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A educação jesuíta e suas contribuições para o processo de colonização do Brasil

RC: 141716
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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/educacao-jesuita

CONTEÚDO

ARTIGO CIENTÍFICO 

SILVA, Débora Aparecida da [1]

SILVA, Débora Aparecida da. A educação jesuíta e suas contribuições para o processo de colonização do Brasil. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 08, Ed. 03, Vol. 02, pp. 26-39. Março de 2023. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/educacao-jesuita, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/educacao-jesuita

RESUMO

O trabalho se pauta na abordagem da educação jesuíta no Brasil, assim como seus objetivos e as consequências de seu modelo para o desenvolvimento das colônias portuguesas. Com a chegada dos portugueses ao Brasil e o início do processo de colonização das terras, Portugal precisava da ajuda dos índios para o trabalho, e, para dominá-los, seria mais fácil se lhes fossem impostos o aculturamento. Com o trabalho de pesquisa, buscou-se, de modo geral, apresentar o modelo jesuítico e suas contribuições para a colonização brasileira, e, para atingir o esperado, foi necessário: abordar o processo de colonização no país contando com os jesuítas na catequização dos índios e analisar as contribuições da educação jesuítica no desenvolvimento nacional e, também, na formação do homem. O artigo foi desenvolvido através do método qualitativo, contando com o levantamento de informações bibliográficas compreendidas entre 1998 e 2017, encontradas em base de dados tais como: Scielo e Google Acadêmico. Para fins de discussão se verificou que a educação jesuítica chegou ao Brasil com a intenção de levar aos índios a cultura, religião e costumes europeus, de modo que contribuíssem para o processo de colonização. Logo, com a “domesticação” dos indígenas, a Coroa Portuguesa conseguiria explorar com maior facilidade as terras descobertas.

Palavras-chave: Educação jesuíta, Modelo educacional brasileiro, Metodologia educacional.

1. INTRODUÇÃO

A educação brasileira traz traços do modelo europeu em sua forma e aplicação, pois, quando aconteceu a colonização no Brasil, os portugueses precisaram encontrar uma forma de “domesticar” os nativos e impor crenças, costumes e cultura europeia, o que ajudaria no processo colonial. Diante dessa realidade, os jesuítas ficaram incumbidos quanto à condução do processo educacional, e, assim, surgiram os primeiros indícios da educação tradicional brasileira.

O trabalho se justifica pela necessidade de abordar a influência do modelo educacional europeu no Brasil, haja vista que este foi implantado com a finalidade de facilitar o processo de colonização do país, e, posteriormente, foi sendo reproduzido incessantemente com outros objetivos. A educação europeia chegou ao Brasil durante o processo de colonização, e com uma única finalidade, veio, a princípio, como facilitadora para a dominação de terra. Diante disto, segue-se a seguinte questão norteadora: qual a importância da educação jesuítica para o desenvolvimento do país no período colonial?

Como objetivo geral, buscou-se apresentar o modelo jesuítico e suas contribuições para a colonização brasileira, e, para atingir o esperado, foi necessário: abordar o processo de colonização no país contando com os jesuítas na catequização dos índios e analisar as contribuições da educação jesuítica no desenvolvimento nacional e, também, na formação do homem.

O trabalho foi realizado com base na pesquisa qualitativa, contando com estudos de referenciais teóricos que apresentam linhas de ideias condizentes com o tema. As obras selecionadas partiram das palavras chaves: educação jesuítica, educação no Brasil e educação tradicional. Para a fundamentação teórica, buscou-se abordar elementos básicos e pertinentes do tema, os quais, posteriormente, no trabalho final, serão vistos com maior desenvolvimento e criticidade. Algumas fontes de pesquisa utilizadas são: Google Acadêmico e Scielo.

O artigo conta com a introdução, trazendo a apresentação do tema, além da relevância de sua abordagem, a problemática norteadora da pesquisa, os objetivos a serem alcançados com o desenvolvimento e a metodologia utilizada. Segue-se o desenvolvimento com o aprofundamento do assunto e uma posterior conclusão com a reflexão sobre o tema, deixando uma abertura para possíveis estudos que poderão ser desenvolvidos futuramente.

2. A EDUCAÇÃO JESUÍTA NO BRASIL

Esta seção traz informações de pesquisa referentes à educação jesuíta no Brasil, dentro do período colonial, com intenções de “domesticar” os índios e seguir com o propósito da exploração das riquezas naturais. Após o descobrimento, os europeus buscaram explorar as riquezas nacionais, e, para isso, precisavam da ajuda dos nativos, então, os padres jesuítas foram enviados na missão de catequizar os indígenas.

Para tecer o início da discussão, apresenta-se um trecho de Raymundo (1998), que deixa clara a intenção dos jesuítas para o crescimento do processo de colonização. Para a consumação do projeto português de colonização das terras brasileiras, a Coroa portuguesa contou com a ajuda da Companhia de Jesus. Conforme Raymundo (1998), a principal intenção de D. João III era de enviar jesuítas a fim de converter o índio à fé católica, por intermédio da catequização e do ensino da língua portuguesa.  De acordo com Raymundo (1998, p.43), em seu trecho:

A Ordem dos Jesuítas é produto de um interesse mútuo entre a Coroa de Portugal e o Papado. Ela é útil à Igreja e ao Estado emergente. Os dois pretendem expandir o mundo, defender as novas fronteiras, somar forças, integrar interesses leigos e cristãos, organizar o trabalho no Novo Mundo pela força da unidade lei-rei-fé.

De acordo com Shigunov Neto e Maciel (2008), os jesuítas tornaram-se uma eficiente congregação religiosa na busca da perfeição humana, utilizando-se da Palavra de Deus para suscitar a obediência. Por meio de uma disciplina severa e rígida e uma hierarquia baseada na estrutura militar, conseguiram uma grande formação e crescimento de seus membros.

Para Azevedo (apud SHIGUNOV NETO; MACIEL, 2008), a companhia de Jesus foi fundada como um movimento da Igreja Católica contra a Reforma Protestante que se alastrava pela Europa. Medidas como estas foram instrumentos da Contrarreforma, o principal objetivo era fazer com que os fiéis voltassem para a Igreja, e, para que isso acontecesse, ela traçou algumas estratégias de resgate, e uma delas foi a criação da Companhia de Jesus.

O objetivo era intermediar a ação missionária por meio da educação dos homens e dos índios nas regiões de colonização. Conforme Azevedo (1976), a Companhia de Jesus tinha por objetivo formar um exército de “soldados” para a Igreja Católica, a fim de combater a heresia e converter os pagãos. Estes soldados de Jesus deveriam passar por uma reciclagem intelectual e científica para combater os vícios do pecado e da perversão. Para a corte portuguesa, essa educação era imprescindível para educar grupos sociais menos favorecidos.

O que se sabia até o descobrimento da América era que a Terra estava dividida em apenas três partes: Europa, Ásia e África, e estavam separadas apenas por mares estreitos e grandes rios. O oceano era o fascínio dos portugueses (SOUZA, 1999), mas, mesmo assim, eles se restringiam a viagens próximas do litoral. Além do medo do desbravamento dos oceanos, a falta de instrumentos para a navegação dificultava o afastamento do litoral.

Conforme Souza (1999), ao fim do século XV, movidos por questões econômicas, religiosas e políticas, os europeus desenvolveram instrumentos tais como: ampulheta, balhestilha, astrolábio, bússola e quadrante, e fizeram com que as grandes navegações acontecessem. O desbravar dos mares tornou-se possível, e os europeus puderam traçar novas rotas. A criação das caravelas pelos portugueses foi um grande fator que possibilitou as viagens marítimas, pois se tratava de uma embarcação forte, que permitia enfrentar correntes e tempestades em alto mar, além de alcançar uma velocidade maior e suportar uma lotação e carga consideráveis.

O homem europeu era extremamente religioso, e, por isso, sentia a necessidade de levar a fé cristã a todos os lugares e pessoas. No Oriente, havia muitos infiéis, e as viagens pelo mundo possibilitariam o domínio destes povos, possibilitando sua conversão. Também era interessante aos europeus novas conquistas de terras para colonização. Os portugueses foram os primeiros a se aventurarem pelo oceano Atlântico. Neste período, a Espanha também investiu em navegações, e, por este motivo, Cristóvão Colombo descobriu um novo continente, o Americano (SOUZA, 1999).

No ano de 1.500, os portugueses traçam uma rota alternativa para chegarem até a Índia, a fim de comprarem produtos para a comercialização na Europa. Tentando encurtar o tempo da viagem marítima, tentaram cruzar os mares por um caminho menor, entretanto, desconhecido e inexplorado até então. Ao longo do percurso, as caravelas com navegantes avistaram uma terra desconhecida. Ao adentrarem nessa nova terra, avistaram belezas exóticas e pessoas de costumes diferentes, aos quais deram o nome de índios (SOUZA, 1999).

Com a chegada dos portugueses, a conquista de novas terras e o encontro com os nativos fez com que os portugueses tivessem a necessidade de implantar um modelo educacional eficaz que contribuísse para o processo de colonização. Com isso, a chegada dos jesuítas foi imprescindível, e deu-se aí o processo de catequização, escolarização e aculturação dos indígenas. Tal processo iniciou-se em 1549, com os primeiros jesuítas para ensinar a fé católica, mas, antes disso, precisariam ensinar a leitura e escrita (SOUZA et al., 2000).

Os padres jesuítas tinham uma formação cultural muito sólida, e queriam, a todo custo, defender a fé cristã e disseminar informações sobre o catolicismo por todo mundo. Nesse contexto da Reforma Católica, a Universidade de Paris é liderada pelo cavaleiro Inácio de Loyola (GANDOVA apud VILLALTA, 2002).

Em 1549, com o apoio do primeiro governador-geral, Tomé de Souza, a Companhia de Jesus chegou com os primeiros padres jesuítas (soldados de Cristo) em terras brasileiras, na Bahia. Dentre eles estavam os padres: Manoel da Nóbrega, José de Anchieta e Antônio Vieira, que eram subordinados a um regime de privações que os preparava para viver em lugares distantes e em condições diferentes das já conhecidas (GANDOVA apud VILLALTA, 2002).

Os jesuítas (representantes da Igreja Católica) mantinham grande influência sobre a sociedade, principalmente entre os burgueses, e, durante a colonização brasileira, esta influência, unida aos métodos educacionais propostos pelos jesuítas, contribuiu para a acentuação da desigualdade das classes. Teoricamente, o papel da educação era de discriminar o indivíduo em decorrência de sua classe social e ajudar no processo de colonização trabalhando com as habilidades de leitura e escrita, o que, posteriormente, culminou na formação de colégios como o de Salvador, conforme Menardi (2010, p. 159) cita em seu trecho:

Estas casas, ou residências ou ainda recolhimentos, recebiam os meninos índios para serem catequizados e instruídos e se destinavam também a abrigar os padres aqui na colônia, bem como os órfãos vindos de Portugal e os da terra, a fim de lhes dar assistência e formação religiosa. […] A vinda de órfãos de Portugal contribuiu grandemente como um motivador a mais para a já necessária construção de casas (residências ou recolhimento) e representou um reforço na conversão dos índios, uma vez que os jesuítas utilizaram como estratégia de catequese e instrução os órfãos para atrair os meninos índios.

Conforme Almeida (2014), quando os jesuítas chegaram para a aplicação do projeto educacional, Manoel da Nóbrega instaurou métodos de estudos que buscavam unicamente mudar os nativos. Com isso, iniciou-se tal mudança pela introdução da língua portuguesa, para a catequização e demais aspectos educacionais que proporcionariam a ajuda dos índios para a exploração das riquezas naturais tão cobiçadas pelos europeus.

A história de educação formal que as escolas apresentam se dá, de início, com a colonização portuguesa e a chegada da Companhia de Jesus e seus integrantes. Como uma grande ordem religiosa da Igreja Católica, a Companhia seguia uma rígida rotina militar, com a missão de combater o protestantismo de Lutero. Conforme essa informação, Paiva e Puentes (2000, p. 57) apontam que:

A criação da Companhia de Jesus (em 1539) foi fruto do amplo movimento que gerou profundas transformações na Igreja Católica nos inícios do século XVI, resultado, de um lado, dos contínuos esforços de rejuvenescimento e de reorganização a que historicamente esteve submetida; de outro, como consequência das imensas pressões exercidas pela Reforma Protestante, no bojo de mudanças políticas, econômicas, sociais e culturais que atravessavam a Europa.

Devido a algumas ações missionárias para destruir a cultura dos indígenas e tornar os índios mais próximos dos europeus é que os portugueses viram a necessidade de “civilizar” os nativos e trazer a fé cristã para o ocidente. A exploração dos índios causou morte e sofrimentos, pois muitos passavam fome e situações de risco. Os castigos aplicados aos índios eram dolorosos, e, além da escravidão, tinha a violação de seus corpos, entretanto, esses maus tratos eram reprovados pelos jesuítas, pois a intenção deles era de arrebanhar fiéis em decorrência da debandada causada pelo protestantismo (CONCEIÇÃO, 2017).

Conforme Conceição (2017), os jesuítas traziam conceitos religiosos e boas condutas de comportamento, por isso trouxeram sua própria metodologia de ensino e proposta de trabalho pedagógico baseados nas teorias de São Tomás de Aquino e Aristóteles. A ideia era a universalização do ensino. Sangenis (2004, p. 93) afirma que:

Os jesuítas empreenderam no Brasil uma significativa obra missionária e evangelizadora, especialmente fazendo uso de novas metodologias, das quais a educação escolar foi uma das mais poderosas e eficazes. Em matéria de educação escolar, os jesuítas souberam construir a sua hegemonia. Não apenas organizaram uma ampla ‘rede’ de escolas elementares e colégios como o fizeram de modo muito organizado e contando com um projeto pedagógico uniforme e bem planejado, sendo o RatioStudiorum a sua expressão máxima.

O plano constituía-se em duas fases: com o ensinamento dos estudos elementares (ensino da língua) e os ensinamentos da doutrina cristã e a alfabetização. Na segunda fase, o aluno tinha a opção de escolher entre o ensino profissionalizante e o ensino médio conforme as aptidões e dotes intelectuais (SHIGUNOV NETO; MACIEL, 2008). Com a catequização dos indígenas, buscavam atingir objetivos específicos, que eram: doutrinários, com visão religiosa; econômicos, visando o hábito do trabalho como princípio fundamental; e políticos, visando utilizar os índios convertidos contra os ataques de índios ainda selvagens (considerados inimigos).

O método de ensino utilizado pelos jesuítas era o chamado Ratio Studiorum, que estabelecia o currículo, a orientação e a administração do sistema a ser seguido. Inácio de Loyola direcionava as atividades pedagógicas na colônia e na metrópole. Conforme Ribeiro (1998), o Ratio Studiorum não era tratado como uma pedagogia de ensino, mas como um conjunto de regras e prescrições práticas. Este método jesuítico era fortemente influenciado pela filosofia das teorias de Aristóteles e de São Tomás de Aquino.

O método educativo proposto pelos jesuítas passou por diversos passos, e, quando aperfeiçoado, veio para o Brasil juntamente com Loyola. Para que surgisse esse plano pedagógico, as bases começaram com o padre Jerônimo de Nadal, em 1551, que, partindo do Modus Parisiensis, formulou o método conhecido como Ratio Studiorum, aplicado pelos jesuítas no Brasil (SHIGUNOV NETO; MACIEL; LAPOLLI, 2012). Em 1598, uma nova comissão analisa o plano educacional, e, em 1599, surge a versão definitiva (BITTAR, 2011).

Para compreender este plano de ensino é preciso rever alguns pontos históricos que o embasaram. O Ratio Atque Institutio Studiorum Societatis Iesu era um plano organizacional de estudos que foi utilizado para normatizar o ensino ministrado, inicialmente, em colégios da Europa (NEGRÃO, 2000). Segundo Negrão (2000), essa normatização surgiu pela necessidade de se elaborar um ensino direcionado para jovens e adultos com possíveis propensões para se tornarem jesuítas.

Dentro dessa perspectiva, deu-se a criação do colégio Messina, em 1548, e aconteceu a padronização na forma de lecionar, pois a demanda de ingresso foi muito grande. Como os jesuítas somente repassavam informações gerais sobre a educação, foi preciso utilizar uma metodologia de ensino que buscasse sistematizar e nortear as atividades de forma pedagógica (FRANÇA, 1952 apud TOYSHIMA; MONTAGNOLI; COSTA, 2012).

As regras do Ratio Atque Institutio Studiorum Societatis Iesu se fundamentavam nas práticas do colégio Romano, concomitantes com a filosofia de Aristóteles e São Tomás de Aquino e com um forte toque da Renascença. Neste sentido, Shigunov Neto; Maciel; Lapolli (2012, p, 277) afirmam:

O Ratio Studiorum estava fundamentado nas Regras do Colégio Romano e tinha como orientação filosófica Aristóteles e São Tomás de Aquino e foi fortemente influenciado pelo Movimento da Renascença. Seus fundamentos básicos estavam direcionados para o ensino religioso e a catequese. O método era centralizador, presente, portanto, o papel da autoridade, fortemente influenciado pela cultura européia. A sua orientação era universalista, voltada para a formação humanista e literária. Direcionado para os seus objetivos, utilizaram-se da língua indígena, da música e do teatro para catequização. Os jesuítas demonstraram em seu trabalho profundo conhecimento da alma humana e de psicologia, buscando de suas perspectivas a adaptação do currículo proposto.

Levando-se em consideração o pensamento ocidental que dominava o século XVI, com o surgimento do protestantismo de Lutero, a Companhia de Jesus foi uma forma de consolidar a cristandade para esconder a crise do catolicismo. Conforme Bittar (2011), a Igreja Católica fez uso da Companhia de Jesus para fins pedagógicos, mas o ensino pautava-se na fé cristã, a fim de promover ao homem a espiritualidade. Com isso, a Igreja buscava, por meio dos estudos, materializar a fé por meio de experiências vividas pelo indivíduo.

O método educacional proposto pelos jesuítas foi analisado durante décadas, e foi atestado como confiável e eficaz em muitos colégios. Por se tratar de um método isolado de ensino-aprendizado, seu sucesso se deu quando sofreu adaptações às realidades sociais das colônias e de seus habitantes (SHIGUNOV NETO; MACIEL; LAPOLLI, 2012). O sucesso do método Ratio Atque Institutio Studiorum Societatis Iesu se deve, também, à flexibilidade que o docente tinha em aplicar a tal metodologia, além de relacioná-la aos interesses da igreja Católica e adaptá-las ao que o século XVI exigia.

De certa forma, por meio da Companhia de Jesus, o processo de Contrarreforma é refletido pelo Ratio Atque Institutio Studiorum Societatis Iesu, que tinha a rigorosidade metódica característica e esperada pela Igreja, além de trazer ao homem novas ideias relacionadas ao mundo presente, em uma época tão marcada por mudanças sociais, econômicas e políticas

Sendo assim, o processo de criação de escolas elementares secundárias, seminários e missões se espalhou pelo Brasil, e puderam organizar um sistema educativo que via a educação como ferramenta de domínio e facilitação, para que os portugueses se infiltrassem nas aldeias indígenas. Para Azevedo (1976 p. 42), “Foram se infiltrando aos poucos nas aldeias, levando os fundamentos de uma educação religiosa dedicada à propagação da fé e do trabalho educativo”, e tudo isso foi feito justamente com a intenção de preparar os nativos e o lugar para o início da colonização portuguesa.

Os nativos eram, sobretudo, jovens e crianças, por serem mais susceptíveis aos valores cristãos. A instrução era feita por meio da leitura, da apresentação e da interpretação da palavra divina, pois compreendiam melhor o mundo desconhecido pelos nativos. Os jesuítas perceberam que não seria possível converter os índios à fé católica se não soubessem ler e escrever, por isso esses conceitos eram pregados pela cultura dos colonizadores, para tentar atingir os nativos (CONCEIÇÃO, 2017).

Este método de ensino tinha como principal objetivo expandir a fé cristã para os povos que habitavam na Europa e em toda a região do Novo Mundo. Tratava-se de um manual com um conjunto de normas e regras para nortear as atividades de cunho pedagógico dos professores e organizar as rotinas escolares dentro de colégio jesuítas. O manual continha 467 regras, conforme descreve Toyshima, Montagnoli e Costa (2012, p.3):

O manual contém 467 regras, cobrindo todas as atividades dos agentes envolvidos ao ensino. Iniciava pelas regras do provincial, depois do reitor, do prefeito de estudos, dos professores de modo geral, de cada matéria de ensino; incluía também as regras da prova escrita, a distribuição de prêmios, do bedel, dos alunos e por fim as regras das diversas academias. Além das regras e das normas, o Ratio apresenta os níveis de ensino (Humanidades, Filosofia e Teologia) e as disciplinas que os alunos deveriam cumprir.

O manual utilizado era de cunho pedagógico, e contemplava todos que participavam do processo de ensino-aprendizado em instituições escolares com ligação à Companhia de Jesus. O plano Ratio Atque Institutio Studiorum Societatis Iesu buscava, além de uniformizar o ensino, indicar responsabilidade, desempenho e subordinação, e era um currículo de educação literária e humanística. O manual também se preocupava com a organização das disciplinas do currículo e do que os alunos tinham que aprender, além da prova escrita (CONCEIÇÃO, 2017).

Portanto, o método pedagógico dos jesuítas foi implantado nas escolas brasileiras para possibilitar uma formação sólida e clássica aos seus estudantes. Tal modelo de formação permitia aos estudantes o exercício do pensar, e o professor teria condições plenas de avaliar e reavaliar o desenvolvimento do processo e dos alunos. Isso só seria feito mediante as diferentes metodologias, exercícios que contemplavam leituras, escritas, declamações, apresentações públicas, provas e exames. Destaca-se que, para tanto, não era requerido apenas o exercício intelectual por meio do uso da memória, justamente porque o exercício de interpretações também era uma exigência no decorrer do estudo (SANGENIS, 2004).

Com o trabalho dos jesuítas baseado em princípios clássicos e tradicionais, a prática pedagógica era mais embasada em estudos religiosos e humanistas que permeavam a ideia de salvação. A partir dessa concepção, se desenvolveu uma educação mais contemplativa, por meio da pedagogia da repetição, para a formação de conteúdos e reflexão do pensamento crítico (AQUINO, 2004). Conforme Aquino (2004), o período jesuítico trouxe uma reflexão acerca da religião, além de ajudar a consolidar a didática como forma de ensino. O pedagogo defendia que o ensino deveria ser realizado de maneira dinâmica, prazerosa e fácil partindo de experiências cotidianas.

Os princípios da educação jesuíta fizeram uma representação da infância, das metodologias de ensino, do espaço escolar e de sua organização quanto ao trabalho pedagógico. A pedagogia jesuíta não estava somente voltada ao trabalho manufaturado, mas, sim, ao trabalho intelectual. Com o modelo proposto pelos jesuítas, o ensino voltava-se para a apreciação da cultura, como exposição de poesias, produções literárias e disputas de conhecimentos. Mesmo existindo a questão da meritocracia, os colegas de turma buscavam incentivos para traçarem disputas de conhecimento (PAIVA, 2015).

O teatro e outros espetáculos eram considerados como uma prática mais dinâmica, uma vez que trabalhavam conteúdos que exigiam mais dos alunos, como a memória, desinibição e estética. Para Paiva (2015), o legado deixado pelos jesuítas traz uma concepção de educação e uma prática pedagógica que ajudaram tanto na questão religiosa quanto na questão da laicidade, pois, da mesma forma que era desenvolvida pelas igrejas e suas instituições de ensino, também era desenvolvida pela iniciativa governamental.

A pedagogia jesuíta está bem presente na concepção de educação vista atualmente. Aperfeiçoado por influências com pensamentos positivistas, o ensino proposto pelos jesuítas traz a compreensão da origem humana com a essência de Deus e a natureza como referencial de saber. Uma nova perspectiva ontológica foram as reflexões propostas por Comenius[2] e as reflexões iluministas que foram desenvolvidas com influência do pensamento de Rousseau, que culminaram na mudança da educação nas escolas brasileiras (PAIVA, 2015).

Para Sala (2002), modelos vistos em escolas brasileiras trazem muitos reflexos na educação europeia, como a disposição dos estudantes em sala de aula e a visão do professor como detentor do saber. Entretanto, tal estrutura vem sendo constantemente reformulada por novas propostas feitas pelo governo. O modelo de educação jesuítica se fez presente nas escolas brasileiras por muitos séculos, e novos modelos educacionais vêm sendo implementados com o intuito de garantir uma educação significativa, e não mais disciplinadora.

Paiva (2015) cita como exemplo dessa mudança na educação o método intuitivo, que propõe um ensino com atividade livre, entretanto, ainda com uma atuação passiva do aluno. O professor ainda era visto como centro das atenções e do conhecimento, demonstrando os objetos de estudo. Nesse contexto, o autor se afastou de seu mestre, Rousseau[3] foi contra a memorização e centralização do professor. Herbart[4] (contribui com pensamentos positivistas) pensou em uma organização educacional em que o condutor do processo de aprendizado deveria ter o controle para manter o interesse do aluno, dirigindo o conteúdo de forma que eles pudessem assimilar. Tal organização muito se assemelhava aos ensinos religiosos inacianos, enfocando governo, disciplina e instrução.

Entretanto, para que este método funcionasse, precisavam ser estipuladas algumas regras, exercícios e até tempo de aula para auxiliar a disciplina de estudos. O Positivismo pedagógico proposto por Herbart seguia muito a linha durkheimiana[5] da transmissão de conhecimento. Nesta estrutura, o professor deveria seguir quatro etapas específicas e ordenadas, sendo a demonstração, comparação, generalização e aplicação (PAIVA, 2015).

Seguindo essas raízes plantadas pelos jesuítas, sua metodologia de ensino e suas práticas educacionais, o que ficou, substancialmente, não foi a proposta do currículo clássico, universalistas e capaz de desenvolver o juízo crítico e a compreensão do espaço físico, mas, sim, seu caráter hierárquico, elitista, formalista, meritocrático e dogmático. Para Delors (2003), a educação brasileira herdou dos jesuítas tão somente o utilitarismo, visando muito mais o conteúdo (ensino conteudista). E a Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura (UNESCO) defende que as escolas devem rever suas propostas de acordo com as novas necessidades, para formar profissionais, cientistas e técnicos para o inovador mercado de trabalho, visando o crescimento econômico, as habilidades técnicas para a formação de mão de obra qualificada, e não mais o desenvolvimento humano, a formação da cultura geral, ou a formação dos talentos culturais, e, conforme a reflexão de Paiva (2015), essa é uma formação educacional que muito se assemelha àquela que foi proposta pelos jesuítas na colonização do Brasil e, de alguma forma, aos integrantes da Companhia de Jesus, “soldados” de Loyola.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A educação brasileira tem traços marcantes e notórios da educação jesuíta aplicada no Brasil durante o processo de colonização. Quando o país foi descoberto pelos portugueses e os nativos foram vistos como ferramenta importante na colonização, foi necessário “domesticá-los”, e, para isso, foi preciso contar com os jesuítas. Em meio ao caos proporcionado pelo protestantismo na Europa, a Igreja Católica buscou alternativas para resgatar fiéis e conter a debandada, e uma delas foi a formação da Companhia de Jesus, que tinha a finalidade de formar “soldados” e agia com rigor militar.

Em vista da necessidade de dominar os indígenas e transformá-los em escravos, a solução mais fácil foi de educá-los nos modelos europeus, e, para isso, os jesuítas trataram de impor o ensino, a catequização e a aculturação dos nativos. Este processo só seria possível se os índios tivessem as habilidades de leitura e escrita, e, para que isso acontecesse de maneira didática, a Companhia de Jesus trouxe para as terras nacionais a metodologia europeia chamada Ratio Studiorum.

A educação proposta pelos jesuítas, além de educar os índios, proporcionou a educação dos filhos dos colonos, preparando-os para o trabalho nas terras. O forte impacto que a metodologia jesuítica teve no Brasil culminou, ao longo dos séculos, em aperfeiçoamentos que permitiriam um maior desenvolvimento do ser humano. O ensino focado na religião, literatura, arte e na filosofia foi essencial para que o homem se desenvolvesse plenamente e estabelecesse reflexões sobre seu espaço, tempo e caráter.

A educação proposta pelos jesuítas tinha como principal objetivo moldar o caráter do homem e inserir nele a fé cristã, entretanto, ela fez muito mais, pois, além de ser utilizada como ferramenta de dominação, também foi um ponto inicial para modelos educacionais que foram surgindo ao longo dos tempos, reformulados pelas necessidades da sociedade e da época. O ensino jesuítico no Brasil foi um marco na educação nacional e uma das primeiras impressões concretas para aquilo que hoje concebe-se nas escolas.

Em vista das necessidades da época, a catequização dos nativos e a proposta da inserção da língua e cultura europeia foram de extrema relevância para o início do processo colonial, já que, para se conseguisse êxito na exploração dos recursos nacionais (fauna, flora, minérios), os portugueses precisavam da ajuda dos indígenas. O percurso não foi fácil, e a educação proposta pelos portugueses foi somente um pontapé inicial para a formação do modelo educacional que atualmente se vê nas escolas brasileiras.

Sendo assim, é importante ressaltar, também, que, além de a educação no modelo tradicional europeu trazer benefícios para o desenvolvimento do Brasil colonial, ajudou a compor a identidade do povo brasileiro. O trabalho realizado poderá servir como base para novas linhas de pesquisa que visem trazer à luz aprofundamentos acerca do processo de colonização do país e a importância da implantação do modelo de educação que tinha como principal objetivo preparar o território para a dominação portuguesa.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, W. R. A. A educação jesuítica no Brasil e o seu legado para a educação da atualidade. Revista Grifos, v. 23, n. 36/37, p. 117-126, 2014.

AZEVEDO, F. de. A cultura brasileira. 5ª ed. São Paulo: Melhoramentos/INL, 1976. Parte 3: A transmissão da cultura.

BITTAR, M. Colégios e regras de estudo no sistema jesuítico de educação. Série-Estudos – Periódico do Programa de Pós-Graduação em Educação da UCDB, Campo Grande, MS, n. 31, p. 225-244, jan./jun. 2011.

CONCEIÇÃO, J. L. M. Jesuítas na educação brasileira: dos objetivos e métodos até a sua expulsão.  Revista Educação Pública, 2017. Disponível em: https://educacaopublica.cecierj.edu.br/artigos/17/3/jesutas-na-educao-brasileira-dos-objetivos-e-mtodos-at-a-sua-expulso. Acesso em 07 abr. 2020.

DELORS, J. Educação: um tesouro a descobrir: relatório para a UNESCO da Comissão Internacional sobre Educação para o século XXI. 8ª ed. São Paulo: Cortez Editora; Brasília- DF: MEC: UNESCO, 2003

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APÊNDICE – REFERÊNCIA NOTA DE RODAPÉ

2. Foi um bispo protestante da Igreja Morávia, educador, cientista e escritor checo, e, como pedagogo, é considerado o fundador da didática moderna.

3. Jean-Jacques Rousseau foi um importante filósofo, teórico político, escritor e compositor genebrino.

4. Johann Friedrich Herbart foi um filósofo, psicólogo, pedagogista, alemão, fundador da pedagogia como disciplina acadêmica.

5. É uma filosofia que estuda a função da instituição social, sua constituição e seu enfraquecimento, que o sociólogo chama de “anomia”.

[1] Mestranda. ORCID: 0000-0001-5770-6811.

Enviado: 11 de Fevereiro, 2023.

Aprovado: 27 de Fevereiro, 2023.

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