O Complexo Cérebro-Mente: Introdução a Interface Neurologia/Psicologia/Psiquiatria

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O Complexo Cérebro-Mente: Introdução a Interface Neurologia/Psicologia/Psiquiatria
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FILHO, José Côrtes Rolemberg [1]

FILHO, José Côrtes Rolemberg. O Complexo Cérebro-Mente: Introdução a Interface Neurologia/Psicologia/Psiquiatria. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Edição 02, Ano 02, Vol. 01. pp 45-50, Maio de 2017. ISSN:2448-0959

O objetivo desse texto é abrir caminhos para a compreensão da relação cérebro/mente.

Em decorrência, para a compreensão das 3 principais especialidades que se dedicam ao estudo dos fenômenos neuropsíquicos.

Ele é dedicado especialmente aos estudantes de Medicina, Psicologia, mas também a todos aqueles que se dedicam ao estudo e à clínica das funções mentais e cerebrais. Para evitar um estilo discursivo, a abordagem do tema será objetiva, quase esquemática, mas didática, procurando enfatizar a essência do estudo da interface, do ponto de vista clínico.

1 – Lembrar que o estudo da relação cérebro-mente, não é preocupação nova.

Ela remonta ao período histórico da Antiguidade greco-romana, passando pela Idade Média/Renascimento, atravessando um período áureo de florescimento no século 19, sobretudo em diversos serviços europeus de neuropsiquiatria.

A França nesse particular, exerceu um papel aglutinador e inovador, reunindo em torno do prof. Martin Charcot do hospital Pitié-Salpétrière um conjunto de neurocientistas (na época não existia essa denominação), para o estudo e tratamento das doenças nervosas e mentais.

Vejam vocês que o vocábulo “nervosas” estava se referindo aos nervos e sobretudo ao cérebro; claramente a abordagem organo-funcional ou como pejorativamente muitos diziam e ainda dizem “organicista”.

O vocábulo “mental”, ala por si mesmo; o estudo centrado nos transtornos da personalidade, tendo como referência básica na época, as esquizofrenias e as demências.

Naquele período, não existia separação entre a Neurologia e a Psiquiatria; falava-se em NEUROPSIQUIATRIA, porque nas enfermarias, os “doentes nervosos” e os “loucos”, que não estavam confinados nos asilos, conviviam em espaços reservados.

Essa realidade histórico-científica da época nos remete aos estudos do prof. Foucault, que vocês devem certamente conhecer.

Além da abordagem Foucaultiana sobre a loucura, estudiosos do assunto como Levy-Bruhl, Roger Bastide em tantos outros, deram sua contribuição dentro dos seus respectivos campos de conhecimento.

Convivendo com concepções filosófico-idealistas da época, o prof. Charcot e seus “alunos”, descobriam que existia uma correlação entre os transtornos mentais e alterações organo-cerebrais em milhares de pacientes.

A importância da CLÍNICA, do Exame Neurológico Objetivo, era fundamental e minuciosa, para determinar as áreas cerebrais conhecidas, que estavam lesionadas, pelos mais variados processos organo-funcionais.

Daí vem a MINUDÊNCIA do exame neurológico objetivo francês, tanto amado por uns e detestado por outros, que sempre valorizou a correlação anátomo-clínica de todas as doenças do corpo e cérebro humanos.

É bom lembrar que naquela época, os dispositivos mais avançados para o estudo do cérebro, eram a microscopia aplicada ao estudo da arquitetura nervosa,

(anátomo-patologia) e a histo-quimica (corantes específicos que realçam a intimidade do tecido nervoso).

Outros 2 pilares de sustentação da Neurociência daquele século, foram os estudos avançados em neuroanatomia (a descoberta de numerosas vias neuronais dentro e fora do cérebro) e a neurofisiologia com estudos específicos sobre a eletricidade (EEG) circulação sanguínea (HEMODINAMICA0 e metabolismo do sistema nervoso.

2 – O reverso dessa medalha, está na importância que as diversas correntes filosóficas idealistas tiveram, nos estudos da Psicologia (Hume, Fichte, Descartes,

Kant, Husserl). O primado da mente sobre o cérebro, fazia parte da luta das idéias no âmbito filosófico, entre as correntes idealistas e materialistas, sobre o complexo cérebro-mente.

Questões sobre a autonomia da mente face ao cérebro; sobre as inter-relações entre realidade e consciência ou em outros termos matéria versus espírito, nos remetem e remeterão indefinidamente às origens da existência humana e do universo.

Os infindáveis trabalhos sobre a “Filosofia da Mente”, publicados ao longo dos últimos séculos, atestam a perene atualidade sobre os ditos “mistérios” do cérebro e da mente humana.

A força das novas e incessantes descobertas das Neurociências sobre a relação cérebro-mente, tem favorecido a aproximação e diálogo entre neurocientistas e filósofos, sobretudo na Europa (particularmente na Bélgica, França, Alemanha) e Estados Unidos.

Cartesianos e neocartesianos, atormentados pelos avanços sobre o funcionamento do complexo cérebro-mente, têm insistido sobre a sutil diferença entre mente e espírito. Este último continuaria sendo uma entidade autônoma aos mecanismos fisiológicos cerebrais, determinando a existência dos estados de consciência.

O problema é que, quando nosso cérebro-mente vai tentar compreender questões polêmicas, de saída já existe para cada um de nós, um “pré-conceito”, que de certa forma e por diversas razões nos faz pensar desta ou daquela maneira.

As incompreensões, os reducionismos entre correntes filosóficas e mesmo científicas, em grande parte – portanto não exclusivamente – decorre de um conjunto de influências da formação sociocultural, adquirida pelo cientista e pelo filósofo, muito cedo na vida.

3 – A visão do SN e do cérebro em particular, como um conjunto de sistemas integrados, é a base da anátomo-fisiologia contemporânea.

Organizado e hierarquizado em graus de crescente complexidade, os diversos centros nervosos surgiram na cadeia evolutiva, como uma pulsão biológica construtiva, isto é: sempre para cima, até atingir o maior nível de corticalização com o ser humano.

Estrutura e função, esse é o mistério da aparentemente simples, mas complexa relação dialética de duas instâncias, determinantes no surgimento das atividades neuropsíquicas.

Percebam que no fundo da relação bi-unívoca estrutura/função, existe uma outra que é básica para o desenvolvimento do SN: quantidade X qualidade.

Podemos então formular 5 perguntas:

A) A quantidade física, pode se transformar em qualidade?

B) A qualidade, pode ser considerada como um novo atributo-propriedade, da matéria viva, em trans-mutação?

C – O cérebro pode engendrar, pela força biológica de suas funções, um novo fenômeno que não é palpável, mas tão real quanto ele (pensamento, memória e emoções) ?

D – Se a mente-espírito existe – como fenômeno autônomo dos processos cerebrais e não por eles condicionados / determinados –  porque ocorre na natureza, uma diferença de expressão das potencialidades cerebrais entre os mamíferos?

E – Finalmente, podemos nos perguntar e perguntar aos filósofos da Ciência: duas instâncias ou fenômenos, podem ser 1 e 2 ao mesmo tempo?

A concepção materialista-dialética aplicada à Neurociência, responde positivamente à primeira pergunta. Alguns exemplos são eloqüentes tanto na Ciência geral, como na Neurociência em particular. Senão vejamos: as reações químicas eletrolíticas das pilhas comuns, gerando luz e energia; a transformação de metais (por ex. chumbo em ouro); as reações nucleares em cadeia, através de partículas atômicas, gerando bombas ou usinas nucleares; a relação entre a quantidade de neurônios, dendritos, sinapses e o surgimento de funções nervosas cada vez mais complexas; a grande quantidade de energia liberada pelo metabolismo cerebral de glicose ( 150.000 cal para uma única molécula ) e a organização/expressão das funções cognitivas humanas.

Numerosos outros exemplos existem, relacionados diretamente à prática experimental dos neuro pesquisadores.

4 – Acho importante valorizar, que sempre existirá um momento crítico do pólo dialética quantidade X qualidade nos fenômenos da natureza ou criados pelo homem.

Qual o momento crítico do fenômeno da desintegração nuclear sem controle? A explosão atômica.

Qual o momento crítico da mais alta e complexa integração dos sistemas neuronais e do seu metabolismo? O surgimento das funções cognitivas.

Podemos afirmar então, que o fenômeno que chamaremos de transmutação, é o elo significativo da relação cérebro-mente.

Acho que o termo é apropriado, porque ele diz bem da natureza transitiva, (trans) e transformadora do fenômeno (mutação).

Só que a transitividade e a mutação inerente, são contínuas e renováveis

Lembrando aquela música do Lulu Santos : “ nada do que foi será…”

Através dessa ótica, podemos compreender melhor, a organização dos sistemas cerebrais, sobretudo aqueles relacionados com as funções corticais.

O desenvolvimento dos sistemas de linguagem-fala, memória, emoções e da consciência em suas múltiplas manifestações, tem sido estudado através de exames de imagens cerebrais em tempo real, revelando uma interdependência funcional entre eles.

A realização-execução desses exames, é um exemplo eloquente de interdisciplinaridade de várias especialidades, que se conjugam para estudar a interdepen – dência funcional cerebral.

A Biofísica aplicada (Engenharia biomédica), a Neuroradiologia, a Radiobioquímica (radionuclídeos), a Neurologia, a Neuropsicologia, a Psiquiatria, se associam para a interpretação de imagens cerebrais coloridas e testes cognitivos.

Merece destaque especial, os estudos avançados sobre o fenômeno “qualia”, centrado no fenômeno da percepção/representação mentais.

Em outros termos: o que faz nosso cérebro ver, ouvir, sentir e representar milhares de estímulos, de forma semelhante, mas não idêntica ao de outros cérebros?

Essas questões nos remetem aos estudos do Prof. e neurocientista Gerald Edelman (prêmio Nobel), quando em seu livro “Bright Air, Brilliant Fire: On the Matter of Mind”, fala das particularidades da formação dos sistemas cerebrais e de como eles podem ser moldados pelas influências externas.

O cérebro-mente de um músico, de um cientista, é organizado e funciona diferente, do cérebro de um político ou de um traficante.

Isto significa, que o conjunto dos estímulos ambientais, de acordo com sua natureza, vai estimular o trabalho de sistemas cerebrais específicos, entenda-se redes neuronais e suas conexões.

Apesar dos progressos incessantes no desvendamento dos “mistérios da mente”, os neurocientistas sabem que estão longe, muito longe de compreender como é realizada a transmutação de um fenômeno organo-funcional em mental ou como diriam outros, do plano físico para o plano espiritual.

Provavelmente, o gênero humano nunca atingirá essa meta. Esse é o desafio permanente que justifica a existência das Neurociências.

Tudo indica que o gênero humano, por estar no topo da complexa escala evolutiva, pagará indefinidamente um tributo à própria Natureza, enfrentando desafios sobre si mesmo.

O pano de fundo dessas questões, está sem dúvida na relação entre potência e fragilidade dos nossos neurônios, sobretudo corticais.

Responsáveis pelo mais alto grau de integração do nosso Sistema Nervoso, podem em 2 ou 3 minutos estarem mortos, por privação de glicose ou oxigênio …

Não seria exagero, comparar metaforicamente um único neurônio cortical, a uma potente moto de 750 cilindradas, em alta velocidade!

Os fatores de risco para a sua sobrevida, são bem conhecidos.

“Navegar é preciso, viver não é preciso…”

Referências

Dialectique de La Nature – Engels Frederich. Ed. Galimard.

Essentials of Neural Science and Behavior – Eric R. Kandel/Inter.Edition

Le cerveau humain – E. Morin/M.Piatelli-Palmarini- Ed. Points

La Recherche en Neurobiologie. J. Adriel et all – Nouvelle Édition Sciences

De L’Acte à la Pensée – H. Wallon. Ed. Flammarion

O Erro de Descartes – Antonio Damásio- Companhia das Letras

Deus um Delírio – Richard Dawkins – Ed. Companhia das Letras.

L’Esprit-Cerveau –Jean-Noel Missa –Ed. J. Vrin

[1] Aposentado desde 2013 – UFBA – Dept. de Neurociências e Saúde Mental. Ancien Interne et Médécin Assistant Étranger des Hopitaux de Paris.

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