Ernst Mahle e uma Reflexão Sobre a Música Contemporânea Brasileira para Violino

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SOUZA, Ana Paula Gomes de [1]

SOUZA, Ana Paula Gomes de. Ernst Mahle e uma Reflexão Sobre a Música Contemporânea Brasileira para Violino. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 01, Ed.01, Vol. 12. pp 19-25 dezembro de 2016. ISSN:2448-0959

RESUMO

Este artigo apresenta o compositor alemão, naturalizado brasileiro, Ernst Mahle através de uma reflexão sobre seu estilo composicional e sua experiência através das mudanças musicais ao longo dos anos. A música pode ser base de influência para a transformação social e cultural em uma sociedade por isso abordaremos como exemplo a importância do repertório contemporâneo de peças brasileiras para violino que são pouco apresentadas em recitais e salas de concertos.

Palavas-chaves: Violino. Sonata 1980, Ernst Mahle, Sonata brasileira, Música Contemporânea, Performance Musical.

 1. INTRODUÇÃO

Ao longo dos anos, a música tradicional tem se desenvolvido exponencialmente e nos dias atuais podemos perceber uma maior procura por parte dos compositores de novos recursos na composição instrumental e vocal. A música clássica brasileira têm acompanhado este crescimento, mesmo que de forma mais tímida, principalmente a música contemporânea instrumental para violino, que ainda é pouco abordada em recitais e salas de concerto. O compositor Ernst Mahle em sua vasta experiência pedagógica, performática e composicional apresenta uma grande contribuição no cenário musical brasileiro.

“A música brasileira vem, pouco a pouco, ganhando mais espaço nas salas de concerto. Esse espaço poderia ser bem maior se os intérpretes se interessassem mais por uma música rica e dedicassem mais tempo a pesquisa de novos repertórios.” (QUEIROZ, Rucker Bezerra de. 2002: p.11)

Na música tradicional e no estudo técnico do violino temos muitos recursos de partituras, áudios e recitais com obras de grande dificuldade técnica e performática. Partindo do princípio de que a música é um organismo vivo em transformação, não podemos limitar a criatividade e inspiração dos compositores atuais em busca da incorporação de elementos rítmicos e melódicos da música folclórica e popular brasileira. Mahle em suas obras para violino, traz características no idioma do instrumento que rementem ao samba, elementos da música armorial e ritmos sincopados. Como exemplo, a Sonata 1980 para violino vem como palco para a apresentação de técnicas de composição, fato consequente de uma procura contínua do compositor por sonoridades diferentes, estas resultantes de um estudo de tipos de escalas variadas, juntamente com a influência da música do Brasil e da obra de Béla Bartók (TOKESHI, 2002).

“A dificuldade do trabalho do intérprete agrava-se, portanto, devido à instabilidade estilística característica da música do século XX. (…) Restam, porém, os fatores subjetivos como o tipo de sonoridade, cor, ênfase de vozes ou motivos, atmosfera e caráter que permanecem sob o controle do intérprete, além dos casos de música que faz uso da improvisação e do aleatório. ” (TOKESHI; BORGHOFF; SILVA, 2001: P. 9 A 11)

2. O COMPOSITOR

Ernst Mahle nasceu em 3 de Janeiro de 1929 em Stuttgart, Alemanha e transferiu-se para o Brasil em 1951, naturalizando-se brasileiro em 1962. Teve uma iniciação musical tradicional aprendendo flauta doce e solfejo na escola primária e violino no ginásio (BARROS, 2002).  Foi aluno de composição de Johann Nepomuk David, na Alemanha; e em São Paulo prosseguiu seus estudos musicais com Hans Joachim Koellreuter; fez outros cursos de pós-graduação na Europa onde esteve sob a orientação de professores como Messiaen, Krenek e Kubelik. Mahle tem desenvolvido uma valiosa atuação no ensino de música em Piracicaba/SP.  Sua preocupação com a área pedagógica dos alunos instrumentistas resultou em composições para quase todos os instrumentos, tendo assim o seu Catálogo de Obras com quase 50 páginas.

Em novembro de 2015 estive em sua residência em Piracicaba/SP onde obtive uma entrevista informal sobre sua vida, atuação pedagógica e obras composicionais. Mahle foi enfático em dizer que não é necessário buscar a manipulação dos modos na música do folclore europeu, pois aqui no Brasil temos os mesmos recursos na música folclórica nordestina.

“Meu estilo de composição é baseado no modalismo, no folclore e no aleatório controlado” (MAHLE, 1995 apud Tokeshi, 2002).

Nessa afirmação, o compositor alemão de nascimento Ernst Mahle (1929 -) descreve seu idioma com características encontradas nas obras mais recentes do seu repertório, que têm sido incorporadas gradualmente em sua linguagem. O resultado tem sido obtido através de um estudo contínuo de diferentes tipos de escalas, juntamente com a influência de obras de Bartók e da música folclórica e popular do Brasil. Como um dos fundadores e professor da Escola de Música de Piracicaba, Mahle sempre demonstrou uma preocupação pedagógica, que aparece refletida em sua produção musical. Inicialmente, suas composições foram escritas para preencher uma lacuna que ele acreditou existir no repertório brasileiro para estudantes de música; contudo, a composição logo se tornou sua principal ocupação. Obras como For Children e Mikrokosmos de Béla Bartók foram fontes de inspiração, pois cumpriam uma função didática mesclando o folclore a um idioma moderno, ainda que dentro de um nível de dificuldade técnica limitado e compreensível aos alunos. Compreendemos que através da evolução dos anos, mudanças políticas e sociais influenciam diretamente a característica de compositores no que diz respeito a trazerem uma nova sonoridade em suas obras. A vivência na transição dos anos faz com que a música nos dias atuais tenha respaldo histórico.

No dia 08 de novembro de 2015, estive visitando o compositor Ernst Mahle em sua residência na cidade de Piracicaba/SP. Arregimentamos informações sobre as influências musicais que o levaram a compor e a sua didática na pedagogia musical, mas logo no primeiro contato pessoal com o compositor houve um fator que transcendeu a visão teórica que tínhamos: a vida.

Refletindo sobre a evolução da música como um todo, dentro de seus 87 anos de vida com grande parte dedicado ao ensino de música, composição e performance, Mahle afirma que nos dias atuais os desafios estão mais difíceis para um músico que deseja viver apenas da performance. “As sinfônicas na Europa estão com muito problema, na Alemanha juntam duas orquestras em uma só porque não tem mais dinheiro. A diferença dos tempos de Mozart com hoje em dia é que os políticos, imperadores, reis e príncipes gostavam da arte. Hoje o governo popular busca música popular para se eleger. Então estamos lutando contra a maré, mas ainda assim há alunos que se dedicam totalmente à performance acima da situação política. Hoje, após a formação, os músicos vão onde ganham mais e podem expandir o seu conhecimento acadêmico e musical. ” – Afirmou o compositor.

Mahle ressaltou a importância de incentivar o jovem e adolescente à introdução musical e artística logo em seus primeiros anos de vida. Lembrando de seus dias de juventude, quando ainda residia em Stuttgart, frequentava o teatro e era possível encontrar cerca de 40 óperas diferentes durante uma temporada. Ainda em sua adolescência sua família mudou-se para a Áustria, fugindo dos latentes rumores de guerra. Durante este período trabalhou em uma fábrica, enquanto seus colegas, todos com 16 anos, foram servir na guerra. “Quase todos morreram” – lembra o compositor com um momento de silencio. Quando a guerra acabou, aquela parte da Áustria ao qual estava radicado com sua família foi tomado pelo exército francês. Todo mês eles enviavam membros do conservatório de música de Paris para concertos e recitais. Ao se deparar com tamanha competência técnica musical e performática, algo o tocou profundamente e disse: “Meu Deus, eu quero isso! ”.  Após esta experiência que foi um marco em sua vida musical, resolveu estudar piano. “Tinha sempre um piano em casa, mas ninguém usava. Eu também não ligava muito, então comprei os estudos de Chopin e as sonatas de Beethoven e comecei a praticar”.

“Teve sua iniciação musical tradicional, aprendendo flauta doce e solfejo na escola primária e violino no ginásio. Desde os tempos da reforma Luterana o ensino de música é uma prática fundamental nas escolas alemãs. ” (GUILHERME ANTONIO SAUERBRONN DE BARROS, 2001: P. 25)

Dona Cidinha conta que seu primeiro contato com o Mahle foi em uma sala de espera na Escola Livre de Música – ProArt em São Paulo. Havia uma aula agendada com um professor alemão, mas ao chegar ele não estava presente. Após uma longa viagem com sua mãe para a aula que não acontecera, a secretária da escola a fez esperar pelo o diretor, Hans-Joachim Koellreuter, conhecido também como um dos fundadores do movimento Música Viva. Enquanto esperava, Mahle adentrou a sala. Logo mais chegou Koellreuter e disse que o professor agendando não ministraria sua aula, mas a convidou para participar na turma de piano-coral e iria iniciar naquele momento. Mahle participava apenas da turma de composição, mas começaram a cantar no coral juntos e após um período começaram a participar dos cursos de férias em Teresópolis/RJ. Casaram-se em Piracicaba e já completaram 60 anos de casamento. Por Mahle ser luterano e Dona Cidinha católica, o casamento precisou ser realizado em sua residência. “As religiões poderiam se unir na caridade” –  afirma Dona Cidinha. Após seu casamento, Mahle obteve um maior contato com composições brasileiras. Como professor e pesquisador, lembra que ao estar na Europa, viajou para Alemanha e escutou a música de Bartók, que durante a segunda guerra, ou antes, era um completo desconhecido. Esteve presente na primeira execução do concerto para violino de Bartók, em Stuttgart.  Este concerto já havia sido tocado na Holanda antes da segunda guerra, mas ainda não havia estreado na Alemanha. Após este primeiro momento, comprou algumas peças musicais para crianças, como  Mikrokosmos de Bartók. Percebeu que no leste da Europa existia um folclore rico em escalas modais e, para a sua surpresa, ao chegar ao Brasil descobriu que no Nordeste exista a mesma característica composicional. Refletindo sobre as transformações musicais que ocorreram ao longo dos anos, relembra: “Villa-Lobos e Guerra Peixe viajaram para o nordeste e tiveram a oportunidade de ouvir o antigo rabecão e a flauta de bambu, mas quando fui a Recife no tempo de carnaval, em cada quarteirão havia um trio elétrico”.

Há 25 anos Mahle trabalha com computador e hoje suas aulas e obras estão 90% editadas. Seu catálogo de obras conta com mais de 50 obras para instrumentos de corda, piano, violão, clarinete e voz.

CONCLUSÃO

Estar diante de um repertório de música brasileira dos séculos XX e XXI remete a uma disposição do intérprete em se desafiar para fora de sua zona de conforto. Acostumados com o convencional, por vezes nos limitamos e esquecemos que a música atual nos dá uma maior liberdade para explorar novas sonoridades do idioma do instrumento, bem como novas técnicas expandidas. Ainda existem muitos repertórios brasileiros para violino, de excelente qualidade técnica e musical, desconhecidos do público. Cabe a nós como performers nos motivarmos à disseminação de novas possibilidades musicais em nosso instrumento.

“A música deveria reconquistar sua total independência, definindo-se por sua própria realidade e sendo o seu próprio objeto. Para Koellreutter, a música nova só venceria se pudesse afastar-se de todos os condicionamentos exteriores, inclusive da ‘obsessão do belo’ (que leva facilmente ao mais violento dos academismos); a nova música deveria também ser a expressão real e sincera de nossa época, mesmo que não refletisse as características do país e de raças”. (NEVES, 2008, p. 141).

REFERÊNCIAS

QUEIROZ, RUCKER BEZERRA DE. Abordagem Analítico-lnterpretativa da Sonatina (1995) para Violino e Piano de Danilo Guanais, 2002.

TOKESHI, E.; As Sonatas e Sonatinas para violino e piano de Ernst Mahle: uma abordagem dos aspectos estilísticos. Per Musi. Belo Horizonte, v.3, 2002. p. 43-56

TOKESHI, E.; BORGHOFF, M. M.; SILVA, E. R. Perspectivas para Interpretação de Obras Inéditas para Instrumentos de Cordas e Piano compostas a partir de 1945. Encontro nacional da associação nacional de pesquisa e pós-graduação em música, 13. 2011, Belo Horizonte. Anais do XIII Encontro Nacional da ANPPOM, Belo Horizonte: Escola de Música da UFMG, 2001. V. I. p. 9-11.

NEVES, JOSÉ MARIA. Música contemporânea brasileira. 2008, p.141.

BARROS, GUILHERME ANTONIO SAUERBRONN DE. Mahle: Biografia comentada. 2001, p.25.

SOUZA, ANA PAULA DE. Entrevista com o compositor Ernst Mahle em sua residência. Piracicaba, São Paulo/SP, 08 de Novembro de 2015.

[1] Mestranda em Música – Universidade Federal do Rio Grande do Norte.

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