Escuta-Vínculo: Encontro Psíquico

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BRANDALISE, Maria Helena [1], JACKOWSKI, Andrea P. [2], ARAÚJO FILHO, Gerardo Maria de [3]

BRANDALISE, Maria Helena; JACKOWSKI, Andrea P.; ARAÚJO FILHO, Gerardo Maria de. Escuta-Vínculo: Encontro Psíquico. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 07, Vol. 07, pp. 99-109, Julho de 2018. ISSN:2448-0959

Introdução

O objetivo deste artigo é relatar a experiência da escuta clínica durante 10 anos nos ambulatórios, da Escola Paulista de Medicina, Universidade Federal de São Paulo –UNIFESP, como voluntária e como pesquisadora. De Pós-graduação.

A escuta teve o enfoque teórico da Logoterapia e análise existencial fundada por Viktor E. Frankl, considerada a Terceira Escola Vienense de Psicoterapia, focada na procura da descoberta do sentido da vida e nas atitudes a serem assumidas perante situações de sofrimento.

Este artigo foi confeccionado a partir da experiência clínica da escuta voluntária dos pacientes em tratamento oncológico do qual foi publicado o artigo intitulado: A escuta do Idioma Pessoal em pacientes com Câncer de Cabeça e Pescoço e Sintomas depressivos e de ansiedade exercem impacto negativo sobre a resiliência a eventos estressantes em pacientes com epilepsia refratária do lobo temporal com recorrência tardia após cirurgia

Foram oferecidas mais de setecentas sessões gratuitas de psicoterapia, aonde a autora pode escutar e ouvir suas falas e suas necessidades emocionais, seus sofrimentos, suas angústias e ansiedades, bem como seus medos de modo a favorecer uma melhor qualidade de vida para os pacientes e seus familiares e a recuperação física e emocional perante os procedimentos que os pacientes vivenciavam, mostraram-se beneficiados pela forma de escuta e de Holding recebido, nas instâncias do ser integral.

A autora buscou ter uma atenção além do sofrimento físico, um olhar integral para o sofrimento psíquico-emocional-psicossomático. Neste sentido é que a Logoterapia, como abordagem para um olhar integral, bio-psíquico-social-espiritual, como afirma Eksterman, “A medicina psicossomática é o” estudo da relação entre a mente e o corpo, através da explicação psicológica da patologia somática, que vem a ser uma proposta de assistência integral e uma transcrição para a linguagem  psicológica dos sintomas corporal, no entanto a psicanálise é um método de investigação da mente e uma atividade terapêutica. (Eksterman  apont, Hisada, 1992)

A escola Psicossomática de Paris; propõe formas de escutar o sujeito, viabilizando uma nova leitura do sintoma e do sofrimento emocional ao atribuir um valor positivo ao fenômeno; mesmo se a natureza própria do fenômeno assenta numa negatividade simbólica e sintomática. (A. Dias, 1998)

A experiência de vários anos como pesquisadora e no atendimento aos usuários do Sistema Único de Saúde (SUS) a autora percebeu a importância de apresentar sua experiência para colaborar com a melhora do atendimento aos usuários, reforçando a importância da qualidade de vida e a carente necessidade de escuta para estes pacientes que por motivos socioeconômicos não tem acesso a tratamento psicológico, que favorece muito a saúde mental emocional, tratados em consonância com os outros tratamentos médicos necessários. Observei que o suporte psicológico diante do sofrimento psíquico, que não aparece, mas se apresenta via os sintomas, e por trás do sintoma sempre há um sofrimento físico e/ou psíquico, nem sempre é doença, isto ameniza a prescrição de medicação desnecessária.

Palavras Chaves: Psicologia, Escuta Terapêutica, Vínculo, Encontro Psíquico, Relatos.

A Escuta Terapêutica

Na escuta terapêutica dos sintomas o importante é Ouvir e escutar o “idioma pessoal”, ou seja; o que os pacientes estão querendo expressar com suas falas, identificando os aspectos verbais e não verbais, de modo a perceber qual o sintoma e qual o tratamento a seguir; lhes possibilitando elaborar as causas que na maioria são de fundo emocional, isto também é prevenção, é cuidado, é escutar, é ter um olhar singular para cada paciente que necessita de um ponto de referência muitas vezes, ponto este que desperte ao sujeito a esperança, o alento na caminhada, na tomada de decisão, desperte um olhar para o mundo de liberdade interior, livre de crenças e preconceitos que o adoecem, como facilitador para descobrir o sentido de vida que o lance para um projeto de vida, sendo assim a saúde fluirá mais e as sintomatologias se amenizam.

Como assinala Safra (2005) O idioma pessoal, portanto é derivado do modo singular de uma pessoa a partir da qual ela tem uma maneira peculiar de interpretar a existência e de emprestar as palavras, imagens e atos, uma semântica existencial pessoal. (P. 36)

Ouvir e escutar o paciente a partir da sua dor e não do que os outros trazem, ou do ponto de vista do profissional, e/ou do familiar, ou seja, posso escutar os outros, mas o foco é focar a escuta, quem está sendo tratado e qual o seu sofrimento, físico e/ou emocional. A necessidade dos sujeitos que buscam o Sistema de Saúde Pública “SUS”, o que observei nestes anos de atendimento como, uma grande necessidade de escuta e de busca de apoio psicológico, as suas queixas não se referem à saúde somente e sim aos problemas que muitas vezes os adoecem, as crenças que os adoecem, querem ser ouvidos e escutados na sua dor emocional, problemas emocionais, das relações, parecem esquecer-se do problema físico e a mente esta perplexa de outras preocupações que necessitam ser tratadas concomitantemente.

Fizzotti (1992), assinala que, com a voz da consciência, o homem é capaz de perceber qual é o sentido que está escondido por trás de uma situação e assim agir em conformidade e com responsabilidade. “Numa época em que parece que os dez mandamentos estão perdendo a validade incondicional para muitos homens, o homem deve aprender a perceber os dez mil mandamentos que surgem das dez mil situações únicas que enchem a sua vida”. (Frankl, pág. 29-30, 1992)

Isto significa que somos constantemente interpelados pela realidade, pelas situações em que nos deparamos e que são solicitadas respostas.  Foi em razão disso que John F. Kennedy, em 20 de janeiro de 1961, no discurso de posse como presidente dos Estados Unidos da América, disse aos seus compatriotas: “Não perguntem o que o seu país pode fazer por vocês, mas o que vocês podem fazer pelo seu país” (citado em Dallek, 2004, pág. 366). E, quase como complemento, Frankl aconselhava aos seus ouvintes norte-americanos: “Depois de ter construído a Estátua da Liberdade na costa leste, seria de se construir a estátua da responsabilidade na costa oeste” (Frankl, 2010, pág. 63).

A escuta aos sujeitos que buscam o Sistema Único de Saúde, demonstram inconscientemente e conscientemente que; deposita neste órgão de atendimento uma tamanha confiança, que é de admirar quando perguntava; como sentia o tratamento? 99% afirmavam ser ótimo o tratamento. Observa-se que possuem um olhar para a instituição (hospital, médicos, psiquiatras, psicólogos, enfermeiros,) como a provedora de seus tratamentos, em que projetam as carências a serem supridas tanto físicas, como psíquicas e espirituais, com maior intensidade embora nem todas sejam supridas, mas há uma busca continua de preencher as lacunas que as necessidades bio-psíquico-sociais e espirituais que carecem, de forma consciente /e ou inconsciente.

Observei a continua busca da atenção a de uma escuta um tanto diferenciada, ou seja, mais atenta e um olhar mais global, como ser bio-psíquico-social-espiritual. Estas dimensões aparecem gritantes, apresentadas de forma delicada e solicitadas de forma gentil. Com o intuído de amenizar o sofrimento psíquico emocional, físico, as angústias, os medos e a solidão no sentido de que viveram determinadas situações de sofrimento, passa-se pela vivência de momentos de solidão interna, e isto faz com que o paciente busque a ajuda do médico e do psicólogo.

O ponto que mais chama atenção à pesquisadora é o cuidado singular do usuário do SUS; Pois percebeu uma carência na escuta da singularização dos pacientes, das necessidades singulares, para que lhes possibilite o processo de ressignificação de suas vidas, frente às situações da própria doença, de mudança e/ou de aceitação do que não é possível mudar. Como assinalava Frankl, ” Todos os seres humanos têm sentido de vida, mas nem todos o descobriram”. Muitos procedimentos, já são realizados e com um olhar para melhorar a eficiência e atendimento dos usuários do SUS.

Frankl gostava de apresentar este fato: Um homem encontra na rua um médico de família que lhe pergunta sobre o seu estado de saúde. Imediatamente o médico percebe que o paciente demostra alguma dificuldade de ouvir. “Provavelmente, você está bebendo demais. Pare de beber e se sentirá melhor”, aconselha. Alguns meses mais tarde, os dois se encontram novamente na rua e, para saber do estado atual de saúde do paciente, o médico levanta a voz, mas o homem responde: “Não há necessidade de gritar, doutor. Eu escuto perfeitamente”. “Certamente você parou de beber, não é? Continue nesse tratamento”. Depois de mais um tempo, eles se encontram pela terceira vez. E, novamente, o médico precisa levantar a voz para se fizer ouvir. “Provavelmente, você começou a beber de novo”, diz ao paciente. E este lhe explica: “Veja doutor. Antes eu bebia e a minha audição era ruim. Depois, parei de beber e estava me sentindo melhor. Mas o que eu sentia não era tão bom quanto o uísque”.

“Na ausência de um sentido da vida, cuja realização o teria feito feliz, ele tentou chegar a um sentimento de felicidade eludindo toda realização de significado, apoiando-se num elemento bioquímico. O sentimento de felicidade, que normalmente nunca é proposto como o fim da aspiração humana, mas parece ser uma manifestação lateral do ter-alcançado-o-próprio-escopo, um “efeito” secundário, se deixa ‘perseguir’, e isso foi possibilitado justamente pelo álcool etílico” (Frankl, 2005, pág. 17).”

Segundo Cecilio, L.C. O etal; O trabalho da saúde é uma arte, arte da escuta, do encontro e da troca. O autor faz menção às tecnologias duras, ligadas aos equipamentos, as tecnologias leves-duras, ligada aos saberes profissionais, e as tecnologias leves, ligadas ao encontro. (pg. 18). Destas tecnologias a mais importante é a tecnologia leve, chamada de “relacionadas”, pela escuta, pelo vínculo e pelo profissional. Esta deveria comandar as demais, sendo que todas as tecnologias relatadas são importantes quando usadas no momento certo.

Desta forma, acredita-se que o SUS, pode economizar diminuído pedido de exames desnecessários, receitas medicamentosas desnecessárias, pode-se economizar em consultas e tornar o atendimento mais dirigido, economizar em tecnologias duras, se a tecnologia leve gerenciasse mais todas as outras e devolver qualidade de vida para os pacientes e para os profissionais da saúde.

Percebi a solicitação de demanda da escuta do sofrimento psíquico muito mais que a dor física, que pode ser suprida pela medicação, pelo alívio da dor, mas a dor da alma, não há medicação que alivie. Por exemplo, as queixas pela incompreensão familiar, a falta de recursos, a falta de quem os cuide nas horas críticas, o esquecimento, não tem com quem contar e poder expressar seus sentimentos e sofrimentos, não podem se queixar com quem os rodeiam, sem sentem incompreendidos, ou para não causar sofrimento aos familiares se contém no silêncio do seu ser. A escuta é uma tarefa é o caminho para a abertura do encontro com a originalidade do outro, com sua história, sua cultura, crenças, doença, saúde, sucessos, insucessos, frustrações, depressões, ansiedades. A sociedade em que vivemos globalizada e individualizada, e, sobretudo informatizada com tanta tecnologia, porém falta o interlocutor que escute com sabedoria. O ser humano continuará “ser humano”, diante de tantas tecnologias avançadas.

O que tange urgente na saúde pública é criar um serviço de escuta humanizada, não para resolver problemas, mas simplesmente ouvir e escutar, já se torna solução para muito problema, pois permite a elaboração da dor, seja física e /ou psíquica, permite a melhora na qualidade de vida dos mesmos, o melhora no raciocínio, na atenção, na autoestima, na tomada de decisões, sobre si mesmos e diante das adversidades da vida. Bem como passam a cuidar-se melhor há mudar hábitos, comportamentos e melhora a saúde também.

A melhora emocional acalma a ansiedade, ou seja, o equilíbrio emocional faz a diferença para o alívio de sintomatologia, o físico passa a reclamar menos pela diminuição dos sintomas, começa a sentir-se mais motivação e disposição, coragem para continuar a viver, aceitando o que não pode ser mudado e mudar o que for possível.

O vínculo

É um encontro intersubjetivo, ou seja, o encontro de sujeitos que de empatia e troca, este vínculo pode dar-se além do encontro profissional X paciente, mas através de um profissional ou equipe responsável. (p. 19-19). Bem como o realce do vínculo afetivo destes sujeitos com a instituição da saúde. e dos profissionais.

A profissional pode perceber nos vários anos de atendimento ao SUS, através das várias pesquisas, Pacientes com Câncer de Cabeça e Pescoço, Pacientes com Epilepsia Refratária; familiares acompanhantes de pacientes, o quanto os pacientes depositam confiança o seu vínculo com profissionais, seja o vínculo da confiança, da esperança, do ponto de referencia, do desejo da cura, que os escutem na sua singularidade e da busca de sentido para a vida e para seu sofrimento e angustias de modo a sentirem um referencial para prosseguir vivendo com confiança, .cada um com suas necessidades específicas, como assinala Hisada, S. (2011) cada sujeito tem um modo de viver e adoecer. O tipo de doença e a época da vida em que ela se manifesta tem relação com a história; com a natureza dos seus conflitos intrapsíquicos e com a forma de lidar com eles. Este tempo, não deixa de ser um tempo de amadurecimento, que leva a mudanças de hábitos, e do sentido da existência.

Para Cecílio, “as pessoas produzem mais de um vínculo dentro do Sistema de saúde, a partir das necessidades singulares de cada paciente, e estes vínculos são rostos que o sistema de saúde vai assumindo para cada sujeito”. O serviço de saúde que não produz vínculos é um sistema sem rosto, impessoal. O vínculo é antes de tudo uma relação de confiança diferente do cuidado e do vínculo embora interligados, um não age sem o outros. Portanto o vínculo, é antes de tudo uma. Necessidade de saúde, enquanto que sem vínculo as necessidades de saúde não serão bem atendidas. (p. 18,19, 20).

Às vezes me perguntava. Será que os organizadores da instituição do SUS, os profissionais, sabem do quanto os pacientes valorizam o Sistema Único de Saúde? Muita coisa boa já se realiza, mas resta ainda mais. Acredito que a principal e urgente é a escuta de seu sofrimento, de suas queixas, evidente que o médico não tem tempo para isso, devido à demanda, mas acredito em um campo que se pode abrir para escutar e ouvir, de modo que isto com certeza produziriam um complemento na recuperação e qualidade de vida dos mesmos e menos sintomatologias.

A importância da Autonomia pessoal do paciente, no sentido de ter a capacidade para a recuperação, através da criatividade, e retornar a vida cotidiana diante dos problemas da saúde, seja física e /ou emocional apesar das diversidades, ou seja; produzir sentidos diferentes para suas vidas, esta mudança se dá através do vínculo e da confiança no profissional, para isto assinala-se a escuta dos profissionais, na ausência desta escuta e da percepção da confiança do paciente para com o profissional, a relação paciente e profissional torna-se mecanicista. Muitas vezes prescreve-se um montante de exames, que são necessárias, mas Parece que a escuta fica na relação com exames e não com o paciente, usando só a tecnologia dura, quando a tecnologia leve deve caminhar junta, a tecnologia dura é o complemento, é a prevenção.

Acredito que o vínculo acontece desde uma marcação de consulta até o tratamento nas diversas tecnologias que necessita passar para que o tratamento se efetue, não podemos esquecer que a tecnologia leve esta ligada a escuta e ao profissional, que religa ao encontro, e esta é a mais importante e deveria reger todas as outras tecnologias, já mencionadas anteriormente.

A tecnologia leve esta relacionada ao encontro, esta gera o vínculo com o componente, afetivo, amoroso, e confiante. O verdadeiro vínculo é de natureza terapêutica, em especial quando, desperta e produz uma postura de mais autonomia dos pacientes, despertando, nos mesmos a adesão do paciente ao tratamento como; mudanças de comportamento e hábitos, novos modos de cuidar a si mesmo, diante da doença, obtendo maiores resultados terapêuticos.

Encontro psíquico: Apresentação de alguns relatos

Serão omitidos, nomes para manter a privacidade.

Caso 1 – Relata uma paciente: depois que comecei a ser escutada através da psicoterapia, eu tinha quatro nódulos, hoje tenho três e após um período curto realizou novos exames novamente e dizia estou feliz que tenho dois nódulos, após mais um tempo curto dizia agora realizei novos exames e só tenho um nódulo bem pequeno. O que significa isso? Para minha surpresa foi muito bom ouvir isto, mas sabemos que certos nódulos ou tumores, que aparecem causados por motivos emocionais, um tratamento correto de ambas as partes seja da medicina dura para prevenção integrada com uma terapia de acolhimento das emoções feridas, do olhar para o foco da causa, o efeito pode levar a cura através da elaboração da dor psíquica, e o despertar para o olhar para a vida com mais positividade e a olhar de frente para as situações dolorosas que a vida pode apresentar. Pude fazer esta experiência neste tempo.

Caso 2 Um paciente sentia tanta raiva em seu ser, e expressava certa rigidez física e mental, a ponto de não aguentar mais a si mesmo de tanta raiva. E dizia sinto ódio de tal pessoa porque causou minha separação, e bateu sobre a mesa com força de forma a descarregar toda raiva. Foi um momento singular de escuta desta paciente em que pode colocar e expressar toda essa carga emocional tão intensa, aos poucos a rigidez muscular foi soltando-se as couraças, e pode elaborar sua raiva e sua dor emocional bem como a frustração da separação.

Caso 3 – Paciente chegou com a língua enrolada de tanta medicação, quando chegou ao atendimento parecia abobado de tanta medicação, andava pela sala, falava sem conexão. Ao iniciar a psicoterapia, e indicada ao psiquiatra que reajustou a medicação, para a surpresa, em um mês a paciente retornava a sessão de psicoterapia sozinha e em seguida iniciou curso de computação e arrumou namorado. E a vida seguiu.

Caso 4- Paciente chegou com indicação de internação, também apresentava estar com excesso de medicação, porém não aceitou a internação e como profissional não poderia não aceitar a prescrição médica, foi então que junto a familiares conversamos e decidimos com eles a buscar escuta-la, qual a sua dor emocional para estar naquela situação, cada semana foi demonstrando elaboração do pensamento e da situação. De fato em um mês com a reorganização da medicação, já era outra pessoa. E a internalização não foi necessária.

Caso 5Dizia o paciente, sinto muita dor e não tem quem me ajude quem faça a alimentação, não tenho quem me cuida, não consigo mais me cuidar… E outro Sujeito, eu gostaria de morar com meu filho, mas não tenho coragem de falar com ele. Perguntei-lhe se gostaria de conversarmos juntos com o seu filho sobre isso?  Respondeu que sim, convidei o filho a entrar na sala, pois estava aguardando-a na sala de espera, o filho entrou, sentou-se e me dirigi a paciente, lhe perguntando: o que a senhora gostaria de falar para seu filho. Ela mudou a posição que estava sentada e voltou-se mais próxima ao filho e lhe disse: Filho eu gostaria de morar com você na sua casa não consigo mais ficar assim, morar sozinha não dou conta de me cuidar. E o filho abraçou a mãe e lhe disse, hoje mesmo pode vir às portas estão abertas. Os dois se abraçaram e se acolheram mutuamente, foi uma decisão emocionante e de alívio para esta paciente que há muito tempo queria realizar este sonho e vontade. A escuta, o cuidado e a o exercício da profissão atento, possibilita aso pacientes vários tipos de alivio e de decisões frente avida e aos sofrimentos, de suas cargas pessoais e de suas histórias, passando a sentirem-se acolhidos, confortados, confiantes, e, sobretudo encontram um ponto de referência seja através do profissional com quem deposita confiança e vinculo, ou seja, do referencial familiar.

Caso 6 – Paciente esquece-se da consulta, esquece devido o problema de saúde, que já é esquecimento e retorna para remarcar, mesmo assim não é remarcado, é solicitado ao paciente retornar outro dia. Esta atitude revela o não ouvir e nem escutar o paciente, nada custa remarcar, pois é tolerável devido que estes pela própria situação de esquecimento pediu para retornar não colabora na saúde destes pacientes, vêm de longe, dificuldades financeiras e de saúde, isso me intrigava ao ver esta situação. Pode ser não atendido no mesmo dia, porém a remarcação seja efetuada, isto é negar a confiança, e quebrar o vínculo, pois o paciente confia que ira ser marcado por entender a sua situação pessoal, de esquecimento, como seu problema que faz parte de seu tratamento. A negação colabora no adoecimento, no desconforto que o paciente possa sentir, emocionalmente, volta para casa descontente, gastou sua passagem por vezes nem se alimentou, e precisa retornar para remarcar, e sua mente fica a mil sem entender porque não remarcou sua consulta. E muitas vezes incompreendido por seus familiares que não entendem também o problema.

Caso 7- Paciente relatava: Eu gosto de conversar com você, porque você é diferente, o que você fala é diferente de outras pessoas, porque parece que falam como se quisessem que eu morresse logo, O seu modo de falar me ajuda a vencer, você é diferente, me anima a viver até aonde posso chegar, confio em Deus também.

Diante destas falas observa-se o vínculo, a escuta e o encontro, ao mesmo tempo em que o paciente falava de um medo da morte. É neste momento que o vínculo favorece o alento diante da finitude, pois esta paciente sofria de um câncer grave.

Observei que nas entre linhas da s falas dos pacientes há sempre uma menção ao espiritual voltado a Deus. Neste sentido Koening, H.G. (2004. pg. 1194ss) comenta que o tema da espiritualidade, traz presente o que há de mais sagrado no ser humano, como afirma Okom (2005; pp392-414), que “os pacientes querem ser tratados como pessoas e não como doença, e serem observados como um todo, incluindo as quatro demissões; físicas, psíquicas emocionais, espiritual e social. Ignorar uma destas demissões torna a abordagem do paciente incompleta”.

Mais que prescrever medicação embora seja necessário em alguns casos, a escuta é fundamental, caso contrário à medicação anestesia e quando recebe alta da medicação a raiva, a depressão, a ansiedade continuam com os mesmo efeitos, portanto integrar medicação e psicoterapia e a reelaboração das situações e do pensamento, só assim tratamento médico terá mais possibilidade de recuperação mais rápida. Médico, psiquiatras, e psicólogos, são profissionais de importância tal os quais trabalhar junto para o complemento do tratamento integral a saúde física e mental.

Esta atitude profissional tanto dos médicos como do psicólogo, o saber trabalhar juntos, acredito que resolveria muitos problemas de menos custos e mais investimento em profissionais da tecnologia leve que carece muito, e a demanda deste serviço também é muito. O preparar e formar profissionais da escuta, pois os pacientes trazem muitas queixas, sintomas, ligados às necessidades de escuta muito mais do que de medicação. Sintomas revelam algo que não esta bem, fisicamente ou emocionalmente, e o suporte e a escuta psicológica dos sintomas, facilitara ao médico o diagnóstico mais preciso e mais rápido, contendo gastos com tantos exames desnecessários e seriam resolvidos através da escuta profissional e humana.

O Encontro Psíquico

O fato de o paciente estar adoecido, mecanismos inconscientes aparecem para se defender e para se adaptar de forma contínua, e são estes mecanismos que se não estiverem integrados de forma positiva causarão mais problemas à saúde, pois estão diretamente ligados ao emocional. Os mecanismos inconscientes mais acentuados nestas situações são os da regressão; este facilita o paciente a retornar a feito inicial do desenvolvimento emocional, colocando-se em uma forma frágil, e de dependência, e muitos pacientes por vezes deixam de assumir e dirigir a própria vida,  falando de sujeitos em estado de adoecimento em que os pacientes ainda podem conduzir suas vidas.

Portanto a escuta na psicoterapia vai além da simples presença, que é um encontro de cooperação de interatividade; para que a qualidade de vida fortaleça a saúde psíquica e consequentemente a física do paciente.

Para Viktor Frankl, “A linguagem é mais que mera auto-expressão. A linguagem está sempre apontando para algo além dela. Em outras palavras, é sempre auto-transcendente – como a existência humana em sua totalidade” (FRANKL, 1989, p. 82.).

Ao atendermos uma pessoa no consultório de psicoterapia, estamos realmente diante de um fenômeno existencial complexo que representa um ser humano com todas as suas dimensões de operacionalidade e de existência ou vida. Na verdade, o que vemos desta pessoa são suas ‘projeções’ nos vários planos ôntico ou do ‘ser-no-mundo’ e, a partir deles, procuramos nos aproximar do ‘ser espacial’, único e multifacetado que se apresenta com toda a sua problemática existencial, sintomatológica e social (RODRIGUES, 1991, p. 110).

Diante do vazio existencial em que a sociedade vive atualmente, está fundamentada no niilismo singular de cada pessoa, que tem como característica a ausência do sentido da vida, ou seja a perda dos referenciais e da singularidade da existência do ser humano. (Frankl, 2008, pag. 131)

Muitos dos adoecimentos, muitas vezes são adoecimentos por necessidades  de carências  emocionais, física, e afetivas, que por dirigirem suas vidas sem apoio e sentindo-se sós em remar o mar da vida, em dado momento adoecem, e carecem deste cuidado, o adoecimento passa a ser  uma necessidade de cuidado, de alguém em quem possa falar, ser escutado, ouvido, e este sujeito, passam a ser os médicos, nas várias abordagens, o psicólogo, aqui entra os cuidados da medicina dura e da medicina leve.

O profissional que fara parte de sua cura, será o que fizer uma aliança, ou seja, o que dará apoio nos momentos de insegurança, desamparo, que passa a ser um ponto de referência, e isto ajudara o sujeito a seguir as prescrições médicas para a sua cura.

Muitos pacientes usam os mecanismos inconscientes como a negação, usado para defender-se dos sentimentos dolorosos, isto acontece quando algo ameaça a percepção do real, como o trauma

Sendo o segundo mecanismo de defesa, é o da racionalização, que segundo Laplanche e Pontalis (1970) é o processo pelo qual o sujeito procura uma explicação do ponto de vista lógico, para uma ação ou ideia e/ou de um sintoma. Ou trauma.  Este mecanismo não permite ao sujeito perceber sua realidade de doente, não tem condições de elaborar sozinho, e devido a isso outros problemas aparecem como, ansiedade, insônia, diarreia. entre outros sintomas psicossomáticos.

Diante dos estados de adoecimento, é mais frequente que os sujeitos desenvolvam reações ansiosas, depressivas, baixa autoestima, pois, essa situação os impede de realizar por vezes tarefas cotidianas, desânimo, tristeza, negatividade, falta de esperança. È neste ponto que a autora percebe a importância da escuta para poder dar “Holding”, ou seja, como winnicott descreve, ou seja, o cuidado com o qual se sintam protegidos e o ambiente seja de empatia, confiável, esta é uma atitude que os pacientes esperam dos profissionais da saúde.

Conclusão

Esta experiência como voluntária favoreceu em muito a instituição, bem como possibilitou grande aprendizagem e desenvolvimento de habilidades, principalmente para os pacientes da instituição que sempre demonstraram o desejo e a busca de serem ouvidos e escutados em seus sofrimentos físicos e emocionais, demonstrando-se sempre muito beneficiados por esta possibilidade de Escuta.

Agradeço a confiança depositada de cada paciente na sua singularidade.

Minha Eterna gratidão aos Professores Drª Andrea P. Jackowski Ph.D.

Ao Professor Dr. Gerardo Maria Araújo Filho, Ph.D. Por terem me acompanhado nesta trajetória, de estudos e pesquisa e orientações do próprio percurso.

Bibliografia

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http://www.institutogeist.com.br/artigos/o-desafio-do-sofrimento-segundo-o-pensar-de-viktor-frankl/ (visitada em 29/04/2018)

[1] Universidade Federal de São Paulo –Escola Paulista de Medicina- UNIFESP- Brasil. Departamento de Psiquiatria, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, Brasil.

[2] Universidade Federal de São Paulo –Escola Paulista de Medicina- UNIFESP- Brasil. Departamento de Psiquiatria, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, Brasil.

[3] Universidade Federal de São Paulo –Escola Paulista de Medicina- UNIFESP- Brasil. Departamento de Psiquiatria, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, Brasil. Departamento de Neurologia e Neurocirurgia, Universidade Federal de São Paulo, São Paulo, Brasil. Departamento de Psiquiatria e Psicologia Médica, Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (FAMERP), São Paulo, Brasil.

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