A consolidação do patriarcado no Brasil: a origem das desigualdades entre homens e mulheres

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ARTIGO ORIGINAL

ANDRADE, Letícia Ésther de [1]

ANDRADE, Letícia Ésther de. A consolidação do patriarcado no Brasil: a origem das desigualdades entre homens e mulheres. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 06, Ed. 11, Vol. 07, pp. 25-39. Novembro 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/consolidacao-do-patriarcado

RESUMO

Nos primórdios da sociedade, as populações eram nômades e a descendência era atribuída somente às mães. Com a passagem do nomadismo para o sedentarismo, as populações descobriram a participação masculina na reprodução. Posteriormente, surgiu a cultura de entregar os bens dos homens falecidos para seus descendentes e, para que isto fosse possível, os homens passaram a exigir de suas esposas fidelidade. Ao restringir a mulher no âmbito doméstico, garantindo sua fidelidade para fins de descendência patrimonial, também se passa a exigir da mulher habilidades próprias e específicas para este ambiente. Esse processo promoveu a mudança da sociedade matriarcal para a sociedade patriarcal e, por consequência, a desigualdade entre os gêneros. Tendo em vista este cenário, o presente artigo, tem como questão norteadora: De que forma o patriarcado interferiu no processo de desigualdade entre homens e mulheres brasileiros? Para responder a essa pergunta, foi realizada uma revisão teórica, apresentando, inicialmente, uma explicação de como o patriarcado surgiu no mundo; posteriormente, como a cultura patriarcal foi trazida para o Brasil, tendo como objetivo compreender como se deu o processo de desigualdades entre homens e mulheres brasileiras. A partir dos resultados, concluímos que essa cultura baseada em desigualdade foi trazida para o Brasil no período colonial, sendo reproduzida de geração em geração. Nessa relação desigual entre homens e mulheres, a mulher deixou em segundo plano seus desejos e sonhos, cabendo a ela um papel social restrito, abaixo dos homens.

Palavras-chave: Desigualdade, Gênero, História, Mulher.

1. INTRODUÇÃO

No período compreendido entre 10.000 a.C. a 4.000 a.C. – também conhecido como a Idade da Pedra Lascada – ocorreu uma grande mudança em relação à posição que a mulher ocupava nas sociedades primitivas. Com o início do desenvolvimento da agricultura e domesticação de animais, a mulher passou a realizar suas atividades diárias ao ritmo dos cuidados com as crianças. As atividades exercidas abarcavam armazenamento de comida e cuidados com as plantações, assim como alimentar e zelar pela prole (VICENTINO, 1997).

O homem, por sua vez, desenvolvia as habilidades de caça e coleta de alimentos. Na sua ausência, as mulheres ficavam com as crianças nos acampamentos (VICENTINO, 1997).

A vida nômade das populações originou as sociedades matriarcais, sendo o parentesco ligado somente às mães, visto que desconheciam a participação do homem na reprodução humana (VICENTINO, 1997).

Posteriormente, o homem passou a dominar a produção de suprimentos e seus excedentes ao inventar o arado. As populações antigas aprimoraram as técnicas de agricultura, caça, domesticações, moradias e se tornaram sedentárias[2] (VICENTINO, 1997).

O sedentarismo permitiu ao homem descobrir a sua participação na reprodução humana, o que fez com que este exigisse da mulher a sua fidelidade, que tinha por objetivo a garantia da paternidade e a transmissão direta dos bens acumulados aos seus filhos, após à sua morte (PORTO; AMARAL, 2014).

Nesse período, materializaram-se as relações de opressão contra a mulher, colocando-a em posição de subordinação com relação ao homem para garantir a herança aos seus descendentes. O surgimento da propriedade e de novos costumes dividiu papéis sociais que passaram a ser exercidos de forma inflexível. A mulher tornou-se restrita ao ambiente doméstico, afastando-se da vida social (ENGELS, 1987, apud PORTO; AMARAL, 2014).

As famílias não possuíam uma relação de equidade e afeto, como mostra a própria origem da palavra:

A etimologia da palavra família (famulus) significa servo ou escravo, o que mostra que, primitivamente, a família era um conjunto de criados de uma mesma pessoa. Isto remetia a mulher a obrigação de obedecer ao marido como se ele fosse seu amo e senhor (PORTO; AMARAL, 2014).

Portanto, a formação das famílias, por visar o aumento do patrimônio, colocava os laços afetivos em segundo plano (FARIAS, 2011; MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001)

A “domesticação” da mulher foi conseqüência da necessidade dos homens assegurarem a posse de sua descendência. O fato de que a maternidade é certa e a paternidade apenas presumível (ou incerta) sempre foi um fantasma para a organização da cultura patriarcal. O controle da sexualidade e da vida reprodutiva da mulher garante a imposição das regras de descendência e patrimônio e, posteriormente, um sistema rígido de divisão sexual do trabalho. Assim, a mulher passa a ser tutelada por algum homem, seja pai, ou marido. Este tipo de pensamento sempre justificou o autoritarismo masculino, interpretando a violência do homem contra a mulher como algo natural (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001, p. 14 – 15).

Por conta disto, no decorrer da História, não só os homens, mas também as mulheres passaram a acreditar na autoridade do homem sobre a mulher, repassando essa crença para as próximas gerações.

Tendo em vista este cenário, o presente artigo, tem como questão norteadora: De que forma o patriarcado interferiu no processo de desigualdade entre homens e mulheres brasileiros? Tendo como objetivo geral compreender como se deu o processo de desigualdades entre homens e mulheres brasileiras por meio de uma revisão teórica.

2. A CULTURA PATRIARCAL É TRAZIDA AO BRASIL

O patriarcado no Brasil surgiu com a colonização do país no século XVI, tendo o homem como a figura que detinha a autoridade, o poder político e econômico. As mulheres e seus descendentes deviam obediência à figura masculina, sendo submissos ao pai; no caso das mulheres a submissão se estendia ao marido (PINHEIRO, 2008; SAMARA, 2002; BRUSCHINI, 1997). O matrimônio legitimava o “pátrio poder” e os papéis de gênero até o século XIX (OLIVEIRA, 2012; SAMARA, 2002).

Nas uniões legítimas, o papel dos sexos estava bem definido, por costumes e tradições apoiados nas leis. O poder de decisão formal pertencia ao marido, como protetor e provedor da mulher e dos filhos, cabendo à esposa o governo da casa e a assistência moral à família. (SAMARA, 2002, p.32).

No final do século XVII, com a descoberta de minas de ouro em Minas Gerais, o interior tornou-se alvo da colonização. Nestes períodos, houve uma mudança no estilo de vida da população brasileira, trazendo um movimento urbano mais intenso para o interior do país. A região mineira atraía pessoas que buscavam enriquecimento, aventuras e escravos. A Igreja tentava controlar a população, sem êxito: o número de celibatários era alto e as relações concubinárias eram comuns. Das relações ilegítimas, surgiam filhos e as mulheres solteiras que eram mães trabalhavam para chefiar suas famílias. “Nessas paragens, não era fácil para os poderes constituídos, tentar fixar os padrões impostos pela colonização, que não eram seguidos pela maior parte da população”. (SAMARA, 2002, p. 33).

A partir do século XVIII, no Brasil, a diminuição da mão de obra escrava e a migração masculina permitiram que as mulheres começassem a exercer outras funções, além dos cuidados com a casa e os filhos. De acordo com os valores tradicionais, as mulheres não poderiam exercer atividades remuneradas e os papéis de gênero eram fixos, todavia, essa rigidez não era presente no cotidiano de todas as famílias. (SAMARA, 2002).

O Estado português, no entanto, objetivava implantar uma organização social que possibilitasse explorar o Brasil e a força produtiva dos habitantes. Para tanto, contava com o auxílio da Igreja, que tinha a função de orientar socialmente os colonos, de acordo com os interesses portugueses. Como nos séculos anteriores, os homens encontravam-se em constante migração na busca de melhores condições de vida e as mulheres mantinham-se restritas à realização das tarefas domésticas e ao cuidado com os filhos. Dessa forma, o alvo principal da Igreja era a mulher, que, ficando restrita à casa, poderia estabelecer os valores que o Estado determinava para a população. (PRIORE, 1994).

“Ser mãe de família” passa a ser gradualmente uma meta de contornos muito bem definidos. A família, ancilar unidade de produção e reprodução, devera entreter-se em torno de uma mãe supostamente exemplar, […] integrava a si mesma e aos seus ao processo de formação do capitalismo na Idade Moderna. Sob as luzes do Antigo Sistema Colonial, a vida feminina recatada e voltada para o fogo doméstico e os filhos fazia da mulher um chamariz para que se canalizasse na esfera do lar a energia, que fora dela, pudesse confundir-se com desordem e contravenção, baralhando os pressupostos de ordem e trabalho implícitos no sistema de produção. (PRIORE, 1994, p. 71).

A Igreja desejava implantar a fé católica e os valores do matrimônio nas terras brasileiras. O casamento era a forma de relacionamento considerada legal e desejável, porém, o concubinato e/ou amasiamento, embora ilegais, ocorriam com frequência. Diante disso, havia uma tolerância da Igreja com as relações concubinárias, nos casos em que o casamento sacramentado se encontrava previsto. Dessa forma, evitava-se as punições pelos dogmas da religião e garantia-se o batismo às crianças que advinham dessas relações. (PRIORE, 1994).

No século XVIII, no estado de Minas Gerais, “girava em torno dos 45% o número de mulheres à testa de suas casas, e, destas, 83% nunca havia se casado” (RAMOS, 1975, apud PRIORE, 1994 p.72). Havia muitas famílias chefiadas por mulheres que tiveram filhos sem que estivessem unidas oficialmente aos seus parceiros, vivendo, sem os mesmos, com a benção da Igreja.

Em São Paulo,

[…] o desequilíbrio entre os sexos, provocado pelo deslocamento de homens em direção a regiões mais lucrativas deixara as mulheres como maioria nas cidades e vilas. Maioria esta, que com os filhos nos braços, via seus parceiros partirem e, ao recebê-los quando voltavam, tinham engrossado sua prole com filhos de outros eventuais companheiros. Ou ainda, que havia aumentado a família, criando os filhos de seus companheiros com outras mulheres, que tinham sido deixadas para trás (MARCÍLIO, 1974, apud PRIORE, 1994, p. 72).

Como a Igreja aceitava exceções, no tocante às relações concubinárias, a sociedade definiria o que era aceitável ou não. Com a frequente migração dos homens, as relações eventuais com novos companheiros e a convivência de esposas e amantes que haviam se separado de seus maridos, os filhos legítimos e ilegítimos acabavam por conviver. Documentos antigos – testamentos e processos de separação – revelam que muitas mulheres se responsabilizavam pelos cuidados de outras crianças, tornando-se mães e madrastas de seus filhos e dos meios-irmãos de seus filhos. Dessa forma, a maternidade possuía um significado não só biológico, mas também afetivo. (PRIORE, 1994).

Quando os homens se mudavam, solicitavam que suas esposas cuidassem dos seus filhos ilegítimos e estas aceitavam, tanto por obediência, quanto por ter desenvolvido um afeto pelas crianças. Tal comportamento gerou um novo papel social para as mulheres: zelar e cuidar da prole de seu marido, independentemente da origem biológica das crianças. Sendo assim, “a gestão e administração dessa microcomunidade familiar acabou por reforçar a matrifocalidade[3] já latente na sociedade colonial” (PRIORE, 1994, p.73).

Segundo a mesma autora,

Os filhos, por sua vez, validavam o papel social da mulher, reforçando-lhe o poder no interior deste espaço que era exclusivamente seu: o “fogo doméstico”, isto é, a casa. Nesse papel e na ausência temporária ou definitiva do companheiro, ela tomava-se guardiã do lar. Para cumprir essa tarefa, contava com a solidariedade de outras que viviam como ela, transformando a relação com os filhos num fio que costurava existências femininas variadas e que reforçava a solidariedade do gênero. (PRIORE, 1994, p. 73)

É perceptível que as mulheres eram mães não só dos seus filhos, mas também dos filhos fora do casamento de seus esposos ou ex-esposos, de netos, sobrinhos e afilhados. As mulheres se uniam e exerciam a maternidade de acordo com a necessidade, o que reforçava a ideia de que cuidar das crianças era sua obrigação. As mulheres escravizadas ou alforriadas, tinham um destino ainda mais incerto que as mulheres brancas. As mães escravas e a maioria dos seus filhos, eram consideradas como um investimento econômico para seus donos, desta forma, tinham pouca possibilidade de permanecerem juntos. (PRIORE, 1994).

Era comum que os homens levassem seus filhos de relações extraconjugais para dentro das suas casas, o que dava margem às mais diversas formas de relacionamento com tais crianças: alguns poderiam ser destratados por suas madrastas, enquanto outros eram acolhidos e defendidos por elas. No primeiro caso, as esposas legítimas poderiam considerar a amante como uma rival, nutrindo ódio à mesma e aos filhos desta relação, pois associavam as crianças ao comportamento dos seus pais. No segundo caso, buscavam condições melhores para si e para os seus filhos biológicos e não biológicos da mesma forma, tentando diminuir os castigos físicos imputados aos mesmos. (PRIORE, 1994).

Muitas mulheres viviam concubinatos relativamente estáveis, o que as permitiam não permanecer tão sozinhas como as esposas legítimas. Porém, as violências sofridas pelas mulheres não limitavam, somente, às relações extra-conjugais, aos sumiços de seus maridos ou à negação de bens materiais; as agressões físicas, as humilhações, ameaças de morte, a negação de saúde e alimentos para elas e seus filhos faziam parte dos tratamentos recebidos por muitas mulheres e filhos (legítimos ou não). Várias mulheres se aliavam não só a outras mulheres, mas também aos seus filhos homens para sobreviver. Essas alianças tinham tanto o objetivo de prover as despesas quanto os afetos. Mulheres e crianças, mães e filhos, participaram das vivências do Brasil Colonial, em um processo histórico que originou e/ou reforçou os papéis de gênero. (PRIORE, 1994). Desta forma, “as especificidades da vida colonial reforçaram o papel da mulher como mantenedora, gestora e guardiã da casa e do destino dos seus, fazendo-a suporte da família. Família, contudo, no feminino plural.” (PRIORE, 1994, p.75).

No período colonial, as mulheres brancas (esposas de portugueses) frequentavam a Igreja e cuidavam da casa e dos filhos, sendo vistas “[…] como fracas, submissas, passivas e sem participação pública” (BARRETO, 2004, p.66). No entanto, como o contingente de mulheres portuguesas/brancas era bem menor, as mulheres africanas e indígenas foram escravizadas e consideradas objetos sexuais; em outras palavras, serviam para satisfazer os homens (brancos e portugueses), no que tange às práticas sexuais. Pinheiro (2008) acrescenta que outra característica do patriarcado é o controle da sexualidade da mulher, pois, enquanto a sexualidade do homem é incentivada, a da mulher é reprimida.

No século XIX, a Independência do país, a passagem da monarquia para República, a abolição do regime escravocrata e a entrada de imigrantes no Brasil favoreceram a entrada das mulheres nas indústrias e nos serviços burocráticos. Tais atividades eram realizadas em casa – em regime temporário – e permitiam a geração de alguma renda, assim como o exercício das funções domésticas para as quais haviam sido educadas. As mulheres solteiras tinham a possibilidade de trabalhar na indústria têxtil, sendo que o salário recebido por elas era menor do que os salários dos homens que realizavam as mesmas atividades. (SAMARA, 2002).

No início do século XX, foi observada uma mudança quanto às possibilidades de trabalho para as mulheres solteiras, que passaram a não necessitar da autorização do pai para trabalhar. As mulheres casadas só poderiam trabalhar com a autorização de seus respectivos maridos. A vida dessas mulheres ainda estava pautada na manutenção da família, ou seja, nos cuidados físicos e ensinamentos morais dispensados aos filhos, assim como nas demais atividades domésticas. De acordo com SAMARA (2002),

O código civil de 1916 reconheceu e legitimou a supremacia masculina, limitando o acesso ao emprego e à propriedade. As mulheres casadas ainda eram, legalmente, incapacitadas e apenas na ausência do marido podiam assumir a liderança da família. (SAMARA, 2002, p. 35).

Mais tarde, no século XX, as mulheres pertencentes às classes econômicas média e alta passaram a exercer determinadas profissões de nível técnico e superior.

Até o ano de 1940, a legislação não definia somente as atividades laborais que a mulher poderia exercer, mas também tipos de comportamentos que só eram considerados crimes, caso fosse uma mulher a cometer. A perda da virgindade era um crime, como também as condutas que ofendiam a virgindade. Outra conduta criminosa e passível de pena era a infidelidade. Somente no ano 2005, foi retirada a expressão “mulher honesta” do Código Penal. A honestidade da mulher era analisada de acordo com o número dos seus parceiros sexuais, o que regulava e condenava a própria liberdade sexual (OLIVEIRA, 2012).

Segundo Bruschinni (1997), como nos séculos anteriores a divisão do trabalho baseava-se no sexo do indivíduo, o fato de ser homem ou ser mulher interferia na escolha da atividade a ser exercida por ambos. Havia “[…] uma carga simbólica de atributos, gerando uma correlação entre sexo e personalidade que foi interpretada como característica inerente aos sexos. Atribuiu-se à natureza de homens e mulheres aquilo que era da cultura.” (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2001, p. 15).

Na segunda metade do século XX, irrompeu em várias partes do planeta, o movimento feminista, que teve sua origem oficial em 1848, nos Estados Unidos da América. A partir da década de 1960 nos Estados Unidos, em 1970 na Europa e nas duas décadas seguintes em outros países do globo (BARRETO, 2004).

No ano de 1964, o Brasil sofreu inúmeras mudanças no âmbito social e político com o golpe militar. Esse regime ditatorial durou até o ano de 1989 (GONÇALVES, 2009).

As mulheres participaram na resistência à ditadura de várias formas, inclusive com a utilização de armas, fugindo ao papel que era tradicionalmente imputado a elas, ou seja, zelar pelas suas casas, seus maridos e seus filhos (SARTI, 2001).

Sem uma proposta feminista deliberada, as militantes negavam o lugar tradicionalmente atribuído à mulher ao assumirem um comportamento sexual que punha em questão a virgindade e a instituição do casamento, […] pegando em armas e tendo êxito neste comportamento (SARTI, 2001, p. 33).

Muitos jovens tentaram resistir à opressão e foram obrigados a deixar o país. Ao se exilarem na Europa, as jovens mulheres se depararam com uma nova questão: a desigualdade de gênero que se encontrava presente também nas suas relações afetivas. Seus companheiros, embora lutassem contra as desigualdades sociais, políticas e econômicas, mantinham, nos seus relacionamentos afetivos, os mesmos valores da família tradicional. Recusavam-se a dividir as tarefas domésticas e o cuidado com os filhos e acreditavam que estas atividades eram obrigações exclusivas das mulheres. Na França, as jovens brasileiras tiveram contato com o movimento feminista que lutava pela igualdade de gênero e buscava combater a soberania masculina (GONÇALVES, 2009; SARTI, 2001).

A proximidade de ideais políticos fez com que brasileiras e francesas se aproximassem e, as mulheres brasileiras, começaram a questionar os próprios relacionamentos. Perceberam que seus parceiros não militavam em prol do coletivo de igualdade em todas as dimensões da vida, pois se mostravam conservadores em seus relacionamentos. Muitos homens sentiram-se ameaçados por essas novas ideias e proibiram que suas companheiras participassem das reuniões para discussão de política, com o argumento que elas levavam política para dentro de seus lares (GONÇALVES, 2009).

No Brasil, nesse mesmo período, observou-se o surgimento das favelas com sua infraestrutura precária e as mulheres inseriram-se, cada vez mais, no mercado de trabalho. Neste processo, começaram a romper o pensamento machista de que elas deveriam se restringir ao lar. Entretanto, recebiam um salário menor que o pago aos homens que exerciam as mesmas atividades, tinham pouca qualificação profissional e encontravam-se em número maior entre as pessoas desempregadas. (GONÇALVES, 2009).

Os movimentos sociais, ocorridos na década de 1970, contribuíram para que os refugiados pudessem voltar ao Brasil. As mulheres, ao voltarem, se depararam com esse novo quadro político e social e, sem abandonar as reflexões e concepções sobre papéis de gênero e violência construídas com suas companheiras no período de exílio na Europa, juntaram-se às mulheres que aqui ficaram para resistir às opressões. (GONÇALVES, 2009).

O movimento de mulheres, nesse período, lutava pela construção e oferta de creches para seus filhos, serviços básicos de saúde e saneamento básico, buscando construir melhores condições de vida para todos. Os grupos feministas articulados às demandas das comunidades

[…] deram impulso aos debates acerca das discriminações no trabalho, da violência doméstica, do direito ao divórcio. Na contramão da exaltação da maternidade, refletiram sobre o péssimo acompanhamento de mulheres no período de gestação e/ou dos partos, os perigos de infecções hospitalares, morte das mulheres por falta de cuidados médicos; questionaram o laço “natural” entre maternidade e sexualidade, ao mesmo tempo em que denunciaram a violência que as mulheres sofrem dentro do casamento, inclusive o estupro; compreenderam e questionaram a existência da domesticação do corpo, o controle da sexualidade e a exaltação da função materna como único destino possível para as mulheres. (GONÇALVES, 2009, p.102).

No final da década de 1980, os ideais próprios do feminismo, que envolvem as relações de gênero, começaram a se consolidar no país, visto que, nesse período, emergiram, ainda que minimamente, uma abertura para reinvindicação de políticas públicas voltadas para as mulheres e maiores reflexões acerca do gênero (SARTI, 2001).

Na década de 1990, o movimento feminista no Brasil se institucionalizou, diante da inserção de mulheres feministas em cargos do Estado para “[…] fazer política voltada para mulheres” (GONÇALVES, 2009, p. 105). Diante disso, o Estado começa a interferir na esfera privada/doméstica, criando leis para intervir contra as múltiplas violências sofridas pelas mulheres.

No meio acadêmico, as feministas buscaram, além de compreender a desigualdade social que oprime as mulheres, conhecer as causas históricas das opressões. As discussões e pesquisas sobre a condição da mulher na sociedade e a construção social das diferenças de gênero ofereceram subsídio para buscar a transformação da cultura e a ruptura com as representações sociais do lugar fixo que homens e mulheres devem ocupar na sociedade. As relações de poder entre homens e mulheres, a falta de autonomia das mulheres e a violência contra a mulher tornaram-se alvo de questionamentos. (GONÇALVES, 2009).

No final do século XX,

A partir do processo de redemocratização, deflagrado em 1985, o Brasil, munido da consciência ética contemporânea acerca da necessidade de se garantir às mulheres parâmetros protetivos mínimos, ratificou tratados de notoriedade máxima, tais como a Convenção sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a mulher de 1979, que entrou em vigor em 1981, e a Convenção Interamericana para prevenir, punir e erradicar a violência contra a mulher de 1994, conhecida como Convenção Belém do Pará. (OLIVEIRA, 2012 p. 161).

Os casos de violência que foram atendidos por diversos profissionais nesse período mostraram “[…] os intrincados problemas nas relações de gênero, afirmando a necessidade de se trabalhar e pensar em termos de identidades que se constituem em relações, que são assimétricas e socialmente dadas, mas naturalizadas”. (SARTI, 2001, p. 43).

No Brasil do século XXI, as novas organizações familiares trazem consigo transformações. Percebe-se uma lenta diminuição das desigualdades de gênero, com a saída da mulher para o mercado de trabalho, pois ao exercerem funções que geram renda, a autoridade masculina perde forças. Os castigos físicos aos filhos diminuíram e os laços de parentescos transformaram-se. As relações matrimoniais já não são tão duradouras; aumentaram tanto as separações como os recasamentos; evidencia-se um maior controle da natalidade. Porém, apesar dessas lentas mudanças, a sexualidade da mulher ainda é alvo de repressão. (PINHEIRO, 2008; BARRETO, 2004).

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A origem das desigualdades entre mulheres e homens no Brasil se deu não por um processo orgânico necessário, mas sim de pensamentos que visavam o acúmulo de patrimônio e a passagem deles para os descendentes, influenciado pela cultura patriarcal. Com o passar do tempo, naturalizou-se a hierarquia entre os sexos e as próprias mulheres passaram a acreditar e a ensinar os comportamentos esperados para seus filhos e suas filhas, reproduzindo e/ou repassando crenças e valores sem refletir criticamente sobre suas causas e consequências na subjetividade, mantendo a cultura de desigualdade entre os sexos.

Momentos históricos, movimentos culturais e políticos e a religião influenciaram-se mutuamente, ditando como homens e mulheres deveriam agir desde o período colonial. Portanto, é nítido que as desigualdades entre homens e mulheres está presente há séculos no Brasil.

Ao longo dos séculos, as desigualdades entre homens e mulheres assumiram formas diferentes, sendo necessário compreendê-las para que possamos intervir nessa realidade.

As marcas do patriarcado permanecem na sociedade brasileira, pois mulheres continuam recebendo salários menores que os homens mesmo que ocupem os mesmos cargos e exerçam as mesmas atividades; mulheres com filhos pequenos encontram dificuldades para conseguir emprego; ainda têm seu caráter julgado pelo número de parceiros sexuais e suas roupas ainda são usadas como justificativas para a violência sexual. Muitas mulheres ainda iniciam e/ou permanecem em relacionamentos abusivos por tentarem, a todo custo, alcançar o único sucesso que aprenderam que poderiam ter: a manutenção da família. Muitas têm suas crenças religiosas abafadas, amizades abandonadas e seus posicionamentos políticos questionados.

A construção da ideia de como a mulher deve se portar pode aparecer na esfera social e laboral ou na esfera privada: o emocional das mulheres, como citadas anteriormente. A autoestima, a saúde mental, a saúde orgânica, as psicopatologias, a somatização e tantos outros aspectos a se conhecer e estudar não caberiam – infelizmente – em um único artigo, porém não podem ser esquecidos quando tratamos sobre desigualdade de gênero.

Apesar de já existirem avanços na legislação, ainda é preciso avançar na conscientização da população, incluindo não só as mulheres nos debates sobre gênero, mas também os homens. Dessa forma, será possível mudar os pensamentos e comportamentos de todos, possibilitando uma maior igualdade de gênero no Brasil e uma sociedade mais justa, pacífica e com relações mais saudáveis.

REFERÊNCIAS

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SARTI, Cynthia A.. Feminismo e contexto: lições do caso brasileiro. Cad. Pagu,  Campinas ,  n. 16, p. 31-48,    2001 .   Available from <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104-83332001000100003&lng=en&nrm=iso>. access on  30  Mar.  2021.  https://doi.org/10.1590/S0104-83332001000100003

VICENTINO, Claudio. História geral. Curitiba, Spicione, 1997.

APÊNDICE – REFERÊNCIA NOTA DE RODAPÉ

2. Sedentarismo, nesse contexto, se refere à fixação de moradias: homens e mulheres param de migrar quando não havia o que caçar e coletar em uma determinada região (nomadismo) e passam também a domesticar animais e cultivar alimentos, podendo morar em uma mesma região por muito mais tempo. (FABER, 2011)

3. A matrifocalidade é um conceito descrito pela Sociologia como famílias que são centralizadas na figura materna, sendo, pois, a mãe o foco da família. (JOHNSON, Allan G. Dicionário de Sociologia. Guia Prático da Linguagem Sociológica. Matrifocalidade. Zahar, Rio de Janeiro, 1997, p. 141)

[1] Graduada em Psicologia.

Enviado: Abril, 2021.

Aprovado: Novembro, 2021.

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