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Analisando a abordagem pedagógica de um curso técnico de nível médio na modalidade do programa nacional de integração da educação profissional com a educação básica na modalidade de jovens e adultos

DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/abordagem-pedagogica
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CONTEÚDO

ARTIGO DE REVISÃO

ROSSI, Fabiano [1]

ROSSI, Fabiano. Analisando a abordagem pedagógica de um curso técnico de nível médio na modalidade do programa nacional de integração da educação profissional com a educação básica na modalidade de jovens e adultos. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 07, Ed. 04, Vol. 06, pp. 119-128. Abril de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/abordagem-pedagogica, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao/abordagem-pedagogica

RESUMO

O presente artigo busca analisar a abordagem pedagógica de um curso técnico de nível médio na modalidade do Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na modalidade de Jovens e Adultos – PROEJA. Esta etapa configura-se como uma importante oportunidade para estudantes que não tiveram a chance de concluir a educação básica nas respectivas idades correlatas, além de seguir a proposta de integrar o ensino médio com a educação profissional, contribuindo para que este jovem desenvolva e compreenda as relações existentes no mundo do trabalho e como ele pode se tornar um agente ativo e emancipado na sociedade. Contudo, tendo em vista as particularidades desse público de estudantes, marcadas pela descontinuidade dos processos pedagógicos, o presente artigo tem como questão norteadora: Qual a abordagem pedagógica presente no Projeto Político Pedagógico (PPP) de um curso técnico de nível médio na modalidade do PROEJA? O objetivo da pesquisa é de analisar qual a concepção filosófica que norteia as práticas educativas contidas no PPP do curso pesquisado, tendo como metodologia a pesquisa bibliográfica e documental, baseada em documentos oficiais e em alguns autores que tratam da temática estudada. Os resultados apontaram que a mediação pedagógica do curso analisado é caracterizada por uma abordagem sociocultural,  sendo esta centrada no estudo do desenvolvimento humano, que se dá nas interações sociais.

Palavras-chave: Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na modalidade de Jovens e Adultos – PROEJA, abordagem pedagógica, educação de jovens e adultos.

1. INTRODUÇÃO

Este artigo busca estudar a abordagem pedagógica de um curso técnico de nível médio ofertado na modalidade do Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na modalidade de Jovens e Adultos – PROEJA. Este público apresenta particularidades singulares, já que na sua maioria são estudantes que estão retornando à escola após um período, e precisam, portanto, de um olhar de certa forma “diferenciado” por parte de todos os envolvidos nos processos de ensino-aprendizagem.

O artigo faz parte do trabalho final da disciplina de Psicologia da Educação do curso de Formação Pedagógica para Graduados não Licenciados pelo Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul (IFRS) – Campus Sertão. A escolha deste tema deu-se a partir  da importância desse programa para a vida de muitas pessoas, tendo em vista que possibilita a retomada de expectativas tanto acadêmicas quanto profissionais por parte de sujeitos de certa forma excluídos e sem muitas perspectivas, já que o perfil do público do PROEJA é na sua maioria de estudantes  que tiveram que abandonar os estudos por diversos motivos e que ao decorrer do tempo depararam-se com a necessidade de retornar ao ambiente escolar, na busca de um futuro com melhores oportunidades.

Contudo, esta modalidade de ensino enfrenta ainda certas dificuldades e resistências, já que se torna necessária a adaptação de  uma metodologia que leve em consideração a realidade dos educandos jovens e adultos. Com isso, o presente artigo teve como questão norteadora: Qual a abordagem pedagógica presente no Projeto Político Pedagógico (PPP) de um curso técnico de nível médio na modalidade do PROEJA?

No intuito de responder a este questionamento, teve-se como objetivo analisar as concepções filosóficas de ensino que norteiam o PPP do curso técnico de nível médio pesquisado. Para isto, adotou-se uma metodologia de pesquisa bibliográfica e documental, baseada em documentos oficiais do PROEJA bem como do PPP do curso analisado e, também, de autores que tratam da temática das práticas pedagógicas. Na primeira parte é analisado o contexto da modalidade de ensino do PROEJA. Na segunda parte é discutida a abordagem pedagógica presente no PPP do curso técnico de nível médio objeto deste estudo e por fim as considerações finais.

2. CONTEXTUALIZANDO O PROEJA

A educação de jovens e adultos vem sendo um assunto ainda pouco explorado no meio acadêmico. O que antes da Constituição de 1988 era visto como programas meramente de alfabetização, visto que o índice de analfabetismo era bastante elevado, após a redemocratização do país, a educação de jovens e adultos bem como toda a educação básica tornou-se um direito de todos e obrigação do Estado em possibilitar condições para a efetiva consolidação desses significativos avanços (BRASIL, 2007).

Com isso, era preciso pensar numa política educacional de jovens e adultos que fosse muito além de simplesmente garantir a alfabetização, mas também que se preocupasse com uma formação completa, integral e que pudesse fazer uma “ligação” com o mundo do trabalho, cada vez mais fragmentado pelo cenário econômico neoliberal. Foi neste contexto que surgiu o PROEJA, inicialmente em 2005, mas que no ano seguinte foi aprimorado com a promulgação do Decreto 5.840, de 13 de julho de 2006, o transformando no Programa Nacional de Integração da Educação Profissional com a Educação Básica na Modalidade de Jovens e Adultos – PROEJA (BRASIL, 2007).

Após quase 15 anos desde sua criação, este programa ainda permanece vivo, resistindo aos eventuais “esquecimentos” por parte do poder público, mas que se mostrou uma poderosa ferramenta de política pública que pôde ao longo desses anos levar conhecimento, cidadania e dignidade a este público, de certa forma, marginalizado pelo sistema educacional. Importante salientar que boa parte dos estudantes do PROEJA são pessoas que estão retornando ao ambiente escolar, já que por diversos motivos não puderam obter êxito na idade correlata às séries da educação básica (BRASIL, 2005).

O público do PROEJA caracteriza-se por ser bastante heterogêneo, mas com algo em comum: a maioria, por ter abandonado os estudos ao se deparar com a competitividade do mercado de trabalho, vê-se “obrigada” a buscar qualificação para ter perspectivas profissionais melhores. Daí a importância do corpo docente e administrativo das escolas que irão atender a este tipo de público, compreender a realidade desses alunos, o que implica numa abordagem pedagógica “diferenciada” (BRASIL, 2005). O processo de ensino-aprendizagem neste contexto se dará dentro de um

pensamento emancipatório de inclusão, tendo o trabalho como princípio educativo; o direito ao trabalho como um valor estruturante da cidadania; a qualificação como uma política de inclusão social e um suporte indispensável do desenvolvimento sustentável, a associação entre a participação social e a pesquisa como elementos articulados, e na melhoria da base de informação sobre a relação trabalho-educação-desenvolvimento (BRASIL, 2005, p. 20-21).

Com isso, é preciso pensar além de uma educação “mercadológica”, voltada apenas para as exigências do mercado de trabalho. É fundamental buscar a formação de um sujeito crítico e reflexivo, capaz de entender seu papel ativo de cidadão. Para Paulo Freire (2003), a escola não deve ensinar apenas conteúdos vazios e sem significados, mas potencializar para que os sujeitos sejam criativos e construtores de sua própria história.

Portanto, pensar no ensino do PROEJA requer uma série de compreensão das especificidades deste público. O professor figura como um papel central neste processo, pois muitos ainda detém certa “resistência” em trabalhar com jovens e adultos, o que se configura muitas vezes numa abordagem que vai se construindo ao longo da caminhada. O PROEJA objetiva possibilitar uma nova experiência de aprender e ensinar na ótica de emancipar a mente e o coração dos jovens e adultos através de uma mediação dialógica, consciente e intencional de onde se quer chegar com o aluno (BRASIL, 2007). Nesta perspectiva:

mulheres e homens, somos os únicos seres que, social e historicamente, nos tornamos capazes de apreender. Por isso, somos os únicos em quem aprender é uma aventura criadora, algo, por isso mesmo, muito mais rico do que meramente repetir a lição dada. Aprender para nós é construir, reconstruir, constatar para mudar, o que não se faz sem abertura ao risco e à aventura do espírito (FREIRE, 1996, p. 28).

Contudo, refletir sobre uma mediação pedagógica coerente com o programa do PROEJA, torna-se uma ação importante, pois exigirá da figura docente e dos demais envolvidos no processo de ensino-aprendizagem atribuições específicas e relevantes no sentido de uma metodologia que considere a realidade deste público, caracterizada por adultos trabalhadores que estão retornando à vida escolar.

3. A ABORDAGEM PEDAGÓGICA NO CURSO TÉCNICO EM COMÉRCIO NA MODALIDADE DO PROEJA NO INSTITUTO FEDERAL DE EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO RIO GRANDE DO SUL (IFRS) –  CAMPUS SERTÃO

O processo de ensino-aprendizagem vem sendo estudado por diversos autores de diversas linhas de pensamento e concepções pedagógicas. Para Mikuzami (1992), os incontáveis posicionamentos adotados pelos estudiosos necessitam formar estruturas no processo de ensino e aprendizagem e nas inúmeras práticas educativas no espaço educacional, guiando o trabalho pedagógico de forma intencional e propositiva.

Uma das formas de identificar a abordagem pedagógica da escola é a partir da análise do seu Projeto Político Pedagógico (PPP), sendo este um documento norteador da organização e da prática escolar. Pontes (2014), reforça que nenhuma prática pedagógica pode ser realizada sem influência das teorias pedagógicas, ainda que o educador não tenha consciência em qual teoria sua prática está pautada.

Diante disso, buscou-se analisar o PPP do curso Técnico em Comércio na modalidade do PROEJA, ofertado pelo IFRS Campus Sertão com o objetivo de identificar qual a abordagem pedagógica presente nas concepções filosóficas de ensino deste curso.

O IFRS Campus Sertão oferece o curso Técnico em Comércio na modalidade PROEJA devido à grande demanda de jovens e adultos que não concluíram o ensino médio e buscam qualificação profissional nos municípios de Sertão e Coxilha, principalmente, localizados no norte do estado do Rio Grande do Sul. Um ponto importante diz respeito a um considerável número de estudantes indígenas que fazem parte deste curso, onde na sua maioria residem nas reservas vizinhas ao Campus. Este configura-se num importante dado, já que consolida as políticas de ações afirmativas, que busca a inclusão de comunidades indígenas e quilombolas ao ambiente escolar das quais o IFRS exerce um papel ativo e protagonista (BRASIL, 2012).

Conforme o PPP do curso, há uma oferta anual de 35 vagas no turno da noite. A carga horária total do curso é de 2.400 horas num período de 2 anos e meio (5 semestres). A matriz curricular está integrada entre a formação básica composta pelas disciplinas propedêuticas e a formação profissional composta pelas disciplinas específicas da área aplicadas ao Comércio (BRASIL, 2012).

Ao analisar o PPP do curso, pode-se constatar que a abordagem centrada na emancipação do sujeito, com uma visão crítica e libertadora da realidade, característica da abordagem sociocultural é a predominante no que diz respeito à filosofia do curso. O desafio de buscar uma formação integral, omnilateral, que consiga desenvolver todas as potencialidades do indivíduo, que rompa com uma visão fragmentada e que responda unicamente às demandas do mercado, configura-se como meta a ser alcançada (BRASIL, 2012).

Conforme Vygotsky (1991), a abordagem sociocultural está centrada no estudo do desenvolvimento humano enquanto um processo que se dá nas interações sociais. Essa abordagem propõe uma visão do desenvolvimento humano que destaca o seu caráter inseparável das atividades sociais e culturais.

A abordagem sociocultural enfatiza que a atividade humana é mediada e nela tem sido investigado o desenvolvimento humano dentro das práticas culturais dos grupos, que supõem o uso de diferentes formas de mediação. A partir desta orientação, entende-se que os mediadores – instrumentos, signos, práticas culturais – são carregados de significação cultural. Importante ressaltar que os mediadores são ao mesmo tempo utilizados, construídos e transformados pelo grupo cultural. Nas palavras de Vygotsky (1991): “a alteração provocada pelo homem sobre a natureza altera a própria natureza do homem” (RIBAS; MOURA, 2006, p. 130).

Já no Brasil, o pensador da abordagem sociocultural foi Paulo Freire. Diferente da pedagogia tradicional de sua época, datada do início dos anos 60, para Freire (1980), educar é um ato político, ou seja, educar vai muito além do que apenas transmitir informações fora de contexto, algo que ele chamou de “educação bancária”, mas a educação, para ele, é a principal ferramenta de emancipação social das classes mais desfavorecidas, as quais chamou de “oprimidos”, sendo o diálogo uma ação indispensável neste processo pedagógico.

O diálogo é o encontro entre os homens, mediatizados pelo mundo, para designá-lo. Se, ao dizer suas palavras, ao chamar ao mundo, os homens o transformam, o diálogo impõe-se como o caminho pelo qual os homens encontram seu significado enquanto homens, o diálogo é, pois, uma necessidade existencial (FREIRE, 1980, p. 42).

Conforme o PPP do curso (BRASIL, 2012, p. 10), “a essência do curso não está centrada na formação de um operário qualificado e moldado conforme as necessidades do mercado, alienado e subordinado, mas à formação integral de um sujeito histórico e social”. Com isso, busca-se despertar a consciência crítica do educando, levando em consideração as diferentes realidades envolvidas neste processo educativo, a fim de formar pessoas que possam ser agentes transformadores da sociedade.

Por fim, depreende-se que a abordagem sociocultural se configura como  concepção filosófica norteadora do curso Técnico em Comércio na modalidade do PROEJA, principalmente devido às especificidades deste público, caracterizado por processos anteriores de “exclusão” do ambiente escolar, devido, em boa parte, às condições socioeconômicas desfavoráveis a que estava submetido, mas que precisa retornar à escola, já que esse é um direito garantido pela Constituição.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A modalidade de educação de jovens e adultos do PROEJA constitui-se numa política pública de extrema importância para uma sociedade como a nossa, marcada pelos estigmas das desigualdades e exclusões sociais. Muitos avanços foram alcançados a partir da redemocratização e a “Constituição Cidadã” de 1988, como a garantia do acesso à educação básica como um direito a todos os brasileiros.

Porém muito ainda precisa ser feito, já que milhões de jovens não conseguem permanecer na escola e acabam desistindo por uma série de fatores, como auxiliar na composição da renda familiar, principalmente. Acontece que, muitos mais tarde acabam reconhecendo a necessidade de retornar ao ambiente escolar. Daí a importância deste programa, que precisa estar preparado para receber este perfil de educando, que possui suas particularidades que precisam ser compreendidas.

Por fim, respondendo à questão norteadora, pode-se concluir, ao analisar o PPP do curso Técnico em Comércio na Modalidade do PROEJA, que a abordagem pedagógica sociocultural se configura como base que norteia as ações educativas deste curso tão importante para toda a comunidade do município de Sertão e região. Contudo, ainda, pode-se considerar que a abordagem sociocultural, caracterizada pelo diálogo, inclusão e respeito às diversas realidades dos educandos, configura-se como uma mediação pedagógica coerente para se trabalhar com este público de jovens e adultos.

REFERÊNCIAS

BRASIL, Ministério da Educação. Saberes da Terra: Programa Nacional de Educação de Jovens e Adultos Integrada com Qualificação Social e Profissional para Agricultores (as) Familiares. Brasília: MEC, outubro de 2005.

______, Ministério da Educação. Projeto Pedagógico do Curso Técnico em Comércio – Modalidade PROEJA. IFRS – Campus Sertão. Diretoria de Ensino, 2012.

______, Ministério da Educação. Secretaria de Educação Profissional e Tecnológica. Documento Base: PROEJA – Programa Nacional de Integração da educação profissional com a Educação Básica na Modalidade de Educação de Jovens e Adultos. Brasília: MEC, agosto de 2007.

FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2003.

_____________. Educação como prática da liberdade. 10. ed. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1980.

_____________. Pedagogia da autonomia. Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra, 1996.

MIZUKAMI, M. G. N. Ensino: as abordagens do processo. São Paulo: E.P.U., 1992.

PONTES, E. C. O processo ensino-aprendizagem na perspectiva Histórico-Cultural. Governo do estado do Paraná. Secretaria de Educação do Paraná, Loanda PR, 2014.

RIBAS, Adriana Ferreira Paes; MOURA, Maria Lucia Seidl de. Abordagem Sociocultural: algumas vertentes e autores. Psicologia em Estudo, Maringá, v. 11, n. 1, p. 129-138, jan./abr. 2006

VYGOTSKY, L. S. A formação social da mente: o desenvolvimento dos processos psicológicos superiores. 4. ed. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

[1] Pós-Graduação Lato Sensu MBA em Gestão Pública – UNOPAR. Bacharel em Ciências Contábeis – Universidade Regional Integrada do Alto Uruguai e das Missões – URI Campus Erechim. ORCID: 0000-0002-3178-7622.

Enviado: Setembro, 2021.

Aprovado: Abril, 2022.

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