Diversidade linguística dentro e fora do contexto escolar: controvérsias entre a norma padrão e o preconceito linguístico

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ARTIGO DE REVISÃO

OLIVEIRA, Antonio Eudes Lima de [1]

OLIVEIRA, Antonio Eudes Lima de. Diversidade linguística dentro e fora do contexto escolar: controvérsias entre a norma padrão e o preconceito linguístico. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 06, Vol. 08, pp. 101-118. Junho de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/diversidade-linguistica

RESUMO

A variedade linguística é vista como uma língua utilizada por pessoas que não tem nível de escolaridade, infelizmente é uma maneira preconceituosa e equivocada, porque essa diversidade linguística é muito rica para toda sociedade, ela é que mostra que a relação entre língua/sociedade são bem complexas e que o ensino sendo voltado para essa heterogeneidade, pode desmistificar esse preconceito em relação à variação linguística e a noção de erro presente na norma padrão ou não padrão da língua. Este trabalho investigativo tem como objetivo pesquisar sobre as variações e o preconceito linguísticos, observando os fatores que interferem ativamente na linguagem, a fim de que a sociedade e escola se integrem com o propósito de admitir a variabilidade da língua, a partir de uma breve pesquisa por meio de revisões bibliográficas. Desse modo o problema a ser investigado nessa pesquisa esta determinado: quando e como surgiu a noção de “erro” para a norma não padrão da língua? A nossa pesquisa concretizou-se na análise da importância das variantes linguísticas na sociedade brasileira, concluindo que é necessário tratar essa diversidade nas práticas em sala de aula para que os educandos tenham autonomia de empregar adequadamente a língua padrão ou não padrão, sabendo aplicar seja na modalidade oral ou escrita, tendo consciência de que o regionalismo, a diversidade linguística e social são importantes para conhecer os diversos grupos sociais, como também compreenda que não existe língua “certa” ou “errada”, o que de fato ocorre são expressões populares que não tem preocupação com regras gramaticais, mas que em determinados ambientes é aceitável, já que não exige formalidade como em uma solenidade de formatura, encontros com autoridades religiosas ou jurídicas.

Palavras-Chave: Variedade linguística, preconceito linguístico, norma padrão/ não padrão.

1. INTRODUÇÃO

A concepção de língua surgiu ainda no mundo helenístico a partir do século III a.C. período este que acabou agregando valores a disciplina gramatical, tornando-se assim um momento histórico de grande importância para investigar o campo da Linguística, referente a diversidade dialetal.

Levando em consideração aspectos históricos, culturais, socioeconômicos e a variação linguística de região para região, é possível concluirmos que a língua é viva, muda constantemente, porque “uma língua que só apresenta um só estilo já não é uma língua viva” (BECHARA, 2009, p. 25), palavras e expressões usadas atualmente não existiam antigamente, expressões novas surgem com os jovens de modo que as novas gerações também aprendem com os pais, avós que foram de gerações bem diferentes da atual e é justamente essa troca de informações que a diversidade dialetal oferece e que torna a aprendizagem satisfatória para todos aqueles que são apresentados à pluralidade linguística, desse modo o problema a ser investigado nessa pesquisa esta determinado: quando e como surgiu a noção de “erro” para a norma não padrão da língua?

Este trabalho investigativo tem como objetivo geral pesquisar sobre as variações e o preconceito linguísticos, observando os fatores que interferem ativamente na linguagem, a fim de que a sociedade e escola se integrem com o propósito de admitir a variabilidade da língua. Com os objetivos específicos, busca-se: a) Analisar de que forma estão sendo trabalhadas as variações linguísticas na sala de aula frente ao preconceito linguístico; b) Reconhecer que a multiplicidade linguística é constitutiva do sistema linguístico; c) Verificar como os alunos que utilizam uma variante “não padrão” estão sendo tratados por professores e pela escola; d) advertir que a discriminação linguística impede que milhões de indivíduos participem ativamente da sociedade.

O arcabouço teórico sobre a língua, não limita-se somente a modalidade escrita, a norma padrão, mas também a língua falada, porque podemos afirmar que na oralidade ela acaba se apresentando de maneira mais espontânea, que enfatiza a presença de outros elementos como: enfáticos, vocabulário informal, que não se restringe às normas gramaticais e com isso apresenta uma grande variação linguística que surge de região para região ou até mesmo dentro da própria região.

Por essa razão, justifica-se a necessidade de se investigar como a diversidade linguística tem enfrentado preconceitos linguísticos por aqueles que fazem uso da linguagem padrão da língua.

Não é que deva-se deixar de lado a norma padrão da língua, pelo contrário ela deve ser trabalhada sim, precisamos ter conhecimento das regras gramaticais, nomenclaturas, saber empregar corretamente um verbo, porém devemos estudar de maneira contextualizada, conhecer os diversos gêneros textuais e saber empregá-los, assim como as variantes linguísticas.

Pretende-se com esta pesquisa contribuir para que as escolas trabalhem os diversos gêneros textuais, valorizem a diversidade linguística existente no país e com ela possa melhorar o aprendizado dos educandos que é o nosso principal objetivo enquanto educador.

Logo, a presente pesquisa se caracteriza como exploratória no sentido em que busca explorar a temática a partir de revisões bibliográficas e análise dos conceitos que fundamentarão as considerações expostas com fins posteriores de maior aprofundamento e descrição dos conhecimentos trabalhados, no caso, a diversidade linguística dentro e fora do contexto escolar: controvérsias entre a norma padrão e o preconceito linguístico.

2. COMO E PORQUE NÃO PERMITIR O PRECONCEITO LINGUÍSTICO

2.1 CONCEPÇÃO DE LÍNGUA E SOCIEDADE

A pedagogia tradicional opera uma antiga noção da Filosofia que o conhecimento adquirido no ambiente familiar é um modelo linguístico natural e deveria ser rejeitada, essa visão reforça a ideia de que as crianças são como tábuas rasas, tudo o que aprenderam a respeito da língua materna dentro do âmbito familiar e social, do qual estão inseridas em seus primeiros anos de vida, não teve contribuição alguma para o modelo linguístico adotado na concepção tradicional.

Com essa visão tradicional, surge “à concepção de língua como representação do pensamento” (KOCH, 2014, p. 9), que além de muito antiga, vem agregar valores a disciplina gramatical que surgiu no século III a.C. ainda no mundo helenístico. Essas concepções se baseiam no fato de que uma pequena parte da elite era considerada os intelectuais da época, era o caso, por exemplo, da sociedade Greco-romana antiga, que para receber o título de cidadão acabava tendo que ser submetido a preenchimentos de alguns requisitos, sendo que de forma injusta, afinal mulheres e escravos eram automaticamente excluídos, ficando assim uma minoria e teria que seguir normas de condutas e a linguagem padrão usada por essa pequena parte da população, mas era considerada a aristocracia e tudo o que era falado pela nobreza tornou-se padrão, a norma correta para se comunicar, molde ideal para uso da sociedade plebeia.

A norma padrão (NP) clássica do português, inspirada nos postulados da Gramática Tradicional, ainda hoje define como seu objeto único de estudo e prescrição a língua escrita, mais precisamente a língua empregada, com finalidades estéticas, por um conjunto restrito de ficcionistas e poetas. (BAGNO, 2000, pág. 30).

A norma padrão é considerada a língua correta e que todos devem utilizá-la como objeto de estudo seja ele oralmente ou na escrita, pois a mesma apresenta uma beleza estética e que por isso deve ser a utilizada, porém essa concepção de língua vem sendo bastante criticada pelas correntes da linguística contemporânea, uma vez que qualquer forma de expressão, seja ela padrão ou coloquial, tem sua importância no contexto social no qual estão inseridas, mostrando assim que a língua deve ser analisada dentro da realidade histórica, cultural e social em que esta se encontra, isto é, “a língua portuguesa é o resultado de uma longa história” (VILELA, 1994, p. 14), onde os seres humanos se encontram e entre si falam e escrevem.

No caso do nosso país o apego a essa concepção tradicionalista dificulta o conhecimento da variedade linguística existente, uma vez que o país apresenta vários dialetos e por conta do tradicional acaba não explorando essa diversidade, deixando evidente a necessidade de uma revisão crítica, quando se trata dos diferentes usos da língua.

[…] A linguagem tem um lado individual e um lado social, sendo impossível conceber um sem o outro. Finalmente: A cada instante, a linguagem implica ao mesmo tempo um sistema estabelecido e uma evolução: a cada instante, uma instituição atual e um produto do passado. (SAUSSURE, 2006, p. 15).

Mostrando assim, que a sociedade brasileira tem uma pluralidade linguística e que deve ser explorada o máximo possível, seja no ambiente familiar no qual já estão inseridos, na escola como espaço para aprimorar os conhecimentos adquiridos na sociedade. Porque ao longo de tantos anos a língua sofreu modificações e esses processos de mudanças não devem focar somente na norma padrão, afinal, se apenas considerar a língua dos chamados falantes cultos, ela perde sua principal função, que é a comunicação entre os seres, seja por meio da linguagem oral ou escrita e quando ocorre essa negação da linguagem coloquial, automaticamente haveria a exclusão social de milhões de brasileiros, uma vez que, não pertencem as camadas dos falantes da norma padrão.

Uma concepção de língua como a que propomos – a língua como atividade social, cujas normas evoluem segundo os mecanismos de autocorreção dos indivíduos e dos grupos em sua dinâmica histórica de interação entre si e com a realidade. (BAGNO, 2000, pág. 32).

 O estudo da linguística deve ser bastante democrático, que vise uma atividade social, voltada para as questões do dia a dia e explore de fato a diversificação dialetal que existe no país sem rotular a língua padrão como “certa” e a coloquial como “errada”, porque não existe certo ou errado, o que de fato ocorre é a situação de uso.

A língua padrão contém uma linguagem formal que segue normas de gramática, já a coloquial é mais informal, em alguns casos a escrita é grafada como na oralidade, causando certa discriminação por aqueles que dominam a linguagem formal. E é justamente nesse momento que a escola como espaço de conhecimento deve intervir, no sentido de mostrar que tanto a norma padrão quanto a coloquial estão presentes em toda a sociedade e use essa diversidade linguística como um laboratório de pesquisa para a multiplicidade de formas e usos, ou seja, mostrar que existem lugares em que se faz necessário o uso da linguagem padrão, vale mencionar dois dos vários exemplos que existem, como no caso de falar com autoridades jurídicas e religiosas, não sendo coerente usar gírias em um tribunal ou em pregações religiosas, mas, também, é indispensável em alguns momentos o uso da linguagem coloquial como também acontece em uma conversa informal entre grupos de amigos, sejam eles do ambiente de trabalho ou amigos pessoais.

Nesse caso, a informalidade do momento cabe o uso da língua coloquial sem que haja qualquer tipo de discriminação.

Todos esses exemplos ilustram um fenômeno histórico-social bastante conhecido: o esforço dos detentores do poder de mostrar que tudo o que surge no seu meio social é intrinsecamente bom e válido e, por conseguinte, deve ser adotado como modelo ideal por todos os demais membros da sociedade. (BAGNO. 2000, pág. 29).

 Usando esses mecanismos em sala de aula de que cada linguagem, seja ela padrão ou não padrão, tem sua importância na sociedade não existiria de forma alguma essa rejeição daqueles que fazem uso da linguagem não padrão.

Por isso, para quem pretende ter uma visão mais adequada do fenômeno da linguagem, especialmente para os profissionais, dois fatos são importantes: a) todas as línguas variam, isto é, não existe nenhuma sociedade ou comunicação na qual todos falem da mesma forma; b) a variedade social e, como em todas as sociedades existe alguma diferença de status ou de papel entre indivíduos ou grupos, estas diferenças se refletem na língua. (POSSENTI, 1996, pág. 33).

Segundo Possenti (1996), a variedade linguística se configura pela sua funcionalidade, porque é através desta que a linguagem humana ganha mais expressividade, como é o caso das poesias, que usando a língua padrão perderiam em alguns casos o real sentido do texto que é justamente mostrar a diferença entre a oralidade e a escrita, além de entreter como é o caso dos textos de humor.

Significa olhar para a língua dentro da realidade histórica, cultural, social em que se encontra, isto é, em que se encontram os seres humanos que a falam e escrevem. Significa considerar a língua como uma atividade social, como um trabalho empreendido conjuntamente pelos falantes toda vez que se põem a interagir verbalmente, seja por meio da fala, seja por meio da escrita. (BAGNO. 2003, pág. 19).

Nessa afirmação, Bagno (2003), mostra que a língua deve ser analisada nos diversos campos, sejam eles históricos, culturais ou sociais, porque só assim é possível compreender o real sentido da língua, que não se limita somente a escrita, mas também a oralidade.

2.2 AS VARIANTES LINGUÍSTICAS NA SOCIEDADE BRASILEIRA

O estudo a respeito das variedades linguísticas é uma questão muito debatida pelos linguistas contemporâneos como: Marcos Bagno, Sírio Possenti, Edmilson José de Sá, Irandé Antunes dentre vários outros, que enfatizam o fato de ensinar ou não a gramática nas aulas de língua portuguesa, porque segundo esses estudiosos não é que a escola pare de ensinar à gramática, mas ela não precisa necessariamente ser a única forma de fazer com que os educandos aprendam, porque a gramática sozinha não consegue atingir ou até mesmo preencher todas as necessidades que a diversidade linguística apresenta, por conta disso, os estudiosos reforçam seus estudos para o fato de estudar a pluralidade linguística também na escola. Eles admitem que apesar dos progressos em relação às variedades linguísticas diante da sociedade brasileira é notório que alguns educadores ainda se encontram reféns da gramática tradicional.

No sistema de ensino, principalmente quando se trata do estudo da língua portuguesa percebe-se que existe uma resistência pelo o fato de que os educandos precisam estudar gramática, regras, nomenclaturas para que tenham uma aprendizagem satisfatória quando se trata de uma maior proficiência na realização de atividades, sejam elas escritas ou no ato da fala.

Não faz sentido ensinar nomenclaturas a quem não chegou a dominar habilidades de utilização corrente e não traumática da língua escrita. Isso não significa que a escola não refletirá sobre a língua, mesmo porque esta é uma das atividades usuais dos falantes e não há razão para reprimi-la. (POSSENTI, 2000, pág. 38).

Percebe-se que os estudos voltados para as variedades linguísticas tem o objetivo de mostrar que a língua faz e é parte natural do ser humano, da história e da cultura e que por meio dela ocorre a socialização e o desenvolvimento dos grupos sociais e por conta disso, o ensino não deve priorizar somente a língua formal, mas que reconheça as variantes linguísticas da sociedade brasileira como forma de aproximar os falantes da língua padrão daqueles que fazem uso da linguagem não padrão.

Nesse sentido, a escola deve contemplar a diversidade linguística dos educandos, sem deixar de lado a norma culta, afinal, todo ser humano precisa e deve saber utilizá-la em determinados momentos, assim como também necessita das variedades linguísticas em suas diferentes situações de uso.

Pode-se admitir, portanto, o princípio de que a língua varia também na sua modalidade escrita, em decorrência da imposição de adequar-se às diferentes situações de uso em que se insere. As línguas existem para essas situações, em função de suas solicitações interacionais. (ANTUNES, 2009, pág. 209).

Sendo assim, o fato da própria língua variar também em sua modalidade escrita, no sentido de melhorar o texto que está sendo produzido, para que de fato ele consiga mostrar coerência em suas ideias, faz-se necessário levar em consideração o uso da variação na oralidade, porque é essa diversidade linguística que torna a língua um instrumento social que está constantemente sujeito a mudanças.

Portanto, se na escrita o texto sofre essas mudanças que melhoram o desenvolvimento da produção escrita, porque que existe toda essa discriminação e até um sentimento de inferioridade quando se trata da variedade linguística, uma vez que a pluralidade linguística melhora a comunicação por meio da oralidade e faz com que a sociedade se aproprie das mais diversas culturas?

Uma das tarefas do ensino de língua na escola seria, então, discutir os valores sociais atribuídos a cada variante linguística, enfatizando a carga de discriminação que pesa sobre determinados usos da língua, de modo a conscientizar o aluno de que sua produção, oral ou escrita, estará sempre sujeita a uma avaliação social, positiva ou negativa. (BAGNO, 2002, pág. 75).

Conforme Bagno relata, o ensino de língua nas escolas não deve priorizar somente a norma padrão, que ela também deve atribuir valores a cada variação linguística existente, uma vez que o Brasil tem uma população muito diversificada verificando-se uma pluralidade quando se trata de questões culturais, históricas e socioeconômicas e todos esses fatores acabam refletindo na variação dialetal.

Diante desse quadro os educandos devem ser conscientizados de que tanto na oralidade como na escrita, ele sempre será submetido as mais diversas avaliações, sejam elas positivas, que tem o objetivo de ajudar no seu aprendizado e melhorar o desempenho dos educandos, ou até as negativas as quais irá mostrar necessariamente o que está errado e como é possível resolver essa falha quando se refere ao ensino aprendizagem dos alunos.

É preciso dar um suporte aos educandos, de forma que ele não precisa ter vergonha ou até mesmo deixar de falar a linguagem coloquial, mas que ele como sujeito da aprendizagem deve saber usar a língua adequada as mais diversas situações de uso na qual se encontram.

Todavia, se se acredita que em diferentes tipos de situação tem-se ou deve-se usar a língua de modos variados, não há porque, ao realizar as atividades de ensino/aprendizagem da língua materna, insistir no trabalho apenas com uma das variedades, a norma culta, discutindo apenas suas características e buscando apenas o seu domínio em detrimento das outras formas de uso da língua que podem ser mais adequadas a determinadas situações. (TRAVAGLIA, 2009, pág. 41).

Dessa forma, existem diferentes tipos de situações nas quais se faz necessário o uso das variações linguísticas, não tem sentido que a escola como espaço de aquisição do conhecimento deixe de lado o ensino dessa diversidade linguística, porque em um ambiente educacional deve-se englobar a pluralidade dialetal existente, já que o educandário vai intervir em determinados momentos da realização dessa tarefa, não no sentido de trabalhar somente a norma culta, mas no fato de insistir na mescla dessa diversidade com o objetivo de melhorar a aprendizagem dos educandos.

É comum nas escolas a realização de atividades envolvendo as histórias do famoso personagem em quadrinhos Chico Bento do tão renomado Mauricio de Sousa e porque não aproveitar essas atividades para acabar de fato com o preconceito linguístico existente em nossa sociedade. É diante desses fatos vivenciados em sala de aula que o professor tem um papel fundamental sobre a importância da pluralidade linguística existente, mostrando que em muitos lugares a linguagem coloquial é bastante utilizada e é preciso ter respeito por todas as formas de expressão, uma vez que, cabe também à escola mostrar aos educandos que a norma padrão é usada em determinados ambientes assim como a norma não padrão é utilizada em outros, mas que todos os seres fazem uso da língua e que por mais formal que uma pessoa seja em determinados lugares ela também faz uso da linguagem coloquial em alguns momentos.

Como por exemplo, podemos citar: Uma compra no mercado, conversa informal em um grupo de amigos e na forma escrita é possível observar em várias obras o uso da linguagem coloquial é o caso dos livretos de cordel, textos de humor, em obras literárias muito famosas e reconhecidas por todos aqueles que apreciam uma boa leitura é o caso de Urupês de Monteiro Lobato, A Língua de Eulália de Marcos Bagno, Vidas Secas de Graciliano Ramos e Morte e Vida Severina de João Cabral de Melo Neto, que usando a linguagem não padrão em suas obras ou em partes delas não fez com que ela perdesse suas características e sua importância na literatura, pelo contrário tornou a obra rica em detalhes que as tornou conhecida em todos os cantos do país enobrecendo ainda mais a literatura brasileira.

Qualquer avaliação da inteligência do aluno com base na desvalorização de seu dialeto (isto é, medida pelo domínio do padrão e/ou da escrita padrão) é cientificamente falha. Consequência: os alunos que falam dialetos desvalorizados são tão capazes quanto os que falam dialetos valorizados (embora as instituições não pensem assim). (POSSENTI, 2000, pág. 35).

Portanto, discriminar aqueles que fazem uso de uma variedade é uma atitude imatura que pode ocasionar vários problemas na vida daqueles que sofrem esse tipo de preconceito linguístico, porque não é a maneira como se fala que vai definir a qualidade de aprendizagem dos educandos, pelo contrário é justamente essa pluralidade linguística que torna o estudo da língua mais rico, pelo fato de mostrar que o Brasil é um país com os mais diversos dialetos e que essa diversidade sendo mostrada sem preconceitos, tornando a aprendizagem mais eficiente sendo vista sem discriminação.

2.3 PRECONCEITO LINGUÍSTICO

Falar sobre a língua é uma questão que envolve a análise da linguagem regional e da norma padrão. Desde o nascimento, todos os indivíduos crescem ouvindo outras pessoas conversarem e com elas conseguem aprender a se comunicar através da fala, mas quando a criança está inserida no âmbito escolar a realidade é completamente diferente, uma vez que na escola os educandos deparam-se com a norma padrão da língua. “Quando a escola só pede às crianças que transformem o “errado” em “certo”, contribui para a manutenção de preconceitos linguísticos” (MORAIS, 2010, p.94), uma vez que o educando, por sua vez, já possuía sua própria linguagem, e na escola a realidade é diferente, abrindo-se assim, espaço para a desvalorização das variantes linguísticas em relação a outros modos de falar. Porque a norma padrão é considerada a forma “correta” para se expressar e que a linguagem regional ou coloquial não deve ter um valor significativo na sociedade. Quando na verdade toda forma de expressão tem sua importância, seja ela na norma culta ou coloquial.

É preciso, portanto, que a escola e todas as demais instituições voltadas para educação e a cultura abandonem esse mito da “unidade” do português no Brasil e passem a conhecer a verdadeira diversidade linguística de nosso país para melhor planejarem suas políticas de ação junto à população amplamente marginalizada dos falantes das variedades não padrão. (BAGNO, 2007, pág. 18).

Essa afirmação deixa claro que o papel das instituições escolares seria mostrar aos alunos que existe de fato a norma culta, mas, a mesma não é a única, existindo outras variações linguísticas e que os alunos precisam entender que não existe língua certa ou errada, no entanto, acontecem as situações de uso. As pessoas são cidadãs, devem cumprir os direitos e deveres estabelecidos pela sociedade e com ela refletir sobre vários temas como: família, trabalho e educação. Quando se abordam esses temas outros acabam surgindo em função dos mesmos, como é o caso da língua, por isso, o principal objetivo do ensino é preparar cidadãos que conheçam a riqueza linguística presente nas diversas variedades que existem no português do Brasil.

A percepção de há uma variante linguística “certa” é tão equivocada em termos estritamente linguísticos como a ideia muito difundida de que há línguas superiores e línguas primitivas. Embora, obviamente, haja diferenças estruturais entre as línguas, não existe base científica para se afirmar que uma língua é intrinsecamente mais desenvolvida ou mais completa do que qualquer outra. (MAIA, 2006, p. 40).

Conforme o autor deve-se ficar claro que, preconceito linguístico é uma palavra bonita que serve para camuflar o preconceito social que existe entre aqueles que dominam a norma padrão, daqueles que se expressam de modo espontâneo sem se prender a gramática formal. Todos os dialetos têm seu valor e mesmo quando o educando se apropria da linguagem formal, a norma padrão vem para enriquecer seu conhecimento e não para substituir o modo de falar dos indivíduos, mas é preciso que haja uma adequação ao seu modo de falar de acordo com o ambiente no qual se encontra.

O grau dessa variação será maior em alguns domínios do que em outros. Por exemplo, no domínio do lar ou das atividades de lazer, observamos mais variação linguística do que na escola ou na igreja. Mas em todos eles há variação, porque é inerente à própria comunidade linguística. (BORTONI, 2004, pág. 25).

Para a autora, em qualquer lugar que o ser humano esteja, a variação linguística vai ocorrer, porque a sociedade é amplamente heterogênea e é através dessas diferenças que a sociedade e a própria comunidade escolar sai inovando e diversificando a aprendizagem dos educandos, uma vez que cabe a escola nesse momento exercer seu papel social, melhor dizendo, de mostrar que é na diversidade linguística que os seres trocam experiências e aprendem de fato.

Nesse sentido, mostra que não existe língua mais ou menos importante, o que de fato deve-se observar e conscientizar a todos é que a diversidade existe, ela é de extrema importância para mostrar que todos os grupos sociais não falam da mesma forma e que essas diferenças nos dialetos refletem na cultura, na história, em questões socioeconômicas e que por conta desses, dentre outros fatores não pode e nem deve ser ignorados pela escola e nem pela a sociedade.

As línguas estão a serviço das pessoas, de seus propósitos interativos reais, os mais diversificados, conforme as configurações contextuais, conforme os eventos e os estados em que os interlocutores se encontram. Daí por que existe, na verdade, é a língua-em-função, a língua concretizada em atividades, em ações e em atuações comunicativas; isto é, a língua como modo de ação, como forma de prática social, direcionada para determinado objetivo. Na verdade, existem muitas formas de se exercer a prática social. A linguagem é apenas uma delas e se concretiza linguisticamente, por meio do discurso falado ou escrito. (ANTUNES, 2013, pág. 35, 36).

A referida autora ressalta a importância da língua, seja ela falada ou escrita, que cada uma tem sua particularidade específica. Por isso, não se deve ter esse preconceito linguístico, a linguagem não padrão deve ser utilizada sem rótulos, sem desprezo por aqueles que fazem uso da norma padrão, mas é preciso deixar claro que é preciso ter conhecimento da norma padrão, porque a mesma não deve ser vista como forma de acabar com a linguagem coloquial, mas sim, como meio de aprimorar o conhecimento adquirido no âmbito familiar e para um melhor rendimento no ambiente escolar.

3. QUANDO E COMO NASCEU O “ERRO” LINGUÍSTICO

Quando se refere à noção de “erro” muitas pessoas acabam pensando que esse tipo de preconceito linguístico surgiu com os avanços tecnológicos, mas se as pesquisas forem levar em conta a história a respeito da linguística, é possível observar que vem desde séculos passados.

No que diz respeito à língua, a noção de “erro” nasce, no mundo ocidental, junto com as primeiras descrições sistemáticas de uma língua específica, a língua grega. Essas descrições sistemáticas foram empreendidas no mundo de cultura helenística, particularmente na cidade de Alexandria(Egito), que era o mais importante centro de cultura grega no século III a.C. (BAGNO, 2007, p. 62).

Para Bagno, fica evidente que desde os primórdios da civilização o estudo sobre língua e principalmente a noção de erro foi muito equivocada, já que a língua é viva e muda de acordo com a sociedade, nesse sentido, não tem como definir o que é “certo” ou “errado” na variação linguística, porque ela tem um estudo que vai além da forma oral ou escrita, uma vez que, nesse estudo é possível observar diversos fatores como: história da comunidade que pertencem, manifestações folclóricas, situações sócio econômicas, além de estudos voltados para a própria prática de ensino.

Sempre que o assunto em estudo é língua a sociedade se faz necessário ter sempre em mente duas definições opostas, voltando a deparar-se novamente com a norma padrão como sendo a correta, que deve ser sempre a utilizada, dentro e fora do âmbito escolar e a norma não padrão da língua, vista como linguagem utilizada por pessoas que não tem escolaridade, por isso se faz necessário ver a língua dos seus dois lados, sem impor o que deve ser estudado na escola como sendo a forma correta ou errada.

Sempre que o assunto é língua, existem na sociedade dois pontos de vista bem definidos, duas ordens de discurso que se contrapõem:

I. O discurso científico, embasado nas teorias da Linguística moderna, que trabalha com noções de variação e mudança;

II. O discurso do senso comum, impregnado de concepções ultrapassadas sobre a linguagem e de preconceitos sociais fortemente arraigados, e que opera com noção de erro. (BAGNO, 2007, p.60).

Nesse primeiro ponto a língua é entendida como forma de aproximar pessoas independentemente da linguagem utilizada, já que ela permite toda e qualquer forma de manifestação linguística e não ver erro na língua independentemente da norma que venha a ser empregada, porém o segundo ponto não leva em consideração essa diversidade, a forma não padrão é vista como uma língua ultrapassada, arcaica e que acaba operando uma noção de erro, uma vez que ela é apresentada, observa-se que foneticamente é diferente e em muitos casos passa da oralidade para escrita, por isso que a escola deve ter em sua prática de ensino a variação dialetal como sendo um dos principais pontos a ser analisado.

No sentido de conscientizar os educandos que a linguagem não padrão é considerada errada gramaticalmente, já que não segue as regras gramaticais, mas é válida em ambientes que não exigem formalidade, por isso que pedagogicamente as metodologias de ensino devem buscar formas eficazes para atender as necessidades dos educandos sem impor a linguagem que deve ser adotada por eles, assim, eles tomam consciência de que é preciso saber utilizar a linguagem padrão, assim como não se deve abolir a sua língua materna, porque ela faz parte da sua história assim como de sua família e do grupo social do qual você pertence.

Essa postura relativa ao tratamento das variedades na escola provoca um outro efeito benéfico para o ensino, que é o de evitar o preconceito de considerar como errados os usos da língua que não seguem as mesmas regras gramaticais da variedade padrão. Como já vimos anteriormente, o conceito de erro é inadequado para se referir a qualquer variedade linguística. (CAMPOS, 2014, p.33).

Conforme o autor, trabalhando essa diversidade linguística em sala de aula não opera entre os educandos essa ideia de que a língua correta é a norma padrão, já que no âmbito escolar eles convivem com pessoas das mais diversas variações linguísticas de forma harmoniosa, com isso todos os alunos sente-se acolhidos, reconhecem sua identidade pessoal e passam a respeitar a identidade do outro. Diante disso é possível propiciar um ambiente de aprendizagem, onde o conhecimento é a principal meta a ser atingida.

Existem situações sociais diferentes; logo, deve haver também padrões de uso da língua diferentes. A variação, assim, aparece como uma coisa inevitavelmente normal. Ou seja, existem variações linguísticas não porque as pessoas sejam ignorantes ou indisciplinadas; existem, porque as línguas são fatos sociais, situados num tempo e num espaço concretos, com funções definidas, E, como tais, são condicionados a esses fatores. (ANTUNES, 2007, p. 104).

Essa linha de concepção reforça a ideia de que a norma culta da língua não é exclusiva, absoluta, que assim como os educandos são diferentes, tem situações de convívio distintas uns dos outros, assim deve ser também o ensino quando diz respeito à língua, porque a sociedade muda, os costumes sofrem transformações que acompanham a sociedade e porque a língua tem que ser excludente, tem que seguir apenas uma linha de ensino e as demais é vista como sendo a incorreta, por isso que os linguísticos contemporâneos vêm debatendo a respeito desse tema, a diversidade é válida, de grande eficácia para os educandos compreenderem o seu mundo e a diversidade existente que os cercam.

Quando de fato a linguagem for estudada como um sistema heterogêneo e dinâmico, que constituem as mais diversas variações a escola pode dizer que cumpriu seu papel e consequentemente atingiu seu principal objetivo, a aprendizagem dos educandos sem qualquer tipo de descriminação quando o assunto for direcionado a língua e seus usos.

Para tanto, se faz necessário que os educadores desenvolvam nos educandos algumas competências básicas quando a assunto tratado é a variação dialetal.

Podemos concluir, portanto, que se o professor ensina gramática baseando-se nos usos orais e escritos da língua; se tem por objetivo a aprendizagem por seus alunos da variedade culta ou padrão; se considera nas atividades que desenvolve as relações desta com outras variedades da língua; se não recorre à noção de erro para se referir à fala dos alunos que trazem para a escola uma variedade diferente daquela que quer ensinar; então pode-se dizer que sua atuação se afasta da noção de gramática normativa e se linha com ideia de gramática como sistema que organiza a língua de maneira tão bem articulada mas ao mesmo tempo tão flexível, que mudanças, variações e instabilidades não são fenômenos alheios a sua estruturação formal, mas se constituem em recursos que contribuem para o funcionamento da língua. (CAMPOS, 2014, p.34).

Campos enfatiza que as práticas de ensino devem ser flexíveis, no sentido de trabalhar de acordo com os educandos, tendo em vista que o ensino deve contemplar atividades que sejam baseadas em usos orais e na modalidade escrita, que os alunos precisam compreender que na diversidade linguística existe a noção de erro, não deve ser referente à norma padrão ou não padrão, os educandos por sua vez tem que saber que a língua deve ser empregada em diferentes formas de uso, porque tem ambientes que exige uma maior formalidade, seja na linguagem oral ou escrita e neste caso a língua padrão é a mais indicada para o momento, do mesmo modo que em outros ambientes a linguagem não padrão é a mais conveniente.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com vistas à desvalorização da linguagem não padrão da língua e ao preconceito linguístico existente dentro e fora do âmbito escolar, seja na modalidade escrita ou na própria oralidade, vimos à necessidade de desenvolver um trabalho científico pautado na diversidade linguística existente no país e a importância dessa heterogeneidade para o desenvolvimento dos educandos. Além do preconceito linguístico existente, outro aspecto analisado neste trabalho, diz respeito ao tratamento adotado pela escola nas atividades realizadas em sala de aula, que em muitos casos acabam afetando os educandos no emocional e consequentemente no psicológico, uma vez que eles sentem-se incapazes de realizar as atividades, porque acabam deparando-se na escola com a língua padrão e no grupo social do qual pertencem a linguagem não padrão é a comumente utilizada

Portanto, a temática desse artigo científico tem o propósito de mostrar que a sociedade é diversificada no modo de agir, escrever e consequentemente de falar e cabe à escola trabalhar de forma correta, para que os educandos tenham consciência e autonomia para empregar a diversidade linguística, seja ele na norma padrão ou não padrão, na modalidade oral ou escrita.

REFERÊNCIAS

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TRAVAGLIA, Luiz Carlos. Gramática e interação: uma proposta para o ensino de gramática/Luiz Carlos Travaglia. – 14. Ed. – São Paulo: Cortez, 2009.

[1] Especialista em Língua Portuguesa e Literatura, pela Faculdade Campos Elíseos (FCE). Especialista em Psicopedagogia Institucional, pela Faculdade Integrada de Patos (FIP), Licenciado em Letras, pela Faculdade do Sertão do Pajeú (FASP), Bacharel em Administração, pela Universidade Paulista (UNIP).

Enviado: Dezembro, 2019.

Aprovado: Junho, 2020.

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