Relação das Atividades Realizadas Fora do Ambiente Acadêmico com a Evasão

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JUNIOR, Nelson Alves Levada [1]

JUNIOR, Nelson Alves Levada. Relação das Atividades Realizadas Fora do Ambiente Acadêmico com a Evasão. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 02, Vol. 13. pp 486-493 Janeiro de 2017 ISSN:2448-0959

RESUMO

Esse artigo objetiva mostrar que a evasão tem relação direta com o excesso de atividades e tarefas a serem executadas fora do ambiente escolar e acadêmico. Após pesquisa realizada pode-se constatar que dentre os motivos internos da escola, que provocam a evasão está o excesso de atividades, pois os alunos ocupam diversas posições e funções em todos os setores de suas vidas como familiar, profissional, afetivo, social, religioso, etc. Baseado neste resultado, a proposta é para que os professores desenvolvam o máximo das atividades dentro de sala de aula, a fim de que não prejudiquem outros afazeres dos alunos dos cursos profissionalizantes do ensino técnico e superior.

Palavras-chave: Evasão, Tarefa, Andragogia, Ensino Técnico, Curso Superior.

INTRODUÇÃO

Muito têm se preocupado com a evasão escolar nas salas de ensino técnico. Nas reuniões pedagógicas e de planejamento, temos nos deparado com a constante inquietação dos gestores escolares quanto à evasão dos alunos. A partir de muitas afirmativas infundadas, contraditórias e até maliciosas, como os alunos não são esforçados, os alunos chegam cada vez menos preparados e a culpa é das políticas públicas, a culpa é dos pais, etc., passei a prestar mais atenção ao que de fato acontece.

Conversando informalmente com os alunos dos cursos técnicos e superiores, que confidenciavam a vontade de parar de estudar, comecei a observar os fatos. Pude constatar que havia muitos relatos diferentes e, dentre os que merecem atenção, podemos citar: alunos hostilizados por professores e colegas de sala por não acompanharem as aulas, alunos maltratados oralmente por funcionários e professores, aluno abusado sexualmente em casa, aluno sem condições financeiras para fazer uso de transporte coletivo e, o motivo que mais me fez pensar foi o excesso de tarefas que os professores exigem dos alunos, para serem feitas em casa.

Muitos dos problemas encontrados dizem respeito a fatores externos que nada ou pouco podemos fazer, a não ser compreendê-los e apoiá-los para que tais fatores influenciem o mínimo em seu desempenho escolar ou acadêmico. Mas, o que mais chamou a atenção é para o fato de muitos alunos desistirem dos estudos por causa de tarefas, trabalhos, pesquisas e preparação de seminários e outros mais que os professores exigem que sejam feitos em casa.

No ensino profissionalizante, seja no técnico de nível médio ou no superior, muito dos alunos tem atividades fora do ambiente escolar e acadêmico. O aluno do ensino técnico da tarde, em sua maioria estuda o ensino médio pela manhã ou noite e muitos cursam línguas, normalmente inglês e ainda fazem curso preparatório para o vestibular. O aluno do ensino técnico e superior noturno em sua grande maioria trabalha durante o dia, a menos que esteja desempregado. Muitos são casados e precisam cuidar da família, casa, roupa, veículo e tantos outros afazeres, inclusive exercendo atividade profissional informal.

PESQUISA

Diante das observações e constatações, realizar uma pesquisa a respeito do assunto seria de bom grado, uma vez que nada tem escrito a respeito, assim, foi preparada uma pesquisa simples, mas buscando efetividade, sem deixar claro qual era o tema da pesquisa, para que não houvesse direcionamento nas respostas. Tal pesquisa foi elaborada na rede mundial de computadores – internet, no sitio SurveyMonkey com criação de evento no Facebook, e foram entrevistadas 100 pessoas, entre os dias 13 e 15 de outubro de 2013, cujas respostas conferimos na tabela a seguir:

Figura 1
Figura 1

Na tabela acima e no gráfico abaixo se verifica que oitenta e oito por cento (88%) dos entrevistados, ou já desistiram ou conhecem alguém que desistiu de estudar. Esta informação é apenas uma confirmação do que vivenciamos em nosso dia-a-dia, nas escolas e universidades.

Figura 2
Figura 2

A segunda pergunta da pesquisa questionou quanto aos motivos que levou estes alunos a desistirem do curso. Abaixo, podemos verificar que a maioria dos entrevistados, oitenta e sete pontos percentuais (87%) respondeu à esta pergunta, que questionava sobre o motivo da desistência dos estudos, onde se obteve o seguinte resultado.

Figura 3
Figura 3

Entre as seis opções de resposta, a mais escolhida foi “Outros” com quarenta e sete por cento (47%) dos votos e, após tabulados os comentários, onde os entrevistados expressam o motivo da desistência dos estudos, podemos constatar que os fatores são todos relativos ao ambiente externo à escola, conforme demonstra tabelas a seguir:

Figura 4
Figura 4

Na base da tabela acima, observamos “Comentários 44”. Foram tabulados, os comentários relevantes, onde os entrevistados que responderam “Outros”, para os motivos mais prováveis que levaram o aluno evadido a abandonar os estudos, podiam expressar qual o motivo, de maneira mais específica temos os resultados conforme tabela abaixo:

Motivo da evasão Números absolutos
Financeiros e outros correlatos. 13
Falta de identidade com o curso ou assuntos correlatos. 17
Falta de interesse. 8
Não gostou do curso. 5
Preguiça. 3
Outros. 3

Tabela 1 – Resumo dos comentários obtidos em https://pt.surveymonkey.com

Note-se que o total de comentários foi de quarenta e quatro (44), porém a soma das respostas totaliza quarenta e nove (49). Isso se deve ao fato de haver mais de uma resposta a ser considerada em algumas ponderações.

A segunda opção mais escolhida pelos pesquisados aponta a “Falta de tempo para executar tarefas fora do ambiente acadêmico” com trinta e três por cento (33%) das escolhas.

JOVENS E ADULTOS NA ESCOLA

Em capacitações dirigidas a professores e gestores escolares, comenta-se sobre as nomenclaturas utilizadas para descrever as situações, espaços, estruturas educacionais que parecem não estarmos nos referindo a ambientes escolares como grade de horário, disciplinas, regimento, sem contar que as escolas são cercadas por muros e, entrada e saída se dão por grandes portões de ferro que lembram um presídio. Quando há falta de professor, os alunos são obrigados a permanecer na escola e, muitos afirmam até que é para manter o interesse econômico-financeiro das cantinas.

Muito comum verificarmos situações desagradáveis com alunos proporcionadas por professores e funcionários de escola. Inclusive já se pode presenciar um coordenador pedagógico aplicando uma tremenda repreensão em duas alunas que se maquiavam na sala de aula, no horário de aula, porém o professor havia faltado. Parecia que as meninas haviam praticado o ato mais impróprio para o recinto escolar.

A escola deve ser um ambiente agradável, pois sabemos que não é fácil estudar, aprender, cumprir horários e regimentos, conviver com colegas e professores, que não desejamos. Enfim, a atividade escolar exige bastante dos alunos, portanto cabe a nós professores procurar transformar o ambiente escolar em um local agradável, que o aluno tenha satisfação em vir e a permanecer.

Com base nessas afirmativas e, atentando à Lei nº 9394/94, na alínea VII, do artigo 4º, que versa:

Oferta de educação escolar regular para jovens e adultos, com características e modalidades adequadas às suas necessidades e disponibilidades, garantindo-se aos que forem trabalhadores as condições de acesso e permanência na escola. (BRASIL, 20 de dezembro de 1996).

Portanto, garantindo ao trabalhador condição de permanência na escola.

Ainda considerando o citado diploma legal, em seu artigo 37, do parágrafo primeiro, encontramos o seguinte:

Os sistemas de ensino assegurarão gratuitamente aos jovens e aos adultos, que não puderam efetuar os estudos na idade regular, oportunidades educacionais apropriadas, consideradas as características do alunado, seus interesses, condições de vida e de trabalho, mediante cursos e exames.

Assim, a escola e seus representantes – professores e funcionários devem considerar as características do alunado, inclusive no que se refere à demanda de tempo para execução de tarefas fora do ambiente escolar e acadêmico.

Muitas das questões não podem ser adequadas pelos professores aos alunos, mas a constatação a partir da pesquisa, sobre as atividades aplicadas pelos professores para serem desenvolvidas fora do ambiente escolar é algo que se pode trabalhar. Quando se diz sobre assegurar oportunidades educacionais consideradas as características do alunado, há de se pensar nas características anteriormente citadas sobre o alunado do técnico que cursa o ensino médio em outro período e, a esta formação deve dar prioridade, pois a ensino técnico não dá ao aluno credenciais para o ingresso na universidade.

Quando o tema é a formação de jovens e adultos, espera-se dos docentes, que se utilizem os aprendizados que o aluno adquiriu fora do ambiente escolar, através de suas experiências pessoais e profissionais, de modo a contextualizar o aprendizado escolar tornando, assim as aulas mais dinâmicas e interessantes para este público.

Estas atividades devem ter o caráter avaliativo e, ocorrendo dentro do ambiente e, em horário escolar, trona-se mais fácil o trabalho de observação do professor e possíveis intervenções para a prática de recuperação continuada.

Já o aluno um pouco mais maduro, que está voltando à cadeira escolar ou universitária depois de, por vezes, longos afastamentos, já assumiu diversas outras posições sociais, familiares, religiosas e tantas outras. E, ao voltar para a sala de aula, em alguns casos sentem-se constrangidos por não terem a mesma facilidade que aqueles que nunca se afastaram.

Para que estas propostas sejam efetivas é necessário que constem do Plano de Trabalho Docente, assim tanto os alunos quanto a coordenação estarão cientes da utilização de tais práticas.

Devemos observar também que as atividades executadas em sala de aula, promove o bom relacionamento, pois muitos alunos chegam à escola, desabituados a relacionarem-se fora de seu ambiente profissional e familiar e, quando aplicamos atividades em grupo é que detectamos estas dificuldades, uma vez que alguns não se integram, outros tentam exerceu o domínio do ambiente. Assim, quando trabalhamos de maneira contumaz com estas práticas, o aluno vai se acostumando a colocar-se dentro do grupo com respeito e dedicação.

CONCLUSÃO

Abordando diretamente a constatação e confirmação de observações ora efetuadas, verificamos a importância dos professores do alunado composto por jovens e adultos desenvolverem todo o seu programa dentro da sala de aula, obrigando o mínimo aos alunos cumprirem horas de atividades escolares fora do ambiente escolar, proporcionando incursões em bibliotecas e laboratórios de informática para que sejam desenvolvidos trabalhos de pesquisa e desenvolvimento de textos para apresentações orais e/ou escritas, com o acompanhamento e orientação do professor inclusive, proporcionando a troca de informações entre os alunos com maior bagagem, principalmente profissional e o dinamismo dos mais jovens que, contaminam todo o grupo com sua vitalidade. Certamente que não deve haver, prejuízo de temas e conteúdos a serem trabalhados.

Outra ótica a ser abordada referente a esta metodologia para o desenvolvimento dos alunos, prende-se ao fato da avaliação por observação estar mais presente e próxima no dia-a-dia, na relação professor-aluno e ensino aprendizagem, bem como o processo de recuperação continuada àqueles alunos que não desenvolvem dentro do esperado. Além disso, fica mais fácil balizarmos o aluno pelo grupo e não pelo que o professor acredita que ensinou.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional.

MATHIEU, E. R. O; BELEZIA, E. C. Formação de Jovens e Adultos: (RE)Construindo a Prática Pedagógica – São Paulo : Centro Paulo Souza, 2013.

RAMOS, I. M. L et al. Formação pedagógica para docentes da educação profissional – São Paulo : Centro Paulo Souza, 2007.

PESQUISA Evasão de cursos profissionalizantes regulares (Técnico ou Superior). São Paulo: https://pt.surveymonkey.com/, e http://www.facebook.com/nelson.levada, outubro/2013.

[1] Professor na ETEC Professor Horácio Augusto da Silveira, São Paulo, Centro Paula Souza.

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