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Catolicismo popular em Parintins: rupturas e permanência

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

CAVALCANTE, Ronaldo Bentes [1]

CAVALCANTE, Ronaldo Bentes. Catolicismo popular em Parintins: rupturas e permanência. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 03, Vol. 04, pp. 103-115. Março de 2019. ISSN: 2448-0959.

RESUMO

A religiosidade popular ganhou relevo na Amazônia após a expulsão dos Jesuítas dessa região juntamente com outras ordens religiosas, os religiosos que permaneceram estavam subordinados a Diocese de Belém, o que provocou uma decadência das atividades missionárias, com isso ganhou importância à figura do leigo, que passou a ser responsável pelas atividades missionárias. Essa manifestação religiosa na Amazônia foi combatida pela Igreja principalmente no período conhecido como Reforma da Igreja na Amazônia ou romanização. A romanização valorizava mais os sacramentos em detrimento dos sacramentais, a saber: velas, fitas, imagens, etc. Nesse artigo enfocaremos o grau de rupturas e permanência do catolicismo popular em Parintins a partir da chegada dos missionários do PIME (pontífice instituto das missões estrangeiras) nesse município. Por ser a religiosidade uma forte característica da população amazônica acreditamos que esse artigo é relevante para ampliar o conhecimento sobre a religiosidade popular nessa região com maior ênfase em Parintins e ressaltando o nível de continuação dessa prática mesmo com a tentativa de controle por parte da Igreja.

Palavras-chave: catolicismo popular, Santos, Romanização.

INTRODUÇÃO

O presente artigo tem como proposta fazer uma análise do catolicismo popular no município de Parintins, a partir da chegada dos missionários do PIME[2], procurando destacar os níveis de ruptura e permanência dessa prática religiosa; esse estudo não tem a pretensão de apresentar um panorama completo sobre essa temática, o que seria impossível fazer nesse artigo, uma vez que esse município possui várias comunidades rurais[3] com forte presença da igreja católica. Quanto aos procedimentos metodológicos o trabalho se pauta em uma abordagem qualitativa, para coleta de dados realizamos uma pesquisa bibliográfica, buscando informações que subsidiassem a compreensão sobre o processo histórico e simbólico do catolicismo popular. Para maior entendimento do tema trabalhamos com o conceito de catolicismo popular procurando elencar suas principais características.

Escrever sobre o catolicismo popular é fazer uma viagem pela alma humana, carregada de mistérios, emoções, morte e vida, buscando conhecer o imaginário; é nessa riqueza que o catolicismo popular assenta.

CARACTERIZANDO O CATOLICISMO POPULAR

Podemos dizer que o que ficou conhecido como catolicismo popular é o lado alegre da igreja, com suas festividades em honra a seus santos padroeiros, novenas, procissão, reza do terço, ladainhas, festas, momento de socialização e oportunidade de mostrar sua gratidão aos santos por uma graça alcançada. Vejamos algumas características fundamentais do Catolicismo Popular:

[…] reuniões familiares para reza comum; maior obrigatoriedade de frequência à novenas, procissões e romarias do que as práticas do culto oficial; as práticas religiosas não dependem necessariamente da aprovação ou presença do sacerdote nem seguem o calendário litúrgico oficial; a religiosidade por conseguinte, é relativamente independente da Igreja, apresentando antes um caráter propiciatório do que expiatório (CAMARGO, 1973, p. 58).

A riqueza do catolicismo popular é justificada pela fusão de três culturas: a do índio com sua pajelança, os africanos com sua variedade cultural, cheio de calor humano, que se expressava principalmente em suas danças e músicas ritmadas e dos europeus. “No caso da Amazônia, o sistema religioso que se desenvolveu teve seus elementos básicos no catolicismo Ibérico”. (GALVÃO, 1976, p.7).

A expressão popular não denota inferioridade ou que os praticantes do catolicismo popular sejam pessoas de uma classe social inferior, essa afirmação encontra abrigo na declaração de Heraldo Maués (1999, p.171) que define o catolicismo popular como “conjunto de crenças e práticas socialmente reconhecidas como católicas, de que partilham, sobretudo os não especialistas do sagrado, quer pertençam às classes subalternas ou às classes dominantes”. Seus costumes e práticas são de caráter tradicional, sendo transmitidos de uma geração para outra e com eventuais alterações sendo vistas como uma perda de respeito, e “seus praticantes se situam, majoritariamente, entre os setores mais pobres e menos escolarizados da população, possuindo, ainda, profunda ressonância no meio rural” (SOUZA, R., 2013, p.5).

O catolicismo popular é uma das modalidades do catolicismo nas devoções aos santos. Dito de outra maneira, esse catolicismo pode ser definido usando a expressão popular: muita reza pouca missa; muito santo pouco padre. O catolicismo do caboclo amazônico é marcado por uma forte devoção aos santos padroeiros e a outros santos de devoção (Galvão, 1976).

A religiosidade popular tem sua pratica no âmbito familiar e nas pequenas comunidades rurais; comumente o povo se reúne na casa de alguém ou na capelinha local para rezar o terço ou fazer uma novena. O devoto vai estabelecer uma relação com não com o santo, mas com a imagem dentro da sua singularidade.

Os leigos[4] assumiam funções religiosas como rezadores, curandeiros, parteiras, conselheiros. Para Galvão (1976), nas comunidades isoladas que não havia a presença constante dos padres havia autonomia para a organização das festas religiosas, de modo que a presença das autoridades eclesiásticas era até evitada por representar uma ameaça para a realização do baile.

Os santos são considerados divindades, que tem a função de proteger a comunidade, geralmente as pessoas invocam os santos com o objetivo de conseguir uma boa colheita, pescaria ou até mesmo proteção para seus animais, essa relação entre as partes é vista como uma forma de contrato que é a promessa, muitas vezes paga adiantada, para que o santo retribua com o beneficio esperado (GALVÃO, 1976). Quando a promessa não é cumprida o santo pode aplicar um castigo, alguns santos como por exemplo São Benedito é considerado um Santo vingativo.

No catolicismo popular, a devoção está mais na imagem do que no próprio santo, mas a promessa nunca é direcionada diretamente a Deus, e sim a um santo ou à Virgem, que, nestes casos, atuam como medianeiros. (SOUZA, R., 2013).

Como já foi sublinhado, o trato entre os santos e os fiéis tem como fundamento a realização de promessas por parte destes, e estas devem ser cumpridas, sob pena de despertar a ira da entidade que se sente lograda. Wagley (1957, p. 303), ao estudar as crenças religiosas existentes em uma comunidade amazônica, acentua: “Algumas vezes os santos são mais severos em seus castigos para com aqueles que quebram promessas. Enviam doenças, pragas para as plantações e má sorte nos negócios”.

As devoções aos santos na cultura popular se apresentam como resposta para dar sentido a sua vida. Surge daí a importância do santo na vida dos devotos, pois o contato com o santo ocorre de forma direta, sem nenhuma intervenção por parte da Igreja.

Mas quem são os santos? A definição mais aceita de santos entre os católicos, é que são aqueles indivíduos que viveram uma vida exemplar na terra e a quem a Igreja Católica determinou que estejam certamente com Deus. Os santos são mais comumente conhecidos pelo martírio, virtude heroica e milagres a eles atribuídos. Como resultado desses dons, católicos em todo o mundo rezam aos santos, e os honram celebrando seus dias festivos, mencionando-os de tempos em tempos na celebração da Missa, colocando estátuas e pinturas deles, entesourando seus pertences mundanos, bem como seus restos físicos, e dando os nomes deles a seus filhos e a suas igrejas; alguns pais consagram seus filhos ao nascer a um determinado santo ou nomeiam os santos como padrinhos. Em algumas cidades os bairros recebem nome de um santo, como em Manaus, por exemplo, que homenagearam Santa Etelvina dando a um bairro o seu nome. “Etelvina, adolescente nordestina assassinada de modo bárbaro em Manaus no início do século XX, tornou-se a Santa Etelvina, objeto de peregrinações, fazedora de milagres” (SOUZA, R., 2013, p.104). Apesar de ser aceita como santa sua canonização nunca ocorreu, ela é considerada a “Santa dos estudantes”, e os fieis afirmam que a jovem é uma santa popular[5].

Há dois diferentes níveis de honra para os santos indivíduos que faleceram. Aquelas pessoas que são veneradas localmente ou por ordens religiosas de padres ou freiras são beatificadas. Elas são chamadas pelo título “beato[6]”. Somente aquelas que são canonizadas pelo Papa são considerados santos pela igreja. Esta distinção é ignorada pela maioria dos católicos, como vimos no caso de Santa Etelvina. Maués nos ensinam:

Os santos, pois, foram pessoas que viveram na terra e se santificaram. A santificação está ligada, por outro lado, à ideia de “corpos santos”, isto é, cadáveres de pessoas que não se decompuseram e foram encontrados intactos no cemitério após vários anos (2011, p.17).

O catolicismo popular, devido à presença do sagrado e o profano foram por muito tempo criticado e combatido pela igreja, principalmente devido aos excessos que ocorriam nas festas. Com o concílio vaticano II (1962-1965), a igreja começou a aceitar algumas práticas dessa manifestação religiosa. A conferência de Aparecida[7] apresenta o catolicismo popular com um lugar de encontro com Jesus Cristo, indica que ele é “imprescindível ponto de partida para conseguir que a fé do povo simples amadureça” (DAp 262 apud, FERRARO, 2018, p. 239).

CATOLICISMO POPULAR EM PARINTINS E O CONTROLE ECLESIAL

Os primeiros moradores de Parintins foram índios: Aratu, Apoicuitara, Gogui, Yara e Curiatós, a presença indígena pode ser percebida em toda a área do município por meio de inúmeros artefatos encontrados (CERQUA, 2009; E SOUZA, T., 2003), todas essas tribos foram dominadas pelos Tupinambás[8], entre eles havia um grupo denominado Parintintin que é a origem do nome do Município. Esse local recebeu várias denominações, primeiro “Tupinambarana, Vila Nova da Rainha, novamente Tupinambarana, Villa Bella da Imperatriz e quando foi elevada a categoria de cidade passou a ser adotado o nome de Parintins” (BITTENCOURT, 1924, p.17).

Parintins é um município brasileiro do Estado do Amazonas com uma população de 102.033 (IBGE 2010), sendo que a estimativa da população para 2017 era de 113.832 mil habitantes, se configura como a segunda maior cidade do estado e um dos pontos turísticos mais importantes da Amazônia. Está localizada à margem direita do rio Amazonas a uma distância de 369 km de Manaus por via fluvial, com área territorial de 5.952 Km². Em um raio de pouco mais de 200 km do município, encontram-se algumas das principais cidades do interior do Amazonas e do Pará – Itacoatiara, Manacapuru, Maués, Manicoré, Santarém Itaituba, Oriximiná, Óbidos, Altamira, entre outras, o acesso a essas cidades se dá principalmente por meio de transporte fluvial, muito comum na região amazônica[9].

Quanto ao aspecto cultural à cidade se destaca pelo festival dos bois Caprichoso e Garantido que ocorre na última semana de junho, faz parte da tradição da cidade o festival das pastorinhas, o Carnailha e a festa da padroeira Nossa Senhora do Carmo que ocorre no período do dia do dia 06/07 a 16/07. A festa da padroeira[10] é um momento com intensa participação não só da população local, mas dos Munícipio vizinhos e mesmo da capital Manaus.

Nossa Senhora do Carmo foi instituída como padroeira do município pelos carmelitas no século XIX, a fé católica nessa cidade está assentada na devoção mariana o que pode ser percebido pela intensa participação dos fieis nas programações religiosas que ocorrem no período da festividade.

Na festa de Nossa Senhora podemos verificar a presença do profano e do sagrado disputando o mesmo espaço, pois, enquanto os fieis rezam, fazendo seus pedidos e agradecimentos, no entorno da igreja acorre um intenso comércio, variando de venda de comida, bebidas e outros produtos. A festa em honra a padroeira é divida em dois momentos: o religioso e o social. Essa intensa manifestação de fé é marcada por procissão, romaria, reza do terço, batizados, casamentos, benção dos escapulários[11], a programação religiosa é acompanhada da programação social momento em que ocorrem sorteios e bingos.

A festa de Nossa Senhora do Carmo apresenta elementos comuns da religiosidade popular, ressaltando que nesse caso ocorre a presença frequente de sacerdotes. Em uma entrevista ao jornal acrítica[12] o padre Jânio Moura de Negreiros, corrobora que a devoção a Nossa Senhora do Carmo tem ligação com o catolicismo popular.

O povo de Parintins se construiu neste ambiente de fé. Aqui se desenvolveu muito com os padres missionários do Pime (Pontifício Instituto das Missões Exteriores no Brasil), mais diretamente com a criação da Prelazia e depois Diocese e isso desenvolveu muito em se tratando de devoção também popular como é conhecida na nossa região, e pelo fato de se desenvolver muito as congregações Mariano e Apostolado da Oração que incentivavam muito essas devoções. Isso animou a vida das nossas comunidades e como a cidade de Parintins foi crescendo, também com pessoas de fora, mas muitos ribeirinhos, elas trazem essa raiz. Essa devoção a Nossa Senhora cresceu muito nos últimos anos.

Pode-se perceber em relação à festa da padroeira de Parintins que a Igreja sempre apoiou essa devoção a Nossa Senhora do Carmo, mas não foi essa a postura dos missionários do PIME em relação às festas em honra a alguns santos.

CATOLICISMO POPULAR X CATOLICISMO ROMANIZADO

A população de Parintins é predominante católica, a Igreja está presente nesse município desde o século XVII quando os primeiros missionários jesuítas chegaram nessa região, relatos apontam que Francisco Gonçalves foi o primeiro jesuíta a visitar a ilha Tupinambarana no ano de 1658, em 1660 os padres Manuel Pires e Manuel Souza, ficaram responsáveis de trabalharem com os índios Tupinambarana em uma aldeia localizada próxima a comunidade do Remanso (SOUZA, T. 2003 E CERQUA, 2009). No final do século XVII, chegou à Vila Tupinambarana o carmelita Frei José das chagas, dessa forma a Igreja católica mantem sua presença nessa área mesmo com um número insuficiente de missionários.

Em 1955, chegavam a Parintins os missionários do PIME; assim, a igreja católica ampliou sua envergadura no Médio Amazonas com a criação da Prelazia de Parintins que abrange Maués, Barreirinha, Boa Vista do Ramos e Nhamundá. Esses missionários tinham como objetivo criar a igreja local; no entanto a missão desse instituto era orientada pela Santa Sé, dessa forma os padres estavam alinhados com o catolicismo romanizado[13] e procuram combater as práticas do catolicismo popular.

Antes da criação da prelazia um padre era responsável por atender toda a área que corresponde à Diocese, muitas vezes ficando essas localidades sem a presença de um sacerdote por quase um ano, o que possibilitou que os leigos tomassem frente das funções religiosas e ocorrendo, com isso, o fortalecimento do catolicismo popular.

A partir da chegada dos missionários do PIME a igreja intensifica sua presença nas comunidades rurais por meio das desobrigas[14] que se tornam mais frequente, alegando que as pessoas não receberam uma correta evangelização e que ainda se encontram perdidos no vício da bebedeira e não tem noção do verdadeiro significado de família; a presença do padre dentro ou próximo das comunidades propiciou um controle maior sobre a vida religiosa da população. Os instrumentos utilizados para efetivar esse controle, foram a criação de comunidades, trocas de lideranças comunitárias, substituição de santos padroeiros, assim como construção de capelas. Segundo Arenz:

A igreja revigorou sua presença no interior combatendo as superstições do catolicismo popular, impondo em alguns casos um controle intenso sobre essa manifestação religiosa principalmente em relação às festividades envolvendo danças e bebidas. A igreja revigorou sua ação pastoral, por meio das reformas centralizadoras de romanização, marcando uma presença renovada (desobrigas, administração dos sacramentos, novas devoções), junto a população do interior da Amazônia, uma postura de combate a religiosidade popular e o assistencialismo, impediu uma aproximação a cultura, e mais precisamente ao imaginário dos ribeirinhos. (2003.p.96).

Em Parintins a igreja proibiu as festas dançantes, outras práticas continuaram, mesmo com a proibição, os bailes ainda aconteciam principalmente quando o padre não estava presente. Galvão (1976, p.59) assinala “é difícil afirma qual é a parte mais importante de festa, se é o baile, a reza, a comida farta, o mastro, o círio ou respeito ao santo”. Todos esses elementos são parte de uma engrenagem que suprimir um, compromete o funcionamento dos demais.

Campos (1995) assevera que ocorreu uma decadência do catolicismo popular em Parintins com a chegada dos missionários italianos, o aludido autor, como forma de dar sustentação a sua assertiva, relata um caso de intolerância ocorrido no Panauarú, local que era habitado por negros remanescente de quilombos e cultuavam Santo Antônio dos Cativos, esses negros foram convidados a se retirar do local por uma família que estava alinhada com a igreja, como os devotos de Santo Antônio não aceitaram a imposição, um padre juntamente com membros dessa família durante a madrugada destruíram a capela em honra ao santo, após esse episódio os mangueiras como eram chamados os negros, deixaram o local e a devoção ao Santo protetor não continuou em virtude dos negros já estarem em idade avançada.

No relato acima se pode constatar uma ruptura das práticas da religiosidade popular, ruptura que levou a extinção da devoção a Santo Antônio nessa comunidade rural de Parintins. A igreja por meio do PIME agiu com intolerância em relação aos negros, não respeitando suas crenças, mas outros fatores também contribuíram para não continuidade dessa devoção, como aponta Galvão (1976). Nas zonas rurais da Amazônia, a tendência é que uma forma mais ortodoxa de catolicismo se acentue, as próprias áreas rurais ganham novas configurações com a proximidade com os centros urbanos e os novos conceitos difundidos principalmente pela escola provocam uma mudança na vida rural e nas suas tradições religiosas.

As comunidades rurais de Parintins surgiram a partir do trabalho da igreja católica, que comprando terreno possibilitou a construção de igrejas, escolas e assim deu início a várias comunidades.

A comunidade de Terra Preta do Mamuru, usada aqui como exemplo, traz em sua história à interferência da Igreja na prática do Catolicismo popular. Segundo Andrade (2016), a igreja influenciou diretamente na troca do santo padroeiro, pois os moradores eram devotos de São Sebastião já com a chegada do PIME, esses missionários sugeriram a troca para São José, muitas vezes a justificativa dos sacerdotes era que um determinado santo é mais popular que outro, mesmo assim, a população não aceitou de início essa imposição. Mesmo com a troca do Santo a comunidade continuou venerando São Sebastião e São José passou a ser o Padroeiro da comunidade.

Apesar da interferência da igreja, a festa a São José com todos os elementos característico do catolicismo popular continuou, sendo feitas pequenas concessões ou ajuste para não entrar em conflito com os padres, principalmente no dia em que o sacerdote visita a comunidade como afirma Andrade. “Nesse dia, não pode haver venda de bebida alcoólica e atividades que os moradores entendem como sociais, sendo que, para a igreja são coisas profanas, permitindo assim apenas as práticas sagradas”. (2016, p. 83-84).

As festas de santos não se restringem apenas ao lado religiosos, “que incluem além de rezas, baile e comedoria, são objetos de crítica severa da igreja” (Galvão, 1976, p35). Muitas vezes as críticas feitas pela igreja encontra respaldo no excesso que ocorre durante principalmente o baile e torneios, em muitos casos ocorrendo brigas. Por outro lado, é o excesso que dá sentido à festa e, sem este, ela não faz sentido. Em todo caso existem normas e não é diferente nas festas em honra aos santos, não sendo as normas uma prerrogativa das festas cristã, saber se comportar em uma festa é a regra básica para qualquer pessoa que dela queira participar.

No caso da festa de São José da Comunidade de Terra Preta do Mamuru, temos uma situação de permanência do catolicismo popular, fato esse que pode ser justificado em razão da igreja e os comunitários cederem para que não ocorressem conflitos entre as partes e o entendimento de que as festividades são um momento de socialização e que serve para fortalecer os laços de comunidade e uma forma de confraternização, pois nos eventos não há distinção de classe social, todos compartilham do mesmo espaço tendo em comum a devoção a um santo.

Outro exemplo de devoção aos santos que ocorre no município de Parintins são os festejos em honra a São Miguel e São João. Segundo Corrêa (2011), a festa em homenagem a São Miguel já existe há mais de meio século e há de São João a mais de um século, mesmo com a tentativa de controle da igreja a tradição foram mantidas, as festividades são organizadas sem a participação do clero. Essa prática de evitar o envolvimento dos padres na organização desses eventos religiosos é uma forma que a comunidade tem de evitar o controle eclesial, “os leigos que as dirigem não tem qualquer relação com os padres, preferindo evita-los” (GALVÃO, 1976, p.35). Outro fato relatado por Corrêa (2011, p.94) que evidencia que o padre não é bem vindo durante as festas, “é que o barracão onde possivelmente ocorre o baile fica fora da quadra da igreja para evitar a presença do padre no local”.

O que podemos perceber nos casos em pauta é que apesar das criticas e tentativa de controle por parte da igreja, em Parintins as práticas do catolicismo popular permaneceram, contrariando, portanto, os ensinamentos de Campos (1995) que acena para uma decadência dessa religiosidade, os missionários do PIME não passaram por cima da religiosidade popular e não ocorreu uma romanização como era pretendido, o que ocorreu foi um processo dialético, tanto o clero quanto os leigos precisaram fazer concessões.

O controle por parte da igreja está ligado ao fato de que o catolicismo romanizado valoriza, mas os sacramentos (batismo, comunhão, crisma, matrimônio, ordem, confissão e unção dos enfermos) enquanto no catolicismo popular os sacramentais são mais importantes (imagens, velas, fitas, água benta, imagem de santo etc.), sendo que os santos ganham uma importância de destaque no catolicismo popular, fato esse que pode ser constatado nos casos analisados. Como assinala Galvão (1976, p.29) “a devoção individual ou da comunidade se faz sentir sobre os santos, ou, mais explicitamente sobre a imagem dos santos”.

Para a igreja uma das formas que os fieis têm de entrar em contato com Deus é por meio dos sacramentos, assim ganhando importância quem irá ministrá-lo, no caso o padre. No caso de Parintins que tem mais de cem comunidades rurais e um número de padres reduzidos, impossibilitando que seja feitas visitas frequente as comunidades, os leigos assumiram a direção das atividades religiosas seguindo as orientações dos padres, mas não deixando de fazer promessas aos santos e as tradicionais festas como forma de pagar uma graça alcançada.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

A igreja por muito tempo combateu a religiosidade popular, porém com o concílio Vaticano II, que passa a conceber a igreja como “povo de Deus”, o catolicismo popular também denominado de piedade popular pela igreja ganha mais aceitação, essa abertura fica mais evidente com a Conferência de Medelín, a partir desse momento a igreja subtende que não podemos julgar a religiosidade popular “a partir de uma interpretação cultural ocidentalizada das classes médias e urbanas” (Med 6, apud, Ferraro, 2018,p.237). A igreja percebe que o continente latino americano possui uma configuração multiétnica e pluricultural e essa diversidade reflete na religiosidade desse povo que precisa ser aceita e respeitada, realidade que pode ser percebida nas festas de santos em Parintins. Falando sobre o aspecto cultural de cada povo o Papa Francisco afirma “cada cultura oferece formas e valores que podem enriquecer o modo como o evangelho é pregado, compreendido e vivido” (EG 116).

Precisamos entender que toda forma de religiosidade tem como propósito a promoção humana. No caso de Parintins no início do trabalho dos missionários do PIME não ocorreu essa percepção, como já foi relatado, mas ocorreu certa resistência por parte dos devotos e assim a igreja começa a ser menos intolerante, resultando que o catolicismo popular que é o lado festivo e alegre da igreja católica continua fazendo parte da religiosidade do povo desse município, e como bem falou o Papa Francisco estamos diante de “uma realidade em permanente desenvolvimento, cujo protagonista é o Espírito Santo” (EG 122). Dessa forma se pode concluir que todas as práticas religiosas têm sua importância e que a religiosidade popular com seus santos, ladainhas, reza do terço, baile, romaria, procissão está arraigado na cultura do povo amazônico; são momentos de alegria e forte devoção, essa devoção é a força necessária a que esse povo humilde e sofrido se apega para enfrentar as provações diárias. E são aos santos que esses devotos se dirigem acendendo um círio votivo pelo atendimento às suas súplicas e orações e com a certeza que suas preces serão atendidas.

REFERÊNCIAS

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ARENZ, Karl Heinz. São e salvo: a pajelança da população ribeirinha do Baixo Amazonas como desafio para a evangelização. Quito (Equador): ABYA-YALA, 2003.

BITTENCOURT, Antônio Clemente R. Memória do Município de Parintins. Manaus: Livraria Palais Royal,1924.

CAMARGO, Cândido Procópio Ferreira de. Católicos, Protestantes, Espíritas. Petrópolis: Vozes, 1973.

CAMPOS, Manuel do Carmo. A decadência do catolicismo popular na região parintinense (1955-1975). Revista de cultura teológica. 1995, p. 109-117.

CERQUA, Dom Arcângelo. Clarões de fé no Médio Amazonas. 2 ed. Manaus: ProGraf- Gráfica e Editora, 2009.

CORRÊA, Rosimay. Festa de santo: o pagamento de promessas em Parintins-AM. 2011. 109 f. Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação do Mestrado em Sociologia da Universidade Federal da Amazonas.

DONEGANA, Costanzo. Pime traços de uma bela história. São Paulo: Editora Mundo e Missão, 2016.

FRANCISCO. Evangelli Gaudium. São Paulo: Paulos / Loyola, 2013.

FERRARO, Benedito. Pastoral popular, com ênfase na caminhada das CEBs. In: Medelín: memória, profetismo e esperança na América Latina / Ney de Souza, Emerson Sbardellotti, (org.) – Petrópolis, RJ: Vozes, 2018.p.229-242.

GALVÃO, Eduardo. Santos e Viagens: um estudo da viagem religiosa de Ita, Baixo Amazonas. 2. Ed. São Paulo: Nacional; Brasília: INL, 1976.

MATA, Possidônio Carrera da. A Igreja e sua missão na Amazônia. Encontros Teológicos. 2007. n 46. p.20-29. MAUÉS, Raimundo Heraldo. Uma outra “invenção” da Amazônia : religiões, historias e identidades. Belém: Cejup, 1999.

________________________. Outra Amazônia: os santos e o catolicismo popular. Norte

Ciência. 2011, vol. 2, n. 1, p 1-26.

NUNES, Paulo André. Povo da Ilha Tupinambarana e a fusão do sangue folclórico com a fé na padroeira. Jornal aCritica, Manaus,26/062018. Disponível em: https://www.acritica.com/channels/parintins/news/povo-parintinense-e-a-religiosidade-a-flor-da-pele-em-varios-momentos . Acesso em: 16 de Jul. 2018.

SOUZA, Ricardo Luiz de. Festas, procissões, romarias, milagres: aspectos do catolicismo popular. Natal: IFRN, 2013.

SOUZA, Tadeu de. Missão Vila Nova – Parintins (Dos Jesuítas aos Missionários do PIME). Parintins: Gráfico João XXIII, 2003.

WAGLEY, Charles. Uma comunidade amazônica: estudo do homem nos trópicos. São Paulo: Nacional, 1957.

2. Pontífice instituto das missões estrangeiras criados no ano 1850 na Itália.

3. O catolicismo popular tem suas manifestações tanto na zona rural como urbana, sendo, mas frequente na área rural aonde existe uma carência de sacerdotes.

4. Com a expulsão dos jesuítas e de outras ordens religiosa a igreja viu sua presença na Amazônia prejudicada, dessa forma se avivou o catolicismo popular com toda sua riqueza de manifestações o que deu relevo aos leigos que assumiram em muitos lugares as manifestações religiosas ( MATA, 2007).

5. Há dois tipos de santos: o que a igreja declara e passa pelo processo de beatificação e canonização; e aquele que é declarado santo pela voz do povo; aqueles que são santificados pelo povo apresentam um elemento comum que é a morte em circunstâncias trágicas, um sinal indefectível de santidade é o corpo incorrupto.

6. No direito canônico, é a pessoa aprovada num processo de beatificação, estando, portanto, passível de tornar-se posteriormente um santo. Popularmente, beato é a pessoa que nunca se casou ou que não possui uma vida amorosa ou sexual. Pode identificar também senhoras extremamente assíduas e participativas nas atividades paroquiais.

7. A V Conferência Geral do Episcopado Latino-americano e do Caribe, ou Conferência de Aparecida, foi inaugurada pelo Papa Bento XVI, em Aparecida, no dia 13 de maio e encerrou no dia 31 de maio de 2007.

8. A palavra Tupinambá significa “homem viril. Homem forte”, e Tupinambarana quer dizer “tupi não verdadeiro”, mas derivado de mestiçagem. (CERQUA,2009)

9. IBGE 2010.

10. Esse ano a festividade tem como tema “Maria, Mãe da igreja em saída” e o lema “sal da terra e luz do mundo”.

11. Consta na tradição católica, que no dia 16 de julho de 1251, a própria Virgem Maria entregou o escapulário a S. Simão Stock, dizendo estas palavras. “Filho querido, recebe este escapulário de tua Ordem, sinal de minha fraterna amizade, privilégio para ti e todos os Carmelitas. Aqueles que morrerem revestidos com ele não padecerão o fogo do inferno. É um sinal de salvação, amparo e proteção nos perigos e alianças de paz para sempre. A segunda promessa de Nossa Senhora foi feita ao Papa João XXII, que diz: “ Eu, mãe bondosa, descerei no primeiro sábado após sua morte, e a quantos achar no purgatório livrarei e levarei ao monte santo da vida eterna”. O próprio Papa confirmo essa indulgência plenária em favor daqueles que usassem o escapulário

12. Povo da Ilha Tupinambarana e a fusão do sangue folclórico com a fé na padroeira. Jornal a Critica, Manaus,26/06/2018

13. É o movimento de reestruturação interna da hierarquia eclesiástica com a finalidade de reforçar seu poder espiritual, reafirmando os cânones de fé e moral, uma vez que perdeu seu poder secular devido à separação entre Igreja e Estado. O objetivo é de modelar o catolicismo brasileiro conforme o esquema “romano”, implicando num rigor doutrinal, moral e hierárquico. Esse catolicismo teve como principais divulgadores os religiosos missionários. Os efeitos da romanização sobre o Catolicismo Popular foram importantes.

14. As chamadas desobrigas eram visitas pastorais feitas pelos missionários em vilas e vilarejos, geralmente isolados.

[1] Mestrando em Sociedade e Cultura na Amazônia- UFAM, Professor Nível Superior.

Enviado: Janeiro, 2019.

Aprovado: Março, 2019.

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Ronaldo Bentes Cavalcante

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