Cinesioterapia funcional: prevenção, reabilitação, treinamento e desempenho

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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/cinesioterapia-funcional
Cinesioterapia funcional: prevenção, reabilitação, treinamento e desempenho
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ARTIGO ORIGINAL

INCHAUSPE, Ramiro Marques [1], BARBIAN, Pablo Morales [2], SILVA, Marcelo Schilling da [3], SANTOS, Fabricio Luis Pereira [4]

INCHAUSPE, Ramiro Marques. Et. al. Cinesioterapia funcional: prevenção, reabilitação, treinamento e desempenho. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 03, Vol. 03, pp. 100-109. Março de 2019. ISSN: 2448-0959.

RESUMO

A realização de programas de prevenção, reabilitação e condicionamento neuromuscular voltados ao desenvolvimento e manutenção das atividades da vida diária (AVD’s) e na performance esportiva, tem-se baseado na funcionalidade. A proposta da cinesioterapia funcional carece de maior discussão acadêmica. O presente texto apresenta uma visão sobre a cinesioterapia funcional, as premissas, características e definições de uma nova metodologia que vem crescendo a cada dia no mercado.

Palavras-chave: Cinesioterapia Funcional, Treinamento Funcional, Cinesiologia, Reabilitação.

INTRODUÇÃO

Método que vem com objetivo de desenvolver profissionais da área de reabilitação e fitness para trabalhar em um sistema integrado, que une o conhecimento da prevenção, reabilitação e do treinamento funcional, surge uma nova metodologia de prevenção, reabilitação e performance baseada na funcionalidade, que, primordialmente, inclui a seleção de atividades, exercícios e movimentos considerados funcionais (1,2). Esta proposta deve ser compreendida sob a ótica do principio da funcionalidade, o qual preconiza a realização de movimentos integrados e multiplexares. Esses movimentos implicam aceleração, estabilização (incrementando em alguns movimentos, elementos desestabilizadores) e desaceleração, com o objetivo de aprimorar a habilidade de movimento, força da região do tronco (CORE) e eficiência neuromuscular. Esta proposta é justificada pela ampla possibilidade de aplicação e “transferência” dos efeitos deste tipo de treinamento para as “atividades da vida diária” (AVD), e performance esportiva (3).

Apoiada nos princípios básicos do treinamento funcional, tem seu foco a busca pela eficiência do movimento na aplicação das condutas terapêuticas através da estimulação dos sistemas neuromuscular, através estabilização corporal central (core), força, resistência, equilíbrio e velocidade.

Exercício terapêutico planejado e sistemático de movimentos corporais que envolve diversas técnicas para prevenção, reabilitação e manutenção do sistema musculoesquelético, visando buscar o máximo da funcionalidade do corpo tornando-o mais inteligente.

Objetivou-se discutir os conceitos associados a cinesioterapia funcional, contribuir para redefinição dos mesmos, assim como emitir uma opinião crítica sobre o estado da arte no que se refere a esta temática.

CAPACIDADES FUNCIONAIS

Todos os treinamentos, sem exceção, devem ter por objetivo o desenvolvimento de alguma capacidade de funcionalidade. O treinamento da capacidade funcional não depende de nenhum tipo de equipamento e ou determinado tipo de exercício, depende da utilização das capacidades funcionais.

A figura 1 mostra as capacidades funcionais que é a resultante da relação harmônica entre saúde física, mental, independência na vida diária, integração social, suporte familiar e independência econômica, interagindo de forma multidimensional

Figura 1 – Elaborada pelo Autor.

CINESIOTERAPIA FUNCIONAL

A elaboração e prescrição da cinesioterapia funcional deve fornecer a adequada “dose” de exercícios frente as possibilidades de resposta ao estimulo e garantir adaptações ótimas em relação aos critérios de eficácia e funcionalidade.

Ao eleger determinado exercício, levando-se em consideração a perspectiva da funcionalidade, não significa que se realizou um programa de “cinesioterapia funcional”, porque está diante de aspectos distintos. Um programa de treinamento para ser considerado funcional deve contemplar exercícios selecionados tendo como critério a sua funcionalidade e isto só́ é possível atendendo as cinco variáveis distintas da funcionalidade (5): a) frequência adequada dos estímulos de treinamento; b) volume em cada uma das sessões; c) a intensidade adequada; d) densidade, ou seja, ótima relação entre duração do esforço e a pausa de recuperação); e) organização metodológica das tarefas. O manejo adequado das variáveis supracitadas permitirá uma eficaz consecução dos objetivos pretendidos na melhora ou manutenção da capacidade funcional do sistema psico-biológico.

Mesmo de maneira simplista, pode-se dizer que exercício funcional não determina um programa de cinesioterapia funcional por si só́, mas o programa deve selecionar adequadamente os exercícios, atendendo à funcionalidade e a os critérios e capacidade funcionais. A simples analise do termo permite considerar que frequentemente mascara-se o conceito de funcional quando se estabelece uma filosofia de trabalho baseada em determinados métodos e tipos de exercícios.

Exemplificando o exposto acima: para um individuo destreinado, uma “dose” de treinamento inadequada (Exemplo: erros na relação volume X intensidade, algumas das variáveis abordadas anteriormente) ou uma eleição de exercícios com altos níveis de estabilização externa (proporcionada por diversos aparelhos de exercícios resistidos), poderá́ ser mais “funcional” que lhe propor determinadas tarefas motoras com alta demanda de estabilização interna ativa, inclusive através de implementos que produzam ou acrescentem instabilidade, como “bozu” ou “fitball” (comumente associados a este tipo de treinamento).

Um dos pressupostos associados ao conceito da cinesioterapia funcional é a “transferência”. A origem desta palavra é latina (ato de transferre, transferir), ou seja, ação ou efeito de transferir, que é o ato de passar ou levar algo de um lugar a outro. Considera-se que todo treinamento tem como objetivo único lograr o maior efeito positivo sobre rendimento especifico (6,7), no caso do treinamento funcional efeitos sobre a saúde e qualidade de vida. A transferência acontecerá quando se estimulam um ou vários fatores do rendimento na atividade receptora da transferência (ângulos em que se aplica a força, tipo de ativação muscular, fase do movimento e velocidade), e isto ocorrerá no próprio exercício sem outras demandas (8).

Outro grande conceito e o core ou seja a estabilização central, são os músculos profundos da região abdominal, lombar e pélvica que têm como finalidade manter a estabilidade dessa região e de onde partem todos os movimentos do nosso corpo, produção de força; redução de força; estabilidade ; manutenção do alinhamento postural; aceleração e desaceleração de qualquer movimento do corpo humano.

A figura dois mostra os sistemas de estabilização CORE e de Movimento Transferência e suas respectivas musculaturas quando ativados.

Figura 2 – Elaborada pelo autor.

Quanto as propostas que defendem suposta transferência para as AVD, o que em tese não ocorre em programas de treinamento da força com utilização de uma exercitação mais analítica (a maioria dos aparelhos convencionais para exercícios resistidos), não parece existir produção cientifica consistente que aborde objetivamente os efeitos do treinamento com características funcionais para o desenvolvimento e melhora das diferentes características morfológicas, aptidão neuromuscular e status funcional.

O desenvolvimento de exercícios integrados, variados, multiplexares, será́ sempre adequado se considerarmos os fatores de estimulo mínimo e por sua vez, as necessidades de repetição e sistematização, para produzir adaptações. Deve-se planejar e programar tais exercícios atendendo ao nível de carga (externa-interna) em relação ao nível de rendimento do aluno e ao processo global de treinamento. Por outro lado, existem exercícios que se baseiam em movimentos que podem ocasionar déficits em aspectos básicos quanto à higiene postural. A escolha do exercício é vital, não se deve estabelecer por critério somente o foco em variáveis das AIDS, mas é necessário cautela uma vez que algumas ações articulares ou a combinação destas aumentam a probabilidade de lesões e desvios posturais (1).

A proposta da cinesioterapia funcional baseia-se de critérios de aplicação, periodização e progressão baseada em fundamentos do treinamento desportivo, treinamento funcional e pilates. Além disso, se tem ciência de uma abordagem que integre a metodologia da cinesioterapia funcional aos tradicionais programas de condicionamento físico. Esta sistematização pode levar o treinamento funcional a ser tão eficaz quanto se proclama, colaborando para expandir o conceito de uma abordagem muito mais específica e ao mesmo tempo geral, tratar o problema como um todo na busca por um corpo mais inteligente, mais forte e mais funcional. Toda a estruturação do método chama muito atenção pela sua quantidade de elementos, Avaliação Física Geral, Testes Especiais, Anatomia e Sistemas, Desempenho Funcional, Individualizada, especificidade e Progressão, Associada a técnicas para tratamento ou performance.

Outro aspecto que parece ser utilizado de modo superficial é o da “naturalidade”, ou seja, que algumas tarefas motoras aplicadas a alguns indivíduos são mais “naturais” que outras, que parecem não possuir esta característica. Quando se busca definição do termo natural, encontra-se o seguinte conceito: “pertencente ou relativo natureza conforme a qualidade e propriedade das coisas”. Seguindo tal conceituação será mais natural o exercício que atenda as propriedades bio-psicológicas, em contrapartida, será menos natural aqueles que não o façam. Outro aspecto a ser considerado quanto à “naturalidade” está associado à “ausência de artifícios”, ou seja, deveriam ser utilizados exercícios realizados sem implemento. Por fim, é comum afirmar que é mais natural aquilo que esteja ligado aos aspectos de vida do individuo.

Atualmente, muitos programas e exercícios são desenvolvidos embasados na premissa da funcionalidade, no entanto, deve-se sempre cuidar e buscar informações na literatura o que realmente está sendo funcional e o que está sendo benéfico para o seu aluno ou paciente. Diante de tal fato, recomenda-se refletir como deve ser direcionado o foco do treinamento, uma vez que os avanços da sociedade moderna tendem a conduzir o individuo ao sedentarismo e hipocinética, levando cada vez mais as pessoas a movimentos mais curtos, menos variados e menos frequentes.

Como ocorre no treinamento desportivo, se devem analisar exaustivamente as características das AVD’s e Movimentos Específicos do Esporte ou Objetivo de um individuo, assim pode-se desenhar um programa de cinesioterapia funcional que potencialize as demandas do aluno e ou paciente e compense possíveis desajustes ocasionados. É importante ressaltar que as AVD’s e gestões esportivos ou específicos durante os treinamentos ocupam aproximadamente 1/3 do tempo diário, portanto, é fundamental que sejam dedicadas de 2 a 3 horas semanais, para que sejam transmitidas modificações positivas e controlados os hábitos negativos inerentes ao estilo de vida (9-11).

DO TREINAMENTO FUNCIONAL A CINESIOTERAPIA FUNCIONAL

É bastante comum na literatura específica desta temática que os autores considerem treinamento funcional o uso de determinados grupos de exercício, com características bem definidas (como, por exemplo, os de estabilização), e materiais específicos (bozu, fitball), mesmo que estes procedimentos não contemplem as variáveis inerentes a este método. Nestas obras também são citados outros tipos e exemplos de exercício que possuem outras características e não usam equipamentos que são considerados não-funcionais. Temos que esclarecer inicialmente que existem diferenças quanto à situação adequada para utilizar os termos em relação a um exercício, grupo de exercícios ou treinamento e sua funcionalidade ao encontro de tudo isso a cinesioterapia funcional compilou tudo isso de uma maneira mais abrangente principalmente a necessidade de utilização de terapias acessórias e matérias, como por exemplo o processo de reabilitação física que permite ao aluno e ou paciente atingir um nível de funcionalidade e performance ideal para realização de suas atividades logo, a cinesioterapia funcional pode e deve ser utilizada para manter ou melhorar a amplitude de movimento e a força muscular, auxiliando na melhora da qualidade de vida, do desempenho funcional e promovendo a autonomia e a performance, favorável nos vários estágios.

Treinar pressupõe preparar e este termo é definido como prevenir ou dispor para alguma finalidade ou ação futura, em suma, executar as ações necessárias para a obtenção de um produto. Isto está mais ligado aos processos que organizam, estruturam e operam uma serie de variáveis que acabam definindo uma dose de exercícios (prescrição), que ao mero fato de descrever uma serie de exercícios sequenciados e muitas vezes com escasso critério em sua seleção e muito mais na própria definição da dose (11).

O termo exercício deriva-se do latim “exercitem” que se define como: conjunto de movimentos corporais que se realizam para manter a forma física (12). Portanto, qualquer movimento corporal pode ser considerado um exercício, desde que a seleção, variáveis de aplicação e realização (dose) estejam incorporados a um programa de treinamento que seja adequado o suficiente para manter ou adquirir aptidão física (2).

Portanto, treinar compreende um processo que deve ser estruturado antes mesmo de iniciar a seleção e prescrição de exercícios. Devemos levar em consideração o componente de funcionalidade dos mesmos uma vez que a capacidade operativa é limitada (exercícios por sessão), a escolha deve pautar-se nos objetivos a alcançar. Neste sentido, afirma-se que não existe exercício funcional e não-funcional, pois, desde que seja assegurado os pressupostos de segurança e eficácia, todos exercícios poderão ser enquadrados em alguma fase do treinamento e gerar a adaptação desejada.

RECOMENDAÇÕES FINAIS

O planejamento e prescrição do programa de cinesioterapia funcional deve seguir uma fundamentação teórica e prática. A este respeito existem diversas evidências cientificas algumas das quais publicadas nos últimos cinco anos. Ao longo do processo de periodização estabelecido recomenda-se controlar e manipular as variáveis de forma que se concretize em uma prescrição que contenha a dose adequada de exercício que o individuo deve realizar na unidade do programa. Se o programa for realizado adequadamente, o estado psico-biológico será adequadamente estimulado, gerando respostas, adaptações e resultados positivos.

NEM TUDO QUE VOCÊ ENXERGA COMO UM PROBLEMA É UM DEFEITO, O CORPO HUMANO SE ADAPTA ÀS SUAS NECESSIDADES, E MUITAS VEZES TEMOS QUE NOS ATENTAR A FUNÇÃO E NÃO AO PROBLEMA’’, Inchauspe 2018.

A frase acima mostra muito dessa nova metodologia, a premissa prevenção, reabilitação, treinamento e performance, nos abre os olhos de esperança para um novo conceito multidisciplinar de trabalho integrado entre educadores físicos e fisioterapeutas.

REFERÊNCIAS

  1. COLADO JC, CHULVI I, HEREDIA, JR. Criterios para el diseño de los programas de acondicionamiento muscular desde una perspectiva funcional. In: Ejercicio físico en salas de acondicionamiento muscular: bases científico-médicas para una práctica segura y saludable. Madrid: Panamericana; 2008.
  2. HEREDIA JR, PEÑA G, MORAL S. Entrenamiento funcional en Sañudo. In: Nuevas orientaciones para una actividad física saludable en centros de fitness. Local: Sevilla, Wanceulen; 2011.
  3. HEREDIA JR, ISIDRO F,CHULVI I, MATA F. Guía de ejercicios de fitness muscular. Local: Sevilla, Editorial Wanceulen; 2011.
  4. American College of Sports Medicine. American College of Sports Medicine po- sition stand. Progression models in resistance training for healthy adults. Med Sci Sports Exercise 2009; 41(3):687-708
  5. HEREDIA JR, ISIDRO F, PEÑA G, MATA F, DA SILVA-GRIGOLETTO ME. Criterios básicos para el diseño de programas de acondicionamiento neuromuscular saludable en centros de fitness. Lect Educ Fís Deportes (B. Aires) 2012; 17(170): 1-1.
  6. PLATONOV V. El entrenamiento deportivo, teoria, metodología. Barcelona: Paido- tribo, 1988
  7. STIFF M, VERKHOSHANSKY YV. Super training. Special strength training for sporting excellence. Sports Training. Local: Escondido, 1996.
  8. GONZÁLEZ-BADILLO JJ, RIBAS J. Programación del treinamento de fuerza. Barcelona: Inde; 2002.
  9. HYRSOMALLIS C, GOODMAN C. A review of resisitance exercise and posture realign- ment. J Strength Cond Res 2001; 15(3):385-390.
  10. LECLERC A, CHASTANG JF, NIEDHAMMER I, LANDER M-F, ROQUELAURE Y. Incidence of shoulder pain in repetitive work. Occup Environ Med 2004; 61(1):39-44.
  11. LEIJON O, LINDBERG P, JOSEPHSON M, WIKTORIN CH. Different working and living conditions and their associations with persistent neck/shoulder and/or low back pain disorders. Occup Environ Med 2007; 64(2):115-121
  12. FERREIRA ABH. Novo dicionário Aurélio da Língua Portuguesa. Curitiba: Nova Fronteira, 2014.

[1] Doutorando, Mestre, Especialista, Fisioterapeuta e Educador Físico, FIBA (FEDERAÇÃO INTERNACIONAL DE BASKETBALL) América Fitness Coordinator.

[2] Especialista, Fisioterapeuta.

[3] Especialista, Fisioterapeuta.

[4] Educador Físico, Treinador.

Enviado: Janeiro, 2019.

Aprovado: Março, 2019.

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