ARTIGO ORIGINAL
CRUZ, Bernardo Coelho [1], SILVA, Elizângela Rodrigues Assunção [2], SANTOS, João Otávio da Silva [3], SILVA, Matheus Pereira [4], CASTRO, Cynthia Rodrigues Filpi de [5], OLIVEIRA, Sabrynna Brito [6]
CRUZ, Bernardo Coelho. et al. Variações operacionais na coloração de Gram: implicações para o ensino e a rotina laboratorial. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 01, Vol. 01, pp. 95-116. Janeiro de 2026. ISSN: 2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/veterinaria/coloracao-de-gram, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/veterinaria/coloracao-de-gram
RESUMO
A coloração de Gram é uma técnica fundamental em microbiologia clínica e educacional, sendo amplamente utilizada como etapa inicial na identificação bacteriana. Apesar de seus princípios clássicos, variações operacionais frequentemente observadas na rotina laboratorial e em ambientes de ensino podem comprometer a padronização, a reprodutibilidade e a qualidade diagnóstica dos resultados. O objetivo deste estudo foi avaliar o impacto de diferentes métodos de fixação do esfregaço e de variações operacionais nos protocolos de coloração de Gram sobre a qualidade microscópica e a interpretação diagnóstica. Foram analisadas combinações experimentais envolvendo três métodos de fixação (chama, secagem em estufa e fixação química com metanol), presença ou ausência de lavagens intermediárias e diferentes tempos de exposição ao agente descorante. As lâminas foram avaliadas de forma cega e independente por dois avaliadores, com base em um check-list padronizado contendo 11 critérios qualitativos. Observou-se elevada concordância interavaliador (82,3%) e diferenças importantes entre os métodos de fixação. A fixação por chama apresentou o melhor desempenho global, com maior estabilidade frente às variações operacionais, seguida pela secagem em estufa, enquanto a fixação química com metanol apresentou maior frequência de resultados alterados e interferentes visuais. O tempo menor de descoramento e a realização de lavagens intermediárias exerceram impacto direto na uniformidade da coloração. Os achados reforçam a importância da padronização técnica da coloração de Gram e evidenciam sua relevância tanto para a confiabilidade diagnóstica quanto para o processo de ensino-aprendizagem em microbiologia.
Palavras-chave: Coloração de Gram; Microbiologia; Diagnóstico Laboratorial; Ensino.
1. INTRODUÇÃO
A coloração de Gram é uma técnica de coloração diferencial amplamente utilizada em microbiologia para classificar bactérias em Gram-positivas e Gram-negativas com base nas características físico-químicas de suas paredes celulares (Freitas; Picoli, 2007). Desenvolvida pelo bacteriologista dinamarquês Hans Christian Gram em 1884, a técnica foi originalmente concebida para tornar bactérias mais visíveis em cortes histológicos de tecido pulmonar e, posteriormente, passou a ser utilizada na diferenciação de grupos bacterianos em amostras clínicas e ambientais (Smith; Hussey, 2005; Gram, 1884 apud Freitas; Picoli, 2007). Na prática, essa coloração permite observar se as bactérias retêm o corante cristal violeta após tratamento com um agente descorante, refletindo a espessura e a composição do peptidoglicano na parede celular (Smith; Hussey, 2005; Brasil, 2001). Esse teste é considerado uma etapa inicial essencial em fluxos diagnósticos por fornecer informações rápidas e úteis sobre a estrutura bacteriana e orientar testes subsequentes de identificação e sensibilidade (Tripathi; Zubair; Sapra, 2023).
Ao longo do tempo, embora os princípios gerais da coloração de Gram tenham permanecido consistentes, modificações operacionais e adaptações de protocolo foram propostas e incorporadas em diferentes contextos de ensino e diagnóstico. A sequência clássica — aplicação de cristal violeta, mordenciamento com lugol, descoloração e contracoloração — é descrita nas principais instruções técnicas tradicionais (Freitas; Picoli, 2007; Brasil, 2001). No entanto, variações quanto à concentração de reagentes, tempos de exposição e etapas de lavagem são relatadas em manuais de microbiologia prática (Freitas; Picoli, 2007). Essas alterações podem estar associadas não apenas à busca por otimização técnica, mas também a ajustes pragmáticos em função de infraestrutura, disponibilidade de materiais ou exigências específicas de protocolos institucionais, resultando em uma diversidade de abordagens para a mesma técnica clássica.
Tais adaptações técnicas, apesar de muitas vezes necessárias em diferentes cenários laboratoriais, podem impactar negativamente a padronização e comparabilidade interlaboratorial, especialmente quando a técnica é executada por operadores com distintos níveis de experiência (Brasil, 2001; Freitas; Picoli, 2007). A ausência de critérios uniformes para etapas críticas, como o tempo de descoramento ou a realização de lavagens intermediárias, pode resultar em variações na intensidade da coloração, na formação de artefatos e na interpretação morfológica — fatores que comprometem tanto a qualidade diagnóstica quanto a reprodutibilidade dos resultados (Freitas; Picoli, 2007). Essa heterogeneidade metodológica torna desafiadora a avaliação comparativa dos protocolos e dificulta a definição de práticas que sejam ao mesmo tempo robustas e aplicáveis em diferentes contextos de rotina laboratorial.
No contexto educacional, a coloração de Gram desempenha um papel fundamental no ensino de microbiologia básica e aplicada, pois sintetiza conceitos estruturais da parede celular bacteriana, físico-química dos corantes e interpretação microscópica em uma única técnica (Brasil, 2001). Em cursos de graduação em saúde, biomedicina ou ciências biológicas, a coloração de Gram é, frequentemente, uma das primeiras técnicas diferenciais aprendidas pelos estudantes, servindo de base para a compreensão de métodos diagnósticos posteriores (Freitas; Picoli, 2007). A variabilidade nos protocolos pode, no entanto, dificultar a aprendizagem se não for acompanhada de explicações profundas sobre os fundamentos do método, sua sensibilidade a variações operacionais e as implicações dessas variações na interpretação dos resultados.
Diante desse cenário, estudos que investigam comparativamente diferentes protocolos de coloração de Gram, considerando variações operacionais e métodos de fixação, têm relevância tanto para a prática diagnóstica quanto para o ensino laboratorial. A padronização de procedimentos e a compreensão das tolerâncias operacionais permitem reduzir a variabilidade técnica, fortalecendo a confiabilidade da coloração de Gram como ferramenta diagnóstica inicial e como recurso pedagógico estruturante.
Assim, a presente investigação teve como objetivo avaliar como diferentes métodos de fixação e variações operacionais nos protocolos de coloração de Gram influenciam o desempenho da técnica em bactérias Gram-positivas e Gram-negativas, afetando a qualidade microscópica e a interpretação diagnóstica, com vistas a subsidiar a formulação de práticas mais robustas, reprodutíveis e aplicáveis a laboratórios de ensino e de diagnóstico.
2. MÉTODOS
2.1 VARIAÇÕES OPERACIONAIS NA COLORAÇÃO DE GRAM
A coloração de Gram foi realizada utilizando-se um único kit comercial, variando-se intencionalmente apenas parâmetros operacionais específicos. As variáveis analisadas incluíram: (i) os métodos de fixação do esfregaço; (ii) a realização ou não de lavagens intermediárias entre as etapas de coloração; (iii) o tempo de exposição ao agente descorante.
Quanto ao método de fixação do esfregaço bacteriano, foram testadas três abordagens amplamente utilizadas em microbiologia: fixação por chama, secagem em estufa e fixação química com metanol. A fixação por chama foi realizada por passagem constante e controlada da lâmina sobre a chama de Bunsen, promovendo adesão celular por coagulação térmica de proteínas. A fixação por secagem em estufa foi conduzida a 42 °C por aproximadamente 20 minutos, permitindo desidratação gradual do esfregaço sem choque térmico intenso. A fixação química foi realizada com metanol P.A., aplicado em volume controlado (15 µL por lâmina) por 1 a 2 minutos, após secagem inicial do esfregaço ao ar, conforme práticas descritas em protocolos de controle de qualidade microbiológico.
Em relação às lavagens intermediárias, foram incluídos protocolos que contemplaram a realização dessa etapa entre os reagentes, bem como protocolos nos quais as lavagens foram deliberadamente suprimidas, com o objetivo de avaliar o impacto dessa variação operacional sobre a uniformidade da coloração, a presença de interferentes visuais e a robustez da interpretação microscópica, simulando práticas frequentemente observadas em contextos de ensino e na rotina laboratorial. Ressalta-se que, independentemente das variações adotadas, todos os protocolos incluíram a lavagem final após a aplicação do contracorante, assegurando a remoção do excesso de corante residual antes da leitura microscópica. Sobre o tempo de exposição ao agente descorante foram utilizadas três condições: gotejamento imediato, 5 segundos ou 10 segundos. A descrição completa de cada combinação entre método de fixação, padrão de lavagens e tempo de descorante encontra-se apresentada na Tabela 1.
Com o objetivo de minimizar variabilidade analítica, foram mantidos constantes em todos os ensaios: o kit comercial de coloração de Gram utilizado (Laborclin®, código 620521), os tempos de aplicação do cristal violeta (1 minuto), do lugol (1 minuto) e do contracorante (30 segundos), as condições de preparo do esfregaço e o equipamento óptico empregado para leitura microscópica, sempre com objetiva de imersão (100×).
Tabela 1 – Descrição dos protocolos de coloração de Gram avaliados, segundo método de fixação e variações operacionais

2.2 MICRORGANISMOS E CONDIÇÕES DE CULTIVO
Foram utilizadas cepas de referência Escherichia coli ATCC 25922 e Staphylococcus aureus ATCC 25923, representativas, respectivamente, de bactérias Gram-negativas e Gram-positivas, e amplamente empregadas como controles de qualidade em microbiologia clínica. A escolha dessas cepas fundamentou-se no comportamento fenotípico bem estabelecido frente à coloração de Gram, reduzindo ambiguidades interpretativas relacionadas à retenção ou perda diferencial dos corantes.
As bactérias foram cultivadas em meio ágar sangue e incubadas a 37 °C por 24 horas, assegurando crescimento recente e condições fisiológicas comparáveis entre os ensaios. A escolha pelo preparo do esfregaço diretamente a partir da colônia bacteriana buscou aumentar a validade externa do estudo, ao aproximar as condições experimentais daquelas observadas na rotina laboratorial e em atividades de ensino, nas quais a coloração de Gram é majoritariamente realizada a partir de colônias em meio sólido, sem etapa intermediária de cultivo em caldo.
2.3 LEITURA MICROSCÓPICA DOS ESFREGAÇOS E AVALIAÇÃO QUALITATIVA DAS LÂMINAS
Os esfregaços bacterianos foram preparados em lâminas de microscopia a partir de colônias isoladas, utilizando-se uma gota de solução de NaCl 0,9% para obtenção de suspensão homogênea. Para cada combinação experimental, foram confeccionadas quatro lâminas, sendo duas contendo E. coli e duas contendo S. aureus. No total, foram analisadas 36 lâminas por espécie bacteriana, contemplando todas as condições avaliadas.
A avaliação das lâminas coradas sob as diferentes combinações experimentais foi realizada de forma cega e independente por dois avaliadores, utilizando-se um check-list padronizado e previamente estruturado, desenvolvido pelos próprios autores e descrito em detalhe no Material Suplementar 1. Esse instrumento foi concebido com o objetivo de sistematizar a análise qualitativa do desempenho dos protocolos, reduzindo a subjetividade inerente à interpretação microscópica da coloração de Gram.
A avaliação das lâminas contemplou múltiplos domínios analíticos, incluindo: a qualidade global do esfregaço, a intensidade e uniformidade da coloração ao longo da lâmina e entre diferentes campos microscópicos, o perfil de coloração da estrutura bacteriana (integridade e homogeneidade ao longo da célula), bem como o padrão de coloração celular compatível com bactérias Gram-positivas ou Gram-negativas. Adicionalmente, foram analisadas a morfologia bacteriana predominante, a organização celular no esfregaço (células isoladas, agrupamentos ou ambos) e o comportamento da coloração em agrupamentos bacterianos, quando presentes.
Também foram registrados potenciais fatores interferentes na leitura microscópica, tais como precipitados de corante ou fundo excessivamente corado e realizada a comparação com lâminas-controle previamente estabelecidas, classificando-se o grau de compatibilidade com o padrão esperado. Ao todo, foram estabelecidos 11 critérios de análise e comparação (quadro 1).
Quadro 1 – Critérios utilizados para avaliação qualitativa das lâminas coradas pelo método de Gram

Com base na integração desses critérios, cada lâmina recebeu uma classificação final, sendo categorizada como resultado satisfatório ou alterado. Os resultados das avaliações independentes foram posteriormente comparados, e eventuais discordâncias foram resolvidas por consenso, assegurando maior robustez à interpretação dos dados.
3. RESULTADOS
Observou-se uma grande concordância interavaliador, com consistência total em 82,3% das avaliações, 15,2% de classificações parcialmente compatíveis e apenas 2,5% de respostas divergentes, indicando boa reprodutibilidade do instrumento de avaliação e robustez da leitura microscópica adotada. A análise consolidada dos resultados evidenciou diferenças consistentes entre os métodos de fixação avaliados. A fixação por chama apresentou o melhor desempenho global, com 95,8% das lâminas classificadas como satisfatórias (C11), seguida pela fixação por secagem em estufa (83,3%) e pela fixação química com metanol (50,0%).
Os protocolos que empregaram fixação por chama apresentaram desempenho superior e maior estabilidade frente às variações operacionais testadas. Nesse grupo, 95,8% das lâminas foram classificadas como satisfatórias (C11), com desempenho máximo para Staphylococcus aureus (100%) e ligeiramente inferior para Escherichia coli (91,7%). A qualidade geral do esfregaço (C1) foi considerada adequada em 91,7% das avaliações, acompanhada por intensidade de coloração adequada (C2) também em 91,7% e uniformidade homogênea entre campos microscópicos (C3) em 87,5% das lâminas. A morfologia bacteriana predominante (C6) foi corretamente identificada em 100% dos casos, e a compatibilidade com o padrão Gram esperado (C5) atingiu 97,2%. Observou-se que protocolos com lavagens intermediárias apresentaram desempenho discretamente superior em critérios relacionados à uniformidade da coloração celular, quando comparados àqueles sem lavagens, embora a presença de precipitados de corante ou fundo excessivamente corado (C9) tenha sido registrada em 37,5% das lâminas, sem impacto importante na classificação final.
A fixação por secagem em estufa apresentou desempenho intermediário, com 83,3% das lâminas classificadas como satisfatórias. A qualidade do esfregaço (C1) foi adequada em 66,7% das avaliações, sendo frequentemente afetada por distribuição irregular do material bacteriano ou por artefatos visuais. A uniformidade da coloração (C3) foi considerada homogênea em 75,0% das lâminas, enquanto a morfologia bacteriana (C6) e o padrão Gram (C5) foram corretamente preservados em 100% das avaliações. Entretanto, observou-se maior heterogeneidade na coloração de agrupamentos bacterianos (C8), com desempenho inferior quando comparado à fixação por chama. Entre os protocolos desse grupo, destacaram-se combinações específicas que atingiram adequação plena nos critérios C1 a C5, enquanto tempos prolongados de exposição ao descorante estiveram associados ao aumento de classificações alteradas. A presença de interferentes visuais (C9) foi registrada em 41,7% das lâminas.
A fixação química com metanol apresentou o desempenho global mais baixo entre os métodos avaliados, com apenas 50,0% das lâminas classificadas como satisfatórias. A qualidade do esfregaço (C1) foi considerada adequada em 41,7% das avaliações, frequentemente comprometida pela distribuição irregular do material bacteriano e pela presença de artefatos associados à fixação. A intensidade da coloração (C2) apresentou tendência excessiva em parcela relevante das lâminas, enquanto a uniformidade do esfregaço (C3) foi considerada homogênea em 66,7% dos casos. Apesar disso, a morfologia bacteriana (C6) foi preservada em 100% das avaliações, e a compatibilidade com o padrão Gram esperado (C5) manteve-se elevada (91,7%). As principais limitações desse método estavam associadas à alta frequência de interferentes visuais (C9), observados em 91,7% das lâminas, e à incompatibilidade com os padrões de controle (C10), o que resultou em 50,0% de classificações finais alteradas.
No conjunto dos protocolos avaliados, observou-se clara superioridade da fixação por chama, que apresentou a maior proporção de resultados satisfatórios (95,8%). Esse desempenho sugere maior estabilidade estrutural da parede celular bacteriana, favorecendo a retenção seletiva do complexo cristal violeta–mesmo sob variações no tempo de descorante e na execução das lavagens. A fixação por secagem em estufa apresentou desempenho intermediário (83,3%), possivelmente em função da desidratação gradual, que reduz o choque térmico, mas permanece suscetível a heterogeneidades decorrentes de evaporação incompleta, especialmente em esfregaços mais espessos ou com agrupamentos celulares. Em contraste, a fixação química com metanol apresentou o menor desempenho global (50,0%), evidenciando maior vulnerabilidade a alterações operacionais. A precipitação proteica excessiva promovida pelo metanol compromete a permeabilidade diferencial da parede celular, favorecendo a perda prematura do corante primário, sobretudo em bactérias Gram-negativas, além de aumentar a ocorrência de artefatos visuais em ambos os grupos.
A análise conjunta dos resultados evidenciou que o tempo de exposição ao agente descorante exerceu impacto direto sobre a qualidade da coloração, especialmente quando associado a métodos de fixação menos robustos. Exposições prolongadas estiveram relacionadas ao aumento de resultados alterados, efeito mais pronunciado nos protocolos com fixação química por metanol e secagem em estufa, enquanto o gotejamento imediato do descorante demonstrou maior estabilidade cromática. Esse comportamento foi particularmente evidente em Escherichia coli, indicando maior sensibilidade desse microrganismo a variações operacionais, em contraste com Staphylococcus aureus, que apresentou maior tolerância às alterações testadas, refletindo diferenças estruturais da parede celular entre bactérias Gram-negativas e Gram-positivas.
De forma complementar, a realização de lavagens intermediárias mostrou-se um fator decisivo para a melhoria da qualidade microscópica das lâminas, estando associada à maior uniformidade da coloração e à redução de interferências visuais, independentemente do método de fixação adotado. Esse efeito foi mais expressivo nos protocolos submetidos a tempos mais longos de exposição ao descorante, sugerindo que a lavagem atua como etapa compensatória, minimizando o acúmulo de iodo livre e de resíduos de corantes que comprometem a leitura. Apesar dessas variações operacionais, a compatibilidade do padrão de coloração com o tipo Gram esperado manteve-se elevada (C5 > 90%), indicando que as principais divergências observadas estiveram relacionadas à qualidade do esfregaço, à homogeneidade da coloração e à presença de artefatos, e não à classificação incorreta do grupo Gram.
Adicionalmente, a interação entre método de fixação e tempo de descorante mostrou-se crítica: nos protocolos com metanol, o aumento do tempo de exposição ao álcool resultou em proporção maior de lâminas alteradas (66,7% com 10 segundos versus 33,3% com gotejamento), reforçando a baixa tolerância desse método a desvios técnicos. A realização de lavagens intermediárias contribuiu para a melhoria da uniformidade da coloração em aproximadamente 15–20% dos protocolos, destacando seu papel essencial na otimização da robustez diagnóstica em ambientes laboratoriais sujeitos a variabilidade operacional. A tabela 2 reúne evidências fotográficas
Tabela 2 – Registro fotográfico das principais alterações microscópicas identificadas nos protocolos de coloração de Gram realizados

Em conjunto, esses achados reforçam a necessidade de padronização rigorosa do método de fixação e das etapas críticas da coloração de Gram, especialmente em contextos de ensino e rotina diagnóstica.
4. DISCUSSÃO
Os resultados obtidos evidenciam que a coloração de Gram apresenta grande sensibilidade às variações operacionais, especialmente no que se refere ao método de fixação do esfregaço, corroborando achados clássicos que descrevem a técnica como altamente dependente da integridade da parede celular bacteriana e do preparo adequado da lâmina (Madigan et al., 2021; Tille, 2013). A maior proporção de lâminas satisfatórias associadas à fixação por chama sugere que esse método confere maior estabilidade estrutural às células bacterianas, favorecendo a retenção diferencial do complexo cristal violeta–iodo e reduzindo a ocorrência de artefatos microscópicos.
Do ponto de vista mecanístico, a fixação térmica promove a desnaturação rápida de proteínas e a adesão eficiente das células à lâmina, preservando a espessura e a organização do peptidoglicano em bactérias Gram-positivas, o que é determinante para a retenção do corante primário (Cappuccino; Sherman, 2014; Leber, 2016). Essa preservação estrutural explica a maior uniformidade observada no perfil de coloração celular e a menor incidência de descoloração parcial ou irregular, mesmo diante de variações no tempo de descorante, aspecto amplamente descrito na literatura microbiológica.
A fixação por secagem em estufa apresentou desempenho intermediário, indicando que a desidratação gradual pode preservar parcialmente a morfologia bacteriana, mas está mais sujeita a heterogeneidades no esfregaço, sobretudo em preparações mais espessas ou com agrupamentos celulares (Tille, 2016). A literatura aponta que a evaporação incompleta da água residual pode interferir na ação do álcool durante a etapa de descoramento, resultando em variações locais na permeabilidade da parede celular e, consequentemente, na intensidade e uniformidade da coloração (Tortora; Funke; Case, 2021).
Por sua vez, a fixação química com metanol apresentou os piores resultados globais, especialmente no que se refere à qualidade do esfregaço e à presença de interferentes visuais. A ação solvente do metanol promove intensa desidratação celular, o que pode comprometer a integridade da membrana externa de bactérias Gram-negativas e favorecer a perda precoce do complexo cristal violeta–iodo (Cappuccino; Sherman, 2014; Leber, 2016). Além disso, a maior frequência de precipitados observada está de acordo com relatos de que fixadores químicos podem aumentar a retenção de resíduos de corantes, prejudicando a leitura microscópica e a interpretação diagnóstica (Tille, 2016).
A avaliação das lavagens intermediárias demonstrou que essa etapa exerce papel fundamental na remoção do excesso de corantes e na prevenção de artefatos, especialmente em protocolos com menor tolerância operacional. Estudos prévios indicam que lavagens inadequadas estão diretamente associadas à formação de fundo excessivamente corado e à presença de precipitados, fatores que dificultam a identificação correta da morfologia e do padrão de coloração bacteriana (Tille, 2013; Madigan et al., 2021). Nesse sentido, a associação entre fixação por chama e lavagens intermediárias mostrou-se particularmente eficaz.
Sob a perspectiva do ensino em microbiologia, os achados reforçam que a coloração de Gram deve ser compreendida como uma técnica integrada, que envolve princípios físico-químicos e estruturais frequentemente subestimados em aulas práticas introdutórias (Teixeira et al., 2023; Murer et al., 2022). A maior tolerância da fixação por chama a variações operacionais a torna especialmente adequada para ambientes de ensino, nos quais erros técnicos são comuns e fazem parte do processo de aprendizagem. Ao mesmo tempo, a observação sistemática de falhas associadas a outros métodos pode ser explorada como estratégia pedagógica para promover a compreensão crítica da técnica.
No contexto da rotina laboratorial, a escolha por realizar o esfregaço diretamente a partir da colônia bacteriana aproxima o delineamento experimental da prática cotidiana dos laboratórios de análises clínicas, nos quais a coloração de Gram é frequentemente realizada de forma imediata para orientar decisões clínicas iniciais (Tille, 2013; Tille, 2016). A literatura destaca que, em cenários de alta demanda, métodos que apresentam maior robustez frente a variações operacionais contribuem para a confiabilidade do diagnóstico e para a redução de erros interpretativos.
A elevada concordância interavaliador observada neste estudo reforça a aplicabilidade do check-list padronizado como ferramenta de avaliação objetiva da qualidade da coloração de Gram, alinhando-se a iniciativas recentes de padronização e controle de qualidade em microbiologia laboratorial (CLSI, 2022; Brasil, 2013). Instrumentos estruturados de avaliação permitem identificar falhas recorrentes, orientar treinamentos e fortalecer a reprodutibilidade dos resultados, tanto em ambientes acadêmicos quanto assistenciais.
Como limitação, destaca-se a utilização de um número restrito de espécies bacterianas, o que não contempla microrganismos Gram-variáveis ou com paredes celulares atípicas. Entretanto, essa escolha metodológica permitiu isolar o impacto das variáveis técnicas avaliadas, conforme recomendado em estudos metodológicos voltados à padronização de procedimentos laboratoriais (Leber, 2016; CLSI, 2022). Assim, os resultados oferecem base sólida para discussões futuras envolvendo maior diversidade microbiana.
Em conjunto, os dados reforçam que a coloração de Gram não deve ser tratada apenas como um procedimento mecânico, mas como um processo técnico dependente da interação entre estrutura celular, reagentes e execução operacional. A integração entre compreensão mecanística, ensino prático e aplicabilidade na rotina laboratorial é essencial para garantir resultados confiáveis e formação técnica qualificada em microbiologia (Madigan et al., 2021; Tortora; Funke; Case, 2021).
5. CONCLUSÃO
Os resultados deste estudo evidenciam que a fixação do esfregaço é uma etapa crítica para a qualidade diagnóstica da coloração de Gram, uma vez que condiciona a estabilidade estrutural da parede celular e a permeabilidade diferencial aos corantes, influenciando diretamente a retenção do complexo cristal violeta–lugol e a uniformidade da coloração microscópica, com impacto mais pronunciado sobre bactérias Gram-negativas frente a variações operacionais.
No contexto do ensino, esses achados reforçam a necessidade de enfatizar não apenas a sequência técnica da coloração de Gram, mas também os fundamentos estruturais e físico-químicos que sustentam cada etapa do procedimento. Já na rotina laboratorial, os dados destacam a importância da padronização operacional, da execução adequada das lavagens intermediárias e do controle rigoroso do tempo de descorante, especialmente em cenários de alta demanda e tomada de decisão rápida.
Em conjunto, o estudo contribui para a validação prática da coloração de Gram como ferramenta diagnóstica e pedagógica, oferecendo evidências que podem subsidiar a elaboração de protocolos mais robustos, reprodutíveis e alinhados à realidade dos laboratórios clínicos e de ensino, fortalecendo a qualidade da formação profissional e a confiabilidade dos resultados microbiológicos.
REFERÊNCIAS
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MATERIAL SUPLEMENTAR
INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES
[1] Graduação em Medicina Veterinária (UNI-BH – 2022). ORCID: https://orcid.org/0009-0002-3942-4911. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/7475068548670900.
[2] Pós-Graduada (Lato sensu : Especialização) em Microbiologia (PUC Minas – 2020), Graduação em Biomedicina (UNA-BH – 2019), Graduanda em Enfermagem (PUC Minas – atual) ORCID: https://orcid.org/0009-0007-0936-8513 Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4750870883182348.
[3] Graduando em Biomedicina (PUC Minas – atual). ORCID: https://orcid.org/0009-0008-2319-3083.
[4] Graduando em Medicina Veterinária (PUC Minas – atual). ORCID: https://orcid.org/0009-0000-6208-8069
[5] Pós-Graduada (Lato sensu – Especialização) em microbiologia (PUC Minas – 2018); MBA em consultoria e licenciamento ambiental (UNA-BH – 2014); Graduação em Biomedicina (PUC Minas – 2025); Graduação em Ciências Biológicas (CUMIH – 2011). ORCID: https://orcid.org/0009-0002-9704-1644
[6] Orientadora. Pós-Doutorado em Microbiologia (UFMG – 2022); Doutorado em Microbiologia (UFMG – 2019); Mestrado em Microbiologia (UFC – 2014); Graduação em Biomedicina (UFPI – 2012). ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9303-4338 Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2498047677232858.
Contribuição dos autores:
Bernardo Coelho Cruz: Concepção, planejamento experimental, execução dos experimentos, coleta e análise dos dados, redação inicial do manuscrito e aprovação da versão final.
Elizângela Rodrigues Assunção Silva: Execução dos experimentos, supervisão metodológica, análise crítica dos dados, revisão do conteúdo e aprovação da versão final.
João Otávio da Silva Santos: Execução dos experimentos, análise dos dados e revisão do conteúdo.
Matheus Pereira Silva: Execução dos experimentos, análise dos dados e revisão do conteúdo.
Cynthia Rodrigues Filpi de Castro: Execução dos experimentos, análise dos dados e revisão do conteúdo.
Sabrynna Brito Oliveira: Concepção, planejamento experimental, execução dos experimentos, coleta e análise dos dados, redação final do manuscrito, aprovação da versão final, orientação dos experimentos e escrita.
INFORMAÇÕES SOBRE O MATERIAL
Conflito de interesse:
Não há conflito de interesses.
Agradecimentos e Financiamento:
Não há.
Nota:
Uso da Inteligência Artificial Chat GPT “versão não identificada na plataforma” no que se refere ao artigo para correção gramatical e organização textual. No entanto, todas as buscas pelos conteúdos, classificação da qualidade dos artigos, análise e interpretação de dados foram realizadas de maneira autoral. Os autores se responsabilizam pelo material.
Informações sobre Direitos Autorais e Licença:
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- ISSN (versão eletrônica): 2448-0959
- Licença Creative Commons: Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.
Histórico da Publicação:
Material recebido: 29 de dezembro de 2025.
Material aprovado pelos pares: 30 de dezembro de 2025.
Material editado aprovado pelos autores: 08 de janeiro de 2026.














Uma resposta
Estudo pertinente e bem conduzido