Prevalência de Lesões em Praticantes de Musculação: Uma Revisão da Literatura

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1996
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SANTOS, Moisés Alves [1], SANTOS, Iaggo Raphael David Dantas dos [2], RIBEIRO, Victória Silva Midlej [3]

SANTOS, Moisés Alves; et.al. Prevalência de Lesões em Praticantes de Musculação: Uma Revisão da Literatura. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 03, Vol. 03, pp. 238-244, Março de 2018. ISSN:2448-0959

INTRODUÇÃO

Embora estudos demonstrem a importância da atividade física na manutenção de um estilo de vida saudável, sua prática pode levar à ocorrência de lesões nos seus praticantes, ocasionando o afastamento da atividade física e laboral representando prejuízos econômicos importantes, além da necessidade de buscar atendimento especializado. (ROMBALDI et al, 2014).

Concomitante ao aumento dos praticantes de musculação, vem havendo também o aumento no número de pessoas lesionadas, o que tem chamado atenção dos pesquisadores, no sentido de descobrir os fatores que podem contribuir para isso (GRAVES; FRANKLIN, 2006).

De acordo com Mueller e Maluf (2002), lesão é qualquer alteração tecidual que resulte em desconforto ou até mesmo dor afetando vários tecidos do corpo. Os praticantes de musculação como em qualquer outra atividade podem sofrer lesão óssea, ligamentar, tendínea e cartilaginosa. As lesões podem vir acompanhada da dor músculo-esquelética que pode ser uma consequência conhecida do esforço repetitivo, do uso excessivo de grupamentos musculares, má postura durante execução de atividades diárias e fraqueza muscular. As lesões vêm acompanhadas de sintomas músculos-esqueléticos que podem se apresentar como fadiga, falta de resistência, fraqueza, tremores, sensações de peso, dor ou irritação dos membros ou regiões afetadas, formigamentos e dificuldade ao executar movimentos precisos (YENG et al, 2001).

Rombaldi et al., (2014) em seu estudo de base populacional mostrou que a musculação está entre uma das atividades mais lesivas praticadas no lazer, sendo a principal o futebol (19,4% e 54% respectivamente). Embora os benefícios para saúde e performance acerca da musculação sejam bem documentados, a prática desta modalidade não está isenta de riscos visto que um considerável número de lesões relacionadas a mesma tem sido relatado na literatura (KOLBER et al, 2014).Deste modo, é importante que sejam realizados estudos que analisem a ocorrência e as principais características das lesões que possam estar relacionadas à prática de musculação, para que assim, ações preventivas e de conscientização de seus praticantes possam ser realizadas com mais especificidade, gerando então resultados mais eficientes e duradouros (SOUZA, MOREIRA, CAMPOS, 2015).

Diante do quadro apresentado, foi realizada uma revisão para identificar a taxa de incidência de lesões, as lesões mais frequentes, região anatômica mais acometida e potenciais fatores de risco para lesões.

METODOLOGIA

Foi realizada uma revisão de literatura através de sites de busca de artigos científicos (PUBMED, SCIELO, Google Acadêmico e BIREME) utilizando os descritores: treinamento resistido, treinamento de força e lesões. Foram encontrados 16 artigos que atenderam os critérios de inclusão. Foram excluídos aqueles com datas anteriores à 2000.

RESULTADO E DISCUSSÃO

Na revisão do material foi encontrada uma taxa de incidência de lesões que variou de 40-60%. Para Faigenbaum e Myer (2209), as altas taxas de lesões podem ser explicadas pela realização incorreta de exercícios, progressão inadequada das cargas de treinamento, desequilíbrios musculares, nutrição inadequada, equipamentos inadequados e pela falta de um acompanhamento de um profissional qualificado corroborando com Murer (2007) que sugere que lesões no treinamento resistido ocorrem, em sua maioria, mediante o uso de carga excessiva, equipamento mal projetado e treinamento mal orientado.

As regiões anatômicas mais acometidas foram o joelho e ombro. O acometimento do ombro pode ser explicado pelo posicionamento inadequado deste em abdução e rotação externa durante à execução de alguns exercícios associado ao fato que, durante a prescrição, geralmente são priorizados os grandes músculos do tórax sendo esquecidos os importantes músculos estabilizadores da região escapular e manguito rotador (KOLBER et al, 2014).Quanto ao joelho, pode ser acometido pela execução errada dos exercícios associado à grandes sobrecargas e pouco repouso (ROLLA et al, 2004).Outra região com grandes acometimentos é a lombar conforme encontrado por De Souza e Júnior (2017). Amá postura ao executar o exercício prejudica a coluna vertebral, o que pode condicionar lesões nessa região também (MOREIRA, BOERY e BOERY, 2010). Já de acordo com Fleck e Kraemer (2017), ocorrências de lesões ou dores na região lombar podem estar associadas ao levantamento de cargas máximas e também podem estar relacionadas à forma e execução incorreta nos exercícios de agachamento ou levantamento terra corroborando com Siewe et al (2014).

A literatura mostra que idade, sexo, condição física do participante, assim como a especificidade da atividade esportiva pode contribuir para uma maior incidência e severidade dessas lesões (ROLLA et al, 2004). Windwood et al (2014) relata que alterações mecânicas e morfológicas ocorrem com a idade o que pode explicar uma taxa maior de lesões em praticantes de treinamento resistido mais velhos. No que diz respeito ao sexo, o sexo masculino é o mais exposto a essas complicações devido a quantidade de praticantes das modalidades serem efetivamente superior ao número de mulheres. Vários estudos epidemiológicos relataram que indivíduos do sexo masculino eram mais ativos no tempo de lazer e praticavam mais atividades físicas vigorosas quando comparados a seus pares. A maior quantidade de prática de atividade física e de intensidade vigorosa expõem os indivíduos do sexo masculino a maior risco de lesões (ROMBALDI et al, 2014).

As lesões que podem acometer os praticantes de musculação são:  lesões agudas que acontecem subitamente, sendo as entorses e as distensões as mais comuns, e as lesões crônicas que se desenvolvem em um longo período ou perduram por muito tempo, e estão relacionadas ao uso contínuo e excessivo das estruturas musculares, articulares e tendíneas. De acordo com Lavallee e Balam (2010), as lesões agudas não urgentes mais comuns são distensões musculares e entorses ligamentares com uma porcentagem de 46-60% das lesões em treinamento resistido. Quanto as lesões crônicas, as distensões musculares crônicas, bursites e tendinites são os exemplos mais comuns no treinamento de força com pesos. Segundo Siewe et al. (2014), treinamento de força pode ocasionar também avulsão de tendão, síndrome compartimental, lesão do manguito rotador, tendinopatias patelares, lesões e fraturas por estresse. De acordo com Safran, McKeag e Camp (2002), cerca de 30% a 50% de todas as lesões esportivas estão ligadas ao uso excessivo. A artrite é outra lesão comum e acomete as maiores articulações sendo relacionada a estresses repetitivos durante treinos e competição no decorrer dos anos ou até décadas (LAVALEE e BALAM, 2010). No entanto, a natureza específica de muitas lesões não é identificada. Evidências sugerem que lesões agudas e crônicas podem ser precipitadas por certos padrões de treinamento o que pode fazer com que tendências para tipos específicos de lesões resultantes do treinamento resistido sejam identificados e esforços preventivos possam ser realizados (KOLBER et al, 2010).

A ocorrência destas lesões na prática de atividades físicas é comum e a incidência das mesmas pode estar relacionada com diferentes fatores de risco. Existem, fatores intrínsecos congênitos, muitas vezes incontroláveis, e aqueles resultantes de fatores extrínsecos adquiridos por aspectos ambientais. Fatores como: repetição de determinadas posições, movimentos, o período e a sobrecarga de treinamento podem provocar um processo de adaptação orgânica que resultará em efeitos deletérios para a postura, com alto potencial de desequilíbrio muscular, que associados aos erros na técnica de execução dos movimentos podem aumentar a prevalência de lesões (COSTA; PALMA, 2005).

Apesar das evidências mostrarem altas taxas de lesões, Siewe et al (2014) relata em seu estudo que taxas de lesões estimadas em competições de levantamento de peso, strongman e bodybuilding, que são modalidades que se utilizam de treinamento resistido, são menores comparados a outros esportes (1 por 1.000 horas de treino). Já Simão (2004) afirma que os exercícios de musculação são extremamente seguros, com baixas taxas de lesão quando executados e acompanhados adequadamente, se comparado a outros esportes e atividades físicas. Dessa forma, quando bem orientada, com exercícios realizados de forma correta e bem prescritos, a prática do treinamento resistido ou de força é uma modalidade segura que traz inúmeros benefícios para seu praticante.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

As possíveis causas das lesões na musculação são o treino excessivo, uso impróprio de técnicas de treinamento ou a combinação de ambos. Os achados deste estudo sugerem que o tipo de treino, aumento no volume de treinamento, uso exacerbado de cargas e técnicas errôneas de treinamento, contribuem diretamente para o aumento do risco de lesões na musculação. Embora a natureza específica de muitas lesões não ser identificada, as evidências sugerem que lesões agudas e crônicas podem ser precipitadas por certos padrões de treinamento.

Diante do observado no presente estudo, percebe-se a importância de medidas preventivas que visem evitar a ocorrência e prevalência de sintomas músculo – esqueléticos nos praticantes de musculação, uma vez que esses podem comprometer não só a integridades física do indivíduo, mas também ocasionar seu afastamento do trabalho e diminuir sua qualidade de vida.

Assim, com o crescente incentivo à promoção da atividade física, se torna necessário outras investigações científicas e estudos sobre epidemiologia das lesões e sintomas músculo – esqueléticos bem como seus fatores de risco para que sejam desenvolvidas estratégias para sua prevenção.

REFERÊNCIAS

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[1] Graduando Educação Física Centro Universitário Claretiano (CEUCLA)

[2] Graduando Educação Física Faculdade de Tecnologia e Ciências (FTC)

[3] Professora Educação Física Faculdade de Educação Física FTC e CEUCLA

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