O Papel do Assistente Social no Enfrentamento das Consequências do Uso de Drogas nas Relações Familiares

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O Papel do Assistente Social no Enfrentamento das Consequências do Uso de Drogas nas Relações Familiares
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BARACHO, Laise Aparecida Nascimento [1]

BARACHO, Laise Aparecida Nascimento. O Papel do Assistente Social no Enfrentamento das Consequências do Uso de Drogas nas Relações Familiares. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 01, Vol. 04, pp. 160-173, Janeiro de 2018. ISSN: 2448-0959

RESUMO

Nas últimas décadas muitas foram as transformações ocorridas nos mais diversos setores da sociedade. Transformações estas, que inúmeras vezes resultaram em necessidades de adaptação e reaprendizado, causando incertezas e angústias para os indivíduos. Diante disto, as pessoas e suas organizações familiares também sofreram os efeitos de tais transformações, indo desde os rearranjos familiares até a dependência química. Dessa forma, muitos indivíduos e famílias estão sofrendo os catastróficos efeitos do uso de drogas, o que tem ocasionado enfraquecimento dos vínculos familiares. Assim, neste trabalho de pesquisa busca-se dialogar sobre os impactos desta nova realidade sobre a família e qual o papel do Assistente Social no enfrentamento das consequências do uso e abuso de drogas para as relações familiares.

Palavras-Chave: Assistente Social, Drogas, Relacionamento Familiar.

1. INTRODUÇÃO

O consumo de drogas lícitas (álcool, tabaco, etc.) e ilícitas (maconha, cocaína, crack, etc.) é cada vez maior na sociedade brasileira. Sabe-se que o contato do ser humano com essas drogas tem ocorrido cada vez mais cedo. Crianças e adolescente estão conhecendo essas drogas em idade escolar, e em muitos casos na própria escola, pois em muitas redes de ensino, principalmente nas grandes metrópoles, o uso de entorpecentes está sendo banalizado.

As drogas estão presentes em praticamente todos os meios sociais, há muito tempo deixou de ser sinônimo de vulnerabilidade financeira, pois atinge hoje a todas as classes. Assim se constitui como uma questão global que tem crescido em grandes proporções e desencadeado inúmeros problemas de ordem social, os quais atingem toda a sociedade direta e indiretamente, e principalmente as famílias e o relacionamento entre pais e filhos.

No presente projeto de pesquisa busca-se dialogar sobre a representação social que as drogas lícitas e ilícitas têm em nossa sociedade. Também serão abordadas algumas questões que visam explicar o constante crescimento de dependentes químicos no Brasil, não só nas grandes metrópoles, mas também nas regiões interioranas do nosso País. Pois a impressão que se tem na sociedade contemporânea é que consumir drogas tem se tornado um “estilo de vida”, porém os resultados dessa prática trazem graves consequências.

Nessa perspectiva iniciaremos uma reflexão a respeito do papel da família nas questões inerentes à resolução dessa problemática, buscando identificar a ação dos pais para contribuir para o enfrentamento dos problemas ocasionados pelo uso e dependência de drogas dentro de seus lares e pelos próprios filhos, a partir de uma reflexão crítica da realidade social. Ao mesmo tempo abordaremos os fatores históricos que contribuíram e ainda contribuem para esse fenômeno.

Sabe-se que as consequências emocionais e afetivas causadas pelo uso e dependência de drogas são inúmeras, levando em consideração que este fenômeno causa distúrbios familiares, propagação da violência, inclusive da violência doméstica, e evasão escolar, pois muitos alunos abandonam a escola para usar drogas. Então se busca aqui evidenciar o papel fundamental da família nas questões afetivas e emocionais do dependente de entorpecentes.

A mudança de comportamento no usuário de drogas provoca profunda devastação na estrutura familiar. Isso porque com a frequência do uso da droga a pessoa passa a não ter sensações prazerosas em aspectos da vida, como convívio com parentes, com a esposa, filhos, mãe, pai. Assim a dinâmica familiar é fortemente afetada por esse comportamento, pois o indivíduo deixa de participar dos acontecimentos familiares. Na relação entre um casal, por exemplo, a cumplicidade deixa de existir, pois a parte dependente da droga torna-se alheia aos assuntos em comum, passa a ser inconstante, assim a droga passa a está no centro de suas atenções.

De acordo com a psicoterapeuta familiar Eroy Silva, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o uso abusivo do crack está associado ao isolamento, perda ou afastamento do trabalho, estreitamento do repertório social e problemas familiares como separações conjugais, deterioração da convivência e isolamento. “O usuário se afasta do círculo familiar e dos amigos e passa a maior parte do tempo sozinho consumindo a droga ou com pessoas que também fazem o uso. As relações são caracterizadas mais pelo consumo coletivo da droga do que por vínculos afetivos”, afirma.

A família é o principal e primeiro alicerce do ser humano, por essa razão, mesmo estando fragilizada estruturalmente deve apoiar e buscar soluções preventivas e paliativas para os problemas decorrentes do uso de drogas na vida do dependente. È na família que o usuário deve encontrar auxílio para combater a dependência, mesmo contra a sua vontade, levando em consideração que um dependente químico não tem controle sobre si, pois seus desejos e ações estão atrelados ao vício da droga.

De acordo com Albiazzete (apud Ponciano e Feres Carneiro, 2003) ainda há, entretanto, uma ideia de família determinada por valores, os quais pautam as relações, como: o sentimento de amor, a realização pessoal na convivência com o outro significativo, e por consequência a formação da identidade humana por meio da filiação e da transmissão intergeracional”.

Assim a família, baseando-se nos valores fundamentais da estrutura familiar, é quem deve apoiar o dependente de drogas, levando-o a buscar tratamento específico para esta doença. Sabemos que a sociedade marginaliza o dependente químico, é possível observar que a dependência é caracterizada pela população como crime, má conduta, enfim para a população o dependente químico em nada se difere de um assaltante, traficante ou assassino. A dependência ainda não é encarada como uma doença que precisa ser tratada para evitar problemas futuros, inclusive a morte.

Dessa forma, percebe-se que a drogadição é uma questão social que está tomando proporções cada vez maiores. A dependência química causa problemas que atingem não só a família do usuário, mas também a sociedade como um todo, sendo assim o Serviço Social, através da figura do Assistente Social, deve intervir nesse contexto visando adotar ações que eliminem ou diminuam as fortes consequências desse problema.

O Assistente Social, levando em conta os problemas desencadeados pela dependência química, visa a promoção da inclusão social dos usuários de drogas, através da adoção de uma abordagem de atenção integral estimulando a qualidade de vida e o exercício pleno da cidadania, disponibilizando informação e orientação, acolhimento e apoio. Sabe-se que a dependência química não é um problema isolado, portanto o Assistente Social deve identificar no contexto social os fatores que tornam esses usuários cada vez mais vulneráveis.

2. MATERIAL E MÉTODOS

A pesquisa bibliográfica é desenvolvida a partir de material já elaborado, principalmente livros e artigos científicos. A pesquisa bibliográfica permite ao investigador a cobertura de uma quantidade de informações e fenômenos muito mais completa do que aquela obtida através de uma pesquisa de campo.

A primeira ação realizada para esta pesquisa foi uma consulta bibliográfica visando selecionar o material adequado para a definição do sistema conceitual da pesquisa e sua fundamentação teórica, também se fez necessário a consulta de material já publicado, para compreender melhor as diversas vertentes abordadas sobre o assunto em questão.

Segundo Gil (1999), a leitura na pesquisa bibliográfica deve identificar as informações e dados constantes dos materiais, bem como estabelecer relações entre essas informações e dados e o problema proposto, e investigar a consistências das informações e dados abordados pelos autores.

Para esta pesquisa, primeiramente foi realizada uma investigação e leitura explanatória, procurando-se em índice, sumário, capa, prefácio, títulos, subtítulos, resumos os materiais que fizessem alusão aos assuntos desejados.

A partir da leitura seletiva, foi dada uma maior atenção às obras mais relevantes que tratassem de forma mais completa o assunto abordado, desta forma procurou-se deter-se mais ao assunto. Posteriormente, foi selecionado os artigos e livros a serem utilizados para a elaboração final da pesquisa, realizou-se leitura e análise do material para então iniciar a elaboração do presente trabalho acadêmico.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

Estamos inseridos em uma sociedade onde sua dinâmica acontece de acordo com a lógica do consumo, num tempo dos objetos, que intermediam as relações entre humanos e qualquer coisa, inclusive o sujeito está à mercê de se tornar um objeto (BAUDRILLARD, 1970 apud GARCIA, 1997).

Os objetos diferenciam um indivíduo do outro e a diferenciação entre os indivíduos é socialmente determinada – ter para ser; consumir para existir- e os que consomem mais exibem maior prestígio do que os consomem menos. Porém ao mesmo tempo em que o sistema de consumo é o responsável pela produção social das diferenças, é ele que paradoxalmente homogeneíza os indivíduos que, “ao entrarem na moda” determinada pelo consumo, abdicam de sua singularidade. Sendo assim, “[…] o sujeito consome isoladamente, na tentativa de obter prazer ou simplesmente para aliviar o mal-estar ao qual está submetido sem se dar conta de que apenas satisfaz uma exigência do sistema” (GARCIA, 2003, p.123).

O nível de informação é cada vez mais alto e chega aos indivíduos de diversas maneiras (TV, rádio, outdoors, revistas, etc.), esse é certamente um dos fatores influenciadores do aumento do consumo de drogas, por exemplo o álcool. Os indivíduos estão cada vez mais influenciados pelo alto nível de propagandas, mostrando o consumo de álcool como algo positivo.

De acordo com Pinsky (2004), estudos recentes comprovam que crianças e adolescentes entre 10 e 17 anos, apontam que através de propagandas de bebidas alcoólicas, sentem vontade de consumir álcool.

Na mídia brasileira, os comerciais estão sempre associados a momentos maravilhosos, conquistas esportivas, à sexualidade e ao orgulho de ser brasileiro. É possível dizer ainda que, além desta imagem repassada pelos veículos de comunicação, sempre chama a atenção belas mulheres, com corpos perfeitos. Sendo assim é exposto o conceito positivo do consumo de drogas, pois os consumidores estão sempre em momentos de lazer, prazer e diversão, as consequências nunca são evidenciadas e as advertências são transmitidas de forma muita rápida, que muitas vezes não é nem possível ler ou ouvir.

O consumo de algumas drogas lícitas, como o álcool continua sendo exposto de forma glamurosa, sendo sempre associadas à juventude, à beleza, ao sucesso de figuras públicas, o que incentiva, numa abordagem bem diferente dos clips das campanhas contra as drogas de uso ilícito: nesse caso o prazer é totalmente negado, predominando imagens de perigo, doença, escuridão, degradação física, horror, morte.

Dessa maneira, permeia a contradição do real e do imaginário, que não contribui para esclarecer as diferenças de uso que foram, e continuam sendo construídas historicamente. O esclarecimento se compromete, assim como a construção de uma consciência de riscos (ACSELRAD, 2004, p.195). Essa contradição acaba favorecendo o contato com as drogas, pois o principal argumento de quem oferece é que se não fosse bom inúmeras pessoas não estariam usando.

Drogar-se constitui a promessa de um prazer absoluto e a possibilidade de evitar o mal-estar, e isto faz da droga o mais poderoso dos objetos de consumo e fazem da parceria entre toxicômano e sua droga uma relação inabalável, extremamente destruidora e radicalmente contemporânea (GONÇALVES, 2003).

Para Freitas (2001), o homem na sociedade contemporânea tem incentivo constante a utilizar algum tipo de anestésico para seu mal-estar psíquico, para as suas angústias. A aparência colocada de forma prioritária, o que faz com que os indivíduos estejam sempre num palco representando personagens.

Neste momento do apogeu do consumismo moderno, é incentivada a todo momento a posse material e o consumo intensivo de bens e produtos. Isso também é um forte estímulo ao uso crescente de drogas, pois para muitos adolescentes e jovens uma das maiores formas de ostentação é frequentar baladas e ambientes onde o consumo de drogas é frequente e muitas vezes explícito.

Produtos antigos ou recentes, legais ou ilegais conheceram novas formas de fabricação e comercialização, indo ao encontro de novas motivações e novas formas de procura. Em detrimento de modos saudáveis de vida, enfatiza-se, com freqüência, certos ideais irreais de força, vigor e juventude, atrelados à idéia de um prazer imediato e permanente na “curtição” da vida (BUCHER, 1996, p.9).

É possível ter uma maior compreensão sobre a toxicomania da atualidade no monólogo que se encontra no filme Trainspotting, do diretor Danny Boyle, que traz a recusa dos anseios da sociedade de consumo.

“Faça você mesmo”, perguntando a você mesmo quem diabo você é numa manhã de domingo. Sentar naquele sofá assistindo a programas esportivos que embotam a mente e amassam o espírito, enchendo a boca de comida de lanchonete. Apodrecer no fim de tudo, dando o último suspiro numa casa miserável, nada mais do que o embaraço para os filhos egoístas que você gerou para que tomem seu lugar. Escolha o seu futuro. Escolha vida. Eu escolho não escolher a vida: escolho outra coisa qualquer. E as razões? Não há nenhuma. Quem precisa de razões quando se tem heroína? (TRAINSPOTTING, 1996, 00:03min).

Este monólogo pode ser compreendido como o retrato de uma geração que começa a comprar, como nenhuma outra, o sonho da droga e se deixa capturar novamente pela sociedade de consumo, recuperando rapidamente o objeto droga como instrumento integrado à sua lógica, ou seja, à lógica de um tipo de gozo que serve perfeitamente ao tipo de exercício totalitário.

Delgado (2003) fazendo referência à obra de Freud (1930), discerne em relação ao perigo de investir em uma única oportunidade de satisfação, apontando a ilusão de achar que um único objeto, exclusivo, tem o poder de proporcionar a felicidade. O anseio de todo indivíduo é ser feliz, e é para este fim que os sujeitos se orientam; a busca de felicidade é o propósito de vida do homem.

Nesse sentido, a intoxicação química é descrita por Freud (1930) como um meio eficaz de produção imediata do prazer, proporcionando também aos homens um afastamento da realidade, que possibilita suportar o sofrimento derivado da civilização.

O consumo oferece a possibilidade do afastamento do mal-estar e promete um encontro com a felicidade, que constitui a demanda de todo ser humano. Assim, a evitação do sofrimento e a busca de felicidade são cartas oferecidas ao sujeito pela ordem capitalista, que impõe a obrigação do gozo, tendo a droga como seu objeto por excelência (Ibidem, 2003).

Plastino (2003), afirma que a toxicomania constitui também um sintoma, mas um sintoma no qual se exprimem fatores que, vinculados às múltiplas facetas da vida social, ultrapassam as motivações dos indivíduos singulares.

A toxicomania não pode ser analisada como um fenômeno isolado, sendo conveniente considerá-la como um aspecto específico de um conjunto mais abrangente de comportamentos sociais caracterizados por um imaginário fortemente individualista (Ibidem, 2003 p. 133).

É necessário dedicar a esta problemática um olhar mais amplo, que tenha a capacidade de problematizar o que a ideologia dominante prefere ignorar, de que existe algo profundamente errado nas concepções que alicerçam nossa civilização.

Citando Plastino (2003), a toxicomania não pode ser entendida isolada dessa problemática, pois o comportamento autodestrutivo dos milhões de indivíduos que compõem a massa de toxicômanos é, sem dúvida, irracional; como também são irracionais as formas de organização social e econômica, hoje hegemônicas, que condenam a maior parte da humanidade à miséria em meio a uma sempre crescente riqueza e ainda ameaçam o futuro de todos, destruindo nosso habitat em nome do progresso econômico.

É preciso então, questionarmo-nos a respeito das características fundamentais da civilização moderna e do paradigma que alicerçam a construção desta civilização. Nos princípios desta civilização, o homem é compreendido como indivíduo separado da natureza, e a sociedade como resultante de uma associação racional de indivíduos, não levando em conta assim, tanto nos indivíduos quanto nas sociedades, a significação de sua afetividade e sociabilidade naturais (MORIN, 1999).

Analisando esta situação contemporânea pode-se entender as consequências deste processo, onde os mais fortes sobrevivem e outros tantos são condenados e expostos às mais variadas formas de violência nas relações sociais, à desesperança, o esmagamento dos mais desprotegidos e fracos, à solidão que atualmente são expressões de uma civilização que, parece estar esgotando suas possibilidades de desenvolvimento (Ibidem, 2003).

De acordo com Acselrad (2004), as pessoas convivem com restrições dos espaços de prazer, onde o mercado de produção crescente de substâncias psicoativas somam-se negativamente para fortalecer a tendência a resolvermos nossos problemas através de soluções químicas. Foi criado um impasse nas relações humanas, onde competir significa ultrapassar, eliminar o outro.

Dessa forma, a sociedade do individualismo está se tornando cada dia mais a sociedade da solidão, da intolerância e da xenofobia. A desagregação das formas tradicionais de organização social abriu espaço à notória expansão de atitudes narcísicas – é a negação do outro e não a fraternidade, que rege a vida social.

O homem contemporâneo parece cada vez mais incapaz de pensar os desafios resultantes de sua própria ação, orientada pela razão instrumental. Prisioneiro da máquina produtiva por ele mesmo criada, o indivíduo se obriga a sacrificar valores como solidariedade, fraternidade e compaixão. Ele próprio se condena a abandonar seus sonhos, projetos e utopias de um mundo melhor (PLASTINO, 2005).

Na contemporaneidade, as famílias de uma forma geral sofrem transformações em sua dinâmica por conta da necessidade de deixar o lar para dedicar-se ao mercado de trabalho, esvaziando assim a convivência com seus membros. Estes, por sua vez, ficam à mercê da escola e da rua, e sabe-se que a primeira também passa por dificuldades de toda a ordem e não cumpre seu papel de maneira eficaz. Assim, cresce o número de crianças e adolescentes que se envolvem com o uso e o tráfico de drogas por falta de uma estrutura familiar e social para ampará-los.

O homem é sem dúvida um ser de grande complexidade, seu processo de desenvolvimento apresenta inúmeras particularidades que interferem de forma significativa no comportamento que apresentará nas suas relações futuras. Inúmeros fatores de ordem afetiva e emocional, acontecimentos positivos e/ou negativos no ambiente familiar influenciam nas características e na formação da personalidade do ser humano.

De acordo com Rampazzo (apud Hall e Lindzey, 1984) ‘’a personalidade é considerada um conjunto de valores ou termos descritivos usados para caracterizar o indivíduo estudado de acordo com as variáveis ou dimensões que ocupam posição central na teoria adotada”. Esse conjunto de valores e termos é adquirido no ambiente familiar, no convívio com os indivíduos que representam as figuras maternas e paternas.

Sabe-se que a personalidade humana pode ser influenciada e/ou alterada pelo meio social e por outros fatores, como por exemplo, o uso de entorpecentes. Na sociedade contemporânea é possível observar que o consumo de drogas, principalmente álcool, cocaína e crack, em muitos casos associados, causa alterações e transtornos no comportamento humano. Pode-se afirmar que o consumo dessas drogas desencadeia grandes problemas sociais, muitos deles relacionados à violência e criminalidade.

Segundo Almeida, Pasa & Scheffer (2010, p. 533) o uso abusivo de substâncias químicas transformou-se em um grave problema de saúde pública em praticamente todos os países do mundo. Tem forte associação com comportamentos violentos e criminais, como acidentes de trânsito e violência familiar, principalmente entre indivíduos com histórico de agressividade e com complicações médicas e psiquiátricas, elevando drasticamente os índices de morbidade e mortalidade.

Acreditava-se que os problemas referentes ao uso de cocaína e crack era um problema particular a agitação urbana, que só existia nas grandes cidades, nos guetos, nas favelas. Mas a realidade é que hoje o fenômeno da drogadição está infiltrado em todos os ambientes, atinge pessoas de diferentes faixas etárias, de todas as classes sociais e diversas culturas. O que se sabe é que independente das diferenças de gênero, raça, classe social, etc., os danos causados pela dependência química são cada vez mais alarmantes.

O “crack” está classificado entre as drogas mais consumidas, a que causa mais rápido a dependência. Ele surgiu com o objetivo de popularizar a cocaína, os efeitos do crack são sentidos pelo usuário entre 10 a 15 segundos, no entanto permanecem apenas cerca de 5 minutos, isso leva o usuário a consumir o crack por diversas vezes em um curto espaço de tempo, tal ação tem como consequência o desenvolvimento da dependência rapidamente.

O histórico de dependência do crack mostra que com a abstinência da droga o usuário fica extremamente agressivo, paranoico e depressivo.  De acordo com Dutra (2009) quando os níveis de dopamina caem, o dependente experimenta sintomas como ansiedade, depressão, agitação, dores musculares, vômito e insônia. Ele, então, é capaz de tudo para conseguir a droga, eliminar esses sintomas e chegar novamente ao estado de euforia. É um ciclo vicioso que não acaba nunca, a não ser que o dependente, um doente, se trate.

Diante das consequências devastadoras que o consumo do crack causa ao ser humano, surge um questionamento inevitável: Por que, mesmo com tantos exemplos negativos, tantas pessoas ainda experimentam essas drogas? O que se observa é que os motivos que levam ao uso de drogas são de naturezas diversas, algumas pessoas buscam a droga como forma de vencer problemas de convívio social, outros iniciam o uso por conta de problemas familiares, e ainda tem os que se drogam por curtição, novas sensações.

“O início do consumo de substâncias pode ocorrer por diversos motivos como: hedonismo, curiosidade, alívio da dor e sofrimento que, provavelmente persistirão após a dependência, como também com o objetivo de vivencias novas experiências”. (ALMEIDA, PASA & SHEFFER 2010, p. 533).

Muitos indivíduos encaram o consumo de entorpecentes como uma opção para ter maior diversão, alguns jovens começam a usar o crack para está inserido em determinado grupo, para não ser “careta”, não ser rejeitado. Todavia observamos que a dependência dessa droga torna o sujeito indiferente ao convívio social, e por conta da abstinência e a grande fissura para ter a droga, em muitos casos esse individuo se torna uma ameaça para a sociedade, por desenvolver ações violentas e agressivas.

A mudança de comportamento no usuário de crack provoca profunda devastação na estrutura familiar. Isso porque com a frequência do uso da droga a pessoa passa a não ter sensações prazerosas em aspectos da vida, como convívio com parentes, com a esposa, filhos, mãe, pai.

Assim a dinâmica familiar é fortemente afetada por esse comportamento, pois o indivíduo deixa de participar dos acontecimentos familiares. Na relação entre um casal, por exemplo, a cumplicidade deixa de existir, pois a parte dependente do crack torna-se alheio aos assuntos em comum, passa a ser inconstante, assim a droga passa a está no centro de suas atenções.

De acordo com a psicoterapeuta familiar Eroy Silva, da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), o uso abusivo de drogas está associado ao isolamento, perda ou afastamento do trabalho, estreitamento do repertório social e problemas familiares como separações conjugais, deterioração da convivência e isolamento. “O usuário se afasta do círculo familiar e dos amigos e passa a maior parte do tempo sozinho consumindo a droga ou com pessoas que também fazem o uso. As relações são caracterizadas mais pelo consumo coletivo da droga do que por vínculos afetivos”, afirma.

A família é o principal e primeiro alicerce do ser humano, por essa razão, mesmo estando fragilizada estruturalmente deve apoiar e buscar soluções preventivas e paliativas para os problemas decorrentes do uso do crack na vida do dependente. È na família que o usuário deve encontrar auxílio para combater a dependência, mesmo contra a sua vontade, levando em consideração que um dependente químico não tem controle sobre si, pois seus desejos e ações estão atrelados ao vício da droga.

“Ainda há, entretanto, uma ideia de família determinada por valores, os quais pautam as relações, como: o sentimento de amor, a realização pessoal na convivência com o outro significativo, e por consequência a formação da identidade humana por meio da filiação e da transmissão intergeracional”. (ALBIAZZETE, 2011, p. 11 apud PONCIANO e FERES-CARNEIRO, 2003).

Assim a família, baseando-se nos valores fundamentais da estrutura familiar, é quem deve apoiar o dependente de crack, levando-o a buscar tratamento específico para esta doença. Sabemos que a sociedade marginaliza o dependente químico, é possível observar que a dependência é caracterizada pela população como crime, má conduta, enfim para a população o dependente químico em nada se difere de um assaltante, traficante ou assassino. A dependência ainda não é encarada como uma doença que precisa ser tratada para evitar problemas futuros, inclusive a morte.

“O uso nocivo de substâncias foi por muito tempo tratado por meio de ações punitivas ao invés de preventivas e terapêuticas, sendo a dependência química considerada como ‘falha moral’ ou ‘falta de força de vontade”. (ALMEIDA, PASA & SHEFFER, 2010, p. 539).

O fenômeno de drogadição está em constante propagação, há algumas décadas as pequenas cidades interioranas não sofriam tão fortemente as consequências provocadas pelo uso de drogas. Este era um problema presente nas grandes cidades, nas metrópoles, e mais acentuadamente entre as pessoas em vulnerabilidade social. Hoje a realidade é diferente, a problemática da dependência química está presente em todas as regiões e em todas as classes sociais, assim constitui-se como um problema que assola toda a sociedade.

Dessa forma, percebe-se que a drogadição é uma questão social que está tomando proporções cada vez maiores. A dependência química causa problemas que atingem não só a família do usuário, mas também a sociedade como um todo, sendo assim o Serviço Social, através da figura do Assistente Social, deve interagir nesse contexto visando adotar ações que eliminem ou diminuam as fortes consequências desse problema.

O Assistente Social, levando em conta os problemas desencadeados pela dependência química, visa a promoção da inclusão social dos usuários de crack e outras drogas, através da adoção de uma abordagem de atenção integral estimulando a qualidade de vida e o exercício pleno da cidadania, disponibilizando informação e orientação, acolhimento e apoio. Sabe-se que a dependência química não é um problema isolado, portanto o Assistente Social deve identificar no contexto social os fatores que tornam esses usuários cada vez mais vulneráveis.

“A questão do uso e abuso de drogas no Brasil segue aumentando em faixas etárias cada vez mais precoces em todos os segmentos sociais e camadas populacionais; porém, nas classes marginalizadas, além das perdas em termos econômicos e do prejuízo em termos de cidadania, configura-se um drama de degradação e exclusão que merece um olhar e uma abordagem cuidadosos.” (DOMINGOS e MACHADO, 2005 apud CONTE, 2001, p. 114).

Além de propor ações com objetivo de resgatar esses dependentes químicos, é também papel do Assistente Social, bem como das políticas públicas, trabalhar no processo de conscientização da sociedade sobre o verdadeiro problema da dependência química. É necessário que a população veja esta questão como um grave problema de saúde, que necessita de tratamento terapêutico e não com indiferença e medidas punitivas.

De acordo com Alvarez (2012) a droga é uma questão que deve ter ação policial apenas em relação aos traficantes, no sentido de enfrentar e coibir o tráfico de drogas, porém essas ações devem ocorrer de forma que não ameace a população. De forma alguma, a repressão policial deve ser utilizada do sentido de enfrentar dependentes químicos em estado de miséria e sem nenhuma defesa.

O uso e a dependência de drogas é uma questão que envolve aspectos sociais e ameaça profundamente a estrutura física e psicológica do ser humano. O uso de drogas, principalmente do crack, é um problema de saúde pública e necessita ser encarado como tal para que a família e a sociedade, juntamente com o poder público, encontrem soluções.

A dependência química causa literalmente a destruição progressiva do ser humano. Pois destrói suas relações com a família, amigos, trabalho, e até mesmo a relação do homem consigo mesmo. Porque o usuário de drogas, na maioria dos casos, deixa de interagir com o mundo em sua volta, deixa de levar em consideração sua saúde psíquica e física por um único objetivo que é o uso desenfreado da droga para satisfação do seu vício.

Além dos transtornos que as drogas causam no usuário, atinge profundamente a família, pois a convivência com o dependente químico desestrutura completamente as práticas familiares, mesmo aquelas simples, como almoço em família, conversas, etc.. Isso porque o dependente de crack, cocaína e outras drogas passa a ser uma constante preocupação para a família, pois muitos chegam a passar dias fora de casa consumindo a droga e são capazes de vender utensílios da própria residência para alimentar o vício.

Porém mesmo com todos esses transtornos a família deve permanecer apoiando o dependente químico, pois o usuário só conseguirá a cura do vício através de tratamento e isso só é possível com a ajuda de familiares e amigos, pois dificilmente o usuário procurará tratamento de forma voluntária. Além disso, a sociedade ainda trata a questão da dependência como uma questão a ser resolvida por meio de medidas punitivas, dessa forma o dependente químico não é tratado como doente, mas sim com criminoso, “vagabundo”, enfim como alguém que tem que está à margem da sociedade.

O Assistente Social deve entrar nesse contexto, com o objetivo de resgatar o usuário de drogas através de medidas para reinserção desse indivíduo no meio social e encaminhamento dos dependentes químicos para centros de tratamentos onde possam receber atendimento correto. Também é necessário orientar a população do verdadeiro problema da dependência química, que se caracteriza como uma doença que leva a morte de milhares de pessoas por todo o mundo.

É também papel do Assistente Social apoiar as famílias que enfrentam problemas com drogas, pois essas famílias se tornam muito vulneráveis diante dessa questão, muitas vezes não sabem que medidas tomar, portanto orientação social e psicológica é de grande importância para que a família possa encontrar a melhor maneira para ajudar o usuário.

Dessa forma, é de grande relevância para o contexto do Serviço Social dialogar sobre questões inerentes aos efeitos das drogas nos relacionamentos familiares, bem como buscar aprofundar-se em qual seria o papel do Assistente Social nesse contexto, pois a dependência química é também um problema social que necessita ser tratado com atenção pelo poder público, pois seus efeitos têm sido catastróficos para a família e para toda a sociedade.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Levando em conta as pesquisas realizadas para a confecção deste trabalho, foi possível observar que o problema da dependência química não é um problema de ordem moral ou de segurança. Esta é uma questão que envolve aspectos sociais e ameaça profundamente a estrutura física e psicológica do ser humano. O uso de drogas, é com certeza um problema de saúde pública e necessita ser encarado como tal para que a sociedade, juntamente com o poder público, encontre uma solução.

A dependência química causa literalmente a destruição progressiva do ser humano. Pois destrói suas relações com a família, amigos, trabalho, e até mesmo a relação do homem consigo mesmo. Porque o usuário de drogas deixa de interagir com o mundo em sua volta, deixa de levar em consideração sua saúde psíquica e física por um único objetivo que é o uso desenfreado da droga para satisfação do seu vício.

Além dos transtornos que o uso de drogas causa ao usuário, ele atinge profundamente a família, pois a convivência com o dependente químico desestrutura completamente as práticas familiares, mesmo aquelas simples, como almoço em família, conversas, etc. Isso porque o dependente de drogas se torna uma constante preocupação para a família, pois muitos chegam a passar dias fora de casa consumindo a droga e são capazes de vender utensílios da própria casa para comprar a substância.

Porém mesmo com todos esses transtornos a família deve permanecer apoiando o dependente químico, pois o usuário só conseguirá a cura do vício através de tratamento e isso só é possível com a ajuda de familiares e amigos, pois dificilmente o usuário procurará tratamento de forma voluntária. Além disso, a sociedade ainda trata a questão da dependência como uma questão a ser resolvida por meio de medidas punitivas, dessa forma o dependente químico não é tratado como doentes, mas sim com criminoso, “vagabundo”, enfim como alguém que tem que está à margem da sociedade.

O Assistente Social entra nesse contexto, com o objetivo de resgatar o usuário de drogas através de medidas para reinserção desse indivíduo no meio social e encaminhamento dos dependentes químicos para centros de tratamentos onde possam receber atendimento correto. Também é necessário conscientizar a população do verdadeiro problema da dependência, que se caracteriza como uma doença que leva a morte de milhares de pessoas por todo o mundo.

É também um importante papel do assistente social buscar o fortalecimento dos vínculos familiares nesses casos. As famílias encontram-se em uma situação de extrema vulnerabilidade psicológica e social, portanto necessita de apoio para enfrentar as inúmeras consequências que a presença de um dependente químico causa ao convívio familiar.

REFERÊNCIAS

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ALBIAZZETE, Giane. Antropologia. São Paulo, 2009.

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BRASIL, Infoescola. Crack. Disponível em: WWW.infoescola.com/drogas/crack – Acesso em: 08 mai 2012.

CAVALCANTE, Antonio Mourão. Drogas: este barato sai caro – os caminhos da prevenção.4ª edição. Rio de Janeiro: Record: Rosa dos Tempos, 2000.

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[1] Graduada em Serviço Social pela Universidade Norte do Pará, Polo Itabuna, Bahia, Brasil. Artigo apresentado como Trabalho de Conclusão do Curso de Especialização em Serviço Social: Saúde, Seguridade e Políticas Públicas da Unigrad de Itabuna-BA.

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