REVISTACIENTIFICAMULTIDISCIPLINARNUCLEODOCONHECIMENTO

Distorções cognitivas frente ao medo de dirigir: um estudo de campo em residentes de Macapá-AP

DOI: ESTE ARTIGO AINDA NÃO POSSUI DOI
SOLICITAR AGORA!
5/5 - (3 votes)

CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

BARBOSA, Mônica Sena [1], MARTINS, Maria das Graças Teles [2], FERRAZ, Meiry da Conceição Lima [3]

BARBOSA, Mônica Sena. MARTINS, Maria das Graças Teles. FERRAZ, Meiry da Conceição Lima. Distorções cognitivas frente ao medo de dirigir: um estudo de campo em residentes de Macapá-AP. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 06, Vol. 02, pp. 47-68. Junho de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

O medo auxilia os seres humanos na proteção contra algo que possa indicar perigo e pode dificultar a vida de diversas pessoas. Na Terapia Cognitivo Comportamental (BECK, 2013), o modo como o indivíduo estrutura as experiências, determinam como se sente e se comporta. A Terapia Cognitivo Comportamental contribui com técnicas cognitivas que reestruturam os pensamentos e técnicas comportamentais com iniciativas de exposição frente ao ato de dirigir. A metodologia utilizada foi a pesquisa de campo quanti-qualitativa, exploratória e indutiva. Contou-se com amostra de 10 indivíduos de diferentes bairros da cidade de Macapá- AP sendo (90%) do sexo feminino que verbalizaram terem medo de dirigir, independentemente de ter ou não a Carteira Nacional de Habilitação, sendo o foco o medo de dirigir. As técnicas usadas foram: um questionário sócio demográfico com 10 (dez) perguntas fechadas; Questionário de Distorções Cognitivas; Driving Cognitions Questionnaire (DCQ) e um roteiro de entrevista com 5(cinco) perguntas abertas. A análise dos dados foi realizada pelo pacote estatístico SPSS v.22. Os resultados apontam que as principais distorções são: Distorção cognitiva E se? (M=3,70;DP=1,075); Catastrofização (M=3,50;DP=1,269); Leitura Mental (M=3,00;DP=1,333);Pensamento Dicotômico (M=2,80;DP=1,135) Rotulação (M=2,50;DP=1,713) e Conclusões Precipitadas (M=2,50; DP=1,716). O estudo identificou as principais distorções cognitivas/erros cognitivos em pessoas com medo de dirigir e as contribuições da Terapia Cognitivo Comportamental. Ao identificar as distorções é um avanço para entender as cognições dos indivíduos com medo de dirigir. A relevância deste estudo traz um incentivo a futuras pesquisas sobre o tema, com uma amostra maior de dados, para se identificar quais distorções existentes levando a um maior entendimento das cognições de pessoas com medo de dirigir.

Palavras-Chaves: Medo de dirigir, distorções cognitivas, terapia cognitivo-comportamental.

INTRODUÇÃO

Na atualidade, o ato de dirigir tornou-se uma questão de necessidade para os indivíduos, ao proporcionar maior independência e locomoção no cotidiano, tornando-se um fator fundamental na área profissional, familiar e social. Entretanto, para inúmeras pessoas dirigir é extremamente difícil e, por conseguinte, causa medo e ansiedade que podem bloquear o indivíduo a realizar tal ação. Dessa maneira, a percepção errônea acerca de determinadas situações prejudica a vida das pessoas acometidas pelo medo de dirigir. Com base neste entendimento, foi levantada a hipótese de quais seriam as principais distorções cognitivas/erros cognitivos em pessoas com medo de dirigir.

Para tanto, apresentamos uma breve compreensão sobre a Terapia Cognitiva, objeto de pesquisa deste artigo, que teve início na década de 60, tendo como autor principal Aaron Beck, é considerada como uma psicoterapia breve, estruturada, orientada ao presente e direcionada a resolver questões atuais, modificar os pensamentos e os comportamentos disfuncionais (BECK, 2013). Esta modalidade de terapia é útil no tratamento de pessoas com medo de dirigir e várias pesquisas confirmam a eficácia da Terapia Cognitivo Comportamental.

Assim, registra-se que vários fatores relevantes nos motivaram a realizar este artigo, dentre eles: a insuficiência de estudos que focam diretamente esta temática, tornando-se importante para a comunidade acadêmica, contribuir para um maior conhecimento a respeito das distorções cognitivas/erros cognitivos apresentados por pessoas com medo de dirigir baseado na abordagem Cognitivo Comportamental e facilitar um melhor entendimento sobre os principais erros de pensamento e apresentar a compreensão da Terapia Cognitivo Comportamental. Diante disso, surgiram as seguintes questões: Quais são as principais cognições distorcidas /erros cognitivos presentes em pessoas com medo de dirigir? De que forma a Terapia Cognitivo Comportamental contribui para o tratamento? E para dar conta destes questionamentos apresentam-se os objetivos deste estudo: Analisar e identificar as principais distorções cognitivas/erros cognitivos presentes em pessoas com medo de dirigir; constatar os sintomas físicos e psicológicos apresentados pelas pessoas com medo de dirigir.

Para tanto, desenvolve-se este artigo apresentando inicialmente a metodologia utilizada, posteriormente a análise dos dados coletados.

METODOLOGIA

Foram utilizadas 2 (duas) monografias, 1 (uma) dissertação, 3 (três) livros, 7 (sete) capítulos de livros e 2 (dois) artigos relacionados às palavras-chaves: “Medo de Dirigir”, “Distorções Cognitivas” e “Terapia Cognitivo-Comportamental”, disponíveis em base de dados, SCIELO, PEPSIC, BVSaúde.

Trata-se de uma pesquisa de campo quantitativa e qualitativa, exploratória e indutiva. Com base em Gil (2008), este autor apresenta que a pesquisa busca aprofundar questões propostas, testando um único grupo ou comunidade e possui flexibilidade, podendo no decorrer da pesquisa, os objetivos serem reformulados. A pesquisa quantitativa busca mensurar os dados obtidos em números e utiliza técnicas estatísticas enquanto a qualitativa almeja verificar a relação da realidade com o objeto de estudo, obtendo interpretações de uma análise indutiva por parte do pesquisador.

Para este mesmo autor, as pesquisas exploratórias têm como objetivo desenvolver, esclarecer e modificar conceitos e ideias, proporcionando uma visão geral acerca de determinado fato para torná-lo mais explícito. O método indutivo parte do particular para o geral, ou seja, parte da observação de fatos ou fenômenos cuja causa se deseja conhecer para que se possa comparar com a finalidade de descobrir as relações existentes entre eles.

AMOSTRA

Contou-se, neste estudo, com a amostra de 10 indivíduos sendo (90%) do sexo feminino que verbalizaram ter medo de dirigir, independentemente de ter ou não a Carteira Nacional de Habilitação, sendo o foco o medo de dirigir. Cabe ressaltar que 70% dos indivíduos não dirigem; 60% dos participantes possuem Carteira de Habilitação. Suas idades variavam de 20 a 54 anos (M = 33,40; DP = 12,851). O nível de escolaridade predominante foi o Ensino Superior Incompleto (60%). Observou-se que 50% dos participantes tiveram algum trauma de direção.

PROCEDIMENTO DE COLETA DE DADOS

Foram adotados os seguintes procedimentos: Contato com os participantes por meio da ligação telefônica, identificadas anteriormente que verbalizaram ter medo de dirigir, pertencentes a diversos bairros da cidade de Macapá- AP. A pesquisa foi realizada em uma sala da Faculdade Estácio de Macapá. Por envolver seres humanos, a pesquisa segue as exigências éticas e científicas fundamentais conforme determina a Comissão Nacional de Ética e do Conselho Nacional de Saúde, conforme Resolução 466/12 a qual determina as diretrizes e normas regulamentadoras de pesquisas envolvendo seres humanos. Portanto, as identidades dos participantes da pesquisa foram preservadas, conforme a Resolução 466/12. Foi lido e explicado o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido que foi posteriormente assinado pelos participantes.

Assim, realizou-se uma breve Psicoeducação sobre a Terapia Cognitivo Comportamental já que os participantes foram da população em geral. A psicoeducação refere-se à uma breve explicação da chamada tríade cognitiva que vem com o pressuposto de que a avaliação que o indivíduo faz a respeito de uma determinada situação influencia no sentimento e por conseguinte no seu comportamento. As entrevistas foram gravadas para uma maior fidedignidade dos discursos, respeitando a ética dos mesmos. As entrevistas levaram aproximadamente 1 (uma) hora.

Para a coleta de dados, utilizou-se 4 (quatro) instrumentos, a saber: um questionário sociodemográfico com 10 (dez) perguntas fechadas que contemplam: idade; sexo; escolaridade; profissão; estado civil; número de pessoas que moram com você. Sendo as seguintes questões: Você dirige? Você possui veículo? Tem Carteira Nacional de Habilitação? Passou por alguma situação traumática relacionada ao comportamento de direção?

Para maior fundamentação quantitativa deste questionário, utilizou-se outro instrumento o Questionário de Distorções Cognitivas CD-Quest de Irismar Reis de Oliveira que tem como objetivo auxiliar no monitoramento das distorções cognitivas por meio de 15 tipos, avaliando por meio de duas dimensões, a intensidade e a frequência com que as distorções cognitivas estão presentes, propiciando uma avaliação objetiva das mesmas. Cabe mencionar que ao preencherem o Questionário de Distorções Cognitivas, foi mencionado aos participantes que ao lerem os exemplos contidos, que se reportassem para a situação do trânsito, mais precisamente, ao medo de dirigir tendo em vista que o questionário contempla exemplos aleatórios de situações para cada tipo de distorção cognitiva. Pois, segundo Gil (2008, p.121), o questionário é uma “técnica de investigação composta por um conjunto de questões que são submetidas a pessoas com o propósito de obter informações”.

O terceiro instrumento utilizado diz respeito ao Driving Cognitions Questionnaire (DCQ) Ehlers (2007) apud Gomes (2014) uma escala composta por 20 (vinte) itens que avalia as cognições e os pensamentos relacionados à fobia de dirigir e encontra-se estruturado em 03 (três) fatores, quais sejam: Fator 1 – Cognições relativas ao medo de ter um ataque de pânico (itens 3,6,10,12,14,16,18); Fator 2 – Medo de sofrer um acidente de trânsito (itens1,4,7,9,11,13,19); Fator 3 – Medo da crítica social (itens 2,5,8,15,17,20), avaliando a ocorrência das cognições de acordo com as categorias: (0) “nunca”; (1) “raramente”; (2) “metade das vezes”; (3) “frequentemente”; (4) “sempre”. (CARVALHO et al, 2011).

Como último instrumento, foi utilizado um roteiro de entrevista composto por 5 (cinco) perguntas abertas para que se possa ter conhecimento de modo mais detalhado, sobre a história do indivíduo acerca do medo de dirigir. Dentre as perguntas tem-se: Desde quando você percebeu o medo de dirigir? Conte um pouco desde quando começou; Como sua família reage diante do seu medo de dirigir? Quais são os seus pensamentos, sentimentos e comportamentos diante do medo de dirigir? O que você pensa a respeito das críticas recebidas de outros motoristas? Qual a sua opinião a respeito das pessoas que possuem medo de dirigir? Gil (2008, p.109) aponta que a entrevista é uma “técnica em que o investigador se apresenta frente ao investigado e lhe formula perguntas, com o objetivo de obtenção dos dados que interessam à investigação”. Mais precisamente, é um modo de diálogo assimétrico, em que uma das partes busca coletar dados e a outra se apresenta como fonte de informação.

RESULTADOS

Após coletados, os dados foram tabulados no pacote estatístico software SPSS v.22 (Statistical Package for the Social Sciences) para que fossem realizadas análises descritivas, a fim de identificar e analisar as principais distorções cognitivas /erros cognitivos presentes em pessoas que apresentam medo de dirigir. No que diz respeito à parte qualitativa recorreu-se na análise das respostas obtidas com a entrevista.

Os resultados obtidos na pesquisa de campo realizada foram os seguintes: Foi verificada uma maior incidência sobre o medo de dirigir em indivíduos do sexo feminino (90%) e (10%) do sexo masculino na cidade de Macapá-Amapá. Neste aspecto, Bellina (2012) aponta que a maior incidência de pessoas que procuram atendimento nas clínicas são mulheres, contendo mais de 95% dos pacientes, o que corrobora com os resultados da presente pesquisa.

O gráfico 1 demonstra que 70% dos participantes da pesquisa não dirigem e 30% dirigem. Neste sentido, pode-se mencionar que os participantes alegam que não dirigem, pois, a sociedade de modo geral tem preconceito e isto acaba influenciando para que evitem dirigir mesmo que tenham carteira de habilitação. Em alguns contextos culturais, dirigir é fundamental ao desempenho do papel de um adulto e nesses casos, o medo pode vir a se tornar um problema importante na vida das pessoas (HAYDU, 2014).

Gráfico 1: Porcentagem dos participantes

Fonte: Dados de Pesquisa. Macapá/AP. 2016.

Com base neste gráfico, percebe-se que o ato de dirigir é tido como algo necessário na atualidade devido à pressa presente no mundo laboral. A sociedade acredita que dirigir é algo simples e as pessoas que apresentam o medo são incompreendidas e julgadas pela sociedade (CRISTO, 2012).

O gráfico 2 vem complementar informações sobre estes grupos de pessoas, vislumbra que 80% dos participantes não possuem veículo e 20% possuem. Cabe ressaltar conforme dados colhidos durante a entrevista que os participantes não possuem veículo não por questões financeiras, mas, pela insegurança e medo.

Gráfico 2: Porcentagem dos participantes que possuem e não possuem veículo

Fonte: Dados de Pesquisa. Macapá/AP,2016.

Percebe-se nas entrevistas que a maior parte dos participantes tem consigo o sentimento de vergonha pelo fato das outras pessoas não entenderem como o medo de dirigir inibe diversos âmbitos da vida.

Já o gráfico 3 demonstrou que 60% dos indivíduos pesquisados possuem a Carteira Nacional de Habilitação (CNH) e 40% não possuem.

Gráfico 3: Porcentagem dos participantes que possuem e não possuem CNH

Fonte: Dados de Pesquisa. Macapá/AP. 2016.

Deste modo, foi constatado que a maioria dos participantes que tiraram a carteira de habilitação relatou que foram obrigados por conta do trabalho.

A fim de compreender quais os fatores que levam ao medo de dirigir, buscou-se verificar se houve a vivência de alguma situação traumática com as pessoas entrevistas, assim, o gráfico 4 apontou que 50% dos participantes passaram por alguma situação traumática, relacionada ao comportamento de direção e 50% não vivenciaram algum tipo de trauma.

Gráfico 4: Porcentagem dos participantes que passaram por alguma situação traumática

Fonte: Dados de Pesquisa. Macapá/AP. 2016.

Neste gráfico registra-se que é um mito a ser desconstruído de que a pessoa que possui o medo de dirigir deveria ter passado por algum trauma relacionado ao ambiente de trânsito e por isso desenvolveu a fobia. Então, afirmamos conforme Suffert (2013) o medo de dirigir está muito mais ligado às crenças de pessoas que entendem o ato de dirigir como exposição ao veículo e como algo muito perigoso, principalmente quando são elas que estão ao volante.

Em complemento as informações coletadas, foi aplicado o Driving Cognitions Questionnaire (DCQ) que possibilitou compreender as principais distorções cognitivas/erros cognitivos.

Assim sendo, na tabela 1 mostra que a Média (M) e o Desvio Padrão (DP) obtidos, foram significativos para o objetivo do estudo e as principais distorções cognitivas/erros cognitivos estão relacionadas de modo decrescente às Distorções Cognitivas: 1. E se? “Fico me fazendo perguntas do tipo “e se acontecer alguma coisa? ” (M=3,70; DP= 1,075); 2. Catastrofização “Antecipo o futuro em termos negativos e acredito que o que acontecerá será tão horrível que eu não vou suportar” (M=3,50; DP= 1,269); 3. Leitura Mental “Acredito que conheço os pensamentos e intenções de outros (ou que eles conhecem meus pensamentos e intenções) sem ter evidências suficientes” (M=3,00; DP=1,333); 4. Pensamento Dicotômico “Vejo a situação, a pessoa ou o acontecimento apenas em termos de “uma coisa ou outra”, colocando-as em apenas duas categorias extremas em vez de em um contínuo” (M=2,80; DP=1,135); 5. Rotulação “6. Coloco um rótulo fixo, global e geralmente negativo em mim ou nos outros” (M=2,50; DP=1,713); Conclusões Precipitadas “Tiro conclusões (negativas ou positivas) a partir de nenhuma ou de poucas evidências que possam confirmá-las” (M=2,50; DP=1,716); cabe ressaltar que as distorções cognitivas/erros cognitivos muitas vezes estão sobrepostas, pois estão interligadas e uma contribui para o entendimento da outra.

Tabela 1Distribuição dos itens do CD-Quest em função da pontuação média, desvio padrão em uma amostra de 10 indivíduos da população geral, na cidade de Macapá-Amapá, no ano de 2016.
Distorções Cognitivas N Mínimo Máximo Média Desvio Padrão
1. E Se…? 10 2 5 3,70 1,059
2. Previsão do futuro 10 2 5 3,50 1,269
3. Leitura Mental 10 0 5 3,00 1,333
4. Pensamento Dicotômico 10 1 5 2,80 1,135
5. Rotulação 10 0 5 2,60 1,713
6. Conclusões Precipitadas 10 0 5 2,50 1,716
7. Afirmação do Tipo “deveria” 10 0 4 2,50 1,434
8. Abstração Seletiva 10 0 5 2,50 1,650
9. Desqualificação dos Aspectos Positivos 10 0 4 2,50 1,581
10. Culpar (outros ou a si mesmo) 10 0 5 2,40 1,647
11. Comparações Injustas 10 0 5 2,20 2,044
12. Supergeneralização 10 0 5 2,20 1,814
13. Ampliação/Minimização 10 0 4 2,10 1,729
14. Raciocínio Emocional 10 0 4 2,10 1,663
15. Personalização 10 0 5 1,80 1,687
N válido (de lista) 10

Fonte: Pesquisa de campo, 2016.

Sobre as demais distorções, cabe apenas mencioná-las para que se entenda o conceito, já que o foco desta pesquisa gira em torno das distorções contendo maior frequência entre os participantes da pesquisa. Quanto a isso, as distorções/erros cognitivos são tais como: Afirmações do tipo “deveria”, “Digo a mim mesmo que os acontecimentos, os comportamentos de outras pessoas e minhas próprias atitudes “deveriam” ser da forma que espero que sejam e não o que de fato são”. Abstração Seletiva em que a pessoa dá atenção em um ou poucos detalhes e não consegue ver o quadro inteiro; Desqualificação dos aspectos positivos, “Desqualifico e desconto as experiências e acontecimentos positivos insistindo que estes não contam”. Culpar (outros ou a si mesmo), “Dirijo minha atenção aos outros como fontes de meus sentimentos e experiências, deixando de considerar minha própria responsabilidade; ou, inversamente, responsabilizo-me pelos comportamentos e atitudes de outros”. Comparações injustas, “Comparo-me com outras pessoas que parecem se sair melhor do que eu e me coloco em posição de desvantagem”. Supergeneralização “Eu tomo casos negativos isolados e os generalizo, tornando- os um padrão interminável com o uso repetido de palavras como “sempre”, “nunca”, “todo”, “inteiro”, etc”. Ampliação/Maximinização “Avalio a mim mesmo, os outros e as situações ampliando os aspectos negativos e/ou minimizando os aspectos positivos”. Raciocínio Emocional “Acredito que minhas emoções refletem a realidade e deixo que elas guiem minhas atitudes e julgamentos”; e, Personalização “Assumo que comportamentos dos outros e eventos externos dizem respeito (ou são direcionados) a mim, sem considerar outras explicações plausíveis”. Verifica-se que todas as distorções cognitivas apresentadas são válidas já que estão interligadas. Importante mencionar que os resultados obtidos foram satisfatórios para a presente pesquisa.

Na tabela 2, verifica-se por meio da frequência, que as principais cognições relacionadas em pessoas que são acometidas do medo de dirigir se referem ao fator 2 que contempla o medo de sofrer um acidente de trânsito.

Tabela 2Distribuição dos itens do Driving Cognitions Questionnaire (DCQ) em ordem decrescente em função da pontuação média, desvio padrão em uma amostra de 10 indivíduos da população geral, na cidade de Macapá-Amapá, no ano de 2016.

N Mínimo Máximo Média Desvio Padrão
1. Eu vou machucar alguém 10 1 4 3,40 1,075
2. Não posso controlar quando os outros carros irão colidir com o meu 10 1 4 3,30 1,059
3. Eu irei tremer e não serei capaz de desviar 10 1 4 3,30 1,059
4. Eu causarei um acidente 10 1 4 3,20 1,135
5. Eu não serei capaz de me mover 10 0 4 3,10 1,370
6. Eu bloquearei o trânsito e as pessoas ficarão com raiva 10 0 4 3,10 1,287
7. Eu não serei capaz de pensar claramente 10 1 4 3,00 1,155
8. Eu perderei o controle e agirei de forma tola ou perigosa 10 1 4 3,00 1,054
9. Outras pessoas irão notar que eu estou ansioso 10 1 4 2,90 1,197
10. Não serei capaz de reagir rápido o suficiente 10 1 4 2,90 ,994
11. As pessoas irão pensar que eu sou um motorista ruim 10 0 4 2,80 1,317
12. Eu irei me machucar 10 1 4 2,50 1,269
13. As pessoas irão rir de mim 10 0 4 2,40 1,776
14. As pessoas que pegarem carona comigo irão se machucar 10 0 4 2,30 1,337
15. Eu ficarei atolado 10 0 4 2,30 1,337
16. Eu morrerei em um acidente 10 0 4 2,30 1,418
17. Meu coração vai parar de bater 10 0 4 2,20 1,619
18. Eu ficarei preso nas ferragens 10 0 4 2,20 1,398
19. Não serei capaz de recuperar o folego 10 0 4 2,20 1,476
20. Pessoas com quem me importo irão me criticar 10 0 4 2,20 1,317
N válido (de lista) 10

Fonte: Pesquisa de campo, 2016.

Ao analisar a Tabela 2 percebe-se que na afirmação 1. “Eu vou machucar alguém” (M= 3,40; DP= 1,075); 2. “Não posso controlar quando os outros carros irão colidir com o meu” (M= 3,30; DP= 1,059); 3. “Eu irei tremer e não serei capaz de desviar” (M= 3,30; DP= 1,059); 4. “Eu causarei um acidente” (M= 3,20; DP= 1,135); 5.“Eu não serei capaz de me mover” (M= 3,10; DP= 1,370); 6. “Eu bloquearei o trânsito e as pessoas ficarão com raiva” (M= 3,10; DP= 1,287). Estes resultados obtidos a partir do gráfico acima corrobora com autores que comentam como sendo o pensamento de sofrer um acidente de trânsito como o principal e tal pensamento é consenso entre os participantes da pesquisa.

DISCUSSÕES

O presente estudo buscou identificar as principais distorções cognitivas apresentadas por pessoas que apresentam medo de dirigir. Os resultados, acima descritos, mostraram-se satisfatórios para o objetivo proposto.

Conforme Barbosa (2007) para cada transtorno psicológico existem distorções cognitivas específicas relacionadas ao medo de dirigir. A exemplo na afirmativa: “vou bater em algum carro” se refere à Fobia específica. Já o pensamento: “pode acontecer um acidente” ilustra ao indivíduo que apresenta Transtorno de Estresse Pós-Traumático (TEPT). Sobre o pensamento: “os outros vão rir, vão ficar bravos, xingar, buzinar” acomete mais precisamente a quem possui Fobia Social. Na cognição: “vou me sentir mal no carro” refere-se ao Transtorno do Pânico. E em relação ao pensamento: “vou atropelar alguém”, é apresentado com frequência que apresenta Transtorno Obsessivo Compulsivo (TOC).

A seguir, encontram-se os resultados das entrevistas realizadas por meio de vinhetas dos discursos dos participantes.

PERCEPÇÕES SOBRE O MOMENTO EM QUE IDENTIFICARAM O MEDO DE DIRIGIR

Os participantes, ao serem indagados desde quando perceberam o medo de dirigir comentam: “Nunca tive interesse em dirigir, fui obrigada a tirar a habilitação por conta do emprego. Senti o medo quando eu fui obrigada a tirar a carteira, pois eu estudei tudo mais na hora eu esqueci de tudo, o pânico foi grande. ” (Informação Verbal)[4]. Neste caso da participante, não havia nenhuma vontade de dirigir e o fato de ter sido obrigada a tirar a carteira em virtude do emprego fez com que não ficasse motivada e resultou no seu medo de dirigir por uma insegurança. Cabe analisar que a falta de motivação não influencia diretamente para a manutenção do medo, onde foi verificado em uma das participantes que sempre tinha vontade de dirigir, mas que por um trauma começou a ter medo de dirigir.

Enquanto algumas pessoas apresentaram o medo pelo fato de serem obrigadas a tirar a carteira como no caso acima citado. Outra situação é de uma participante que traz a questão da saúde como um facilitador para o medo que possui, com a seguinte afirmativa: “Faz mais de 20 anos, por questão de saúde, eu tenho labirintite e não tenho noção de espaço, parei de dirigir por conta disso e como minha filha tirou a carteira eu me acomodei, e quando fui ver, o grande fluxo no trânsito, me espantei e já estava uma bola de neve. ” (Informação Verbal)[5].

Outros participantes abordaram que sempre tiveram vontade de dirigir, mas que ao passar por uma situação traumática desencadeou o medo. “Eu sempre tive vontade de dirigir, achei bonito mulher dirigir. Na minha casa, meu pai pediu que eu colocasse o carro para dentro da garagem, mas eu não sabia dirigir, ao invés de freiar eu acelerei o carro e ele estava na calçada e o carro bateu no muro do vizinho. Fiquei nervosa, pois o carro era novo. Eu fiquei mal por ele por ter batido, mesmo ele tendo dito que era só um bem material. Quando eu fiz a prova para tirar a carteira eu fui com medo, eu reprovei 3 vezes. Quando passei na prova, fiquei um tempão sem pegar no carro. Quando eu peguei, eu estanquei várias vezes e as pessoas ficavam buzinando. Faz 1 ano que aconteceu e eu já tinha dado entrada para tirar a carteira.” (Informação Verbal)[6]. Neste caso, a participante relata ter passado por um trauma e isto fez com que surgisse seu medo de dirigir.

Autores discutem que um dos mitos sobre quem tem medo de dirigir é de que elas passam por algum trauma. Alguns participantes mencionaram que não precisaram passar por um acidente para terem medo de dirigir. Conforme Barbosa (2007), tais casos existem e encontram-se ligados ao Transtorno de Estresse Pós Traumático (TEPT), e também, com quem apresenta ansiedade, como foi no caso da participante a seguir: “Vi que eu tinha medo antes de eu entrar na auto escola…eu já estava com episódio de ansiedade e de eu ficar mal.. Entrei na auto escola para ajudar meus pais… Mais eu sempre tive medo de pegar no carro pois sou muito lenta e tenho medo de fazer algo errado e causar um acidente.” (Informação Verbal)[7].

Importante mencionar que existem pessoas que simplesmente não vivenciaram nenhum acidente, porém, que carregam consigo o medo e pessoas que por algum trauma acabou desencadeando. Como se observa nesta afirmação: “Percebi o medo desde quando fui para minha aula prática na direção. Eu estava voltando o percurso… O carro chegou próximo ao cruzamento e parecia que o carro na outra via iria avançar só que eu tive a consciência que eu tirei tanto o pé do freio quanto do acelerador… Eu contei a ela que eu sofri um acidente e que foi bem parecido, e eu só não me machuquei sério pois eu estava de cinto, mas foi algo que me marcou, e parece que foi a partir desse momento, que parece quando eu tô dirigindo e tem muitos carros próximos de mim eu fico nervosa, ansiosa e eu penso que o carro vai avançar e que eu não vou saber como agir. (Informação Verbal)[8].

Outra declaração diz:“Passei na prova e fiquei dez anos sem dirigir. Só tirei a carteira pois eu fui obrigada por causa de um concurso público. Para mim antes de comprar o carro, por eu já possuir carteira e já ser habilitada a 10 anos antes de ter o carro, na minha cabeça o automóvel me serviria para eu ir para meu trabalho de uma forma tranquila e eu só precisaria de algumas aulas na auto escola para poder retornar a dirigir porque eu já estava 10 anos parada, sem dirigir. Quando comprei o carro, eu pensei que meus problemas já tinham acabado, mas na verdade, tinham iniciado porque me gerou muita angustia, apreensão, quando eu entrava no carro…eu dizia: meu Deus, e agora, o que é que vai ser. Será que eu vou conseguir dirigir?…eu comprei o meu carro igual o modelo do carro que eu aprendi na auto escola justamente para não ter problema… fiquei 2 a 3 meses com carro na garagem e eu ia trabalhar e estudar de ônibus, pois, eu entrava no carro mais eu ficava pensando e se o carro bater, e se eu for imprudente, e se acontecer algum acidente, e se eu me machucar ou algo catastrófico ocorrer”. (Informação Verbal)[9]. Nota-se que o discurso confirma o que na análise das distorções cognitivas apontam como sendo o pensamento “E se? o mais frequente apresentado por quem tem medo de dirigir e se alinham com os resultados tidos no Driving Cognitions Questionnaire (DCQ) onde foi apontado o medo de sofrer um acidente de trânsito como um dos principais pensamentos.

Para Melo (2014) as distorções cognitivas são erros de pensamento que geralmente interferem no momento de um indivíduo interpretar algum fato e assim, a pessoa formula um pensamento exagerado em algumas situações a respeito de algo que lhes causam temor. Neste caso, é consenso entre os participantes que todos possuem distorções cognitivas/erros cognitivos que interferem nas suas relações sociais.

REAÇÕES DA FAMÍLIA DIANTE DA SITUAÇÃO

Os participantes, ao serem indagados como a família reagiu diante do medo que apresentavam, relataram: Reagem naturalmente. Eles não me forçam e não me cobram de jeito nenhum. Meu marido reclama quando eu peço para sair e ele comenta que está cansado, mas é só naquele momento (Informação Verbal)[10]. “Reagem naturalmente. A família se detém no fato de eu ter tido labirintite e por isso alegam que entendem o medo (Informação Verbal)[11]. Deste modo, notou-se entre os discursos que a família alega compreender o medo, mas em situações que a pessoa necessita de alguém para dirigir, a família se contradiz.

“Ah, reagiram mal…diziam que era frescura, que tem que enfrentar pois perdemos o medo na prática (Informação Verbal)[12]. Outros relatos: “Me deixam a vontade para dirigir, eles sabem que eu tenho medo, mas, as vezes eles falam, ah, não vai com ela porque ela não sabe dirigir e ai já tenho medo. Eu sinto vontade de dirigir só que tem dias que eu tenho medo” (Informação Verbal)[13]. Dentre os participantes, percebeu-se o mesmo discurso de que mesmo que a família aparentemente entenda o medo que possuem, os participantes relatam que no fundo eles não compreendem e lhes julgam, pois em algumas ocasiões que necessitam usar o carro acabam mencionando que se soubesse dirigir poderia ir a determinado local.

É um consenso entre os participantes o sentimento de vergonha e comparação com outras pessoas quando muitas vezes a própria família acredita que é algo simples o ato de dirigir. “Meu pai acha que é besteira. Ele falava que meu medo era porque eu não tinha a prática. No geral eles acham que é um medo exagerado (Informação Verbal)[14].

Deste modo, vale compreender quais os pensamentos, sentimentos e comportamentos que permeiam a mente das pessoas que possuem medo de dirigir.

PENSAMENTOS, SENTIMENTOS E COMPORTAMENTOS DIANTE DO MEDO DE DIRIGIR

As abordagens cognitivas partem da ideia de que o comportamento é mediado por meio das cognições. E neste sentido, uma mesma situação pode ser analisada como agradável para uma pessoa, provocando um comportamento de aproximação, ou ameaçador para outra, causando ansiedade e esquiva. Deste modo, a abordagem tem como visão de que é a interpretação do evento que gera emoções e comportamentos e não o evento em si conforme Andretta (2011) e Wright (2008).

Assim, a referida participante conseguiu aos poucos amenizar sua percepção sobre a sua situação, pois, comenta que pedia a Deus para que parasse de pensar em situações negativas. “Eu tinha muitos pensamentos negativos e eu pensava que eu iria me machucar ou machucar alguém. Mais esses pensamentos eram repreendidos, eu dizia Deus me livre, afasta esse pensamento de mim. O pensamento ruim vinha, mas ao mesmo tempo eu pedia para Deus me afastar disso, pois, os pensamentos atraem. Os sentimentos eram de tristeza, angustia. Comportamento era de ficar nervosa, tremer… a fuga foi marcante, pois, tentei evitar ao máximo eu pude. ..mas por estar me causando um dano e me atrapalhando em vários aspectos profissional, estudante, eu disse que eu preciso mudar de atitude pois se eu não mudar vai me atrapalhar muito mais”. (Informação Verbal)[15]. A partir disto que muitos indivíduos acabam tendo percepções exageradas e distorções de pensamento por focarem nos aspectos negativos do trânsito. “São pensamentos catastróficos de que eu vou bater o carro, que eu vou virar o carro, que eu vou me machucar (Informação Verbal)[16].

Conforme o DSM-V (2014) o medo é uma resposta emocional diante de uma ameaça real ou imaginária, ou seja, o medo pode surgir em um indivíduo tanto se a situação é ameaçadora ou se foi em virtude de sua imaginação. Assim, conforme as entrevistas, se verificou nos participantes repetidas vezes exageravam em seus pensamentos sobre as situações do trânsito. Neste aspecto, os indivíduos já possuem a convicção de que vai ocorrer algo de ruim e por isso deve ir devagar e estar preparado quando ocorrer algo.

Outro pensamento relatado por outro participante aborda: “Eu penso que eu posso até sair com o carro, mas eu tenho medo de bater alguém, de causar um acidente. Meu medo maior nem é de atrapalhar um trânsito, mais sim de ferir ou machucar alguém, ou matar alguém Me sinto angustiada e com isso eu evito dirigir” (Informação Verbal)[17]. “Medo de bater as pessoas… Ando devagar para se caso acontecer algo, eu saiba como reagir de algum modo. Eu penso que vão buzinar e eu ficarei nervosa” (Informação Verbal)[18]. Observou-se que a participante apresenta bastantes distorções cognitivas do tipo “E se?”, distorção esta que foi a mais tida entre os participantes desta pesquisa.

Outro ponto importante se refere que os participantes que possuem entre si o sentimento de auto estima baixa, acredita-se que pelo fato do preconceito que a sociedade e a família possui. Tal como estas afirmativas: “Tenho a sensação de incapacidade, inferioridade… Penso porque fulano consegue e eu não consigo, fulano tentou e eu nem tentei. Vontade eu até tive mais não tive coragem. Hoje não entro no carro nem para ligar. Eu tenho vontade, mais meu medo é muito maior que a vontade” (Informação Verbal)[19]. “Pensamento de fuga sempre está presente” (Informação Verbal)[20].

Segundo Abreu (2004) e Wright (2008) a distorção cognitiva surge de erros decorrentes da organização cognitiva que são desenvolvidas pelas pessoas no decorrer de seu desenvolvimento, ou seja, cada indivíduo apresenta modos diferentes de pensar sobre determinada situação, pois depende da forma como vivenciou as situações durante a vida. Conforme Piccoloto (2003, p.116), as distorções cognitivas “ocorrem geralmente associadas e ou/ sobrepostas”. Assim, as distorções não devem ser vistas como isoladas, pois estão interligadas e uma contribui para o entendimento da outra. Neste aspecto, a distorção cognitiva tida com mais frequência pelos participantes da pesquisa foi a distorção do tipo “E se?”, no qual um dos participantes comentou: “e se o carro bater, e se eu machucar alguém?(Informação Verbal)[21]

O medo de dirigir apresentado pelos participantes evidencia um perfil psicológico que se assemelhou entre as entrevistadas na maneira de se sentirem, com destaque ao sentimento de incapacidade, inferioridade e dependência. Daí partiu-se para a terceira indagação, a fim de identificar como lidam com as críticas advindas de outros motoristas.

OPINIÃO DOS PARTICIPANTES A RESPEITO DAS CRÍTICAS RECEBIDAS DE OUTROS MOTORISTAS

Conforme dados colhidos da entrevista, pode-se comenta que os participantes entre si, abordam que o medo poderia até ser minimizado se as pessoas fossem mais compreensíveis pois, ao invés de ajudar acabam contribuindo para terem medo do trânsito. Como esta afirmativa: Eu acho que as críticas no trânsito são validas desde que sejam educadas, só que nunca recebemos uma crítica educada, então eu só ignoro… Eu penso que as pessoas poderiam ser um pouco mais compreensivas… Eles só ficam buzinando enlouquecidamente atrás da gente e isso me deixa bem mais nervosa… (Informação Verbal)[22].

É tão forte o discurso de que a sociedade é cruel com as pessoas que uma participante aponta que até quem não tem medo mais que acabou de tirar a carteira, em algum momento que começar a dirigir vai ter este sentimento de insegurança e nervosismo, já que as pessoas não possuem paciência e qualquer demora no ambiente de transito resulta em diversas buzinadas, e cortes na frente dos motoristas. Este relato sintetiza algumas situações de medo: “Eu acho que eu morria de vergonha. Até quem tira a carteira recente deve sentir o medo de voltar na ladeira, de fazer barbeiragem e medo da crítica a pessoa recebe com vergonha, pois, as pessoas são muito cruéis. Com o fluxo enorme e com as pessoas mal educadas é que eu não vou mesmo dirigir” (Informação Verbal)[23].“Penso que eles não possuem paciência. As pessoas deviam ter mais paciência. Tem muita pressa para nada” (Informação Verbal)[24].

Tais questionamentos desencadearam a necessidade de entender qual a percepção dos entrevistados frente a outras pessoas com o mesmo medo.

OPINIÃO DOS PARTICIPANTES A RESPEITO DAS PESSOAS QUE POSSUEM MEDO DE DIRIGIR

Os medos em algumas situações podem vir acompanhados de uma angústia e ansiedade, manifestando-se de modo exagerado. Segundo Queiroz (2013, p.19), a fobia de dirigir é um “problema pessoal e social grave, com várias consequências, incluindo a repercussão da carreira, constrangimento social e restrições”. Assim, pessoas que apresentam fobia de dirigir e tem inúmeras limitações a partir do momento que afeta diversos âmbitos da vida e, por conseguinte, o indivíduo perde sua autonomia de locomoção. Isto pode ser exemplificado quando um dos participantes comenta: “Surge o sentimento de inferioridade, incapacidade, e isso reflete na vida da pessoa como um todo, pois vários momentos que preciso, eu me sinto uma pessoa minimizada, desvalorizada, pois, eu sempre fico em segundo plano já que a pessoa tem seus compromissos… Eu me revolto, me chateio, fico com raiva. É um incomodo da minha própria incapacidade” (Informação Verbal)[25].

Outro sentimento vivenciado pelos participantes se refere à questão de se sentirem dependentes dos outros, limitados, presos por não poderem sair a determinado local e na hora que desejam, mesmo tendo automóvel próprio, e este, estando na garagem não conseguem dirigir conforme este relato: “Precisam de tratamento, pois, o medo impede de várias coisas…eu não tenho uma liberdade e autonomia que eu poderia ter se eu dirigisse. É chato ficar dependendo do outro… Precisam procurar ajuda e ter mais autoconfiança… se eu tivesse fazendo acompanhamento terapêutico no momento que estava tirando a carteira seria bem melhor e mais reconfortante para mim, pois seria uma pessoa que não iria me julgar e nem desmerecer o meu medo” (Informação Verbal)[26]. Conforme Andrade (2013) um dos principais causadores de ansiedade para a manutenção do medo de dirigir em pessoas é a própria sociedade. Conforme o autor:

O convívio cotidiano com riscos de vida tornou as pessoas mais alertas para poder identificar com rapidez o perigo e assim ter mais chances e sobrevivência. Dessa forma, a humanidade tem como herança os comportamentos de antecipação, preocupação constante com a integridade física, mantendo-os como se a sua preservação dependesse desse estado de constante alerta. Essa provável herança somada com a complexidade atual da civilização, com as mudanças cada vez mais numerosas e rápidas e com as alterações dos valores culturais acarretam novos conflitos e ansiedades para os indivíduos. O medo, na era tecnológica, não é dirigido apenas a um objeto real, mas a situações que são vivenciadas de maneira distorcida, despertando um medo exagerado do real (ANDRADE, 2013, p.18).

É percebido na maioria dos participantes justamente esse sentimento de inferioridade, ao relatarem estarem sempre em segundo plano, já que as pessoas possuem suas vidas independentes, tal como nesta afirmativa: “Que possuem o sentimento de inferioridade, de incapacidade e isso reflete na vida da pessoa como um todo, pois vários momentos que eu preciso, eu me sinto uma pessoa minimizada, desvalorizada, pois eu sempre fico em segundo plano pois as pessoas tem seus compromissos (Informação Verbal)[27].

Quando a pessoa tem medo e percebe que outras pessoas possuem, passam a olhar o trânsito de um modo diferente, pois conseguem compreender o medo, a angustia que outras pessoas podem estar vivenciando no trânsito, percebam neste relato: “Mais de ajuda mesmo.. .eu sei o quanto é difícil… quem não sabe e não teve é fácil de falar para outra pessoa… a pessoa tem que superar e tentar chegar na frente do medo e dizer que ele é menor do que seu medo… é colocar determinação na frente e dizer que vai conseguir dirigir… dirigimos por todos que estão no trânsito. Engraçado que o estresse é algo que me motiva para superar pois não vou querer ficar nessa situação sofrendo”. (Informação Verbal)[28].

Com base neste depoimento percebe-se que apresenta uma reação contraria ao seu medo, e a vontade de superá-lo, diante disto apresentamos as contribuições da Terapia Cognitivo Comportamental.

CONTRIBUIÇÕES DA TERAPIA COGNITIVO COMPORTAMENTAL NO TRATAMENTO

A Terapia Cognitivo Comportamental tem sua significativa contribuição pois utiliza de diversas técnicas tanto cognitivas que visam reestruturar os pensamentos das pessoas para que possam perceber o ato de dirigir de outro ponto de vista, quanto comportamentais por meio de iniciativas de exposição frente ao ato de dirigir que causa medo. Conforme Suffert (2013, p. 27) “as técnicas auxiliam os indivíduos a tomarem consciência do modo como se relacionam com o mundo externo e seu próprio mundo de sentimentos e pensamentos”. Assim, os indivíduos aos poucos possuem consciência de como o pensamento interfere no modo como sentimos e nos comportamos. Cabe a cada pessoa saber de suas limitações e suas potencialidades para que possam buscar tratamento.

Dentre as contribuições da terapia cognitivo comportamental, pode-se mencionar as técnicas comportamentais com objetivo de provocar no indivíduo exposição e enfrentamento frente ao medo. Dentre as técnicas tem-se o relaxamento que combinadas com a respiração, são significativas para questões de ansiedade para que promovam sensação de controle da situação. Assim, que apresenta medo de dirigir, apresenta uma elevada ansiedade e utilizando a referida técnica auxilia para uma diminuição e consequentemente no posterior enfrentamento do trânsito. Ressalta-se que existem outros relaxamentos que envolvem todas as partes do corpo como exemplo o relaxamento progressivo de Jacobson para casos em que o indivíduo está em um estado de muita tensão e que acaba dificultando suas atividades cotidianas.

Outra técnica se refere à exposição imaginária e/ou in vivo que auxilia na iniciação do enfrentamento da situação temida onde é pedido que o indivíduo imaginasse a situação temida como se realmente estivesse vivenciando para que aos poucos ele perceba que a ansiedade que antes sentia diminui e que pode enfrentar a situação na vida real. Aos poucos o indivíduo vai encarando a situação, de acordo com seu tempo. A técnica de dessensibilização sistemática perpassa pela imaginação, pois, o indivíduo primeiro deve se acostumar a imaginar a situação até que se chegue ao limite que tem que ir na prática para poder superar o medo de dirigir (WRIGHT,2008).

CONCLUSÃO

O presente estudo buscou identificar as principais distorções cognitivas/erros cognitivos presentes em pessoas com medo de dirigir. Os resultados aqui expostos se alinham com estudos anteriores que abordam como sendo a Catastrofização, Pensamentos Absolutistas, Supergeneralização e Abstração Seletiva como uma das distorções cognitivas mais frequentes, o que permite uma consistência dos resultados encontrados neste estudo. Relevante apontar que as distorções cognitivas muitas vezes estão sobrepostas e uma contribui para o entendimento da outra.

Diversos autores discutidos aqui como Barbosa (2007), Bellina (2012), Beck (2013) são unanimes em informar que as distorções cognitivas/erros cognitivos afetam a vida dos indivíduos a partir do momento que altera a percepção acerca das situações vivenciadas onde muitos pensamentos são exagerados, os sentimentos negativos intensificados e os comportamentos de fuga crescente diante da situação temida. Como limitação deste estudo, cita-se o pouco material disponível especificamente que demonstre as mais observadas distorções cognitivas/erros cognitivos para o medo de dirigir, dificultando ter uma maior discussão entre os autores. Portanto, é importante que mais pesquisas possam ser realizadas com intuito de buscar identificar com uma amostra maior tais distorções para que haja um melhor entendimento sobre as cognições de pessoas com medo de dirigir.

A pesquisa pode contribuir com a comunidade científica no que se referem às influenciar constantes pesquisas e observações do cotidiano das pessoas vítimas deste sentimento de medo, afim de buscar minimizar e auxiliar ao melhor tratamento deste problema, as distorções cognitivas, facilitando um melhor entendimento sobre os principais erros lógicos de pensamento. E, proporcionar aos profissionais da saúde, às instituições e aos acadêmicos, a possibilidade de acesso ao material e sua divulgação.

REFERÊNCIAS

AMERICAN PSYCHIATRIC ASSOCIATION. DSM-5: Manual diagnóstico estatístico de transtornos mentais. 5. ed. Porto Alegre: Artmed, 2014.

ANDRETTA, Ilana; OLIVEIRA, Margareth da Silva. História e Panorama Atual das Terapias Cognitivas do Brasil. IN: RANGÉ, Bernard Pimentel; FALCONE, Eliane Mary de Oliveira; SARDINHA, Aline. Manual Prático de Terapia Cognitivo Comportamental.1.ed.São Paulo: Casa do Psicólogo, 2011.Cap.1, p.15-35.

ANDRADE, Carlos Luiz Gonçalves. Medo De Dirigir Em Relação À Dependência Emocional. 2013, 53.p. Monografia de conclusão do Curso de Pós-Graduação “Lato Sensu” em Psicologia do Trânsito. Universidade Paulista/UNIP. Maceió, Alagoas. Disponível em:< http://netrantransito.com.br/arq_download/MONOGRAFIA%20CARLOS%20LUIZ%20GON_ALVES%20DE%20ANDRADE.pdf>. Acesso em: 25, mar,2016.

BARBOSA, Márcio, Englert; SANTOS, Manuela; WAINER, Ricardo. Terapia Cognitivo Comportamental e Medo de Dirigir IN: PICCOLOTO, Neri M; WAINER, Ricardo; PICCOLOTO, Luciane Benvegnú. Tópicos Especiais em Terapia Cognitivo Comportamental.1.ed.São Paulo: Casa do Psicólogo, 2007.Cap.5.p.141-160.

BECK, Judith S. Terapia Cognitiva Comportamental: teoria e prática. Tradução de Sandra Mallmann da Rosa; revisão técnica Paulo Knapp, Elisabeth Meyer, 2.ed. Porto Alegre: Artmed, 2013.

BELLINA, Cecilia. Dirigir Sem Medo.3.ed, São Paulo: Casa do Psicólogo, 2012.

CARVALHO, Marcele Regine. Driving Cognitions Questionnaire: estudo de equivalência semântica. Revista de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. 2011, p.35-42. Disponível em:< http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0101-81082011000100007>. Acesso em: 25, fev, 2016.

CRISTO, Fábio de. Psicologia e transito: Mais o que isso tem a ver? IN: CRISTO, Fábio de. Psicologia e transito: Reflexões para pais, educadores e futuros condutores. 1. ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2012.Cap 1, p.19-21.

EHLERS, A; Taylor, J. E.; Ehring, T; Hofmann, S. G.; Deane, F. P.; Roth, W. T.; Podd, J. V. (2007) The driving cognitions questionnaire: development and preliminary psychometric properties. Journal of Anxiety Disorders, 21(4), 493-509.

___________. Métodos e técnicas de pesquisa social. 6. ed, São Paulo: Atlas, 2008.

GOMES, Isabel Cristina Oliveira. Propriedades psicométricas da versão brasileira do “Driving Cognitions Questionnaire” – DCQ. Dissertação de Mestrado. 2014, p.1-100. Disponível em:< http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1677-04712015000300004 >. Acesso em 14, mar, 2016.

HAYDU, Verônica Bender et al. Facetas da Exposição In Vivo e por Realidade Virtual na Intervenção Psicológica no Medo de Dirigir. Revista Psico v. 45, n. 2, p. 136-146, abr/jun. 2014. Disponível em:< http://revistaseletronicas.pucrs.br/ojs/index.php/revistapsico/article/view/11442/11703 >. Acesso em:15, mar,2016.

MELO, Wilson Vieira. Estratégias Psicoterápicas e a terceira Onda em Terapia Cognitiva.IN: MELO, Wilson Vieira et al. Automonitoramento e Resolução de Problemas. 2.ed. Novo Hamburgo: Sinopsys, 2014.Cap.3, p.83-114.

_____________. IN: OLIVEIRA, Irismar Reis. Apêndice CD-Quest – Questionário de Distorções Cognitivas 2010.Cap.3, p.115-121.

MINISTÉRIO DA SAÚDE. Resolução Nº 466, de 12 de Dezembro de 2012. Disponível em:< http://bvsms.saude.gov.br/bvs/saudelegis/cns/2013/res0466_12_12_2012.html>. Acesso em:10, mar, 2016. p.1-12.

PICCOLOTO, Neri, Mauricio et al. Terapia Cognitivo Comportamental da Fobia Especifica. IN: CAMINHA, Renato M et al. Psicoterapias Cognitivo Comportamentais teoria e pratica.1.ed. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003. Cap.8,p.107-127.

QUEIROZ, Maiara Pondé. Representações Sobre Medo De Dirigir Por Mulheres, Em Santa Maria Da Vitória, Ba.2013.p.38 Monografia de conclusão do Curso de Pós-Graduação “Lato Sensu” em Psicologia do Trânsito. Universidade Paulista/UNIP. Disponível em:<http://netrantransito.com.br/arq_download/Monografia%20MAYARA%20PONDE.pdf>. Acesso em: 25, mar,2016.

SUFFERT, Cristiane Luise Cordal; FONSECA, Yvone Xavier Felipe. Medo de dirigir: Terapia cognitivo comportamental no tratamento da fobia de trânsito. São Paulo: Vetor, 2013.

WRIGHT, J.; BASCO, M.; THASE, M. Aprendendo a Terapia Cognitivo-Comportamental: um guia ilustrado.1.ed. Porto Alegre: Artmed, 2008.

4. Informação fornecida pelo participante 1 em Macapá-AP, em setembro de 2016.

5. Informação fornecida pelo participante 2 em Macapá-AP, em setembro de 2016.

6. Informação fornecida pelo participante 3 em Macapá-AP, em setembro de 2016.

7. Informação fornecida pelo participante 4 em Macapá-AP, em outubro de 2016.

8. Informação fornecida pelo participante 5 em Macapá-AP, em outubro de 2016.

9. Informação fornecida pelo participante 10 em Macapá-AP, em outubro de 2016.

10. Informação fornecida pelo participante 10 em Macapá-AP, em outubro de 2016.

11. Informação fornecida pelo participante 2 em Macapá-AP, em outubro de 2016.

12. Informação fornecida pelo participante 4 em Macapá-AP, em outubro de 2016.

13. Informação fornecida pelo participante 3 em Macapá-AP, em outubro de 2016.

14. Informação fornecida pelo participante 5 em Macapá-AP, em outubro de 2016.

15. Informação fornecida pelo participante 10 em Macapá-AP, em outubro de 2016.

16. Informação fornecida pelo participante 5 em Macapá-AP, em outubro de 2016.

17. Informação fornecida pelo participante 1 em Macapá-AP, em outubro de 2016.

18. Informação fornecida pelo participante 3 em Macapá-AP, em outubro de 2016.

19. Informação fornecida pelo participante 2 em Macapá-AP, em outubro de 2016.

20. Informação fornecida pelo participante 4 em Macapá-AP, em outubro de 2016.

21. Informação fornecida pelo participante 5 em Macapá-AP, em outubro de 2016.

22. Informação fornecida pelo participante 5 em Macapá-AP, em setembro de 2016.

23. Informação fornecida pelo participante 2 em Macapá-AP, em setembro de 2016.

24. Informação fornecida pelo participante 3 em Macapá-AP, em setembro de 2016.

25. Informação fornecida pelo participante 2 em Macapá-AP, em setembro de 2016.

26. Informação fornecida pelo participante 5 em Macapá-AP, em setembro de 2016.

27. Informação fornecida pelo participante 2 em Macapá-AP, em setembro de 2016.

28. Informação fornecida pelo participante 10 em Macapá-AP, em setembro de 2016.

[1] Graduanda do 10º semestre do Curso de Psicologia da Faculdade Estácio de Macapá. Artigo resultado do trabalho de conclusão de curso para Bacharel em Psicologia. Atualmente é Psicóloga no NASF (Núcleo Ampliado de Saúde da Família) no Município de Pedra Branca do Amapari. Pós-graduanda em Avaliação Psicológica.

[2] Profa. Orientadora Msc. em Saúde Coletiva e Ciências da Educação. Docente do Curso de Psicologia da Faculdade Estácio de Macapá.

[3] Graduanda do 10º semestre do Curso de Psicologia da Faculdade Estácio de Macapá.

Enviado: Dezembro, 2018.

Aprovado: Junho, 2019.

5/5 - (3 votes)

Uma resposta

  1. Parabéns Mônica Sena Barbosa, excelente Artigo, até hoje tenho medo de dirigir se vejo alguém a 50 m já entro em pânico.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado.

DOWNLOAD PDF
RC: 31403
POXA QUE TRISTE!😥

Este Artigo ainda não possui registro DOI, sem ele não podemos calcular as Citações!

SOLICITAR REGISTRO
Pesquisar por categoria…
Este anúncio ajuda a manter a Educação gratuita
WeCreativez WhatsApp Support
Temos uma equipe de suporte avançado. Entre em contato conosco!
👋 Olá, Precisa de ajuda para enviar um Artigo Científico?