ARTIGO ORIGINAL
CASTANHO, Luiz Tadeu Sichero [1]
CASTANHO, Luiz Tadeu Sichero. Entre a jihad e o poder político: Isis e Boko Haram no panorama geopolítico do terrorismo religioso. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 09, Vol. 01, pp. 135-149. Setembro de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/ciencias-sociais/jihad-e-o-poder-politico, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/ciencias-sociais/jihad-e-o-poder-politico
RESUMO
Este artigo analisa o fenômeno do terrorismo religioso a partir de uma abordagem comparativa entre os grupos Estado Islâmico (ISIS) e Boko Haram, destacando seus objetivos políticos, estratégias geopolíticas e o uso da jihad como ferramenta de mobilização e dominação. O objetivo principal é compreender como ambos os grupos articulam discursos religiosos para legitimar ações violentas e consolidar poder territorial, político e simbólico em contextos distintos, mas conectados pela lógica do extremismo islâmico. A metodologia utilizada baseia-se em uma análise qualitativa e documental, com revisão bibliográfica de artigos acadêmicos, relatórios de segurança internacional e discursos oficiais dos próprios grupos. A pesquisa adota o método comparativo para identificar convergências e divergências entre ISIS e Boko Haram no que tange à estrutura organizacional, motivações ideológicas, uso da mídia e influência regional. Os resultados indicam que, embora compartilhem fundamentos religiosos semelhantes e estratégias de terror similares, os dois grupos atuam em cenários geopolíticos diferentes, o que impacta suas formas de atuação e projeção de poder. Enquanto o ISIS buscou estabelecer um califado transnacional, Boko Haram tem operado com foco local, embora com conexões transnacionais. Conclui-se que o terrorismo religioso contemporâneo ultrapassa a dimensão espiritual, revelando-se como instrumento de disputa por poder em contextos de fragilidade estatal e desordem regional. A compreensão dessa dinâmica é essencial para a formulação de políticas internacionais de segurança e prevenção ao extremismo violento.
Palavras-chave: Terrorismo religioso, Jihad, Geopolítica, Poder político.
1. INTRODUÇÃO
Nas últimas décadas, o terrorismo religioso consolidou-se como uma das principais ameaças à segurança internacional, impulsionado por grupos extremistas que utilizam a fé como instrumento de dominação política, controle territorial e mobilização ideológica. Dentre esses grupos, destacam-se o Estado Islâmico (ISIS) e o Boko Haram, organizações que, embora atuem em contextos geopolíticos distintos o Oriente Médio e a África Ocidental, respectivamente, compartilham uma mesma lógica de violência justificada por interpretações radicais do Islã.
Autores como Olivier Roy (2006) argumentam que o terrorismo jihadista contemporâneo está menos ligado à tradição islâmica propriamente dita e mais à uma “islamização da radicalidade”, em que jovens marginalizados buscam no discurso religioso uma via para expressar frustrações sociais e políticas. Gilles Kepel (2017), por outro lado, entende o jihadismo como uma continuação de projetos político-religiosos anteriores, enraizados na ideologia salafista. Ambas as abordagens ajudam a compreender que a jihad, enquanto conceito e prática, é ressignificada por esses grupos para servir a projetos de poder que vão além da religião.
Este artigo propõe uma análise comparativa entre ISIS e Boko Haram, com o objetivo de compreender como esses atores constroem suas estratégias de poder a partir da manipulação da religião. A metodologia adota uma abordagem qualitativa e documental, com base em revisão bibliográfica e análise de discursos. Justifica-se esta pesquisa pela necessidade de aprofundar a compreensão sobre os vínculos entre fé, violência e disputas de poder em regiões marcadas pela fragilidade institucional, contribuindo assim para o debate acadêmico e para a formulação de políticas públicas de prevenção ao extremismo.
2. O TERRORISMO NA CONTEMPORANEIDADE: DEFINIÇÕES, EVOLUÇÃO E COMPLEXIDADES
O terrorismo é um fenômeno multifacetado que tem marcado a história contemporânea por sua capacidade de provocar medo, instabilidade e respostas políticas de grande impacto. Embora a prática de atos violentos com fins políticos seja antiga, o termo “terrorismo” ganhou notoriedade a partir da Revolução Francesa, sendo inicialmente associado à repressão estatal. Com o passar do tempo, o conceito evoluiu e passou a ser empregado de forma mais ampla para descrever ações violentas de grupos não estatais voltadas contra civis, governos e instituições, geralmente com o objetivo de promover mudanças políticas, sociais ou religiosas.
A dificuldade em definir o terrorismo de forma unívoca é reconhecida por diversos estudiosos da área. Bruce Hoffman (2014) destaca que uma das principais características do terrorismo é seu caráter comunicativo: mais do que atingir fisicamente suas vítimas imediatas, ele visa influenciar uma audiência mais ampla por meio do medo. Já Alex Schmid e Albert Jongman (1988), em uma célebre análise de mais de 100 definições acadêmicas, identificaram elementos comuns como a violência premeditada, motivação política, intimidação de públicos civis e uso da propaganda.
Com base nessas abordagens, o presente trabalho adota o terrorismo como uma forma de violência planejada e simbólica, exercida por atores não estatais, cuja finalidade é coagir governos ou sociedades civis por meio do medo, buscando alcançar objetivos ideológicos, políticos ou religiosos. Essa definição permite distinguir o terrorismo de outras formas de violência, como o crime comum, a guerra convencional ou a repressão estatal, embora em contextos híbridos essas fronteiras possam se tornar tênues.
A evolução do terrorismo ao longo do século XX até os dias atuais revela diferentes “ondas” de motivação, conforme proposto por David Rapoport (2010). Segundo o autor, o terrorismo moderno pode ser compreendido em quatro grandes ciclos: a onda anarquista (final do século XIX), a onda anticolonial (pós-Segunda Guerra Mundial), a onda de esquerda (décadas de 1960 e 70) e, mais recentemente, a onda religiosa, iniciada no final dos anos 1970 e intensificada após os ataques de 11 de setembro de 2001. Essa última é caracterizada pela centralidade da religião como justificativa moral para a violência e por sua ambição transnacional, sendo protagonizada por grupos como Al-Qaeda, Estado Islâmico (ISIS) e Boko Haram.
Para Rapoport, o terrorismo moderno se desenvolveu em quatro grandes ondas: a anarquista, a anticolonial, a de esquerda e a religiosa, cada uma com duração aproximada de quarenta anos e marcada por motivações distintas” (Rapoport, 2010, p. 6).
O terrorismo religioso, diferentemente das ondas anteriores, combina elementos escatológicos, identitários e políticos, utilizando-se de símbolos sagrados para legitimar ações violentas e recrutar seguidores. Trata-se, portanto, de uma modalidade de terrorismo em que a religião é não apenas a motivação declarada, mas também o fundamento discursivo que molda estratégias, alvos e práticas operacionais. A partir dessa compreensão, o próximo capítulo abordará especificamente o conceito de jihad e sua ressignificação por grupos extremistas, como parte da estratégia de construção de poder religioso e político.
3. A JIHAD E SUA RESSIGNIFICAÇÃO CONTEMPORÂNEA
O termo jihad provém da raiz árabe j-h-d, que significa “esforçar-se” ou “lutar”. No contexto islâmico tradicional, jihad possui múltiplas dimensões, sendo a mais nobre delas o esforço espiritual individual pela superação pessoal e pela obediência a Deus, o que estudiosos denominam de maior jihad. Há também o conceito de menor jihad, que pode incluir a luta armada em defesa da fé quando a comunidade muçulmana é atacada. Entretanto, essa dimensão sempre esteve submetida a critérios éticos e jurídicos rigorosos dentro da tradição islâmica.
Contudo, a partir do século XX, com a ascensão de movimentos islamistas radicais, o conceito de jihad passou por um processo de ressignificação político-ideológica. Autores como Olivier Roy (2006), argumentam que o que se observa no jihadismo contemporâneo é menos uma continuidade do pensamento islâmico tradicional e mais uma ruptura com ele, dando lugar àquilo que chama de “islamização da radicalidade”. Para Roy, jovens radicalizados apropriam-se seletivamente do discurso religioso para justificar uma rebelião contra a ordem global, muitas vezes sem profundo conhecimento teológico.
Grupos como Al-Qaeda, Estado Islâmico (ISIS) e Boko Haram utilizam a jihad como eixo central de suas narrativas, promovendo uma leitura absolutista e belicista do Islã. Essa jihad reinterpretada torna-se um instrumento de guerra ofensiva, voltado não apenas contra supostos inimigos do Islã, mas também contra muçulmanos considerados “traidores”, heréticos ou insuficientemente devotos. Gilles Kepel (2017) observa que, nesses discursos, a jihad é transformada em um projeto político-religioso de conquista e purificação ideológica, legitimando atentados, massacres e imposição de regimes teocráticos. Essa visão se articula com a noção de guerra híbrida, na qual elementos ideológicos, simbólicos e militares se fundem para desafiar estruturas estatais frágeis.
Além disso, o discurso jihadista contemporâneo é amplamente difundido por meio de tecnologias digitais, o que amplia seu alcance global e sua capacidade de recrutamento transnacional. O jihad deixa, assim, de ser um princípio teológico restrito a contextos defensivos e passa a operar como ideologia totalizante, sustentando ambições de poder territorial, controle populacional e estabelecimento de um novo modelo civilizacional, conforme os moldes de um suposto “califado islâmico”.
A jihad, portanto, é apropriada como um instrumento de legitimação simbólica da violência e do terror. Ao compreender esse processo de ressignificação, torna-se possível analisar como grupos como ISIS e Boko Haram articulam religião, política e violência para consolidar projetos de poder, tema que será aprofundado nos capítulos seguintes por meio da análise comparativa entre os dois grupos.
4. O ESTADO ISLÂMICO (ISIS): ESTRATÉGIA E EXPANSÃO DO TERROR RELIGIOSO
O Estado Islâmico (ISIS, na sigla em inglês para Islamic State of Iraq and Syria) emergiu como um dos grupos terroristas mais violentos e influentes do século XXI. Sua origem remonta ao período pós-invasão do Iraque pelos Estados Unidos, em 2003, quando Abu Musab al-Zarqawi fundou o grupo Al-Qaeda no Iraque (AQI). Após sua morte em 2006, a organização passou por um processo de reestruturação, culminando, em 2013, na fundação formal do ISIS sob a liderança de Abu Bakr al-Baghdadi, que viria a proclamar, em 2014, o “califado islâmico” com capital em Mossul.
A estratégia do ISIS baseia-se na junção entre jihadismo salafista e ambição geopolítica. O grupo não apenas realiza atentados e ações armadas, como também busca estabelecer um projeto de Estado teocrático baseado em uma interpretação radical da sharia (lei islâmica). Ao contrário de grupos como a Al-Qaeda, que mantinham uma estrutura descentralizada, o ISIS implementou um modelo quase estatal, com controle administrativo sobre territórios, cobrança de impostos, fornecimento de serviços e um sistema de justiça próprio. Conforme observa Bruce Hoffman, “o ISIS procurou ser mais do que uma organização terrorista: ele pretendia construir um Estado funcional baseado em uma ideologia jihadista apocalíptica” (Hoffman, 2014, p. 205).
O uso da jihad é central em sua narrativa. Para o ISIS, a jihad é reinterpretada como uma obrigação permanente de combate, não apenas contra “infiéis” do Ocidente, mas também contra muçulmanos considerados apóstatas ou colaboracionistas. Essa radicalização do conceito amplia o escopo da violência e a transforma em um imperativo doutrinário, legitimando massacres, execuções públicas e a imposição brutal da ordem religiosa. Gilles Kepel afirma que “o jihadismo salafista busca instaurar uma ordem islâmica total por meio da guerra contra o mundo inteiro, inclusive contra muçulmanos que não compartilham sua visão” (Kepel, 2017, p. 19).
Além disso, o ISIS destacou-se pela sofisticação de sua propaganda. Utilizando redes sociais, vídeos de alta produção e publicações como a revista Dabiq, o grupo construiu uma imagem de força, pureza e missão divina. Essa estratégia comunicacional foi fundamental para o recrutamento de milhares de combatentes estrangeiros, especialmente jovens muçulmanos marginalizados na Europa, no Norte da África e no Oriente Médio. Olivier Roy observa que “não é a religião que radicaliza, mas sim a radicalização que procura na religião uma forma de expressão” (Roy, 2006, p. 42), destacando que muitos jihadistas têm pouca formação religiosa e buscam mais uma causa de ruptura do que um projeto espiritual estruturado.
Entre 2014 e 2017, o ISIS chegou a controlar vastas regiões do Iraque e da Síria, impondo um regime de terror que combinava violência simbólica, militar e institucional. No entanto, sua ambição expansionista transnacional extrapolava os limites territoriais do chamado “califado físico”. O grupo incentivou atentados em diversos países — como França, Bélgica, Turquia e Egito — por meio de “células inspiradas” ou combatentes retornados. Essa dimensão internacional elevou o Estado Islâmico à categoria de ameaça global, mobilizando coalizões militares e programas de contraterrorismo por parte de potências ocidentais e países árabes. Segundo dados do Global Terrorism Index (Global Terrorism Index GTI, 2023), o Estado Islâmico foi responsável por mais de 6.700 mortes em ataques terroristas no pico de sua atuação entre 2014 e 2016. O grupo chegou a controlar cerca de 88 mil km² de território entre o Iraque e a Síria, abrigando uma população estimada em 8 milhões de pessoas sob seu regime.
Com a perda de seu território principal a partir de 2017, o ISIS entrou em uma nova fase, mais dispersa e clandestina, mas ainda ativa em regiões estratégicas, como o Sahel africano e partes da Ásia. Sua ideologia permanece como referência para diversos outros grupos jihadistas que reivindicam sua afiliação, incluindo facções do Boko Haram, dando continuidade ao projeto de um “califado virtual” e permanente.
O caso do ISIS revela, assim, uma combinação entre teologia radicalizada, estratégia geopolítica e domínio comunicacional. Mais do que um grupo armado, trata-se de um modelo de guerra híbrida, onde religião, território e narrativa convergem para a construção de um projeto de poder que transcende fronteiras estatais e desafia diretamente a ordem internacional contemporânea.
5. BOKO HARAM: RADICALISMO LOCAL E ALINHAMENTO GLOBAL
O Boko Haram, oficialmente denominado Jama’atu Ahlis Sunna Lidda’awati wal-Jihad (“Pessoas Comprometidas com a Propagação dos Ensinamentos do Profeta e Jihad”), surgiu no nordeste da Nigéria no início dos anos 2000, sob a liderança de Mohammed Yusuf. Embora inicialmente se apresentasse como um movimento religioso dissidente, que rejeitava a influência ocidental na sociedade e criticava a corrupção do governo nigeriano, o grupo logo assumiu uma postura violenta e insurgente. A expressão “Boko Haram” significa, em tradução livre, “a educação ocidental é pecado”, refletindo sua oposição à modernidade secular e aos valores liberais.
A radicalização do grupo se intensificou após a morte de Yusuf, em 2009, em circunstâncias violentas durante sua custódia policial. Seu sucessor, Abubakar Shekau, transformou o Boko Haram em uma organização armada altamente violenta, responsável por atentados, sequestros em massa — como o das meninas de Chibok em 2014 — e ataques a alvos civis e militares. A jihad passou a ser usada como justificativa religiosa para uma campanha brutal de terror e dominação. Como observa Daniel Byman,
O Boko Haram explora a fraqueza do Estado nigeriano e a marginalização social como terreno fértil para seu jihadismo” (Byman, 2015, p. 146).
Diferentemente do Estado Islâmico, que nasceu com vocação transnacional, o Boko Haram possui raízes locais, ligadas a dinâmicas étnicas, econômicas e políticas da região do Lago Chade. No entanto, a partir de 2015, sob pressão militar e em busca de legitimidade simbólica, o grupo declarou fidelidade ao ISIS, passando a ser conhecido como Estado Islâmico na África Ocidental (ISWAP). Essa aliança resultou em uma cisão interna, com uma facção mais alinhada ao modelo “governamental” do califado islâmico e outra, liderada por Shekau, mantendo sua brutalidade caótica e pouco estruturada.
O uso da jihad pelo Boko Haram também se distancia do conceito tradicional islâmico. Trata-se de uma jihad ofensiva e indiscriminada, que inclui assassinatos de muçulmanos considerados traidores, cristãos, funcionários públicos, professores e até estudantes. Gilles Kepel.
Gilles Kepel. observa que grupos como o Boko Haram “se apropriam da linguagem do salafismo jihadista, mas sua atuação revela mais um projeto de dominação política local do que uma teologia sistemática” (Kepel, 2017, p. 33
A propaganda do Boko Haram, embora menos sofisticada que a do ISIS, utiliza redes sociais, vídeos de execuções e ameaças públicas para espalhar o medo e afirmar poder. Além disso, a promessa de restauração de uma ordem islâmica pura serve como instrumento de recrutamento em regiões marcadas pela pobreza extrema, ausência do Estado e conflitos étnico-religiosos. De acordo com Olivier Roy, “a atração pelo jihadismo, nesses casos, não é resultado de um excesso de fé, mas sim da ausência de alternativas e da sensação de exclusão total” (Roy, 2006, p. 51).
A atuação do Boko Haram e de suas ramificações estende-se além da Nigéria, atingindo países como Chade, Níger e Camarões, o que o torna uma ameaça regional à segurança e à estabilidade. Sua persistência, mesmo após campanhas militares contra seus redutos, revela uma combinação de fragilidade estatal, ressentimento social e manipulação religiosa que sustenta o ciclo de violência jihadista na região. De acordo com o Instituto de Economia e Paz (IEP), o Boko Haram foi o grupo terrorista mais letal do mundo em 2015, com mais de 11 mil mortes atribuídas a seus ataques. Estima-se que suas ações tenham forçado o deslocamento de mais de 2,5 milhões de pessoas na bacia do Lago Chade, contribuindo para uma das maiores crises humanitárias da África.
6. ANÁLISE COMPARATIVA: CONVERGÊNCIAS E DIVERGÊNCIAS ENTRE ISIS E BOKO HARAM
A análise comparativa entre o Estado Islâmico (ISIS) e o Boko Haram permite compreender como diferentes grupos terroristas religiosos se articulam em torno de objetivos comuns, ainda que em contextos distintos. Ambos os grupos operam sob a lógica do jihadismo salafista e compartilham elementos estruturais semelhantes, como a tentativa de implementação de uma ordem islâmica radical, o uso da violência simbólica e midiática, e a instrumentalização da religião como ferramenta de poder. Contudo, suas trajetórias, estratégias e ambições revelam importantes divergências.
No que diz respeito à origem e ao contexto, o ISIS emerge a partir da desestabilização geopolítica do Oriente Médio, especialmente após a intervenção norte-americana no Iraque, com aspirações transnacionais e estrutura estatal. Já o Boko Haram nasce em um ambiente de fragilidade local, marcado por pobreza extrema, marginalização étnico-religiosa e ineficiência do Estado nigeriano, com foco inicialmente regional e local. Enquanto o ISIS nasce em meio a uma guerra internacionalizada, o Boko Haram floresce em meio ao colapso interno de instituições nacionais.
No plano ideológico, ambos os grupos reinterpretam a jihad como um dever ofensivo e permanente. Entretanto, o ISIS constrói uma narrativa apocalíptica global, com referências à restauração do califado e combate ao “inimigo distante” (potências ocidentais), enquanto o Boko Haram direciona sua jihad contra alvos locais, como cristãos, líderes tradicionais, agentes do governo e muçulmanos “desviantes”. Gilles Kepel observa que, embora compartilhem o salafismo jihadista, “o ISIS articula uma visão messiânica transfronteiriça, enquanto o Boko Haram se ancora nas tensões regionais para justificar sua brutalidade” (Kepel, 2017, p. 41).
Quanto à estrutura organizacional e territorial, o ISIS apresentou, no auge de sua força, uma administração quase estatal, com hierarquias bem definidas, arrecadação de impostos, serviços sociais e códigos legais baseados na sharia. O Boko Haram, por sua vez, mostrou maior fragmentação interna, marcada por rupturas entre facções, liderança carismática instável e controle territorial menos institucionalizado. Após a afiliação simbólica ao ISIS em 2015, a facção ISWAP adotou uma estrutura mais centralizada, mas sem alcançar o mesmo grau de organização administrativa do califado sírio-iraquiano.
No campo da comunicação e propaganda, o ISIS se destacou por sua capacidade de produção de conteúdo de alto impacto visual, revistas digitais, vídeos editados e uso estratégico das redes sociais para recrutar seguidores e intimidar inimigos. Já o Boko Haram utilizou-se mais de mídias locais e vídeos de baixa produção, embora também tenha lançado mensagens em árabe e hausa com o objetivo de legitimar suas ações e declarar lealdade ao Estado Islâmico.
Por fim, no que tange ao impacto geopolítico, o ISIS conseguiu mobilizar uma coalizão internacional contra si, influenciar ataques em países europeus e modificar agendas de segurança global. O Boko Haram, embora menos presente no discurso global, tornou-se uma das principais ameaças à segurança regional africana, desestabilizando a bacia do Lago Chade, provocando crises humanitárias e o deslocamento forçado de milhões de pessoas.
Em síntese, a comparação entre o ISIS e o Boko Haram revela que, embora ambos se amparem em uma retórica religiosa radical e recorram a práticas de terror, suas diferenças estruturais, contextuais e estratégicas mostram que o jihadismo contemporâneo não é um bloco homogêneo, mas um fenômeno complexo e multifacetado, adaptado às realidades locais e influenciado por dinâmicas globais.
7. TERRORISMO RELIGIOSO E O MEDO GLOBAL: AMEAÇAS E INCERTEZAS NO SÉCULO XXI
A ascensão de grupos como o Estado Islâmico (ISIS) e o Boko Haram não apenas provocou instabilidade em seus contextos regionais, mas também gerou impactos de escala global, redefinindo o modo como o mundo contemporâneo lida com questões de segurança, identidade e convivência intercultural. O terrorismo religioso, em especial, desperta receios profundos porque mobiliza símbolos sagrados e convicções absolutas como justificativa para a violência, dificultando negociações políticas e tornando o enfrentamento mais complexo do que em conflitos convencionais.
Um dos principais temores relacionados ao jihadismo contemporâneo é sua capacidade de expansão transnacional. Como demonstrado pelo ISIS, mesmo um grupo com base territorial delimitada pode, por meio da propaganda digital e do recrutamento online, inspirar atentados em capitais europeias, asiáticas e africanas, sem necessariamente coordená-los diretamente. Essa “descentralização da violência” torna o terrorismo mais imprevisível e difuso, dificultando as ações preventivas dos Estados.
Além disso, há o risco de radicalização doméstica, sobretudo entre jovens marginalizados em sociedades ocidentais. Muitas vezes, o discurso jihadista encontra eco em experiências de exclusão, discriminação ou crise de pertencimento, convertendo frustrações pessoais em causas militantes. Olivier Roy[2] (2006) alerta que o jihadismo atrai indivíduos “não pela força da fé, mas pela força do ressentimento”, tornando-se uma alternativa existencial destrutiva.
Outro aspecto preocupante é a instrumentalização do medo. O terrorismo religioso não busca apenas matar, mas também provocar pânico, polarização e respostas desproporcionais. Governos, ao reagirem com legislações repressivas ou políticas anti-imigração baseadas em preconceitos, podem reforçar discursos de exclusão e alimentar o ciclo de radicalização. Dessa forma, o terrorismo atua como catalisador de crises políticas e sociais, inclusive em democracias consolidadas.
Por fim, a presença contínua de grupos jihadistas em regiões frágeis, como o Sahel africano, o Iêmen ou o Afeganistão, representa uma ameaça permanente à paz internacional. A cooperação entre Estados, o fortalecimento de instituições locais, o combate à desigualdade e o diálogo inter-religioso tornam-se medidas urgentes não apenas para conter o terrorismo, mas para enfraquecer o terreno em que ele prospera.
Portanto, os receios provocados pelo terrorismo religioso são legítimos, mas não devem conduzir a respostas simplistas ou xenofóbicas. A compreensão profunda das causas, dinâmicas e discursos desses grupos é essencial para a construção de estratégias de prevenção eficazes e duradouras.
8. CONCLUSÃO
O presente artigo buscou analisar o terrorismo religioso a partir de uma abordagem comparativa entre o Estado Islâmico (ISIS) e o Boko Haram, com foco na manipulação do conceito de jihad como ferramenta de legitimação da violência e construção de poder político. Através de uma análise qualitativa baseada em fontes acadêmicas, relatórios institucionais e discursos dos próprios grupos, foi possível compreender como esses atores não estatais mobilizam elementos religiosos, políticos e midiáticos para alcançar seus objetivos estratégicos.
Apesar de compartilharem uma matriz ideológica comum, marcada pelo salafismo jihadista, ISIS e Boko Haram apresentam trajetórias distintas. O primeiro consolidou-se como um projeto de Estado teocrático transnacional, com estrutura organizacional sofisticada e forte presença na comunicação digital. O segundo, embora tenha declarado lealdade ao ISIS, atua principalmente em nível regional, com fragmentação interna e práticas de violência extrema dirigidas a comunidades locais, em especial cristãos e muçulmanos não alinhados.
A comparação entre os dois grupos evidenciou que o jihadismo contemporâneo não é um fenômeno homogêneo, mas sim multifacetado, adaptado a diferentes realidades geopolíticas. Além disso, verificou-se que o terrorismo religioso ultrapassa fronteiras, espalha medo global e desafia diretamente a ordem internacional, exigindo respostas que vão além do militarismo ou da retaliação punitiva.
Diante disso, reforça-se a necessidade de políticas públicas integradas, que combinem segurança, educação, inclusão social e diálogo inter-religioso. Somente por meio de uma abordagem ampla e crítica será possível conter o avanço do extremismo violento e proteger os valores fundamentais da convivência democrática e dos direitos humanos. Como exemplo prático, programas educacionais voltados à prevenção da radicalização, ações coordenadas de segurança regional, políticas públicas inclusivas e investimentos em diálogo inter-religioso têm sido adotados com sucesso parcial em países como a França e a Indonésia. A experiência internacional demonstra que a articulação entre atores estatais, comunitários e religiosos é essencial para conter o avanço da ideologia jihadista e promover a estabilidade em regiões vulneráveis.
REFERÊNCIAS
BYMAN, Daniel. Al Qaeda, the Islamic State, and the Global Jihadist Movement: What Everyone Needs to Know. Oxford: Oxford University Press, 2015. Disponível em: <https://global.oup.com/academic/product/al-qaeda-the-islamic-state-and-the-global-jihadist-movement-9780190217266>. Acesso em: 8 ago. 2025.
HOFFMAN, Bruce. A história do terrorismo: da Antiguidade aos dias de hoje. Rio de Janeiro: Record, 2014. Disponível em: <https://www.record.com.br/produto/a-historia-do-terrorismo/>.
HOFFMAN, Bruce. Inside terrorism. 3. ed. Nova York: Columbia University Press, 2017. 528 p. Disponível em: <https://cup.columbia.edu/book/inside-terrorism/9780231174770>. Acesso em: 8 ago. 2025.
INSTITUTE FOR ECONOMICS & PEACE. Global Terrorism Index 2023. Sydney: IEP, 2023. Disponível em: <https://www.visionofhumanity.org/maps/global-terrorism-index/#/>. Acesso em: 8 ago. 2025.
KEPEL, Gilles. O fracasso do Islã político. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2017. Disponível em: <https://grupoeditorialrecord.com.br/produto/o-fracasso-do-isla-politico/>.
RAPOPORT, David C. The four waves of modern terrorism. In: CRENSHAW, Martha (ed.). Terrorism studies: a reader. New York: Routledge, 2010. p. 6-34. Disponível em: <https://books.google.com.br/books?id=SncWDAAAQBAJ&pg=PA6>.
ROY, Olivier. O Islã mundializado: a busca de um novo ummah. São Paulo: Edições Loyola, 2006. Disponível em: <https://www.loyola.com.br/produto/o-isla-mundializado-a-busca-de-um-novo-ummah-1300>.
SCHMID, Alex; JONGMAN, Albert. Political terrorism: a new guide to actors, authors, concepts, data bases, theories, and literature. New Brunswick: Transaction Publishers, 1988. Disponível em: <https://www.econbiz.de/Record/political-terrorism-a-new-guide-to-actors-authors-concepts-data-bases-theories-literature-schmid-alex-peter/10004859390>. Acesso em: 8 ago. 2025.
APÊNDICE – NOTA DE RODAPÉ
2. Roy (2006) argumenta que muitos jihadistas modernos não são motivados por um fervor religioso profundo, mas sim por ressentimento social, marginalização e busca de significado por meio da violência.
NOTA
Os autores utilizaram a Inteligência Artificial ChatGPT 5 para correção gramatical e buscas para evitar plágios. No entanto, todas as buscas pelos conteúdos e classificação da qualidade dos artigos foram realizadas de maneira autoral.
[1] Mestrando – Centro Internacional de Pesquisa Integralize – Mestrando em Relações Internacionais; Pós-graduação – Curso de Diplomacia, Políticas Públicas e Cooperação Internacional – Centro Universitário Internacional; Pós-graduação – Curso de Especialização em Políticas Públicas e Sociedade – Faculdade Metropolitana; Graduação – Relações Internacionais – Anhembi Morumbi (em andamento); Tecnólogo – Comércio Exterior – Universidade Cruzeiro do Sul. ORCID: 0009-0007-9893-4117. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/6102475102928511.
Material recebido: 01 de agosto de 2025.
Material aprovado pelos pares: 12 de agosto de 2025.
Material editado aprovado pelos autores: 09 de sentembro de 2025.



