstâncias, surgem predisposições psíquicas que são determinantes no processo de adaptação comportamental à doença. Objetivo da pesquisa: estudo das predisposições psicológicas de pessoas com diabetes mellitus no processo de adaptação comportamental à doença. Participantes: 50 sujeitos de ambos os sexos, com diabetes mellitus (30 a 88 anos) e 50 sujeitos com caracterização sociodemográfica idêntica, que não sofrem da doença. Metodologia: entrevista clínico-psicológica; questionário sociodemográfico; questionário clínico-dinâmico da doença; questionário de adaptação psicológica à doença; questionário de autoavaliação do locuscontrol. Resultados: ¾ dos participantes com diabetes mellitus consideram que a doença tem um impacto negativo em suas vidas. Pessoas com diabetes mellitus, em comparação como grupo controle, apresentam predisposições psicológicas mais expressivas ao desespero / desamparo, preocupação ansiosa, fatalismo e controlo externo das situações; menos expressivo no combate ativo contra a doença, evitando a doença e controle interno das situações. Metade das questões relacionadas a predisposições psíquicas têm diferenciação estatística significativa, mas a maior expressividade, pode ser tanto no grupo diabetes mellitus quanto no grupo controle; o que mostra o cancelamento de diferenças significativas ao agrupar perguntas em escalas. Daí a aparente ausência de diferenças estatisticamente significativas nas predisposições psíquicas de adaptação à doença, mas que são reconhecíveis em uma análise qualitativa específica. A análise dos fatores revela maior semelhança e consistência integrativa nas respostas às perguntas no grupo controle e maior dispersão no grupo do diabetes mellitus. Conclusão: O diabetes mellitus tem impacto negativo na qualidade de vida dos pacientes, evidenciando predisposições psíquicas que reforçam sentimentos de desespero, desânimo, preocupação ansiosa, fatalista e inibem a ação combativa no processo de adaptação comportamental à doença.

Palavras-chave: Diabetes Mellitus, predisposições psíquicas, adaptação à doença.

INTRODUÇÃO

O Ser humano é um complexo sistema de integração de fatores biológicos, psicológicos e sociais. Portanto, é um sistema biopsicossocial que funciona plenamente em diversos níveis: biofísico, bioquímico, biológico, fisiológico, neurofisiológico, psicofisiológico, neuropsicológico, psicológico, psicossocial, social, cultural, ambiental (LOMOV, 1984; MORIN, 1994; PEREIRA, 2018). A consciência é a dimensão psicológica responsável pela elaboração e interpretação das informações que fornecem ao respectivo sistema, distinguindo-se nas tipologias individuais e sociais, ou coletivas, e tendo papel decisivo no nível da funcionalidade psicológica e psicossocial, na projeção das perspectivas de vida do sujeito da ação, que se baseia na reflexão e avaliação que fazem das dimensões do passado, presente e futuro da sua própria vida (LOMOV, 1984, PEREIRA, 2018).

No processo de interação do sujeito com o meio ambiente, em geral, e com situações e circunstâncias individuais, em particular, historicamente desenvolve-se um sistema integrado de traços internos e estados, cujas especificidades configuram predisposições psicológicas de ação, como personalidade ou individualidade, que tendem a dirigir o comportamento (PEREIRA, 2018). Portanto, quando o sujeito como sistema de integração biopsicossocial é portador de doença grave ou crônica sob a influência da estrutura funcional interna, a percepção e representação que o sujeito constrói de si mesmo e da doença, das diversas situações e circunstâncias em que atua, configuram-se predisposições psicológicas que desempenham a função de regular o processo de adaptação comportamental à doença (PEREIRA, 2013; 2018).

A psicologia da saúde tem como principal objetivo promover a saúde das pessoas e prevenir que sejam afetadas pela doença (LEAL, 2006; OGDEN, 2004; PAIS-RIBEIRO, 2015); evitar a instalação de doenças, especialmente a condição crônica, que é duradoura e de difícil remoção do sistema hospedeiro (OGDEN, 2004; PAIS-RIBEIRO, 2011). No sujeito com a doença, forma-se um quadro clínico-patológico, caracterizado por aspectos gerais, específicos e individuais, seguindo as especificidades do processo da doença, no qual se reflete a diversidade de fatores inerentes ao sistema e ao ambiente circundante. Assim, forma-se um estado interno que, com o tempo, dá origem a uma predisposição psicológica específica da adaptação à doença.

O impacto das doenças crônicas em seus pacientes é negativo, tanto em termos de sua funcionalidade psicossocial quanto na forma como os sujeitos percebem, apreendem e projetam a vida; na qualidade de vida das pessoas que sofrem delas. Um dos fatores que gera mudanças psicológicas negativas com impacto na qualidade de vida dos pacientesé a imprevisibilidade e a incerteza diante a probabilidade de cura, como é o caso das doenças oncológicas, ou mesmo em situações dominadas porações, na forma de cuidado prestado, orientadas à redução de danos e minimização do sofrimento (PEREIRA, 2013). Um papel determinante do grau de incerteza e imprevisibilidade é desempenhado pela consciência como fator de avaliação e planejamento, levando o sujeito da ação à tomada de decisão e, consequentemente, à elaboração de formas de enfrentar a doença (PEREIRA, 2018). É como uma certa predisposição psicológica do paciente para pensar, sentir e reagir às situações em que está adoptando modos de ação e atitudes que têm repercussões na percepção da doença e na forma como ela é percebida.

Diabetes mellitus é uma das doenças crônicas com alta prevalência e impacto na qualidade de vida, assim como doenças cardiovasculares (Internacional Diabetes Federation [IDF], 2017; World Health Organization [WHO], 2018). As diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes estimam que existem atualmente 385 milhões de pessoas no mundo com diabetes e que até 2035 atingirá os 471 milhões (OLIVEIRA; VENCIO, 2016). De acordo com a Federação Internacional de Diabetes (2017), na população mundial, há 425 milhões de adultos que sofrem de Diabetes Mellitus e uma em cada duas pessoas permanece sem diagnóstico.

O tipo 1 de diabetes mellitus é encontrado em 5 – 10% de todos os pacientes que sofrem desta entidade clínica, ocorrendo antes dos 30 anos, geralmente na infância ou na adolescência, cuja manifestação na idade adulta pode ser muito mais insidiosa (FRAGUAS; SOARES; BRONSTEIN, 2009; OLIVEIRA; VENCIO, 2014). O diabetes tipo 2 ocorre com mais frequência após os 40 anos de idade, cujo pico de incidência ocorre em torno de 60 anos, representando 85 – 95% da população diabética, na qual a maioria não precisa de tratamento de insulina (PICKUP; WILLIAMS, 1997; THE EXPERT COMMITTEE ON THE DIAGNOSIS AND CLASSIFICATION OF DIABETES MELLITUS, 2000, 2003; SILVA, 2010).

O diagnóstico de diabetes mellitus pode desencadear um choque emocional e mudanças em seu estado mental no paciente, devido à falta de preparo para enfrentar as limitações decorrentes da doença crônica. O impacto negativo do diabetes no bem-estar emocional e psicológico do paciente pode depender do seu grau de aceitação, do significado atribuído, da compreensão do autocuidado e da motivação necessária para a adesão e manutenção do tratamento (DOWLING, 2018; LOURENZO, 2018, PEREIRA, 2010, 2013).

O surgimento da doença crônica tem repercussões nas atividades e interesses dos pacientes, devido às limitações impostas pela própria doença e seu tratamento e também pela percepção de redução do controle pessoal, sendo fatores que explicam grande parte da variabilidade da sintomatologia depressiva (TALBOT et al., 1999; SILVA, 2010). No diabético o apoio social é um fator importante na redução dos sintomas depressivos; mas a forma como os pacientes constroem e regulam seus objetivos de vida e a percepção da autoeficácia podem ser fatores que influenciam a forma como as manifestações depressivas são apresentadas (GROOT et al., 2001; NOUWEN, 2002). Investigações têm demonstrado que o diabetes aumenta a prevalência de sintomas depressivos e que a presença de depressão tende a aumentar o nível de complicações, mortalidade e a possibilidade de abandono do tratamento (VAN DOOREN et al., 2013). O apoio familiar diário é um fator importante e indispensável na conformidade terapêutica, assim como o apoio social traz benefícios para o bem-estar psicológico dos pacientes (KOETSENRUIJTER et al., 2015).

A princípio, quando o paciente ainda não tem informações, nem tem conhecimento suficiente sobre a doença, ele ainda não se representa por ter perdido condições de saúde e qualidade de vida. No entanto, quando ele está ciente de ser um portador de diagnóstico de uma doença crônica, surgem incertezas sobre seu futuro, o que gera insegurança interna que dificulta a forma de adequação comportamental no processo, pois enfrenta as ameaças decorrentes da doença; portanto, é percebida e representada como perda de autonomia e independência pessoal (BENNETT, 2002; MARQUES, 2012; PEREIRA, 2013). A carga psicossocial e a tensão psiconervous gerada pela doença crônica podem ser instaladas como fatores de risco predisponentes ao desenvolvimento de mudanças na funcionalidade psíquica, instilando em manifestações de ansiedade e depressão (HASAN et al., 2015; RAMOS; FERREIRA, 2011). Portanto, é necessário conscientizar o paciente sobre a gravidade e a importância do cuidado a ser tomado com a doença para que seja possível manter seu bem-estar, a correta administração do tratamento a ser realizado em situações cotidianas; assim, as atividades cotidianas e as relações interpessoais dos pacientes podem estar associadas a experiências de sentimentos de satisfação e prazer da vida (PEREIRA et al., 2007; MANTOVANI et al., 2011; SILVA, 2010).

Na doença diabética, seus verdadeiros conhecimentos e complicações, bem como a maior aceitação de sua condição e a representação adequada da sintomatologia, são fatores determinantes que favorecem a qualidade de vida e a autogestão da patologia (ANTÓNIO, 2010; SOUSA, 2003).

No diabetes mellitus, quanto maior a percepção do paciente sobre sua autoeficácia no manejo da doença e monitoramento do tratamento, maior a predisposição de ser persistente em suas ações para implementar recomendações, orientação sobre o regime terapêutico e monitoramento da glicemia, dieta, medicação e exercício físico (PATRÃO, 2011).

A crônica, a gravidade e as complicações decorrentes da doença contribuem para que o paciente diabético se sinta frustrado, preocupado, experimentando sentimento de insegurança, medo, desamparo, ansiedade e outros que interferem no tratamento; diabetes mellitus pode desencadear alterações na funcionalidade do paciente, forçando-o a aprender a viver de uma forma diferente, exigindo a adoção de outras medidas de controle (CURCIO et al., 2008; SILVA, 2010). Portanto, é pertinente e necessário avaliar os fatores emocionais associados às manifestações depressivas, ansiedade e estresse, quando se percebe que há baixo controle glicêmico, evidenciando a importância que possuem para a manutenção do tratamento adequado (RAMOS; FERREIRA, 2011). É devido às influências recíprocas entre o estresse emocional e o autocuidado em pacientes diabéticos que a presença de estresse pode ser vista como um fator de maior risco, o que leva a resultados terapêuticos piores (OLIVEIRA; VENCIO, 2016). Dos fatores de risco na hipertensão arterial e diabetes mellitus, a obesidade foi uma das mais influentes (BERNABÉ-ORTIZ et al., 2015).

As investigações mostram que os idosos, que não sofrem de doenças crônicas, obtêm melhores resultados em indicadores relacionados à atividade física diária, estado mental e relação social, em comparação com os idosos com esse tipo de doença (HUANG et al., 2015). Entende-se agora a importância do papel desempenhado pelo apoio social em doenças crônicas; mais do que o próprio apoio, a percepção do sujeito diante desse mesmo suporte (CREAVEN; HUGHES, 2012). Portanto, o apoio social é uma variável importante nas patologias da hipertensão arterial e diabetes, garantindo bons indicadores de saúde física e mental, sendo autoestima, senso de controle e domínio da própria vida, recursos sociais e individuais positivos para lidar com fatores de estresse no cotidiano (GONÇALVES; PAWLOWSKI; PICCININI, 2011). O diabetes é frequentemente associado ao sofrimento emocional; portanto, o apoio social desempenha um papel como moderador e a sociabilidade é um atributo importante para a resiliência das pessoas (BAEK; TANENBAUM; GONZALEZ, 2014).A promoção e o desenvolvimento de habilidades sociais em pessoas que sofrem de doenças crônicas aumentam o empoderamento e a resiliência em situações em que têm de lidar com as complicações decorrentes da própria doença. Estudos recentes mostram que há uma relação entre estresse, resiliência e apoio social, demonstrando que o apoio social torna as pessoas mais fortes, seguras e aumenta as taxas de resiliência que reduzem o impacto negativo do estresse gerado pelas doenças crônicas; hipertensão e diabetes mellitus, permitindo enfrentar problemas com maior confiança e coragem (MALAGRIS, 2019).

O diabetes mellitus está diretamente relacionado a fatores de natureza nutricional e hormonal e indiretamente com os de natureza psicossocial. Pacientes frequentemente manifestam incontrolabilidade emocional, irritabilidade e instabilidade afetiva (HARRIS, 2003); agravamento da autoimagem, cuja insatisfação gera baixa autoestima, muitas vezes relacionada à depressão e insegurança (JOSEPH, 2003).

A abordagem psicológica das pessoas que sofrem de diabetes mellitus favorece sua integração biopsicossocial, sendo uma condição que promove o cuidado prestado, garantindo melhor qualidade de vida e bem-estar psicológico (FERRAZ et al., 2000). Conviver com doença crônica requer comportamentos específicos de autocuidado; daí a importância do trabalho psicológico com pessoas diabéticas, cujo objetivo principal é a aceitação da doença, a fim de melhorar a qualidade de vida, e as intervenções individuais ou em grupo trazem benefícios no campo da saúde física e mental, desenvolvimento pessoal, promoção de habilidades de relacionamento interpessoal e formação de competências que facilitem a adesão ao tratamento (ANTÓNIO, 2010). A intervenção baseada no acompanhamento psicológico facilita e promove a experiência de emoções positivas como satisfação, prazer, alegria, redução da tensão decorrente da carga dos tratamentos e aumenta os bons hábitos e boas práticas no controle da doença (DENNICK; START; SPEIGHT, 2017). É importante engajar com o paciente um tipo de comunicação adaptada ao seu nível educacional e cultural, estabelecendo uma relação médico-paciente qualificada (BAILEY et al., 2014). O impacto do nível de escolaridade em episódios cardiovasculares e mortalidade em pacientes diabéticos é significativo (BLOMSTER; ZOUNGAS; CHALMERS, 2017).

O estilo de vida dos pacientes com diabetes é um dos fatores mais relevantes no controle glicêmico. A terapia tem uma enorme influência no estilo de vida; rigor e autodisciplina são cruciais. O paciente utiliza diversos níveis de ação: desde insulina terapia, orientação alimentar, informações sobre como lidar com a doença, autoadministração de insulina, automonitoramento da glicemia, manutenção da atividade física e apoio social (GOES; VIEIRA, 2007; SETIAN et al., 2003).Fatores emocionais e psicológicos como ansiedade, depressão, alexithymia podem ter influência negativa no processo de controle da glicose (MARCELINO; CARVALHO, 2005; MELIN et al., 2013). Consequentemente, um estilo de vida baseado na atividade física regular, ações e diretrizes voltadas para a redução do estresse, transtornos de ansiedade e depressão favorece e promove um controle glicêmico eficaz (SALES-PERES et al., 2016). Um bom planejamento com projetos de vida saudável que incluem passeios agradáveis e atividades como ciclismo ao ar livre contribuem significativamente para reduzir a incidência de diabetes e obesidade (CREATORE et al., 2016). Por isso, é importante montar equipes multidisciplinares na realização de atividades relacionadas à promoção e educação para a saúde dos pacientes diabéticos, proporcionando qualidade de vida, por meio da alimentação saudável e da atividade física (TSAI et al., 2010).

A experimentação interna diária e repetida das consequências inerentes à doença crônica, como o diabetes mellitus, leva à consolidação na forma de predisposição psicológica para lidar com problemas, dependendo em parte das atitudes adotadas pelos pacientes em relação às situações em que estão envolvidos.

Por isso, o objetivo desta pesquisa é estudar as predisposições psicológicas das pessoas que sofrem de diabetes mellitus no processo de adaptação comportamental à doença.

Hipótese de trabalho – Há diferenças significativas nas predisposições psicológicas no processo de adaptação comportamental a situações de vida entre pessoas que sofrem de diabetes mellitus e pessoas que não sofrem desta patologia.

MÉTODO

PARTICIPANTES

Amostra representada por 50 pessoas diagnosticadas com diabetes mellitus e 50 pessoas do grupo de controle que não padecem desta patologia.

CARACTERIZAÇÃO SOCIODEMOGRÁFICA DOS PARTICIPANTES DA PESQUISA

Tabela 1 – Características sociodemográficas dos participantes.

                                    Grupos

 

 

 

Características

 

Grupo

Diabetes Mellitus

 

 

Grupo Controle

Quantidade

 

% Quantidade %
Sexo Masculino

 

27 54 20 40
Feminino

 

23 46 30 60
Estado Civil Solteiro

 

4 8 8 16
Casado

 

37 74 36 72
Divorciado

 

1 2 0 0
Viúvo

 

8 16 6 12
Faixas Etárias 30 – 40 anos

 

6 12 4 8
41 – 50 anos

 

5 10 4 8
51 – 60 anos

 

6 12 6 12
61 – 70 anos

 

12 24 18 36
71 – 80 anos

 

11 22 15 30
81 – 90 anos

 

10 20 3 6
Escolaridade Analfabeto

 

6 12 0 0
1º ciclo (4 anos)

 

20 40 24 48
2º ciclo (2 anos)

 

9 18 3 6
3º ciclo (3 anos)

 

7 14 6 12
Ensino Médio (3 anos) 6 12 7 14
Ensino Superior (3 – 5 anos) 2 4 10 20

Fonte: F. Oliveira Pereira, 2021.

A distribuição sociodemográfica dos participantes descritos na tabela 1 mostra que, no que diz respeito ao sexo,a quantidade é semelhante: masculino (54%) e feminino (46%) no grupo diabetes mellitus, e ligeiramente maior o número de mulheres (60%) do que homens (40%) no grupo de controle. Embora o número de participantes do sexo masculino e feminino não seja exatamente o mesmo no grupo diabetes mellitus e no grupo controle, as diferenças são poucas; o equilíbrio das partes na pesquisa permanece.Quanto ao estado civil, a maioria dos participantes é casada: 74% em diabetes e 72% no grupo controle, correspondendo a aproximadamente ¾ dos participantes em ambos os grupos. A faixa etária dos participantes é entre 30 e 88 anos, sendo M = 64,56 e DP = 16,57, no grupo de diabetes mellitus, e entre 32 e 83 anos, M = 64,40 e DP = 14,14, no grupo controle.Em ambos os grupos, patologia e controle, a maioria dos participantes da investigação se enquadra nas faixas etárias acima de 60 anos, representando um percentual entre 65% e 72%.Em relação à escolaridade, a maioria dos participantes da pesquisa, em ambos os grupos, tem o 1º ciclo da educação básica, correspondente a 4 anos de estudo, e o 1º e 2º ciclo juntos são mais de metade, variando de 54% a 58%.

INSTRUMENTOS METODOLÓGICOS

ENTREVISTA CLÍNICO-PSICOLÓGICA

Entrevista de tipologia clínica semiestruturada direcionada aos aspectos psicológicos da funcionalidade do sujeito nas diversas dimensões da sua vida. O uso da técnica de entrevista nesse formato visa obter informações relevantes para a investigação e aprofundar com maior minuciosidade as especificidades da funcionalidade psíquica do paciente e, além disso, abordará algumas das insuficiências características de instrumentos estruturados, como questionários fechados.

QUESTIONÁRIO SOCIODEMOGRÁFICO

Perguntas orientadas para coletar informações sobre categorias como idade, profissão, estado civil e escolaridade.

QUESTIONÁRIO CLÍNICO-DINÂMICO DA DOENÇA

Questões de natureza clínica orientadas à objetivação e especificação da tipologia e dinâmica da doença: tipo de diabetes; complicações do diabetes; idade em que o diabetes foi diagnosticado; duração da doença; idade em que ele começou a medicação; idade em que a mudança foi feita do 1º ao 2º e do 2º ao 3º medicamento; impacto da doença em sua vida; que mudanças ele teve que fazer em sua vida devido à doença.

QUESTIONÁRIO DE ADAPTAÇÃO PSICOLÓGICA À DOENÇA (PEREIRA, 2013)

Este questionário foi construídocom base na Escala de Adaptação Mental ao Cancro (MAC – Mental Adjustmentto Câncer Scale(WATSON et al., 1988; WEINMAN; WRIGHT; JOHNSTON, 1995). Questionário / Escala, original em inglês, composta por 40 perguntas, que foram semanticamente organizadas para medir, segundo quatro variantes de resposta, transformadas em uma escala numérica de 1 a 4 valores, os estilos de enfrentamento (coping) adoptados por pessoas com câncer. Subescalas, utilizadas pelos autores da metodologia: 1. Fighting spirit; 2. helpless/hopless; 3. Anxiouspreoccupation; 4. fatalistic; 5. Avoidance(WATSON et al., 1988; WATSON; GREER; BUSS, 1989; WEINMAN; WRIGHT; JOHNSTON, 1995). Existem outras escalas construídas sobre isso, “Escala de Ajuste Mental ao Câncer de um Familiar (EAMC – F)”, e foram criadas com o objetivo de permitir uma aplicação mais ampla (SANTOS; RIBEIRO; LOPES, 2006).

Na versão do questionário, que concebemos, optou-se pormanter as mesmas 40 questões, que, após tradução e adaptação semântica, não eram mais direcionadas diretamente ao câncer, masà doença em geral. Assim, as respostas ao questionário,organizadas dessa forma, permitirão, mantendo as mesmas escalas e perguntas, em cada dimensão da MAC, pela reformulação psicosemântica das questões, designar efetivamente os fatores psicológicos de adaptação comportamental à doença.

Na pesquisa realizada por Pereira (2013) as escalas assumem a seguinte designação:

  1. Predisposição psicológica ativa-combativa à adaptação comportamental à doença (figthingspirit);
  2. Predisposição psicológica de desânimo/desespero da adaptação comportamental à doença (helpless/hopeless);
  3. Predisposição psicológica de preocupação ansiosa com a adaptação comportamental à doença (anxiouspreoccupation);
  4. Predisposição psicológica fatalista da adaptação comportamental à doença (fatalist);
  5. Predisposição psicológica de evasão/evasão defensiva da adaptação comportamental à doença (avoidance).

Nas variantes de resposta, foi realizado um reajuste semântico, para tornar os espaços semânticos mais equitativos, trazendo as distâncias da escala numérica da unidade para a unidade: 0 a 5. O objetivo do reajuste das perguntas e do reajuste das variantes de resposta foi criar condições para que o reflexo psicosemântico e ressonância das questões, na consciência avaliativa do sujeito, levassem à atualização das predisposições psicológicas reais, características da própria pessoa na qualidade da personalidade/individualidade, que determinarão formas específicas de adaptação comportamental (ajuste)  à doença em geral; para o quanto os pacientes com câncer direcionarão seus atos psicológicos ao câncer, mesmo que não mencionados nas questões, pois é a patologia atual; da mesma forma, este princípio se aplicará ao diabetes mellitus, quanto a qualquer outra doença: aguda ou crônica (PEREIRA, 2013).

QUESTIONÁRIO DE LOCUS CONTROL (NIKIFOROV, 1989)

Questionário construído por Nikiforov (1989) no contexto geral das questões relativas aos determinantes do controle humano. O questionário é composto por 20 questões: 10 sobre controle externo e 10 sobre controle interno. Após ser traduzida e semanticamente adaptada e orientada à saúde e à doença como objetos de estudo do controle impresso pelo sujeito, estabeleceu-se a escala de medição de 0 a 5, cujas variantes significam: 0 – Discordo totalmente; 1 – Concordo pouco; 2 – Concordo moderadamente; 3 – Concordo bastante; 4 – Concordo muito; 5 – Concordo plenamente.

RESULTADOS

CARACTERIZAÇÃO CLÍNICA DA DINÂMICA DA PATOLOGIA “DIABETES MELLITUS”.

Gráfico 1 – Distribuição dos participantes pelos dois tipos clínicos de diabetes mellitus.

Fonte: F. Oliveira Pereira, 2021.

No contingente de diabetes mellitus da investigação há 6 participantes (12%)sofrendo de diabetes do tipo 1 e 44 participantes (88%) com diabetes tipo 2, com predominância quantitativa muito maiordeste último tipo; que encontra correspondência com relatórios em outras investigações (IDF, 2017; SILVA, 2010; WHO, 2018).

Gráfico 2 – Distribuição por faixas etárias em relação à atribuição do diagnóstico de diabetes mellitus.

Fonte: F. Oliveira Pereira, 2021.

Faixa etária do diagnóstico de diabetes: [14 – 71 anos], M = 42,00; DP = 14,42.

Faixa etária em que o diabetes foi diagnosticado: 10 – 20 anos à5 (10%); 21 – 30 anos à8 (16%); 31 – 40 anos à10 (20%); 41 – 50 anos à12 (24%); 51 – 60 anos à12 (24%); 61 – 71 anos à3 (6%).

A distribuição mostraque em 74% dos pacientes com diabetes mellitus o diagnóstico foi estabelecido após os30 anos; portanto, apenas 26% estavam abaixo dessa idade. No entanto, acontece que 10% são menos de 20 anos. Nesta investigação há 6 pacientes diagnosticados com diabetes mellitus tipo 1; este é o tipo que geralmente aparece muito cedo, resultante da carga genética-constitucional familiar, provavelmente coincidindo com 10% da faixa etária entre 10 e 20 anos e sendo corroborada por dados publicados em outras investigações semelhantes (FRAGUAS; SOARES; BRONSTEIN, 2009; OLIVEIRA; VENCIO, 2014; IDF, 2017; SILVA, 2010; WHO, 2018).

Os resultados confirmam que o aparecimento do diabetes mellitus tipo 2 acontece muitas vezes mais tarde; em uma idade adulta já consolidada e como consequência de um estilo de vida onde erros são encontrados relacionados ao excesso de alimentação e também ao sedentarismo e atividade física insuficiente (IDF, 2017; WHO, 2018).

Gráfico 3 – Distribuição relacionada aos anos de duração da patologia em participantes com diabetes mellitus.

Fonte: F. Oliveira Pereira, 2021.

Anos de duração do diabetes, desde que começou até ao momento da investigação: 1 – 10 anos à 9 casos (18%); 11 – 20 anos à 18 casos (36%); 21 – 30 anos à11 casos (22%); 31 – 40 anos à6 casos (12%); 41 – 51 anos à6 casos (12%).

No maior número de participantes diabéticos (36%) a doença tem duração entre 10 e 20 anos, e em 58% dos participantes a duração da patologia está dentro da faixa de 10 a 30 anos. Curiosamente há6 (12%) participantes em que a duração se enquadra na faixa de 40 a 50 anos; fato que indicia que os sujeitos com diabetes tipo 1, porque esse tipo, segundo a literatura (FRAGUAS; SOARES; BRONSTEIN, 2009; OLIVEIRA; VENCIO, 2014; IDF, 2017; SILVA, 2010; WHO, 2018), surge muito cedo, o mais provável é estar na infância ou na adolescência.

Gráfico 4 – Distribuição dos participantes com diabetes mellitus, relacionada à faixa etária de início da medicação.

Fonte: F. Oliveira Pereira, 2021.

Faixa etária de iniciação à medicação para a patologia diabética: 14 – 20 anos à3 casos (6%); 21 – 30 anos à9 casos (18%); 31 – 40 anos à11 casos (22%); 41 – 50 anos à12 casos (24%); 51 – 60 anos à12 casos (24%); 61 – 71 anos à3 casos (6%).

O gráfico 4 mostra os participantes que iniciaram a medicação mais cedo; alguns antes dos 20 anos, talvez na adolescência, e outros um pouco mais tarde, mas antes dos 30 anos. Infere-se que parte deles são sujeitos com diabetes tipo 1 (FRAGUAS; SOARES; BRONSTEIN, 2009; OLIVEIRA; VENCIO, 2014). No entanto, 54% dos participantes iniciaram a medicação após os 40 anos. Isso parece sugerir que o diabetes mellitus, nestes casos, resulta de excessos alimentares; os pacientes, em seu passado, têm conduzido um estilo de vida malcuidado no que respeita à contenção e seleção na ingestão de certos alimentos e também à tendência para um estilo sedentário no qual a atividade física é escassa.

Gráfico 5 – Distribuição dos participantes com diabetes mellitus tendo em vista a percepção de que a patologia influenciou as condições de vida.

Fonte: F. Oliveira Pereira, 2021.

A questão de saber se a doença mudou a sua vida, 9 (18%)dos participantes consideram que não e 41 (82%) considera que sim, que mudou sua vida.

O gráfico5 mostra claramente que mais de ¾ dos participantes com diabetes mellitus consideram que a doença teve um impacto negativo em suas vidas, causando alterações; isso é corroborado pela literatura publicada sobre o impacto psicológico e social do diabetes na vida das pessoas (DOWLING, 2018; LOURENZO, 2018; SILVA, 2010).

ESPECIFICIDADES DE PREDISPOSIÇÕES PSÍQUICAS NA ADAPTAÇÃO COMPORTAMENTAL À DOENÇA DE DIABETES MELLITUS

Tabela 2 – Diferenças nas predisposições psíquicas de enfrentamento da condição patológica entre o “grupo de pessoas com diabetes mellitus” e o “grupo de controle”.

Grupos

 

 

 

 

 

Categorias

 

Grupo Diabetes Mellitus

 

 

Grupo Controle

Diferencial Critério t Student Nível de significação estatística p <
M

 

DP M DP
Predisposição ativa-combativa 48,46

 

16,65 52,38 11,31 -3,92 -1,28 0, 204
Predisposição ao desespero / desamparo 12,18

 

7,24 10,76 8,24 1,42 0,96 0,339
Predisposição à preocupação ansiosa 6,74

 

4,73 5,90 4,45 0,84 0,93 0,356
Predisposição fatalista 8,96

 

3,85 8,38 4,22 0,58 0,68 0,496
Predisposição de evasão 0,60 0,98

 

1,16 1,44 -0,56 -2,09 0,045
Predisposição ao controle interno 28,06

 

8,17 29,58 4,36 -1,52 -1,34 0,186
Predisposição ao controle externo 20,82

 

6,10 18,68 4,35 2,14 1,76 0,083

Fonte: F. Oliveira Pereira, 2021.

Os resultados rabiscados na tabela 2 mostram que as pessoas que sofrem de diabetes mellitus, em comparação com o grupo controle, composto por pessoas que não sofrem dessa patologia, apresentam predisposições psicológicas mais expressivas ao desespero, desamparo, preocupação ansiosa, fatalismo e controle externo das situações; e menos expressivo para o combate ativo da doença, de evasão da doença e também no controle interno das situações. No entanto, a diferenciação estatisticamente significativa existe apenas na menor predisposição psicológica para evitar a doença (p < 0,045) e tende a exercer controle externo em situações relacionadas à doença (p < 0,083).

A ausência de diferenciação estatisticamente significativa nas demais predisposições psíquicas do processo de adaptação comportamental à doença pode resultar de diversas explicações: algumas relacionadas à sensibilidade da metodologia utilizada e outras às especificidades inerentes à percepção do estado psicológico interno e às limitações à qualidade de vida impostas pela idade e outras questões emocionais da vida em pessoas que já podem sofrer também de maleitas, que têm repercussões na autoavaliação de suas condições atuais.

Tabela 3 – Diferenças nas repostas da adaptação comportamental ou de enfrentamento à doença entre o “grupo diabetes mellitus” e o “grupo controle”.

Grupos

 

 

 

 

 

Questões

 

Grupo   Diabetes Mellitus

 

Grupo Controle

Diferencial Critério t Student Nível de significação estatística p <
M

 

DP M DP
1 3,36 1,65 2,64 1,46 0,72 2,25 0,029
2 1,24 1,30 1,30 1,26 -0,06 -0,21 0,830
3 1,18 1,50 2,04 1,51 -0,86 -3,08 0,003
4 3,14 1,42 3,48 1,12 -0,34 -1,19 0,237
5 0,74 1,42 1,18 1,38 -0,44 -1,42 0,161
6 1,48 1,74 3,06 1,05 -1,58 -5,67 0,000
7 1,24 1,31 1,10 1,31 0,14 0,49 0,623
8 2,38 1,86 2,46 1,34 -0,08 -0,24 0,806
9 0,36 0,89 0,64 0,77 -0,28 -1,73 0,090
10 2,60 1,73 2,42 1,27 0,18 0,52 0,600
11 3,14 1,53 2,38 1,35 0,76 2,61 0,012
12 1,90 1,97 2,12 1,76 -0,22 -0,63 0,527
13 2,26 1,94 3,14 1,39 -0,88 -2,37 0,021
14 2,74 1,92 1,82 1,36 0,92 2,62 0,012
15 2,34 1,46 2,22 1,54 0,12 0,39 0,698
16 3,20 1,55 3,66 0,71 -0,46 -1,85 0,069
17 1,26 1,38 0,66 0,91 0,60 2,54 0,014
18 2,86 1,74 3,06 0,93 -0,20 -0,70 0,485
19 1,96 1,67 2,16 1,23 -0,20 -0,78 0,435
20 1,52 1,60 2,46 1,18 -0,94 -3,22 0,002
21 0,90 1,35 1,58 1,31 -0,68 -2,51 0,015
22 1,66 1,90 1,18 1,28 0,48 1,42 0,159
23 1,10 1,70 0,78 1,41 0,32 1,05 0,296
24 3,06 1,57 2,22 1,07 0,84 3,43 0,001
25 0,36 1,08 0,24 0,55 0,12 0,70 0,485
26 2,38 1,79 2,78 0,84 -0,40 -1,48 0,144
27 2,02 1,73 1,16 0,97 0,86 2,79 0,007
28 3,18 1,79 3,50 1,11 -0,32 -1,15 0,255
29 2,96 1,62 2,16 1,53 0,80 2,48 0,016
30 1,42 1,41 1,04 1,29 0,38 1,46 0,150
31 3,18 1,42 3,54 0,61 -0,36 -1,73 0,089
32 2,32 1,63 3,64 1,20 -1,32 -4,28 0,000
33 0,60 0,98 1,16 1,44 -0,56 -2,05 0,045
34 2,08 1,54 1,50 1,44 0,58 1,90 0,062
35 0,56 1,14 0,42 0,70 0,14 0,80 0,424
36 0,32 1,11 0,42 0,78 -0,10 -0,56 0,574
37 0,84 1,54 0,48 0,86 0,36 1,48 0,143
38 0,62 1,14 0,84 0,95 -0,22 -1,18 0,242
39 2,72 1,57 2,84 0,86 -0,12 -0,50 0,620
40 2,96 1,55 2,02 1,37 0,94 3,42 0,001

Fonte: F. Oliveira Pereira, 2021.

A tabela 3mostra os valores alcançados em cada questão isolada do questionário de adaptação à doença. Na análise de diferenciação dois critérios de seleçãosão adoptados simultaneamente: a diferenciação estatisticamente significativa e a existência de pelo menos 0,5 valor de diferença na respectiva resposta dada pelos dois grupos de pesquisa.

As escalas relatadas na tabela 2 correspondem a tipos de predisposição psíquica para adaptação comportamental à doença. O tipo “ativo-combativo” consiste em quase metade das perguntas no respectivo questionário (19), e em 6 delas há maior expressividade no grupo de diabetes mellitus e em 13 a maior expressividade está no grupo controle. Com diferenciação estatística significativa existem 5 questões em que há maior expressividade no grupo de diabetes e 7 questões no grupo controle. No entanto, há 1 questão de maior expressividade no grupo de diabetes e 6 questões no grupo controle, mas sem diferenciação estatisticamente significativa. O tipo “desespero / desamparo” consiste em ¼ das questões do questionário (10), com 6 maior expressividade no grupo de diabetes e 4 no grupo controle; no entanto, no grupo de diabetes 2 questões têm diferenças estatisticamente significativas e 4 não, e no grupo controle apenas 1 questão com e 3 sem diferenças estatísticas significativas. O tipo de “preocupação ansiosa” consiste em 1/8 dasperguntas no questionário (5), com maior expressividade em 3 no grupo de diabetes e 2 no grupo controle; apenas 1 pergunta em cada um dos grupos apresenta diferença estatisticamente significativa e 2 questões no grupo de diabetes e 1 no grupo controle não. O tipo “fatalista” também com 1/8 das questões do questionário (5), em que 3 apresentam maior expressividade no grupo diabetes, onde 1 tem 1 diferença estatisticamente significativa e 2 não; no grupo controle as 2 questões mais expressivas também não possuem diferenças estatisticamente significativas. O tipo “predisposição de evasão” é apenas 1 questão, que é mais expressiva no grupo controle e com diferença estatisticamente significante.

Este quadro distributivo da predominância de expressividade nas questões constituintes de cada escala / tipo de predisposição psíquica à adaptação comportamental à doença revela a existência de uma tendência de equilíbrio em que a expressividade das questões em ambos os grupos é anulada, criando condições matemáticas estatísticas para que não haja diferenças significativas no nível da escala, embora existam questões onde a significação existe.

Tabela 4 – Análise de fatores de perguntas no questionário de predisposição psíquica ao enfrentamento da patologia no grupo controle.

Fatores

 

 

Questões

 

I

 

II

 

III

 

IV

 

V

 

VI

 

VII

 

VIII

 

IX

1 0,413 0,456 -0,411
2 0,784
3 0,889
4 0,563 0,580
5 0,545 -0,404
6 0,698 0,509
7 0,635 0,571
8 -0,490 0,430
9 0,713 -0,564
10 0,505 0,526
11 0,666 0,526
12 -0,717
13 0,705 -0,532
14 0,642 0,447
15 0,833 0,423
16 0,726 0,403
17 0,780 -0,400
18 0,680 -0,464
19 0,625 -0,483 0,411
20 0,811
21 0,797
22 0,709
23 0,756
24 -0,443
25 0,476
26 -0,593
27 0,497 -0,532
28 0,558 0,512
29 0,553 -0,515
30 0,875
31 0,722
32 -0,549
33 0,432 0,708
34 0,620 -0,419
35 0,881
36 0,869
37 0,892
38 0,730
39 0,445 -0,420
40 0,727

Fonte: F. Oliveira Pereira, 2021.

A análise de fatores no grupo controle forma 9 fatores, com a concentração predominante de coeficientes nos fatores 1 e 2 e se adotarmos o critério de 0,45 como limite mínimo de seleção para manter as questões inseridas em determinado fator, e 32 das 40 questões são distribuídas pelos fatores 1 e 2, 22 no fator 1 e 10 no fator 2. Portanto, apenas 8 questões são distribuídas com maior índice de correlação entre os 7 fatores restantes.

O fator 1 consiste em quase todas as questões relacionadas a 3 escalas: Predisposição psíquica de desespero e desamparo; Predisposição psíquica para preocupação ansiosa; Predisposição psíquica de natureza fatalista. Todas as perguntas relatadas neste fator mostram um sinal positivo de saturação; o que demonstra que as três escalas têm o mesmo senso de orientação e direção de variabilidade.

O fator 2 consiste em aproximadamente metade das questões relacionadas à escala de predisposição psíquica ativa-combativa e também por 2/5 questões de predisposição psíquica fatalista; no caso da primeira escala as perguntas têm um sinal positivo de saturação e na segunda escala as questões têm um sinal negativo de saturações. Significa que quanto maior a expressividade da predisposição ativa-combativa menor a tendência ao desespero, desamparo, fatalismo.

O fator 3 é dominado pela questão única da escala de predisposição psíquica de evasão, e há também uma questão da escala ativa-combativa, outra da escala do desespero / desamparo e outra da escala fatalista. Apenas este último tem um sinal de saturação negativa e os outros têm um sinal positivo; indicando que a maior expressão de evasão, que é acompanhada por ação ativa-combativa e desespero / desamparo, mas sentindo que a tendência fatalista é menor.

O fator 4 consiste em quatro questões de predisposição ativa-combativa, 3 com cargas negativas e 1 questão positiva e 1 de predisposição à preocupação ansiosa de sinal positivo, revelando que a preocupação ansiosa é evidente com a inatividade para combater a doença.

O fator 5 é composto por três questões de predisposição ativa-combativa com cargas positivas e 1 questão de predisposição ao desespero / desamparo de sinal negativo, mostrando que esses sentimentos tomam conta das pessoas menos ativas para enfrentar a doença.

O fator 6 consiste basicamente em 2 questões de ação ativa-combativa de sinais positivos relevantes.

O fator 7 tem apenas uma questão de predisposição à preocupação ansiosa. O fator 8 também tem apenas uma questão da escala ativa-combativa de carga negativa. O fator 9 tem 1 questão de sinal negativo ativo-combativo, mas não atinge o limiar do critério de seleção relevante adoptado.

Tabela 5 – Análise fatorial das perguntas no questionário de predisposição psíquica aoenfrentamento da patologia no grupo de Diabetes Mellitus.

Fatores

 

 

Questões

 

I

 

II

 

III

 

IV

 

V

 

VI

 

VII

 

VIII

 

IX

1 0,453 -0,478
2 -0,627
3 0,400 0,520
4 0,598
5 0,401
6 0,460
7 -0,527
8 0,409 0,441
9 -0,619
10 0,480 0,530
11 0,478
12 0,588 -0,497
13 0,559
14 0,605
15 0,513
16 0,525
17 -0,634
18 0,653
19 0,517 0,546
20 0,386 0,650
21 0,428 0,457
22 -0,402 0,420 0,522
23 0,649
24 0,403 0,467
25 -0,726 0,479
26 0,599 0,452
27 0,450 0,700
28 0,453 -0,498
29 -0,386 0,374
30 -0,446 0,579
31 0,787
32 0,420 0,422
33 0,396 -0,367
34 0,364 0,477
35 -0,603 0,445
36 -0,695 0,485
37 -0,626 0,614
38 0,449
39 0,558 0,471
40 0,475 0,414

Fonte: F. Oliveira Pereira, 2021.

A análise de fatores no grupo Diabetes Mellitus é representada em 9 fatores, sendo verificada a concentração predominante de coeficientes nos fatores 1 e 2 e com base no critério de 0,45 como limiar mínimo de seleção para manter as questões inseridas em um determinado fator é verificada que 24 das 40 questões são distribuídas pelos fatores 1 e 2, sendo 18 no fator 1 e 6 no fator 2. Portanto, há 16 questões que são distribuídas com o maior índice de correlação entre os 7 fatores restantes.

As 18 questões do fator 1 são distribuídas por 6 relacionadas à predisposição de desespero/desamparo, 2 da predisposição de preocupação ansiosa e 1 de predisposição fatalista, todas com cargas de fator de sinal negativo, e 9 questões de predisposição ativa-combativa com cargas positivas. Essa distribuição de cargas de fatores mostra que quanto menor a ação combativa do sujeito como personalidade, mais surge a manifestação de sentimentos de desespero, desamparo, preocupação ansiosa e fatalista.

O fator 2 consiste em 7 questões de predisposição ativa-combativa, 3 de desespero/desamparo, 2 de preocupação ansiosa e 1 fatalista; todos com cargas positivas do fator. Manifestações que revelam paradoxalidade por terem estatisticamente o mesmo significado, mas em termos psicológicos são indicativas de funcionalidade fenomenológica contrária.

O fator 3 para o limiar de saturação de fatores 0,45 envolve apenas uma questão relacionada a sentimentos de desespero/desamparo, mas se colocarmos o limiar em 0,40 já existem 3 questões nesta escala, mais 1 de perturbação ansiosa e 1 de ação ativa-combativa.

O fator 4 consiste em 4 questões relevantes no limiar acima de 0,45, 2 relacionadas à predisposição de desespero/desamparo, 1 de preocupação ansiosa e 1 ativo-combativo; todas com carga positiva.

O fator 5 consiste em 3 perguntas: 2 da predisposição do desespero/desamparo, em que uma tem um sinal positivo e a outra negativo, e 1 questão de predisposição ativa-combativa. O fator 6 também é formado por 3 questões: 1 de predisposição fatalista de sinal positivo, mas se o limiar fosse 0,40 seriam 2 perguntas, e 2 questões de predisposição ativa-combativa, uma de sinal positivo e outra de sinal negativo.

O fator 7 contém apenas 2 perguntas: 1 da predisposição de preocupação ansiosa com carga positiva e 1 da predisposição ativa-combativa da carga negativa.

O fator 8 tem apenas 1 questão relacionada à predisposição à preocupação ansiosa; no entanto, no nível 0,396 a única questão relacionada à predisposição psíquica de evasão pode ser inserida.

O fator 9 consiste em 2 perguntas: 1 da predisposição fatalista e outra da predisposição do desespero/desamparo, mas com base no limiar acima de 0,40.

Em ambos os grupos, diabetes mellitus e controle, a concentração de perguntas com cargas de saturação significativas é registrada nos fatores 1 e 2, e nos demais fatores há alta dispersão de perguntas, com muito poucas em cada um dos fatores subsequentes. As diferenças são evidenciadas no maior número de questões relacionadas aos fatores 1 e 2 no grupo controle em comparação com o grupo de diabetes mellitus. As cargas de fatores são todas positivas no grupo controle, independentemente da orientação fenomenológica das manifestações psíquicas, mas no grupo de diabetes mellitus, especialmente no fator 1, questões relacionadas a predisposições de desespero /desamparo, ansiosas e fatalistas têm cargas negativas e questões de predisposição ativa-negativa têm cargas positivas. Uma condição que se inverte no fator 2 em que as cargas positivas estão no grupo do diabetes em todas as predisposições e no grupo controle são negativas nas predisposições de desespero/desamparo e fatalistas e positivas nas predisposições ativas-combativas e de evasão. Dados que confirmam que há maior homogeneidade no grupo controle, orientação comum dos participantes nas respostas que dão às perguntas e maior dispersão no grupo de diabetes mellitus.

DISCUSSÃO

Nos participantes com diabetes mellitus, a distribuição, em percentagem, pelos tipos 1 e 2 de diabetes, a idade de início da doença, as faixas etárias com maior prevalência que têm mais pacientes, a idade de iniciação à medicação e o alto percentual de pacientes que admitem ter repercussões negativas do diabetes em suas vidas são corroboradas por dados existentes em outras investigações semelhantes (DOWLING, 2018; FRAGUAS; SOARES; BRONSTEIN, 2009; IDF, 2017; LOURENZO, 2018; OLIVEIRA; VENCIO, 2013; SILVA, 2010; WHO, 2018).

No grupo de diabetes mellitus, comparado ao grupo controle, há maior expressividade das predisposições psíquicas ao desespero/desamparo, preocupação ansiosa, fatalista e também ao controle externo das situações; e menor para o combate ativo e prevenção da doença e também no controle interno das situações. No entanto, a diferenciação estatisticamente significativa existe apenas na menor predisposição psicológica para evitar a doença e tende a exercer controle externo em situações relacionadas à doença, e a diferenciação estatisticamente significativa nas demais predisposições psíquicas de adaptação comportamental à doença está ausente. Condição que pode ocorrer devido a várias causas: uma delas pode ser a sensibilidade fraca da metodologia utilizada para detectar diferenças significativas exatamente na população que sofre de diabetes; outra pode surgir das especificidades inerentes à percepção do estado psicológico interno e às limitações à qualidade de vida impostas pela idade e outras questões emocionais da vida das pessoas em geral, que em idades mais avançadas também podem sofrer de doenças que tenham repercussões na autoavaliação de suas condições atuais.

Nesta investigação concreta, as respostas às 40 questões que são constituintes do questionário de predisposição psicológica no processo de adaptação comportamental à doença revelam diferenças estatisticamente significativas em 19 questões entre o grupo de pacientes com diabetes mellitus e o grupo controle. No entanto, a maior expressividade das médias aritméticas ocorre tanto em um grupo quanto no outro grupo. Portanto, quando as questões são agrupadas em uma determinada escala direcionada à medição quantitativa, a diferenciação estatisticamente significativa que existia individualmente nas questões acaba sendo anulada nas escalas, devido à instabilidade da orientação expressiva que apresenta alto nível de variabilidade oscilatória. Para fins de interpretação, é relevante notar que 12 das 19 perguntas com diferenças estatisticamente significativas fazem parte da escala de predisposição psíquica ativa-combativa; 3 de 10 da predisposição do desespero / desamparo; 2 de 5 da predisposição de preocupação ansiosa; 1 de 5 da predisposição fatalista e 1 de 1 da predisposição de evasão. Outro aspecto relevante é que em uma escala quantitativa de respostas [0 – 5] das 40 questões que fazem parte do questionário, apenas em 11 delas, foram alcançadas médias aritméticas de expressividade superiores a 3 pontos, mas nunca ultrapassando 3,6 pontos; das 19 questões com diferenças estatisticamente significativas, há 8 nessas condições. Valores demonstrativos da maioria dos participantes em ambos os grupos de pesquisa fixarem as respostas variando com mais frequência entre discordar, concordar pouco e concordar moderadamente e com menos frequência nas respostas que concordo bastante, muito ou totalmente. Dados que mostram que há muitas semelhanças em termos de respostas registadas pelos participantes de ambos os grupos de pesquisa. A explicação de haver mais semelhanças que diferenças relacionadas com o sofrimento infligido pelo diabetes mellitus em pacientes serem idênticos ao que as pessoas do grupo controle sentem devido aos males físicos e ao mal-estar psíquico característicos do processo natural de envelhecimento, acentuando-se em idades mais avançadas, em que a percepção de qualidade de vida é imputada à ação de fatores negativos relacionados essencialmente à panóplia dos males físicos adquiridos ao longo da vida, especialmente a dor física.

Essas evidências sugerem recomendar em futuras investigações desse tipo, por um lado, restringir o questionário apenas a questões em que diferenças significativas foram encontradas, por outro lado, buscando reformular algumas das questões constituintes do questionário e suas escalas, podendo haver relevância na consolidação da mesma orientação semântica das questões para que uma maior expressividade em cada escala seja tendência em um grupo de participantes da mesma categoria.

A análise de fatores em cada um dos grupos de participantes da pesquisa demonstra separadamente maior homogeneidade e consistência distributiva das cargas de saturação no grupo controle do que no grupo diabetes mellitus.

Ao adotar o critério que define o limiar mínimo para validação de coeficientes acima de 0,45, no grupo controle, nos fatores 1 e 2, há concentração de32 das 40 questões do questionário e no grupo diabetes mellitus estão concentradas apenas 24 de 40, dispersando-se 8 questões pelos 7 fatores restantes no primeiro grupo e, o dobro delas (16) no segundo grupo. Significa que no grupo controle há tendência semelhante de responder entre os participantes mais estáveis e coerentes e no grupo de diabetes mellitus há maior variabilidade, o que resulta das características individuais de cada paciente, e a predisposição psíquica para se adaptar à doença é específica de pessoa para pessoa de acordo com a percepção da doença e suas consequências, resultante da forma individual em que interpreta e entende a entidade da qual sofre.

Nos participantes do grupo controle, embora se reconheça que há questões individuais, sua percepção de como se adaptaria às circunstâncias da doença tende a ser semelhante com um grau significativo de homogeneidade. Recorde-se que no grupo controle o fator 1 é composto de correlações positivas, abrangendo no mesmo sinal a predisposição psíquica ativa-combativa e os componentes que tecnicamente deveriam ter uma tendência inversa como são as predisposições de desespero / desamparo, preocupação ansiosa e fatalista.

No contingente do diabetes mellitus o fator 1, embora inclua as mesmas predisposições, mas estes mostram seu antagonismo quando o ativo-combativo tem um sinal positivo e os outros têm um sinal negativo, demonstrando que são agrupados por afinidades decorrentes de sua especificidade determinante e oposta em sua funcionalidade interativa, mudando em direções recíprocas inversamente. Questão que aprova e justifica em termos de funcionalidade mental a necessidade de intervenção psicológica em planos psicoterapêuticos, psicoadaptivo e psicoeducativo, a fim de potencializar os fatores de combate ativo da doença e desmobilizar mecanismos que trazem uma percepção negativa e desproporcional de si mesmo, da doença e de suas possíveis consequências, impedindo o paciente de ter sentimentos de desespero e desamparo, que evidencia preocupações excessivamente ansiosas e não ver sua vida como um fatalismo, que não tem solução possível, nem mesmo remediação.

No grupo controle o fator 2 é claramente dominado por elementos de predisposição ativa-combativa, embora também insira 2 elementos de sinal negativos da predisposição fatalista, reforçando a convicção de que quanto mais pessoas percebem sua vida como fatalismo, elas também tendem a ser menos ativas no combate às situações desagradáveis em que estão envolvidas e vice-versa. No grupo diabetes mellitus o fator 2 também consiste em elementos da predisposição ativa-combativa, mas menor do que no grupo controle, sendo o maior volume no fator 1; além disso, ainda possui 2 elementos da predisposição desespero / desamparo e 1 elemento de preocupação ansiosa, mas o sinal é positivo em todos os elementos, demonstrando que é uma extensão da predisposição ativa-combativa do fator 1.

Os poucos elementos que entram na composição dos fatores 3, 4, 5, 6, 7, 8, 9 do grupo controle revelam que seu significado para a interpretação das predisposições psíquicas é escasso. Esses mesmos fatores no grupo do diabetes mellitus contêm o dobro dos elementos do grupo controle, mostrando maior dispersão e demonstrando que nesses participantes há um alto grau de variabilidade individual, uma vez que um papel decisivo na definição de predisposições psíquicas à doença decorre, em grande parte, das características individuais da personalidade dos pacientes que influenciam sua forma de apreensão e percepção do que lhes acontece.

CONCLUSÃO

A distribuição dos participantes pelos tipos 1 e 2 de diabetes, a idade do início da doença, as faixas etárias com maior prevalência, a idade de iniciação à medicação e o alto percentual de pacientes que admitem que há repercussões negativas do diabetes em suas vidas são corroboradas por outros estudos semelhantes.

No grupo de diabetes mellitus, comparado ao grupo controle, há maior expressividade das predisposições psíquicas ao desespero/desamparo, preocupação ansiosa, fatalista e controle externo das situações; e menor para o combate ativo e evasão da doença e também no controle interno das situações. A ausência de diferenciação estatisticamente significativa em 5 predisposições psíquicas de adaptação comportamental à doença de um total de 7 é explicada por questões relacionadas à sensibilidade da metodologia e com especificidades inerentes à percepção do estado psicológico interno e às limitações à qualidade de vida impostas pela idade e outros aspectos emocionais da vida das pessoas.

Nesta investigação há diferenças estatisticamente significativas em metade das 40 questões que compõem o questionário de predisposição psicológica no processo de adaptação comportamental à doença, mas o sentido de maior expressividade é variável, nem sempre no grupo diabetes mellitus. Pode existir uma diferenciação estatística significativa apenas nas questões, mas quando são agrupadas em escalas, ela acaba sendo anulada, devido à variabilidade da orientação da expressividade das questões instáveis e inconsistentes.

As respostas estabelecidas pelos participantes de ambos os grupos de pesquisa mostram muitas semelhanças, sendo muito mais do que as diferenças. O sofrimento psíquico em pacientes com diabetes mellitus é idêntico ao sentido pelas pessoas do grupo controle devido aos males físicos e ao mal-estar psíquico característico do processo natural de envelhecimento, acentuando em idades mais avançadas, em que a percepção de qualidade de vida é atribuída à ação de fatores negativos essencialmente relacionados à panóplia dos males físicos adquiridos ao longo da vida, especialmente a dor física.

No grupo controle há maior homogeneidade e consistência distributiva das cargas de saturação de fatores do que no grupo de diabetes mellitus. No primeiro grupo, os fatores 1 e 2, para coeficientes de validação superiores a 0,45, 80% das questões estão concentradas, enquanto no segundo grupo a concentração é de apenas 60%. Significa que no grupo controle a tendência de resposta semelhante é mais estável e coerente do que no grupo de diabetes mellitus, no qual há maior variabilidade, resultante das características individuais de cada paciente.

A predisposição psíquica para se adaptar à doença é específica e varia de pessoa para pessoa de acordo com a percepção da doença e suas consequências, decorrentes da forma individual como interpreta e entende a entidade da qual sofre. No grupo controle, a percepção de como se adaptariam às circunstâncias da doença tende a ser semelhante com um grau significativo de homogeneidade. Predisposições psíquicas ativas-combativas, desespero/desamparo, preocupação ansiosa e fatalista são integrados em um único sentido. No grupo do diabetes mellitus, as mesmas predisposições psíquicas do processo de adaptação à doença, a integração se estabelece em uma relação de antagonismo em que o funcionalismo ativo-combativo assume direção inversa aos outros. Uma questão que justifica em termos de funcionalidade mental a necessidade de intervenção psicológica em planos psicoterapêuticos, psicoadaptativo e psicoeducativo, a fim de potencializar os fatores de combate ativo da doença e desmobilizar mecanismos que trazem uma percepção negativa e desproporcional de si mesmo, da doença e suas possíveis consequências, impedindo o paciente de ter sentimentos de desespero e desamparo, que evidencie preocupações excessivamente ansiosas e não veja sua vida como um fatalismo, que não tem solução possível, nem mesmo remediação.

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[1] Doutorado, Mestrado E Licenciado Em Psicologia Clínica E Da Saúde.

Enviado: Outubro, 2020.

Aprovado: Julho, 2021.

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