Atuação da equipe de enfermagem na prevenção do HIV em idosos e aspectos epidemiológicos

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ARTIGO DE REVISÃO

PIRANI, Amanda Colombo [1], NOVAES, Leticia Borges de [2], BARROS, Alceni do Carmo Morais Monteiro de [3] 

PIRANI, Amanda Colombo. NOVAES, Leticia Borges de. BARROS, Alceni do Carmo Morais Monteiro de. Atuação da equipe de enfermagem na prevenção do HIV em idosos e aspectos epidemiológicos. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 11, Vol. 05, pp. 55-70. Novembro de 2019. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/prevencao-do-hiv

RESUMO

O número de idosos está aumentando no Brasil e no mundo, constituído por uma geração longeva de integrantes que contam com auxílio de tecnologias e meios antes não existentes para manterem-se sexualmente ativos. Muitos destes idosos apresentam dificuldades para discorrer sobre temas ligados à sexualidade, fator que demonstra a necessidade de profissionais de enfermagem realizarem orientações a respeito de IST’s para pessoas desta faixa etária, visando minimizar o aumento de infecções sexualmente transmissíveis, como o HIV, neste público. Objetivo: Exibir o aumento das taxas de HIV na população idosa, abordando a importância dos profissionais de enfermagem realizarem orientações preventivas sobre esse tema com essa população. Método: Estudo realizado através da revisão bibliográfica, em que 18 artigos foram utilizados para constituir a amostra final. Resultados: Foram revisados 21 artigos para confirmar o aumento do número de idosos na população brasileira e o aumento de idosos infectados por HIV. Segundo projeções de longo prazo do IBGE, idosos totalizarão 25,5% dos brasileiros em 2060. Destes idosos, 70% estarão infectados em 2030 pelo vírus causador da aids caso o ritmo de alastramento dos casos permaneça como está (OMS, 2018). Profissionais da enfermagem, com sua função de educadores em saúde, devem promover e organizar ações educativas que abordem o tema IST’s com a população idosa, para que esse grupo etário tenha acesso às informações necessárias sobre o tema. Conclusão: Conclui-se que profissionais da enfermagem devem aproveitar a posição de educadores em saúde e o tempo que passam com pacientes idosos para abordarem temas relacionados ao HIV, visando mostrar a importância da prevenção para esse grupo que está aumentando mundialmente e normalmente não faz parte do público alvo de estratégias relacionadas à prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, o que colabora para o aumento da taxa de idosos infectados pelo vírus.

Descritores: Doenças Sexualmente Transmissíveis, educação em saúde, epidemiologia, HIV, saúde do idoso.

1. INTRODUÇÃO

Idosos são classificados pela Organização Mundial de Saúde (OMS) como pessoas com 60 anos ou mais em países em desenvolvimento, como o Brasil, que está passando por um aumento gradativo do número de idosos em sua população. Segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), o grupo de indivíduos com 60 anos ou mais cresce aproximadamente 3% por ano. Cálculos baseados em projeções do IBGE (2019) com indicadores de longo prazo, mostram uma expectativa de que no ano de 2060 pessoas com 65 anos ou mais representarão 25,49% do total dos brasileiros, o que em 2019 trata-se de 9,52%.

A expectativa de vida, segundo dados do Banco Mundial, teve um aumento aproximado de 6 anos entre 2000 e 2019, graças a avanços tecnológicos na área da saúde e estratégias eficazes para prevenção de problemas de saúde, que trouxeram melhora da qualidade de vida tanto para pessoas sem enfermidades como no enfrentamento de doenças (BANCO MUNDIAL, 2017).

Inúmeros foram os ganhos que a humanidade alcançou graças às ciências, e é importante ressaltar quando nos referimos à população idosa as diversas opções para contornar os problemas sexuais que fisiologicamente acontecem junto ao envelhecimento (VIEIRA, 2014).

Atualmente é mais fácil para os idosos manterem a prática sexual ativa, o que é importante para proporcionar bem-estar e aumentar a autoestima desses indivíduos, mas traz uma preocupação com a vulnerabilidade deles e com o conhecimento que possuem sobre infecções sexualmente transmissíveis (TAVARES, 2016).

A epidemia da síndrome da imunodeficiência adquirida (AIDS) pela infecção do vírus da imunodeficiência humana (HIV) representa um fenômeno global e o número de pessoas infectadas acima de 60 anos tem aumentado ano a ano (BRITO, 2001).

Como a Enfermagem, classe profissional envolvida na educação em saúde de todas faixas etárias, pode contribuir para prevenir o aumento dos índices de infecções por HIV em idosos? De quanto, atualmente, está sendo esse aumento?

Foram investigados os números de casos de ocorrência do HIV na população com 60 anos ou mais e os fatores associados à vulnerabilidade dos idosos às doenças sexualmente transmissíveis, com o intuito de expandir o acesso à educação em saúde a esta população, sensibilizando profissionais da enfermagem sobre a importância de buscar formas de debater assuntos relacionados à IST’s durante os atendimentos com idosos, principalmente quando forem pacientes sexualmente ativos.

Esse estudo se justifica, pois as informações contidas neste documento podem contribuir para o conhecimento e atualização de profissionais da enfermagem sobre os índices epidemiológicos da contaminação por HIV dentro da faixa etária de 60 anos ou mais, trazendo dados úteis para o desenvolvimento de estratégias preventivas para idosos.

1.1 OBJETIVO

Esse estudo objetivou apontar o aumento das infecções por HIV em idosos, evidenciando a importância dos profissionais de enfermagem na prevenção dessas infecções nesta faixa etária de 60 anos ou mais.

2. MÉTODO

Trata-se de uma pesquisa realizada através do método científico de revisão bibliográfica, que diz respeito ao levantamento da literatura de relevância já publicada em livros e revistas sobre o tema em questão, embasando a investigação referente ao estudo proposto sobre a atuação da equipe de enfermagem na prevenção do HIV em idosos e aspectos epidemiológicos.

A coleta de dados para este estudo foi realizada por meio de artigos científicos encontrados através de buscas nas bases de dados: LILACS, MEDLINE e BDEnf, além da biblioteca eletrônica SciELO e da biblioteca BVS. Os descritores para as pesquisas foram: Doenças sexualmente transmissíveis, Educação em saúde, Epidemiologia, HIV, Saúde do idoso.

Foram encontrados em todas as bases através desses descritores mais de dezoito mil artigos referentes ao assunto em questão. Esses artigos foram submetidos aos critérios de exclusão, que foram publicações disponibilizadas antes do ano de 2000 e as literaturas do tipo “carta”, “comunicação rápida”, “resenha de livro”, “relato breve” e “editorial”. Os filtros utilizados para áreas temáticas na biblioteca SciELO foram “doenças contagiosas”, “geriatria e gerontologia” e “saúde pública, ambiental e ocupacional”. Limitamos as pesquisas para artigos escritos ou traduzidos em língua portuguesa e espanhola. A leitura dos títulos já possibilitou muitas exclusões, e em seguida houve a leitura dos resumos dos artigos restantes, que indicou quais possuíam maior afinidade com a temática da pesquisa.

Iniciou-se então a etapa de leitura objetiva de 21 textos para que pudéssemos nos apropriar do tema e selecionar os que melhor cumprissem o objetivo proposto de acrescentar informações pertinentes em nosso trabalho. Com os artigos encontrados, foi realizada uma separação de quais seriam utilizados para introdução, e quais seriam teriam suas informações extraídas para resultados e discussões, gerando um mapeamento das produções científicas elaborado por meio de uma planilha, com a finalidade de organizar e resumir os focos de cada texto. A leitura e análise dos estudos pertinentes ao tema nos permitiu criar uma discussão sobre o aumento das taxas de HIV na população idosa, e a importância dos profissionais de enfermagem na realização de orientações preventivas sobre esse tema.

3. RESULTADOS

Os resultados obtidos podem ser visualizados abaixo, na Figura 1, onde estão organizados os 14 artigos revisados e classificados como mais pertinentes com a temática do trabalho, com suas informações mais importantes resumidas para uma melhor visualização. Excluímos da tabela os artigos utilizados para compor a introdução do trabalho, mantendo apenas os que ofereceram bases teóricas para originar os resultados e discussões.

Figura 1 – Quadro relacionado aos resultados obtidos através dos artigos utilizados. Autoria própria.

Referências Resumo Crítico
5 DOENÇAS mais comuns em idosos. Tecnosenior. Ago. 2018. Lista das cinco doenças mais comuns em idosos com explicações sobre cada uma.
ALENCAR, R. A; CIOSAK, S.I. Aids em idosos: motivos que levam ao diagnóstico tardio, Rev. Brasileira de Enfermagem, São Paulo, v. 69, n. 6, p. 1140-1146, 2016. Vulnerabilidade dos idosos, falha na solicitação da sorologia anti-HIV e na abordagem do assunto com idosos.
CAMARGO, Brigido Vizeu et al. Representações sociais do envelhecimento entre diferentes gerações no Brasil e na Itália. Revista Psicologia em Pesquisa, Set. 2017 Explica o processo do envelhecimento comparando esse fenômeno no Brasil e na Itália.
Coelho DNP, Danter DV, Santana RF, Santo FHE. Percepção de mulheres idosas sobre sexualidade: implicações de gênero e no cuidado de enfermagem. Rev Rene 2010. Percepção de mulheres idosas sobre o que é ser idosa, sexualidade, e sobre valores repressores que são impostos à mulher brasileira.
Fontes KD, Saldanha AAW, Araújo LF. Representações do HIV na terceira idade e vulnerabilidade no idoso. Congresso Virtual HIV/AIDS; Portugal, 2006. Índices epidemiológicos de HIV em idosos e motivos para aumento das taxas.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Estatuto do Idoso, Brasília, v. 3, n. 2, p. 05-07, 2013. Regulamentação e defesa jurídica de direitos associados aos cidadãos de idade igual ou maior que 60 anos.
MINISTÉRIO DA SAÚDE. Manual de orientação básica para equipe de enfermagem. BVSMS, Brasília. Epidemiologia, transmissão e prevenção para HIV, papel do enfermeiro e cuidados a serem oferecidos.
MOIMAZ, Suzely Adas Saliba et al. Envelhecimento: análise de dimensões relacionadas à percepção dos idosos. Revista brasileira de geriatria e gerontologia. Rio de Janeiro, v. 12, n. 3, Dez. 2009. Significado do processo de envelhecimento pela visão do idoso.
PATRIOTA, Lucia; ALMEIDA, Lucimêre. Sexualidade na terceira idade: um estudo com idosas usuárias do programa saúde da família do bairro das cidades – Campina Grande/PB. Revista eletrônica Qualitas. 2015 Postura necessária da sociedade perante a mudança da estrutura populacional, e história da sexualidade humana.
RACHID, Marcia; SCHECHTER, Mauro. Manual de HIV/AIDS. Editora Revinter. Rio de Janeiro. Conduta e esquemas terapêuticos frente ao paciente infectado pelo HIV ou com AIDS.

 

RIBEIRO, Maiara. Idosos também precisam se prevenir contra o HIV. 2018. Portal Drauzio Varella. Diagnóstico tardio e riscos específicos do HIV para o organismo do idoso.
SECRETARIA DE VIGILÂNCIA EM SAÚDE. Boletim Epidemiológico AIDS e IST. Ministério da Saúde, Brasília, v. 49, n. 53, p. 05-63, 2018. Apresentação de informações e análises de casos de HIV/AIDS no Brasil, de acordo com indicadores epidemiológicos.
SOUSA, Leilane et al. Práticas de educação em saúde no Brasil: a atuação da enfermagem. Educação em saúde como processo da enfermagem, visão holística sobre o paciente e história da saúde pública brasileira.
UNITED NATIONS POPULATION FUND Situação da população mundial, Brasil. Abr. 2019. Implicações sociais e econômicas do crescimento populacional, e luta por direito das mulheres.

Representados no quadro acima esquematizado, todos os artigos que foram considerados de suma importância para respaldo e embasamento desta pesquisa.

4. DISCUSSÃO

Idosos são classificados como pessoas de 60 ou mais anos de idade conforme a Lei escrita no Estatuto do Idoso pela Organização das Nações Unidas, Título I; Art. 1.º: “É instituído o Estatuto do Idoso, destinado a regular os direitos assegurados às pessoas com idade igual ou superior a 60 (sessenta) anos”. Pela OMS, idosos também são classificados como tendo 60 anos ou mais em países em desenvolvimento, mas em países desenvolvidos são considerados os indivíduos de 65 anos ou mais.

Segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (2019), a porcentagem de indivíduos idosos na população brasileira é de 9,52% no ano de 2019, mas a expectativa é de que no ano de 2060, esse percentual atinja 25,49%, totalizando um crescimento de 15,97%, como mostra o gráfico abaixo.

Figura 2- Projeção da população do Brasil e das Unidades da Federação.

Disponível em: IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística

A estrutura etária de um país envolve também a taxa de fecundidade, e em outubro de 2007 a UNFPA Brasil exibiu o relatório de Situação da População Mundial onde divulgou indicadores de saúde reprodutiva, mostrando que existiam 89 nascimentos a cada 1000 mulheres brasileiras de 15 a 19 anos. Já no relatório de abril de 2019, esse número de nascimentos caiu para 62, e é apresentada uma comparação das taxas de fecundidade totais por mulher desde 1969, quando o número no Brasil era de 5,2, muito diferente da taxa do ano atual que é 1,7 (UNFPA, 2019).

A sociedade muitas vezes divide as pessoas com base em seus grupos etários, criando estereótipos generalizados para cada grupo, limitando a visão que deveria ser holística sobre um indivíduo. Um exemplo sobre isso é o pensamento de que idosos em geral perdem capacidades funcionais, ideia retrógrada que permanece nos tempos atuais, mesmo com as novas tecnologias criando oportunidades para que a pessoa idosa se adapte e alcance um melhor padrão de vida, continuando a realizar suas atividades de forma independente. (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2015).

A invisibilidade da sexualidade na velhice é considerada como um dos fatores que contribuem para o aumento da incidência de HIV nessa população. Além disso, outros fatores que contribuem são a maior participação de idosos em atividades de lazer reservadas para esse grupo populacional, novos medicamentos que fornecem um melhor desempenho durante relações sexuais, e a falta de uso de preservativos masculinos em pessoas com mais idade por medo de interferir na ereção (SANTOS, ASSIS, 2011).

A diminuição orgânica e funcional que ocorre no processo de envelhecimento humano gera diversas alterações que dão ao fenômeno um caráter complexo, que não pode ser compreendido se observado através de uma única ótica – a biológica, por exemplo, pois assim teríamos um entendimento fragmentado (MOIMAZ, 2009).

Envelhecer é um processo que envolve perdas de funções, mas não é possível generalizar o que um idoso deixa de ser capaz de realizar em seu dia a dia, afinal o envelhecimento é um processo heterogêneo, que se apresenta de para cada pessoa de uma maneira, variando pelo estilo de vida e histórico de cada um, resultando em modificações diferentes para cada indivíduo (CAMARGO, 2017).

Órgãos governamentais devem estar preparados para essa mudança de estrutura populacional, atualizando suas políticas e estratégias de saúde para que a população idosa seja cada vez mais compreendida e atendida de acordo com suas necessidades atuais. As relações sexuais são exemplo de um assunto que precisa deixar de ser considerado tabu quando relacionado à terceira idade, pois a visão de que idosos se tornam assexuados com a velhice trazem a alusão de que deixam de estar expostos à transmissões virais no caso de relações desprotegidas (COELHO, 2010).

Os idosos tendem mesmo a não realizar o uso de proteção, muitas vezes por falta de costume afinal preservativos não eram tão utilizados em suas juventudes, onde até propagandas sobre o assunto eram proibidas; ou por estarem a muito tempo com um mesmo parceiro, ou até mesmo pelo fato da menopausa trazer a tranquilidade de não haver risco de gravidez (FONTES, SALDANHA, ARAÚJO, 2006).

Se analisarmos os atendimentos realizados por equipes de saúde com a pessoa idosa, perceberemos que ocorre uma busca por sinais e sintomas de doenças comumente encontradas em idosos, como hipertensão, diabetes, Alzheimer, pois se realizado o diagnóstico precoce são grandes as chances de cura ou prevenção de danos trazidos pelas doenças. Porém, percebemos a ausência de questionamentos e exames relacionados a saúde sexual, que deveriam continuar sendo solicitados para a parte idosa da população, em busca de diagnosticar doenças como HIV ou outras IST’s (TECNOSENIOR, 2018).

O aumento do HIV, vírus da imunodeficiência humana, tem sido percebido na população idosa. Segundo o Boletim Epidemiológico da Secretaria de Vigilância em Saúde do Ministério da Saúde, em 2007 foram notificados no Sinan 161 casos de HIV em pessoas de 60 anos ou mais. Em 2010 o número começou a subir, e em 2016 já eram notificados 1294 casos.

Figura 3- Dados retirados do Boletim Epidemiológico HIV AIDS do Ministério da Saúde, publicado em Brasília em 2018. Exibe número de casos de HIV e AIDS em idosos entre os anos 2000 a 2017.

O gráfico acima mostra o crescimento dos casos de HIV e AIDS na população idosa desde 2010, encerrando em 2017 por ser o último ano em que foram divulgados valores de HIV e AIDS notificados pelo Sinan no Boletim HIV AIDS de 2018, última publicação relacionada ao tema lançada pelo Ministério da Saúde (DIAHV/SVS/MS, 2018).

O vírus da imunodeficiência humana – HIV – foi identificado como agente etiológico da Síndrome da imunodeficiência adquirida no ano de 1983, nos Estados Unidos (RACHID, SCHECHTER, 2017). Na época, a doença foi cercada por preconceitos por ser vista socialmente como uma infecção que afetava apenas jovens promíscuos, e em sua maioria, homossexuais. Essa rejeição do tema afeta a percepção de idosos até hoje, por manterem um pensamento antigo e não buscarem conhecer mais sobre o assunto.

A infecção pelo HIV deve ser pesquisada em todo indivíduo sexualmente ativo que apresente os sinais e sintomas característicos, que incluem cefaleia, hipotermia, fadiga, linfadenopatia, faringite, sudorese noturna, artralgia, entre outros (RACHID, SCHECHTER, 2017). Porém, essa não é a realidade de consultas com profissionais de saúde, onde esses sintomas dificilmente são relacionados de primeira ao HIV, principalmente em pessoas idosas que não são vistas como um grupo potencialmente em risco para infecções sexualmente transmissíveis.

 “Questões relativas à vida sexual do idoso permanecem veladas durante o atendimento dos profissionais de saúde. O fato de acreditarem que os idosos não têm vida sexual ativa faz que médicos e enfermeiros não dialoguem ou questionem sobre questões relacionadas à vida sexual.” […]

[…] “Além disso, muitos idosos procuram os serviços de saúde apresentando sinais e sintomas sugestivos de infecções oportunistas que ocorrem na aids e os mesmos são negligenciados pelos profissionais de saúde, que acabam por atribuir a sintomatologia a outras morbidades mais prevalentes na população idosa.” (ALENCAR, CIOSAK, 2016)

Se para os jovens já não são comuns pedidos de exames preventivos para doenças sexualmente transmissíveis, em idosos esse tema costuma ser abordado apenas quando a doença já é existente. Segundo o Boletim Epidemiológico AIDS e DST, na faixa acima dos 60 anos é que se concentra a maior proporção de diagnóstico tardio. (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2015).

O organismo dos idosos é naturalmente mais fragilizado devido aos processos fisiológicos que acompanham o envelhecimento, e com as reservas do sistema imune tornando-se menores conforme ocorre numa infecção por HIV, maiores se tornam os riscos de comorbidades prognósticas, chegando a quatro vezes mais chances do que quando comparado com pessoas não portadoras do vírus (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2018).

O Dr. Jean Gorinchteyn, infectologista do Instituto de Infectologia Emílio Ribas, diz que “A AIDS no idoso tem um impacto muito maior do que no jovem do ponto de vista físico, já que ele pode ter outras doenças em associação e, por isso, correr o risco de desenvolver formas muito mais graves de infecções e não ter a mesma resistência de um paciente mais novo”. (RIBEIRO 2018,).

Segundo a OMS (2019), uma das doenças que pessoas com o vírus HIV têm maior propensão de desenvolver é a tuberculose. Sendo isso prejudicial para pessoas com a idade já avançada, é necessária a consciência de que o tratamento antirretroviral iniciado em tempo pode garantir uma expectativa de vida normal. Para que o tratamento comece a tempo, o idoso deve possuir consciência da doença que possui e ir atrás de auxilio.

A doença não se torna mais grave quando afeta um organismo idoso, mas não pode ser tratada como se fosse em um organismo jovem, afinal o idoso é mais suscetível a efeitos colaterais que aparecem com o uso da terapia antirretroviral, então o cuidado deve ser mais elaborado e complexo (CHAIMOWICZ, 2013).

Segundo o Ministério da Saúde (2019), o governo brasileiro têm apresentado maneiras diferentes de trazer o tema de doenças sexualmente transmissíveis à tona, diversificando formas de abordar a temática da preservação, incluindo tanto a explicação quanto a distribuição de preservativos masculinos e femininos, introdução de géis lubrificantes em kits, oferecendo teste rápido em seus postos, assim como profilaxia pré e pós exposição para o grupo de risco que inclui usuários de drogas injetáveis, trabalhadores do sexo, homens homossexuais e bissexuais).

O problema é que essas ações e campanhas dificilmente são voltadas para idosos, tendo jovens como público-alvo, aumentando a falsa impressão social de que apenas os jovens estão expostos e devem se prevenir contra o vírus. A vulnerabilidade não diminui com o passar da idade, e o número de idosos soropositivos no Brasil apresentou crescimento nos últimos anos, mostrando a importância da abordagem do tema com esse grupo (RIBEIRO, 2018).

O profissional de enfermagem, mais do que qualquer outro em ambiente de saúde, por estar em contato direto com o paciente, muitas vezes abordando temas íntimos, deve aproveitar dessa posição privilegiada para exercer a educação em saúde sobre formas de redução do risco de transmissão do HIV. A classe profissional dos enfermeiros possui respaldo para coordenar, planejar e executar programas de saúde com foco na educação em saúde, e esse privilégio deve ser aproveitado para levar conhecimento a todos grupos populacionais. (BARBOSA, 2010)

A assistência de enfermagem não deve mudar de um idoso não infectado para um infectado, porém alguns pontos requerem atenção. Com um idoso que normalmente vai à consulta acompanhado por filho ou companheiro, muitas vezes a família não se sente confortável em abordar assuntos relacionados ao fato do idoso ter uma vida sexual ativa, ou o mesmo prefere esconder esses fatos de seus familiares. Muitos familiares inclusive se surpreendem ou duvidam de diagnósticos de HIV por negarem essa realidade. Sempre que possível, com pacientes orientados e conscientes, uma consulta particular com o profissional e o paciente deve ser preferível para que o mesmo possa contar detalhes de seu caso. (PATRIOTA, ALVES, 2009)

O indivíduo soropositivo que faz o tratamento antirretroviral deve respeitar os horários prescritos para administração da medicação via oral e comparecer às consultas necessárias com profissionais da saúde. Fazendo isso, a carga viral pode se tornar indetectável, e assim a pessoa passa a não possuir mais risco de transmitir sexualmente o vírus. (RACHID & SCHECHTER, 2017). Portanto a população de todas as faixas etárias deve entender não apenas as formas de transmissão de IST’s e as comorbidades que elas podem trazer, mas também como identifica-las e o modo correto de trata-las. Profissionais devem explicar aos pacientes como o tratamento funciona e por que deve ser seguido. Além disso, pacientes deve ser esclarecido sobre a importância de comunicar parceiros sexuais em caso de sorologia positiva (RACHID, SCHECHTER, 2017).

Outro ponto de atenção é o modo como a doença é apresentada, já que idosos que viveram no período em que o HIV estava sendo descoberto podem apresentar certo preconceito pelo assunto pela falta de informação, por ainda considerarem a doença como algo relacionado à promiscuidade, estigma que deve ser quebrado com as melhores explicações sobre o assunto. (FONTES, SALDANHA, ARAÚJO, 2006)

Além do foco do ensino de autocuidado para o paciente, é muito importante que além de conhecer a melhor forma de abordagem à pessoa infectada pelo HIV, o enfermeiro transmita seus conhecimentos via educação permanente para outros membros de sua equipe (BVSMS, 1995). Como não é viável a realização de teste em todos os pacientes, um profissional de enfermagem deve considerar qualquer pessoa como um indivíduo em potencial para estar infectado, rompendo barreiras ideológicas de limites de idade e utilizando meios preventivos contra infecções transmissíveis.

5. CONCLUSÃO

O Brasil está passando pelo envelhecimento populacional, como outros países ao redor do mundo. Tal fenômeno é caracterizado pelo aumento da expectativa de vida, e quedas nas taxas de fecundidade. Essa mudança, traz preocupações sobre as ações governamentais que serão necessárias para acompanhar a população, pois esse fenômeno demanda atualizações para que a área de saúde consiga atender as necessidades surgirão no decorrer deste processo.

Devido ao fato de que o HIV não deixa de ser uma realidade quando a idade já é mais avançada, se faz necessário implantar na vida de idosos o melhor método de diminuição dos números de pessoas infectadas: a prevenção. Os conhecimentos sobre a doença, o modo de transmissão, sintomas, tratamento e maneiras de prevenção devem alcançar todas as pessoas que possuem risco de exposição ao vírus, e nisso os profissionais de enfermagem são importantes pela profissão envolver educação em saúde e poderem intervir nos pacientes por meio de orientações.

6. REFERÊNCIAS

ALENCAR, Rúbia Aguiar; CIOSAK, Suely Itsuko. Aids in theelderly: reasonsthat lead to late diagnosis. Rev. Bras. Enferm., Brasília,  v. 69, n. 6, p.  Dez.  2016. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034-71672016000601140&lng=en&nrm=iso>. Acesso em 12 Out.  2019, 14:25.

BANCO MUNDIAL. 2017. Relatório Anual de 2017 do Banco Mundial, Washington, DC: Banco Mundial. Disponível em: <https://openknowledge.worldbank.org/bitstream/handle/10986/27986/211119PT.pdf?sequence=9&isAllowed=y>. Acessado em 10 Nov. 2019.

BRITO, Ana Maria de; CASTILHO, Euclides Ayres de; SZWARCWALD, Célia Landmann. AIDS e infecção pelo HIV no Brasil: uma epidemia multifacetada. Rev. Soc. Bras. Med. Trop., Uberaba, v. 34, n. 2, p. 207-217, Abr.  2001 Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0037-86822001000200010&lng=en&nrm=iso>. Acessado em: 12 Nov.  2019.

CAMARGO, Brigido Vizeu et al. Representações sociais do envelhecimento entre diferentes gerações no Brasil e na Itália. Revista Psicologia em Pesquisa, Set. 2017. Disponível em: < https://periodicos.ufjf.br/index.php/psicologiaempesquisa/article/view/23499>. Acessado em 13 Nov. 2019.

COELHO DNP, DANTER DV, SANTANA RF, SANTO FHE. Percepção de mulheres idosas sobre sexualidade: implicações de gênero e no cuidado de enfermagem. Rev Rene 2010.

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RACHID, Marcia; SCHECHTER, Mauro. Manual de HIV/AIDS. Rio de Janeiro. Editora Revinter.

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VIEIRA S, HASSAMO V, BRANCO V, VILELAS J. A vivência da sexualidade saudável nos idosos: o contributo do enfermeiro. Salutis Sci. 2014;6:35-45.

[1] Graduanda em Enfermagem.

[2] Graduanda de Enfermagem.

[3] Especialização em Nefrologia para enfermeiros. Graduação em Enfermagem.

Enviado: Novembro, 2019.

Aprovado: Novembro, 2019.

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