A influência da hidratação adequada no rendimento de um atleta de futebol durante uma partida

0
440
DOI: ESTE ARTIGO AINDA NÃO POSSUI DOI SOLICITAR AGORA!
PDF

ARTIGO DE REVISÃO

SILVA, Priscilla Mariane Pereira da [1]

SILVA, Priscilla Mariane Pereira da. A influência da hidratação adequada no rendimento de um atleta de futebol durante uma partida. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 05, Vol. 08, pp. 121-127. Maio de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/nutricao/hidratacao-adequada

RESUMO

Manter uma hidratação adequada durante uma partida de futebol é um importante fator no que diz respeito ao desempenho do jogador na partida. Neste artigo, pretende-se averiguar as possíveis alterações trazidas para a atuação de um atleta que não consegue se hidratar corretamente no jogo. Observou-se que um jogador pode ter seu desempenho melhorado quando este ingere uma quantidade adequada de água, carboidrato e eletrólitos ao longo dessa atividade. Porém, é importante observar que a absorção destes pelo organismo é limitada pela taxa de esvaziamento gástrico e pela absorção intestinal, podendo vir a atrapalhar o consumo ideal na partida. Há algumas maneiras de diminuir um possível quadro de desidratação. Dentre elas destaca-se o aumento da disponibilidade ou oportunidades dos jogadores se hidratarem por mais vezes durante os jogos, pois é necessário repor as perdas hídricas ocorridas para não acarretar um baixo desempenho. Sendo assim, o futebol é um esporte com características bastante peculiares: há apenas uma pausa obrigatória (aos quarenta e cinco minutos de jogo corrido), na qual os jogadores poderão se hidratar. Deve-se ter uma preocupação em educar os jogadores em relação à importância da ingestão de líquidos de 15 a 20 min durante uma partida de futebol para a melhora do seu desempenho e prevenção da desidratação.

Palavras-chave: Hidratação, futebol, termoregulação.

1. INTRODUÇÃO

Durante a realização de uma atividade física ocorre a diminuição do líquido corporal e esta perda hídrica consequentemente pode vir a acarretar a desidratação. Essa desidratação implicará de forma proporcional na capacidade de redistribuição do fluxo sanguíneo para as áreas de maior necessidade durante o exercício físico e, assim, o desempenho do jogador durante o jogo irá diminuir (LETIERI, 2012). A hidratação durante uma partida de futebol, as consequências decorrentes da desidratação e a sua prevenção constituem o foco da presente revisão bibliográfica. A indicação do nível de desidratação que se encontra o jogador pode ser obtida por meio da observação do seu peso corporal.

Deve-se realizar a averiguação antes de iniciar a partida e após o jogo, porém a quantidade de informação à respeito da perda de peso deste atleta de futebol durante o treinamento e a competição é limitada. Alguns estudos reportam que a perda de líquidos via suor durante uma partida varia de 1 a 3,5 litros (MONTEIRO et al, 2003). Durante o jogo, a frequência cardíaca do atleta aumenta e o volume de ejeção diminui, em proporção ao déficit de fluidos que ocorre com o esforço. Mesmo em uma desidratação leve (um por cento da massa corporal, por exemplo) haverá o aumento do esforço cardiovascular. Tal fenômeno pode ser observado a partir da elevação desproporcional da frequência cardíaca (FERREIRA, 2009).

A hipertermia (elevação da temperatura corporal) ocasionada durante o esforço, acarreta, imediatamente, na capacidade de transferência do calor dos músculos que se encontram em contração durante o exercício para a superfície da pele (onde é dissipado para o ambiente, em forma de suor), podendo provocar, então, um déficit hídrico corporal, reduzindo o desempenho do atleta no jogo e gerando uma grande possibilidade de uma complicação relacionada à temperatura corporal vir a acontecer. Porém, caso a ingestão de líquidos na partida seja a adequada, não haverá uma diminuição no débito cardíaco e o volume de ejeção permanecerá o ideal, prevenindo, com isso, uma possível desidratação (MACHADO, 2006).

Logo, a maior ingestão de líquidos durante o jogo pode atenuar o desenvolvimento da hipertermia, já que o fluxo sanguíneo será mantido, sem alterações, de forma regular, na pele. Nota-se que o esforço será mais bem percebido em proporção ao déficit de líquidos. Em Teixeira (2006), fala-se que mesmo quando há uma parcial reposição, em um exercício de intensidade elevada, já se percebe uma alteração negativa na percepção subjetiva do esforço pelo atleta, o que torna a hidratação regular de suma importância.

Levando-se em consideração que o futebol é um esporte que tem poucas pausas obrigatórias para hidratação (apenas após quarenta e cinco minutos de jogo corrido é que ocorrerá a primeira pausa obrigatória), iremos averiguar as possíveis alterações trazidas para a atuação de um atleta que não consegue se hidratar corretamente em um jogo. Sabendo-se que os mesmos têm pouco acesso à essa informação, a pesquisa visa contribuir com a melhoria no desempenho dos atletas de futebol.

2. A INGESTÃO DE LÍQUIDOS NO JOGO

O futebol é diferente de outras modalidades de desportos coletivos (como handebol e basquete) em termos de hidratação por não haver muitas pausas regulares que permitam uma melhor hidratação por parte dos atletas ao longo da partida. O futebol apresenta dois tempos de jogo e uma única pausa, após quarenta e cinco minutos. Sendo uma modalidade na qual os jogadores percorrem aproximadamente 11 quilômetros durante a partida, estes deveriam se hidratar com uma maior regularidade. (GUERRA, 2004). Devido à falta de pausas que permitem o consumo regular de líquidos, os jogadores não terão uma maior ingestão voluntária, ocasionando um balanço hídrico prejudicado, e, geralmente, a quantidade consumida corresponde somente a 50% da perda de líquidos, oriundas do suor.

Conforme Guerra (2004), enquanto não ocorrerem mudanças no regulamento para ampliar os momentos de hidratação dos atletas durante os jogos, deve-se aproveitar todas as que surgirem para se hidratar. Segundo Cruz, Cabral e Marins (2009), esta hidratação inadequada pode estar relacionada à um baixo conhecimento dos atletas sobre a quantidade ideal de reposição hídrica durante o exercício. Além de estar associado às regras do futebol, a pouca ingestão de líquidos também pode desencadear a intolerância gastrointestinal, pois o jogador não se hidrata muito em uma única vez, por causa do desconforto (sentir-se empanturrado) e pelo volume de esvaziamento gástrico (possível necessidade de urinar, caso haja grande quantidade de líquido ingerido). Assim, não há a hidratação adequada no jogo (GUERRA 2004).

A hidratação é um fator importante que deve ser considerado antes, durante e depois do jogo. A ingestão de líquido ao longo de uma partida é essencial para a manutenção da termorregulação (necessidade do organismo em manter a temperatura corporal próxima dos valores de repouso, cerca de 37ºC), já que a prática desta atividade proporciona a elevação da temperatura corporal e se a quantidade de líquidos ingeridos não for reposta de maneira eficiente, irá afetar a capacidade de realizar tarefas, influenciando significativamente no desempenho do atleta (MACHADO, 2006). Deve-se, ainda, consumir líquidos constantemente, em pequenas quantidades e em intervalos regulares para manutenção da temperatura corporal.

Este consumo, conforme Pinto (2014), é importante para não interferir no esvaziamento gástrico e, também, para repor toda a água perdida via suor. Guerra (2004) apud McGregor et al (1999), em seu estudo, verificou as consequências de uma adequada ingestão de líquidos no desempenho de habilidades específicas do futebol durante um protocolo de 90 minutos que simulava um jogo. Foram estudados 9 jogadores semiprofissionais do sexo masculino, com idade média de 20,4 anos e peso médio de 73,2 kg. Eles foram alocados em 2 grupos: os que ingeriram líquidos e os que não fizeram a ingestão. Imediatamente antes do jogo, o primeiro grupo consumiu 5ml/kg de peso corporal de água flavorizada e depois a cada 15 minutos de exercício houve a ingestão de 2ml/kg de peso corporal desta mesma solução.

Concluiu-se que o grupo que não ingeriu líquido durante o experimento obteve uma deterioração de 5% no desempenho das habilidades específicas de um jogador de futebol. É interessante, também, que o líquido consumido durante a partida contenha carboidrato, pois ele ajudará a inibir o aparecimento da fadiga, além de acarretar o aumento da concentração deste e de retardar o esvaziamento gástrico, oferecendo vantagens ao exercício, pois previne a queda da glicemia, estimula a absorção de líquidos e eletrólitos e aumenta a palatabilidade (AMERICAN COLLEGE OF SPORTS MEDICINE, 1996).

Outro fator importante a ser considerado pelos atletas dessa modalidade seria a presença de eletrólitos, principalmente o sódio, uma vez que auxilia no processo de hidratação, melhorando, dessa forma, o sabor, além de, inclusive, aumentar a absorção de glicose e água, reduzindo, então, os riscos de hiponatremia (transtorno metabólico causado pelo desequilíbrio hidroeletrolítico no organismo) e contribuindo para a manutenção da osmolaridade plasmática (concentração de íons que podem causar desidratação), além de atenuar a perda de massa corporal pós jogo (LIMA et al, 2007).

A ACMS (1996), frisa, também, que as bebidas isotônicas disponibilizam carboidrato, eletrólitos e água, sendo, portanto, o seu consumo importante antes e depois de competições e treinamentos, pois, a partir dessa ingestão, pode-se evitar a depleção e, também, acelerar o processo de recuperação pós-exercício. McArdle et al (2013) apontam, em sua pesquisa, que uma pequena quantidade de sódio presente em uma bebida esportiva torna possível uma reidratação mais completa do que com água potável, ocasionando, dessa forma, a retenção do líquido ingerido pelo corpo (SILVA GOMES, 2004).

2.1 AS CONSEQUÊNCIAS E A PREVENÇÃO DA DESIDRATAÇÃO

Deve haver uma avaliação do estado de hidratação para saber como está o nível de desidratação do atleta e até mesmo para que a recomendação do consumo de líquido se torne mais individualizada, respeitando a individualidade biológica de cada um (MATA GODOIS, 2012). Uma maneira de fazer uma avaliação para saber o estado de desidratação do atleta depois do jogo ou treino é pelo peso corporal deste, calculando-se a diferença obtida entre o pré e o pós exercício, sabendo-se, assim, o estado de desidratação ocorrido (MACHADO, 2006). Existe outra forma de se saber a estimativa da hidratação corporal que é a análise da coloração da urina. Machado (2006) alude que essa escala apresenta uma correlação entre a densidade  e a osmolalidade da urina e a relação destas com a osmolalidade plasmática.

Em Carmo (2004), verifica-se que os sinais e sintomas da desidratação podem ser conhecidos. Quando o atleta estiver desidratado de forma leve a moderada, ele poderá apresentar fadiga, perda de apetite e sede, pele vermelha, intolerância ao calor, tontura, oligúria e aumento da concentração urinária. Quando desidratado de maneira severa, pode ocorrer dificuldade para engolir, perda de equilíbrio, a pele pode se apresentar murcha, os olhos afundados e a visão fosca, disúria, pele dormente, delírio e espasmos musculares. Esta pesquisa bibliográfica foi realizada a partir de referenciais teóricos, sendo, então, baseada em um levantamento de publicações já existentes sobre o tema “hidratação no futebol e alto desempenho”.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante do que foi estudado e apontado por este estudo, pode-se considerar e concluir, com base nas contribuições da literatura abordada, que o futebol é um esporte com características bastante peculiares em relação à hidratação e essas devem ser apresentadas aos atletas, principalmente pelo fato de não possuir pausas regulares para que os jogadores possam ingerir líquidos nos jogos. É necessário que haja uma educação com ênfase na ingestão de líquidos de 15 a 20 minutos durante a partida por ser extremamente benéfico ao jogador, já que irá minimizar os efeitos da desidratação. Com a desidratação o desempenho pode diminuir.

Para evitar que isso ocorra, a mais eficiente proposta de hidratação é a combinação de água, carboidrato e eletrólitos. Para dezenas de estudiosos essa é a fórmula ideal. Além da presença destas substâncias, deve-se levar em conta, também, as condições climáticas no dia do jogo para saber qual a quantidade ideal de líquidos a ser ingerida. Por fim, sabe-se que o estado de hipohidratação gera consequências negativas, podendo ser determinantes no desempenho do jogador. Para evitar que isso ocorra, é necessário educar os jogadores e técnicos em relação à importância da hidratação em uma partida de futebol.

REFERÊNCIAS

AMERICAN COLLEGE OF SPORTS MEDICINE. Position stand: exercise and fluid replacement. Official Journal of the American College of Sports Medicine, v. 29, p. 1-7, 1996.

CARMO, F. F. D. et al. Volume de água ingerida ad libitum e volume de suor produzido durante um exercício submáximo e prolongado realizado em ambiente quente e seco. In: XIX Reunião Anual da Federação de Sociedades de Biologia Experimental (FeSBE), 2004.

CRUZ, M. A. E.; CABRAL, C. A. C.; MARINS, J. C. B. Nível de conhecimento e hábitos de hidratação dos atletas de mountain bike. Fitness & Performance Journal, v. 4, n. 2, p. 79-89, 2009.

FERREIRA, F. G. et al. Nível de conhecimento e práticas de hidratação em atletas de futebol de categoria de base. Revista Brasileira Cineantropom Desempenho Hum, v. 11, n. 2, p. 202-209, 2009.

GUERRA, I. P. de. L. R. Efeitos de diferentes protocolos de hidratação e de reposição de carboidrato no desempenho de jogadores de futebol (OU) Efeitos de diferentes estratégias de reposição de líquidos e de carboidrato no desempenho de jogadores de futebol. 2004. 92f. Tese (Doutorado em Nutrição) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2004.

LETIERI, R. V.; FURTADO, G. E.; LETIERI, M.; Exercício físico, reposição hidroeletrolítica e a desidratação em atletas: mecanismos e consequências. Revista digital, Ano 17, n. 175, dez. 2012.

LIMA, C. de.; MICHELS, M.F.; AMORIM, R. Os diferentes tipos de substratos utilizados na hidratação do atleta para melhora do desempenho. Revista Brasileira de Nutrição Esportiva, v. 1, n. 1, p. 10, 2007.

MACHADO, M. et al. Hidratação durante o exercício: a sede é suficiente. Revista Brasileira de Medicina e Esporte, v. 12, n. 6, p. 405-409, 2006.

MATA GODOIS, A. da. et al. Perda hídrica e prática de hidratação em atletas de futebol. Revista Brasileira de Medicina do Esporte, v. 20, n.1, jan./fev. 2014.

MCARDLE, W.; KATCH, F.; KATCH, V. Fisiologia do exercício: Energia, nutrição e desempenho humano. Rio de Janeiro: Editoria Guanabara, 1998.

MONTEIRO, C. R.; GUERRA, I.; BARROS, T. L. Hidratação no futebol: uma revisão. Revista Brasileira Medicina Esporte, v. 9, n. 4, p. 238-242, jul./ago. 2003.

PINTO, P. Avaliação do estado de hidratação e rehidratação em atletas de futebol de ambos os sexos, de acordo com a ingestão de líquidos ad libitum, água simples e água com sal. 2014. 92f. Dissertação (Mestrado em Nutrição Clínica) – Faculdade de Medicina Universidade de Coimbra, Coimbra, 2014.

SILVA GOMES, A. I. da. et al. Aspectos nutricionais do jogador de futebol de amputados. Revista de Ciências Médicas, v. 13, n. 1, p. 51-63, 2004.

TEIXEIRA, V. H. Nutrição e performance desportiva. Fadiga e Desempenho: uma perspectiva multidisciplinar. 2006. Disponível em: http://hdl.handle.net/10216/97403. Acesso em:11 fev. 2020.

[1] Pós graduada em Nutrição Esportiva pelo Centro Universitário Internacional e graduada em Educação Física pela Universidade Estácio de Sá.

Enviado: Abril, 2020.

Aprovado: Maio, 2020.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here