A Influência Dos Fatores Socioeconômicos E De Acessibilidade Tecnológica Na Adesão Discente Ao Ensino Remoto

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ARTIGO ORIGINAL

DIAS, Fabrício Fernandes [1], CUNHA, Juliana Bernardes Borges da [2]

DIAS, Fabrício Fernandes CUNHA, Juliana Bernardes Borges da. A Influência Dos Fatores Socioeconômicos E De Acessibilidade Tecnológica Na Adesão Discente Ao Ensino Remoto. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 02, Vol. 04, pp. 05-18. Fevereiro de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/acessibilidade-tecnologica

RESUMO

O presente artigo objetivou verificar e existência de fatores que acarretam dificuldades na adesão ao ensino remoto emergencial e como isso pode influenciar no processo ensino aprendizagem. A pesquisa foi desenvolvida com alunos da 3ª Série do Ensino Médio de um colégio público de rede estadual de ensino, situado no município de Goiatuba-Go, sendo a coleta de dados realizada através de um levantamento de cunho quali-quantitativo. Diante dos resultados obtidos, pode-se notar que existem diversos aspectos, como sociais/habitacionais, econômicos e de acessibilidade tecnológica que acarretam dificuldades na adesão dos alunos ao ensino remoto emergencial, limitando o processo ensino aprendizado durante este período.

Palavras – chave: Ensino Remoto, Acessibilidade, Tecnologia.

1. INTRODUÇÃO

No final do ano de 2019 surgiu na China um vírus altamente contagioso denominado SARS-CoV-2, que é transmitido através do contato com gotículas eliminadas, por um indivíduo contaminado, proveniente da tosse, espirro ou pelo contato com uma superfície contaminada e depois tocando olhos, nariz e boca, causando a COVID-19, que é uma doença infecciosa que pode variar de infecções assintomáticas a quadro graves, podendo levar o indivíduo a morte (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2020).

Em pouco tempo o vírus se espalhou por vários países ao redor do mundo, sendo caracterizado, em 11 de março de 2020, como pandemia, termo utilizado quando uma epidemia se espalha por diferentes continentes com transmissão de pessoa para pessoa (OMS, 2020). Assim, várias rotinas sociais com aglomerações passaram a sofrer restrições com o intuito de conter a disseminação da doença.

Essas restrições impactaram em diversos setores da sociedade, especialmente na educação e em todos os seus níveis. No contexto educacional brasileiro, o Conselho Nacional de Educação (CNE), juntamente com o Ministério da Educação (MEC) elaboraram um parecer com as diretrizes para o funcionamento das escolas de educação básica e as instituições de ensino superior durante a pandemia do coronavírus. Neste documento o CNE autoriza os sistemas de ensino a computar atividades não presenciais para o cumprimento da carga horária e sugere que estados e municípios busquem alternativas para que possam manter as atividades escolares enquanto durar a situação de emergência. (BRASIL, 2020).

No contexto educacional do estado de Goiás, estabeleceu-se o Regime Especial de Aulas Não Presenciais (REANP). Esta modalidade de ensino estabelece que os gestores das unidades de ensino juntamente com o corpo docente planejem e elaborem ações pedagógicas e viabilizem o material e a aprendizagem dos estudantes, com facilidade de execução e compartilhamento. Assim, o REANP propõe a utilização de recursos digitais e tecnológicos para mediar o processo ensino aprendizagem, porém não de maneira exclusiva, pois considera essencial manter a relação e interação entre professor e alunos e entre estes. Nesse sentido, a orientação é promover um ambiente virtual de ensino aprendizagem com transmissão dos conteúdos e ao mesmo tempo a relação entre os participantes do processo (CEE/GO, 2020).

Cabe ressaltar que o REANP, também denominado de ensino remoto, não pode ser classificado como ensino a distância (EaD), pois este possui normas próprias. O ensino remoto se dá devido às circunstâncias emergenciais, sendo de caráter temporário e se apropriando da tecnologia para promover a mediação que antes era presencial, enquanto o EaD é uma modalidade planejada anteriormente e concebida desde o início para ser on-line (HODGES et al., 2020).

No entanto, foi constatado, durante o REANP, que nas aulas de matemática da 3ª série do ensino médio de uma escola da rede pública estadual de ensino, situado no município de Goiatuba-Go, uma parcela significativa dos estudantes, cerca de 80%, apresenta dificuldades na adesão às aulas virtuais síncronas e também nas aulas assíncronas disponibilizadas através da gravação das aulas. Isso é um cenário preocupante, pois o interesse e o engajamento estão diretamente ligados ao êxito dos estudantes durante o ensino remoto emergencial (HODGES et al., 2020).

As dificuldades à adesão e consequentemente ao engajamento, bem como o interesse dos alunos podem estar relacionados diretamente ou indiretamente a fatores sociais, econômicos e de acessibilidade tecnológica, influenciando o processo ensino aprendizagem durante este período. Diante deste cenário, faz-se necessário compreender o contexto que os estudantes estão inseridos e de que forma estes fatores podem influenciar na adesão destes alunos ao REANP e assim, identificar os possíveis obstáculos que dificultam o acesso e a participação e propor ações que a fim de que esta modalidade de ensino se torne acessível aos discentes.

De acordo com o exposto, o presente estudo teve como objetivo verificar quais são as limitações sociais, econômicas e de acessibilidade tecnológica e qual a sua relação com as dificuldades de adesão as aulas remotas e como essas limitações elas podem influenciar no processo ensino aprendizagem dos discentes durante o REANP.

2. METODOLOGIA

Em relação aos procedimentos metodológicos, o presente estudo, trata-se de um levantamento com uma abordagem de cunho quali-quantitativa, onde buscou-se compreender e explicar a relação existente entre os fatores sociais/habitacionais, econômicos e de acessibilidade tecnológica com as dificuldades de adesão dos discentes ao ensino remoto durante o REANP e suas consequências para o processo ensino aprendizagem.

Os sujeitos da pesquisa foram alunos da 3ª série do ensino médio de um colégio da rede pública estadual, situado no município de Goiatuba-Go, totalizando 25 discentes.

Para a obtenção dos dados coletados, foi aplicado um questionário semiestruturado, através da ferramenta de pesquisa Google forms. Cabe ressaltar que, todos os participantes receberam e assinaram os seguintes documentos: o Termo de Assentimento Livre e Esclarecido (TALE) e o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE). Para os discentes menores de 18 anos, os pais ou o responsável legal assinaram o TCLE. Estes termos foram elaborados de acordo com as propostas desta pesquisa, sendo os estudantes e pais informados de todas as etapas e de seus direitos enquanto voluntário, sendo disponibilizada uma cópia de cada termo aos participantes.

A análise dos dados ocorreu por meio do estabelecimento de três categorias: aspetos sociais/habitacionais, aspectos econômicos e acessibilidade tecnológica. Os dados em primeiro lugar foram trabalhados por meio de editor de texto Microsoft Word, sendo posteriormente processados na planilha eletrônica do Microsoft Excel. Das planilhas eletrônicas retiramos os dados mais significativos através de porcentagens e os relacionamos com suas respectivas categorias.  Os dados foram apresentados por meio de gráficos e realizados as devidas discussões. (pesquisa autorizada pelo conselho de ética em pesquisas, número do parecer: 3.709.330).

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Participaram de 25 estudantes da 3ª série do ensino médio e, no que tange ao perfil, eram 80% do sexo feminino e 20% do sexo masculino, com idades entre 17 e 19 anos.

3.1 ASPECTOS SOCIAIS/HABITACIONAIS

Os aspectos sociais/habitacionais podem influenciar diretamente ou indiretamente no processo ensino aprendizagem do estudante, ainda mais neste momento de pandemia onde as aulas estão sendo ministradas remotamente e o estudante necessita de um ambiente favorável, dentro de sua residência, para que possa desenvolver seus estudos.

O primeiro aspecto habitacional levado em consideração neste levantamento foi o local de residência, sendo que 88% responderam que moram na zona urbana e 12% na zona rural (Gráfico 1).

Gráfico 1: Local de residência.

Fonte: Arquivo pessoal (2020).

Em relação à quantidade de pessoas que moram em sua residência, 1 estudante (4%) respondeu que mora só, 8% responderam moram 2 pessoas em suas casas, 32% 3 pessoas, 36% responderam 4 pessoas, 12% disseram 5 pessoas e 8% responderam que residem mais de 5 pessoas em suas casas (Gráfico 2).

Gráfico 2: Quantidade de pessoas na residência.

Fonte: Arquivo pessoal (2020).

Pode-se constatar, através dos dados do gráfico 2, que mais da metade dos estudantes (56%) possuem quatro ou mais pessoas residindo em seus lares o que pode influenciar no desempenho escolar, ainda mais num momento em que o ensino está sendo realizado de forma remota.

Mesmo no ensino presencial, existem características familiares que podem influenciar no desempenho escolar dos filhos. Muitas pesquisas mostram que a família numerosa está associada negativamente ao desempenho escolar dos filhos, pois uma família grande pode não possuir condições de prover, para todos os filhos, os mesmos recursos financeiros, sociais e culturais (SOARES e COLLARES, 2006).

Com relação a existência de um local adequado para realizar seus estudos (cômodo fechado, silencioso, arejado, com cadeira e mesa), 56% os discentes responderam que “sim”, possuem um local adequado e 44% “não” (Gráfico 3).

Gráfico 3: Local adequado para o estudo.

Fonte: Arquivo pessoal (2020).

Sobre o compartilhamento do ambiente com outras pessoas durante o período de estudo, 56% discente responderam “sim”, ou seja, compartilha o ambiente de estudo com outras pessoas e 44% disseram que “não” (Gráfico 4).

Gráfico 4: Compartilha o ambiente de estudo com outras pessoas.

Fonte: Arquivo pessoal (2020).

Os dados dos gráficos 3 e 4 mostram que praticamente metade dos estudantes não possui um local adequado, em sua residência, para realizar seus estudos e, além disso, no momento em que estão estudando compartilham o ambiente com outras pessoas o que pode influenciar na sua concentração e consequentemente no aprendizado durante o ensino remoto.

Podemos observar que os fatores associados às condições habitacionais abordados nesta pesquisa podem estar associados ao acesso e ao desempenho dos estudantes durante o ensino remoto, porém, além destes elementos, existem outros aspectos, como o econômico, que merecem a mesma atenção, pois podem igualmente influenciar no aprendizado durante este período.

3.1.1ASPECTOS ECONÔMICOS

Nesta categoria analisaremos dados referentes a alguns fatores econômicos, pois é uma importante variável e podem estar associados à participação e ao desempenho dos discentes durante o ensino remoto.

Estes fatores são a primeira característica a ser levada em consideração em estudos de influência da família no desempenho dos discentes, sobretudo em países, como o Brasil, onde perduram altos índices de desigualdade de renda (SOARES e COLLARES, 2006).

O primeiro fator é referente à renda familiar, onde 36% dos estudantes disserem que a renda familiar é de até um salário-mínimo, para 52% a renda está entre um e três salários-mínimos, 12% entre três e cinco salários-mínimos e nenhum dos discentes disseram ter a renda familiar maior que cinco salários-mínimos (Gráfico 5).

Gráfico 5: Renda mensal familiar.

Fonte: Arquivo pessoal (2020).

 

Foi perguntado aos discentes se estão inseridos no mercado de trabalho e 48% disseram que “sim” e 52% responderam que “não”. Por fim, para os estudantes que responderam “sim”, foi questionado em quais turnos estão trabalhando. Dos 25 participantes da pesquisa, 58,3% estão trabalhando no período matutino, 83,3% disseram estar no período vespertino e 25% responderam que estão trabalhando no período noturno (Gráfico 6).

Gráfico 6: Turnos em que exercem atividade remunerada.

Fonte: Arquivo pessoal (2020).

Os dados mostram que a renda familiar de mais de um terço dos discentes é de até um salário-mínimo e para mais da metade deles é de um a três salários-mínimos (Gráfico 5). Observa-se também que mais da metade dos estudantes estão inseridos numa família com quatro ou mais pessoas e, diante destes elementos, pode-se inferir que, num momento de pandemia, famílias com um número maior de pessoas e com baixa renda podem apresentar dificuldades financeiras consideráveis.

Tendo em vista estas dificuldades, o ensino remoto abre ao aluno uma possibilidade de geração de renda, fazendo com que o mesmo opte pelo mercado de trabalho, laborando até mesmo no turno em que deveria estar acompanhando as aulas remotas, o que pode ter contribuído para dificuldades de adesão às aulas durante o ensino remoto.

A necessidade de trabalho e geração de renda é um dos aspectos que está diretamente ligado à evasão escolar e consequentemente ao fracasso escolar. Longas jornadas de trabalho resultam em cansaço e falta de tempo para estudar e em dificuldades de conciliação da dupla jornada de trabalho com o estudo (PEIXOTO et al., 2017)

Este fator pode ser ainda mais relevante durante o ensino remoto emergencial, onde o aluno está diante de um novo formato de ensino, com pouca orientação e, apesar do professor estar à disposição para orientações, este discente necessita de certa autonomia.

Além dos aspectos habitacionais e econômicos, outro fator que pode estar diretamente ligado ao êxito durante o ensino remoto é a questão da acessibilidade tecnológica, pois o ensino remoto pressupõe a adesão a estas ferramentas para que o ensino possa ser viabilizado.

3.1.2 ACESSIBILIDADE TECNOLÓGICA

Neste cenário de pandemia, é questionado o acesso, por parte de professores e alunos, aos recursos digitais e tecnológicos como internet e suas plataformas, celulares e computadores como o objetivo de viabilizar a educação por meio do ensino remoto (MARTINS e SOUZA, 2020).

Diante deste cenário, analisaremos dados referentes à acessibilidade tecnológica, tendo em vista que é fator essencial para que possa possibilitar o ensino, durante o isolamento social, através da modalidade remota.

O primeiro fator analisado foi com relação à internet utilizada para realizar os estudos e 80% dos discentes disseram utilizar internet de fibra óptica com velocidade igual ou superior a 10MB. O restante dos participantes, que correspondem a 20%, utiliza dados móveis, internet via rádio ou não possui internet (Gráfico 7).

Gráfico 7: Internet utilizada para estudar durante o ensino remoto.

Fonte: Arquivo pessoal (2020).

Os resultados mostram que a internet está bem difundida entre os participantes desta pesquisa, porém 8% não a possuem, ou seja, para estes discentes as aulas durante o ensino remoto emergencial se tornam praticamente inviável.

Dentro da amostra pesquisada, este número pode parecer insignificante, porém a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) em seus artigos 2º e 3º declaram que:

Art. 2º A educação, dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

Art. 3º O ensino será ministrado com base nos seguintes princípios:

I – igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;

Logo, por menor que seja o número de alunos que não possuam o acesso, estes detêm o direto de uma educação igualitária e com as mesmas condições dos demais.

Porém, quando falamos a nível nacional, um resultado ainda mais preocupante foi divulgado pelo Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (CETIC), onde, em 2019, 28% dos domicílios brasileiros não possuíam acesso à internet, o que representa aproximadamente 20 milhões de famílias, as quais podem ter seus filhos excluídos da educação básica por não terem acesso à educação a distância (CETIC, 2019).

Além do acesso à internet, foram questionados aos discentes, quais equipamentos tecnológicos, dentre smartphone, computador, notebook e tablet, eles possuíam em suas residências. Todos os participantes responderam que possuíam smartphone, 32% dos alunos disseram possuir computador, 12% possuem notebook e, apenas 4% possui tablet (Gráfico 8).

Gráfico 8: Equipamentos tecnológicos que os discentes possuem em suas residências.

Fonte: Arquivo pessoal (2020).

Complementando o questionamento anterior, foi perguntado quais dos equipamentos é/são utilizados para o estudo remoto. Para 96% o smartphone é utilizado para os estudos, 16% utilizam computador, 2% notebook e nenhum dos participantes utilizam tablet (Gráfico 9).

Gráfico 9: Equipamentos tecnológicos utilizados para o estudo durante o ensino remoto.

Fonte: Arquivo pessoal (2020).

Os dados dos gráficos 8 e 9 mostram que todos os participantes da pesquisa possuem o smartphone e que praticamente todos o utilizam para estudar durante o ensino remoto emergencial, porém algumas ressalvas são pertinentes, pois não é possível afirmar que todos os estudantes possuem o celular sempre à disposição para estudar e não podemos garantir que todos tenham um smartphone de qualidade, que dê suporte a todas as necessidades exigidas durante as aulas no ensino remoto.

Apesar do smartphone ser útil e bastante difundido para realizar os estudos durante a pandemia, ele não é o equipamento mais adequado a esse fim, pois apresenta algumas limitações como o tamanho da tela, não sendo ideal para realizar leitura e é pouco apropriado para fazer trabalhos que necessitam de um editor de texto. Outro aspecto relevante do smartphone é que estão associados às redes sociais, podendo influenciar no engajamento e na concentração dos estudantes.

Nesse sentido, o equipamento mais adequado para realizar os estudos durante o ensino remoto emergencial, e que geralmente é um dos requisitos técnicos para acompanhar as aulas em cursos EaD, seria um computador ou notebook, porém como podemos notar menos da metade dos estudantes possuem estes equipamentos e apenas 24% os utilizam para estudar.

Resultado semelhante foi apresentado pelo Cetic (2019), onde apenas 39% dos domicílios brasileiros possuíam computador e, desde 2015, este número vem se reduzindo e se torna ainda mais preocupante entre as classes mais baixas.

Por fim, foi questionado quais as maiores dificuldades em estudar remotamente. Para 76% dos estudantes o maior empecilho é a desconcentração, 24% dos participantes responderam que é a dificuldade em ler na tela do aparelho eletrônico, 20% disseram apresentar dificuldade em lidar com tecnologias, outros 20% disseram não possuir recursos tecnológicos suficientes e 8% não possuem internet (Gráfico 10).

Gráfico 10: Dificuldades em estudar durante o ensino remoto.

Fonte: Arquivo pessoal (2020).

Os dados mostram que a maior dificuldade encontrada em estudar remotamente é a desconcentração. Esta dificuldade pode estar relacionada a diversos fatores que foram visualizados através de dados desta pesquisa.

O primeiro deles é que quase metade dos estudantes pesquisados não possui um local adequado para estudo e acabam por compartilhar o ambiente com outras pessoas durante este momento. Outro fator que pode estar relacionado a esta dificuldade é a rotina de trabalho dos alunos, pois, pode-se constatar que quase metade dos discentes está inserida no mercado de trabalho. Longas jornadas de trabalho levam ao cansaço e consequentemente a falta de concentração e também a falta de tempo para estudar (PEIXOTO et al., 2017). Um aspecto que também pode estar relacionada e esta dificuldade é a utilização do smartphone para estudar, pois, como já foi dito, é um recurso útil, porém apresentada diversas limitações, não sendo o recurso mais adequado a este fim.

O uso do smartphone também pode estar relacionado com outra dificuldade apontada por 24% dos discentes, que é ler na tela do aparelho eletrônico. Logo podemos inferir que o smartphone realmente não é recurso mais adequado para estudar remotamente.

Podem ser notadas, através das informações apresentadas no gráfico10, dificuldades que inviabilizam a participação dos estudantes durante o ensino remoto, pois alguns não possuem internet e recursos tecnológicos suficientes para proceder aos estudos, o que confirma a inferência feita anteriormente, pois apesar de todos possuírem o smartphone, não podemos afirmar que o tenha sempre a disposição ou que este seja um aparelho de qualidade que dê suporte as necessidades do ensino remoto. Além disso, alguns apresentam dificuldades em lidar com recursos tecnológicos o que pode estar relacionado com a falta de planejamento na implantação desta modalidade de ensino.

A mudança no processo educacional devido à pandemia pressupõe que docentes e discentes tenham condições mínimas para empreender o processo ensino aprendizagem durante este período, porém os dados revelam o contrário, escancaram as desigualdades sociais e a falta de planejamento adequado. Diante disso, é fundamental um olhar atento para as questões apontadas nesta pesquisa, pois é preciso garantir o direito constitucional à educação de qualidade e de forma igualitária.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O presente estudo mostrou que o ensino remoto emergencial apresentou várias alternativas que podem vir a complementar e inovar a educação pós-pandemia, porém eleger este modelo de ensino, ou até mesmo o EaD, como uma alternativa ao ensino presencial é utópico diante do contexto das desigualdades sociais e econômicas observados nesta pesquisa.

Em relação ao contexto socioeconômico, puderam-se verificar diversos aspectos que influenciaram diretamente na adesão dos discentes ao REANP e consequentemente no processo ensino aprendizagem. Constatou-se que a maioria dos estudantes não dispunha de um local adequado para os estudos e acabaram por compartilhar o ambiente com outras pessoas durante este momento.  Verificou-se também que a renda familiar de grande parte dos discentes é relativamente baixa em relação à quantidade de pessoas existentes na residência e isso abriu margem para que o estudante deixasse os estudos em segundo plano e buscasse meios de contribuir com a renda familiar, partindo assim para o mercado de trabalho.

No que tange a acessibilidade tecnológica, é perceptível a ampliação da desigualdade social e educacional, sendo que, parte dos alunos não possuía acesso à internet ou a equipamentos tecnológicos adequados a este modelo de ensino, culminando na baixa adesão, dificuldades de concentração e em lidar com recursos tecnológicos. Assim, acaba por retirar de alguns, o direito constitucional à educação.

Portanto, diante do cenário observado, mostra-se necessário um planejamento pedagógico adequado, a adoção de políticas públicas com o objetivo de prover, ao menos, o mínimo necessário a docentes e discentes para que o ensino remoto se mostre viável em situações emergenciais ou até mesmo como apoio ao ensino presencial.

REFERÊNCIAS

BRASIL. Congresso Nacional. Lei 9.394/1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.html>. Acesso em: 03 out. 2020.

BRASIL. Ministério da Educação (2020). CNE aprova diretrizes para escolas durante a pandemia. <Disponível em: http://portal.mec.gov.br/busca-geral/12-noticias/acoes-programas-e-projetos637152388/89051-cne-aprova-diretrizes-para-escolas-durante-a-pandemia>. Acesso em: 10 out. 2020.

CENTRO DE ESTUDOS REGIONAIS PARA O DESENVOLVIMENTO DA SOCIEDADE DA INFORMAÇÃO – CETIC. Pesquisa sobre o uso das tecnologias de informação e comunicação nos domicílios brasileiros: TIC 2019. São Paulo: Comitê Gestor da Internet no Brasil, 2019.

CONSELHO ESTADUAL DE EDUCAÇÃO DE GOIAS – CEE/GO. Nota Técnica 2/2020. 2020. Disponível em: <https://cee.go.gov.br/nota-tecnica-022020-esclarece-sobre-o-funcionamento-das-unidades-escolares-no-periodo-de-isolamento-social/>. Acesso em: 18 set. 2020.

HODGES​, Charles et al. As diferenças entre o aprendizado online e o ensino remoto de emergência. Revista da Escola, Professor, Educação e Tecnologia, Recife,PE, v. 2, p. 1-12, 2020. Disponível em: https://escribo.com/revista/index.php/escola/article/view/17. Acesso em: 11 out. 2020.

MARTINS, Mônica Paula de Sousa; SOUSA, Rosana Paulo de. ENSINO DE HISTÓRIA: ESTUDOS DOMICILIARES EM TEMPOS DE COVID-19. Olhar de Professor, v. 23, p. 1-5, 2020. Disponível em: https://revistas.apps.uepg.br/index.php/olhardeprofessor/article/view/15974. Acesso em: 03 nov. 2020.

MNISTÉRIO DA SAÚDE. Coronavírus (COVID-19). 2020. Disponível em:< https://coronavirus.saude.gov.br/sobre-a-doenca#o-que-e-covid>. Acesso em: 18 set. 2020.

ORGANIZAÇÃO MUNDIAL DA SAÚDE. Centro de imprensa (Declarações). 2020. Disponível em:< https://www.who.int/es/news-room/detail/30-01-2020-statement-on-the-second-meeting-of-the-international-health-regulations-(2005)-emergency-committee-regarding-the-outbreak-of-novel-coronavirus-(2019-ncov)>. Acesso em: 18 set. 2020.

PEIXOTO, Sandra Patrícia; CAVALCANTE, Alicia Daniele Calaça; ARAÚJO, Carolina Alves Rosa de, ALMEIDA NETO, Josberto Teixeira de; FERREIRA, Luiz Carlos de Oliveira. O impacto dos fatores intra e extraescolares para o fracasso escolar: desmistificando as visões psicologizantes. Caderno De Graduação – Ciências Humanas E Sociais – UNIT – ALAGOAS, v. 4, n. 2, p. 235-247, 2018. Disponível em: <https://periodicos.set.edu.br/fitshumanas/article/view/4748>. Acesso em: 13 out. 2020.

SOARES, José Francisco; COLLARES, Ana Cristina Murta. Recursos Familiares e o Desempenho Cognitivo dos Alunos do Ensino Básico Brasileiro. Revista de Ciências Sociais, v.49, n. 3, p. 615 – 650, 2006. Disponível em: <https://doi.org/10.1590/S0011-52582006000300007>. Acesso em: 20 set. 2020.

[1] Especialização em Ensino de Ciências e Matemática pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia Goiano – Campus Morrinhos (2018), Graduação em Matemática pela Universidade Estadual de Goiás – Campus Morrinhos (2009).

[2] Orientadora.

Enviado: Fevereiro de 2021.

Aprovado: Fevereiro de 2021.

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