Infância, corpo e prática pedagógica do professor de educação física

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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/educacao-fisica/corpo-e-pratica
Infância, corpo e prática pedagógica do professor de educação física
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ARTIGO ORIGINAL

SILVA, Natalha Cristina Teixeira da [1], PINHEIRO, Welington da Costa [2], DENDASCK, Carla Viana [3], BAHIA, Mirleide Chaar [4], OLIVEIRA, Euzébio de [5], FERNANDES, Roseane da Silva Matos [6]

SILVA, Natalha Cristina Teixeira da. Et al. Infância, corpo e prática pedagógica do professor de educação física. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 03, Vol. 05, pp. 05-27. Março de 2019. ISSN: 2448-0959.

RESUMO

Este estudo tem por objetivo analisar a percepção de corpo por crianças em anos escolares. Caracteriza-se por ser uma pesquisa descritiva, de caráter qualitativo. Para a produção dos dados empíricos foram projetadas imagens da boneca Barbie (sete modelos com biotipos diversos), por meio de um datashow, no que individualmente, ao observar cada imagem, a criança era solicitada a responder as seguintes questões: 1) Qual é a boneca mais bonita? 2) Por quê essa é a boneca a mais bonita? 3) Você se parece fisicamente com essa boneca? Participaram do estudo quatorze alunas, entre 6 e 13 anos de idade, do Ensino Fundamental. A organização dos dados empíricos se deu pela Técnica da Análise de Conteúdo. À guisa de conclusão, foi possível constatar que há predominância para um padrão de corpo magro, definido, por assim dizer, até glamourizado, o que exige da prática pedagógica do professor de Educação Física problematizar que nem sempre o sujeito pode alcançar o corpo que é valorizado por uma sociedade que potencializa as relações humanas com as relações de consumo.

Palavras-chave: Infância, Corpo, Prática Pedagógica, Educação Física.

1. INTRODUÇÃO

A infância é o período de descobertas e de ampliação das experiências individuais, culturais, sociais e educativas, por meio da admissão da criança em ambientes distintos ao dos familiares e, nesse contexto, o corpo é protagonista de novas percepções. Cada sociedade o compreende de maneira distinta. Por exemplo, os padrões de beleza são espelhos culturais que valem de referência para os sujeitos. A história mostra que o corpo ganha outro reconhecimento, quando o envelhecimento deixou de ser aceito como processo natural da vida, para tornar-se um problema estético – só é velho quem quer!

Atualmente as pessoas investem cada vez mais em si, sendo midiaticamente familiarizadas com cosméticos, remédios, cirurgias, dietas, estilos de vida, suplementos, em um aparato preventivo ao retardamento do envelhecimento, já mais visto em outros tempos. Eis que ser visto, é desejo social comum, ante o crescimento das mídias virtuais. Só que aparecer prescinde de perfis corpóreos ajustados a um “tipo” socialmente aceito – corpo magro, definido.

Este fenômeno ocorre, segundo Silva e Souza (2017), porque o corpo contemporâneo é valorizado pela sua aparência devido ao fato de estarmos vivendo uma verdadeira idolatria e culto ao corpo. O padrão de beleza ideal proposto a todas as mulheres é determinado e influenciado pela sociedade, pelos meios de comunicação, bem como pelos fatores culturais. A mulher bela, atualmente, é vista como aquela com corpo musculoso, definido ou magro. Esse corpo é arquitetado por meio de academias, intervenções cirúrgicas, tratamentos estéticos e dietas “milagrosas” com intuito de se obter o corpo perfeito e, assim, ser atrativa sobretudo perante o olhar masculino.

Há um discurso circulante que faz acreditar que uma boa aparência e uma roupa da moda ou de determinada grife são suficientes para se obter o prazer e o status necessários para se manter no topo da dinâmica social e tais concepções não ficam alheias às crianças, pois quanto mais sondam as coisas do mundo, mais são capazes de pensar e compreender a complexidade que envolve a vida em sociedade.

Em se tratando de compreender o lugar do corpo na escola há que compreender o tecido complexo das relações sociais e culturais que “determinam as formas de conceber tanto o corpo da criança quanto as diretivas que determinam as formas de praticar a ação pedagógica sobre a criança e seu corpo” (PROBST, 2012, p.1).

Afinal, a escola desde cedo disciplina o corpo para o tempo e espaço certos, para uma rotina a qual segue uma ordem. Para Milstein; Mendes (2010, p.18):

[…] existe um constante e intenso trabalho em todos e em cada um dos corpos; existe ação e esforço para transformar os corpos de acordo com formas concretas quanto as dimensões, diferenças de gênero e idade, gestos, modos, comportamentos, vestuário, momentos de descanso e atividade etc.

A criança vem à escola com esse repertório. Além de que o corpo está em constante movimento – sentindo, apalpando, tocando, vibrando… numa eterna descoberta do mundo e conforme o tempo passa, o ambiente escolar se torna estreito para acomodar corpos cada vez mais inquietos, principalmente quando se trata da criança. Por isso, tantas vezes, a sala de aula torna-se pequena e desinteressante para a explosão desse público (ARROYO, 2011).

Assim, viver sobre a ditadura de padrões que em nada (ou quase nada) se assemelham ao corpo real deve ser fonte de problematização nas aulas de Educação Física, uma vez que este entra em cena na relação afetiva e didático-pedagógica estabelecida entre ensinante e aprendentes.

Diante desse contexto definimos como objetivo geral: analisar a percepção de corpo por crianças em anos escolares e como objetivos específicos: relacionar a percepção de corpo por crianças em anos escolares com os padrões de beleza contemporâneos e descrever aspectos metodológicos necessários à prática pedagógica de professores de Educação Física na percepção de corpo por crianças em anos escolares.

De acordo com Hugaldes et al (2019) falar sobre a Educação Física é importante pois foi incorporada a partir da criação do PCN, uma vez que antes não era uma matéria obrigatória. Com esse documento, a área passou a ser encarada como um processo fundamental para a formação do cidadão, sobretudo na infância. Partiu-se de alguns princípios importantes para se pensar a atuação da Educação Física neste processo de formação identitária do cidadão. Podem ser divididos em três esferas: a primeira trata-se do princípio da inclusão; a segunda diz respeito as dimensões dos conteúdos a serem ensinados e a terceira as temáticas que são inerentes à essência humana e que, portanto, não podem ser deixadas de fora da prática docente.

Esta pesquisa é qualitativa, descritiva e a produção dos dados empíricos ocorreu em uma Escola Municipal do município de Castanhal/PA. Diante do aceite institucional, definimos com a gestão os encaminhamentos necessários: a turma que teria o perfil dos sujeitos: meninas cursando entre os 1° e 3° anos do Ensino Fundamental, tendo em vista a idade convencional para esses anos escolares, supostamente em condições de expor argumentos durante a gravação e que os responsáveis legais autorizassem a participação. A escolha por meninas se deu por conta da grande exposição dos corpos femininos, atualmente, nas mídias sociais.

Na turma indicada pela gestão, mantivemos contato com a professora titular e de Educação Física para organizarmos a dinâmica do trabalho, no que definimos dia, horário e espaço para o contato com as crianças. Encaminhamos, por meio da professora, a cada responsável, o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido para autorização de participação da aluna no estudo.

Em uma sala eram projetadas imagens da boneca Barbie (sete modelos com biotipos diversos) por meio de um datashow. Individualmente, ao observar cada imagem, a criança era solicitada a responder as seguintes questões: 1) Qual é a boneca mais bonita? 2) Por quê essa é a boneca a mais bonita? 3) Você se parece fisicamente com essa boneca?

As respostas foram gravadas em aparelho celular e após a saída de cada criança da sala, era feito o registro de suas características físicas. A opção pela Barbie se deu por ser uma das mais antigas bonecas no mercado brasileiro e com recordes gigantescos de venda e licenciamento da imagem em produtos destinados ao público infantil[7]. Ao todo participaram como sujeitos quatorze alunas.

Quadro I – Sujeitos da Pesquisa

NOMES SÉRIES IDADES
Maria Antônia 1° ano 6 anos
Maria Inez 1° ano 6 anos
Maria Paula 1° ano 6 anos
Maria Augusta 1° ano 6 anos
Maria Eduarda 1° ano 6 anos
Maria Luiza 1° ano 6 anos
Maria Amelia 3° ano 8 anos
Maria Beatriz 3° ano 8 anos
Maria Clara 3° ano 13 anos
Maria Liz 3° ano 9 anos
Maria Laura 3° ano 11 anos
Maria Pia 3° ano 8 anos
Maria Sofia 3° ano 8 anos
Maria Madalena 3° ano 9 anos

Fonte: Dados produzidos na pesquisa de campo.

A organização dos dados empíricos se deu pela técnica de Análise de Conteúdo. O critério de opção como unidade de análise foi o temático (BARDIN, 1977), das informações a partir dos critérios de recorrências e de singularidades das falas, que nesse cruzamento originaram as categorias, que constituíram a base para nossas análises.

2. AS BONECAS E SEUS BIOTIPOS

A Mattel, fabricante da Barbie, anunciou[8] ao final do ano de 2015, que disponibilizaria no mercado a partir do ano de 2016, três biotipos da boneca. As Barbies altas, longilíneas e sempre no salto[9] continuam a existir, mas ganham outra edição – a petite, como a empresa a nomeou. São de estatura baixa, com curvas acentuadas e panturrilhas definidas. Desde 1959, ano de sua criação, essa é a primeira mudança significativa no corpo da boneca[10]. As características descritas para cada modelo a seguir, não foram apresentadas às crianças no encontro para a produção de dados, servem exclusivamente para elucidar ao leitor o biotipo de cada uma.

Barbie 1

Pele branca, magra, estatura baixa, olhos castanhos, cabelo lilás e curto, roupa casual e calça botas sem salto.

Barbie 2

Pele branca, magra, olhos castanhos, oriental, cabelo liso e escuro, roupa casual, calça sapatilha.

Barbie 3

Pele negra, magra, olhos castanhos, cabelo escuro e cacheado, roupa casual e calça sandália alta.

Barbie 4

Pele clara, magra, olhos castanhos, cabelo loiro e curto, olhos castanhos, roupa casual e calça botas sem salto.

Barbie 5

Pele clara, corpo com mais curvas, olhos castanhos, cabelo escuro, ondulado e longo, roupa casual e calça sapato baixo.

Barbie 6

https://static.bolsademulher.com/sites/default/files/barbie-alta4.jpg

Pele morena, magra, olhos castanhos, cabelo ruivo, ondulado e curto, roupa casual e calça bota de salto baixo.

Barbie 7

https://barbiegirlcollectible.files.wordpress.com/2013/11/bcp89_c_14_m.png

Pele branca, corpo longilíneo, olhos azuis, cabelo loiro, longo e ondulado, roupa social e acessórios requintados.

3. A MAIS BONITA FOI… A BRANCA, DE CORPO LONGILÍNEO, DE OLHOS AZUIS, DE CABELO LOIRO, LONGO E ONDULADO

Quando solicitado às crianças que indicassem a boneca mais bonita, assim foi o resultado:

Quadro II – Qual a boneca mais bonita?

Cinco crianças elegeram a boneca 7 https://barbiegirlcollectible.files.wordpress.com/2013/11/bcp89_c_14_m.png
Três crianças elegeram a boneca 5
Duas crianças elegeram a boneca 1
Duas crianças elegeram a boneca 2
Uma criança elegeu a boneca 4
Uma criança elegeu a boneca 3

Fonte: Dados produzidos na pesquisa de campo.

A boneca 6 não foi escolhida. Houve maior indicação da Barbie 7, que reflete a preferência da maioria, mas não podemos desconsiderar a boneca 5, como a segunda mais votada, uma vez que fisicamente é o oposto da primeira colocada. Pode-nos parecer tal resultado como uma quebra de hegemonia do corpo curvilíneo, que não traduz o perfil de todas as mulheres.

As bonecas 1 e 2 receberam votos; são brancas e uma é de traços orientais. Uma criança elegeu a boneca 3, uma negra, mas em compensação a Barbie 6 também negra, não foi eleita. Ou seja, existiam duas bonecas com características físicas similares, mas apenas uma conseguiu uma indicação, o que pode refletir o olhar infantil para um conceito beleza que não vê na raça negra seu referencial.

A primeira amiga negra da Barbie foi Christie, criada em 1968 (STEINBERG, 2001), outras amigas ao longo da sua história ainda foram produzidas, contudo apresentam as mesmas características da versão branca e trazem no vestuário a marca da vida rica e perfeita, com roupas e acessórios variados, o que não traduz a condição dos negros na sociedade brasileira, por exemplo.

Lisboa et al (2015, p.96) contribuem para o debate quando constatam que:

ao fugir da visão naturalizada do brinquedo como atividade inerente ao contexto infantil, identificamos que esses produtos são dotados por um sistema de significações e normas sociais que, também reproduzidas diariamente na tela da TV, moldam as relações de gênero na infância. Assim, a menina é estimulada a ser uma “princesa”, empenhando-se a seguir os padrões de beleza que ditam uma feminilidade delicada, frágil, dócil e submetida aos procedimentos estéticos.

Tanto que até as rainhas e as princesas dos contos de fada e da animação infantil (Branca de Neve, Cinderela, Bela, Elsa, Ana…), em maioria, pertencem a esse biotipo predominante. Daí a dificuldade de ver a negra como bela.

Quando indagadas sobre o porquê a boneca 7 ser a mais bonita, as crianças destacaram a indumentária e o cabelo para essa opção: “Gosto do vestido, do brinco e do cabelo” (MARIA LIZ); “Porque sabe se vestir e gosto do rosto” (MARIA SOFIA) – valores impressos aí do bem vestir e de um padrão estético feminino.

Sobre o porquê da indicação da boneca 5, segunda mais votada como a mais bonita, os argumentos foram similares ao da mais indicada: “Porque gostei do vestido, do cabelo e do sapato” (MARIA ANTÔNIA); “Por causa do cabelo e do vestido” (MARIA ANTÔNIA).

A única criança (MARIA EDUARDA) que elegeu a boneca 3, a negra como a mais bonita, assim ponderou: “Gostei muito do vestido e do brinco”. Ou seja, não foi a cor da pele ou o cabelo que a colocaram na condição da mais bonita, mas o que vestia. Para Cechin; Silva (2012, p.19):

As bonecas são objetos de identificação e representação da normalidade, retrato de uma determinada época e lugar através de marcas sociais que estão imersas em relações de poder. Tais marcas revestem-se de ricos significados culturais do ideal de beleza, de corpo e de sujeito. Ao elencar determinadas características como “as melhores”, os corpos dos bonecos e bonecas fabricam modos de subjetivação que produzem “verdades” sobre como deve ser o corpo, o comportamento e as atitudes normais.

Isso fica evidente nas falas das alunas ao relatarem que elegeram a boneca pelos traços culturais de uma feminilidade padrão, reproduzidas nas bonecas que conduz meninas à certas valorizações – vestimenta, acessórios, sapatos, cabelo, o rosto, entre outros atributos.

As demais bonecas eleitas também foram indicadas pelos motivos que referendaram a opção das mais votadas: o cabelo, a roupa e os acessórios.

4. PAREÇO OU NÃO COM ALGUMA BONECA? SIM, ME ACHO PARECIDA… MAIS OU MENOS

As mídias têm grande influência no meio infantil. Contudo não apresenta uma reprodução fiel do mundo real, mas de uma imagem cultural que lhe é particularmente destinada.

Antes mesmo da manipulação lúdica, descobrimos objetos culturais e sociais portadores de significações. Portanto, manipular brinquedos remete, entre outras coisas, manipular significações culturais originadas numa determinada sociedade (SANTOS, 2003 apud BROUGÉRE, 2006, p.43).

Por isso, quando a criança sujeito desse estudo elege uma boneca como a mais bonita, descrevendo o porquê dessa escolha, aí imprime valores que estão internalizados, valorizados pela sociedade da qual faz parte. Não é uma escolha aleatória.

Perguntamos, também, às crianças se pareciam fisicamente com a boneca por elas indicadas como a mais bonita. Nessa etapa, foram registradas as características físicas de cada aluna para compará-las com esse modelo. Vejam o que cada um respondeu:

Quadro III – Você parece fisicamente com a boneca?

CRIANÇAS BONECA INDICADA COMO A MAIS BONITA PAREÇO OU NÃO COM A BONECA? CARACTERÍSTICAS DA ALUNA
Aline 5

Sim Morena, cabelos cacheados e escuro, olhos castanhos
Rafaela 4

Sim Morena, cabelos lisos e escuro, olhos castanhos
Paula 1

Sim Negra, cabelos escuros e encaracolados, olhos castanhos
Ester 2

Sim Morena, cabelos cacheados e escuros, olhos castanhos
Surama 3

Sim Morena, cabelos escuros e ondulados, olhos castanhos
Ingrid 7

https://barbiegirlcollectible.files.wordpress.com/2013/11/bcp89_c_14_m.png

Não Morena, cabelos cacheados, olhos castanhos
Patrícia 7

https://barbiegirlcollectible.files.wordpress.com/2013/11/bcp89_c_14_m.png

Não Morena, cabelos escuros e cacheado, olhos castanhos
Emily 1

Sim Morena, cabelos castanhos claro, olhos castanhos
Érica 2

Sim Morena, cabelo liso e castanho, olhos castanhos
Mariana 7

https://barbiegirlcollectible.files.wordpress.com/2013/11/bcp89_c_14_m.png

Mais ou menos Negra, cabelos crespos e escuros, olhos castanhos
Gisele 5

Sim Morena, cabelo cacheado, olhos castanhos
Eduarda 7

https://barbiegirlcollectible.files.wordpress.com/2013/11/bcp89_c_14_m.png

Não Morena, cabelo castanho e ondulado, olhos castanhos
Edilene 7

https://barbiegirlcollectible.files.wordpress.com/2013/11/bcp89_c_14_m.png

Não Morena, cabelo escuro e ondulado, olhos castanhos
Iana 5

Mais ou menos Morena, cabelo castanho e cacheado, olhos castanhos

Fonte: Dados produzidos na pesquisa de campo.

Pelas características físicas das 14 entrevistadas, apenas 5 delas têm a aparência física igual à boneca eleita. Ao afirmar que parece com uma determinada Barbie, considerada por si a mais bonita e fisicamente ser diferente dela é um dado preocupante: será que essa criança se considera feia com suas características próprias? Qual conceito de beleza assume como referência?

Apesar dos movimentos de resistências sociais que defendem uma educação para a aceitação pessoal, assumir a sua naturalidade e a diversidade existente, ainda é evidente o predomínio por um padrão de beleza hegemônico, o que compõe diretamente sua visão de corpo (ADAMI et al, 2005).

Embora outras bonecas tenham sido apresentadas com diferentes biotipos, na pesquisa ainda prevaleceu a Barbie clássica (loira, magra, elegante…) com toda a sua pseudo beleza e perfeição. A elaboração de corpo por uma criança, em uma imagem fabricada socialmente, pode trazer sérios problemas para a formação moral da pessoa, a vida afetiva e psíquica (podendo, por exemplo, ter problemas de distúrbios alimentares).

Segundo Girardello; Munarim (2012, p.340), sobre o padrão da sociedade contemporânea, afirmam que o bonito é: “O cabelo liso, o corpo alto e magro, ter silicone nos seios, a pele clara, o dinheiro para manter as roupas e acessórios de marca, carros da moda e, acima de tudo, ter popularidade […]”.

Em tais condições, a percepção da criança no mundo acha-se dirigido por padrões que nem sempre são reais, que tantas vezes trazem sofrimento ou a busca por mudanças físicas, na manipulação do corpo para alcançar àquilo que falta (WIGGERS, 2002 apud LE BRETON, 2010, p.304).

5. INFÂNCIA, CORPO E A PRÁTICA PEDAGÓGICA DO PROFESSOR DE EDUCAÇÃO FÍSICA

A prática pedagógica do professor de Educação Física tem forte papel formador na elaboração do que seja o corpo pela criança, por meio de experiências lúdicas que busquem valorizá-lo como é.

Segundo Probst (2012, p.1):

no que se refere à educação escolar pressupõe-se que o exercício pedagógico implica, inicialmente, na realização de um conjunto de ações sobre o corpo da criança, sendo este trabalho a base e a condição para o desenvolvimento das demais atividades relacionadas à aprendizagem.

O que seria maneira sutil de produzir subjetividades ou de encaixar o ‘ser criança’ nas rotinas e metodologias recomendadas na escola. Ressaltam ainda que, não basta implementar concepções mais críticas e criativas em relação ao corpo em movimento (lúdico, tempo e espaço) nesse exercício, mas pensar no processo ensino-aprendizagem como processo de produção cultural e aprendizagem social, política e ética.

Nas atividades corporais, por exemplo, como o jogo e a brincadeira, a criança exercita o conviver com o outro, a consciência da regra, o respeito ao diferente, o espírito ecológico, aprende limites e rompe com estes, inter-relacionam-se, criam e recriam, enfim vivem, pois, o movimento consciente torna rico o ensino e possibilita a aprendizagem significativa partindo da vivencia concreta (JUNIOR; VASCONCELOS, 2004, p.89).

Dessa realidade, surgem as experiências que implicam naquilo no que me vejo – belo, feio, igual, diferente, alto, baixo, gordo, magro, extrovertido, introvertido.

Afinal, muitos são os dispositivos sociais que massificam a ideia de corpo sob um padrão que nem sempre corresponde à realidade e que estão intimamente tecidas nas “normas, valores e crenças de uma coletividade” (BELLONI, 2009, p.97). Há um modo social de ser corpo feminino ou masculino manifesto pela maneira de como se deve caminhar, falar, vestir, olhar, portar entre outras condutas, que devem ser aprendidas.

O professor de Educação Física deve problematizar esse repertório, que muitas vezes já vem com a criança, desconstruindo conceitos que geralmente sustentam condutas racistas, homofóbicas, de intolerância às diferenças e investir, também, em atividades nas quais a criança expresse suas percepções, emoções e reconheça e valorize o seu corpo assim como de seus pares.

Não determinar se a beleza vem deste ou daquele modelo ou padrão de beleza, mas valorizar a beleza da própria criança, é mais indicado na escola. O elogio deve fazer parte de nosso discurso, mas ele será ínfimo se não vier acompanhado de uma ação verdadeira, real. Talvez os professores não elogiem por não saberem quanto isto significa na formação da auto-imagem. Ser reconhecido e aceito deve ser válido para todas as crianças (RANGEL, 2006, p.10).

Tal opção para a sua prática pedagógica vai requerer do professor estudos sobre o papel da criança nas sociedades contemporâneas globalizadas e tecnológicas e como as mídias eletrônicas atuam junto a esse público.

[…] professores necessitam redirecionar sua atuação, valorizando a corporeidade, o subjetivismo de cada aluno, o movimento construído por esses, e não a reprodução de modelos pré-estabelecidos (JUNIOR; VASCONCELOS, 2004, p.91).

Assim, a criança pode forjar uma concepção real do que é ser corpo, ser criança no mundo refutando “a felicidade encarnada na mercadoria e prometida pela publicidade (BELLONI, 2009, p.35)”, que em nada representa a expressão de vida necessária.

Durante as aulas de Educação Física, tantas vezes, ficam evidentes as diferenças corporais entre meninos e meninas, como produto decorrente das normas e transformações ao que os corpos são submetidos na sociedade. Soares (2001, p.109) ressalta que:

o corpo é a inscrição que se move e cada gesto aprendido e internalizado revela trechos da história da sociedade a que pertence. Sua materialidade expõe códigos, práticas, instrumentos, repressões e liberdade. É sempre submetido às normas que o transformam, assim, em texto a ser lido, em quadro vivo que revela regras e costumes engendrado por uma ordem social.

Os profissionais da área podem desmistificar a ditadura da estética corporal por meio da informação. A busca pelo corpo (dito) perfeito e a super exposição do corpo feminino não podem ser naturalizadas em nossa sociedade. Ter essa compreensão é necessário aos professores de Educação Física para que não se tornem mais um agente reforçador desse ideal propalado midiaticamente (LEITZKE et al, 2014).

É pela prática pedagógica, elaborada e refletida no seu potencial de alcance junto à criança que é viável construir conduta de aceitação às diversidades corporais, étnicas, raciais, entre outras.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Pelos depoimentos manifestos e a correlação com a escolha da boneca mais bonita, fica evidente o quanto o fator cultural compõe a maneira da criança entender o que seja bonito. Realidade preocupante se considerarmos que é sujeito em formação, com pouca experiência de vida, para lançar a crítica sobre àquilo que vê ou escuta nos ambientes sociais que circula ou nas mídias que faz uso.

Afinal, tentar corresponder a um padrão estético é negar ao corpo ser o que lhe é possível, independente de corresponder a um ‘tipo’, que pode reproduzir estereotipias ou preconceitos envolvendo gênero, etnia, raça, entre outros. Além do que o investimento midiático coloca o corpo no lugar do consumo – o que você não dispõe pode comprar, pode modificar. Há um glamour peculiar, midiático, de ser corpo.

Basta nos ater às respostas infantis desse estudo – a Barbie mais bela para a maioria é a de pele branca, corpo longilíneo, olhos azuis, cabelo loiro, longo e ondulado, roupa social e acessórios requintados (boneca 7), embora a Barbie 5, pele clara, corpo com mais curvas, olhos castanhos, cabelo escuro, ondulado e longo, roupa casual e calça sapato baixo, tenha sido indicada como referência de beleza.

Isso nos indica que outros biotipos conseguem romper com essa cultura da perfeição, uma vez que nem sempre se pode alcançar o que é valorizado por uma sociedade que potencializa as relações humanas com as relações de consumo.

Cabe à escola, no seu currículo conduzir o sujeito por meio de práticas pedagógicas que valorizem a auto aceitação, a estar bem consigo e com seu corpo, aceitando seus limites e descobrindo que ser corpo é priorizar o singular da vida e não o que é massificado como ideal.

Corresponder a um padrão social para ser a menina/mulher bonita é um jogo perigoso, porque pode instalar no sujeito uma imagem de corpo que nenhuma lente consegue corrigir. Muitos são os desafios na concorrência com os discursos midiáticos, principalmente entre as crianças que ainda pouco conhecem das manobras do que o culto ao corpo pode produzir, por exemplo.

REFERÊNCIAS

ADAMI, F.; FERNANDES, T.; FRAINER, D.; OLIVEIRA, F. Aspectos da construção e desenvolvimento da imagem corporal e implicações na Educação Física. Revista Digital – Buenos Aires – Ano 10 – N° 83 – abril de 2005. Disponível em: http://www.efdeportes.com. Acesso em: 13 de dezembro de 2015.

ARROYO, M. G. Imagens quebradas: trajetórias e tempos de alunos e mestres. 6. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2011.

BARDIN, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 1977.

BROUGÉRE, G. A criança e a Cultura lúdica. In: KISHIMOTO, T. M. (Org.). O brincar e suas teorias. São Paulo: Pioneira Editora, 1998.

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GIRARDELLO, G. E. P.; MUNARIM, I. Crianças, mídias e cultura de movimento: (Des)caminhos para pensar o corpo na infância. ARROYO, M. G.; SILVA, M. R. (Org.). Corpo-infância. Exercícios tensos de ser criança. Por outras pedagogias dos corpos. Petrópolis, RJ: Vozes, 2012.

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STEINBERG, S. R. A mimada que tem tudo. In: STEINBERG, S. R. KINCHELOE, J. L. Cultura Infantil: a construção corporativa da infância. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2004.

7. Barbie é a maior marca da Mattel, com vendas anuais estimadas em mais de US$ 1 bilhão – cerca de 15% do total da receita da empresa, desde 1959 no mercado, foram vendidas em torno de 1 bilhão de bonecas no mundo todo. Ícone da cultura pop mundial, já teve mais de 180 profissões, de professora a astronauta e presidente dos Estados Unidos. Com um público alvo de crianças a partir dos 3 anos de idade até adultos (http://www.bbc.com, 2015).

8. Informação postada no Instagram da Barbie (https://www.instagram.com/barbie/).

9. Expressão para quem calça sapato alto.

10. Site da Folha de São Paulo (https://www.folha.uol.com.br/2015).

[1] Graduada em Educação Física. Professora da Rede Municipal de Maracanã/PA.

[2] Dr. em Educação. Docente e Pesquisador da Faculdade de Educação Física/UFPA.

[3] Dra. em Psicanálise Clínica: Pesquisadora do Centro de Pesquisa e estudos avançados -CEPA/ São Paulo.

[4] Dra. em Ciência: Desenvolvimento Sócioambiental. Docente e Pesquisadora do Núcleo de Autos Estudos Amazônicos da Universidade Federal do Pará – NAEA/UFPA.

[5] Dr. em Doenças Tropicais. Docente e Pesquisador do Instituto de Ciências Biológicas da Universidade Federal do Pará – ICB/UFPA.

[6] Dra. em Educação. Docente e Pesquisadora do Instituto de Ciências da Saúde da Universidade Federal do Pará – ICS/UFPA.

Enviado: Fevereiro, 2019.

Aprovado: Março, 2019.

Teóloga, Doutora em Psicanálise Clínica. Atua há 15 anos com Metodologia Científica ( Método de Pesquisa) na Orientação de Produção Científica de Mestrandos e Doutorandos. Especialista em Pesquisas de Mercado e Pesquisas voltadas a área da Saúde.

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