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Primeira República: Transição do Império para República e os conflitos políticos – 1889

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

MENEZES, Andson José de [1]

MENEZES, Andson José de. Primeira República: Transição do Império para República e os conflitos políticos – 1889. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 07, Vol. 01, pp. 136-152. Julho de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/primeira-republica

RESUMO

Este estudo tem por objetivo compreender o processo da queda do Império e início da Primeira República do Brasil. A proposta busca entender os principais fatos ocorridos durante esse contexto da história brasileira, analisando o parâmetro inicial do período republicano governado pelos Marechais do Exército nos primeiros anos de República após a queda do Imperador D. Pedro II, de modo que encontraremos um cenário bastante conturbado. O presente trabalho, tem como base a pesquisa bibliográfica utilizada como referencial teórico a obra Jorge Ferreira e Lucilia de Almeida Neves Delgado e José Murilo de Carvalho, especialistas no tema. Assim como, outros autores que abordam o período sobre diversas perspectivas, desde os momentos finais do império até o início da república.

Palavras-Chave: Primeira República, transição do Império, cenário político.

1. INTRODUÇÃO

Há varias visões historiográficas sobre o período republicano no Brasil em que diferentes autores debatem e exploram esse tema. É, portanto, um período marcado por representações sociais e que por isso é abordado através de variadas formas de entendimento sobre o processo histórico marcado principalmente pelo processo político no qual tentava estabelecer um novo modelo de sociedade, entretanto, a classe dominante negava os direitos básicos para os cidadãos. Por conta disso, ocorreram vários conflitos sociais durante o período transitório até o último ano de governo.

José Murilo de Carvalho, assim como outros autores abordados concordam que o modelo republicano começou a ser desenhado a partir de 1870, o qual já estava sendo pensado através das ideias republicanas ainda no Brasil Império. Foi durante esse período de conspiração que debatiam sobre um possível modelo republicano, um momento com várias ideias de república e concepções políticas.

Partindo desse ponto inicial da carta do manifesto republicano, buscou através da pesquisa bibliográfica pontos específicos que trazem uma melhor interpretação sobre o período transitório pensado sobre várias ideias. Isso demostra que momento após conseguirem êxito na queda do Imperador D. Pedro II, as tensões políticas tomaram forma e após um ano de transição comandado pelo Marechal Deodoro da Fonseca, foram fundados partidos assim como grupos autodeclarados oposicionistas radicais.

Segundo Freitas (2010), apesar dos testemunhos evidenciarem uma gama de opiniões complementares ou antagônicas sobre o início da República, cristalizou-se uma memória preponderante dos acontecimentos na qual o novo Regime foi acolhido em clima de paz e consenso nacional. No entanto, o povo teve seu papel importante onde lutaram através de conflitos e repressões contra as políticas adotadas pelos governantes.

É visto que a República entre 1889 a 1930 teve significado limitado quanto as suas práticas liberais, promoveu um liberalismo oligárquico, pois de fato não houve necessariamente um serviço público voltado para a população. Seu processo histórico foi extremamente limitado servindo apenas aos que protagonizaram um papel mais importante no cenário político, mas, também é um momento crucial da história brasileira e que nos leva a refletir sobre assuntos do período que carece ser pesquisado para alcançar um entendimento amplo.

Portanto, diante da análise histórica. O artigo discorre sobre a mudança do Império para República descrevendo os principais momentos de imposição. Tendo em vista que esse momento é abordado por alguns autores como um golpe militar pelas circunstâncias e características que foi estabelecido a República, assim como a forma de governo estabelecida após a queda. Ressalta também o começo do governo militar e as dificuldades de manter uma administração coesa que agradasse a todos levando a ter fortes opositores.

2. PASSAGEM DO IMPÉRIO PARA REPÚBLICA

O cenário que antecede a tomada do poder das mãos do Imperador aconteceu no que Ferreira e Delgado (2010), Carvalho (2004) e entre outros autores chamam de “golpe militar”, a princípio foi destinado apenas a provocar a derrocada do gabinete Ouro Preto, mas terminou por derrubar a monarquia, expulsar o velho Imperador D. Pedro II e sua família, além de instaurar a República. Pois, “sem dúvida o golpe militar de 15 de novembro de 1889 modificaria a constituição do Estado brasileiro e suas instituições” (FERREIRA e DELGADO, 2010, p. 26).

Portanto, é visto que Ferreira e Delgado (2010) defende um modelo de república imposta:

Através de um golpe de Estado liderado pelo Marechal Deodoro da Fonseca, era derrubado, em 15 de novembro de 1889, o Gabinete Ouro Preto e com ele a Monarquia. No mesmo dia já era escolhido o primeiro ministério republicano e no dia imediato eram divulgados o manifesto do novo governo e o primeiro decreto constitutivo do novo regime. Neste decreto, redigido por Rui Barbosa era proclamada provisoriamente a República Federativa, as antigas províncias do Império sendo transformadas em Estados com poder de decretar a sua própria Constituição e de eleger os seus corpos deliberantes e os seus governos (SAES, 2005, p. 17).

A partir do primeiro decreto constitutivo Deodoro impôs uma nova República com regime ditatorial provisório, fechando a Câmara dos Deputados, abolindo o Conselho de Estado e ao Senado vitalício. E nesse processo provisório destaca-se também que “em 1891, cerca de um ano após sua eleição como primeiro presidente constitucional, o marechal Deodoro deu mostra disso, desrespeitando a Constituição e fechando o Congresso.” (PRIORE, 2010, p.157).

Deste modo, é possível comprovar que essas mudanças não afetaram de forma positiva a população, mas, sim, aos republicanos que sonhavam com a ascensão do país, além dos fazendeiros e donos de escravos que após a abolição da escravidão em 13 de maio de 1888 também aderiram à causa.

Este novo cenário político é construído e pensado com influências da Carta do Manifesto republicano de 1870, portanto é comprovado que as ideias republicanas já se geravam lentamente por um pequeno grupo inconformado com as políticas imperiais.

Na segunda metade do século XIX o jornal A República situado no Rio de Janeiro lançou o Manifesto Republicano e nos anos seguintes grupos republicanos ganharam entusiasmo e expressão dentro do ambiente político do segundo reinado, isso, segundo Ferreira e Delgado (2010) se deve a ampla liberdade de imprensa no período monárquico.

O Manifesto Republicano de 1870, publicado no Rio de Janeiro, refletia o pensamento liberal clássico mais do que qualquer outra coisa. Sem dúvida, o Manifesto também pedia o federalismo, como claramente o indica sua famosa dicotomia: “centralização-fragmentação; descentralização-unidade”. Mas quase todo o Manifesto era dedicado ao ataque e desvio do governo representativo por parte do sistema político brasileiro. liberdade democrática, representação, direitos e liberdade individuais eram os pontos fundamentais do Manifesto (CARVALHO, 2010, p. 208).

Com essas ideias ganhando força nos anos seguintes, o regime Imperial perdeu apoio dos liberais progressistas, dos militares, do alto clero e também dos fazendeiros paulistas, pois, somente dessa forma, São Pulo teria mais representação política. Outro fator marcante e que beneficiou os republicanos foi à abolição da escravidão pela Princesa Isabel, que deixou os escravocratas irritados e levou-os a aderirem o movimento, os quais Mary Del Priore (2010) chama de “republicanos de última hora”.

Além disso, Ferreira e Delgado (2010) questiona se esse período foi uma república de improviso? Seu questionamento é comprovado com o momento que precede a véspera do golpe, ocasião em que republicanos procuravam apoio dos militares para a empreitada de derrubar a Monarquia. É a partir desse momento que começou a surgir os primeiros sintomas das ruinas que levaram à queda do império.

A ausência de apoio para derrubar a monarquia mudou após a Guerra do Paraguai, entre 1864-1870, pelo surgimento de descontentamento dos militares simpatizantes do movimento positivista, tendo como seu principal mentor Benjamin Constant, seus principais seguidores eram oficias subalternos do Exército. Sendo que um dos motivos que levou o exército a ser crítico ao império foi a pouca participação na política além de soldos baixos. Diante desses descontentamentos, “os militares assumem uma consciência crítica de sua importância como instituição no interior da sociedade” (FERREIRA e DELGADO, 2010, p.105).

O movimento militarista – sobretudo os oficiais subalternos – conseguiu atrelar forças com o Partido Republicano Paulista. Estes, segundo Ferreira e Delgado (2010) constituem, basicamente, as forças políticas mais organizadas no país no momento da proclamação da república.

No entanto, sabemos que outras questões como, a religiosa, tiveram papel importante na derrubada do Imperador. Contudo, nos limitaremos ao apoio estabelecido pelo exército, porque só foi possível a Proclamação da República através do apoio militar com o “golpe” estabelecido no gabinete do visconde de Ouro Preto.

O episódio que envolveu os militares aconteceu na madrugada de 15 de novembro, o Marechal Deodoro da Fonseca e Bejamin Constant, dirigiram as tropas para o Campo Santana, onde, numa sala do quartel-general, estava reunido o Ministério. Vendo-se sem defesa, Ouro Preto enviou um telegrama ao Imperador, D. Pedro II, contando os últimos acontecimentos e pedindo demissão.

Ressaltamos também que, dentro do exército já havia republicanos convictos, esses eram simpatizantes do movimento positivista aonde aproveitaram a ocasião e deram apoio para que a República fosse proclamada. Segundo Historiadores como Boris Fausto (1995), D. Pedro II ainda tentou salvar a monarquia nomeando Silveira Martins, para que esse formasse um novo Ministério. No entanto, foi alertado de que Silveira Martins era inimigo pessoal de Deodoro, propôs então o nome do conselheiro Antônio Saraiva. Porém, já era impossível, pois o novo regime (República Federativa do Brasil) já estava consumado naquela madrugada.

Segundo Lilia Moritz Schwarcz (2010), no dia seguinte daquele mesmo ano, 1889, foram enviados oficiais subalternos para comunicar, às três horas do dia 16 de novembro o banimento da família Imperial. O telegrama enviado pelo governo provisório dava o prazo de 24 horas à família real para que deixasse o país. Essa rápida articulação organizada e pensada pelo novo governo ocorreu pelo motivo de estarem todos temerosos a represália de manifestações favoráveis ao Imperador e à sua família que partiriam juntos para o exílio no dia 17. Mas antes disso, ao contrário do que se divulgou por muito tempo, o grupo destituído do poder e inconformado com o novo regime tentou restaurar a monarquia, no entanto foram reprimidos.

Durante a tentativa de manter o Império no comando do país, a monarquia contou com a defesa da chamada Guarda Negra uma força paralela ao Exército criado no governo Ouro preto, que mantinha forte apoio e por serem gratos pela lei Aurea. Schwarcz (2010) destaca em sua obra sobre a vida do Imperador, as Barbas do Imperador D. Pedro II que;

O mentor da Guarda Negra fora José do Patrocínio, que revelava desse modo até que ponto eram complexas as questões nesse contexto: abolicionista e democrata, Patrocínio era também um dos responsáveis pela difusão do culto a Isabel. […] dizia-se que era formada pela “ralé carioca e por maltas de capoeiras”. Portanto, os ex-escravos guardavam a lealdade à monarquia e se opunham aos republicanos, chamados de “os paulistas”, como se esses últimos fossem os verdadeiros algozes. (SCHWARCZ, 2010, p. 447).

É importante salientar que mesmo com todos esses acontecimentos de mudança de império para república não houve alterações no modelo político de governar, pois o novo regime foi apenas uma acomodação política, a qual não acarretou mudanças nas estruturas econômicas e sociais. Continuou as eleições fraudulentas que possibilitou grupos oligárquicos a se manterem no poder até a década de 30 do século XX.

Destaca-se também que após o fim do império e o início da república era uma época caracterizada por grandes movimentações de ideais, em geral, importadas da Europa. O mais importante nessa época foi o positivismo, Doutrina formulada por Auguste Comte[2], o mesmo tinha grande influência sobre os militares brasileiros. Comte pregava uma ditadura republicana, principalmente, uma separação da Igreja e Estado, além da exaltação à ciência e ao desenvolvimento industrial.

O principal adepto dessa doutrina era o Tenente-Coronel e Professor Benjamin Constant o qual divulgava na Escola Militar onde era professor e que tinha como convicção o lema: “Ordem e Progresso” de origem positivista, lema que faz parte até os dias de hoje da nossa bandeira. Essas ideias de república foram as que mais contribuíram para o avanço do movimento republicano no Brasil durante a década de 1880, progresso e modernização.

Outro fator importante que marcou o período da véspera da queda do Império foi à dissidência entre os militares e o Imperador, esse fato levou muitos oficiais oriundos da classe média a deixarem de apoiar a Monarquia, vale ressaltar que muitos deles ganharam força política após a Guerra do Paraguai.

Portanto, isso nos mostra a importância dos militares que vêm a se seguir no cenário político da primeira república e nos primeiros de anos de governo. Pois “coube ao Exército à missão temporária de ocupar o poder e institucionalizar o novo regime, enquanto a burguesia se organizava para nele se instalar definitivamente e de forma hegemônica” (FREITAS, 2010, p.127).

2.1 INSTAURAÇÃO DA REPÚBLICA

O advento da proclamação da República surgiu de forma improvisada, esse momento de mudança não houve participação do povo, por esse motivo às práticas de comando continuaram com os mesmos personagens que influenciavam à vida política e econômica no período imperial, pois os velhos e os novos continuaram a controlar o país sem participação do povo. Como principal protagonista da construção da República estará os militares, esses estiveram aliados a influências externas de republicanos, porque foram eles os responsáveis que lograram êxito na influência para convencer o Marechal Deodoro da Fonseca a instalar o golpe militar e proclamar a República do Brasil.

É possível constatar este cenário a partir das análises historiográficas da qual relata “a hipótese de que a República brasileira foi, em sua origem, obra dos militares, resultado do descontentamento de setores do Exército e fruto das questões militares que se arrastavam desde o fim da guerra do Paraguai, encontra respaldo nas versões contemporâneas ao fato e na historiografia.” (FERREIRA e DELGADO, 2010, p. 27).

Como prova da participação do Exército no advento da república, autores contemporâneos tentam encontrar, por exemplo, respostas em obras dos dois principais pintores da época, os quais colocaram nas suas respectivas obras artísticas sobre a proclamação da república o papel do exército como personagem principal. Na obra de Benedito Calixto é abordado o Exército como figura triunfante sobre a tomada do poder, já Henrique Bernadelli demonstra na sua obra o Marechal Deodoro da Fonseca como principal herói há frente de todos. Portanto, há uma Introdução histórica dos militares como figuras importantes na imposição da república a partir das imagens destacadas nas obras de arte da época.

Diante da problemática dos militares terem sidos os principais protagonistas, há também outra perspectiva em que aborda o surgimento do movimento republicano. “Visto da perspectiva do tempo cronológico que antecede o 15 de novembro propriamente dito, outra luz ilumina o ocorrido e é fácil perceber que a República brasileira não foi apenas obra do golpe militar que fez cair à monarquia.” (FERREIRA e DELGADO, 2010, p.28).

Para comprovar que a república não foi somente obras dos militares, Carvalho (2004) destaca também a política como um dos principais aspectos causadores da mudança na primeira república. Esse período inicial também revela a partir do governo de Deodoro um cenário político autoritário que levou a sua derrubada do poder e, por conseguinte, Marechal Floriano Peixoto assumindo.

Mesmo assim, não houve uma mudança radical, e sim uma visão nacionalista, progressista e autoritária de forma mais organizada. Portanto, ocorreu nos anos seguintes uma coalizão de poder com as principais forças dominantes do Brasil agrário, o que aumentou as influências políticas da camada mais alta do poder econômico, acrescentando a conservação do poder por meio do autoritarismo militar que, por sua vez, trouxe ideais positivistas para tentar manter a ordem e o progresso.

Contudo, a partir do primeiro ano de governo provisório foi possível concluir a transição do Império para à República, mesmo com os conflitos que ocorreram contra a derrubada do governo nesse período.

Em seguida, logo após a instauração, a República se tornou oligárquica, ou seja, um perfil centrista de poderes que procurava governar de forma autoritária com ajuda de seus aliados. Por conta disso, há um desentendimento e as duas forças aliadas se rompem; a do exército e a dos fazendeiros de café. Houve então, uma divisão entre civis e militares. Essa luta entre ambos correspondeu ao predomínio inicial do exército e dos cafeicultores em seguida. No entanto, seguiremos abordando o período da república em que corresponde ao exército, um período marcado por crise econômica e política.

As primeiras tensões no governo republicano segundo Ferreira e Delgado (2010) foram causadas por Rui Barbosa, emanado como ministro da fazenda, ele provocou enorme turbulência política e financeira. Foi um dos primeiros episódios que marcou o cenário político por tensões entre os próprios ministros representantes da nova República.

Essas transformações vieram ainda no primeiro momento do governo provisório concedendo privilégios para os cafeicultores do Rio de Janeiro, dando continuidade a um modelo adotado ainda pelo governo imperial o qual começou a emitir dinheiro de forma desenfreada, esse mesmo modelo foi seguido com entusiasmo pelo governo republicano, pois estava preocupado também em conquistar simpatias para o novo regime, além de ser uma forma de manter os salários dos funcionários públicos. Entretanto, Carvalho (2004) descreve que em dois anos de governo já se sentia as transformações negativas pela emissão de dinheiro desenfreada.

Esse período trouxe consequências econômicas, em pouco tempo, o qual ficou conhecido como “Encilhamento”.

Não se sabe com certeza por que essa expressão foi consagrada. A explicação mais plausível é a de que se tomou um dos sentidos da palavra “encilhamento” – local onde são dados os últimos retoques no cavalo de corrida antes de disputarem os páreos. Por analogia, teria sido aplicada às ações das empresas na Bolsa do Rio de Janeiro, trazendo em si a ideia de jogatina. (FAUSTO, 1995, p. 252)

Portanto, a partir da análise dos fatos e do ponto de vista de Carvalho (2004) foram possíveis extrair uma ideia de política contínua com debates tensos, conflitos e prisões de opositores ao governo militar nos primeiros anos. Além dos conflitos desse período, a transição do Império para República trouxe as questões religiosas. São elas as principais causadoras dos debates políticos que originaram conflitos e revoluções.

Depreende-se também que, mesmo após a proclamação da República o Brasil continuou a ser um país periférico com grandes riquezas, o mesmo já ostentava seu título de país agrícola e exportador de matéria prima. Entretanto, as transformações de Império para República não houve respaldo significativo na história brasileira para o povo de origem simples. Principalmente aos ex-escravos que naquele momento tinha grande apreço pela Princesa Isabel a qual foi divulgada e celebrada como a responsável pela assinatura da lei áurea de 1888, de forma que;

A República, ou os vitoriosos da República fizeram muito pouco em termos de expansão de direitos civis e Políticos. O que foi feito já era demanda do liberalismo Imperial. Pode-se dizer que houve retrocesso no que se refere a direitos sociais. Algumas mudanças, como a eliminação do Poder Moderador, do Senado vitalício e do conselho de Estado e a introdução do federalismo, tinham sem dúvida inspiração democratizante na medida em que buscavam desconcentrar o exercício do poder. (CARVALHO, 2004, p. 45).

Além do mais, para os olhos dos países europeus continuava sendo um país que dependia do capital estrangeiro para manter sua economia aquecida, principalmente da Inglaterra, a quem o Brasil dependia financeiramente. Portanto, estas transformações não tiveram êxito significativo no âmbito político que trouxesse melhorias na qual fossem direcionadas para o povo simples, pois mesmo “sob novas formas, os antigos e os novos dominantes do poder manteriam firmes as rédeas do comando” (FERREIRA e DELGADO, 2010, p. 26).

Além do poder concentrado na mão de uma minoria questionamentos foram levantados sobre a forma como foi imposto o novo modelo, se foi um improviso ou um golpe militar planejado pela cúpula do Partido Republicano. Isso ocorreu pelo motivo do qual a presença da camada popular não esteve presente no processo.

Dessa forma, o que se originou como uma proclamação da república foi uma tomada do poder em que foi arquitetada para poucos nos quais faziam parte de uma elite e que tinha o desejo de depor o Imperador do trono e proclamar a República, para que só assim a partir daquele momento não mais precisasse do poder moderador nas decisões do país.

Segundo Fausto (1995) a partir do dia 15 de novembro, a passagem deste capítulo da história do Brasil se caracterizou por incertezas no cenário que viria surgir, isso ocorreu primeiramente por ter nesse momento vários grupos políticos, estes divergiam sobre a organização da república, pois cada grupo buscava inserir dentro daquele novo cenário seus interesses próprios. Esses grupos dominantes eram compostos por São Paulo, Minas Gerais e Rio Grande do Sul, os mesmos defendiam a ideia de uma república federativa “que asseguraria um grau considerável de autonomia às unidades regionais” (FAUSTO, 1995, p.245).

Por outro lado, o PRP[3] de Minas Gerais e os seus representantes sustentavam uma ideia de modelo liberal divergindo assim do bloco que o mesmo integrava. Para eles “a base da República seria constituída de cidadãos, representados na direção do Estado por um presidente eleito e por um Congresso” (FAUSTO, 1995, p.245). Vale salientar que;

Durante toda a Primeira República, além de dominar como partido único a situação política mineira, o PRM, aliado ao Partido Republicano Paulista (PRP), dirigiu a política nacional. No plano federal, São Paulo e Minas, como os dois estados de maior expressão socioeconômica do país, controlaram a vida política nacional. Representados por grupos compactos no Congresso Nacional, os dois estados criaram uma aliança da qual procederam quase todos os presidentes da República até 1930 (CALICCHIO, CPDOC/FGV, 2019).

Já para os políticos representantes dos gaúchos a república deveria ser positivista, esse último tornou-se um caso intrigante dentro da história e principalmente para os historiadores pelo motivo do Rio Grande do Sul ter se tornado positivista, e para tentar explicar essa dúvida Fausto (1995) acredita em duas hipóteses; por ter uma grande influência de tradições militares naquela região, e a outra seria por ser um Estado de representação minoritária na política da República. Portanto, para Fausto (1995) precisaria de uma doutrina capaz de lhe dar forte coesão para lutar contra a corrente política tradicional representada pelo Partido Liberal.

Mesmo com os conflitos políticos ocorrendo em vários estados brasileiros nesse período, principalmente na capital, Rio de janeiro. O que chama a atenção Para Saes (2005) tanto no império quanto na recém-implantada República, é que foram excluídos os pobres do voto eleitoral e os mais abastados, pois somente aqueles que eram dignos de status teriam o direito de votar. Ou seja, ficando assim fora do cenário político à maioria da população.

A causa em que a população abastada ficou fora do processo político de transição é que Carvalho (2004) vai destacar que, nasceram ou se desenvolveram várias concepções de cidadania, nem sempre compatíveis entre si, pelo motivo de despertar nos variados setores da população um novo sentimento de luta pelos seus direitos políticos. Desse modo, surgiram razões ideológicas que impulsionaram a população, principalmente os setores operários e militares, assim como a representatividade dos menos favorecidos. Desmistificando a ideia de que o povo assistiu a tudo atônito e bestializado.

Nos anos seguintes as revoltas aconteceram principalmente no Rio de Janeiro, os cidadãos se unem para reivindicar direitos, porém, a maior parte da população não tinha participação de voto no novo regime republicano. Isso mostra uma população bastante ativa no ato de reinvindicações, seja qual fossem as classes operárias, no entanto, não exerciam seus direitos como cidadãos.

Dessa forma o governo;

[…] no campo da ação política, fracassaram sistematicamente as tentativas de mobilizar e organizar a população dentro dos padrões conhecidos nos sistemas liberais. Fracassaram os partidos operários e de outros setores da população; as organizações políticas não-partidárias, como os clubes republicanos e batalhões patrióticos, não duravam além da existência dos problemas que lhes tinham dado origem; ninguém se preocupava em comparecer às urnas para votar (CARVALHO, 2004, p. 141).

Ressaltamos que os principais acontecimentos políticos e revoltas ocorridas no período republicano, principalmente os episódios que ocorreram fora dos parâmetros da Constituição prevista na época, era na maior parte das vezes revoltas causadas por consumidores de serviços públicos, onde, segundo Carvalho (2004), o movimento que chegou mais próximo de uma ação política popular foi o jacobinismo.

Segundo Silva (2019), Jacobino é um termo importado da Revolução Francesa, cujo significado se modificou através dos tempos. No Império, definia os republicanos ardorosos; após a República, os partidários do presidente Floriano Peixoto. Devido às manifestações espetaculosas que estes promoviam, jacobino tornou-se sinônimo de desordeiro e passou a ser identificado como revolucionário radical e extremista. Entretanto, o grupo brasileiro decaía para um caminho de fanatismo e de contradições.

No início do Brasil república o principal papel dos Jacobinos foi defender o vice-presidente Floriano Peixoto. Eram os maiores aliados político-militar do vice-presidente, o mesmo tomou posse na presidência com a renúncia de Deodoro da Fonseca em 23 de novembro de 1891 e cujo mandato presidencial foi contestado como ilegal em 1893, em seguida é deposto e ocorre eleição direta. Mas ainda no seu governo os Jacobinos (Florianistas) diziam-se defensores do nacionalismo, pois suspeitavam que principalmente os portugueses assim como outros estrangeiros estivessem conspirando contra Floriano e a República.

Após a ascensão de Prudente de Moraes ocorre o predomínio das oligarquias, que detinham o poder econômico e com isso manipulava a política a partir das compras de votos e demais meios usados para burlar o sistema político conforme os interesses do grupo predominante. Estes métodos utilizados para burlarem as eleições ficaram conhecidos na história brasileira como; política dos governadores, café com leite, coronelismo e voto de cabresto, pois todos eles se referem aos métodos utilizados para manter o poder dos políticos através de eleições fraudadas e que possibilitou manter o poder até o ano de 1930.

Contudo, depreende-se que o período inicial da República é marcado por acontecimentos de fracassadas inserções de modelos de cidadania, onde “os grupos dominantes que disputaram o poder, a partir de 1889 tinham diferentes concepções sobre a República a ser implantada e, consequentemente, diferentes expectativas sobre seu destino político” (FREITAS, 2010, p.130). Por isso, trazia consigo a incerteza do futuro da República recém-instalada, esta era uma insatisfação que vinha desde o regime Imperial que levou a vários grupos sociais a se mobilizarem “e desde a queda de Deodoro, em novembro de 1891, a agitação política aumentou, envolvendo vários segmentos da população.” (CARVALHO, 2004, p. 72).

Portanto, sabemos que o início do Brasil republicano, revelou-se conflituoso e distorcido diante das correntes historiográfica positivista e do Jacobinismo advinda do modelo francês, ao passo que adotou o modelo Federalista copiado dos Estados Unidos da América. No entanto, criou um modelo federalista desigual com ênfase na modernização somente dos direitos políticos o qual não incluía o povo. Por conseguinte, a criação do estado e a modernização quanto aos direitos continuou a traçar características paternalistas que seguira do modelo imperial, visto que esses membros vinham de uma elite intelectual do império.

Podemos dizer então, que esse modelo republicano com características próprias surgiu através de vários grupos sociais envolvidos no processo republicano, e cada um trazia seus interesses próprios, portanto, trouxe o que já conhecemos na história que é o pluralismo de ideias.

Além disso, a História que versa sobre os acontecimentos do Brasil mostra uma formação de um Estado burguês após a sua formação em 1891, o qual criou leis e um aparelho judiciário para construir a ordem no modelo Republicano, mas denegou o direito de voto para a população analfabeta e criou dessa forma uma exclusão da classe dominada na esfera política.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A pesquisa realizada foi de grande importância para analisar o momento desde a mudança do império nos seus dias finais ao início da República, principalmente, os principais pontos históricos desse processo através dos fatos ocorridos durante o período.

É também, uma maneira de compreender a formação da sociedade brasileira bem como a participação do povo no processo histórico. Sabemos que é essencial formar uma sociedade informada de todos os acontecimentos, na medida em que podemos olhar para o passado e aprender com os exemplos no qual possa contribuir com o desenvolvimento mais justo além de ser conhecedor dos seus direitos.

Além disso, esse processo histórico trouxe parâmetros que nos permite interpretar a fragilidade que decorreu a imposição da Republica e a forma que foi gerado o nepotismo no Brasil e, por consequência, causou conflitos sociais bem como contestações políticas aos governantes.

O objetivo através dessa pesquisa foi destacar o processo de transição assim como os problemas sociais e políticos que envolvem, além de demonstrar o modelo de formação dos políticos brasileiros, e que, infelizmente seguem até os dias atuais. Visto que, esses afetam nossa sociedade com políticas que beneficiam a uma determinada classe dominante.

4. REFERÊNCIAS

CARVALHO, José Murilo de. Cidadania no Brasil. O longo caminho. 3ª ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2002.

CARVALHO, José Murilo de. Os Bestializados: o Rio de Janeiro e a república que não foi. 3. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2004. 196 p.

CHARTIER, Roger – A história cultural entre práticas e representações, Lisboa Difel, 1990.

CALICCHIO, Vera. Partido PRM <http://www.fgv.br/Cpdoc/Acervo/dicionarios/verbete-tematico/partido-republicano-mineiro-prm >. Acesso em 08/05/2019 00:40

COSTA, Carla. Cronologia resumida da Guerra de Canudos. <http://museudarepublica.museus.gov.br/wpcontent/uploads/2017/10/CronoCanudos.pdf>. Acesso em 09/10/2019 19:33

FRAZÃO, Dilva. Aguste Comte. <https://www.ebiografia.com/auguste_comte/>. Acesso em 18/05/2019 00:24

FAUSTO, Boris. História do Brasil. 2. ed. São Paulo: Editora da Universidade de São Paulo: fundação de desenvolvimento da Educação, 1995.

FERREIRA, Jorge e DELGADO, Lucilia de Almeida Neves. O Tempo do Liberalismo Excludente – da proclamação da república à Revolução de 1930. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010.

FREITAS, Marcos Cezar (org.). Historiografia Brasileira em Perspectiva. In: O Diálogo convergente: Políticos e Historiadores no início da República. 6. Ed. 2ª reimpressão. São Paulo: Contexto, 2010.

PRIORE, Mary Del; VENANCIO, Renato. Uma Breve História do Brasil. São Paulo: Planeta do Brasil, 2010.

SAES, Décio. A Formação do estado burguês no Brasil 1888-1891. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985.

SAES, Guillaume Azevedo Marques de. Tese: A República e Espada: a primeira década republicana e florianismo – USP. São Paulo, 2005.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do imperador D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

SILVA, Beatrz Coelho. JACOBINISMO: <https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/JACOBINISMO.pdf>. Acesso em 08/07/2019 20:33

SKIDMORE, Thomas E. A criação do Brasil “Moderno”: 1870-1910. In: Uma História do Brasil. Tradução de Raul Fiker, São Paulo: Paz e Terra, 1998.

APÊNDICE – REFERÊNCIAS DE NOTA DE RODAPÉ

2. Auguste Comte (1798-1857) foi um filósofo francês, considerado o fundador do Positivismo – corrente filosófica que propõe uma nova organização social. Foi o primeiro a empregar o termo sociologia.

3. Partido político mineiro fundado em 1888 e reorganizado em 1897. Seu líder mais expressivo foi Artur Bernardes, que esteve à sua frente de 1919 até sua extinção em 2 de dezembro de 1937, por força do Decreto nº 37, que aboliu todos os partidos do país. (CALICCHIO, FGV/CPDOC, 2019).

[1] Pós-graduado em Docência no Ensino de História pela UniBF e graduado em Licenciatura plena em História pela Universidade Estadual de Pernambuco-UPE.

Enviado: Janeiro, 2020.

Aprovado: Julho, 2020.

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