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Variações operacionais na coloração de Gram: implicações para o ensino e a rotina laboratorial

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

CRUZ, Bernardo Coelho [1], SILVA, Elizângela Rodrigues Assunção [2], SANTOS, João Otávio da Silva [3], SILVA, Matheus Pereira [4], CASTRO, Cynthia Rodrigues Filpi de [5],  OLIVEIRA, Sabrynna Brito [6]

CRUZ, Bernardo Coelho. et al. Variações operacionais na coloração de Gram: implicações para o ensino e a rotina laboratorial. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 01, Vol. 01, pp. 95-116. Janeiro de 2026. ISSN: 2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/veterinaria/coloracao-de-gram, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/veterinaria/coloracao-de-gram

RESUMO

A coloração de Gram é uma técnica fundamental em microbiologia clínica e educacional, sendo amplamente utilizada como etapa inicial na identificação bacteriana. Apesar de seus princípios clássicos, variações operacionais frequentemente observadas na rotina laboratorial e em ambientes de ensino podem comprometer a padronização, a reprodutibilidade e a qualidade diagnóstica dos resultados. O objetivo deste estudo foi avaliar o impacto de diferentes métodos de fixação do esfregaço e de variações operacionais nos protocolos de coloração de Gram sobre a qualidade microscópica e a interpretação diagnóstica. Foram analisadas combinações experimentais envolvendo três métodos de fixação (chama, secagem em estufa e fixação química com metanol), presença ou ausência de lavagens intermediárias e diferentes tempos de exposição ao agente descorante. As lâminas foram avaliadas de forma cega e independente por dois avaliadores, com base em um check-list padronizado contendo 11 critérios qualitativos. Observou-se elevada concordância interavaliador (82,3%) e diferenças importantes entre os métodos de fixação. A fixação por chama apresentou o melhor desempenho global, com maior estabilidade frente às variações operacionais, seguida pela secagem em estufa, enquanto a fixação química com metanol apresentou maior frequência de resultados alterados e interferentes visuais. O tempo menor de descoramento e a realização de lavagens intermediárias exerceram impacto direto na uniformidade da coloração. Os achados reforçam a importância da padronização técnica da coloração de Gram e evidenciam sua relevância tanto para a confiabilidade diagnóstica quanto para o processo de ensino-aprendizagem em microbiologia.

Palavras-chave: Coloração de Gram; Microbiologia; Diagnóstico Laboratorial; Ensino.

1. INTRODUÇÃO

A coloração de Gram é uma técnica de coloração diferencial amplamente utilizada em microbiologia para classificar bactérias em Gram-positivas e Gram-negativas com base nas características físico-químicas de suas paredes celulares (Freitas; Picoli, 2007). Desenvolvida pelo bacteriologista dinamarquês Hans Christian Gram em 1884, a técnica foi originalmente concebida para tornar bactérias mais visíveis em cortes histológicos de tecido pulmonar e, posteriormente, passou a ser utilizada na diferenciação de grupos bacterianos em amostras clínicas e ambientais (Smith; Hussey, 2005; Gram, 1884 apud Freitas; Picoli, 2007). Na prática, essa coloração permite observar se as bactérias retêm o corante cristal violeta após tratamento com um agente descorante, refletindo a espessura e a composição do peptidoglicano na parede celular (Smith; Hussey, 2005; Brasil, 2001). Esse teste é considerado uma etapa inicial essencial em fluxos diagnósticos por fornecer informações rápidas e úteis sobre a estrutura bacteriana e orientar testes subsequentes de identificação e sensibilidade (Tripathi; Zubair; Sapra, 2023).

Ao longo do tempo, embora os princípios gerais da coloração de Gram tenham permanecido consistentes, modificações operacionais e adaptações de protocolo foram propostas e incorporadas em diferentes contextos de ensino e diagnóstico. A sequência clássica — aplicação de cristal violeta, mordenciamento com lugol, descoloração e contracoloração — é descrita nas principais instruções técnicas tradicionais (Freitas; Picoli, 2007; Brasil, 2001). No entanto, variações quanto à concentração de reagentes, tempos de exposição e etapas de lavagem são relatadas em manuais de microbiologia prática (Freitas; Picoli, 2007). Essas alterações podem estar associadas não apenas à busca por otimização técnica, mas também a ajustes pragmáticos em função de infraestrutura, disponibilidade de materiais ou exigências específicas de protocolos institucionais, resultando em uma diversidade de abordagens para a mesma técnica clássica.

Tais adaptações técnicas, apesar de muitas vezes necessárias em diferentes cenários laboratoriais, podem impactar negativamente a padronização e comparabilidade interlaboratorial, especialmente quando a técnica é executada por operadores com distintos níveis de experiência (Brasil, 2001; Freitas; Picoli, 2007). A ausência de critérios uniformes para etapas críticas, como o tempo de descoramento ou a realização de lavagens intermediárias, pode resultar em variações na intensidade da coloração, na formação de artefatos e na interpretação morfológica — fatores que comprometem tanto a qualidade diagnóstica quanto a reprodutibilidade dos resultados (Freitas; Picoli, 2007). Essa heterogeneidade metodológica torna desafiadora a avaliação comparativa dos protocolos e dificulta a definição de práticas que sejam ao mesmo tempo robustas e aplicáveis em diferentes contextos de rotina laboratorial.

No contexto educacional, a coloração de Gram desempenha um papel fundamental no ensino de microbiologia básica e aplicada, pois sintetiza conceitos estruturais da parede celular bacteriana, físico-química dos corantes e interpretação microscópica em uma única técnica (Brasil, 2001). Em cursos de graduação em saúde, biomedicina ou ciências biológicas, a coloração de Gram é, frequentemente, uma das primeiras técnicas diferenciais aprendidas pelos estudantes, servindo de base para a compreensão de métodos diagnósticos posteriores (Freitas; Picoli, 2007). A variabilidade nos protocolos pode, no entanto, dificultar a aprendizagem se não for acompanhada de explicações profundas sobre os fundamentos do método, sua sensibilidade a variações operacionais e as implicações dessas variações na interpretação dos resultados.

Diante desse cenário, estudos que investigam comparativamente diferentes protocolos de coloração de Gram, considerando variações operacionais e métodos de fixação, têm relevância tanto para a prática diagnóstica quanto para o ensino laboratorial. A padronização de procedimentos e a compreensão das tolerâncias operacionais permitem reduzir a variabilidade técnica, fortalecendo a confiabilidade da coloração de Gram como ferramenta diagnóstica inicial e como recurso pedagógico estruturante.

Assim, a presente investigação teve como objetivo avaliar como diferentes métodos de fixação e variações operacionais nos protocolos de coloração de Gram influenciam o desempenho da técnica em bactérias Gram-positivas e Gram-negativas, afetando a qualidade microscópica e a interpretação diagnóstica, com vistas a subsidiar a formulação de práticas mais robustas, reprodutíveis e aplicáveis a laboratórios de ensino e de diagnóstico.

2. MÉTODOS

2.1 VARIAÇÕES OPERACIONAIS NA COLORAÇÃO DE GRAM

A coloração de Gram foi realizada utilizando-se um único kit comercial, variando-se intencionalmente apenas parâmetros operacionais específicos. As variáveis analisadas incluíram: (i) os métodos de fixação do esfregaço; (ii) a realização ou não de lavagens intermediárias entre as etapas de coloração; (iii) o tempo de exposição ao agente descorante.

Quanto ao método de fixação do esfregaço bacteriano, foram testadas três abordagens amplamente utilizadas em microbiologia: fixação por chama, secagem em estufa e fixação química com metanol. A fixação por chama foi realizada por passagem constante e controlada da lâmina sobre a chama de Bunsen, promovendo adesão celular por coagulação térmica de proteínas. A fixação por secagem em estufa foi conduzida a 42 °C por aproximadamente 20 minutos, permitindo desidratação gradual do esfregaço sem choque térmico intenso. A fixação química foi realizada com metanol P.A., aplicado em volume controlado (15 µL por lâmina) por 1 a 2 minutos, após secagem inicial do esfregaço ao ar, conforme práticas descritas em protocolos de controle de qualidade microbiológico.

Em relação às lavagens intermediárias, foram incluídos protocolos que contemplaram a realização dessa etapa entre os reagentes, bem como protocolos nos quais as lavagens foram deliberadamente suprimidas, com o objetivo de avaliar o impacto dessa variação operacional sobre a uniformidade da coloração, a presença de interferentes visuais e a robustez da interpretação microscópica, simulando práticas frequentemente observadas em contextos de ensino e na rotina laboratorial. Ressalta-se que, independentemente das variações adotadas, todos os protocolos incluíram a lavagem final após a aplicação do contracorante, assegurando a remoção do excesso de corante residual antes da leitura microscópica. Sobre o tempo de exposição ao agente descorante foram utilizadas três condições: gotejamento imediato, 5 segundos ou 10 segundos. A descrição completa de cada combinação entre método de fixação, padrão de lavagens e tempo de descorante encontra-se apresentada na Tabela 1.

Com o objetivo de minimizar variabilidade analítica, foram mantidos constantes em todos os ensaios: o kit comercial de coloração de Gram utilizado (Laborclin®, código 620521), os tempos de aplicação do cristal violeta (1 minuto), do lugol (1 minuto) e do contracorante (30 segundos), as condições de preparo do esfregaço e o equipamento óptico empregado para leitura microscópica, sempre com objetiva de imersão (100×).

Tabela 1 – Descrição dos protocolos de coloração de Gram avaliados, segundo método de fixação e variações operacionais

Descrição dos protocolos de coloração de Gram avaliados, segundo método de fixação e variações operacionais
Fonte: os autores, 2026. Legenda: * Tipo de fixação; P: protocolo; s: segundos; G: gotejamento. O gotejamento do descorante foi realizado até que o corante parasse de ser revelado. A fixação química foi realizada utilizando metanol (descrever a proporção). Os tempos de ação do cristal violeta, do lugol e do contracorante foram mantidos constantes, em conformidade com as instruções do fabricante.

2.2 MICRORGANISMOS E CONDIÇÕES DE CULTIVO

Foram utilizadas cepas de referência Escherichia coli ATCC 25922 e Staphylococcus aureus ATCC 25923, representativas, respectivamente, de bactérias Gram-negativas e Gram-positivas, e amplamente empregadas como controles de qualidade em microbiologia clínica. A escolha dessas cepas fundamentou-se no comportamento fenotípico bem estabelecido frente à coloração de Gram, reduzindo ambiguidades interpretativas relacionadas à retenção ou perda diferencial dos corantes.

As bactérias foram cultivadas em meio ágar sangue e incubadas a 37 °C por 24 horas, assegurando crescimento recente e condições fisiológicas comparáveis entre os ensaios. A escolha pelo preparo do esfregaço diretamente a partir da colônia bacteriana buscou aumentar a validade externa do estudo, ao aproximar as condições experimentais daquelas observadas na rotina laboratorial e em atividades de ensino, nas quais a coloração de Gram é majoritariamente realizada a partir de colônias em meio sólido, sem etapa intermediária de cultivo em caldo.

2.3 LEITURA MICROSCÓPICA DOS ESFREGAÇOS E AVALIAÇÃO QUALITATIVA DAS LÂMINAS

Os esfregaços bacterianos foram preparados em lâminas de microscopia a partir de colônias isoladas, utilizando-se uma gota de solução de NaCl 0,9% para obtenção de suspensão homogênea. Para cada combinação experimental, foram confeccionadas quatro lâminas, sendo duas contendo E. coli e duas contendo S. aureus. No total, foram analisadas 36 lâminas por espécie bacteriana, contemplando todas as condições avaliadas.

A avaliação das lâminas coradas sob as diferentes combinações experimentais foi realizada de forma cega e independente por dois avaliadores, utilizando-se um check-list padronizado e previamente estruturado, desenvolvido pelos próprios autores e descrito em detalhe no Material Suplementar 1. Esse instrumento foi concebido com o objetivo de sistematizar a análise qualitativa do desempenho dos protocolos, reduzindo a subjetividade inerente à interpretação microscópica da coloração de Gram.

A avaliação das lâminas contemplou múltiplos domínios analíticos, incluindo: a qualidade global do esfregaço, a intensidade e uniformidade da coloração ao longo da lâmina e entre diferentes campos microscópicos, o perfil de coloração da estrutura bacteriana (integridade e homogeneidade ao longo da célula), bem como o padrão de coloração celular compatível com bactérias Gram-positivas ou Gram-negativas. Adicionalmente, foram analisadas a morfologia bacteriana predominante, a organização celular no esfregaço (células isoladas, agrupamentos ou ambos) e o comportamento da coloração em agrupamentos bacterianos, quando presentes.

Também foram registrados potenciais fatores interferentes na leitura microscópica, tais como precipitados de corante ou fundo excessivamente corado e realizada a comparação com lâminas-controle previamente estabelecidas, classificando-se o grau de compatibilidade com o padrão esperado. Ao todo, foram estabelecidos 11 critérios de análise e comparação (quadro 1).

Quadro 1 – Critérios utilizados para avaliação qualitativa das lâminas coradas pelo método de Gram

Critérios utilizados para avaliação qualitativa das lâminas coradas pelo método de Gram
Fonte: os autores, 2026.

Com base na integração desses critérios, cada lâmina recebeu uma classificação final, sendo categorizada como resultado satisfatório ou alterado. Os resultados das avaliações independentes foram posteriormente comparados, e eventuais discordâncias foram resolvidas por consenso, assegurando maior robustez à interpretação dos dados.

3. RESULTADOS

Observou-se uma grande concordância interavaliador, com consistência total em 82,3% das avaliações, 15,2% de classificações parcialmente compatíveis e apenas 2,5% de respostas divergentes, indicando boa reprodutibilidade do instrumento de avaliação e robustez da leitura microscópica adotada. A análise consolidada dos resultados evidenciou diferenças consistentes entre os métodos de fixação avaliados. A fixação por chama apresentou o melhor desempenho global, com 95,8% das lâminas classificadas como satisfatórias (C11), seguida pela fixação por secagem em estufa (83,3%) e pela fixação química com metanol (50,0%).

Os protocolos que empregaram fixação por chama apresentaram desempenho superior e maior estabilidade frente às variações operacionais testadas. Nesse grupo, 95,8% das lâminas foram classificadas como satisfatórias (C11), com desempenho máximo para Staphylococcus aureus (100%) e ligeiramente inferior para Escherichia coli (91,7%). A qualidade geral do esfregaço (C1) foi considerada adequada em 91,7% das avaliações, acompanhada por intensidade de coloração adequada (C2) também em 91,7% e uniformidade homogênea entre campos microscópicos (C3) em 87,5% das lâminas. A morfologia bacteriana predominante (C6) foi corretamente identificada em 100% dos casos, e a compatibilidade com o padrão Gram esperado (C5) atingiu 97,2%. Observou-se que protocolos com lavagens intermediárias apresentaram desempenho discretamente superior em critérios relacionados à uniformidade da coloração celular, quando comparados àqueles sem lavagens, embora a presença de precipitados de corante ou fundo excessivamente corado (C9) tenha sido registrada em 37,5% das lâminas, sem impacto importante na classificação final.

A fixação por secagem em estufa apresentou desempenho intermediário, com 83,3% das lâminas classificadas como satisfatórias. A qualidade do esfregaço (C1) foi adequada em 66,7% das avaliações, sendo frequentemente afetada por distribuição irregular do material bacteriano ou por artefatos visuais. A uniformidade da coloração (C3) foi considerada homogênea em 75,0% das lâminas, enquanto a morfologia bacteriana (C6) e o padrão Gram (C5) foram corretamente preservados em 100% das avaliações. Entretanto, observou-se maior heterogeneidade na coloração de agrupamentos bacterianos (C8), com desempenho inferior quando comparado à fixação por chama. Entre os protocolos desse grupo, destacaram-se combinações específicas que atingiram adequação plena nos critérios C1 a C5, enquanto tempos prolongados de exposição ao descorante estiveram associados ao aumento de classificações alteradas. A presença de interferentes visuais (C9) foi registrada em 41,7% das lâminas.

A fixação química com metanol apresentou o desempenho global mais baixo entre os métodos avaliados, com apenas 50,0% das lâminas classificadas como satisfatórias. A qualidade do esfregaço (C1) foi considerada adequada em 41,7% das avaliações, frequentemente comprometida pela distribuição irregular do material bacteriano e pela presença de artefatos associados à fixação. A intensidade da coloração (C2) apresentou tendência excessiva em parcela relevante das lâminas, enquanto a uniformidade do esfregaço (C3) foi considerada homogênea em 66,7% dos casos. Apesar disso, a morfologia bacteriana (C6) foi preservada em 100% das avaliações, e a compatibilidade com o padrão Gram esperado (C5) manteve-se elevada (91,7%). As principais limitações desse método estavam associadas à alta frequência de interferentes visuais (C9), observados em 91,7% das lâminas, e à incompatibilidade com os padrões de controle (C10), o que resultou em 50,0% de classificações finais alteradas.

No conjunto dos protocolos avaliados, observou-se clara superioridade da fixação por chama, que apresentou a maior proporção de resultados satisfatórios (95,8%). Esse desempenho sugere maior estabilidade estrutural da parede celular bacteriana, favorecendo a retenção seletiva do complexo cristal violeta–mesmo sob variações no tempo de descorante e na execução das lavagens. A fixação por secagem em estufa apresentou desempenho intermediário (83,3%), possivelmente em função da desidratação gradual, que reduz o choque térmico, mas permanece suscetível a heterogeneidades decorrentes de evaporação incompleta, especialmente em esfregaços mais espessos ou com agrupamentos celulares. Em contraste, a fixação química com metanol apresentou o menor desempenho global (50,0%), evidenciando maior vulnerabilidade a alterações operacionais. A precipitação proteica excessiva promovida pelo metanol compromete a permeabilidade diferencial da parede celular, favorecendo a perda prematura do corante primário, sobretudo em bactérias Gram-negativas, além de aumentar a ocorrência de artefatos visuais em ambos os grupos.

A análise conjunta dos resultados evidenciou que o tempo de exposição ao agente descorante exerceu impacto direto sobre a qualidade da coloração, especialmente quando associado a métodos de fixação menos robustos. Exposições prolongadas estiveram relacionadas ao aumento de resultados alterados, efeito mais pronunciado nos protocolos com fixação química por metanol e secagem em estufa, enquanto o gotejamento imediato do descorante demonstrou maior estabilidade cromática. Esse comportamento foi particularmente evidente em Escherichia coli, indicando maior sensibilidade desse microrganismo a variações operacionais, em contraste com Staphylococcus aureus, que apresentou maior tolerância às alterações testadas, refletindo diferenças estruturais da parede celular entre bactérias Gram-negativas e Gram-positivas.

De forma complementar, a realização de lavagens intermediárias mostrou-se um fator decisivo para a melhoria da qualidade microscópica das lâminas, estando associada à maior uniformidade da coloração e à redução de interferências visuais, independentemente do método de fixação adotado. Esse efeito foi mais expressivo nos protocolos submetidos a tempos mais longos de exposição ao descorante, sugerindo que a lavagem atua como etapa compensatória, minimizando o acúmulo de iodo livre e de resíduos de corantes que comprometem a leitura. Apesar dessas variações operacionais, a compatibilidade do padrão de coloração com o tipo Gram esperado manteve-se elevada (C5 > 90%), indicando que as principais divergências observadas estiveram relacionadas à qualidade do esfregaço, à homogeneidade da coloração e à presença de artefatos, e não à classificação incorreta do grupo Gram.

Adicionalmente, a interação entre método de fixação e tempo de descorante mostrou-se crítica: nos protocolos com metanol, o aumento do tempo de exposição ao álcool resultou em proporção maior de lâminas alteradas (66,7% com 10 segundos versus 33,3% com gotejamento), reforçando a baixa tolerância desse método a desvios técnicos. A realização de lavagens intermediárias contribuiu para a melhoria da uniformidade da coloração em aproximadamente 15–20% dos protocolos, destacando seu papel essencial na otimização da robustez diagnóstica em ambientes laboratoriais sujeitos a variabilidade operacional. A tabela 2 reúne evidências fotográficas

Tabela 2 – Registro fotográfico das principais alterações microscópicas identificadas nos protocolos de coloração de Gram realizados

Registro fotográfico das principais alterações microscópicas identificadas nos protocolos de coloração de Gram realizados - FixaçãoRegistro fotográfico das principais alterações microscópicas identificadas nos protocolos de coloração de Gram realizados - PresençaRegistro fotográfico das principais alterações microscópicas identificadas nos protocolos de coloração de Gram realizados - DistribuiçãoRegistro fotográfico das principais alterações microscópicas identificadas nos protocolos de coloração de Gram realizados - HeterogeneidadeRegistro fotográfico das principais alterações microscópicas identificadas nos protocolos de coloração de Gram realizados - Distribuição 2Registro fotográfico das principais alterações microscópicas identificadas nos protocolos de coloração de Gram realizados - Acúmulo

Registro fotográfico das principais alterações microscópicas identificadas nos protocolos de coloração de Gram realizados - Descorante
Fonte: os autores, 2026. As imagens foram obtidas em microscópio óptico Olympus®, utilizando objetiva de imersão 100×, e ilustram alterações microscópicas representativas observadas nos diferentes protocolos de coloração de Gram avaliados.

Em conjunto, esses achados reforçam a necessidade de padronização rigorosa do método de fixação e das etapas críticas da coloração de Gram, especialmente em contextos de ensino e rotina diagnóstica.

4. DISCUSSÃO

Os resultados obtidos evidenciam que a coloração de Gram apresenta grande sensibilidade às variações operacionais, especialmente no que se refere ao método de fixação do esfregaço, corroborando achados clássicos que descrevem a técnica como altamente dependente da integridade da parede celular bacteriana e do preparo adequado da lâmina (Madigan et al., 2021; Tille, 2013). A maior proporção de lâminas satisfatórias associadas à fixação por chama sugere que esse método confere maior estabilidade estrutural às células bacterianas, favorecendo a retenção diferencial do complexo cristal violeta–iodo e reduzindo a ocorrência de artefatos microscópicos.

Do ponto de vista mecanístico, a fixação térmica promove a desnaturação rápida de proteínas e a adesão eficiente das células à lâmina, preservando a espessura e a organização do peptidoglicano em bactérias Gram-positivas, o que é determinante para a retenção do corante primário (Cappuccino; Sherman, 2014; Leber, 2016). Essa preservação estrutural explica a maior uniformidade observada no perfil de coloração celular e a menor incidência de descoloração parcial ou irregular, mesmo diante de variações no tempo de descorante, aspecto amplamente descrito na literatura microbiológica.

A fixação por secagem em estufa apresentou desempenho intermediário, indicando que a desidratação gradual pode preservar parcialmente a morfologia bacteriana, mas está mais sujeita a heterogeneidades no esfregaço, sobretudo em preparações mais espessas ou com agrupamentos celulares (Tille, 2016). A literatura aponta que a evaporação incompleta da água residual pode interferir na ação do álcool durante a etapa de descoramento, resultando em variações locais na permeabilidade da parede celular e, consequentemente, na intensidade e uniformidade da coloração (Tortora; Funke; Case, 2021).

Por sua vez, a fixação química com metanol apresentou os piores resultados globais, especialmente no que se refere à qualidade do esfregaço e à presença de interferentes visuais. A ação solvente do metanol promove intensa desidratação celular, o que pode comprometer a integridade da membrana externa de bactérias Gram-negativas e favorecer a perda precoce do complexo cristal violeta–iodo (Cappuccino; Sherman, 2014; Leber, 2016). Além disso, a maior frequência de precipitados observada está de acordo com relatos de que fixadores químicos podem aumentar a retenção de resíduos de corantes, prejudicando a leitura microscópica e a interpretação diagnóstica (Tille, 2016).

A avaliação das lavagens intermediárias demonstrou que essa etapa exerce papel fundamental na remoção do excesso de corantes e na prevenção de artefatos, especialmente em protocolos com menor tolerância operacional. Estudos prévios indicam que lavagens inadequadas estão diretamente associadas à formação de fundo excessivamente corado e à presença de precipitados, fatores que dificultam a identificação correta da morfologia e do padrão de coloração bacteriana (Tille, 2013; Madigan et al., 2021). Nesse sentido, a associação entre fixação por chama e lavagens intermediárias mostrou-se particularmente eficaz.

Sob a perspectiva do ensino em microbiologia, os achados reforçam que a coloração de Gram deve ser compreendida como uma técnica integrada, que envolve princípios físico-químicos e estruturais frequentemente subestimados em aulas práticas introdutórias (Teixeira et al., 2023; Murer et al., 2022). A maior tolerância da fixação por chama a variações operacionais a torna especialmente adequada para ambientes de ensino, nos quais erros técnicos são comuns e fazem parte do processo de aprendizagem. Ao mesmo tempo, a observação sistemática de falhas associadas a outros métodos pode ser explorada como estratégia pedagógica para promover a compreensão crítica da técnica.

No contexto da rotina laboratorial, a escolha por realizar o esfregaço diretamente a partir da colônia bacteriana aproxima o delineamento experimental da prática cotidiana dos laboratórios de análises clínicas, nos quais a coloração de Gram é frequentemente realizada de forma imediata para orientar decisões clínicas iniciais (Tille, 2013; Tille, 2016). A literatura destaca que, em cenários de alta demanda, métodos que apresentam maior robustez frente a variações operacionais contribuem para a confiabilidade do diagnóstico e para a redução de erros interpretativos.

A elevada concordância interavaliador observada neste estudo reforça a aplicabilidade do check-list padronizado como ferramenta de avaliação objetiva da qualidade da coloração de Gram, alinhando-se a iniciativas recentes de padronização e controle de qualidade em microbiologia laboratorial (CLSI, 2022; Brasil, 2013). Instrumentos estruturados de avaliação permitem identificar falhas recorrentes, orientar treinamentos e fortalecer a reprodutibilidade dos resultados, tanto em ambientes acadêmicos quanto assistenciais.

Como limitação, destaca-se a utilização de um número restrito de espécies bacterianas, o que não contempla microrganismos Gram-variáveis ou com paredes celulares atípicas. Entretanto, essa escolha metodológica permitiu isolar o impacto das variáveis técnicas avaliadas, conforme recomendado em estudos metodológicos voltados à padronização de procedimentos laboratoriais (Leber, 2016; CLSI, 2022). Assim, os resultados oferecem base sólida para discussões futuras envolvendo maior diversidade microbiana.

Em conjunto, os dados reforçam que a coloração de Gram não deve ser tratada apenas como um procedimento mecânico, mas como um processo técnico dependente da interação entre estrutura celular, reagentes e execução operacional. A integração entre compreensão mecanística, ensino prático e aplicabilidade na rotina laboratorial é essencial para garantir resultados confiáveis e formação técnica qualificada em microbiologia (Madigan et al., 2021; Tortora; Funke; Case, 2021).

5. CONCLUSÃO

Os resultados deste estudo evidenciam que a fixação do esfregaço é uma etapa crítica para a qualidade diagnóstica da coloração de Gram, uma vez que condiciona a estabilidade estrutural da parede celular e a permeabilidade diferencial aos corantes, influenciando diretamente a retenção do complexo cristal violeta–lugol e a uniformidade da coloração microscópica, com impacto mais pronunciado sobre bactérias Gram-negativas frente a variações operacionais.

No contexto do ensino, esses achados reforçam a necessidade de enfatizar não apenas a sequência técnica da coloração de Gram, mas também os fundamentos estruturais e físico-químicos que sustentam cada etapa do procedimento. Já na rotina laboratorial, os dados destacam a importância da padronização operacional, da execução adequada das lavagens intermediárias e do controle rigoroso do tempo de descorante, especialmente em cenários de alta demanda e tomada de decisão rápida.

Em conjunto, o estudo contribui para a validação prática da coloração de Gram como ferramenta diagnóstica e pedagógica, oferecendo evidências que podem subsidiar a elaboração de protocolos mais robustos, reprodutíveis e alinhados à realidade dos laboratórios clínicos e de ensino, fortalecendo a qualidade da formação profissional e a confiabilidade dos resultados microbiológicos.

REFERÊNCIAS

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MATERIAL SUPLEMENTAR

Check-list para leitura cegada de lâminas coloração de Gram - Identificação da leitura

INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES

[1] Graduação em Medicina Veterinária (UNI-BH – 2022).  ORCID: https://orcid.org/0009-0002-3942-4911. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/7475068548670900.

[2] Pós-Graduada (Lato sensu : Especialização) em Microbiologia (PUC Minas – 2020), Graduação em Biomedicina (UNA-BH – 2019), Graduanda em Enfermagem (PUC Minas – atual) ORCID: https://orcid.org/0009-0007-0936-8513  Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4750870883182348.

[3] Graduando em Biomedicina (PUC Minas – atual).  ORCID: https://orcid.org/0009-0008-2319-3083.

[4] Graduando em Medicina Veterinária (PUC Minas – atual).  ORCID: https://orcid.org/0009-0000-6208-8069

[5] Pós-Graduada (Lato sensu – Especialização) em microbiologia (PUC Minas – 2018); MBA em consultoria e licenciamento ambiental (UNA-BH – 2014); Graduação em Biomedicina (PUC Minas – 2025); Graduação em Ciências Biológicas (CUMIH – 2011).  ORCID: https://orcid.org/0009-0002-9704-1644

[6] Orientadora. Pós-Doutorado em Microbiologia (UFMG – 2022); Doutorado em Microbiologia (UFMG – 2019); Mestrado em Microbiologia (UFC – 2014); Graduação em Biomedicina (UFPI – 2012). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9303-4338  Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2498047677232858.

Contribuição dos autores:

Bernardo Coelho Cruz: Concepção, planejamento experimental, execução dos experimentos, coleta e análise dos dados, redação inicial do manuscrito e aprovação da versão final.

Elizângela Rodrigues Assunção Silva: Execução dos experimentos, supervisão metodológica, análise crítica dos dados, revisão do conteúdo e aprovação da versão final.

João Otávio da Silva Santos: Execução dos experimentos, análise dos dados e revisão do conteúdo.

Matheus Pereira Silva: Execução dos experimentos, análise dos dados e revisão do conteúdo.

Cynthia Rodrigues Filpi de Castro: Execução dos experimentos, análise dos dados e revisão do conteúdo.

Sabrynna Brito Oliveira: Concepção, planejamento experimental, execução dos experimentos, coleta e análise dos dados, redação final do manuscrito, aprovação da versão final, orientação dos experimentos e escrita.

INFORMAÇÕES SOBRE O MATERIAL

Conflito de interesse:

Não há conflito de interesses.

Agradecimentos e Financiamento:

Não há.

Nota:

Uso da Inteligência Artificial Chat GPT “versão não identificada na plataforma” no que se refere ao artigo para correção gramatical e organização textual. No entanto, todas as buscas pelos conteúdos, classificação da qualidade dos artigos, análise e interpretação de dados foram realizadas de maneira autoral. Os autores se responsabilizam pelo material.

Informações sobre Direitos Autorais e Licença:

Este é um artigo de Acesso Aberto distribuído sob os termos da Creative Commons Attribution License, que permite uso, distribuição e reprodução irrestritos em qualquer meio, desde que o autor e a fonte originais sejam creditados.

Os nomes e endereços informados nesta revista serão usados exclusivamente para os serviços prestados por esta publicação, não sendo disponibilizados para outras finalidades ou a terceiros.

  • ISSN (versão eletrônica): 2448-0959
  • Licença Creative Commons: Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.

Histórico da Publicação:

Material recebido: 29 de dezembro de 2025.

Material aprovado pelos pares: 30 de dezembro de 2025.

Material editado aprovado pelos autores: 08 de janeiro de 2026.

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Bernardo Coelho Cruz

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