A relevância de argumentar e contra-argumentar na produção textual

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ARTIGO ORIGINAL

REIS, Mayara Rocha Oliveira [1]

REIS, Mayara Rocha Oliveira. A relevância de argumentar e contra-argumentar na produção textual. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 10, Vol. 11, pp. 31-37. Outubro de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/letras/contra-argumentar

RESUMO

Próximo aos 500 a.C. devido as disputas de terra, era importante aprender a ser eloquente para que o júri fosse convencido por meio da fala/oratória. Abordar e refletir sobre a contra-argumentação na produção de textos dissertativo-argumentativos, evidenciando a importância de se utilizar essa estratégia de convencimento, uma vez que, todo argumento que não é uma verdade absoluta, pode ser refutado, é essencial. Busca-se, então, verificar a força argumentativa da contra-argumentação como uma estratégia – fundamental para o desenvolvimento de textos opinativos, por meio da análise das contribuições sobre argumentação e contra-argumentação de autores. Demonstra-se que os textos construídos com esse recurso são mais densos e tendem a serem menos refutados.

Palavras-chave: Contra-argumentação, argumentos, texto dissertativo, força argumentativa.

INTRODUÇÃO

A dissertação pode ser de caráter expositivo ou argumentativo. Em construções da fala cotidiana ou em textos produzidos em ambientes acadêmicos ou profissionais, quando de alguma forma pretende-se abordar e opinar sobre um tema específico, utiliza-se a dissertação argumentativa. Isto é, a sociedade é confrontada diariamente com fatos e evidências da vida em sociedade que os estimulam por meios de diversos olhares a construir uma opinião a respeito do “assunto” proposto. Por isso a base teórica pela qual constrói-se o posicionamento é importantíssima, já que será por meio dela que se evidencia os argumentos e busca-se a persuasão do interlocutor.

Dessa forma, com o objetivo de investigar as estratégias de argumentação que se apresentam em textos dissertativos-argumentativos, utilizando-se as bases teóricas da Linguística Textual (LT) e da perspectiva sociodiscursiva sobre a linguagem, a fim de agregar conceitos de diversas áreas para ratificar a importância da contra-argumentação como uma técnica facilitadora ao convencimento do leitor sobre aquilo que se argumenta. Em outras palavras, o propósito é o compreender que todo argumento, mesmo os genuinamente “fortes”, são pacíficos de refutação, e o leitor só fica, de fato, convencido da tese/argumentação proposta quando os contra-argumentos são facilmente desconstruídos.

Nesta pesquisa, de caráter descritivo em sua maioria, fez-se uma análise qualitativa/ revisão bibliográfica dos autores: Fiorin (2017), Elias (2014), Vieira (1665), Leitão (2007) e Anscombre e Ducrot (1998, apud FIORIN, 2017) que dizem a respeito da contra-argumentação como recurso para argumentar. Para tanto, analisa-se o posicionamento de cada um.

A finalidade desta pesquisa é propor que a estratégia contra-argumentativa fique evidenciada como parte efetiva da estrutura do texto dissertativo-argumentativo, provando que as produções textuais que se constituem dessa ferramenta possuem argumentos de difícil refutação e que têm poder de convencimento acentuado.

O trabalho tem por base o conceito de contra-argumentação, cuja premissa, segundo Fiorin (2017), é de que toda verdade arquitetada por meio de um discurso pode ser “destruída” por um contra discurso. Justamente esse contra discurso é o alvo da pesquisa.

DESENVOLVIMENTO

A linguística textual (LT) é uma corrente linguística cujo foco de estudo é o texto. Koch (2009), eminente representante da LT entre nós, assegura-nos que os textos:

por serem formas de cognição social, permitem ao homem organizar cognitivamente o mundo. E é em razão dessa capacidade que são também excelentes meios de intercomunicação, bem como de produção, preservação e transmissão do saber. Determinados aspectos de nossa realidade social só são criados por meio da representação dessa realidade e só assim adquirem validade e relevância social, de tal modo que os textos não apenas tornam o conhecimento visível, mas, na realidade, sociocognitivamente existente. (KOCH, 2009, p. 174)

O pensamento descrito é o que cabe melhor ao pensar que se produz textos como uma forma de organizar os conhecimentos sociais em formatos linguísticos, ou seja, dados selecionados, por variadas perspectivas, sobre aspectos do mundo, são gerados por meio das representações da realidade para que então sejam validados e obtenham relevância social. Essa é a operação que o discente realiza, ou deveria realizar, ao desenvolver um texto sobre um tema pré-determinado por seu professor.

Em um texto dissertativo-argumentativo, os argumentos servem para sustentar ou desconstruir um ponto de vista, com o intuito de delinear um posicionamento, uma opinião acerca de um dado assunto. De acordo com Elias (2014, p. 47), “os argumentos podem ser exemplos, qualidades, depoimentos, citações, fatos, evidências, pequenas narrativas, dados estatísticos entre outros recursos de convencimento”.

Por volta de 485 a.C., devido às disputas de terras e às expropriações com a intenção de distribuí-las aos soldados, mobilizavam-se muitos júris populares a fim de serem convencidos da justiça. Para se obter êxito, diz a retórica, era necessário estudar e ensinar ser eloquente o suficiente para que o júri fosse convencido por meio da fala/oratória.

A argumentação, então, fundamenta-se na exposição de ideias sobre determinado assunto, por meio de argumentos e explicações, tendo como objetivo central formar a opinião do leitor, ou melhor, é a busca da adesão do leitor/ouvinte à tese defendida, fazendo-se uso de marcadores linguísticos que nos permitem expressar argumentos consistentes, ou não. Para que efetivamente haja a persuasão do leitor, faz-se necessário que os argumentos (as opiniões) sejam asserções irrefutáveis, ou seja, que defendam o que seja passível de contra-argumentação.

Uma vez que, o processo de contra-argumentação é um processo histórico em que se quebrava os tabus de verdades absolutas, entendendo estas como construções sociodiscursivas influenciadas por estratégias argumentativas, passou-se a priorizar a análise dos argumentos que, nesse momento, passavam, então, a poderem ser refutados/contra-argumentados. Surgi a arte de convencer, persuadir através de argumentos selecionados, expostos e defendidos a aceitação do grupo alvo por ser a ideia mais adequada, ou mais convincente, mas ciente de que pode ser refutada. “Os argumentos são os raciocínios que se destinam a persuadir, isto é, a convencer ou a comover, ambos meios igualmente válidos de levar a aceitar uma determinada tese.” (FIORIN, 2017, p. 19). Portanto, pode-se dizer que a partir desse momento a sociedade deixa de se apropriar de verdades “ditas” absolutas e começa a inserir “ideias” que podem ser contra ditas.

Sobre essa perspectiva, Padre Antônio Vieira contribui para a importância desse processo de refutação, quando define o que é um sermão, no Sermão da Sexagésima:

(…) O sermão há-de ser de uma só cor, há-de ter um só objecto, um só assunto, uma só matéria.

Há-de tomar o pregador uma só matéria; há-de dividi-la, para que se distinga; há-de prová-la com a escritura; há-de declará-lá com a razão; há-de confirmá-lá com o exemplo; há-de amplificá-lá com as causas, com os defeitos, com as circunstâncias, com as convivências que se hão-de seguir, com os inconvenientes que se devem evitar: há-de responder às dúvidas, há-de satisfazer às dificuldades; há-de impugnar e refutar com toda a força da eloquência os argumentos contrários; e depois disto há-de colher, há-de apertar, há-de concluir, há-de persuadir, há-de acabar. Isto é sermão, isto é pregar, e o que não é isto, é falar de mais alto.

Não nego nem quero dizer que o sermão não haja de ter variedade de discursos, mas esses hão-de nascer todos da mesma matéria e continuar e acabar nela. (VIEIRA, 1665, p. 6, grifos meus)

Evidenciando, no grifo do trecho que já em 1665 entendia-se e valorizava-se o processo de contra-argumentação para mostrar como um bom pregador articula, entendendo que frente as circunstâncias e ocorrências alega que é necessário refutar e impugnar os argumentos contrários para que haja o nascimento e a permanência em mesma matéria.

De igual modo, pode-se entender que “Do ponto de vista discursivo, a presença do contra-argumento traz para o discurso uma dimensão de alteridade indispensável à ocorrência da argumentação.” (LEITÃO, 2007, p. 84). Marcando que quem contra-argumenta pretende sempre invalidar as ideias de outrem, uma vez que busca ideias contrárias as então expostas. Essas ideias podem estar explícitas no texto ou serem inferidas a partir de sua leitura, condição básica para estabelecer opinião acerca de determinado assunto e para fortalecer o argumento já materialmente expresso ou subentendido.

Mais uma evidência é a possibilidade de se colocar contra algo, que Fiorin (2017) denomina de princípio da antifonia. Esse princípio “mostra que toda ‘verdade’ construída por um discurso pode ser desconstruída por um contradiscurso, uma argumentação pode ser invertida por outra” (FIORIN, 2017, p. 23), todo discurso pode ser invertido, uma vez que o que foi feito com palavras, buscando convencer/persuadir um interlocutor, com o uso de outras palavras, pode ser desfeito, logo, qualquer argumento pode ter um contra-argumento. Ou seja, a antifonia nada mais é que pôr em oposição discursos produzidos de pontos de vista diferentes, assumindo como perspectiva uma outra realidade.

É com base na argumentação de defesa e contra-argumentação que o interlocutor será convencido ou não da tese selecionada pelo escritor. Para que a tese, argumento, efetivamente seja aceitável, e, por consequência, forte, é necessário que o outro ponto de vista, o contra-argumento, tenha uma força menor ou não seja aceitável (FRACO), a fim de validar o que se defende, convencendo o leitor. Porém, se o contra-argumento for mais persuasivo (FORTE) perde-se a tese, comprovando-se que os argumentos elegidos não são suficientemente fortes ou convincentes.

Já que o locutor constantemente julga, avalia, critica e cria juízo de valor para os fatos que o cercam, portanto, todas as suas falas são impregnadas de uma ação verbal com intencionalidade, na tentativa de fazer convencer o público ou gerar no público, ao menos, compartilhamento de algumas ideias, evidenciando a necessidade argumentativa que o homem possui desde que houve convívio social. Para Anscombre e Ducrot (1998, apud FIORIN, 2017, p. 8), “um locutor produz uma argumentação, quando ele apresenta um enunciado E1 (ou conjunto de enunciados) destinado a levar a admitir um outro (ou conjunto de outros) E2”, demonstrando que a argumentação é um fato da língua. Isto é, a ideia de comunicação não deve ser só a de um transferir de informações, como ainda é acredita por alguns, mas a de que, em todo processo comunicativo, há a busca por fazer o interlocutor aceitar o que é transmitido.

Agora, parece-nos mais fácil compreender que o modo pelo qual os argumentos elegidos de fato vão ser vistos dependerá da força de suas interações, cientes de que essas interações podem levar aceitação à tese ou podem contribuir para a construção de uma ideia contrária a que se desejava alcançar perante o leitor.

A força de um argumento reside na dificuldade em refutá-lo, além de, é claro, de suas qualidades próprias.  Uma vez que, o ato de convencer trabalha unicamente no campo da razão, buscando, com provas objetivas e raciocínio lógico, atingir um “auditório universal”; já o ato de persuadir interfere no campo da vontade, do sentimento, gerando no interlocutor inferências por meio de argumentos plausíveis, verossímeis e de caráter ideológico. A concomitância dos dois atos é o que Perelman (1970) defende como capaz de conduzir a certezas e deduções que podem levar o auditório ou parte dele ao consentimento dos argumentos expostos.

Diante desses pressupostos, é natural refletir sobre a prática de produção textual e seu lugar em meio a sociedade e a utilização nos gêneros textuais. Entendendo que a argumentação é fundamental e inevitável no cotidiano humano, além de concomitante o interlocutor se posicionar com contestações em casos de argumentos contrários aos abordados pelo locutor, ou, quando a relação entre os argumentos é suficientemente forte ou de difícil refutação, se posicionar de forma favorável e aceitável frente ao defendido.

Enobrecer a argumentação é um papel de destaque dado ao contra-argumento que de caráter geral não busca “derrubar” a tese selecionada pelo enunciador, mas sim fortalecê-la ao assegurar ao colocutor que apesar de reconhecer que há uma antítese, ela não se faz eficaz e eficiente em relação ao argumento constituidor da tese. Uma vez, que o processo contra-argumentativo confere ao discente/escritor uma sensação de retirada da “zona de conforto”, porque o enunciador possui uma visão limitada em somente conseguir expressar aquilo que acredita, “defende”, não conseguindo obter um olhar mais amplo sobre o tema proposto, refletindo-o de uma perspectiva que ultrapasse a sua própria realidade.

No decorrer do tempo, tem-se entendido mais claramente esse “individualismo” social que acaba por refletir na produção textual e na elaboração de ideias/ argumentos, uma vez que como encontra-se muito acostumado a direcionar o “mundo” ao seu redor/para si mesmo, sente uma imensa dificuldade de significar e ressignificar quantas vezes e formas forem necessárias o outro, enquanto ser humano, atitudes ou até mesmo ideologias que podem ser diferentes das que defendem. Comprometendo, assim, o processo de alteridade em que se busca encontrar relações de contrastes entendendo que estas são relações presentes em todas as sociedades e que elevam o potencial da tese do locutor.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Logo, há importância da contra-argumentação em textos argumentativos, uma vez que essa estratégia discursiva fortalece a argumentação em defesa de um ponto de vista, conferindo ao leitor uma maior confiabilidade sobre o que se defende, lançando mão – no texto que estiver escrevendo de um olhar contrário, já que socialmente tudo que não se apresenta como uma verdade absoluta é pacífico de ser refutado e até mesmo “destruído” com um outro viés discursivo, como ratifica Fiorin (2017).

É evidente que existem inúmeros modos de produzir uma dissertação argumentativa, mas se buscou marcar que a contra-argumentação é uma estratégia infalível e potencialmente promissora auxiliadora mesmo na abordagem de temas que podem causar polêmica, o que muitas vezes cria no locutor uma insegurança para expor um outro discurso, o contra-argumento.

É necessário despertar o olhar crítico sobre o que vai ao encontro dos próprios pensamentos ou ideais. A fim de desenvolver a confiança e aptidão pela utilização da estratégia argumentativa da contra-argumentação em todos os momentos.

REFERÊNCIAS

ELIAS, V. M. Ensino da Língua Portuguesa: oralidade, escrita e leitura. São Paulo: Contexto, 2014.

FIORIN, J. L. Argumentação. 1 ed. São Paulo: Contexto, 2017.

KOCH, I. G. V. Introdução à linguística textual: trajetória e grandes temas. 2 ed. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2009.

LEITÃO, S. Processos de construção do conhecimento: a argumentação em foco. Campinas, Pro-Posições,  v. 18, n.3 [54], p. 75-92, set./dez. 2007.

TOULMIN, S. E. Os Usos do argumento. Tradução de Reinaldo Guarany. 2 ed. São Paulo: Martins Fontes, 2006.

TRAVAGLIA, L. C. A caracterização de categorias de texto: tipos, gêneros e espécies. Alfa, v 51, n. 1, 2007 disponível em < http://seer.fclar.unesp.br/alfa/article/view/1426/1127 > acesso em 23 nov. 2017.

VIEIRA, A. Sermão da Sexagéssima. Sermãos Escolhidos, v. 2, São Paulo: Edameris, 1965. Disponível em < http://www.livrariapublica.com/2017/01/sermao-da-sexagesima.html > acesso em 23 nov. 2017.

[1] Pós graduada em Ensino de Língua Portuguesa e pós graduada em Linguística aplicada na educação. Graduada em Letras- Português/ Espanhol/ Literaturas.

Enviado: Setembro, 2020.

Aprovado: Outubro, 2020.

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