O contemporâneo na psicanálise: Um mal-estar incontornável

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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/contemporaneo-na-psicanalise
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ARTIGO DE REVISÃO

PEREIRA, Marcio Garrit [1]

PEREIRA, Marcio Garrit. O contemporâneo na psicanálise: Um mal-estar incontornável. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 05, Vol. 10, pp. 34-45. Maio de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/contemporaneo-na-psicanalise, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/contemporaneo-na-psicanalise

RESUMO

Esse artigo tem como objetivo pontuar alguns possíveis fatores que corroboram com o mal-estar que a psicanálise vem enfrentando na contemporaneidade. Desde que a psicanálise foi criada, há mais de um século, trazendo grandes transformações na forma de entendimento da subjetividade humana, inúmeros outros conceitos foram estruturados, evidenciando se as bases teóricas deixadas por Freud e as influências culturais que direcionaram o trabalho do mesmo, ainda podem ser utilizadas como proposta psicoterapêutica.  Com isso, iniciaremos nossa pesquisa a partir do próprio Freud e seu trabalho datado de 1910 a respeito do futuro da psicanálise e lançaremos mão de psicanalistas pós freudianos preocupados em responder e entender tal temática; almejando assim apontar para alguns caminhos importantes para uma contínua conciliação da psicanálise com a cultura.

Palavras Chave: Contemporaneidade, crise, cultura, mal-estar, sujeito.

INTRODUÇÃO

Desde que a psicanálise foi criada, no século passado, inúmeras mudanças foram se estabelecendo no campo da saúde mental.  Freud consegue, após muitos anos de pesquisa e observação clínica, colocar os métodos analíticos como protagonista do cuidado neurótico em grande parte do ocidente.  Alguns conceitos desenvolvidos pelo mestre de Viena perduram até hoje: inconsciente, recalque, complexo de Édipo, etc. Acreditamos que seu trabalho se estrutura de forma impactante ao longo da história devido ao considerável volume de estudos em várias áreas do saber as quais Freud lança mão ao longo da vida, pois a psicanálise se relaciona com vários campos da pesquisa que se propõe a entender a vida humana.  Essa pluralidade torna a psicanálise mais marcante e independente, assim como mais pertencente à cultura de sua época.  E é esse pertencimento que aponta para a contínua meta de reestruturações em determinadas bases e/ou conceitos. De acordo com Rudge (2006) é premente a necessidade de os psicanalistas inserirem a psicanálise na contemporaneidade como forma de defesa das críticas corrosivas que a mesma recebe; como também pela urgência de um posicionamento frente ao sujeito que chega ao setting analítico na atualidade, permeado pelos sofrimentos que a cultura referenda.

Vê-se que é com o livro ‘A interpretação dos sonhos’ de 1900 que Freud marca o início da psicanálise como uma proposta científica para o cuidado das neuroses.  Antes mesmo de escrever essa obra essencial, antecessora de várias outras importantes descobertas, Freud já tinha uma vivência relativa nas pesquisas a respeito do sofrimento psíquico, importante marcar, com forte influência na cultura.  Fato este que começa a ser registrado a partir de 1908 em seu trabalho intitulado ‘A moral sexual cultural e o nervosismo moderno’. Desde então, a cultura se coloca como uma forte protagonista em vários conceitos na psicanálise. Para Freud (1908) a cultura se utiliza de repressões que inibem a satisfação do desejo humano e em troca não oferece o suficiente para uma satisfação substitutiva, o que nos leva ao entendimento de um mal-estar incontornável: o futuro da clínica psicanalítica e seus limites frente aos trâmites culturais.

Dessa forma, temos como objetivo pontuar o mal-estar contemporâneo que se apresenta na psicanálise, no que tange ao seu posicionamento atual enquanto proposta de trabalho psicoterápico frente aos sintomas atuais.  O que Freud apontava como necessário para o futuro cuidado da psicanálise?  O que muda na cultura obriga a psicanálise a complementações teóricas? O sujeito contemporâneo responde ao tratamento analítico, frente aos métodos propostos, da mesma forma que os pacientes respondiam no divã de Freud?  Essas são algumas das questões que tentaremos desenvolver a respeito do mal-estar a qual a psicanálise se posiciona em relação às mudanças culturais.

1. A PROPOSTA DE FREUD FRENTE AO FUTURO

Freud, em seu texto ‘As perspectivas futuras da terapia psicanalítica’ de 1910, que compõe uma de suas conferências, aponta sua preocupação sobre o futuro da psicanálise, suas técnicas frente ao tratamento das neuroses e os caminhos necessários para que a mesma se consolide. Dessa forma, Freud propõe três direções: “1) do progresso interno; 2) do acréscimo em autoridade; 3) do efeito geral de nosso trabalho.” (FREUD, 1910, p. 220).  De acordo com o pai da psicanálise, a primeira refere-se às pesquisas e teorias. Freud (1910), marca sua preocupação nesse tópico deixando claro, a importância de se avançar na teoria a partir da clínica, pois a mesma deveria priorizar a descoberta e superação das resistências apresentadas pelos analisados. Para Freud o progresso se daria aí, nessas descobertas, chegando a apontar para alguma possibilidade de cura quando afirmava que: “confiando, justificadamente, em que os complexos se entregarão sem dificuldade, tão logo as resistências sejam reconhecidas e eliminadas”. (FREUD, 1910, p. 223) Tais afirmações sobre o alcance da “verdade” em análise acabaria por não reverberar tão bem assim no futuro, coisa que abordaremos mais à frente.  Ainda sobre o progresso, Freud, além de apontar para as questões da observação clínica e teórica para fins de eliminação da resistência, também expunha sua preocupação sobre a figura dos analistas em relação à contratransferência e sua análise pessoal.  Fatores esses que ainda são de grande valia.  Sobre a segunda direção, a mesma aconteceria mediante o sucesso da primeira e desde já, Freud (1910) já expunha o papel revolucionário que a psicanálise apresenta em relação à sociedade, pois, de acordo com ele;

[…] transformamos o indivíduo em nosso inimigo, desvelando o que nele se acha reprimido, também a sociedade não pode responder com simpatia ao implacável desnudamento de seus danos e deficiências; pelo fato de destruirmos ilusões, acusam-nos de pôr em perigo os ideais. (FREUD, 1910, p.226)

Vê-se que Freud, ao apontar a terceira direção, demonstra a visão diferenciada da teoria psicanalítica em relação aos sintomatizados pelas neuroses; sua teoria se colocava a frente dos sintomas em uma posição contrária que perdura até os dias de hoje, afirma que nem sempre será vantajoso o combate ao sintoma. “Boa parte daqueles que hoje se refugiam na doença não suportaria o conflito, nas condições que viemos de supor, mas sucumbiria rapidamente ou causaria danos maior do que sua própria enfermidade neurótica.” (FREUD, 1910, p. 229)

Freud deixa três direções, sendo a primeira a preocupação com a observação clínica para o crescimento da teoria a ponto de conseguirmos anular as resistências e trazer o cessamento do sintoma, a segunda incita os analistas a se preocuparem com a contratransferência e sua análise pessoal e a última nos alerta para termos sempre em mente que nem sempre o combate ao sintoma neurótico pode ser a melhor saída.  Essas direções, apesar de terem sido escritas em 1910, (antes de muitos conceitos importantes como a pulsão de morte, afinal, se Freud fosse corrigir esse texto na década de 30 do século passado, não se sabe o que ele mudaria ou acrescentaria), são extremamente importantes para nos nortear na busca de algum entendimento a respeito do que aconteceu, realmente, nesse futuro já apontado por Freud.

2. O INÍCIO DO MAL-ESTAR NA CLÍNICA PSICANALÍTICA

Percebe-se que a psicanálise não é mais a protagonista dos discursos sobre a saúde mental na contemporaneidade.  Joel Birman é um dos psicanalistas que se dedicam a estudar o tema e algumas de suas pesquisas a esse respeito nos orientarão para expor esse mal-estar.  Segundo Birman (2005) a crise da psicanálise se encontra em vários lugares do mundo, principalmente nos Estados Unidos da América, além de alguns países da Europa e América latina.  Atribui-se essa crise aos processos de modernização do social nesses lugares citados.  “Pode-se anunciar uma crise da psicanálise na atualidade.” (BIRMAN, 2005, p.206) Essa condição de estranha na atualidade, data-se desde os anos 1980 na França e 1960 nos EUA e sendo assim se coloca como estranha no campo do social.

Vê-se, dessa forma, a necessidade de resumirmos o percurso da psicanálise no Brasil para tentarmos, com isso, uma melhor compreensão do quadro atual do mal-estar na psicanálise no país.  De acordo com Birman (2000) a psicanálise se encontra presente na cultura brasileira desde os anos 20 do século XX, mas apenas a partir da década de 50 que a mesma se institui de forma relevante no cenário cultural e na saúde mental. Dessa forma, a mesma se desenvolve como um instrumento viável em se articular com as principais questões subjetivas da população da época e com isso acaba por firmar sua marca indelével na cultura brasileira desde então.  Tem-se nos anos 80, o que se convenciona chamar de “cultura psicanalítica”, devido ao seu grande sucesso, ou seja, constitui-se um “ethos para a subjetividade sustentada em premissas e valores psicanalíticos.” (BIRMAN, 2000, p. 80) Tal fama, além de deixar firmado o papel da psicanálise como psicoterapia, também a articula de forma relativa com o discurso médico psiquiátrico, pedagógico e da saúde mental em geral; isso sem falar de sua presença constante na mídia.  Inicialmente a psicanálise se firmava apenas no eixo Rio de janeiro – São Paulo, em torno dos anos 80 a mesma já estava presente em quase todos os estados do Brasil.

De acordo com Birman (2000) é a partir dos anos 90 que a crise da psicanálise se apresenta no Brasil, 30 anos após se apresentar nos EUA e 20 anos após na França.  Tal crise se inicia com a crise econômica e consequentemente a queda do poder aquisitivo da classe média e logo após pela crescente busca pelas terapias medicamentosas e de curta duração. “Uma transformação radical de ordem antropológica se realizou nas últimas décadas, de maneira a produzir uma dissonância relevante entre a psicanálise e a ordem cultural da segunda metade do século.” (BIRMAN, 2000, p. 81)

Para Birman (2005) a preferência dos tratamentos psicofarmacológicos, as psicoterapias de curta duração, terapias de grupo, família, casal, o cognitivismo e as neurociências são algumas das protagonistas da crise anunciada.  Com isso a psicanálise vai perdendo seu lugar no campo das ciências humanas para outras teorias de cunho psiquiátrico e biológico.  Tal cenário coloca a psicanálise no centro de duas problemáticas segundo Birman:

Como se pode depreender, estamos no centro de duas problemáticas aqui em questão, isto é, o sujeito na modernidade e o sujeito à prova do social.  A indagação que se impõe é sobre o que se passou nesse conjunto de transformações cruciais, cuja resultante maior foi à perda de poder simbólico da psicanálise no campo dos saberes sobre o psíquico e no imaginário social da modernidade […] Pode-se vislumbrar, assim, duas faces de uma mesma problemática já que, pela primeira versão, pretende-se conferir à modernidade a posição de referência maior em torno da qual se inscreve a psicanálise, enquanto pela segunda verão trata-se de circunscrever a psicanálise como ponto de vista sobre a modernidade. (BIRMAN, 2005, p. 207-208)

Ainda sobre a busca desenfreada e preocupante de uma teoria de cunho psiquiátrico e biológico, Roudinesco (1999) aponta que é através desse campo de pesquisa que geneticistas almejam esclarecer os comportamentos humanos e é desde 1990 que há uma busca de mecanismos genéticos para explicar tudo: homossexualidade, violência, toxicomanias e psicoses.  Isso denota a redução da organização psíquica a essas teorias e a marginalização do conceito de sujeito ao colocar toda subjetividade ao mensurável e quantificável.  Com isso se alimenta a promessa da ausência da falta e o reducionismo da experiência humana.

3. A PSICANÁLISE E O MERCADO FRENTE À “CRISE DA FALTA”

De acordo com Birman (2005) essa perda de protagonismo da psicanálise também se dá pela modificação do sujeito frente à realização de seus desejos.  Este passou a se afastar, custe o que custar, de todo e qualquer desamparo que se coloca frente à impossibilidade de querer e não ter.  O autor afirma que a psicanálise promete um desfecho final a esse conflito de desejos e satisfações no início do percurso freudiano e isso acabou sendo o motivo principal de geração de fascínio da mesma por toda a modernidade.  O que nos leva a uma das direções, já apontadas inicialmente nesse artigo, na crença de que haveria a possibilidade de anular as resistências para controle do sintoma neurótico.  “A psicanálise pós-freudiana ainda insistiu nessa tecla, alimentando o lugar mítico da psicanálise na modernidade […] a promessa não se realizou.” (BIRMAN, 2005, p. 220) Com isso se evapora o discurso que até então fascinava os sujeitos.  As cenas incutidas no imaginário popular do paciente descobrindo um momento traumático e ficando totalmente curado ao levantar do divã, ainda persiste na contemporaneidade e muitos pacientes procuram psicanalistas acreditando que terão esse momento de glória ao lembrar e falar desse possível trauma.  Para Lacan (1993) a linguagem só produz mal entendido, não será a partir de uma fala linear e rotineira que o significado se mostrará tão perfeitamente como prometido.  Caberá ao analista possibilitar um cenário em que o analisando deverá se implicar com seus sintomas e a partir disso produzir um saber que o liberte.  Esse gozo, pertencente ao sintoma, é substituído pela verdade “não-toda”, pois a verdade total não pode ser dita porque provém do Real.  Isso situa a psicanálise na contramão da promessa da felicidade, da ausência da falta.  Caberá ao sujeito contemporâneo o “gozo-a-mais”.

Vê-se a necessidade de estender um pouco mais esse conceito de felicidade e cura, e dessa vontade arraigada no contemporâneo de não se deparar com a falta, que para a psicanálise é algo que permeia a estrutura psíquica.  Não ser possível a “entrega” da felicidade buscada no sujeito contemporâneo, não significa que o mesmo não irá melhorar em relação aos seus sintomas. Para Ocariz (2003) o domínio pulsional é que não é possível, isso demonstra a limitação do alcance do trabalho psicanalítico, o objetivo é moderar o sofrimento neurótico.  “Se o analista toma como finalidade da experiência analítica “curar”, não vai consegui-lo.” (OCARIZ, 2003, p. 153) Não se cura a castração, não se localiza o inconsciente e dali se extrai algo, o que se almeja é a decifração possível dos sentidos do sintoma.  É somente, a decifração, porque é inacabada, ao finalizar uma análise o sujeito não para de produzir os sintomas.  Esse processo deverá visar o restabelecimento do sujeito:

A psicanálise pode modificar a relação do sujeito com a pulsão, para que não seja uma relação de repressão, e possa se fazer consciente o que foi reprimido, dando outro destino a essa pulsão para que se satisfaça.  Para isso, o sujeito necessita liberar-se de sua carga egóica e superegóica, pois ele construiu, a partir de remendos identificatórios e de mandatos superegóicos, uma identidade que o perturba, que é fictícia, uma máscara que não o deixa ser ele mesmo […] A destituição das falsas identificações possibilita a emergência de seu próprio desejo. (OCARIZ, 2003, p. 155)

De acordo com Albuquerque (2010) a contemporaneidade vem exigindo dos psicanalistas a necessidade de desenvolver métodos para atender essas demandas do sujeito na atualidade, porém, faz-se um desafio que é tentar elaborar esses métodos “sem abandonarmos os princípios técnicos que fundam nossa disciplina, mas sem nos engessarmos ou permanecermos imitativos.” (ALBUQUERQUE, 2010, p. 22) A não estruturação de um método rígido, permite essa flexibilização aos analistas, o que é obvio, pois Freud (1908) deixa claro a necessidade de entender a cultura como geradora de sintomas, porém o desafio de conseguir explicar que em um setting analítico o futuro paciente não terá o que é prometido no discurso vigente, pode também ser inserido com um mal-estar.

Ficam conosco os que se identificam com o nosso modo de conversar e de pensar, e que passam a reconhecer e aceitar a realidade do sofrimento interior e a buscar o desenvolvimento emocional. Incluem essa experiência em suas vidas e vai se construindo a confiança no analista, no método e na prática psicanalítica, pois aos poucos vão se sentindo mais confortáveis dentro de si mesmos e começando a pensar por si próprios. (ALBUQUERQUE, 2010, p.24)

Birman (2005) insiste em marcar que é em cima da ilusão do cessamento do mal-estar que não só reduz a posição da psicanálise na cultura contemporânea, como também é por essa ilusão que outras linhas ditas psicoterápicas crescem.  “A psicofarmacologia, as neurociências e o cognitivismo vêm à cena para restabelecer a mesma crença e a ilusão das subjetividades, de que tudo isso seria ainda possível.” (BIRMAN, 2005, p.221) De posse dessa concorrência mercadológica, muitos psicanalistas, de acordo com autor, ainda persistem em não admitirem a versão freudiana sobre as relações do sujeito com a cultura no seu ‘Mal-estar na civilização de 1930’, e partem para o que Birman vai chamar de “monstro epistemológico”, que seria “a bricolagem entre o discurso psicanalítico, as neurociências e o cognitivismo.” (BIRMAN, 2005, p. 221) Com isso se firma uma face hedionda da crise psicanalítica.  “É preciso retomar o último Freud, retirando dele as consequências políticas que o desamparo originário impõe, para realizar a gestão do mal-estar no social.” (BIRMAN, 2005, p. 222)

Nota-se que a psicanálise, apesar de não demonstrar a força que deveras apresentava, para Roudinesco (1999) torna-se impossível fazê-la desaparecer do mundo.  O que se coloca no protagonismo em favor do desaparecimento da mesma, é o que a autora chama de “fetichização das diferenças”, ou seja, uma teoria surgida nos Estados Unidos em meados do século XIX que almeja reduzir o gênero humano a uma soma de particularismos.  O DSM se mostra como uma prova de sucesso dessa teoria que acaba por reduzir o psiquismo humano a relações neuronais.  Vê-se que esse movimento acabou por disseminar uma política de “discriminação positiva”, ou seja, pretende-se reparar uma desigualdade valorizando uma diferença em relação à outra diferença.  Tal movimento não reduz as diferenças e terminam por separar mais ainda os sujeitos entre bons e maus.  A redução do psiquismo, do sujeito, da vida a um mecanismo cerebral favorece essa “fetichização das diferenças”, pois reduz o sujeito a uma visão limítrofe físico-química e dessa forma o coloca em uma situação de humilhação ao ser classificado e rebaixado em relação a essa identidade fixada. Todo esse ato é classificado pela autora como um possível retorno a barbárie como as do tempo de Freud.  Para Dunker (2016), esses tempos atuais reforçam o que ele vem a chamar de “sequestro da noção de neurose”, tal conceito explica o desinteresse dos sujeitos atuais em sua gênese sintomática, ele prefere se alienar as questões que estruturam sua própria vida, pois a vê departamentalização e procura com isso, a extração quase física de seus sofrimentos que até então não consegue pensá-los como integrados ao seu existir.

Segundo Roudinesco (1999) o psicanalista, na atualidade, não consegue mais, devido às restrições de mercado, trabalhar integralmente com a psicanálise e com isso se dedica a dividir seu tempo com outras instituições, onde exercem outras atividades e até mesmo outras linhas de trabalho em atendimento psicológico ou até reclassificam seus consultórios como de atendimento em psicoterapia analítica, acreditando assim que podem distingui-la como uma psicanálise mais contemporânea. Toda essa ruptura com o quadro inicial em que a psicanálise se formou pode ocasionar um desfecho positivo para a clínica contemporânea, pois sempre há a possibilidade de que emerjam novos entendimentos para uma recomposição subjetiva desse sujeito contemporâneo e uma melhor conciliação do mesmo com a psicanálise e o mercado de psicoterapias.  Porém, não deixando de pôr uma lupa nessas novas possíveis abordagens e conciliações da teoria psicanalítica e outras linhas em relação ao seu objetivo principal.

4. O PÓS FREUD E O MAL-ESTAR INSTITUCIONAL

Apesar da psicanálise ter se constituído no campo da diferença do que se impunha pela ciência da época, a história da psicanálise mostra outro direcionamento, o cenário tornou-se homogêneo e paradoxal.  “Se Freud pensou que talvez estivesse levando a “peste” para a modernidade e para os norte-americanos […] parece que o trágico da psicanálise foi neutralizado.” (BIRMAN, 2000, p. 32) Paradoxo este mais presente nas próprias instituições psicanalíticas devido à extrema ausência de singularidades.  Segundo Birman (2000) a psicanálise com todo o seu intuito trágico, acabou por se tornar a portadora da unificação de pensamentos de seus adeptos.  “Vale dizer que a psicanálise não soube sustentar a tal “peste” que supostamente trouxe para a modernidade. Este é o maior paradoxo da psicanálise na atualidade.” (BIRMAN, 2000, p. 33)

De acordo com Birman (2000) a psicanálise foi geradora de algumas situações que a limitaram, sendo a primeira a produção de uma vasta quantidade de analistas com pensamentos homogêneos e sem singularidade alguma, em segundo lugar, talvez como consequência do primeiro, uma geração crescente de desinteresse pela sua prática clínica em relação à crescente busca popular por outros métodos psicoterapêuticos.  Percebe-se também que os sujeitos estão se rendendo cada dia em maior número a promessas descaradas de eliminação absoluta de sofrimento, como a religião, os psicofármacos e a adicção.  Outras buscas e possíveis substituições não podem ser esquecidas, como: o consumo progressivo de literatura de autoajuda, terapias alternativas com viés salvacionista e terapias de curtíssima duração com a promessa de cura. “O que está em questão é articulação entre os fundamentos da cultura atual e os da psicanálise […] não mais se coaduna com os imperativos sociais da atualidade.” (BIRMAN, 2000, p. 34) Sabe-se que desde o início sempre houve uma não compatibilidade total dos princípios teóricos da psicanálise com a cultura, porém, na contemporaneidade isso se mostra cada dia mais forte e impositivo.

Além disso, a psicanálise pode indicar pelo retorno ao discurso freudiano, as fronteiras entre seu projeto e os discursos não-psicanalíticos.  Por que isso? Para evidenciar algumas modalidades de soluções de compromisso que uma parcela da comunidade analítica já começa a forjar com as neurociências, o cognitivismo e os discursos religiosos. (BIRMAN, 2000, p. 35)

Ainda na questão do papel das escolas de psicanálise e sua importância enquanto geradoras de mal-estar na atualidade, Birman (2000) aponta grandes impasses na estrutura de transmissão das mesmas. A IPA (Associação Internacional de Psicanálise) e as escolas Lacanianas são tradições pedagógicas que polarizam o saber psicanalítico e com isso o limitam.  Além disso, percebe-se a falta de liberdade entre os membros das escolas de psicanálise, fato notado nas falas e discursos polarizados, com isso “a partir de determinado ponto, elas passam mesmo a não pensar mais em outra coisa […] os analistas passam a pensar apenas naquilo que circula no seu espaço institucional.” (BIRMAN, 2000, p. 111)

Existe uma assustadora falta de liberdade, de expressão e mesmo de ordenação do pensamento no campo psicanalítico.  Essa ausência de liberdade, não obstante as diferenças formais e sociais das diferentes tradições psicanalíticas têm uma dimensão internacional.  Estamos nos defrontando com uma problemática estrutural da psicanálise, que, atravessando fronteiras, oceanos e continentes, se repete com insistência. (BIRMAN, 2000, p. 112)

Vê-se que para Birman (2000) a falta de autonomia nas escolas é um assunto de grande importância, a ponto de estabelecer uma analogia sintomática com tal situação.  Para ele, esses analistas que se sujeitam a perda do seu espaço de fala, são analistas que “se inscrevem no registro do masoquismo, repetindo o discurso do outro de maneira tediosa e esterilizada, pois serão submissos e aprisionados à figura da mãe fálica.” (BIRMAN, 2000, p. 115) Essa perda da liberdade de pensar se coloca em um registro masoquista que se dirige a uma figura de falicidade.  Isso nos remete ao questionamento do final de análise dos próprios analistas que participam dessa dinâmica.

Tomando como base, o fim de análise e a possibilidade do estudante de psicanálise se tornar analista, para Birman (2000) essa promessa deveria se colocar apenas como promessa e em momento algum como uma real possibilidade, pois isso faz com que a “identificação da figura do analisante com a figura do analista transmissor e com seu sistema de filiação se transforme num problema de difícil elaboração psíquica.” (BIRMAN, 2000, p. 115) Isso acaba por gerar uma submissão do futuro possível psicanalista ao sistema de filiação e formação.  “O que provoca um emaranhado confuso onde o que impera é a impossibilidade do sujeito de se descolar da posição masoquista.” (BIRMAN, 2000, p. 116) Essa fidelidade transferencial, segundo Birman (2000) precisa ser transgredida e o sujeito passar pela angustia de castração, saindo assim da posição masoquista perante essa figura fálica que tudo sabe e tudo deve imitar.  “Essa submissão transferencial pode gerar “belas” carreiras psicanalíticas e conferir grandes poderes institucionais, mas de nada serve para a transmissão da psicanálise.” (BIRMAN, 2000, p. 120)

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Para concluir esse trabalho de pesquisa a respeito de alguns dos mal-estares, na clínica psicanalítica, corroboramos com a reflexão trazida por Dunker (2016) ao questionar que um dos problemas cruciais da psicanálise é saber se ela conseguirá sair da posição de torna-se contemporânea de si mesma.  Pois, ao mesmo tempo em que ela foi influenciada pela cultura, também se estrutura continuamente por ela. Dessa forma, isso nos leva a questionar se ela conseguirá obter ferramentas, seja qualitativa ou quantitativamente, para desenvolver um potencial analítico suficiente para se reencontrar com sua própria época.

É através de um mal-estar que a psicanálise se firma no pensamento ocidental. De acordo com Celes (2010) tanto o inconsciente quanto a sexualidade foram conceitos construídos a partir de pensamentos revolucionários a respeito da constituição do humano e que retira do mesmo a possibilidade de controle de sua própria vida, atribuindo uma posição de sujeito faltante.  Essa grande descoberta proporcionou a Freud um grande distanciamento de sua teoria em relação à época que foi criada, para que no futuro fosse necessária alguma reconciliação em relação a esse adiantamento.  Ao que tudo indica, a pós modernidade vem tentando incansavelmente substituir a descoberta freudiana, e como dito por Dunker (2016), já se mostra necessário a ela se reencontrar. E quais seriam os elementos necessários para esse reencontro? Apesar de tudo que foi exposto nessa pesquisa, acreditamos que os três direcionamentos propostos por Freud, já escritos no início do artigo, se trabalhados a luz das demandas atuais, possivelmente nos levará a evoluir com a clínica psicanalítica.

REFERÊNCIAS

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BIRMAN, Joel. O mal-estar na modernidade e a psicanálise: a psicanálise à prova do social. Physis, Rio de Janeiro, v. 8, n. 1, p. 203-224, 2005. Disponível em:<http://www.scielo.br/pdf/physis/v15s0/v15s0a10.pdf>. Acesso em 26 de agosto de 2019.

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FREUD, Sigmund. (1908). “A moral sexual “cultural” e nervosismo moderno”. In. Freud, Sigmund. Obras completas, volume 8: O delírio e os sonhos na gradiva, análise da fobia de um garoto de cinco anos e outros textos. Tradução Paulo Cesar Souza. 1.ed. SP: CIA DAS LETRAS, 2015. p.251-271.

_____, Sigmund. (1910). “As perspectivas futuras da terapia psicanalítica”. In. Freud, Sigmund. Obras completas, volume 9: Observações sobre um caso de neurose obsessiva [“O homem dos ratos”], uma recordação de infância de Leonardo da Vinci e outros textos”. Tradução Paulo Cesar Souza. 1.ed. SP: CIA DAS LETRAS, 2013. p.219-231.

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OCARIZ, Maria Cristina. O sintoma e a clínica psicanalítica – o curável e o que não tem cura. 1. ed. SP: VIA LETTERA EDITORA E LIVRARIA, 2003.

ROUDINESCO, Elisabeth. Por que a psicanálise? 1. ed. RJ:ZAHAR, 1999

RUDGE, A.M. (2006) As teorias do sujeito contemporâneo e os destinos da psicanálise. In RUDGE, A.M.(org.) Traumas, São Paulo: Editora Escuta, p.11-23

[1] Mestrando em Psicanálise, cultura e sociedade; Pós graduação em Gênero e sexualidade; Bacharelado em Filosofia.

Enviado: Março, 2020.

Aprovado: Maio, 2020.

2 COMENTÁRIOS

  1. Prezado

    Seu artigo não poderia vir numa hora mais adequada em que seremos assolados com demandas de todas as espécies em relação a saúde mental das pessoas e seus questionamentos são pertinentes e nos levam a uma reflexão de como poderemos legitimar a psicanálise como uma psicoterapia que precisa se reeencontrar e se reconciliar para avançar mais em sua clínica. Obrigada pela reflexão e pelo texto.

  2. Esplêndido o texto!! Parabéns ao autor pela forma de escrita; que leva o leitor a se debruçar sobre o tema,de uma forma tão singela no que tange ao entendimento do que se está lendo, ao mesmo tempo, em que está adquirindo um conhecimento riquíssimo sobre a pesquisa realizada, que com certeza; acrescentará conhecimento seja, para quem está diretamente ligado com os estudos psicanalíticos, mas também a qualquer sujeito que de alguma forma, aprecie uma leitura de qualidade.

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