Schleiermacher em nova perspectiva: um único método de traduzir

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CONTEÚDO

ENSAIO TEÓRICO

SILVA, Anderson Moraes da [1]

SILVA, Anderson Moraes da. Schleiermacher em nova perspectiva: um único método de traduzir. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 07, Ed. 03, Vol. 02, pp. 169-194. Março de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/letras/nova-perspectiva

RESUMO

Ueber die verschiedenen Methoden des Uebersezens (Sobre os diferentes métodos de traduzir) foi um texto redigido pelo filósofo alemão Friedrich Schleiermacher para ser proferido em uma conferência na Academia Real de Ciências em Berlim. Schleiermacher neste texto, abordou e postulou alguns conceitos sobre tradução, os quais se tornaram base para outros pesquisadores desenvolverem muitas teorias e métodos. Portanto, seguindo essa linha de pesquisa, o presente artigo tem como questão norteadora: os conceitos de estrangeirização e domesticação de Venuti se trata dos mesmos conceitos sobre tradução postulados por Schleiermacher em 1813? Tendo por objetivo apresentar uma leitura do texto de 1813 no qual os principais pontos sobre tradução postulados por Schleiermacher são comparados aos conceitos de estrangeirização e domesticação de Lawrence Venuti. As análises e comparações se deram a partir das obras fundacionais de cada teórico. Para o texto de Schleiermacher, escrito originalmente em alemão, a pesquisa se baseou na tradução para português de Celso Reni Braida (2017; 2015). Para o texto de Venuti, escrito originalmente em inglês, a pesquisa se baseou na tradução para português de Laureano Pellegrin (2021). A partir dos resultados da pesquisa e análise comparada, pudemos concluir que os conceitos de estrangeirização e domesticação de Venuti não se trata dos mesmos conceitos postulados por Schleiermacher. Havendo, portanto, uma equivocada associação. Em Venuti, os conceitos revelaram características não associáveis pelo fato de suas aplicações dependerem de fatores como contexto linguístico, direção e parciais para que se alcance o efeito desejado. Características ausentes nos postulados de Schleiermacher. Ao final, foi possível estabelecer uma definição para o conceito de tradução e, também, que, em Schleiermacher, não há senão apenas um único método de traduzir.

Palavras-chave: Schleiermacher; hermenêutica; Venuti; estrangeirização; domesticação.

1. INTRODUÇÃO

O fenômeno da linguagem vem sendo objeto de reflexão e discussão entre pensadores e filósofos desde a Antiguidade. Desta forma, o fenômeno abarca um grande campo de estudos para a área do conhecimento. Para permanecermos no escopo deste trabalho consideremos, por exemplo, o clássico diálogo contido na obra Crátilo, idealizada por Platão, que se baseia em duas personagens apresentando perspectivas opostas sobre como as palavras significam. A discussão é mediada por Sócrates à medida que Hermógenes e Crátilo defendem seus pontos de vista, respectivamente, se as palavras têm seus significados de forma convencional ou natural. Ou seja, para Hermógenes o que determina o significado de uma palavra é a massa de falantes à qual ela pertence (a convenção da língua). Já para Crátilo o que determina o significado de uma palavra é a forma natural do objeto à qual ela está ligada (a natureza do objeto).

Uma abordagem atual, complexa, mais desenvolvida e igualmente célebre dessa mesma questão, encontra-se nos escritos formulados pelo linguista franco-suíço Ferdinand de Saussure no início do século XX. Saussure em seu Curso de Linguística Geral (SAUSSURE, 2012 [1916]), obra essa que elevou a Linguística a posição de uma verdadeira ciência, postula o primeiro princípio; a arbitrariedade do signo (SAUSSURE, 2012, p. 108). Ao passo que a sua narrativa se desenvolve (e aqui tomadas as devidas considerações), a discussão cratilista pode ser vista como que um pano de fundo, principalmente, quando “o contraditor se poderia apoiar nas onomatopeias para dizer que a escolha do significante nem sempre é arbitrária” (SAUSSURE, 2012, p. 109). No entanto, reconhecendo Saussure a grande instabilidade do mecanismo da língua, postula o arbitrário absoluto e o arbitrário relativo, “o signo pode ser relativamente motivado” (SAUSSURE, 2012, p. 180).

Assim, vinte é imotivado, mas dezenove não o é no mesmo grau, porque evoca os termos dos quais se compõe e outros que lhe estão associados, por exemplo, dez, nove, vinte e nove, dezoito, setenta etc.; tomados separadamente, dez e nove estão nas mesmas condições que vinte, mas dezenove apresenta um caso de motivação relativa (SAUSSURE, 2012, p. 180).

Como pode ser visto, as discussões acerca dos aspectos da linguagem atravessam séculos e ainda hoje dividem filósofos, linguistas, teóricos, tradutores e outros especialistas de áreas correlatas.

Fechando e delimitando mais a questão para o campo dos estudos da tradução, concernente a dicotomias igualmente clássicas e ainda atualmente muito vivas, o impasse acerca do significado correto que uma palavra de uma língua fonte deve ter quando passada para uma língua alvo é assunto principal nos debates teóricos sobre o fenômeno da tradução. A problemática escolha que um tradutor precisa fazer entre traduzir palavra por palavra ou sentido por sentido é tão atual, em certos casos, quanto antiga.

O debate pode ser visto nos textos da Antiguidade a partir de duas linhas de processo de tradução diferentes, mas que se alcançam pela especificidade do assunto: “Por um lado, a tradução dos textos religiosos, e da Bíblia em particular, que tem São Jerônimo como figura tutelar. Por outro, a tradução dos textos literários, na Roma antiga […]” (OUSTINOFF, 2011, p. 30-31).

Ainda em Oustinoff (2011), Cícero em seu libellus de optimo genere oratorum (46 a.C) deixa explícito uma advertência, segundo a qual não se deve traduzir palavra por palavra, e que esta será retomada por Horácio em seu Ars poetica (10 a.C). Na outra mão,

São Jerônimo escreve, em De optimo genere interpretandi: Sim, quanto a mim, não apenas o confesso, mas eu o professo sem nenhum incômodo em alta voz: quando traduzo os gregos — exceto nas Sagradas Escrituras, onde a ordem das palavras também é um mistério —, não é palavra por palavra, mas uma ideia por outra ideia que exprimo (LARBAUD, 1946 Apud OUSTINOFF, 2011, p. 31).

O apóstolo são Paulo em sua segunda epístola aos coríntios, no verso seis do capítulo três, parece ter sido a fonte da qual bebeu são Jerônimo, “[…] porque a letra mata, mas o espírito vivifica” (BÍBLIA SAGRADA, 1993, p. 214). Apesar do apóstolo São Paulo estar referindo — letra — ao conjunto de ordenanças da Lei de Moisés, com significado claramente teológico, a frase arrebata grande conceituação, principalmente, para as subsequentes discussões acerca da tradução da Bíblia durante a reforma protestante. Conforme as traduções de textos religiosos e textos da literatura clássica vão cada vez mais se expandindo, começam a surgir indagações por conceitos de tradução que possam ser capazes de dar base para as tomadas de decisão dos tradutores. É então que durante o Renascimento começam a surgir os primeiros tratados de cunho teórico voltados ao fenômeno da tradução, e tendo Étienne Dolet (1509-1546) como um dos primeiros teóricos na matéria (OUSTINOFF, 2011, p. 39).

À medida que as discussões sobre tradução progridem, os conceitos começam a expandir e a abarcar diferentes perspectivas, regras e nomenclaturas. Vemos John Dryden (1631-1700) com suas categorias de metáfrase, paráfrase e imitação. Alguns anos mais tarde, temos Alexander Fraser Tytler (1747-1813) em oposição a Dryden, em que postula seus princípios de tradução, defendendo uma fidelidade maior ao texto original. Na mesma linha, um outro grande pensador da época que contribuiu grandemente para o avanço do estudo da linguagem foi Friedrich Daniel Ernst Schleiermacher (1768-1834). Ele foi um teólogo, filólogo, filósofo e tradutor alemão renomado, que mudou, peremptoriamente, a maneira de tratar a Hermenêutica. A partir de suas ideias e conceitos foram desenvolvidas também muitas teorias e métodos sobre tradução. O seu célebre texto: Ueber die verschiedenen Methoden des Uebersezens (Sobre os diferentes métodos de traduzir) será objeto de análise nesta pesquisa, o qual será comparado com os conceitos de estrangeiração e domesticação do teórico americano Lawrence Venuti. Na obra A invisibilidade do tradutor: uma história da tradução Venuti (2021, p. 70) afirma “[…] Schleiermacher deixou claro que optava pela tradução estrangeirante […]”. Portanto, estabelecendo assim uma associação entre os conceitos, o que faz suscitar a questão: os conceitos de estrangeiração e domesticação de Venuti se trata dos mesmos conceitos sobre tradução postulados por Schleiermacher em 1813? O presente artigo tem por objetivo responder a essa questão a partir da pesquisa, análise e comparação minuciosa das obras de ambos os teóricos. A análise do texto de Schleiermacher, originalmente escrito em alemão, se deu a partir da tradução para português de Celso Reni Braida (2007; 2015) e o texto de Venuti, escrito originalmente em inglês, se deu a partir da tradução para português de Laureano Pellegrin (2021).

Como se percebe, as dicotomias acompanham o fenômeno da tradução desde a Grécia antiga até aos tempos modernos, seja em relação aos significados das palavras, seja em um aspecto mais amplo de conceituação.

2. SCHLEIERMACHER: O CONTEXTO LINGUÍSTICO DA ÉPOCA

Para que haja uma compreensão clara e objetiva ao abordar o texto Ueber die verschiedenen Methoden des Uebersezens – 1813 (Sobre os diferentes métodos de traduzir) de Schleiermacher, faz-se necessário, primeiramente, conhecer o contexto linguístico da sua época, de que forma e o que pensavam seus contemporâneos acerca do fenômeno da linguagem. Para tanto, deter-nos-emos a uma breve apresentação de alguns dos principais nomes daquele período e suas contribuições.

O francês George Steiner (1929-2020), crítico literário e professor nas universidades de Cambridge e Genebra, em sua obra denominada Depois de Babel: questões de linguagem e tradução (2005), nos diz que:

A teoria linguística se assenta decisivamente na pergunta de se a tradução, em particular entre línguas diferentes, é ou não de fato possível. Na filosofia da linguagem, dois pontos de vista radicalmente opostos podem ser e têm sido defendidos. Um afirma que a estrutura subjacente da linguagem é universal e comum a todos os seres humanos. Diferenças entre as línguas humanas são essencialmente de superfície. […] A visão contrária pode ser chamada de monadista. Ela sustenta que as estruturas profundas universais ou são insondáveis pela investigação lógica e psicológica ou são de uma ordem tão abstrata e tão genérica que se tornam quase triviais (STEINER, 2005, p. 100).

Gottfried W. Leibniz, um filósofo alemão, em 1697, ao empreender seu sistema em busca de aperfeiçoamento e correção da língua alemã, introduz um raciocínio de que a linguagem não é o veículo do pensamento, mas seu fator determinante (STEINER, 2005).

“O pensamento é a linguagem internalizada; e nós pensamos e sentimos conforme nossa língua particular nos impele e nos permite fazer” (STEINER, 2005, p. 101).

Linguagem e pensamento a essa altura era um dos assuntos principais nos círculos de debate. A partir de 1750, intensifica-se a questão se a linguagem e o pensamento são reciprocamente afetados. J.G. Hamann em seu Versuch über eine akademische frage (1760): “[…] afirma que há uma concordância determinante entre as direções do pensamento e do sentimento numa comunidade e “as características de sua língua” (STEINER, 2005, p. 103).

Conforme nos informa Steiner (2005), Hamann está plenamente convicto de que muito provavelmente nem coordenadas cartesianas de um raciocínio geral dedutivo, nem o mentalismo kantiano serão suficientes para imprimir satisfatoriamente uma explicação razoável dos processos criativos, não racionais, multiformes dos quais a linguagem dá forma à realidade e é, por sua vez, afetada pelas experiências humanas locais.

Nesta mesma época, um outro pensador que trará contribuições importantes para o debate é o filósofo alemão Wilhelm von Humboldt. Assim nos indica Steiner:

O jogo de inteligência, a sutileza de notação particular, a poderosa argumentação que Humboldt exibe dão a seus escritos sobre a linguagem, embora incompletos, uma estatura única. Humboldt é um dentre poucos de uma diminuta lista de escritores e pensadores sobre a linguagem – lista que incluiria Platão, Vico, Coleridge, Saussure, Jakobson – que trouxeram algo realmente novo e abrangente (STEINER, 2005, p. 105).

De fato, a contribuição dos conceitos de Humboldt para a linguagem foi tão importante nesta época, que ela se estendeu por gerações e foi determinante, por exemplo, para os estudiosos Benjamin Lee Whorf e Edward Sapir, que dos quais a partir de reflexões de língua como visão de mundo resultaria a tão conhecida: Hipótese Sapir-Whorf.

Humboldt tinha herdado ricos conceitos e estava cercado de um extraordinário processo psicológico e linguístico, uma enorme literatura estava sendo criada a sua volta (Steiner, 2005). Ele estudou as relações da língua com a sociedade e percebeu como a literatura poderia ser um forte instrumento para conceder a Alemanha um futuro grandioso: “Quando postulou a linguagem como o centro do ser humano, Wilhelm von Humboldt estava em posição de perceber que tal suporte deve passar informações e estabelecer relações” (STEINER, 2005, p. 106-107).

Desta forma, Humboldt, de acordo com seus estudos, certifica-se de que a língua é capaz de moldar o homem e, este projeta em seu pensamento através da língua, o seu lugar ideal no mundo e o determina. Como vemos:

Humboldt chega a uma noção-chave: a língua é um “terceiro universo” a meio caminho entre a realidade fenomênica do “mundo empírico” e as estruturas internalizadas da consciência. É essa qualidade mediadora, essa simultaneidade material e espiritual, que faz da língua o eixo definitivo do ser humano e o determinante do lugar que ocupa na realidade. Vista assim, a linguagem é universal. Mas à medida que cada língua difere de todas as outras, o formato do mundo produzido é sutil ou drasticamente alterado (STEINER, 2005, p. 107).

Humboldt com seus argumentos sobre linguagem e pensamento, língua e nação, literatura e uma construção forte da cultura na sociedade alemã, influencia grandemente aqueles que estão ao seu redor. E é dentro desse seleto círculo de pensadores que Schleiermacher se situa. Nesse período, Schleiermacher também já despontara grandes feitos na vida intelectual e, além disso, mantinha uma amizade muito sólida com Humboldt.

Nesta época inicia a tradução dos diálogos de Platão, juntamente com F. Schlegel. Em 1807 volta a Berlim, convidado por Humboldt, contribuindo ativamente na fundação da Universidade de Berlim, em 1809. Ali lecionou por vinte e quatro anos, concorrendo com Fichte (1810-1814) e Hegel (1818-1831) (SCHLEIERMACHER, 2015, p. 10).

Portanto, inserido nesse ambiente e herdando ricos conceitos, é que desponta Schleiermacher trazendo grandes contribuições para a nação e a língua alemã, principalmente, para o campo da hermenêutica. A partir dessa breve, mas importante apresentação do contexto linguístico no qual Schleiermacher estava inserido, torna-se possível uma melhor compreensão dos seus postulados sobre língua e tradução, formulados em seu célebre texto de 1813, época em que as questões sobre língua e pensamento moldando o homem e seu lugar no mundo estavam muito em voga, e como e qual seria o papel da tradução na formação da cultura alemã.

3. SCHLEIERMACHER: SUA CONTRIBUIÇÃO PARA A MUDANÇA DE PERSPECTIVA NA HERMENÊUTICA

Schleiermacher nasceu em Breslau, no dia 21 de novembro de 1768. Cresceu e foi educado dentro de uma família de pastores protestantes, daí, talvez, sua inclinação para os estudos hermenêuticos de linha teológica.

“Os estudos de hermenêutica de Friedrich D. E. Schleiermacher estão inseridos tanto na tradição exegética da teologia protestante como no renascimento dos estudos de filologia clássica, no final do século XVIII” (SCHLEIERMACHER, 2015, p. 7).

A história da formação da hermenêutica como arte e técnica de interpretação correta de textos, na época de Schleiermacher, já era bem conhecida a partir dos trabalhos iniciados por estudiosos da Grécia antiga, os quais tinham como intuito preservar e compreender os seus poetas. Na cultura hebraica a hermenêutica também se desenvolve com grande ímpeto dentro da tradição judaico-cristã de exegese dos textos das Sagradas Escrituras. Foi então que, “a partir do Renascimento fixam-se três tipos básicos de técnica de interpretação: hermenêutica teológica (sacra), filosófico-filológica (profana) e jurídica (juris)” (SCHLEIERMACHER, 2015, p. 7).

O fator primordial para as investigações no campo da hermenêutica, para Schleiermacher, se deu pela necessidade teórica de explicar e justificar um procedimento prático concernente à interpretação e tradução de textos clássicos da Antiguidade. A sua investigação procurava fundamentar um procedimento a partir de um conceito geral de compreensão, já que a hermenêutica do seu tempo estava estabelecida de forma fragmentada, a qual se dava a sua aplicação a partir de amontoados de regras específicas para cada tipo diferente de texto.

Schleiermacher, não obstante, o espírito idealista de seu tempo, pensou sob o signo da unificação do “realismo com o idealismo”, o que para ele significava pensar juntos o universal e o particular, o ideal e o histórico, […] os seus argumentos são a inseparabilidade de pensamento e linguagem e a inexistência ou impossibilidade de uma linguagem universal (SCHLEIERMACHER, 2015, p. 11).

Para Schleiermacher, a interpretação não diz respeito apenas às expressões linguísticas, mas, antes, que a própria linguagem interpreta o real. Assim uma hermenêutica que pudesse ser aplicada corretamente, visava também a apreensão do pensamento contido em um discurso particular.

O pensamento puro, não obstante ser caracterizado pela imutabilidade e universalidade, nunca se dá por si, mas sempre através de uma linguagem histórica, o que coloca a hermenêutica e a dialética em uma relação de interdependência também com a gramática, na medida em que na base está a operação de entendimento e comunicação linguística (SCHLEIERMACHER, 2015, p. 14).

Além do mais, a compreensão que se obtinha a partir da hermenêutica iluminista do seu tempo se dava por um eixo diametralmente oposto ao seu modo de pensar a Hermenêutica.

A prática natural da arte da compreensão, em que se baseava a hermenêutica iluminista, tem como pressuposição a ideia que a compreensão se produz por si mesma e, portanto, que o esforço consiste em “evitar o mal-entendido”, […] entretanto, a arte da compreensão, enquanto esforço consciente e metódico, sobre o qual a hermenêutica geral deve refletir, parte da pressuposição oposta, a saber, “que o mal-entendido se produz por si e que a cada ponto a compreensão deve ser desejada e buscada” (SCHLEIERMACHER, 2015, p. 16).

Com esse feito, indo no sentido contrário aos conceitos então vigentes, Schleiermacher, com essa nova mudança de perspectiva, concebe e estabelece fundamentos únicos para a hermenêutica do seu tempo. A partir dele, a hermenêutica é vista como sendo uma arte e técnica da compreensão totalmente nova e suficiente. Ele fundamenta a sua teoria em que a compreensão se dá através de dois procedimentos complementares, interpretação gramatical e psicológica, e por meio de dois métodos, o método histórico-comparativo e o método intuitivo-divinatório. De um modo geral, a arte da compreensão visa a apreensão do sentido do discurso e, concomitantemente, o pensamento do autor. A atualidade de sua proposta hermenêutica se deve ao fato de ele ter desenvolvido as suas teorias a partir da linguagem e das condições sob as quais se dá a relação falante-ouvinte, como também de ter posto o problema do sentido sob o signo da historicidade (SCHLEIERMACHER, 2015).

4. HERMENÊUTICA COMO UM DOS FUNDAMENTOS PARA A TEORIA DA TRADUÇÃO

Friedrich Schleiermacher, em seu curso de introdução à hermenêutica, diz:

A interdependência de hermenêutica e gramática consiste em que cada discurso só pode ser apreendido sob a pressuposição do entendimento da língua. — Ambas têm a ver com a língua. Isso leva a unidade de falar e pensar, a língua é a maneira e o jeito de o pensamento ser real. Pois não há pensamento sem discurso (SCHLEIERMACHER, 2016, p. 42).

É perceptível e clara, a relação que há entre os conceitos e pressupostos da hermenêutica com o momento linguístico-situacional da época. Ler a hermenêutica de Schleiermacher é andar sempre às vistas de Humboldt. Os elementos se entrelaçam e a malha maleável de língua e pensamento se fundem sendo uma só. Os conceitos são tão fundamentados que atravessam séculos, e muito naturalmente, pois:

Os signos linguísticos, embora sendo essencialmente psíquicos, não são abstrações; as associações, ratificadas pelo consentimento coletivo e cujo conjunto constitui a língua, são realidades que têm sua sede no cérebro. Além disso, os signos da língua são, por assim dizer, tangíveis; a escrita pode fixá-los em imagens convencionais […] (SAUSSURE, 2012, p. 46).

Schleiermacher ainda:

Ninguém, entretanto, pode pensar sem palavras. Sem palavras o pensamento ainda não está pronto, nem é claro. Ora, como a hermenêutica deve levar ao entendimento do conteúdo do pensamento, mas como o conteúdo de pensamento só é real pela língua, a hermenêutica se assenta na gramática enquanto conhecimento da língua. Se então consideramos o pensamento no ato de comunicação pela língua, que é justamente a mediação para a comunidade do pensamento, isso não tem outra tendência senão produzir o saber como algo comum a todos (SCHLEIERMACHER, 2016, p. 43).

Em seu curso de introdução, no tópico um e item um, Schleiermacher confere à hermenêutica uma extensão tal de: a) arte de apresentar corretamente os pensamentos; b) arte de comunicar corretamente a um terceiro o discurso de um outro; c) arte de entender corretamente o discurso de um outro. O conceito científico se refere a este terceiro, como intermédio entre o primeiro e o segundo (SCHLEIERMACHER, 2016).

Na sequência, no tópico quatro e item um, Schleiermacher diz que discursar também é, certamente, mediação do pensamento para o indivíduo. O pensamento se perfaz mediante discurso interior e, nessa medida, discurso é apenas pensamento que se tornou propriamente pensamento (SCHLEIERMACHER, 2016).

E no tópico de número cinco e item um, ele nos diz, também, que todo discurso pressupõe uma língua dada. Essa afirmação também pode, sem dúvida, ser invertida, não apenas para o discurso absolutamente primeiro, mas para todo o processo, porque a língua se torna língua pelo discurso, mas a comunicação pressupõe, seja em que caso for, a comunidade da língua, portanto um certo conhecimento dela (SCHLEIERMACHER, 2016).

De acordo com os conceitos ora mencionados, faz-se necessário e torna-se imprescindível destacar algumas observações. Primeiro, os verbos utilizados em (a: apresentar; b: comunicar; c: entender) pressupõem movimento (sempre de um a outro ponto), direção, passagem, deslocamento. É notável também a presença do termo (corretamente = advérbio) em todas as frases. E, por último, a pressuposição absoluta de sempre estar em jogo um processo de mediação entre dois pontos distintos.

Dessa forma, cabe observar também que os pressupostos da hermenêutica, estabelecem-na e encerram-na dentro de um domínio de língua. Assim, delimita a sua aplicação interpretativa, necessariamente, dentro de um certo conhecimento de uma língua dada. Por outro lado, por estar a sua aplicação fundamentada em pressupostos de uma arte interpretativa geral, a operação hermenêutica é possível em qualquer língua.

Ao contemplar tais conceitos, observando o processo mediador da hermenêutica entre dois pontos distintos (A — B), tendo, essencialmente, por finalidade a compreensão, estabelece-se assim, também, que; toda e qualquer tradução (A — B), seja o processo, seja o produto, sempre pressupõe um ato hermenêutico em A.

Considerando que interpretar é sempre um procedimento hermenêutico e, que, qualquer processo de tradução pressupõe, também, sempre um ato hermenêutico em A, seguramente, os fundamentos teóricos da tradução assentam-se, também, na hermenêutica. Tais considerações provar-se-ão fundamentais na assimilação da possibilidade do primeiro método e da impossibilidade do segundo método, contidos no texto de 1813.

Platão   —   Humboldt

(A — B)

Assim: uma tradução, por exemplo, do grego (Platão) para o alemão (Humboldt), sempre pressupõe um ato hermenêutico, primeiramente, em A.

5. SCHLEIERMACHER: SOBRE OS DIFERENTES MÉTODOS DE TRADUZIR

Esses conceitos até aqui estabelecidos, serão agora primordiais para a aplicação do texto de Schleiermacher — Sobre os diferentes métodos de traduzir (1813)[2]. Texto esse que será objeto de análise a partir da tradução em língua portuguesa de Celso Reni Braida, em comparação com a obra de Venuti denominada A invisibilidade do tradutor, cuja análise se dará a partir da tradução também em língua portuguesa de Laureano Pellegrin (2021). Os conceitos de ambos os teóricos serão analisados em comparação, sendo feitas as devidas observâncias, sendo apontadas e destacadas as características de cada postulado. O objetivo de tal empreitada se dá pelo fato de poder responder à questão problematizada. Se os conceitos de estrangeirização e domesticação de Venuti se trata, realmente, dos mesmos conceitos sobre tradução postulados por Schleiermacher.

Em seu texto de 1813, Schleiermacher, de maneira muito consciente, inicia o discurso fazendo ponderações e delimitações quanto ao fenômeno da linguagem, indicando uma distinção entre interpretar de uma língua para outra, como também de se interpretar dentro de uma mesma língua, onde o tempo demarcou diferenças entre dialetos locais, corroborando, assim, a nossa visão, aqui, de que qualquer tradução sempre pressupõe um ato hermenêutico em A.

[…] não precisamos sair do domínio de uma língua para encontrar o mesmo fenômeno. Pois, não apenas os dialetos dos diferentes ramos de um povo e os diferentes desenvolvimentos de uma mesma língua ou dialeto, em diferentes séculos, são já em um sentido estrito diferentes linguagens, e que não raro necessitam de uma completa interpretação entre si; mesmo contemporâneos não separados pelo dialeto, mas de diferentes classes sociais, que estejam pouco unidos pelas relações, distanciam-se em sua formação, seguidamente apenas podem compreenderem-se por uma semelhante mediação (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 233).

A passagem logo nos faz remeter aos postulados de Roman Jakobson sobre seus diferentes tipos de tradução que, segundo ele, são a intralingual (por exemplo, qualquer reformulação na mesma língua), interlingual (reformulação entre línguas diferentes) e a intersemiótica (interpretação entre diferentes sistemas de signos, como, por exemplo, a interpretação de uma obra musical na forma de um poema), formulados em seu artigo de 1959 (PYM, 2017, p. 278).

A esse respeito Schleiermacher ainda nos diz que: “As nossas próprias palavras, às vezes, temos que traduzir após algum tempo, se quisermos assimilá-las apropriadamente outra vez” (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 234).

Ou seja, o pensamento se perfaz mediante discurso interior. Ele prossegue discorrendo seu texto e sublinha também uma separação que se costuma fazer tecnicamente entre tradução escrita e tradução oral (interpretação). Schleiermacher, nestes termos, considera o intérprete exercendo o seu ofício no domínio da vida comercial, e o tradutor genuíno preferencialmente no domínio da ciência e da arte. Ele prossegue e aqui uma passagem inteiramente hermenêutica, como também Humboldtiana.

[…] cada homem está sob o poder da língua que ele fala; ele e seu pensamento são um produto dela. Ele não pode pensar com total determinação nada que esteja fora dos limites da sua língua. A configuração de seus conceitos, o tipo e os limites de suas articulações estão previamente traçados para ele pela língua em que ele nasceu e foi educado; o entendimento e a fantasia estão ligados por ela. Por outro lado, porém, cada homem de livre pensar e espiritualmente espontâneo molda também a língua (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 238).

Portanto, estando esses elementos fundamentais tão arraigados e de uma maneira tão poderosa conectados entre si, Schleiermacher explica que, se tratando de tradução, é impossível haver entre línguas as mesmas correspondências ao ponto de o processo ser apenas uma operação mecânica entre termos:

A saber, se nas duas línguas cada palavra correspondesse exatamente a uma palavra da outra, expressando os mesmos conceitos com as mesmas extensões; se suas flexões representassem as mesmas relações, e seus modos de articulação coincidissem, de tal modo que as línguas fossem apenas diferentes para o ouvido; então, também no domínio da arte e da ciência, toda tradução, na medida em que por ela se deve comunicar o conhecimento do conteúdo de um discurso ou escrito, seria também puramente mecânica como na vida comercial; e se poderia dizer de toda tradução, com exceção dos efeitos do acento e do ritmo, que o leitor estrangeiro estaria na mesma situação frente ao autor e sua obra que o nativo (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 237).

A última frase da citação acima é o ponto principal que vai permear todo o texto. A grande questão que se levanta é; como as línguas sendo tão diferentes pode ou poderia a tradução operar um procedimento tal, que pudesse afetar com as mesmas impressões um leitor estrangeiro, da mesma forma que um nativo foi afetado em sua língua materna? Quanto a isso, Schleiermacher discorre acerca do papel do tradutor nessa empreitada extremamente difícil, dizendo que a cautela deve aumentar quando o tradutor quiser determinar com exatidão os seus fins e considerar os seus meios (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 240).

Para que os seus leitores compreendam eles devem apreender o espírito da língua na qual o autor era natural, eles têm que poder intuir a sua maneira singular de pensar e de sentir; e para alcançar estas duas coisas, ele não pode senão oferecer a sua própria língua […] (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 240).

Evidencia-se, portanto, que, para que haja tal feito e com tal efeito, é necessário que o tradutor, primeiramente, efetue um ato hermenêutico em A, compreendendo o espírito da língua na qual o autor era natural, como também a sua maneira singular de pensar e de sentir. Condições estas que o tradutor conseguiria alcançar oferecendo ao leitor não outra coisa senão sua própria língua (como ver-se-á adiante; círculo de língua materna). Assim, Schleiermacher está preocupado em estabelecer e expor um método eficaz de traduzir, método este que seja capaz de proporcionar a um leitor estrangeiro as mesmas impressões que tem um leitor nativo e, para tanto, ele então continua a fazer demarcações quanto ao que seja, de fato, considerada uma tradução que alcance tais objetivos. Ele então desconsidera como sendo métodos apropriados e, ao mesmo tempo, como sendo traduções efetivas, os procedimentos e resultados tomados a partir da — imitação e da paráfrase.

A paráfrase quer dominar a irracionalidade da língua, mas apenas de um modo mecânico, ela significa que mesmo que eu não encontre uma palavra que corresponda a uma da língua original, eu devo buscar me aproximar o mais possível de seu valor por meio do acréscimo e de determinações delimitadoras e ampliadoras. Desse modo, ela trabalha entre o muito inoportuno e o pouco penoso por meio de uma acumulação de detalhes soltos (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 240-241).

E mais à frente Schleiermacher aborda:

A imitação, ao contrário, curva-se diante da irracionalidade das línguas; confessa que não se pode reproduzir em outra língua a imagem de uma obra de arte do discurso em que cada uma de suas partes corresponda exatamente a cada uma das partes do original, mas, que devido à diferença das línguas, a que estão ligadas tantas outras diferenças, não resta senão elaborar uma cópia, um todo composto de partes visivelmente diferentes das partes do original, mas que no efeito se aproxime do outro, tanto quanto a diferença de material permita (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 241).

Aqui nas abordagens sobre a imitação e a paráfrase, faz-se muito presente, quase que como uma correspondência exata e, de fato, muito aproximada, uma semelhança às abordagens atuais de tradução quanto aos procedimentos de estrangeirização e domesticação, conceitos estes formulados por Lawrence Venuti (1995).

Schleiermacher prossegue com o seu discurso e nos traz informações que, por momentos, parece estar discursando em pleno século XXI. Ele aborda essas duas práticas em que:

O parafraseador opera com os elementos de ambas as línguas, como se eles fossem símbolos matemáticos que, por adição e subtração, poderiam reduzir-se a um valor igual e, com essa operação, nem o espírito da língua usada nem o da língua original pode se manifestar (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 241).

O imitador também não pretende pôr em contato o escritor e o leitor da imitação, porque ele não mantém nenhuma relação imediata entre eles, mas apenas pretende produzir no último uma impressão semelhante, como aquela recebida da obra original pelos seus contemporâneos (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 241-242).

Embora o filósofo alemão não esteja falando propriamente de estrangeirização e domesticação nos termos de Venuti, as semelhanças se fazem muito presentes daquilo que Schleiermacher não apreciava como procedimentos de traduzir. Por exemplo, o efeito semelhante de não colocar em contato leitor e escritor de forma correta e completa, característica perceptível nos procedimentos de imitação e domesticação. Além disso, o fato de se misturar operações, ao ponto de não se manifestar nem uma língua nem outra. Quanto ao que foi exposto até aqui, cabe reconhecer que Venuti tem alguma razão quando repudia a simplicidade e a abordagem dicotômica a que foram tomados os seus conceitos de estrangeirização e domesticação. Em seu livro A invisibilidade do tradutor: uma história da tradução, ele traz: “[…] Tratar a distinção que se faz entre tradução domesticadora e estrangeirante como uma simples “dicotomia” ou “oposição binária” é eliminar por inteiro sua complexidade conceitual” (VENUTI, 2021, p. 19).

E, de fato, a recepção que os seus conceitos receberam se encerraram, em grande parte, nos trabalhos acadêmicos, fóruns, palestras, debates e grupos em redes sociais à simples dicotomia, a uma certa polarização, deixando de fora fatores como: interpretantes, recursos dominantes e marginais, fluência, transparência, resistência e o principal de todos os fatores em sua obra; o fator ideológico. A esse respeito ele argumenta:

Em A invisibilidade do tradutor, no entanto, seguindo os discursos teóricos dos estudos literários e culturais, a ideologia é concebida como um conjunto de valores, crenças e representações inscritos na linguagem, sem que o usuário tenha consciência deles ou controle sobre eles, e que mantêm ou desafiam as hierarquias em que os grupos sociais estão posicionados, atendendo assim aos interesses de grupos específicos (VENUTI, 2021, p. 12).

Percebe-se que realmente suas palavras são condizentes quanto ao reducionismo a que seus conceitos foram submetidos atualmente. No entanto, cabe observar que os seus conceitos foram configurados, essencialmente, para países de língua inglesa, e que estes também são, de certa forma, dominantes sobre outras línguas e culturas. Há todo um contexto no qual se insere o conceito principal da domesticação. Apesar de Venuti expandir os conceitos para outras línguas e culturas, mostra-se muito evidente o contexto no qual o conceito de domesticação foi concebido:

Tendo sua origem em um artigo de 1986 que buscava desmistificar as práticas de tradução, a primeira edição de A invisibilidade do tradutor (1995) ampliou aquele texto para transformá-lo em uma história, baseada em registros, do estado atual da tradução em língua inglesa (VENUTI, 2021, p. 9).

Meu projeto é traçar a origem da situação em que todo tradutor para língua inglesa trabalha hoje […] (VENUTI, 2021, p. 33).

“Invisibilidade” é o termo que usarei para descrever a situação e a atividade do tradutor na cultura anglo-americana contemporânea (VENUTI, 2021, p. 41).

Este livro representa uma reação contra a situação do tradutor na cultura anglo-norte-americana atual […] (VENUTI, 2021, p. 107).

O predomínio do discurso transparente na tradução em língua inglesa sofreu um desafio decisivo na virada do século XX (VENUTI, 2021, p. 389).

A reação contra o modernismo na tradução em inglês durante o período pós-guerra limitou as opções do tradutor e definiu seus interesses culturais e políticos (VENUTI, 2021, p. 456).

Destacamos aqui o contexto inglês e o conceito de domesticação ao qual foi concebido; não por acaso. Mas, porque, segundo o próprio autor, ambos os conceitos de estrangeirização e domesticação resultam em um único efeito:

Uma tradução que busca registrar diferenças linguísticas e culturais – uma tradução que é, em outras palavras, estrangeirante – não escapa da inevitável domesticação (VENUTI, 2021, p. 18).

Ela busca respeitar as diferenças do texto-fonte, mas, como toda tradução é inevitavelmente domesticadora por realizar um processo assimilativo […] (VENUTI, 2021, p. 21).

Venuti explica que esse efeito inevitável em direção à domesticação, ocorre por um processo assimilativo transformador:

A interpretação é transformadora porque se realiza por meio da aplicação de uma terceira categoria, que consiste naquilo que chamo de interpretantes, fatores formais e temáticos que incluem uma relação de equivalência e um estilo particular, além de valores, crenças e representação (VENUTI, 2021, p. 17-18).

Assim, segundo Venuti, a tradução sempre é inevitavelmente domesticadora. Ou seja, o efeito domesticador, no qual estão envolvidos todos os intérpretes, impossibilita colocar em contato leitor e escritor de uma forma correta e completa. Em outras palavras, o leitor é enganado e, por muitos fatores, não conhece, genuinamente, a cultura do escritor original. A tradução domesticadora, com todos os seus efeitos, tem o poder de deixar o leitor estático, estagnado em sua própria cultura, e, cultura essa, tomada por recursos ideológicos dominantes. Aqui, novamente a questão do contexto se faz importante, já que o efeito domesticador, assim nesses termos, parece só fazer sentido no contexto de língua inglesa, uma vez, também, que, Venuti deixa explícito que a sua batalha é justamente contra essa dominância da língua inglesa sobre outras línguas e culturas. Deste modo, o efeito domesticador obedece a uma direção, ou seja, sempre de uma língua dominante para uma língua de cultura menos privilegiada. Essa direção se mostra verdadeira, pelo fato de países de literaturas marginais tenderem a superestimar (estrangeirar) literaturas de países de língua e cultura inglesa. Ou seja, nesses países, é valorizada a tradução que enobrece não a sua própria língua, mas a língua estrangeira. Percebe-se neste ponto que ao abordar o contexto (língua marginal) e consequentemente a direção (de língua marginal para língua dominante), parece haver uma contradição com a domesticação, já que, segundo Venuti, toda tradução é domesticadora. Porém, entendemos que a contradição é apenas aparente, pois, ao considerar a teoria em todos os seus aspectos, o que há, na verdade, é apenas um efeito parcial da domesticação, causado pelo uso estratégico de apenas alguns intérpretes (por exemplo: palavras estrangeirantes). De acordo com o contexto e a direção em que está em jogo a domesticação, há interpretantes que são utilizados, por exemplo; (fatores formais e temáticos), enquanto outros não, por exemplo; (ideologia, recursos marginais). Portanto, países de língua inglesa domesticam (apagam) outras culturas, para que permaneça estabelecido o império da sua própria língua. E países de língua não inglesa tendem a estrangeirar ao máximo, contribuindo, assim, para a marginalização de sua própria língua e cultura, ainda que inconscientemente. O conceito de domesticação, considerando todos os seus aspectos, como fica evidente, só é efetivo como um todo dentro do contexto de língua inglesa. Portanto, fora do contexto inglês, é preciso considerar como condicionantes fatores de direção e efeito parcial. A observância do contexto é fundamental, para que não haja simples polarização dos conceitos e, também, evitar associações equivocadas à Schleiermacher.

Embora os conceitos de imitação/paráfrase e estrangeirização/domesticação sejam diferentes, é possível ver em Venuti (2021) certas semelhanças em muitos dos seus exemplos em todo o livro, quando ele examina as tomadas de decisão de tradutores movidos pela força ideológica da domesticação, em várias épocas da história da tradução inglesa. Decisões que parecem ir contra àquilo que Schleiermacher concebia como procedimentos apropriados de tradução. Os exemplos de domesticação em Venuti são sempre cheios de deturpações, acréscimo, ocultamento, amplificação, omissão, remoção, edição, inserção etc. Essas manipulações ao texto, numa perspectiva, a partir de Schleiermacher, impedem que haja um encontro efetivo entre leitor e escritor:

A opção de Denham pela Eneida de Virgílio ajustava-se de forma singular às inclinações nacionalistas de seu método tradutório domesticador (VENUTI, 2021, p. 127).

Ao remover os nomes das personagens e dos locais do texto latino […] (VENUTI, 2021, p. 128).

Ainda mais surpreendente é a curiosa adição que Denham faz ao texto latino […] (VENUTI, 2021, p. 130).

Seu acréscimo […], sua omissão dos marcadores de lugar […], a tradução de Denham […] se esforça o tempo todo para domesticar termos arquitetônicos (VENUTI, 2021, p. 133).

O livro II é claramente um esboço: ele não só omite grandes trechos do texto latino, como algumas passagens não trazem traduções na íntegra, omitindo palavras latinas individuais (VENUTI, 2021, p. 137).

Essas deturpações ao texto como sendo estratégias de domesticação podem ser encontradas em todos os capítulos do livro de Venuti. E, definitivamente, isso está muito longe dos conceitos sobre tradução de Schleiermacher. Claramente, é impossível que, qualquer leitor, por meio dessas deturpações, seja colocado em contato com o escritor original e sua cultura. A visão de Schleiermacher sobre tradução, no entanto, é infinitamente oposta aos exemplos em Venuti. É perceptível que os conceitos de estrangeirização e domesticação de Venuti não se trata dos mesmos conceitos postulados por Schleiermacher. Havendo assim uma associação equivocada entre os conceitos.

O alemão chega ao parágrafo mais importante do seu texto, fazendo uma indagação:

Mas, agora, por que caminhos deve enveredar o verdadeiro tradutor que queira efetivamente aproximar estas duas pessoas tão separadas, seu escritor e seu leitor, e propiciar a este último, sem obrigá-lo a sair do círculo de sua língua materna, uma compreensão correta e completa e o gozo do primeiro? No meu juízo, há apenas dois (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 242).

Primeiramente, ao analisar suas palavras, algumas chamam atenção pela intertextualidade dos conceitos na sua obra como um todo. De início, vemos que não se trata de qualquer tradutor, mas de um verdadeiro tradutor. Aqui, talvez, uma crítica aos métodos em vigência na sua época. Em seguida, o papel do verdadeiro tradutor é aproximar duas pessoas separadas. E aqui se chega ao fator nevrálgico do seu postulado, “propiciar a este último (leitor), sem obrigá-lo a sair do círculo de sua língua materna, uma compreensão correta e completa”. Schleiermacher parece, então, fazer uma proposta um tanto paradoxal. Como fazer com que um leitor tenha uma compreensão — correta e completa — de uma cultura estrangeira, sem ser obrigado a sair do círculo de sua língua materna?

Para responder à “sem obrigá-lo a sair do círculo de sua língua materna”, precisaremos recorrer aos conceitos formulados por um outro teórico da tradução, não contemporâneo de Schleiermacher, mas entendemos, aqui, que Schleiermacher, de certa forma, já os “antecedera”, ao menos implicitamente. Desta forma, entendemos a proposta de Schleiermacher, a partir dos conceitos de tradução do teórico John C. Catford, o qual no ano de 1965 publicou o livro: Uma teoria linguística da tradução. Livro, este, que trará as possibilidades conceituais de tradução para os termos em Schleiermacher. Portanto, consideramos como fundamentais, em Catford, os postulados sobre categorias de tradução plena e parcial, total e restrita, como também os conceitos de substituição e transferência de significado. Catford, em seu livro, chama a atenção, para que haja uma certa observância:

Em “tradução” há substituição de significados da LF por significados da LM: não transferência de significados da LF para a LM. Na transferência há uma implantação de significados da LF no texto da LM. Esses dois processos devem ser claramente diferenciados em qualquer teoria de tradução (CATFORD, 1980, p. 53).

Entendemos que é justamente essa substituição e implantação de significados que estão, implicitamente, presentes nas formulações de Schleiermacher, quando ele se refere nos termos de — “sem obrigá-lo a sair do círculo de sua língua materna”, já que uma das condicionantes para o tradutor é oferecer senão a sua própria língua. Ilustremos da seguinte maneira: Knockout — Nocaute. O Collins Cobuild Advanced Dictionary traz:

Knockout: in boxing, a knockout is a situation in which a boxer wins the fight by making his opponent fall to the ground and be unable to stand up before the referee has counted to ten (COLLINS, 2009, p. 868).

Nocaute: no boxe, nocaute é a situação em que o boxeador vence a luta ao fazer seu oponente cair no chão e não conseguir se levantar antes que o árbitro tenha contado até dez (TRADUÇÃO NOSSA).

A partir desse exemplo (knockout – nocaute), consideramos haver, entre Schleiermacher e Catford, uma consonância. Para Catford “pura transferência de significado pode ocorrer quando um texto da língua-meta contém uma palavra da língua-meta na sua forma grafológica/fonológica normal da língua-meta, mas com um significado contextual tomado à língua-fonte.” (CATFORD, 1980, p. 52-53, grifos nossos).

Portanto, o termo — nocaute — é o resultado do procedimento apropriado de o tradutor oferecer senão a própria língua, propiciando uma compreensão correta e completa ao leitor, sem obrigá-lo a sair do círculo de sua língua materna. Consequentemente, entendemos e definimos, aqui, a partir de tal consonância, o postulado “círculo de língua materna” como sendo as possibilidades de tradução nos limites da fonologia e ortografia de uma dada língua. Ainda em outras passagens, Catford observa também que há a possibilidade de transferência parcial de significado, como também níveis de ocorrência gramatical e lexical.

Tal concepção de tradução em Schleiermacher, também se mostra muito coerente com os objetivos dos intelectuais alemães da sua época, em construir uma língua e cultura rica e consistente a partir de um processo intercultural.

Alcançamos aqui um ponto importante em que se poderia alegar que, tanto o círculo de língua materna em Schleiermacher, como também a transferência de significado em Catford, ambos são, também, um procedimento de domesticação como em Venuti. No entanto, tal conjectura não procede. (Para melhor entendimento, referir-nos-emos aos conceitos de Schleiermacher e Catford com apenas uma nomenclatura, doravante, método Schleiermacher/Catford ou simplesmente Schleiermacher/Catford).

Vejamos as diferenças envolvendo a questão, analisando um trecho da obra O Senhor dos Anéis, do autor John Ronald Reuel Tolkien (J.R.R. Tolkien, 1892 – 1973), edição volume único, em língua inglesa, pela Harper Collins Publishers, a qual traz: “[…] that has been kept by the family of Butterbur from time beyond record.” (TOLKIEN, 2005, p. 8).

A versão brasileira, a partir da tradução de Lenita Maria Rímoli Esteves e Almiro Pisetta, segunda edição, em língua portuguesa, pela Martins Fontes, traz: “[…] conservada pela família de Carrapicho desde tempos imemoriais.” (TOLKIEN, 2000, p. 8).

A análise comparativa recai sobre o termo Butterbur, em inglês, e sua tradução para Carrapicho, em português. Como vemos em (ALONSO, 1998), Butterbur é uma planta que pode ser encontrada no norte da Ásia, Europa e em algumas áreas da América do Norte. As flores são de cor avermelhadas, surgem logo após a neve derreter. As hastes são eretas e espessas, as folhas são grandes e largas. Seu nome científico é Petasites hybridus L. Carrapicho é uma espécie de mato amplamente disseminado no Brasil, principalmente, na região sudeste e pode ser encontrado em várias regiões da América do Sul. A sua cor possui tons verde-amarelados, como também variações para o roxo, sua haste e folhas são altamente espinhosas. Seu nome científico é Cenchrus echinatus L.

De acordo com as definições dos termos, mostra-se muito evidente por análise, que a tradução se deu pelo procedimento da domesticação nos termos de Venuti, a qual impossibilita, ao menos, a noção de estranheza que poderia ser percebida pelo leitor ao identificar um termo da cultura estrangeira. Estranheza, essa, que fica totalmente ocultada pela domesticação, impossibilitando, assim, um encontro efetivo entre leitor e escritor. Todas as características morfossemânticas do termo, em inglês, foram ocultadas e se perdeu toda a extensão cultural da língua-fonte naquela frase. Já nos termos Schleiermacher/Catford, o encontro entre leitor e escritor se efetua. O leitor compreende seu escritor de forma correta e completa, tendo a possibilidade de identificar um termo como sendo próprio da cultura estrangeira, ainda que o leitor permaneça dentro do círculo de sua língua materna (fonologia/ortografia). Compreensão, ao menos, em algum dos níveis da língua.

Tal assertiva pode ser verificada, ao analisar ainda na mesma obra de O Senhor dos Anéis, página oito, do mesmo parágrafo mencionado acima, o termo Bree (localização de uma velha hospedaria) que foi traduzido para Bri, o qual conservou a fonologia e ortografia do português, mas com o significado tomado à língua-fonte. Tradução possível nos termos Schleiermacher/Catford. Acerca de tais possibilidades e da complexidade que envolve o ato de traduzir, detenhamo-nos, muito brevemente, numa passagem sobre filosofia da linguagem na qual Willard van Orman Quine, em seu artigo denominado – Sobre o que há –, diz que:

Russell, em sua teoria das chamadas descrições singulares, mostrou claramente como podemos empregar significativamente nomes aparentes sem supor que haja as entidades supostamente nomeadas. […] A virtude dessa análise consiste em que o nome aparente é parafraseado no contexto, como um chamado símbolo incompleto. Nenhuma expressão independente se oferece como uma análise de expressão descritiva, mas o enunciado como um todo, que era o contexto dessa expressão, mantém ainda sua cota integral de significado — seja ele verdadeiro ou falso. […] Há um abismo entre significar e nomear, mesmo no caso de um termo singular que é genuinamente nome de um objeto (QUINE, 1963, p. 4-6).

Quanto a outra parte do enunciado de Schleiermacher “No meu juízo, há apenas dois”, aqui, consideramos uma expressão que Schleiermacher utiliza apenas de forma ilustrativa, didática, já que o segundo método conforme os pressupostos da hermenêutica torna-se impossível, como se verá em seguida. Assim, Schleiermacher prossegue em seu discurso, e chegamos a sua célebre formulação:

Ou bem o tradutor deixa o escritor o mais tranquilo possível e faz com que o leitor vá a seu encontro, ou bem deixa o mais tranquilo possível o leitor e faz com que o escritor vá a seu encontro (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 242).

A partir de agora, será abordada a possibilidade do primeiro “caminho” (método) e a impossibilidade do segundo. O primeiro método, como já foi exposto anteriormente, é o processo no qual o leitor é levado à cultura estrangeira, ao seu escritor, sem ser obrigado a sair do seu círculo de língua materna. Formulação entendida, aqui, como sendo possível a partir dos conceitos de Catford pelos processos de substituição e transferência de significado. É importante sublinhar o fato de que Schleiermacher privilegia o primeiro método, como também deixa claro a diferença entre eles.

Ambos são tão completamente diferentes que um deles tem que ser seguido com o maior rigor, pois, qualquer mistura produz necessariamente um resultado muito insatisfatório, e é de temer-se que o encontro do escritor e do leitor falhe inteiramente (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 242).

Podemos ver nas palavras de Schleiermacher sua preocupação em não se misturar os dois métodos e, ainda, a preocupação de o encontro entre leitor e escritor falhar. Essa “insistência” de manter o leitor em contato com a outra cultura está diametralmente oposta ao conceito de tradução em Venuti. Sendo a tradução, para Venuti, um efeito sempre e inevitavelmente domesticador. Os conceitos entre ambos os teóricos são extremamente diferentes.

Porque, no primeiro caso, o tradutor se esforça por substituir com seu trabalho o conhecimento da língua original, do qual o leitor carece. A mesma imagem, a mesma impressão que ele, com seu conhecimento da língua original, alcançou da obra, agora busca comunicá-la aos leitores, movendo-os, por conseguinte, até o lugar que ele ocupa e que propriamente lhe é estranho (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 242).

Aqui, então, carece determinar o papel das personagens. Precisamos saber a naturalidade desse tradutor, sua nacionalidade, como também suas línguas de trabalho para que assim possamos entender melhor Schleiermacher. Naturalmente, antes de formular seus dois métodos, Schleiermacher os aborda fazendo uma introdução: “[…] fiquemos a partir daqui com a tradução de uma língua estranha para a nossa” (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 234).

Portanto, agora é possível identificar que o tradutor é naturalmente alemão e, para melhor entendermos o texto, iremos estabelecer que sua segunda língua de trabalho é o latim. Assim, a direção da tradução está do latim para o alemão. Logo, o trabalho do tradutor alemão é dar aos leitores alemães a mesma imagem, a mesma impressão que ele como alemão, teve do lugar que lhe é estranho; o conhecimento da língua latina. Lugar estranho aqui é, obviamente, a capacidade de conhecer uma outra língua, assimilá-la e poder transmiti-la de forma correta e completa. Então:

A primeira tradução será perfeita em seu gênero quando se pode dizer que, em havendo o autor aprendido alemão tão bem como o tradutor latim, ele teria traduzido a sua obra, originalmente redigida em latim, tal como realmente o fez o tradutor (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 243).

Ou seja, a tradução será perfeita ao considerarmos como se o tradutor (que é alemão) tivesse traduzido para o alemão, da mesma forma que o autor latino tivesse aprendido alemão. O que está em jogo aqui é que se está tratando de tradução, transmitir a mesma imagem e impressão do original. O que Schleiermacher está mostrando aqui é a relação fundamental do fenômeno de uma tradução interlingual, tradutor que detém o conhecimento de uma outra língua que não a sua e a transmite aos seus leitores. Logo, também, se faz presente a máxima de que toda tradução pressupõe um ato hermenêutico em A. Entendemos a partir disso e como se verá adiante, é que qualquer processo que não pressuponha um ato hermenêutico em A, necessariamente, não é tradução. É impossível a própria definição da palavra — tradução — não pressupor um ato hermenêutico em A. Passemos agora ao segundo método e a sua impossibilidade.

Mas, se a tradução quer fazer, por exemplo, que um autor latino fale como, se fosse alemão, haveria falado e escrito para alemães, então, não apenas o autor move-se até o lugar do tradutor, pois, tampouco para este fala em alemão o autor, senão latim; antes coloca-o diretamente no mundo dos leitores alemães e o faz semelhante a eles; e este é precisamente o outro caso (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 242-243).

Ou seja, este é, precisamente, o segundo método. Percebe-se que toda a formulação do segundo método está fundamentada em uma espécie de experimento hipotético, no qual o autor é “transformado”, ou seja, é necessário desconsiderar sua língua natural e lhe atribuir uma língua imposta de momento. Ao estabelecer e aceitar essa condição hipotética, o autor agora escreve e fala como um verdadeiro nativo da língua que lhe foi imposta e assim sua obra apresenta-se como original e natural. Mas:

Por sua vez, ao não mostrar o autor ele mesmo como ele teria traduzido, mas sim como ele teria escrito originalmente em alemão e, enquanto alemão, dificilmente poderia ter outro critério de perfeição que não fosse o de poder assegurar que, se os leitores alemães em conjunto se deixassem transformar em conhecedores e contemporâneos do autor, a obra mesma teria chegado a ser para eles exatamente o mesmo que é agora a tradução, ao haver-se transformado o autor em alemão (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 243).

Por mais que Schleiermacher utilize o termo tradução em sua explicação, entendemos tratar-se de um uso didático para que ele pudesse ser entendido, pois, a condição hipotética para tal tradução é impossível para a realidade; para a vida real, uma vez que toda e qualquer tradução pressupõe um ato hermenêutico em A. Se qualquer obra que seja atribuir para si a condição de: (como sendo a escrita original do autor nessa língua estrangeira), não pressupondo um ato hermenêutico em A, tal obra não se trata mais de tradução, mas da obra original (propriamente dita). Evidencia-se que não é possível conceber tal experimento à vida real, por mais que a tradução seja fluente, transparente e natural — se é uma tradução — logo, não pode ser a obra original em outra língua, porque sua imanente concepção partiu do resultado de um ato hermenêutico em A. Entende-se, portanto, que, pelos fundamentos da hermenêutica não existe obra “traduzida” nos termos de: (tal autor estrangeiro teria escrito a obra mesma assim, se fosse ele nativo dessa língua). Pois, entende-se que, aceitando tal concepção, o fenômeno da tradução deixa de existir. (Se não deixar de existir, então nos deparamos com um conceito contraditório, logo que na lógica clássica Aristotélica o princípio de não contradição diz que algo não pode ser A e não-A ao mesmo tempo. Ou seja; em dada língua, a obra não pode ser original e não-original ao mesmo tempo).

Tracemos um paralelo. Construamos, ainda, uma analogia a partir dos conceitos clássicos de identidade de Aristóteles para uma melhor compreensão do assunto, e assim visualizemos a relação que se estabelece entre obra original e tradução. Consideremos uma relação tal que:

  • Língua A = original = essência
  • Língua B = tradução = propriedade

Assim temos que; a tradução é uma propriedade que pertence ao original em língua A. “Uma propriedade é um predicado que não indica a essência de uma coisa, e, todavia, pertence exclusivamente a ela e dela se predica de maneira conversível” (ARISTÓTELES, 1983, p. 8).

Logo, um original A não gera outro original A. Mas sim, um original A gera uma tradução B. Pois B é uma propriedade de A. Temos que a propriedade não é a essência em si, todavia, pertence exclusivamente a ela e dela se predica de maneira conversível, pois, um texto em língua A gera um texto traduzido em língua B, e um texto traduzido em língua B é gerado de um texto em língua A.

É evidente que nada que possa pertencer a alguma outra coisa que não seja A é um predicado conversível de A, pois do fato de alguma coisa estar adormecida não se segue necessariamente que seja um homem (ARISTÓTELES, 1983, p. 8).

O fato de uma obra estar traduzida em uma dada língua não a torna um outro original. O fator da diferença de língua como critério é insuficiente para conceber tal originalidade. De forma análoga: não é porque esteja escrito numa dada língua (estar adormecido), que se siga necessariamente ser um original (um homem). Estar escrito não significa que seja necessariamente um original, da mesma forma que estar adormecido não significa necessariamente que seja um homem. Estar adormecido não é uma característica suficiente, assim, como estar escrito também não o é. Pois, estar adormecido pode referir-se a, por exemplo, um cão. E consequentemente, estar escrito pode referir-se a, por exemplo, uma tradução.

No entanto, aqui se pode levantar uma objeção pelo fator de ambos, o original e a tradução, compartilharem uma mesma característica (ou seja, a característica de estar escrito). Mas, mesmo assim, o fato de compartilharem uma mesma característica apenas os colocam em uma relação daquilo que Aristóteles denominou de acidente.

Um acidente é […] algo que pode pertencer ou não pertencer a alguma coisa, sem que por isso a coisa deixe de ser ela mesma. […] É evidente, desde logo, que nada impede que um acidente venha a ser uma propriedade temporária ou relativa. […] Nada impede, por conseguinte, que um acidente se torne uma propriedade tanto relativa como temporária; porém jamais será uma propriedade no sentido absoluto (ARISTÓTELES, 1983, p. 8-9).

Desta forma, um texto original pode estar escrito e se encontre sendo declamado (via oral), um discurso. Ainda assim, pode ser traduzido através das várias modalidades de interpretação (via oral) existentes (simultânea, consecutiva etc.). Houve uma mudança de texto escrito para texto falado, ainda assim tal mudança não desfez a originalidade. Doutra forma análoga, o fato de ambos, tanto o homem como o cão, poderem andar, fica evidente que ambos compartilham apenas uma característica de acidente (temporário), sem que isso as destitua como essências. Homem permanece homem, cão permanece cão (independente se se encontram andando ou não). Original permanece original, tradução permanece tradução (independente se se encontram escritos ou não). Pode-se concluir, portanto, a partir do princípio de identidade em que: A=A.

Para tanto, acerca de um método que atribui para si a façanha de “traduzir” como se o autor fosse nativo na tal língua, ou seja, o suposto segundo método. Schleiermacher dispõe o seguinte:

O que diremos do método oposto, que, sem exigir de seu leitor nenhum trabalho nem fadiga, quer pôr em sua presença, diretamente e como que por encanto, o autor estrangeiro, e mostrar a obra tal como seria se o autor mesmo a tivesse escrito originalmente na língua do leitor? […] Pois, uma coisa é compreender bem e expor de algum modo o influxo que um homem exerceu sobre sua língua, e outra muito diferente é querer saber que giro haviam tomado seus pensamentos e a expressão destes pensamentos, se tivesse tido o costume de pensar e se expressar originalmente em outra língua! […] Pois, evidentemente, para levar a cabo esta tarefa, teria que eliminar com precisão tudo que na obra escrita de um homem seja efeito, inclusive remotíssimo, de qualquer coisa que desde sua infância tenha falado ou ouvido em sua língua materna; logo, por assim dizer, alcançar a singularidade de seu modo de pensar, em sua relação com um objeto determinado, separar tudo o que teria sido influência de tudo o que, desde o começo de sua vida ou desde seu primeiro contato com a língua estrangeira, tivesse falado ou ouvido nesta língua, até adquirir a faculdade de pensar e escrever  originalmente nela. […] Pode-se dizer que a meta de traduzir tal como o autor mesmo teria escrito originalmente na língua da tradução não é apenas inatingível, senão que também é nula e vã em si mesma (SCHLEIERMACHER, 2007, p. 253-255).

Enquanto se verifica evidente em Schleiermacher a impossibilidade do segundo método como um método capaz de conceber uma tradução tal, em termos de original, natural, fluente como se tal obra tivesse sido escrita originalmente na língua da tradução, em Venuti se tem o contrário:

Sob o regime da tradução fluente, o tradutor trabalha para tornar seu trabalho “invisível”, produzindo o efeito ilusório de transparência que, simultaneamente, mascara sua condição como uma ilusão: o texto traduzido parece “natural”, ou seja, não traduzido (VENUTI, 2021, p. 47).

Apesar de Venuti conceber o método da domesticação, ele se posiciona contra o método, já que se tratando do seu contexto em língua inglesa, tal método oculta aos leitores ingleses culturas estrangeiras de menos prestígio, ao proporcionar justamente o efeito de um texto original, natural e fluente. A domesticação, em sua perspectiva, é danosa, também, porque perpetua o império de domínio da língua inglesa sobre outras culturas no campo literário.

Este trabalho, a partir de todos os resultados alcançados pela análise, apontamentos e comparações, possibilita estabelecermos uma definição nos termos de que; tradução é o procedimento no qual o tradutor, dentro dos limites do círculo da língua, aproxima escritor e leitor ao proporcionar a este uma compreensão correta e completa daquele.

6. CONCLUSÃO

De acordo com os resultados, acreditamos ter alcançado o objetivo exposto na exordial. Abordamos a tradução desde seus problemas mais básicos e fundamentais iniciados ainda na Antiguidade com referência às dicotomias. Apresentamos o contexto linguístico no qual se situava Schleiermacher para que assim pudéssemos ser capazes de compreender de forma correta e completa seus postulados e, desta forma, desenvolver todo um raciocínio lógico contextual. Por conseguinte, uma breve apresentação da sua contribuição à hermenêutica, ensejando, assim, a intrínseca relação de sua hermenêutica e o método de traduzir. Relação essa que pode ser percebida em todo o texto de 1813.

Ao longo do trabalho, procuramos responder à questão: os conceitos de estrangeirização e domesticação de Venuti se trata dos mesmos conceitos sobre tradução postulados por Schleiermacher em 1813? E pudemos mostrar que a associação de estrangeirização e domesticação que Venuti faz a Schleiermacher é problemática, e que, de fato, não se trata dos mesmos conceitos. Foram apontadas as características que diferenciam os conceitos entre os dois teóricos. Nos quais em Schleiermacher há um encontro efetivo entre leitor e escritor, enquanto em Venuti ambos seus métodos de estrangeirar e domesticar, tendo por objetivo último sempre o efeito inevitavelmente domesticador, não podem proporcionar o mesmo encontro efetivo entre leitor e escritor.

Observou-se, também, em Venuti, que, o conceito de domesticação está condicionado a fatores de contexto linguístico, direção e parciais para que se alcance o efeito desejado. Diante dos fatos, é oportuno ainda esclarecer que, não tivemos a pretensão de alegar (por motivos óbvios) que Venuti não tenha bebido da fonte Schleiermacher, mas apenas poder mostrar a não compatibilidade da associação entre os conceitos.

Aclaramos também que, na verdade, em Schleiermacher só há fundamental e hermeneuticamente um único método de traduzir, havendo apenas a possibilidade de tradução nos termos do seu primeiro método e, consequentemente, por vias hermenêuticas, a impossibilidade do segundo.

Estabelecemos também uma máxima na qual está condicionado o fenômeno da tradução: que toda e qualquer tradução pressupõe um ato hermenêutico em A.

Desta forma, a característica principal do presente trabalho se deu pela nova abordagem e leitura ao texto de Schleiermacher, culminando numa nova perspectiva ao estabelecer uma definição nos termos de que; tradução é o procedimento no qual o tradutor, dentro dos limites do círculo da língua, aproxima escritor e leitor ao proporcionar a este uma compreensão correta e completa daquele.

Portanto, este trabalho, a partir dos resultados alcançados, resta a não ser reconhecer e restabelecer à Schleiermacher, por seus grandes feitos, seu lugar que é de direito. Um cidadão que contribuiu grandemente para o avanço da ciência e do conhecimento, proporcionando, excepcionalmente, novas perspectivas à Hermenêutica e aos Estudos da Tradução.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

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ARISTÓTELES. Tópicos: dos argumentos sofísticos. Trad. Leonel Vallandro; Gerd Bornheim. 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1983.

CATFORD, J. C. Uma teoria linguística da tradução: um ensaio de linguística aplicada. Trad. Centro de especialização de tradutores de inglês do Instituto de Letras da Pontifícia Universidade Católica de Campinas. São Paulo: Cultrix, 1980.

KÖCHE, J. C. Fundamentos de metodologia científica: teoria da ciência e iniciação à pesquisa. 30ª ed. Rio de Janeiro: Vozes, 2012.

OUSTINOFF, M. Tradução: história, teorias e métodos. Trad. Marcos Marcionilo. São Paulo: Parábola Editorial, 2011.

PYM, A. Explorando teorias da tradução. Trad. Rodrigo Borges de Faveri; Cláudia Borges de Faveri; Juliana Steil. São Paulo: Perspectiva, 2017.

QUINE, W. V. O. Sobre o que há. Trad. Luis Henrique dos Santos. 2ª ed. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

SAUSSURE, F. de. Curso de linguística geral. Trad. Antônio Chelini; José Paulo Paes; Izidoro Blikstein. 28ª ed. São Paulo: Cultrix, 2012.

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SCHLEIERMACHER, F. Hermenêutica e linguagem: introdução à hermenêutica. Seleção, tradução e notas de Luís Fernandes dos Santos Nascimento e Márcio Suzuki. Clandestina, 2016.

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TOLKIEN, J. R. R. O Senhor dos Anéis: a sociedade do anel. Trad. Lenita Maria Rímoli Esteves; Almiro Pisetta. 2ª ed. São Paulo: Martins Fontes, 2000.

TOLKIEN, J. R .R. The Lord of the Rings. London: HarperCollins Publishers, 2005.

VENUTI, L. A invisibilidade do tradutor: uma história da tradução. Trad. Laureano Pellegrin; Lucinéia Marcelino Villela; Marileide Dias Esqueda; Valéria Biondo. São Paulo: Editora Unesp, 2021.

APÊNDICE – NOTA DE RODAPÉ

2. O texto Ueber die verschiedenen Methoden des Uebersezens, redigido no período em que Schleiermacher lecionava em Berlim, foi originalmente escrito como base para uma conferência proferida em 24 de junho de 1813, na Academia Real de Ciências. A presente tradução baseia-se na publicação inclusa na Friedrich Schleiermacher’s sämmtliche Werke, Dritte Abteilung: Zur Philosophie, Zweiter Bd., Berlin, Reimer, 1838, S. 207-245.

[1] Graduação: bacharel em tradutor e intérprete pela Universidade Nove de Julho/UNINOVE. ORCID: 0000-0001-5964-1767.

Enviado: Janeiro, 2022.

Aprovado: Março, 2022.

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