ARTIGO DE REVISÃO
TRÉS, Katiane de Cássia [1], VERAS, Juscélia Maria de Moura Feitosa [2], ANDRADE, Anderson Wilbur Lopes [3]
TRÉS, Katiane de Cássia. VERAS, Juscélia Maria de Moura Feitosa. ANDRADE, Anderson Wilbur Lopes. Prevenção da obesidade infantil na Atenção Primária à Saúde: revisão integrativa. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 04, Vol. 01, pp. 05-25. Abril de 2026. ISSN: 2448-0959. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/prevencao-da-obesidade-infantil, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/prevencao-da-obesidade-infantil
RESUMO
A obesidade infantil configura-se como um problema global de saúde pública, associada a complicações que comprometem a qualidade de vida desde os primeiros anos de vida. Crianças com excesso de peso tendem a permanecer obesas ao longo da infância e adolescência, tornando-se mais suscetíveis ao desenvolvimento de doenças crônicas, como diabetes, câncer e enfermidades cardiovasculares. Este estudo teve como objetivo analisar as evidências científicas sobre as estratégias de prevenção da obesidade infantil no contexto da Atenção Primária à Saúde (APS). Trata-se de uma revisão integrativa da literatura, realizada nas bases PubMed, SciELO, LILACS e Scopus, abrangendo o período de 2013 a 2024, sem restrição de idioma. Foram utilizados os descritores “childhood obesity”, “primary health care for prevention of childhood obesity”, “childhood obesity prevention strategies” e “childhood obesity primary health”, além de seus equivalentes em português. Após a triagem de 4.073 registros, sete estudos foram incluídos na análise final. Os achados indicam que a APS constitui um espaço estratégico para o desenvolvimento de ações multiprofissionais voltadas à promoção da saúde infantil, envolvendo famílias, escolas e comunidades. Destacam-se programas educativos, incentivo ao aleitamento materno, promoção de hábitos alimentares saudáveis, estímulo à atividade física e limitação do tempo de tela. Intervenções escolares, comunitárias e o uso de tecnologias digitais mostraram-se promissoras, embora desafios como baixa adesão familiar, desigualdades socioeconômicas e heterogeneidade metodológica ainda dificultem a avaliação dos resultados a longo prazo. Conclui-se que abordagens multicomponentes, intersetoriais e sustentadas por políticas públicas que favoreçam ambientes saudáveis são essenciais para a efetiva prevenção da obesidade infantil.
Palavras-chave: Obesidade infantil, Atenção Primária, Estratégias.
1. INTRODUÇÃO
A obesidade é definida como o acúmulo anormal ou excessivo de gordura corporal que representa risco à saúde (WHO, 1995). É um dos problemas de saúde pública mais graves do século XXI. Suas causas envolvem fatores genéticos, comportamentais, ambientais e socioculturais, incluindo ingestão excessiva de calorias e sedentarismo.
Considerada uma condição metabólica multifatorial e complexa, a obesidade decorre do desequilíbrio da homeostase energética causado pelo consumo de energia superior às demandas do organismo, resultando no acúmulo excessivo de gordura (Weffort e Lamounier, 2018). A condição afeta todas as faixas etárias e repercute diretamente na saúde, favorecendo o desenvolvimento de doenças crônicas não transmissíveis, como diabetes mellitus tipo 2, hipertensão arterial e doenças cardiovasculares (Salama et al., 2023).
A prevalência global da obesidade vem aumentando de forma acelerada. No Brasil, a obesidade está presente em 12,2% entre crianças e adolescentes, já em relação aos sexos, tem-se que 12,3% meninos estão acima do peso, enquanto 10,8% meninas sofrem com o peso elevado (Santos et al., 2023). Tal cenário reforça a necessidade de estratégias efetivas para prevenção do ganho ponderal excessivo, visando reduzir a obesidade em crianças e adolescentes e os futuros problemas de saúde na vida adulta decorrentes dessa doença.
Além das complicações metabólicas amplamente reconhecidas, a obesidade também se relaciona a desfechos não metabólicos, igualmente relevantes, tais como síndrome dos ovários policísticos, asma, doença renal crônica, alterações dermatológicas e imunológicas, doenças cardiovasculares, câncer e impactos negativos na saúde mental (Wong e Srivastava, 2023).
A obesidade infantil destaca-se como uma epidemia global, com aumento expressivo em diferentes regiões, incluindo países asiáticos, africanos e nações desenvolvidas. Crianças com obesidade apresentam maior probabilidade de permanecer com excesso de peso na adolescência e na fase adulta, favorecendo o desenvolvimento precoce de doenças crônicas (Thomas-Eapen, 2021). Essa condição repercute negativamente na qualidade de vida, tanto física quanto emocional, podendo reduzir a expectativa de vida (Alexandrou et al., 2023). O período pós-pandemia evidenciou agravamento da prevalência e severidade da obesidade infantil, em decorrência de mudanças no estilo de vida e no comportamento alimentar (Capra et al., 2022).
Dessa forma, compreender os fatores determinantes, o contexto socioeconômico, o ambiente e os hábitos alimentares torna-se essencial para o planejamento de estratégias de enfrentamento da obesidade infantil. Nesse contexto, a Atenção Primária à Saúde (APS) constitui a principal porta de entrada do sistema de saúde e desempenha papel estratégico no monitoramento, prevenção e tratamento da obesidade infantil, sobretudo por sua proximidade com as famílias e com o território (SISVAN, 2023). Cabe à APS oferecer orientações, facilitar práticas de promoção da saúde e atuar na mitigação do ambiente obesogênico em espaços familiares, escolares e de lazer.
Destaca-se ainda a importância de fortalecer ações de educação nutricional e de incentivar atividades de lazer ao ar livre, tanto no ambiente familiar quanto no escolar, em consonância com iniciativas como o Programa Saúde na Escola (PSE).
Este estudo teve como objetivo analisar as evidências científicas sobre as estratégias de prevenção da obesidade infantil no âmbito da APS, com ênfase na orientação de pais e responsáveis. Buscou-se identificar as principais práticas preventivas implementadas, descrever os desafios enfrentados por famílias e profissionais de saúde, examinar estratégias voltadas à redução do ambiente obesogênico e discutir iniciativas de reversão da obesidade na primeira infância, reforçando a relevância da atuação multiprofissional.
2. MÉTODOS
Este estudo consiste em uma revisão integrativa da literatura científica, cujo objetivo foi reunir e sintetizar evidências qualitativas e quantitativas sobre estratégias de prevenção da obesidade infantil no âmbito da APS. A revisão integrativa permite analisar produções científicas diversas, possibilitando a identificação de práticas educativas e intervenções voltadas à promoção de hábitos saudáveis na infância. O desenvolvimento do estudo seguiu as etapas de busca sistemática nas bases de dados, seleção rigorosa dos artigos e análise dos resultados, conforme a metodologia proposta por Mendes, Silveira e Galvão (2008) e pelas diretrizes do Instituto Joanna Briggs (2023).
A questão norteadora baseou-se na estratégia PICo, conforme descrito por Cumpston et al., (2020), considerando: P – crianças em idade infantil com risco ou diagnóstico de obesidade; I – estratégias de prevenção da obesidade e promoção da saúde; Co – serviços da APS.
Dessa forma, definiu-se a seguinte pergunta de pesquisa:
“Quais evidências científicas estão disponíveis sobre as estratégias de prevenção da obesidade infantil desenvolvidas na APS?”
A busca foi realizada em ambiente virtual, por meio do portal da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e das bases de dados PubMed, LILACS, BDENF e Scopus. O recorte temporal compreendeu o período de 2013 a 2024. A estratégia de busca foi adaptada às especificidades de cada base, utilizando os Descritores em Ciências da Saúde (DeCS) nas bases LILACS e BDENF, e os descritores MeSH nas bases PubMed e Scopus. Para a combinação dos termos, foram empregados operadores booleanos, especialmente AND e OR, visando ampliar e refinar os resultados da busca. Os termos utilizados incluíram: “childhood obesity” AND “primary health care”, “childhood obesity” AND “prevention strategies”, “primary health care” AND “obesity prevention”, bem como combinações com o operador OR entre descritores semelhantes. Em português, foram utilizados os descritores “obesidade infantil”, “atenção primária” e “estratégias”.
Foram excluídos artigos de revisão, editoriais, estudos de caso, relatórios técnicos, protocolos de revisão, guidelines, cartas ao editor, artigos duplicados e publicações que não respondessem à questão norteadora. Os critérios de inclusão abrangeram artigos completos, disponíveis gratuitamente, publicados entre 2013 e 2024, nos idiomas português, inglês ou espanhol, que abordassem estratégias de prevenção da obesidade infantil no âmbito da APS.
A seleção e extração dos dados seguiram o protocolo PRISMA 2020 (Page et al., 2021), assegurando transparência e rigor metodológico. As informações extraídas incluíram ano de publicação, país de origem, objetivos do estudo, delineamento metodológico, público-alvo, principais estratégias preventivas e resultados. Os dados foram organizados em tabelas e analisados qualitativamente, possibilitando a identificação das principais evidências e das lacunas presentes na literatura.
3. RESULTADOS
A busca bibliográfica resultou na identificação de 4.073 registros provenientes das bases CAPES, PubMed, LILACS, BDENF e Scopus. Após análise dos títulos, 34 estudos atenderam aos critérios de elegibilidade. Em seguida, a leitura dos resumos levou à exclusão de 18 artigos, permanecendo 16 para leitura integral. Após avaliação completa, 9 estudos foram excluídos por não atenderem aos critérios estabelecidos, totalizando 7 artigos incluídos na revisão.
A Figura 1 apresenta o fluxograma do processo de identificação, triagem, elegibilidade e inclusão, conforme o protocolo PRISMA 2020. O Quadro 1 reúne as características principais dos estudos selecionados, incluindo autor, ano, objetivo, delineamento metodológico e resultados.
Os estudos analisados discutem a epidemiologia da obesidade infantil, seus determinantes e as estratégias de prevenção no âmbito da APS. As evidências reforçam a necessidade de intervenções intersetoriais envolvendo família, escola, comunidade e equipes multiprofissionais, com destaque para ações integradas à APS e estratégias multicomponentes.
Figura 1 – Fluxograma do processo de seleção dos estudos segundo as diretrizes PRISMA

Quadro 1 – Principais características dos estudos analisados na revisão integrativa
| AUTOR(ES) | ANO | OBJETIVO | METODOLOGIA | RESULTADOS |
| Barbosa; Paula; Recine | 2024 | Compreender potencialidades e limites do cuidado da obesidade infantil na APS. | Estudo qualitativo, realizado em 11 municípios brasileiros, com profissionais da APS. | Potencialidades: ações intersetoriais, cuidado sistematizado. Limites: falta de nutricionistas e baixa priorização. |
| Freitas
et al., |
2024 | Analisar a efetividade de intervenções nutricionais coletivas na APS. | Ensaio comunitário randomizado e controlado, realizado na APS, com acompanhamento longitudinal de usuários. | Avaliação longitudinal do impacto das intervenções; maior adesão esperada. |
| Jia
et al., |
2023 | Analisar influência de ambientes obesogênicos na obesidade infantil. | Revisão sistemática com meta-análise, incluindo estudos sobre fatores ambientais associados à obesidade infantil | Evidências para políticas públicas sobre ambiente construído e alimentar. |
| Alexandrou et al., | 2023 | Avaliar eficácia do aplicativo MINISTOP 2.0. | Ensaio clínico randomizado, com participação de 552 famílias atendidas na APS. | Redução de doces, bebidas açucaradas e tempo de tela; aumento da autoeficácia. |
| Obita; Alkhatib | 2023 | Avaliar intervenções nutricionais e de atividade física em minorias. | Revisão sistemática e meta-análise de estudos envolvendo crianças e adolescentes em contextos vulneráveis. | Melhora de hábitos e atividade física; baixa adesão em populações vulneráveis. |
| Victorino
et al., |
2020 | Compreender ações de promoção da saúde na APS/Paraná. | Estudo descritivo qualitativo, realizado com profissionais da APS no estado do Paraná. | Ações intersetoriais pelo PSE; limitações por sobrecarga e falta de nutricionistas. |
| Cunha
et al., |
2013 | Avaliar intervenção escolar para prevenir ganho excessivo de peso. | Ensaio clínico randomizado, realizado em escolas públicas, com 574 estudantes e envolvimento de familiares e professores. | Redução de ultraprocessados; aumento de frutas; IMC sem diferença significativa. |
Fonte: Elaborado pelas autoras, (2026).
A análise dos estudos demonstra que a obesidade infantil é uma condição multifatorial e crescente, com repercussões significativas na saúde física e psicológica de crianças e adolescentes. As estratégias de enfrentamento abrangem desde a promoção de hábitos alimentares saudáveis e a prática regular de atividade física até a implementação de políticas públicas e intervenções custo-efetivas que envolvem família, escola, comunidade e o sistema de saúde.
4. DISCUSSÃO
4.1 OBESIDADE INFANTIL E SEUS DETERMINANTES
A obesidade infantil configura-se como um fenômeno de origem multifatorial, resultado da interação entre determinantes biológicos, ambientais, sociais e culturais. Não se trata apenas de uma consequência do excesso de ingestão calórica ou da inatividade física, mas de um processo marcado por condições estruturais e contextuais que moldam os comportamentos desde os primeiros anos de vida.
Jia et al., (2023) apontam que fatores ambientais, como a concentração de estabelecimentos que comercializam alimentos ultraprocessados, a falta de áreas seguras para prática de atividades ao ar livre e o desenho urbano pouco favorável ao deslocamento ativo, aumentam significativamente a vulnerabilidade das crianças à obesidade. Evidencia-se que o ambiente no qual a criança está inserida influência de forma decisiva suas oportunidades de adotar hábitos saudáveis, reforçando a necessidade de compreender a obesidade como uma questão coletiva de saúde pública.
No entanto, a dimensão ambiental não pode ser dissociada das dinâmicas familiares. Cunha et al., (2013) demonstram que a motivação dos pais para modificar os hábitos alimentares da família aumentou ao longo do estudo, indicando que o envolvimento parental desempenha papel central nas mudanças de comportamento alimentar. Quando os pais subestimam o excesso de peso, muitas vezes deixam de reconhecer a necessidade de mudanças na rotina alimentar e na prática de atividade física, postergando a tomada de decisão em relação ao tratamento.
Essa lacuna de percepção familiar amplia o risco de perpetuação do quadro de obesidade ao longo da infância e adolescência. A análise desses achados permite compreender que, para além do conhecimento técnico oferecido pelos serviços de saúde, é essencial que as famílias sejam sensibilizadas e engajadas em práticas de cuidado contínuas, uma vez que são elas que mediam o ambiente alimentar doméstico e os padrões de lazer das crianças.
A escola, por sua vez, apresenta-se como outro espaço fundamental no contexto da obesidade infantil. Victorino et al., (2020) observaram, no contexto brasileiro, que a integração da saúde com a educação, especialmente por meio do Programa Saúde na Escola (PSE), possibilita o desenvolvimento de ações intersetoriais voltadas à promoção de hábitos alimentares mais saudáveis e ao estímulo à atividade física. Contudo, a aplicação dessas ações é limitada pela sobrecarga dos profissionais da educação e pela ausência de nutricionistas nas equipes, dificultando a continuidade e a efetividade dessas iniciativas.
De modo semelhante, Alexandrou et al., (2023) demonstram que intervenções educativas baseadas em tecnologias, voltadas à orientação de pais e ao incentivo de hábitos saudáveis em crianças pequenas, resultaram em melhora da qualidade da dieta e redução do tempo de tela, mas não impactaram significativamente o índice de massa corporal. Isso reforça que mudanças sustentáveis exigem ações articuladas entre escola, família e comunidade.
Cunha et al., (2013) apresentaram uma intervenção escolar com objetivo de promover hábitos alimentares saudáveis entre adolescentes, a fim de diminuir o IMC dos alunos. Essa intervenção se destacou devido à sua abordagem multidisciplinar, que contou com a participação de pais e professores. Intervenções com foco em mensagens positivas relacionadas ao consumo de água, frutas, arroz e feijão, e mensagens que incentivam a redução do consumo de biscoitos, bebidas açucaradas e salgadinhos demonstraram ser eficazes em promover mudanças na dieta dos adolescentes, reduzindo o consumo de bebidas açucaradas e biscoitos e aumentando o consumo de frutas.
Outro ponto importante é que os determinantes sociais da saúde estão intrinsecamente ligados ao desenvolvimento da obesidade. Obita e Alkhatib (2023) chamam atenção para o fato de que crianças pertencentes a grupos minoritários ou populações em situação de vulnerabilidade social apresentam maiores barreiras para adotar práticas de alimentação saudável e atividade física, seja pela limitação de recursos financeiros, seja pela ausência de políticas públicas efetivas que garantam acesso a ambientes saudáveis. Esses achados dialogam com a realidade brasileira, em que as desigualdades sociais e regionais interferem diretamente no risco de obesidade infantil, reforçando que o problema não pode ser enfrentado sem considerar o impacto das condições socioeconômicas.
A obesidade infantil não deve ser reduzida a um problema de escolhas individuais, mas entendida como resultado de múltiplos fatores que se inter-relacionam. Ao analisar conjuntamente as evidências apresentadas pelos diferentes estudos, fica claro que os determinantes da obesidade se sobrepõem e se reforçam, abrangendo desde a percepção familiar e a influência do ambiente escolar até a organização dos espaços urbanos e as condições socioeconômicas. Essa compreensão amplia a discussão sobre o tema e evidencia a necessidade de políticas públicas intersetoriais e de estratégias integradas, que articulem família, escola, comunidade e serviços de saúde na construção de ambientes mais saudáveis e menos obesogênicos para a infância.
4.2 A APS E SEU PAPEL NA PREVENÇÃO DA OBESIDADE INFANTIL
A APS tem se consolidado como a principal porta de entrada para os cuidados em saúde e, no contexto da obesidade infantil, desempenha um papel estratégico tanto na prevenção quanto no manejo dessa condição. Por sua capilaridade, proximidade com a comunidade e potencial de articulação intersetorial, a APS constitui o espaço mais adequado para o desenvolvimento de ações de promoção da saúde e prevenção de doenças desde os primeiros anos de vida.
Victorino et al., (2020), em estudo realizado no estado do Paraná, destacam que as ações da APS voltadas à prevenção da obesidade infantil estão fortemente associadas ao Programa Saúde na Escola (PSE), que possibilita a integração entre os setores da saúde e da educação. Apesar de sua relevância, essas ações ainda enfrentam barreiras, como a sobrecarga dos profissionais de saúde e a ausência de nutricionistas nas equipes, fatores que dificultam a sustentabilidade das iniciativas (Victorino et al., 2020; Barbosa; Paula; Recine, 2024).
Além disso, evidências recentes reforçam que intervenções estruturadas na APS podem produzir resultados consistentes quando organizadas de forma sistemática e contínua. Freitas et al., (2024), em um Ensaio Comunitário Randomizado envolvendo intervenções nutricionais coletivas, demonstraram que a adoção de protocolos claros, grupos terapêuticos bem delineados e acompanhamento longitudinal aumentam significativamente a adesão dos usuários e favorecem mudanças sustentáveis no comportamento alimentar. Esses achados fortalecem a compreensão de que a APS, quando apoiada por diretrizes metodológicas robustas, possui grande potencial para atuar tanto na prevenção quanto no manejo da obesidade.
O trabalho multiprofissional emerge como um eixo essencial nesse processo. Estudos nacionais que investigaram a integralidade do cuidado apontam que equipes com atuação articulada — envolvendo médicos, enfermeiros, nutricionistas, psicólogos e educadores físicos — conseguem ampliar o alcance e a efetividade das ações preventivas, sobretudo quando há responsabilização e continuidade das estratégias no território (Barbosa; Paula; Recine, 2024; Victorino et al., 2020). Ademais, revisões sobre intervenções multiprofissionais evidenciam que a atuação colaborativa favorece mudanças de comportamento mais sustentáveis nas famílias e nas comunidades assistidas.
Uma abordagem multiprofissional contínua apresenta potencial para promover mudanças mais consistentes nos hábitos alimentares e nos níveis de atividade física das crianças, ampliando as chances de sucesso na prevenção da obesidade. No entanto, diversos serviços de saúde ainda enfrentam limitações estruturais e de capacitação das equipes para lidar com a complexidade desse agravo, o que compromete a resolutividade das ações implementadas (Barbosa; Paula; Recine, 2024; Victorino et al., 2020). A escassez de recursos humanos especializados e a rotatividade dos profissionais nas equipes de Estratégia Saúde da Família (ESF) representam entraves adicionais a esse processo.
Outro aspecto que merece destaque refere-se à interação entre famílias e profissionais da APS. Estudos nacionais de intervenção escolar e comunitária demonstram que, em muitos casos, os pais não reconhecem o excesso de peso dos filhos, o que dificulta tanto o diagnóstico precoce quanto a adesão às recomendações e compromete os resultados das ações (Cunha et al., 2013). Esse cenário reforça a importância de estratégias educativas claras, participativas e culturalmente sensíveis, capazes de sensibilizar e envolver os responsáveis no cuidado com a saúde infantil.
A APS, nesse contexto, configura-se como um espaço privilegiado para a construção de vínculos de confiança entre profissionais e comunidade, possibilitando que orientações sobre alimentação saudável, prática regular de atividade física e hábitos de sono adequados sejam incorporadas de forma mais efetiva ao cotidiano familiar. Intervenções integradas ao cuidado primário — incluindo ferramentas de apoio digital, quando adequadas e adaptadas ao contexto local — podem ampliar o alcance das orientações e facilitar o monitoramento dos resultados.
Assim, a APS deve ser compreendida como o ponto de partida para as ações de prevenção da obesidade infantil, mas não como uma solução isolada. Sua efetividade depende da integração com escolas, famílias e comunidades, em uma rede de corresponsabilidade que ultrapassa os limites do serviço de saúde. O fortalecimento das ações da APS requer, portanto, o uso articulado de tecnologias digitais, estratégias educativas e políticas públicas de caráter intersetorial, capazes de sustentar práticas contínuas de promoção da saúde e prevenção da obesidade infantil.
4.3 DESAFIOS ENFRENTADOS POR PROFISSIONAIS, FAMÍLIAS E COMUNIDADES
Apesar de a obesidade infantil ser reconhecida como um dos grandes desafios de saúde pública, consolidar práticas efetivas de prevenção no âmbito da APS não é tarefa simples. Victorino et al., (2020) destacaram que gestores e profissionais frequentemente se deparam com sobrecarga de trabalho, falta de nutricionistas e insuficiência de recursos materiais e humanos. Essas limitações comprometem a implementação de ações contínuas e reduzem o potencial resolutivo das equipes multiprofissionais. Assim, mesmo quando há reconhecimento da importância do problema, a execução das estratégias ainda encontra entraves estruturais significativos.
Em estudo recente, foi demonstrado que o acolhimento nos serviços de saúde para crianças com obesidade é realizado sob demanda programada nas diferentes regiões do país. Essa demanda se dá por meio das avaliações antropométricas periódicas desenvolvidas no PSE e nas unidades de saúde vinculadas a programas de transferência de renda e ao ambiente escolar, além da busca ativa dos agentes comunitários de saúde por crianças com obesidade (Barbosa; Paula; Recine, 2024).
Os mesmos autores ressaltam ainda que programas desenvolvidos pela APS, como o Saúde na Escola e o Crescer Saudável, mostraram-se fundamentais para o processo de trabalho das equipes, permitindo o diagnóstico e o monitoramento contínuo dos casos de obesidade infantil. Além de possibilitarem o desenvolvimento de atividades coletivas, como grupos de educação em saúde, essas ações reforçam a importância da articulação intersetorial entre saúde e educação, essencial para a efetividade das estratégias preventivas e de controle da obesidade infantil.
Em concordância com Cunha et al., (2013), o estudo de Barbosa; Paula; Recine, (2024) destacou que estratégias de enfrentamento da obesidade infantil não devem se restringir à perda de peso e à adequação alimentar. É necessário considerar o contexto social, físico e alimentar em que a criança está inserida. Além disso, é fundamental incluir a saúde mental no cuidado, com escuta ativa das crianças e familiares, de modo a promover uma abordagem mais humanizada e integral.
Outro desafio crítico está relacionado às desigualdades sociais. Obita e Alkhatib (2023), reforça que famílias pertencentes a grupos socialmente vulneráveis enfrentam barreiras adicionais para adotar estilos de vida saudáveis, devido a fatores culturais e socioeconômicos, como o acesso limitado a alimentos in natura e a ausência de ambientes seguros para a prática de atividade física, o que compromete a adesão às intervenções preventivas. Nesse sentido, a obesidade infantil não pode ser compreendida como uma escolha individual, mas como reflexo de determinantes estruturais que moldam comportamentos cotidianos. Ambientes inseguros, ausência de áreas verdes e forte presença de ultraprocessados nos territórios tornam ainda mais difícil o trabalho preventivo da APS.
Além disso, a escola nem sempre consegue sustentar programas de promoção da saúde de forma contínua. Cunha et al., (2013) demonstraram que, mesmo quando as intervenções envolveram professores, alunos e familiares, os resultados sobre o IMC foram limitados, embora tenham ocorrido mudanças positivas nos hábitos alimentares e na motivação dos pais. Esses achados evidenciam que ações educativas isoladas, como palestras ou campanhas pontuais, tendem a gerar efeitos restritos, e que transformações mais duradouras dependem de uma integração efetiva entre o ambiente escolar, familiar e comunitário.
Esses desafios revelam que a prevenção da obesidade infantil na APS depende de uma rede de fatores que vai além da disponibilidade de profissionais de saúde. Famílias, escolas e comunidades precisam atuar de forma articulada e contínua, com apoio técnico e institucional que assegure a sustentabilidade das ações. Para isso, é fundamental fortalecer as políticas públicas intersetoriais, garantir formação permanente das equipes multiprofissionais e ampliar o acesso a ambientes alimentares e físicos saudáveis. Somente a partir dessa abordagem integrada e equitativa será possível transformar o cenário atual e construir bases sólidas para a promoção da saúde infantil.
4.4 ESTRATÉGIAS DE INTERVENÇÃO E INOVAÇÃO NA PREVENÇÃO
Diante dos múltiplos desafios apresentados, a literatura aponta para a necessidade de adotar estratégias intersetoriais, integradas e sustentáveis. No ambiente escolar, Cunha et al., (2013) destacam que a simples transmissão de informações não é suficiente; é necessário promover transformações nas práticas cotidianas, como a oferta de lanches saudáveis nas cantinas, a ampliação dos momentos de atividade física e a criação de ambientes que estimulem escolhas alimentares equilibradas. Essas mudanças estruturais demonstram maior potencial de sustentabilidade a longo prazo, pois envolvem não apenas o comportamento individual, mas também a organização do espaço escolar e o engajamento das famílias.
É essencial que as estratégias contemplem, sobretudo, as populações em maior vulnerabilidade socioeconômica. Ações que integrem atividade física, redução do comportamento sedentário e mitigação de ambientes obesogênicos mostram-se mais eficazes quando adaptadas às realidades locais. No contexto escolar, destacam-se intervenções que combinam atividades pedagógicas com modificações ambientais, como a inserção de exercícios físicos em sala de aula, especialmente onde não há áreas externas, e a limitação do acesso a refrigerantes e alimentos ultraprocessados ofertados a preços baixos (Cunha et al., 2013).
Nesse sentido, o estudo de Freitas et al. (2024) oferece contribuições relevantes ao evidenciar que intervenções coletivas estruturadas, especialmente aquelas baseadas em grupos terapêuticos, apresentam boa aceitabilidade e favorecem o engajamento contínuo dos participantes. Os autores destacam que a abordagem comunitária, aliada a metodologias participativas, promove um ambiente de apoio capaz de fortalecer a autonomia dos usuários, melhorar o vínculo com os serviços e aumentar a eficácia das estratégias de mudança de comportamento. Esses resultados reforçam a importância de ampliar modelos de intervenção que integrem acolhimento, educação alimentar e acompanhamento sistemático, especialmente no contexto da saúde pública.
As tecnologias digitais também despontam como ferramentas promissoras nesse cenário. Alexandrou et al., (2023) demonstraram que o aplicativo MINISTOP 2.0, integrado à APS, contribuiu para reduzir o consumo de ultraprocessados, diminuir o tempo de tela e aumentar a autoconfiança dos pais no incentivo a hábitos saudáveis. Esses recursos, quando utilizados de forma complementar às ações presenciais, podem reduzir a sobrecarga dos serviços, favorecer o acompanhamento domiciliar e fortalecer o vínculo entre a equipe de saúde e as famílias.
Outro aspecto relevante diz respeito à custo-efetividade e ao impacto estrutural das intervenções. Jia et al., (2023) evidenciaram que fatores ambientais e políticas públicas voltadas à redução da exposição a ambientes obesogênicos podem gerar efeitos duradouros tanto na saúde da população quanto na sustentabilidade dos sistemas de saúde. Medidas como o incentivo à oferta de alimentos in natura, o controle do marketing de ultraprocessados e a ampliação de espaços seguros para a prática de atividade física configuram estratégias essenciais para promover contextos mais favoráveis à prevenção da obesidade infantil.
Dessa forma, as estratégias familiares e comunitárias permanecem como pilares indispensáveis. Victorino et al., (2020) reforçam que o engajamento das famílias e o fortalecimento do vínculo entre a APS, a escola e a comunidade são determinantes para o sucesso das intervenções. Nesse sentido, o trabalho multiprofissional e o apoio intersetorial constituem elementos fundamentais para a consolidação de redes de cuidado integradas e contínuas, capazes de sustentar práticas alimentares e comportamentais saudáveis ao longo do tempo.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
A obesidade infantil é uma condição multifatorial, influenciada por aspectos biológicos, ambientais, culturais e sociais, que exige uma resposta integrada dos serviços de saúde e da sociedade. Os estudos analisados nesta revisão evidenciaram que a APS exerce papel central nesse processo, por sua proximidade com as famílias e por ser o espaço mais adequado para a promoção de hábitos saudáveis desde os primeiros anos de vida.
Apesar dos avanços, ainda há desafios importantes a serem superados. A sobrecarga das equipes, a ausência de profissionais especializados e as desigualdades socioeconômicas limitam o alcance das ações preventivas. Além disso, ambientes inseguros e o fácil acesso a alimentos ultraprocessados dificultam a adoção de comportamentos saudáveis, especialmente entre populações mais vulneráveis.
Intervenções pontuais ou restritas ao ambiente escolar produzem resultados limitados. Por outro lado, estratégias que integram escola, família e comunidade, associadas ao uso de tecnologias digitais e ao fortalecimento de políticas públicas, demonstram maior potencial de impacto.
Compreende-se que não existe uma única solução para enfrentar a obesidade infantil. Somente a combinação de ações contínuas, intersetoriais e adaptadas à realidade local pode gerar mudanças duradouras. Nesse contexto, a APS deve ser compreendida como elo de integração entre diferentes setores, promovendo um cuidado compartilhado e sustentável, capaz de transformar o cenário atual e favorecer o crescimento saudável das crianças.
Fortalecer a atuação da APS e fomentar políticas públicas intersetoriais são estratégias essenciais para enfrentar a obesidade infantil e promover o bem-estar das futuras gerações.
REFERÊNCIAS
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INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES
[1] Mestrado profissional em andamento em Saúde da Família – Centro Universitário UNINOVAFA-PI. Residência médica em Neonatologia no Hospital Manoel Novaes, HMN, Brasil (2015 -2017). Especialização Residência Médica em Pediatria. Hospital Manoel Novaes, HMN, Brasil (2013 – 2015). Graduação em Medicina pelo Centro Universitário do Espírito Santo, UNESC, Brasil (2005 – 2010). ORCID: https://orcid.org/0009-0004-0797-5027. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/2989136773183304.
[2] Orientadora. Doutora em Engenharia Biomédica pela Universidade Brasil (SP). Mestra em enfermagem pela Universidade Federal do Piauí (UFPI). Graduada em bacharelado em Enfermagem pela Universidade Federal do Piauí (1999). Especialista em Saúde da Família. Especialista em Saúde Pública e Especialista em Formação Pedagógica em Educação Profissional na Área de Saúde: Enfermagem pela Universidade Federal de Piauí. ORCID: https://orcid.org/0000-0001-9198-177X. Currículo Lattes: ID Lattes: 7087105606951799.
[3] Doutorado em Desenvolvimento e Inovação Tecnológica em Medicamentos. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0840-8097. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1460612070343601.
Contribuição dos autores:
Katiane de Cássia Trés: concepção, planejamento, análise, interpretação e redação do trabalho.
Juscélia Maria de Moura Feitosa Veras: análise, interpretação e redação do trabalho.
Anderson Wilbur Lopes Andrade: análise, interpretação e redação do trabalho.
INFORMAÇÕES SOBRE O MATERIAL
Conflito de interesse:
N/A.
Agradecimentos e Financiamento:
N/A.
Nota:
N/A.
Informações sobre Direitos Autorais e Licença:
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- ISSN (versão eletrônica): 2448-0959
- Licença Creative Commons: Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.
Histórico da Publicação:
Material recebido: 21 de novembro de 2025.
Material aprovado pelos pares: 16 de março de 2026.
Material editado aprovado pelos autores: 30 de março de 2026.






