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Ambiente urbano e sua relação com a cidadania: uma revisão integrativa

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CONTEÚDO

REVISÃO INTEGRATIVA

VENDRAMIM, Alef William [1]

VENDRAMIM, Alef William. Ambiente urbano e sua relação com a cidadania: uma revisão integrativa. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 07, Ed. 08, Vol. 01, pp. 31-45. Agosto de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/arquitetura/ambiente-urbano

RESUMO

Tendo em vista o atual modelo social baseado no trabalho e consumo, se chega à ideia de um modelo cívico. Esse tem como prioridade o esclarecimento e participação da população nas decisões sobre seu próprio futuro, algo que se aproxima de uma democracia direta. A partir de então, tem-se como questão norteadora: qual a relação do ambiente urbano e a cidadania? Então, o objetivo é trazer características ambientais que contribuam com o modelo cívico, na tentativa de aprofundar a cidadania. Isso ocorre através, inicialmente, da conceituação desse modelo cívico, em seguida trata do problema da ilegibilidade da percepção ambiental em nossas cidades, e por fim, traz artigos que tratem do tema para discussão, através do método Systematic Search Flow (SSF), sendo uma revisão bibliográfica sistematizada integrativa. Os resultados apontam como características importantes a visibilidade do entorno, densidade demográfica relativamente alta, e destaca espaços abertos, flexíveis, permeáveis e contínuos contra desníveis, espaços excessivamente lineares e transições não graduais. Através das discussões, e das características ambientais resultantes, intenciona-se estimular meios de engajamento, no qual o espaço público seja apropriado, percebido como coletivo e que os cidadãos se sintam responsáveis por ele.

Palavras-chave: Cidadania, Espaço público, Características ambientais.

1. INTRODUÇÃO

Tendo em mente uma sociedade globalizada com aprofundamento numa lógica econômica consumista, com consequente aumento da desigualdade, competitividade excessiva e atomização do indivíduo, se faz cada vez mais necessário, como diz Milton Santos (2011), um novo modelo cívico.

Esse modelo cívico deve possuir autonomia e estar acima do modelo econômico. Esse último, atualmente, gera um cotidiano implacável e necessário para a atual reprodução material, que molda de acordo com seus valores e imobiliza a ação do cidadão pela escassez, principalmente, de tempo e recursos financeiros, sendo este incentivado a continuar no ciclo da produção e consumo (SANTOS, 2011).

Isso gera uma excessiva competitividade e economização da vida social, sendo o cidadão substituído pelo consumidor, e o resultado é que “[…] reduz a possibilidade dos encontros interpessoais diretos e enriquecedores […]” (SANTOS, 2011), gerando uma lógica de vida instrumental em vez de existencial.

A partir disso, procura-se encontrar o papel da arquitetura na configuração de espaços que possibilitem encontros e trocas sociais que tragam uma vida mais participativa e significativa, permitindo o desenvolvimento de um cidadão multidimensional. Então surge a pergunta problema: qual a relação do ambiente urbano e a cidadania? Logo, o objetivo é trazer características ambientais que contribuam com o modelo cívico, na busca de uma cidadania efetiva.

Busca-se aqui, trazer elementos que impactem na rotina e contribuam na construção de uma cidadania efetiva, elementos que criem alguma forma de contestação e sensibilização, como meio de vivências que modificam atitudes e valores em direção à um modelo cívico.

2. REFERENCIAL TEÓRICO

A vida política de uma sociedade teve na Grécia antiga o exemplo mais próximo de uma democracia direta (ARENDT, 2014), embora envolta em suas contradições. Hoje, vivemos um paradigma social marcado pela sociedade de consumo, sendo o setor econômico supervalorizado, no qual impacta todas as áreas da vida dos cidadãos, que acabam se transformando em meros consumidores, resultando num modo de vida instrumental no lugar de existencial.

Tendo isso em vista, Santos (2011) nos chama a atenção para um modelo cívico, que se sobrepõe ao econômico e busca combater as mazelas de um modelo que gera desigualdade, pobreza e sofrimento.

Como diz Santos (2011, p. 82) a cidadania “[…] tem o seu corpo e os seus limites como uma situação social, jurídica e política.”, e esta, além de ser ameaçada por uma rotina avassaladora, tem suas características ambientais que podem contribuir para seu estímulo e manutenção, pois cidadania se faz num dado lugar.

Com isso em mente, pretende-se, nesse referencial teórico, trazer conceitos que esclareçam a atualidade de nosso modelo de vida, assim como olhares críticos em relação à percepção e a qualidade do ambiente na intenção de contribuir com uma vida mais participativa.

Para isso, inicialmente, será relacionado a cidadania e suas problemáticas dentro de uma sociedade do consumo. Depois será abordado a percepção ambiental e sua ilegibilidade na cidade, e, consequentemente, seus impactos no cotidiano e na reflexão dos cidadãos.

2.1 A CIDADANIA ATUALMENTE

A cidadania, conforme Arendt (2014), tem como principal característica a participação do cidadão na vida pública, porém, como dito anteriormente, a atual sociedade é caracterizada como sociedade do consumo, com sérias consequências para a plena realização do homem. Essa realização, segundo Santos (2011), só é possível dentro de um quadro de vida que inclua a economia e a cultura.

Santos, analisando a formação cidadã brasileira, afirma que “A convergência de várias causas, ao mesmo tempo revolucionárias e dissolventes, iria ter um impacto fortemente negativo no processo de formação da ideia da cidadania e da realidade do cidadão.” (SANTOS, 2011, p. 88). Ainda aponta que durante a ditadura, houve uma política econômica e social, que, além de suprimir liberdades civis, também priorizou a todo custo o desenvolvimento econômico, fortalecendo uma nova classe média em detrimento de uma grande massa de pobres (SANTOS, 2011). Como consequência há maior aprofundamento da desigualdade, pobreza e preconceitos, que impedem o desenvolvimento de uma cidadania efetiva.

Ainda, surge uma “economização da vida social”, com uma sociedade excessivamente competitiva, onde o dinheiro acaba se tornando a medida de tudo, como afirma Santos:

Em lugar do cidadão surge o consumidor insatisfeito e, por isso votado à permanecer consumidor. Sua dependência em relação aos novos objetos limita sua vocação para obter uma individualidade e reduz a possibilidade dos encontros interpessoais diretos e enriquecedores, porque simbólicos em sua própria origem (SANTOS, 2011, p. 93).

O desenvolvimento dessa dimensão do consumo acaba por suprimir aos poucos as outras sensibilidades que formam o corpo social, inclusive uma individualidade necessária: “Enquanto constrói e alimenta um individualismo feroz e sem fronteiras, o consumo contribui ao aniquilamento da personalidade, sem a qual o homem não se reconhece como distinto, a partir da igualdade entre todos.” (SANTOS, 2011, p. 111).

Ainda, conforme Arendt (2014, p. 65-67), essa esfera da distinção é a pública, caracterizada como um mundo comum, da luz, na qual reúne-nos na companhia uns dos outros e, contudo, evita que caiamos uns sobre os outros.

O atual modo de socialização atomizado impede movimentos sociais amplos, e ainda, o consumidor dentro da dinâmica do consumo tem ainda mais dificuldade de conscientização. Acaba que em vez do cidadão temos consumidores, e esse perde o direito ao debate dos objetivos de suas ações (SANTOS, 2011).

Nesse contexto de fortalecimento das multinacionais, num período técnico-científico e com discursos neoliberais cada vez mais presentes, se faz necessário, como diz Santos (2011), propor um novo modelo cívico. Um modelo sem subordinação ao econômico, pois “Numa democracia verdadeira, é o modelo econômico que se subordina ao modelo cívico. Devemos partir do cidadão para a economia e não da economia para o cidadão” (SANTOS, 2011, p. 80).

Sendo assim, procura-se desenvolver esse “cidadão multidimensional”, onde “Cada dimensão se articula com as demais na procura de um sentido para a vida. Isso é o que dele faz o indivíduo em busca do futuro, a partir de uma concepção de mundo […]” (SANTOS, 2011, p. 118). O que temos hoje como modelo de sociedade pode sim ser alterado em direção à um modo de vida mais significativo:

A história do homem se faz, em todos os tempos, da sucessão de momentos, mais ou menos longos, de obscuridade e cegueira, e de momentos de luminosidade, onde a recuperação da consciência restaura o ser humano na dignidade de viver, que também é busca e escolha de caminhos, visão resplandecente do futuro, e não apenas prisão no cotidiano vivido como preconceito, isto é, num presente subalternizado pela lógica instrumental. (SANTOS, 2011, p. 129)

Até aqui, espera-se ter esclarecido a atualidade da cidadania e suas potencialidades, tendo em vista o desenvolvimento de um modelo participativo de sociedade.

2.2 CIDADES ILEGÍVEIS

A percepção ambiental de nossas cidades não nos possibilita uma leitura imediata, mas uma construção que se faz aos poucos, um conhecimento que é desenvolvido em cada contato com o ambiente urbano. Esse ambiente é percebido a partir das “[…] marcas e sinais que deixam impressas no cotidiano dos lugares, ou nos hábitos, nas crenças, valores e ações de uma coletividade.” (FERRARA, 1999, p. 63-64).

Essa percepção do ambiente, segundo Ferrara (2011), pode ser dividida em duas: percepção ambiental visual, que trata dos elementos distintivos, como “[…] cores, formas, texturas, volumes, limites, localização.” (FERRARA, 1999, p. 65) e a percepção ambiental informacional, no qual “não pode ser objetivamente flagrada, mas é mediada por signos, aqueles índices que se relacionam a uma realidade ambiental realmente existente, mas invisível e ilegível porque obscurecida pelo hábito da ação repetida diariamente.” (FERRARA, 1999, p. 65).

No que diz respeito à cidadania, é a percepção informacional do ambiente, submetida ao “juízo perceptivo”, que diz respeito à participação que garantirá a qualidade ambiental. Porém, devido a um cotidiano implacável, essa participação geralmente é imobilizada, pois “O hábito é um obstáculo à eficiência: significa porque intimida o processo inferencial
e empalidece as diferenças entre objetos, fatos e ações impedindo a produção do significado.” (FERRARA, 1999, p. 64), fazendo com que a cidade se torne ilegível.

Como menciona a autora, atualmente “A forma de ganhar a vida pressiona a cidade e leva o morador a individualizar-se, diariamente, na artimanha da competição que absorve até os fins de semana e não surge como informação alternativa para o trabalho.” (FERRARA, 2011, p. 78), sendo ainda, nos estudos de caso elaborados pela autora na periferia de São Paulo, o lazer público é pouco exibido, frequentemente substituído pela televisão.

Nesses estudos de caso a autora destaca como o espaço privado é bem cuidado, tendo em vista as posses, já o público é abandonado e tratado como hostil, resultando em anonimato e irresponsabilidade. O “[…] espaço público não é percebido como coletivo, como o lugar de práticas associativas e o indivíduo resiste a organizar-se como cidadão.” (FERRARA, 1999, p. 75).

Mas nem sempre foi assim, pois, de acordo com Arendt (2014, p. 68), “Durante muitas eras antes de nós […] os homens ingressavam no domínio público por desejarem que algo seu, ou algo que tinham em comum com outros, fosse mais permanente que as suas vidas terrenas.”. Já a esfera privada era caracterizada como o oposto do público, um local a se esconder, focado na manutenção da vida, ao trabalho, ligado aos processos cíclicos naturais (ARENDT, 2014).

Isso mudou, pois com o desenrolar histórico e o atual contexto, o atuar politicamente se torna difícil pois exige olhar para fora de si, e aprender as realidades ambientais e descobrir causas. Sendo assim, geralmente o indivíduo joga para longe, para o poder público, a sua responsabilidade. Conforme Ferrara:

A cidadania é um exercício. Por outro lado, essa prática se alicerça na participação de uma comunidade às voltas com interesses coletivos. Reconhecê-los é condição que leva o cidadão a superar o limite do privado e a segurança individual, obrigando-se a olhar para fora de si, a fim de encontrar, no coletivo ou por meio dele, uma realização pessoal mais exigente (FERRARA, 2011, p. 76).

Tendo como objetivo um “juízo informacional atuante”, o cidadão precisa saber lidar criticamente com as informações do cotidiano, e como base para isso é necessária uma educação ambiental urbana. Essa, conforme Ferrara, é composta por:

a) compreender a cidade como organismo vivo que se transforma sem cessar e precisa ser compreendida nas peculiaridades e dimensões das suas transformações;

b) assumir que os sistemas ecológicos urbanos são nutridos por variáveis não só físicas, mas, sobretudo, econômicas, sociais, políticas e culturais, mais contraditórias do que harmônicas;

c) eliminar os sistemas apaziguadores daquelas contradições como a atuação, de um lado, de uma educação meramente instrucional que se impõe como um sistema de ordem cívica e moral e, de outro, atuações assistenciais, conformistas e místicas;

d) compreender que participação urbana está muito além de dispositivos legais ou, até mesmo, de um simples programa político, mas é consequência de uma gestão pública sem rígidas hierarquias, a fim de permitir amplos canais de comunicação entre a população e seus dirigentes;

e) preparar indivíduos capazes de uma percepção urbana que lhes possibilite selecionar alternativas de ação, capacidade indispensável ao exercício da cidadania;

f) perceber a inter-relação entre todos estes elementos como condição de gerar a participação de um povo que, embora dividido em classes sociais, reconhece sua capacidade de luta para dirimir desigualdades que o impedem de exercer seu direito individual e público (FERRARA, 1999, p. 79).

A cidadania é exercida conforme se vive e interpreta a cidade, sendo o cidadão mais que um usuário ou consumidor, ele toma decisões sobre o destino e os interesses da comunidade. Assim sendo, através da percepção das características do ambiente e seus impactos na vivência, pretende-se interpretar os dados da revisão sistematizada da literatura associando informações que expliquem o ambiente urbano e extraiam características ambientais que possam responder à questão da relação do ambiente urbano e a cidadania.

3. METODOLOGIA

A metodologia usada é a revisão bibliográfica sistematizada integrativa, pois reúne e sintetiza, de modo sistemático, os resultados das pesquisas sobre um determinado tema, dando contribuição para o desenvolvimento do conhecimento no tema pretendido (FERENHOF E FERNANDES, 2016).

O método é o Systematic Search Flow (SSF) de Ferenhof e Fernandes (2016), no qual é composto por quatro fases e oito atividades, conforme figura 1:

Figura 1 – Representação do método SSF

Representação do método SSF
Fonte: autor (2022)

3.1 FASE 1 – PROTOCOLO DE PESQUISA

Trata-se da primeira etapa, que necessita a elaboração de regras para a pesquisa (FERENHOF E FERNANDES, 2016). É composta por cinco atividades:

1 – Definição da estratégia de pesquisa: a partir do questionamento sobre quais características ambientais facilitam o desenvolvimento da cidadania, foi definido as seguintes palavras para a busca: cidadania and ambient* (a utilização do asterisco serve para definir que o final da palavra pode ser variado, como por exemplo: ambiental, ambiente, ambientes etc.).

2 – Consulta na base de dados: como consulta foi utilizado a base de dados do Scielo.

3 – Gestão dos documentos: trata-se de organizar as bibliografias e separar as respostas de cada resultado através de algum software, nesse caso o gerenciador de referências Mendeley, que por sua vez também fez a exclusão automática das duplicatas.

4 – Padronização e seleção dos documentos: leitura dos títulos, resumos e palavras-chave para filtrar alinhamento com o tema e ver se não restou duplicatas. Ainda não há filtro de idiomas, nem restrição quanto à área geográfica e ano.

5 – Composição do portfólio: leitura de todos os artigos restantes para verificar se há aderência ao tema.

3.2 FASE 2 – ANÁLISE

Trata-se da consolidação dos dados, mostrando “[…] o ano em que houve mais publicações sobre o tema de pesquisa, definição dos constructos estudados, pontos fracos e fortes acerca do objeto de estudo, dentre outros” (FERENHOF E FERNANDES, 2016, p. 559-560). Isso permite ao pesquisador ver as lacunas existentes no conhecimento do tema, possibilitando sugestões futuras. Nesse caso, as tabelas 1 e 2 trazem dados que auxiliam na análise.

3.3 FASE 3 – SÍNTESE

Nesta fase, as conclusões sobre o tema são montadas e escritas em relatórios, permitindo o desenvolvimento de novos conhecimentos baseados nos resultados da pesquisa.

Aqui se usa da Matriz do Conhecimento, no qual retira e organiza os dados da análise com foco no objetivo da pesquisa. Para uma melhor compreensão, essas informações foram agrupadas numa planilha eletrônica através do software Microsoft Excel, destacando os objetivos, métodos e resultados dos artigos (tabela 3).

3.4 FASE 4 – ESCREVER

Nesta última fase há a consolidação dos resultados, resgatando “[…] o objetivo da revisão de literatura, bem como o resultado da análise e síntese e, mediante a matriz do conhecimento e dos relatórios, fundamentar a escrita dos resultados.” (FERENHOF E FERNANDES, 2016, p. 561).

Através desse método espera-se ter subsídio suficiente para chegar a conclusões claras e satisfatórias que mostrem características ambientais que contribuam com o desenvolvimento de um modelo cívico.

4. RESULTADOS

A utilização do método SSF para pesquisa de artigos relacionados à cidadania e ambiente resultou em 133 artigos. Nessa fase 1 (protocolo de pesquisa), na etapa de filtragem dos artigos, conforme figura 2, pode-se perceber a grande diferença do resultado da busca no Scielo (133) até o resultado final (2). O maior filtro dos artigos foi na leitura dos títulos, resumos e palavras-chave, sendo a maior parte dos removidos relacionados à educação ambiental e cidadania, com foco no meio ambiente/sustentabilidade, e relativos ao comportamento de cidadania organizacional (CCO), no qual aborda práticas corporativas.

Figura 2 – Filtros dos artigos

Filtros dos artigos
Fonte: autor (2021)

Partindo para a fase 2 (análise), os resultados demonstram que o tema é de maior interesse recente, tendo em vista os anos das publicações dos artigos, assim como há uma pequena quantidade de artigo diretamente relacionado ao tema das qualidades ambientais que contribuem com a cidadania, conforme tabela 1:

Tabela 1 – Anos, títulos, autores, periódicos e áreas dos artigos

Ano Título do artigo Autores Periódico Área
2016 The conflict in the coastal area of Sines (Portugal): Elements for settlement through dialogue (O conflito na zona costeira de Sines (Portugal): elementos para a resolução através do diálogo) Álvaro António Pinheiro Barroqueiro;

Sandra Sofia Ferreira da Silva Caeiro

Revista de Gestão Costeira Integrada

 

Multidisciplinar
2020 POTENCIAL CÍVICO DO CAMPUS: A UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA E A DEMOCRACIA NA CIDADE José Ripper-Kos;

Luis Henrique-Pavan;

Camila Poeta-Mangrich

Arquitecturas del sur Arquitetura

Fonte: autor (2021)

Nos dois artigos foram encontradas oito palavras-chave diferentes, mas para melhor interrelação podem ser separadas em três grupos por assunto: ambiente, cidadania e outros (tabela 2). O resultado demonstra como os dois aspectos principais dessa pesquisa, ambiente e cidadania, estão presentes nos artigos.

Tabela 2 – Assuntos e palavras-chave dos artigos

Assunto Palavras-chave Quantidade Total por assunto
Ambiente Espaço público 1 3
Campus universitário 1
Percepção 1
Cidadania Cidadania 2 5
Infraestrutura social 1
Democracia 1
Participação pública 1
Outros Risco 1 1

Fonte: autor (2021)

Com relação a fase 3 (síntese), a partir da leitura dos artigos elaborou-se a tabela 3, no qual demonstra objetivos semelhantes de conhecer a relação do ambiente e suas implicações na participação dos cidadãos. Já os métodos utilizados se mostram diversificados, e os resultados constatam a importância do espaço de encontro e visibilidade, que aproxima as pessoas e permitem a troca de informações, podendo gerar contestação e engajamento.

Tabela 3 – Objetivos, métodos e resultados dos artigos

Ano/título Objetivos Método Resultados
2016 – The conflict in the coastal rea of Sines (Portugal): Elements for settlement through dialogue (O conflito na zona costeira de Sines (Portugal): elementos para a resolução através do diálogo) Obter os aspetos sociais e ambientais que contribuam para o condicionamento dos comportamentos individuais no ambiente, tendo em mente a facilitação do diálogo e a incorporação ambiental da indústria e a população de Sines. Estudo de caso e questionário (55 membros de ONGs e 8 empresas). Resultados não demonstram clara situação de poluição na região, mas há um conflito entre a população e a indústria.
Destaca-se que o espaço social condiciona as atitudes individuais, e a proximidade física é o maior responsável pela percepção de risco pelos habitantes.
A difusão de informações ambientais favorece o engajamento das pessoas na participação pública, assim como o afastamento nas decisões gera dificuldade de confiança nos gestores ambientais.
As empresas vêm incorporando a responsabilidade social na sua gestão.
2020 – POTENCIAL CÍVICO DO CAMPUS: A UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA E A DEMOCRACIA NA CIDADE Demonstrar o papel importante que o campus universitário pode ter em prover locais cívicos à cidade, e também destacar as características ambientais que auxiliam nos encontros democráticos. Mapeamento demográfico de pontos de encontros e relato das manifestações de maio de 2019. Espaços flexíveis, permeáveis e contínuos contribuem para reunir e confrontar ideias.
Desníveis, excessiva linearidade em locais de permanência e transição abrupta de espaços interiores para exteriores dificultam uso como local de encontro.
Na rua Lauro Linhares calçadas pequenas em conflito com carros e arquitetura “padrão” dificulta encontro com área interna dos edifícios.
No centro da cidade conserva-se atividades comerciais tradicionais que dialogam com espaços abertos.

Fonte: autor (2021)

Agora, após finalizado os resultados da pesquisa, entra-se na fase 4 (escrever), onde há a consolidação dos resultados articulado com o referencial teórico visando satisfazer o objetivo da pesquisa, que é saber as características ambientais que contribuem com a cidadania.

5. DISCUSSÃO

Agora, na fase 4 (escrever), é possível dizer que, na primeira etapa, os resultados trouxeram poucos artigos diretamente ligados ao tema das qualidades ambientais que contribuem com a cidadania, sendo a maioria dos resultados mais ligados à educação ambiental e cidadania.

Sabe-se que ambos estão interligados, no próprio artigo da Ferrara (1999) ela aborda a educação ambiental como um “controle de qualidade” da percepção do ambiente, mas o objetivo dessa pesquisa é saber as características desse ambiente que de alguma forma podem condicionar as práticas de convivência cotidiana e usá-las a favor da criação de um modelo cívico de sociedade. De antemão, a partir da análise dos resultados, é possível perceber a importância dos locais de encontro, pois possibilitam visibilidade, troca de informação e engajamento.

Com o artigo sobre Sines (BARROQUEIRO e CAEIRO, 2016), através do conflito gerado pelos impactos das indústrias no ambiente, é possível perceber os aspectos que mais afetam a percepção do cidadão: fumaça, manchas óleo, poluição das águas, resíduos tóxicos no solo e esgoto na praia. Esses elementos só puderam ser percebidos devido à proximidade com as fontes dos problemas e ao engajamento pela proximidade com outros cidadãos. Sendo assim, como aspecto importante da cidadania é necessário a proximidade do cidadão com seu ambiente, possibilitando visibilidade, assim como proximidade de outros habitantes para trocar pontos de vista e somar esforços na luta por uma cidade melhor.

Esse aspecto da visibilidade pode ser convertido em espaços urbanos que tenham como características permitir a visibilidade do entorno em muitos pontos, permitindo um alcance visual que deixe as pessoas inteiradas do que acontece no ambiente, inclusive para paisagens naturais locais, onde se pode observar, cuidar e viver melhor esses ambientes.

Com relação à proximidade com outros cidadãos, uma característica ambiental importante é a densidade demográfica relativamente elevada, que permite uma experiência urbana mais enriquecedora através da multiplicidade de contato diário, o que consequentemente facilita as relações e o engajamento em causas.

Já no artigo sobre o campus da UFSC (KOS; PAVAN e MANGRICH, 2020) e seu entorno o resultado é mais direto ao ponto: destaca-se que espaços abertos, flexíveis, permeáveis e contínuos auxiliam na reunião e confrontação de ideias. Já desníveis, espaços excessivamente lineares e transições não graduais dificultam o uso do local para tais fins.

Como já dito, a cidadania é exercida conforme se vive e interpreta a cidade, sendo o cidadão mais do que um consumidor (SANTOS, 2011), possibilitando desenvolver o “cidadão multidimensional”. Sair desse modelo do trabalho e consumo individualizante e atuar politicamente é difícil, pois exige olhar para fora de si e aprender as realidades ambientais e descobrir causas (FERRARA, 1999), sendo para isso necessário uma educação ambiental urbana para ter um juízo informacional atuante.

Então, através dessas características espaciais vistas, espera-se impactar a vivência cotidiana, estimulando formas de contestação e conhecimento do ambiente, e que o espaço público seja percebido como coletivo, seja apropriado e que os cidadãos se sintam responsáveis por ele.

6. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Através da conceituação do modelo cívico, da discussão do problema da ilegibilidade urbana para a percepção dos cidadãos, junto com os artigos resultantes da revisão integrativa, foi possível promover uma discussão e trazer características ambientais que respondem à questão norteadora da relação do ambiente urbano e a cidadania. Essas características do ambiente seriam a visibilidade do entorno, densidade demográfica relativamente alta, e espaços abertos, flexíveis, permeáveis e contínuos em contraposição a desníveis, espaços excessivamente lineares e transições não graduais. Características que podem auxiliar a desenvolver o cidadão multidimensional, através das trocas enriquecedoras que, somada à educação ambiental, permite a presença do juízo informacional atuante.

Embora muitas dessas características espaciais dos resultados já sejam encontradas em centros políticos, como Brasília, ou em praças cívicas presentes em muitas cidades, num modelo de vida cotidiano voltado para o trabalho e consumo se faz necessário aproximar ainda mais esses espaços do cidadão comum, procurando explorar o máximo possível os benefícios desses encontros que proporcionam trocas de experiências, sensibilização e possíveis engajamentos como meio de vivências que modificam atitudes e valores em direção à um modelo cívico.

Com isso em mente, o artigo não esgota as características espaciais e permite que a pesquisa seja continuada, e ainda proporciona o aprofundamento no tema, como por exemplo a relação do espaço, rotina e alienação, entre outros.

REFERÊNCIAS

ARENDT, Hannah. A condição humana. Tradução de Roberto Raposo. 13ª. ed. Rio de Janeiro: FORENSE, 2014.

BARROQUEIRO, Álvaro António Pinheiro; CAEIRO, Sandra Sofia Ferreira da Silva. The conflict in the coastal area of Sines (Portugal). Revista de Gestão Costeira Integrada, v. 16, n. 1, p. 105-118, março 2016. Disponível em: <https://www.aprh.pt/rgci/rgci675.html>. Acesso em: 9 set. 2021. http://dx.doi.org/10.5894/rgci675

FERENHOF, Helio Aisenberg; FERNANDES, Roberto Fabiano. Desmistificando a revisão de literatura como base para redação científica: método SFF. Revista ACB, Florianópolis, v. 21, n. 3, p. 550-563, nov. 2016. Disponível em: <https://revista.acbsc.org.br/racb/article/view/1194>. Acesso em: 6 set. 2021.

FERRARA, Lucrécia D’Alessio. As Cidades Ilegíveis: Percepção Ambiental e Cidadania. Percepção Ambiental: A Experiência Brasileira, São Paulo, n. 2ª, p. 61-80, 1999.

KOS, José Ripper; PAVAN, Luis Henrique; MANGRICH, Camila Poeta. Potencial Cívico Do Campus: A Universidade Federal De Santa Catarina E A Democracia Na Cidade. Arquitecturas del sur, v. 38, n. 58, p. 80-97, jul. 2020. Disponível em: <http://revistas.ubiobio.cl/index.php/AS/article/view/4045>. Acesso em: 9 set. 2021. https://doi.org/10.22320/07196466.2020.38.058.05.

SANTOS, Milton. O espaço da cidadania e outras reflexões. 2ª. ed. Porto Alegre: Fundação Ulysses Guimarães, 2011.

[1] Pós-Graduação. ORCID: 0000-0002-1400-9984.

Enviado: Maio, 2022.

Aprovado: Agosto, 2022.

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