Início Veterinária Complexo Homeopático como Tratamento de Dermatofitose em Ratos (Rattus norvegicus): Relato de...

Complexo Homeopático como Tratamento de Dermatofitose em Ratos (Rattus norvegicus): Relato de Caso

RC: 17982 -
Complexo Homeopático como Tratamento de Dermatofitose em Ratos (Rattus norvegicus): Relato de Caso
Classificar o Artigo!
41
0
ARTIGO EM PDF

PEREIRA, Mariene Galvão [1], CARNEIRO, Bruno Ferreira [2], MIRANDA, Marina Mendonça de [3]

PEREIRA, Mariene Galvão; CARNEIRO, Bruno Ferreira; MIRANDA, Marina Mendonça de. Complexo Homeopático como Tratamento de Dermatofitose em Ratos (Rattus norvegicus): Relato de Caso. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 07, Vol. 06, pp. 107-113, Julho de 2018. ISSN:2448-0959

Resumo

A dermatofitose é uma enfermidade zoonótica, podendo ser transmitida dos pets ao ser humano. É diagnosticada através dos sinais clínicos, o uso da lâmpada de Wood, pela cultura dos fungos. Apesar de ser uma terapia complementar recente no Brasil, a homeopatia já tem sido empregada em animais de produção e em animais de companhia. As dermatopatias são afecções recorrentes em mamíferos silvestres e exóticos, devido à queda de imunidade causada pelo estresse. Esse relato de caso tem como objetivo de comprovar o êxito da utilização de complexos homeopáticos em animais silvestres e exóticos.

Palavras-chaves: Homeopatia, Roedores, Tinha

Introdução

A homeopatia surgiu no ano de 1810, com o médico alemão Christian Samuel Hahnemann, que iniciou suas experiências em seu cavalo de estimação no tratamento de afecção ocular. A homeopatia foi introduzida no Brasil em 1840, sendo implantada primeiramente em hospitais humanos e com sua expansão ao longo das décadas, na atualidade também está sendo empregada em clínicas veterinárias. A homeopatia não é outra medicina e sim um sistema terapêutico ou ciência, e pode ser considerada uma terapia de regulação ou de reequilíbrio atuando no estímulo do organismo doente. Portanto, a escolha do medicamento é feita de acordo com os sinais do paciente (PIRES, 2005, p. 1).

A medicina homeopática tem sido utilizada como uma alternativa aos tratamentos convencionais alopáticos (KANAYAMA, 2017, p. 4). De acordo com o princípio homeopático “lei dos semelhantes”, o tratamento envolve a terapêutica da doença ou do sintoma com pequena quantidade de compostos que causam sintomas semelhantes quando administrados em altas concentrações (PIRES, 2005, p. 1).

Hahnemann, nos primórdios de suas experiências usava medicamentos em doses baixas, porém ainda contendo a substância original ou tintura-mãe, mas com a experiência médica percebeu que essas dosagens eram fortes e poderiam provocar sérias agravações. Foi assim que começou a empregar doses extremamente fracas através da diluição do medicamento, isto é, diluídos em álcool e sem a substância original. Por este processo obtêm-se diversas diluições dos medicamentos: D1, D2, D3, D4, D5 e assim sucessivamente a escala decimal;  1 CH, 2 CH, 3 CH, 4 CH, 5 CH e assim sucessivamente a escala centesimal. Com a diluição, a informação presente no soluto se transfere para o solvente, surgindo assim o medicamento homeopático (KANAYAMA, 2017, p. 5; OLIVEIRA, 2016, p. 19).

A homeopatia dispõe-se de medicamentos de origem vegetal, mineral e animal. A nomenclatura do medicamento é descrita em latin. A primeira contribui com o maior número de matérias-primas, usadas em estado fresco para a obtenção da tintura mãe. As de origem mineral compreendem as substâncias simples e as compostas. O medicamento de origem animal é utilizado parte dele ou íntegro. Entre os produtos de origem animal que entram na classificação, constam os venenos de serpentes e aranhas, os hormônios, as secreções e excreções (KANAYAMA, 2017, p. 5).

A força vital é um tipo sutil de energia comum a todos os seres vivos, que regula as funções do organismo e mantém as partes em equilíbrio. Hahnemann sugeria que essa força seria liberada pelo processo de diluição para o veículo, se comportando como medicamento. A saúde dos animais é um estado de harmonia da energia vital com o ambiente, que se traduz pelo bom aspecto, não só fisiológico, mas também comportamental. A doença é a perda do equilíbrio dessa energia, que se manifesta por sintomas que localizam-se em um ou mais orgãos. A homeopatia vai atuar no reequilíbrio dessa energia, pois ela trata o doente como um todo e não somente os sinais causados pela enfermidade (OLIVEIRA, 2016, p. 19; BRIONES, 2009, p. 27).

A homeopatia tem sido empregada em animais selvagens, para tratamento de inúmeras condições clínicas e os resultados têm se mostrado eficazes. Essa modalidade terapêutica tem sido capaz de tratar algumas afecções que medicamentos alopáticos não demonstram êxito, principalmente em distúrbios de comportamento e em enfermidades crônicas em que os medicamentos alopáticos não demonstram mais sucesso (KANAYAMA, 2017, p. 8). Esse relato de caso tem a finalidade de demonstrar a eficácia do uso de complexos homeopáticos em animais silvestres e exóticos na clínica veterinária como terapêutica.

Materiais e métodos

Um casal de ratos (Rattus norvegicus) jovens de 4 meses, o macho com 396g e a fêmea com 236g, foram atendidos no dia 09 de agosto de 2016 na Clínica Veterinária Refúgio Silvestre®. Os animais se alimentavam de sementes de girassol e ração labina (Presence®) e ficavam instalados numa gaiola de hamster com forração de serragens. Durante a consulta, segundo o proprietário os animais exibiam comportamento ativo e a queixa foi somente o prurido na região do pescoço nos dois animais e a fêmea apresentava espirros intensos.

Ao exame físico, os dois animais apresentavam estado de consciência em alerta, mucosas normocoradas, tempo de preenchimento capilar (TPC) de 2 segundos, hidratados, pulsos fortes, temperatura da fêmea 35,9°C e do macho 36,6°C (35,9-37,5°C), presença de secreção serosa da narina direita da fêmea. À palpação foi observada descamação, hiperqueratose e crostas em região de pescoço dos dois animais. De acordo com os sinais clínicos e exame de raspado de pele, o diagnóstico foi sugestivo de dermatofitose. O tratamento prescrito foi o complexo homeopático Homeopet Pró-derma® com as seguintes matérias médicas homeopáticas e suas diluições: Hepar sulphur 10-30 CH, Croton tiglium 10-30 CH, Sulphur 10-30 CH, Mezereum 10-30 CH, Tellurium 10-30 CH, Viola tricolor 10-30 CH, Graphites 10-24 CH, Microsporum canis.

Resultados e discussões

O diagnóstico definitivo de dermatofitose foi concluído através de exame complementar de raspado de pele, realizado nos dois animais, sendo identificados (Figura 1) e isolados em cultura dermatófitos.

Figura 1 – Exame microscópico direto dos macroconídeos (círculo vermelho) que caracterizam o Microsporum canis presentes na amostra do rato (Rattus norvergicus).
Figura 1 – Exame microscópico direto dos macroconídeos (círculo vermelho) que caracterizam o Microsporum canis presentes na amostra do rato (Rattus norvergicus).

A dermatofitose é confirmada através da presença de dermatófitos, que são fungos pertencentes a três gêneros: Epidermophyton, Microsporum e Trichophyton. O gênero Epidermophyton apresenta uma única espécie de importância: E. floccosum. O gênero Microsporum compreende espécies como Microsporum canis (Figura 2), M. gypseum, M. audouinii, M. cookei e M. nanum. O gênero Trichophyton tem como espécies mais importantes T. rubrum, T. mentagrophytes, T. tonsurans, T. schoenleinii, T. violaceum e T. verrucosum (OJUOLAPE et al., 2016, p. 4) .

Figura 2 – Cultura algodonosa de Microsporum canis da amostra do rato (Rattus norvegicus).
Figura 2 – Cultura algodonosa de Microsporum canis da amostra do rato (Rattus norvegicus).

Dermatófitos em geral apresentam morfologia semelhante entre si ao exame microscópico direto. Invadem os tecidos queratinizados (pele, cabelo e unhas) do homem e de outros animais. Em pele e unhas o aspecto mais observado é a presença de filamentos micelianos septados de tamanho variável e que podem estar ramificados. É possível observar a presença de artroconídeos, nos quais os filamentos micelianos separam-se fisicamente em septos e posteriormente os mesmos arredondam-se formando cadeias semelhantes a um colar de contas (SANTOS, 2002, p. 2).

Anualmente, tem-se um alto gasto com antifúngicos direcionados a dermatofitoses tanto para humanos quanto para animais. Esse tem sido motivo de grande preocupação de pesquisadores em todo o mundo, pois o uso à longo prazo desses fármacos traz danos renais e hepáticos aos animais. As dermatofitoses têm sido associadas a surtos súbitos com diferentes fatores sobre sua reinfecção, e isso determina sua variação nos regimes de tratamento com diferentes organismos, por exemplo, existe um tempo específico para o tratamento de Trichophyton spp e Microsporum canis (OJUOLAPE et al., 2016, p. 2). Um estudo feito no sudeste da Itália comprovou que a dermatofitose é uma afecção zoonótica significativa em animais jovens, como o ocorrido nesse presente relato. E como os cães e gatos, os mamíferos exóticos (roedores, coelhos, ferrets, hedgehogs) são potenciais transmissores de zoonoses aos tutores (D’OVIDIO et al., 2015, p 2). Portanto, a dermatofitose é uma enfermidade importante e necessita de novas opções eficazes de tratamento.

O complexo homeopático Homeopet Pró-derma® é constituído por diferentes matérias médicas homeopáticas e cada uma contém função específica relacionada ao sistema tegumentar, com indicação para atopia, dermatomicoses, dermatites, pruridos e dermatoses. Uma das matérias médicas desse complexo é o Hepar sulphur, que é a mistura de calcário de ostras e flor de enxofre purificado, e conforme Briones (2009, p. 36) atua em casos complicados com supuração e em casos agudos de afecções cutâneas. Já o Croton tiglium tem diversas ações na pele, uma delas é na cicatrização de feridas, devido à presença de substâncias que causam efeitos antiinflamatórios e analgésicos. Além disso, tem ação antimicrobiana adicionada (LOCKIE, 2006, p. 321).

Sulphur é o enxofre, outro componente do complexo, tendo afinidade pela pele e ações antibactericidas, que reduzem o eritema, prurido e queda de pelos (CHAKRABORTY et al., 2015, p. 3). E também é empregado para reduzir o inchaço (MACLEOD, 2010, p. 31). Outra matéria médica é o Mezereum, utilizado para cura de eczemas e irritações na pele (NEKRATOVA, 2015, p. 3). Tellurium é um metal especificamente indicado para dermatofitose e sua função é estimular o crescimento dos pelos (MACLEOD, 2010, p. 31). A Viola tricolor possui efeitos antioxidantes e antibactericidas (CHMP, 2010, p. 16). Graphites é um metal de ação profunda nas doenças crônicas, caracterizadas por alterações da pele, cabelos, unhas, glândulas e mucosas, nas quais o indivíduo torna-se anêmico, com aspecto pálido e a pele apresenta-se cerosa. Além de reduzir o estado de endurecimento de cicatrizes espessas, e com isso, o queloide (BASTOS, 2015, p. 15).

O poder curativo do medicamento segundo Hahnemann, manifesta-se com a menor dose possível do medicamento dinamizado, que consiste na liberação de propriedades físicas desconhecidas da matéria nas diluições, a partir da agitação (KANAYAMA, 2017, p. 5). O complexo homeopático Pró-derma é uma junção de todos esses componentes com seus princípios ativos, realizando diversas funções para reequilibrar o organismo e tratar as afecções dermatológicas. Nesse presente caso, sua administração foi de uma borrifada na água de bebida dos animais, três vezes ao dia (TID), até a melhora clínica do animal. O medicamento teve eficácia nos dois animais após 60 dias de uso.

Conclusão

Diferentes terapias complementares são empregadas em animais selvagens e exóticos, a homeopatia é uma delas, sendo aliada dos médicos veterinários auxiliando no tratamento de uma gama de enfermidades. Essa ciência traz inúmeras vantagens como, preço acessível, a não metabolização dos medicamentos no fígado e rins (reduzindo risco de doenças hepáticas e renais), ausência de efeitos colaterais, facilidade na administração e não toxicidade. Portanto, uma alternativa terapêutica com bons resultados na prática clínica de animais silvestres e exóticos.

Referências bibliográficas

PIRES, Maria de Fátima Alves. Homeopatia Para Os Animais. Comunicado técnico Embrapa. 2005. Disponível em: https://ainfo.cnptia.embrapa.br/digital/bitstream/item/65416/1/COT-46-A-homeopatia-para-os-animais.pdf Acesso em: 03 abr 2017

KANAYAMA, C. Y. Homeopatia nas Clínicas de Animais Selvagens. Boletim Técnico ABRAVAS. Ano I, n. 6. Jan/ 2017. Disponível em: http://abravas.org.br/files/arquivo/85/homeopatia-final.pdf Acesso 05 abr 2017

OLIVEIRA, L. M. Ação da Calendula officinalis 6CH e Spray de Quitosana na Cicatrização de Feridas Cutâneas em Ratas Diabéticas. Dissertação de Mestrado em Homeopatia. Universidade Federal de Goiás. Goiânia, 2016.

BRIONES, F. F. S. Escritos sobre Homeoterapía y Otras Terapias. Santiago de Chile. B. Jain Publishers. 2009.

OJUOLAPE, S. G; MUHAMMED, A. O.; AFODUN, A. M. Infectious Differences Between the Dermatophytes Induced Dermatophytosis in Winstar Rat. Journal of Applied Life Science International. 2016. 5, ( 3 ); 1-5. Disponível em: http://www.journalrepository.org/media/journals/JALSI_40/2016/May/Ojuolape532016JALSI26250.pdf  Acesso 27 mar 2017

SANTOS, J. I.; COELHO, M. P. P.; NAPPI, B.P. Diagnóstico Laboratorial das Dermatofitoses. Revista Brasileira de Análises Clínicas . 2002. 38, ( 1 ); 3-6. Disponível em: http://www.ufrgs.br/napead/repositorio/objetos/atlas-virtual-micologia/files/Link_Caso_2.pdf Acesso em: 01 abr 2017

D’OVIDIO, D., SANTORO, D. Survey of Zoonotic Dermatoses in Client-Owned Exotic Pets Mammals in Southern Italy. Zoonosis and Public Health. 2015. (62); 100-104. 2015. Disponível em: http://onlinelibrary.wiley.com/doi/10.1111/zph.12100/epdf?r3_referer=wol&tracking_action=preview_click&show_checkout=1&purchase_referrer=www.ncbi.nlm.nih.gov&purchase_site_license=LICENSE_DENIED Acesso 01 abr 2017

LOCKIE, A. Encyclopedia of Homeopathy. 2nd edition. London, DK Publishing, 2006.

CHAKRABORTY, D., DAS, P., DINDA, A.K., SENGUPTA, U., CHAKRABORTY, T., SENGUPTA, J. A Comparative Study of Homoeopathic Medicine – Sulphur with the Multidrug Therapy in The Treatment of Paucibacillary Leprosy. Indian Journal of Research in Homeopathy. v. 9, n. 3, p. 158-166. 2015. Disponível em: http://www.ijrh.org/article.asp?issn=0974-7168;year=2015;volume=9;issue=3;spage=158;epage=166;aulast=Chakraborty Acesso em: 02 abr 2017

MACLEOD, G. The Treatment of Cattle by Homeopathy. C. W. Daniel, 2010. p. 31

NEKRATOVA, A. N. Poisonous Plants of Siberia as a Source of The Homeopathic Raw Material. Research Journal of Pharmaceutical, Biological and Chemical Sciences. 2015. 6, ( 3 ); 1744-1748. Disponível em: http://www.rjpbcs.com/pdf/2015_6(3)/[237].pdf Acesso em: 04 abr 2017

COMMITTEE ON HERBAL MEDICINAL PRODUCTS (CHMP). Assessment report on Viola tricolor L. and/or subspecies Viola arvensis Murray (Gaud) and Viola vulgaris Koch (Oborny), herba cum flore. European Medicine Agency. 2010. Disponível em: http://www.ema.europa.eu/docs/en_GB/document_library/Herbal_-_HMPC_assessment_report/2011/10/WC500116274.pdf Acesso em 05 abr 2017

BASTOS, S. M. C. Medicamento Homeopático Graphites uma Visão Dermatológica. Monografia de Pós-Graduação L.S. em Homeopatia – Instituto Hahnemanniano do Brasil. Rio de Janeiro, 2015.

[1] Médica Veterinária.

[2] Médico Veterinário da Clínica Refúgio Silvestre, Mestre pela Universidade Federal de Goiás e Especialista em Animais Silvestres e Exóticos

[3] Médica Veterinária da Clínica Refúgio Silvestre e Especialista em Animais Silvestres e Exóticos.

Como publicar Artigo Científico

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here