Ícone arquitetônico e intervenções artísticas: Lina Bo Bardi

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ARTIGO ORIGINAL

RESENDE, Camila da Costa [1], MELO, Larissa Freire de [2], CARRARA, Maria Clara Souza [3], LIMA, Patrícia Gomes de Oliveira [4], OLIVEIRA, Antonio Elizio de [5], CORREIA, Elisabete Alves Kropf [6], LOPES, Gilberto Sousa [7], MEDEIROS, Verônica Silva Costa [8]

RESENDE, Camila da Costa. Et al. Ícone arquitetônico e intervenções artísticas: Lina Bo Bardi. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 08, Vol. 02, pp. 39-64. Agosto de 2019. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/arquitetura/icone-arquitetonico

RESUMO

Lina Bo Bardi foi uma Arquiteta e Urbanista ítalo-brasileira que se tornou um ícone arquitetônico devido ao admirável e inovador trabalho realizado durante sua carreira, sendo uma importante referência da história da arquitetura brasileira. Lina abriu fronteiras para a participação das mulheres em diversos campos de atuação no Brasil. Seus trabalhos eram de ideias fortes, superavam o formalismo e contemplavam a arte popular, tornando-os convidativos para que o público fizesse parte de cada espaço existente neles. Lina possui muitas obras famosas no Brasil, sendo as principais: a Casa de Vidro, o MASP e o SESC Pompeia.

Palavras-chave: Lina Bo Bardi, arquiteta, urbanista, ícone arquitetônico, Casa de Vidro.

1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho aborda questões relacionadas à ícones arquitetônicos e intervenções artísticas, a fim de apresentar a biografia e a linha do tempo da Arquiteta e Urbanista Lina Bo Bardi, a qual é um ícone arquitetônico modernista brasileiro. Este estudo busca mostrar a metodologia de trabalho de Lina e sua importância para a arquitetura brasileira.

Além disso, o estudo aprofunda em alguns de seus principais projetos, como, também, expõe o nome de suas principais exposições. As obras analisadas neste trabalho são: a Casa de Vidro, o MASP e o SESC Pompeia, todos projetados por Lina e construídos na cidade de São Paulo.

A proposta para este trabalho é integrar toda a teoria e prática estudada em sala de aula, a fim de enriquecer conhecimentos, o que contribui para a formação acadêmica. A metodologia aplicada para o desenvolvimento do trabalho foi pesquisa bibliográfica.

2. BIOGRAFIA DE LINA BO BARDI

Achillina Bo (Lina Bo Bardi) nasceu em Roma no dia 05 de dezembro de 1914, filha de Enrico e Giovanna, uma família da cidade italiana de Génova. Lina morou durante vários anos em Roma, onde formou-se na Faculdade de Arquitetura, com o trabalho de graduação “Núcleo Assistencial da Maternidade e da Infância”, em 1939.

Marcelo Carvalho Ferraz é arquiteto e, em 1977, quando cursava a FAU, começou a estagiar com Lina Bo Bardi, permanecendo com ela durante 15 anos. Segundo Ferraz (2011), em seu livro “Arquitetura Conversável”, Lina foi uma mulher forte, de uma inteligência incansável e contraditória, que dirigia obras com imensa autoridade, que não gostava de férias, que discutia exaustivamente tudo e que acreditava que é preciso descobrir a nossa maneira de ser e estar no mundo e trabalhar por ele. Ele diz que a Arquiteta gostava de inovar no sentido de experimentar as coisas com liberdade, sem dogmas. Para ele, “Lina foi uma guerreira contra a implantação de modelos prontos e acabados”.

De acordo com o CAU, Lina “é um nome que representa inspiração a Arquitetas e Urbanistas de vários cantos do país”. Conforme esse Conselho, a Arquiteta e Urbanista também foi uma artista multifacetada, pois atuou como: ilustradora, cenógrafa, designer, escritora, curadora e artista visual. Com isso, Lina abriu fronteiras para a participação política, intelectual e de oportunidades das mulheres no Brasil.

A Arquiteta e Urbanista foi uma ativista da resistência ao nazi-fascismo na Itália, durante a Segunda Grande Guerra, ela enfrentou um período difícil após seu escritório ter sido bombardeado. Relacionado a isso, também de acordo com o CAU, ela disse a seguinte frase:

Aqueles que deveriam ter sido anos de sol, de azul e alegria, eu passei debaixo da terra, sob bombas e metralhadoras. Senti que o único caminho era o da objetividade e da racionalidade. Sentia que o mundo podia ser salvo, que esta era a única tarefa digna de ser vivida. Entrei na resistência, com o Partido Comunista clandestino. (BARDI, 1943)

Depois, em 1946, Lina mudou-se para o Brasil (figura 1), desejando primeiramente morar no Rio de Janeiro, pois era apaixonada pela natureza e arquitetura da cidade, porém acabou indo morar em São Paulo. Nos anos de 1960/1970, participou imensamente do movimento da contracultura e da luta contra a ditadura militar no Brasil.

Figura 1 – Chegada do casal Bardi no Brasil.

(Fonte: MLopomo. Pietro e Lina – Casados e amantes das Artes. Disponível em: História Contemporânea)

Lina Bo Bardi faleceu, de causas naturais, com 77 anos no dia 20 de março de 1992, na Casa de Vidro, localizada no bairro Morumbi em São Paulo, onde ela morou por mais de 40 anos.

3. LINHA DO TEMPO

Um ano após formar-se, em 1940, Lina mudou-se para Milão em busca de realização profissional, luta política e liberdade. Atuou durante três anos no estúdio “Bo e Pagani”, com o Arquiteto Carlo Pagani. A Arquiteta participou da fundação da Organização dos Arquitetos Associados, transformada depois no “Movimento Studi Architettura”, núcleo milanês de reconstrução racionalista.

Em 1943, a sede de seu escritório sofreu um bombardeio, durante a Segunda Guerra Mundial. No período, inconformada com a situação política no país e no continente europeu, Lina militou contra o regime chefiado por Benito Mussolini.

Em 1946, Achillina mudou-se para a Roma, casou-se com Pietro Maria Bardi (museólogo, crítico e historiador da arte, jornalista, marchand, colecionador e professor), com o qual no final do ano viajou para a América do Sul. Chegando ao Brasil, eles foram recebidos no IAB e conheceram diversos ícones arquitetônicos, como Oscar Niemeyer, Burle Marx e Irmãos Roberto, por exemplo.

Ao chegar no Brasil, o casal Bardi foi convidado a ficar no país para fundar e dirigir o MASP, que foi instalado provisoriamente no segundo andar da sede dos Diários Associados, em 02 de outubro desse mesmo ano. Lina projetou a adaptação do edifício para o Museu. Além disso, ela projetou uma nova sede para os Diários Associados.

Em 1948, Lina fundou o Studio de Arte e Arquitetura Palma, que reunia, junto a ela, Pietro Maria Bardi e Giancarlo Palanti (arquiteto, urbanista e designer ítalo-brasileiro), em um edifício projetado pelo arquiteto polonês Lucjan Korngold. Em 1950, ela fundou a Habitat – Revista das Artes no Brasil, e dirigiu-a em 13 edições. Com a colaboração de Giancarlo Palanti, a Arquiteta projetou reformas no edifício onde se encontra o MASP, para melhor acomodá-lo, passando a ocupar dois andares.

Segundo informações encontradas no Instituto Bardi, Lina Bo Bardi naturalizou-se brasileira em 1951, dizendo:

Quando a gente nasce, não escolhe nada, nasce por acaso. Eu não nasci aqui, escolhi este lugar para viver. Por isso, o Brasil é meu país duas vezes, é minha ‘Pátria de Escolha’, e eu me sinto cidadã de todas as cidades, desde o Cariri, ao Triângulo Mineiro, às cidades do interior e às da fronteira. (BARDI, 1951)

Juntamente com Pietro, Lina cria e dirige o Curso de Desenho Industrial no IAC. Ela projeta e constrói sua residência, conhecida como a “Casa de Vidro”, no novo bairro paulistano do Morumbi. A Arquiteta promoveu ações que atualizaram a moda em São Paulo, em relação ao panorama internacional, e levou até lá palestras e desfiles europeus de coleções de estilistas. Bo Bardi iniciou trabalhos para desenvolver uma “Moda Brasileira”. Em 1952 ela promoveu o Primeiro Desfile de Moda Brasileira com tecidos desenvolvidos especialmente para o clima.

No período de 1955 à 1957, Lina atuou como docente da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. Logo após, redigiu a tese Contribuição Propedêutica ao Ensino da Teoria da Arquitetura, para o concurso da cátedra de Teoria da Arquitetura, na FAU-USP.

Em 1957 o prédio Trianon foi demolido e Lina Bo Bardi iniciou o projeto da segunda sede do MASP para ocupar o seu terreno. Porém, a obra viria a ser inaugurada apenas em 1968, quando tornou-se um dos marcos mais icônicos da arquitetura Brasileira.

Em 1958, a Arquiteta foi para Salvador para dar conferências na Escola de Belas Artes da Universidade da Bahia. Depois retornou à cidade para atuar no Curso de Arquitetura e Urbanismo. Já em 1959, ela foi convidada pelo governador da Bahia para dirigir o MAM-BA, onde ela realizou várias exposições até 1963, quando, após a conclusão do restauro do Solar do Unhão, a arquiteta transferiu para lá o MAM-BA. Lina fundou o Museu de Arte Popular do Unhão. Durante esse tempo, ela fez diversos trabalhos pela Bahia.

Segundo o Arquiteto Marcelo Carvalho Ferraz, em 1964 Lina foi obrigada a abandonar a Bahia e seus sonhos, pois respondeu a um processo nos anos negros do movimento militar sobre suas “atividades subversivas”.

Em 1966, Lina retomou o acompanhamento das obras do MASP na Avenida Paulista, desenvolvendo adaptações e detalhamentos do projeto, ele foi inaugurado em 1968. Entre 1970 e 1991 ela realizou muitas arquiteturas cênicas e exposições de obras em museus, principalmente no MASP. Além disso ela executou diversas outras obras, as quais serão citadas neste estudo.

Lina veio a falecer em 1992, em um momento de rica produção em curso e diversos outros projetos em mente.

4. METODOLOGIA DO TRABALHO

De acordo com vários importantes ícones da arquitetura, Archillina é, até os dias atuais, uma referência muito importante da história da arquitetura brasileira. A Arquiteta foi uma figura feminina forte, de ideias vanguardistas, tropicalista, de conceitos sólidos, de muita expressão artística, cética projetista e pensadora moderna. Lina aplicou seu estilo de arquitetura moderno, porém diretamente ligado com a cultura popular da cidade. Mesclando isso, se formaram os traços de sua arquitetura.

Em seus projetos, Bo Bardi mostrava claramente o impacto do encontro de sua formação erudita com a busca de fortes raízes culturais brasileiras: racionalismo e economia de meios com falta de recursos tecnológicos. Seus trabalhos ultrapassaram as paredes dos edifícios, passando pelos jardins, móveis, design de objetos, roupas até chegar no público, nas intervenções urbanas, transformando entornos e convidando a todos para fazerem parte dos espaços.

A arquitetura de Lina sempre seguiu contemplando a arte popular. A Arquiteta se dedicou aos projetos públicos e coletivos, o único tipo de edificação particular que ela fez foi casa para amigos. Para ela, arquitetura não era apenas uma utopia, era vida, algo que contempla a alma, o espírito e a plenitude. No documentário “Lina Bo Bardi”, dirigido por Aurélio Michiles e lançado em 1993, um ano após a morte da Arquiteta, ela afirma “No fundo, vejo a arquitetura como serviço coletivo e como poesia. Alguma coisa que nada tem a ver com arte, uma espécie de aliança entre dever e prática científica” (BARDI, 1992).

De acordo com o Arquiteto Marcelo Carvalho Ferraz, ao optar pelos projetos coletivos, Lina decidiu trabalhar dentro do canteiro de obras, ela montava seu escritório num barraco e ali desenvolvia o projeto, paralelamente ao andamento da obra.

Marcelo diz, ainda, que há uma infinidade de leituras das obras tão ricas de Lina. Sendo assim, ele acentua cinco pontos fundamentais para sua compreensão:

  • O primeiro deles é o de “ideias fortes”, que eram tomadas como alimento espiritual, que vinham antes do projeto formal ou físico;
  • O segundo é “a superação do formalismo e a introdução ou aceitação da dissonância na arquitetura”, que é o combate dos dogmas e conceitos fechados de arquitetura moderna e pós-moderna, o abandono da preocupação formal com a beleza, ela se preocupava com a poesia que a obra iria passar;
  • O terceiro ponto é “a ideia de convivência do rigor com a liberdade”, que é a libertação das ‘amarras’ sem simplesmente jogar fora o passado e toda sua história, mas considerar o passado como um presente histórico e saber distinguir o que irá servir para as situações de hoje;
  • O quarto ponto é “a ligação entre arquitetura e teatro”, que são as situações-limites levadas às últimas consequências pelo teatro, que ajudam o bom observador arquiteto a projetar os espaços onde a vida se dará;
  • O quinto ponto é o “olhar antropológico”, que são as observações mais variadas sobre os temas e que acabavam por transparecer em seus projetos.

O estilo de Lina Bo Bardi empregava a ideia de espaços inacabados, que poderiam ser facilmente aderidos para a ocupação popular e presença humana.

5. PRINCIPAIS OBRAS

A Arquiteta foi bastante envolvida em obras públicas, voltadas para a construção de teatros, espaços de cultura e lazer. Apresentaremos a seguir algumas de suas principais obras:

I. Casa de Vidro (Casa do Morumbi)

A Casa de Vidro foi a primeira obra concretizada de Lina Bo Bardi, ela a chamava de Casa do Morumbi. Localizada no bairro Morumbi em São Paulo, sua construção foi iniciada em 1950 e finalizada em 1951 e foi a morada de Lina e Pietro por mais de 40 anos. A figura a seguir é referente a um croqui desenvolvido pela Arquiteta Lina Bo Bardi no início do projeto da Casa de Vidro:

Figura 2 – Croqui da Casa de Vidro.

(Fonte: BLOG DA ARQUITETURA. Conheça todos os detalhes da Casa de Vidro, de Lina Bo Bardi. Disponível em: Blog da Arquitetura)

A residência (figura 3), que tem 7000m² de terreno, flutua sobre finos pilares, é “invadida” pelas plantas e tem um enorme jardim em seu entorno, o qual foi tombado pelo CONDEPHAAT na década de 80. No exterior da casa, todas as paredes são de vidro, já em seu interior, são utilizados materiais opacos. Com isso, se tornou um ícone da arquitetura moderna brasileira e é um grande exemplo de experimentação que marcou a época. Além do vidro, Lina usou bastante o aço e conseguiu trazer uma leveza para a sua construção.

Figura 3 – Casa de Vidro.

(Fonte: HARADA, Ana Carolina. A história da Casa de Vidro, de Lina Bo Bardi, no Morumbi. Disponível em: CASACOR)

A Arquiteta teve extremo respeito com a natureza local e desenhou o projeto respeitando o terreno inclinado e a vasta vegetação que predominava na área. A iluminação durante o dia é completamente natural, já durante a noite, vem de luzes no piso azul (figura 4) e de luminárias nas paredes desenhadas pela própria Lina.

Figura 4 – Sala de jantar da Casa de Vidro, com piso azul.

(Fonte: Dell Anno. Lina Bo Bardi na Casa de Vidro Disponível em: Dell Anno)

A casa possui uma estrutura vertical feita com tubos de aços que formam os pilotis da residência, os mesmos passam pela laje do piso superior e vão até a laje de coberta. Ambas as lajes são de concreto armado. Esses detalhes fazem com que vejamos a casa como uma caixa transparente flutuando em meio a natureza.

Com o intuito de desfrutar dos aspectos naturais, como: o nascer e o pôr do sol, as chuvas e tudo que a natureza pode proporcionar, o casal Bardi buscou ter um constante contato com a natureza. Sendo assim, Lina projetou (figuras 5 e 6) a casa de vidro abusando da interação com o meio ambiente.

Figura 5 – Planta Baixa da Casa de Vidro.

(Fonte: BLOG DA ARQUITETURA. Conheça todos os detalhes da Casa de Vidro, de Lina Bo Bardi. Disponível em: Blog da Arquitetura)

Figura 6 – Fachadas leste e sul da Casa de Vidro.

(Fonte: BLOG DA ARQUITETURA. Conheça todos os detalhes da Casa de Vidro, de Lina Bo Bardi. Disponível em: Blog da Arquitetura)

A Casa de Vidro é dividida em dois espaços, o primeiro é no térreo, onde há uma grande área livre e a garagem do casal Bardi. Nessa área, na parte frontal existem alguns pilares finos que sustentam a parte superior, já a parte posterior é fechada por paredes. No centro desse espaço há uma árvore remanescente da vegetação local, a qual é alta, o que faz ela passar por dentro da construção na parte superior (figura 7).

Figura 7 – Árvore central da Casa de Vidro.

(Fonte: HOJE, EU QUERO. Casa de Vidro – Lina Bo Bardi. Disponível em: Hoje, eu quero…)

Esse espaço superior é dividido em duas partes. A parte frontal não contém paredes, mas sim grandes aberturas de vidro que permitem o contato com o ambiente exterior. Essa parte é composta por uma enorme sala de estar e jantar (figura 4) e uma biblioteca. Na parte posterior, as paredes mantêm a privacidade dos cômodos. Nela encontra-se a cozinha industrial (figura 8), a área dos dormitórios e a área de serviços.

Figura 8 – Cozinha Industrial da Casa de Vidro

(Fonte: VIVA DECORA PRO. Os segredos por trás da Casa de Vidro Lina Bo Bardi. Disponível em: VIVA DECORA PRO)

Uma escada feita de aço e degraus de granito é o acesso principal da garagem para o andar superior da casa (figura 9).

Figura 9 – Escada da Casa de Vidro.

(Fonte: INSTITUTO BARDI. Casa de Vidro: Visitação. Disponível em: INSTITUTO BARDI)

O pátio da casa é o elemento principal que proporciona o conforto e uma boa ventilação para todos os cômodos. O jardim não é de vegetação nativa, Lina foi aos poucos transformando o local, que até então tinha uma vegetação pouco desenvolvia, até possuir um belíssimo bosque.

A Casa de Vidro virou um patrimônio histórico pelo IPHAN em 2007. Atualmente, a residência abriga o Instituto Lina Bo e P. M. Bardi e é aberta ao público, com visitas agendadas. O local realiza estudos e pesquisas voltados para a arquitetura, além de reunir um acervo pessoal do casal. Eventualmente são realizados exposições, palestras e encontros do setor arquitetônico, tudo aberto ao público.

II. MASP – Museu de Arte de São Paulo

O MASP (figura 10) foi fundado em 1947 pelo empresário Assis Chateaubriand, sob direção de Pietro Maria Bardi e que teve o projeto arquitetônico desenvolvido por Lina Bo Bardi. Ele foi o primeiro museu moderno do Brasil, é privado e sem fins lucrativos. O edifício é tombado pelas três instâncias de proteção ao patrimônio: IPHAN, CONDEPHAAT e CONPRESP.

Primeiramente, ele foi instalado na rua 7 de Abril, no centro da cidade. Em 1968 o museu foi transferido para a atual sede na Avenida Paulista, mais famoso projeto de Lina Bo Bardi. Com base no uso do vidro e do concreto, Lina conciliou em sua arquitetura as superfícies ásperas e sem acabamentos com leveza, transparência e suspensão. O edifício abrange aproximadamente 10 mil m², contendo uma enorme praça no nível da Avenida, dois andares abaixo e outros dois acima deste nível.

Figura 10 – MASP. MASP

(Fonte: PAIXÃO, Luciana. 10 curiosidades sobre obra e vida de Lina Bo Bardi. Disponível em: A Arquitetura)

O que mais se destaca no exterior do museu são as grandes colunas vermelhas de sustentação, transmitindo uma imagem de uma grande caixa pendurada em duas traves e formando um vão livre embaixo do museu. Esse grande e popular “vão livre” foi projetado desta maneira pois nada poderia tampar a paisagem da Avenida Nove de Julho e foi planejado como uma praça para uso da população.

Além das duas enormes vigas vermelhas que há em cima da construção, existe outra dupla de vigas internas. Essas, por sua vez, são muito mais sobrecarregadas do que as visíveis, pois, segundo Marcelo Suzuki e Roberto Rochlitz (autores do site o site aU Educação):

…suportam as cargas de dois andares internos – cada um com 2 mil m² de área útil, com cargas que somam arquivos, pessoas que trabalham ou visitam o prédio, o acervo que tem até esculturas maciças em mármore que hora podem estar expostas em um local e hora em outro. (SUZUKI e ROCHILITZ, 2014)

O acabamento do edifício é bem simples: o concreto é aparente; o piso do vão livre é de pedra- goiás, que é antiderrapante e provoca baixa retenção de temperatura; e em volta de todo o edifício foi utilizado vidro temperado.

No vão livre (figura 11), há uma pequena recepção e escadas que dão acesso às outras partes do museu. Na parte inferior do MASP, nos dois níveis abaixo da praça, há um extenso hall cívico (um palco de reuniões públicas e políticas), um teatro, um pequeno auditório com sala de projeção, um depósito e uma sala de manutenção. Na parte superior do MASP, nos dois níveis acima da praça, há um hall de circulação, uma pinacoteca, um ambiente para exposições temporárias e exposições particulares (figura 12) e uma sala administrativa.

Figura 11 – Vão livre do MASP.

(Fonte: HOLANDA, Marina. Clássicos da Arquitetura: MASP / Lina Bo Bardi. Disponível em: Archdaily)

Figura 12 – Ambiente para exposições.

(Fonte: BRASIL. Lina Bo Bardi: A mulher que marcou a Arquitetura brasileira. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2018. Disponível em: CAU)

Na pinacoteca (figura 13), há cavaletes de cristal, que permitem ao público um convívio mais próximo com o acervo, uma vez que ele pode escolher o seu percurso entre as obras, contorná-las e visualizar o seu verso. Cavaletes esses que foram criados para expor toda a coleção, a qual atualmente reúne mais de 10 mil obras, incluindo pinturas, esculturas, objetos, fotografias, vídeos e vestuário de diversos períodos, abrangendo a produção europeia, africana, asiática e das Américas. Também há uma ampla programação de exposições coletivas e individuais no local.

Figura 13 – Pinacoteca do MASP.

(Fonte: ABRAVIDRO. Cavaletes de vidro enriquecem acervo do Masp. Disponível em: ABRAVIDRO)

Além dos espaços expositivos e da pinacoteca, o MASP contém: biblioteca, fototeca, filmoteca, videoteca, dois auditórios, restaurante, loja, oficinas, ateliê, espaços administrativos e reserva técnica (CARVALHO, 2012). Nele foram inauguradas escolas de gravura, pintura, design industrial, escultura, ecologia, fotografia, cinema, jardinagem, teatro, dança e até moda (HOLANDA, 2012).

As figuras a seguir são referentes às plantas do MASP:

Figura 14 – Planta baixa do andar 2 do MASP.

(Fonte: ARQUITETURA BRUTALISTA. Ficha Técnica MASP. Disponível em: Arquitetura Brutalista)

Figura 15 – Planta baixa do andar 1 do MASP.

(Fonte: ARQUITETURA BRUTALISTA. Ficha Técnica MASP. Disponível em: Arquitetura Brutalista)

Figura 16 – Planta baixa do vão livre do MASP.

(Fonte: ARQUITETURA BRUTALISTA. Ficha Técnica MASP. Disponível em: Arquitetura Brutalista)

Figura 17 – Planta baixa do andar -1 do MASP

(Fonte: ARQUITETURA BRUTALISTA. Ficha Técnica MASP. Disponível em: Arquitetura Brutalista)

Figura 18 – Planta baixa do andar -2 do MASP

(Fonte: ARQUITETURA BRUTALISTA. Ficha Técnica MASP. Disponível em: Arquitetura Brutalista)

Em documentário sobre a arquiteta, ela fez uma afirmação acerca do MASP: “Não procurei a beleza, e sim a liberdade. Os intelectuais não gostaram, mas o povo gostou.” (BARDI, 1992).

Além de tudo, o MASP foi um dos primeiros espaços museológicos do continente a atuar com perfil de centro cultural, e foi o primeiro museu do país a acolher as tendências artísticas surgidas após a Segunda Guerra Mundial.

III. SESC POMPEIA

O SESC da Vila Pompeia (figura 19), Zona Oeste de São Paulo, é outro marco na carreira da Arquiteta Lina Bo Bardi. Ele foi projetado em 1970 e inaugurado apenas em 1982, sendo uma de suas obras mais paradigmáticas. Esse edifício clássico é um magnífico complexo arquitetônico, reconhecido internacionalmente.

Figura 19 – SESC Pompeia.

(Fonte: FRACALOSSI, Igor. Clássicos da Arquitetura: SESC Pompeia/Lina Bo Bardi. Disponível em: Archdaily)

Ele foi projetado a partir de uma antiga fábrica de tambores (figura 20), construída em 1938. Nela, havia galpões que remetiam a projetos ingleses do início da industrialização, que foram usados como base para a construção do novo edifício. Com sua linguagem industrial original, em sua construção, o SESC teve bruscas mudanças de escala. Além dos antigos galpões da fábrica, ele contém três torres principais (duas retangulares e uma cilíndrica) moldadas em concreto aparente (figura 19), projetadas por Lina para abrigar atividades esportivas e culturais.

Figura 20 – Galpões da antiga Fábrica de tambores.

(Fonte: MELLO, Daniel. Hoje São Paulo. Disponível em: Hoje São Paulo)

Apesar da reforma e das novas torres construídas, Lina presou por deixar os vestígios da antiga fábrica evidentes, conservando suas paredes, pisos, telhados e estruturas. Também, as novas edificações reforçavam um pouco esse ambiente fabril.

Essas torres, por sua vez, são bastante diferentes de tudo o que costumava ver na época, uma delas tem buracos em formatos variados que servem como janelas; outra tem janelas quadradas aleatórias nas fachadas; já a torre cilíndrica, é marcada por um “rendado” em seu aspecto exterior (figura 19).

De acordo com o Jornal Extra da Globo, quando Lina foi à fábrica pela segunda vez, encontrou crianças jogando futebol, mães preparando churrasquinhos e um teatro de bonecos. Sua vontade era que tudo continuasse do mesmo jeito, então surgiram as propostas para o SESC Pompeia.

Nele há piscinas e miniginásios esportivos para diferentes modalidades, empilhados uns sobre os outros, nos andares dos prismas de concreto armado. Ele conta também com um teatro, além de uma espaçosa área de convivência (figura 21), que é um lugar onde não há muito o que fazer, é simplesmente para o convívio das pessoas. Tudo isso, faz da antiga fábrica um equipamento urbano, um espaço de múltiplo uso, um centro cultural, de lazer, aprendizagem e serviço.

Figura 21 – Ambiente para convívio do SESC Pompeia.

(Fonte: BRAZIL, Thais. SESC Pompéia: um reduto de lazer. Disponível em: É Tudo Cultura)

O edifício inclui ainda: restaurante, choperia, lanchonete, espaços de exposição, biblioteca, área de vídeo, oficinas de artes (figura 22), ateliês, laboratório fotográfico, piscina aquecida com deck solário, salas de dança e consultórios odontológicos.

Figura 22 – Oficina gratuita no SESC Pompeia.

(Fonte: PASSEIOS KIDS. Sesc Pompeia promove oficinas gratuitas de férias para a criançada. Disponível em: Passeios Kids)

Lina quis incentivar o esporte recreativo, com uma piscina em forma de praia para as crianças pequenas ou para as pessoas que não sabem nadar; quadras esportivas com alturas mínimas abaixo das exigidas pelas federações de esporte que, sendo assim, são inadequadas à competição. (FERRAZ, 2011)

Entre os dois prismas retangulares, há oito passarelas de concreto protendido aparente (figura 23), em vãos de até 25 metros de comprimento. Abaixo dessas passarelas, passa o córrego “Água Preta”, o qual parte dele fica oculto pela sobreposição de um pier de madeira. Já do prisma cilíndrico para os retangulares, a conexão é feita apenas pelo térreo.

Figura 23 – Planta baixa da parte projetada por Lina no SESC Pompeia.

(Fonte: FRACALOSSI, Igor. Clássicos da Arquitetura: SESC Pompéia/Lina Bo Bardi. Disponível em: Archdaily)

Figura 24 – Planta baixa do SESC Pompeia.

(Fonte: FRACALOSSI, Igor. Clássicos da Arquitetura: SESC Pompéia/Lina Bo Bardi. Disponível em: Archdaily)

Com aspectos rústicos, Lina abusa do contraste de cores e traz certo tom de delicadeza para a obra. Além do projeto arquitetônico, a Arquiteta desenvolveu o mobiliário de dentro do complexo. Na época essa atitude foi considerada revolucionária e inédita por muitos. Ela elaborou uma cadeira (figura 25) especialmente para o local, a qual virou um item colecionador e pode ser encontrada na loja do SESC Pompeia.

Figura 25 – Cadeira projetada por Lina.

(Fonte: DIAS, Bruno e ABASCAL, Eunice Helena Sguizzardi. Sesc Pompeia, Casa de Vidro e Masp. Disponível em: Vitruvius)

Lina desejou entregar à população a mais completa beleza e cultura possível, porém preservando ao máximo o estilo da fábrica de tambores. Pois, como ela disse:

Preservar a fábrica é preservar um pedaço da história da cidade, mas um pedaço da história como ela é mesmo, sem disfarces. Nada daquele conceito de que só deve permanecer o que é belo. O que é típico deve ser valorizado. Mesmo que seja simples, como seria obrigatoriamente uma fábrica de tambores. (BARDI, 1977)

Carinhosamente, a arquiteta chamou o projeto de “Cidadela da Liberdade”. O SESC Pompeia se tornou uma referência muito marcante na história da arquitetura brasileira. O jornal “The Guardian” (jornal diário, nacional britânico) colocou o SESC Pompéia de Lina Bo Bardi como sexto colocado no mundo na categoria de construções em concreto.

Atualmente, nos galpões funcionam: choperia, restaurante, teatro, oficina, biblioteca e os ateliês da unidade. O SESC Pompeia é um dos espaços culturais de maior visitação de São Paulo e, certamente, é um ícone da arquitetura brasileira.

6. PRINCIPAIS EXPOSIÇÕES

De acordo com vários importantes ícones da arquitetura, nas exposições de Lina Bo Bardi estavam presentes: exuberância, choque, revelação, recriação, rigor, simplicidade, dignidade e sofisticação. Lina comunicava através de suas exposições, de maneira poética, teatral e completa.

Algumas de suas principais exposições foram:

I. Nós e o Antigo, em 1948;

II. Bahia no Ibirapuera, em 1959;

III. Degas, em 1960;

IV. Formas Naturais, em 1960;

V. Nordeste, em 1963;

VI. Repassos, em 1975;

VII. Design no Brasil – História e Realidade, em 1982;

VIII. O Belo e o Direito ao Feio, em 1982;

IX. Mil Brinquedos para a Criança Brasileira, em 1983;

X. Caipiras, capiaus: Pau-a-Pique, em 1984;

XI. Entreato para Crianças, em 1985;

XII. África Negra, em 1988.

7. CONCLUSÃO

O presente trabalho foi desenvolvido acerca de Archillina Bo (1914-1992), ícone arquitetônico modernista brasileiro. Este estudo teve como objetivo apresentar a biografia da Arquiteta e Urbanista Lina Bo Bardi, dissertar sobre sua metodologia de trabalho e demonstrar alguns de seus principais projetos. Com as pesquisas realizadas, conclui-se que Lina foi a mulher que marcou a arquitetura brasileira e que inspirou e encorajou diversas outras mulheres a entrarem nesse ramo.

Com a análise das obras: Casa de Vidro, MASP e SESC Pompeia, pode-se concluir que Lina Bo Bardi sempre projetou pensando no uso coletivo dos locais, além de dedicar toda a sua atenção a cada detalhe de seus projetos. Com isso, muitos de seus projetos são conhecidos e admirados mundialmente, o que faz da Arquiteta um grande ícone arquitetônico.

Este trabalho foi muito enriquecedor tanto do ponto de vista individual quanto do acadêmico, pois nos fez conhecer melhor a trajetória de Lina Bo Bardi, aprender sobre seu estilo arquitetônico, compreender suas obras e despertar interesses na área de projetos coletivos.

REFERÊNCIAS

BARATTO, Romullo. Em foco: Lina Bo Bardi. Disponível em: <https://www.archdaily.com.br/br/758576/em-foco-lina-bo-bardi>. Acesso em: 07 de setembro de 2018.

BRASIL. Lina Bo Bardi: A mulher que marcou a Arquitetura brasileira. Diário Oficial da União, Brasília, DF, 2018. Disponível em: <http://www.caubr.gov.br/lina-bo-bardi-a-mulher-que-marcou-a-arquitetura-brasileira/>. Acesso em: 27 de agosto de 2018.

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[1] Acadêmica em Arquitetura e Urbanismo.

[2] Acadêmica em Arquitetura e Urbanismo.

[3] Acadêmica em Arquitetura e Urbanismo.

[4] Acadêmica em Arquitetura e Urbanismo.

[5] Especialização em Especialização Lato Sensu em Gestão Empresarial Estratégica; Graduação em Engenharia Elétrica.

[6] Graduação em Arquitetura e Urbanismo; Especialização em Conforto e Edificações Sustentáveis; Especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho.

[7] Graduação em Engenharia Eletrônica. Especialização em Matemática.

[8] Graduação em Arquitetura e Urbanismo. Mestrado em tecnologias para o desenvolvimento sustentável.

Enviado: Fevereiro, 2019.

Aprovado: Agosto, 2019.

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