ARTIGO ORIGINAL
SILVA, Vinícius Penoni [1] , BERNARDES, Bruna Tábata [2], BRITO, Larissa Froede [3], GOMES, Tulio Gonçalves [4], BICALHO, Juliana Mara Flores [5]
SILVA, Vinícius Penoni et al. Impacto de aditivos alimentares na microbiota intestinal: uma revisão da literatura. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 10, Ed. 10, Vol. 02. pp 97-110, Outubro de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/saude/aditivos-alimentares, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/saude/aditivos-alimentares
RESUMO
No mundo moderno há o consumo recorrente de alimentos contendo aditivos químicos, e ainda pouco se sabe sobre o impacto causado por essas substâncias na saúde da microbiota e do intestino. Por meio de revisão de literatura nas bases de dados PubMed Central (PMC) e a biblioteca Scielo Scientific Electronic Library Online, foram selecionados sete artigos que abordam a relação entre aditivo e microbiota intestinal. Os estudos relataram impactos sobre a microbiota, com desfechos inflamatórios, reorganizações das espécies, desenvolvimento de doenças, e danos ao intestino. Após analisar os trabalhos, concluiu-se que os aditivos abordados podem oferecer risco à saúde da microbiota intestinal. Outras pesquisas devem ser realizadas no sentido de garantir a segurança do uso dessas substâncias em produtos alimentícios.
Palavras-chave: Microbiota intestinal, Aditivos alimentares, Agente emulsificante, Colorífico, Agentes edulcorantes.
1. INTRODUÇÃO
O trato gastrointestinal é uma superfície que está constantemente exposta a microrganismos. Em mamíferos, essa estrutura evoluiu de maneira a maximizar os benefícios trazidos pelas espécies que colonizam o sistema, e minimizar os efeitos potencialmente negativos (Chassaing et al., 2017). Tal estrutura, no caso dos seres humanos, configura a maior superfície existente no corpo, o que favorece o estabelecimento de uma microbiota diversa. Existe também, uma camada mucosa que separa a microbiota das células do intestino. Esse ecossistema tem o poder de estimular e inibir diversos mecanismos de mediação inflamatória, em decorrência de diversos estímulos intrínsecos e extrínsecos. Além disso, uma relação interespecífica entre microbiota e hospedeiro favorece nutricionalmente o hospedeiro, ao sintetizar e metabolizar substâncias benéficas ao corpo (McDermott & Huffnagle, 2014). Desse modo, uma microbiota doente, em disbiose, pode causar efeitos deletérios à saúde, e prejudicar a homeostase do hospedeiro. Tal homeostase, no entanto, é diretamente influenciada pelas substâncias ingeridas, como medicamentos ou alimentos, e pode provocar efeitos potencialmente duradouros, mesmo após o fim da exposição a determinada substância (Naimi et al., 2021; Suez et al., 2014).
Entre as substâncias que podem modular a microbiota intestinal destacam-se os aditivos químicos que são substâncias acrescidas aos alimentos para alterar ou preservar suas características ou sua durabilidade, e normalmente não acrescem valor nutricional. (Yan et al., 2020; Rinninella et al., 2020). Aditivos químicos são pouco metabolizados pelo organismo, e por isso apresentam uma grande interação com a microbiota intestinal. Os impactos causados por tal interação ainda são, em muitos aspectos, desconhecidos, o que motivou estudos que buscam reavaliar a segurança do consumo de tais compostos (Rinninella et al., 2020). Por seu uso ser relativamente recente na indústria, apesar de ter uso mundial, os aditivos merecem a atenção da comunidade científica e proposta de regulamentação por meio de políticas públicas (Yan et al., 2020; Rinninella et al., 2020).
Entre os aditivos químicos mais utilizados na indústria estão os emulsificantes, corantes e adoçantes artificiais. Emulsificantes são uma classe de aditivos que têm o objetivo de prolongar o tempo de prateleira de determinado produto, ao manter unidos ingredientes imiscíveis (Chassaing et al., 2017; Naimi et al., 2021). Por esse motivo, emulsificantes são utilizados em alimentos processados, com o objetivo de preservar características sensoriais como a textura do alimento (Naimi et al., 2021). Eles também atuam como agentes gelificantes e surfactantes, uma vez que podem interagir com água e gordura, através de uma extremidade lipofílica e uma hidrofílica (Liu et al., 2022). Além disso, emulsificantes estão presentes em produtos processados como molhos, sorvetes e margarinas, que compõem uma parte significativa da dieta ocidental (Rinninella et al., 2020).
Já os corantes alimentícios são aditivos utilizados com o objetivo de tornar o produto mais atraente, além de protegê-lo contra contaminantes (Yan et al. 2020; Rinninella et al., 2020; Liu et al., 2022). Pertencem a essa classe de aditivos, o Vermelho 40 e o Amarelo 6, que são azo dyes (He et al., 2021). Outro tipo de corante é o Dióxido de Titânio (TiO2) (Yan et al. 2020). Os corantes alimentam um mercado crescente na indústria e buscam melhorar o aspecto visual e a validade do alimento (Liu et al., 2022).
E, por fim, os adoçantes artificiais não calóricos, que estão entre os aditivos mais utilizados ao redor do mundo (Suez et al., 2014; Rodriguez-Palacios et al., 2018). Nessa categoria, encontram-se adoçantes como a sucralose, sacarina, aspartame e neotame, além de compostos como o “Splenda” que consiste na união entre a sucralose e o polissacarídeo maltodextrina. Adoçantes possuem aplicabilidade por serem mais adocicados quando comparados ao açúcar, porém sem adicionar calorias, uma vez que passam pelo organismo quase sem serem metabolizadas (Suez et al., 2014; Rodriguez-Palacios et al., 2018). Por esse motivo, essa classe de aditivos ganhou popularidade desde que foi introduzida ao mercado, há aproximadamente um século, e foi difundida no tratamento de condições como a síndrome metabólica (Suez et al., 2014; Rodriguez-Palacios et al., 2018). Estudos recentes trouxeram luz ao tema ao analisar a possível relação entre doenças inflamatórias, disbioses e aditivos químicos (Suez et al., 2014; Rodriguez-Palacios et al., 2018; Rinninella et al., 2020; Yan et al. 2020; Liu et al., 2022).
Diante desse cenário, faz-se necessário realizar esta pesquisa visando fomentar a discussão entre a provável relação dos aditivos aprovados para o consumo humano e eventuais impactos na microbiota intestinal. Sendo assim, essa revisão tem o objetivo de identificar os possíveis danos à saúde causados por essas três categorias de aditivos químicos, por meio da modulação da microbiota intestinal.
2. MÉTODO
Trata-se de uma Revisão Narrativa de Literatura (RNL), que tem por característica, a fundamentação teórica de artigos, teses e dissertações já publicadas.
Para a realização das buscas, foram utilizadas as bases de dados PubMed central (PMC) e a biblioteca Scielo – Scientific Electronic Library Online. Por meio da pesquisa avançada, foram utilizados os descritores “Gut microbiota” OR “Gut microbiome” AND “Food Additives” OR “Emulsifying agent” OR “Sweetening Agents” OR “Food Colorants”.
Os critérios de inclusão utilizados foram artigos publicados entre 2013 e 2023. Já os critérios de exclusão foram artigos de revisão e aqueles que não abordavam o tema. Após a análise dos 16 trabalhos resultantes da busca por meio da leitura do título e resumo, foram selecionados sete artigos, que relacionassem a microbiota intestinal a aditivos químicos para esta revisão.
3. RESULTADOS
O quadro 1 apresenta as principais características dos sete trabalhos selecionados, em ordem cronológica de publicação.
Quadro 1. Características principais dos artigos selecionados
| Autores, ano | Aditivos analisados | Método | Desfechos clínicos observados |
| Suez et al.,
2014 |
Adoçantes: Sucralose, aspartame e sacarina | In vivo: modelo animal (ratos) e voluntários humanos. | A microbiota afetada pelos adoçantes pode causar intolerância à glicose. |
| Chassaing et al., 2017 | Emulsificantes: carboximetilcelulose e polisorbato 80 | In vivo: modelo animal (ratos), e in vitro: mucosal simulator of the human intestinal microbial ecosystem. | Emulsificantes causam disbiose, alterações da mucosa intestinal e desfechos inflamatórios. |
| Rodriguez-Palacios et al., 2018 | Adoçante: Splenda® | In vivo: modelo animal (ratos). | O adoçante testado provoca disbiose, porém, os efeitos clínicos só aparecem em indivíduos predispostos. |
| Laudisi et al.,
2019
|
Maltodextrina | In vivo: modelo animal (ratos) | Não causou disbiose, porém causou danos ao muco e epitélio intestinal. |
| Yan et al.,
2020 |
Corante dióxido de titânio. | In vivo: modelo animal (ratos). | O corante causa desfechos inflamatórios, desorganização da microbiota intestinal, danos à mucosa intestinal, parede epitelial e efeitos sistêmicos deletérios. |
| He et al.,
2021 |
Corantes vermelho 40 e amarelo 6. | In vivo: modelo animal (ratos). | Os corantes podem provocar colite em indivíduos com alta expressão elevada de Interleucina-23 por intermédio da microbiota, porém não causaram disbiose. |
| Naimi et al.,
2021 |
20 emulsificantes | In vitro: MiniBioReactor Array e in vivo: modelo animal (ratos). | Os emulsificantes promovem efeitos deletérios ao causar disbiose, inflamação intestinal crônica de forma duradoura ou pontual. |
(Suez et al., 2014; Chassaing et al., 2017; Rodriguez-Palacios et al., 2018; Laudisi et al., 2019; Yan et al. 2020; He et al.,2021; Naimi et al.,2021).
3.1 ADOÇANTES ARTIFICIAIS
Estudo in vivo em ratos conduzidos por Suez e colaboradores (2014), analisou os adoçantes: sucralose, aspartame e sacarina. Um efeito de intolerância à glicose foi constatado nos indivíduos que foram tratados com adoçantes, tanto em dietas normo quanto hiperlipídicas. Tal resultado foi mais expressivo naqueles tratados com sacarina. Ao tratar os indivíduos com antibióticos sem a remoção dos aditivos, a tolerância à glicose desapareceu, o que sugere um papel central da microbiota afetada no desenvolvimento da doença. O transplante de fezes para indivíduos livres de bactérias constatou que aqueles que receberam a microbiota do grupo tratado com adoçantes, apresentaram pior tolerância à glicose quando comparados aos outros grupos receptores, mesmo sem o tratamento com adoçantes (Suez et al., 2014).
Rodriguez-Palacios e colaboradores (2018) observaram, em um estudo in vivo em ratos, disbiose intestinal causada pela administração de Splenda® (sucralose e maltodextrina) que consistiu no aumento de Proteobactérias, além de um aumento significativo de mieloperoxidase inflamatória. No entanto, ratos com microbiota saudável e sem patologias não apresentaram aumento de mieloperoxidase. Apenas indivíduos portadores de ileíte (doença de Crohn) apresentaram os efeitos deletérios citados. Portanto, apesar de causar disbiose, nem todos os indivíduos desenvolveram reatividade intestinal diante do tratamento com Splenda® (Rodriguez-Palacios et al., 2018).
Para avaliar os efeitos em humanos, Suez e colaboradores (2014) realizaram um estudo com sete voluntários, que não consumiram adoçantes na semana anterior, e realizaram um tratamento com a dose máxima de sacarina recomendada pela Food and Drug Administration (FDA) que é 5mg por kg de massa corporal. A resistência à insulina foi identificada em quatro dos sete indivíduos, que foram classificados como “responsivos”, e apresentaram pior tolerância à glicose. Esse grupo apresentou modificações mais expressivas na microbiota em relação ao seu estado inicial, quando comparados a voluntários não responsivos. Após transplante de fezes de todos os voluntários para ratos livres de bactérias, a piora na tolerância à glicose foi constatada apenas nos indivíduos que receberam a microbiota dos voluntários responsivos.
3.2 EMULSIFICANTES
Naimi e colaboradores (2021) analisaram 20 emulsificantes diferentes, por meio de um estudo no modelo MiniBioReactor Array (MBRA), e in vivo em ratos. Grande parte dos 20 aditivos testados impactou negativamente na composição e função da microbiota. No modelo in vivo, foi possível identificar que o Polisorbato 80, (P80) e a Carboximetilcelulose (CMC) podem provocar inflamação intestinal crônica. O diagnóstico se confirmou após transplante de fezes para indivíduos livres de microbiota, o que reforça o papel central da microbiota para o surgimento da condição. Os resultados obtidos no tratamento se mantiveram após o fim dos estudos, o que sugere que tais efeitos sejam duradouros. Impactos na composição e função da microbiota intestinal também foram constatados nos modelos MBRA. Seguindo o modelo MBRA, foram cultivadas amostras bacterianas originadas de um único doador saudável, que posteriormente foram tratadas com os aditivos estudados. O Estearato de glicerol, o Monoestearato de sorbitano (E-407) e carrageninas (goma carragena) provocaram um aumento na densidade bacteriana, tanto durante quanto após o experimento. Goma guar e maltodextrina alteraram esse parâmetro apenas durante o tratamento. Oleato de glicerol, agar, DATEM e HPMC promoveram o efeito contrário, ao causar uma diminuição irreversível na densidade bacteriana. Modificações como a redução de Lactobacillales, provocada por uma diminuição nos níveis de Streptococcus genus, assim como a diminuição de Faecalibacterium, que possui propriedades anti-inflamatórias, demonstram que o contato com emulsificantes, tem o poder de modular vias de sinalização inflamatórias no organismo. Além disso, alguns emulsificantes que possuem o poder de aumentar a densidade bacteriana, o fazem de tal forma a aumentar agonistas pró-inflamatórios, tanto durante quanto após o tratamento.
Chassaing e colaboradores (2017) analisaram os efeitos dos emulsificantes P80 e CMC, pelos métodos in vivo (ratos) e Mucosal Simulator of the Human Intestinal Microbial Ecosystem (M-SHIME). No modelo in vivo, em que ratos com microbiota selvagem foram tratados com os aditivos, diversas mudanças foram observadas, como a invasão da microbiota na camada muco intestinal, além de mudanças na composição da microbiota, que resultaram na produção de flagelinas pró-inflamatórias e lipopolissacarídeos, que propiciam o surgimento de um quadro de inflamação crônica. Além disso, nesse modelo, ambos os aditivos provocaram distúrbios na microbiota associados à inflamação e doença metabólica, além de causar colite associada a alterações mais severas da microbiota. Ocorreu também um estreitamento da camada muco intestinal.
Os efeitos foram corroborados pelo transplante de fezes para ratos isentos de microbiota, que desenvolveram os sintomas de inflamação e síndrome metabólica. Ao tratar indivíduos livres de microbiota com os aditivos, os efeitos não foram encontrados, o que sugere um papel central da microbiota para que haja o surgimento das condições. No modelo M-SHIME, apenas o P80 causou modificações na composição da microbiota, porém ambos causaram o aumento das flagelinas pró-inflamatórias. Chassaing e colaboradores (2017) sugerem que tais flagelinas, podem penetrar na mucosa intestinal, atingir receptores do hospedeiro e estimular a liberação de peptídeos antimicrobianos, que causam a alteração registrada no modelo in vivo. Por fim, a transferência de culturas do modelo M-SHIME para indivíduos isentos de microbiota provocou efeitos inflamatórios de forma duradoura, mesmo transferindo apenas uma quantidade residual de aditivos, que seriam eliminados rapidamente. Esse desfecho reforça a importância da microbiota para o surgimento dos efeitos deletérios.
Alguns polissacarídeos também são utilizados como emulsificantes ou estabilizantes, como é o caso da maltodextrina. Um estudo in vivo em ratos com o polissacarídeo constatou alterações no epitélio e na mucosa intestinal, o que pode causar efeitos deletérios à saúde. No entanto, esse estudo não diagnosticou disbiose promovida pelo tratamento com maltodextrina (Laudisi et al., 2019).
3.3 CORANTES
Inúmeros corantes alimentícios são permitidos, porém pouco se sabe sobre a relação dessa classe de aditivos e doenças inflamatórias do intestino (Yan et al., 2020; He et al., 2021). A causa mais conhecida desse tipo de doença está relacionada à via de sinalização da Interleucina-23 (He et al., 2021).
He e colaboradores (2021) realizaram um estudo in vivo, em que ratos foram tratados com Tamoxifeno e apresentaram uma expressão aumentada de Interleucina-23, porém, sem apresentar sintomas de colite ou doença inflamatória intestinal. No entanto, a combinação de Interleucina-23 e o corante Vermelho 40 fez com que os indivíduos apresentassem um quadro similar à colite ulcerativa observada em humanos. Além disso, foi observado um aumento nos sintomas em indivíduos tratados apenas com o corante, após o término do tratamento com Tamoxifeno, o que pode indicar uma relação entre a presença do aditivo e o aparecimento da doença. No entanto, outro grupo, que foi tratado com o corante, mas nunca teve uma expressão aumentada de Interleucina- 23 não desenvolveu a doença. Dessa forma, o aditivo pode causar colite em indivíduos com expressão aumentada de Interleucina-23. Esse estudo sugere também, uma capacidade de adaptação do indivíduo após o contato com Vermelho 40, uma vez que um tratamento somente com o corante, e posterior expressão da Interleucina-23 não provocou a colite. Além disso, indivíduos livres de microbiota e com a expressão de Interleucina-23 aumentada não desenvolveram colite após o tratamento com o corante. Segundo He e colaboradores (2021) isso se deve ao fato de que apenas um dos metabólitos do corante seria responsável pelo aparecimento da colite. Essa hipótese foi corroborada uma vez que indivíduos tratados com o metabólito isolado desenvolveram colite. Além disso, o corante Amarelo 6, que é metabolizado da mesma forma pela microbiota, provocou os mesmos efeitos. Ficou evidente, portanto, a relação entre a microbiota e o desenvolvimento de colite propiciado pelo aditivo Vermelho 40 e Amarelo 6. Apesar de depender da microbiota, esse aditivo não modificou sua composição. Por meio de testes in vivo, foi demonstrado também, que algumas espécies de bactérias favorecem o aparecimento da doença quando expostas ao corante, enquanto outras não, por meio de testes in vivo (He et al., 2021).
O dióxido de titânio (TiO2) é um aditivo utilizado comumente como corante, para alterar características sensoriais que podem ocorrer nas formas de micro e nano partículas. Apesar de ser considerado inerte, possíveis efeitos tóxicos da substância apresentam riscos associados à saúde, dentre os quais, estão danos à mucosa intestinal e à microbiota, o que pode ativar respostas inflamatórias e infecciosas no intestino (Yan et al., 2020). Estudos in vivo em ratos conduzidos por Yan e colaboradores (2020), observaram uma resposta inflamatória resultante da desorganização da microbiota intestinal, redução dos componentes proteicos da barreira muco-intestinal, e aumento do metabólito LPS bacteriano. Yan e colaboradores (2020) constataram uma diminuição de Bacteroidetes e um aumento de Firmicutes, ambas as espécies ligadas ao metabolismo de lipídeos. Diante disso, os ratos tratados com TiO2 tiveram seu sangue coletado e foi constatado um maior nível de triglicerídeos sanguíneos. O que sugere que a disbiose provocada pelo tratamento foi capaz de influenciar o metabolismo do macronutriente.
Foi observada também uma diminuição significativa de bacteroides que tem a função de manter íntegra a barreira epitelial, que por sua vez, impedem o extravasamento de lipopolissacarídeos pró-inflamatórios. Bactérias ligadas à integridade da barreira da mucosa intestinal foram significativamente reduzidas após tratamento com as partículas, o que pode justificar a atrofia da barreira de muco observada nos estudos in vivo (Yan et al., 2020).
4. DISCUSSÃO
A partir dos estudos reunidos nesta revisão, observou-se que os aditivos alimentares possuem a capacidade de provocar disbiose intestinal (Suez et al., 2014; Chassaing et al., 2017; Rodriguez-Palacios et al., 2018; Yan et al., 2020; Naimi et al., 2021; He et al., 2021). Além disso, estudos envolvendo estabilizantes e corantes convergem para danos à barreira mucosa intestinal (Chassaing et al., 2017; Laudisi et al. 2019; Yan et al., 2020).
Estudos convergem no que diz respeito ao potencial inflamatório dos aditivos químicos, a partir de sua interação com a microbiota intestinal (Chassaing et al., 2017; Rodriguez-Palacios et al., 2018; Yan et al., 2020; Naimi et al., 2021; He et al., 2021).
Em relação aos adoçantes artificiais, os estudos de Suez e colaboradores (2014) e Rodriguez-Palacios e colaboradores (2018) convergem no que diz respeito à disbiose causada por adoçantes artificiais.
Quanto aos emulsificantes, Chassaing e colaboradores (2017) e Naimi e colaboradores (2021) observaram efeitos inflamatórios similares causados pelos aditivos P80 e CMC, e mesmo utilizando métodos in vitro diferentes, aliados ao modelo in vivo, apresentaram resultados que corroboram com a hipótese de que tais substâncias seriam inflamatórias e promotoras de disbiose e danos ao muco.
Já em relação aos corantes, os estudos de Yan e colaboradores (2020) e He e colaboradores (2021) convergem no que diz respeito aos efeitos deletérios provocados pela interação entre os aditivos e a microbiota. Porém, divergem no que diz respeito à reestruturação das espécies de bactérias a partir do tratamento com os aditivos, uma vez que He e colaboradores (2021) não constataram alterações significativas, enquanto Yan e colaboradores (2020) avaliaram a supressão de determinadas espécies e a expressão de outras.
Por fim, todos os estudos realizados in vivo presentes nesse estudo, que realizaram transplante de fezes chegaram ao mesmo resultado, que consiste na aparição dos mesmos sintomas manifestados pelos indivíduos tratados com os aditivos, mesmo sem receber a substância diretamente (Suez et al., 2014; Chassaing et al., 2017; Rodriguez-Palacios et al., 2018; Naimi et al., 2021).
Essa revisão possui limitações no que se refere ao estudo em voluntários humanos, uma vez que os estudos in vivo foram realizados majoritariamente em ratos (Suez et al., 2014; Chassin et al., 2017; Rodriguez-Palacios et al., 2018; Yan et al., 2020; Naimi et al., 2021; He et al., 2021). No entanto, os estudos contemplados pela revisão atribuem a esta, a fortaleza de apresentarem desfechos clínicos convergentes, mesmo a partir de metodologias diferentes (Suez et al., 2014; Chassaing et al., 2017; Rodriguez-Palacios et al., 2018; Yan et al., 2020; Naimi et al., 2021; He et al., 2021).
5. CONCLUSÃO
De acordo com os trabalhos analisados nessa revisão, concluiu-se que os aditivos químicos podem oferecer risco à saúde intestinal. Apesar de serem aprovados para o consumo, e considerados alternativas seguras por serem pouco metabolizados pelo corpo, novos estudos devem ser realizados a partir da perspectiva da microbiota, uma vez que essa pode ser fortemente afetada pelo contato com os aditivos, e esse contato pode trazer efeitos importantes ao indivíduo. Por esse motivo, é urgente que universidades e agências reguladoras como a ANVISA avaliem a utilização dessas substâncias para consumo humano.
Além disso, um fator possivelmente agravante é o impacto causado ao consumir mais de um aditivo de forma recorrente, algo comum em uma dieta ocidentalizada. Esse cenário deve ser estudado de maneira profunda, uma vez que, a partir do conhecimento do dano causado pelo consumo de um aditivo, surge a hipótese de que a ingestão de mais de um pode causar danos maiores que a soma dos efeitos individuais.
REFERÊNCIAS
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HE, Z. et al. Food colorants metabolized by commensal bacteria promote colitis in mice with dysregulated expression of interleukin-23. Cell Metabolism, v. 33, n. 7, p. 1358-1371.e5, jul. 2021.
LAUDISI, F. et al. The Food Additive Maltodextrin Promotes Endoplasmic Reticulum Stress–Driven Mucus Depletion and Exacerbates Intestinal Inflammation. Cellular and Molecular Gastroenterology and Hepatology, v. 7, n. 2, p. 457–473, 1 jan. 2019.
LIU, C. et al. Food Additives Associated with Gut Microbiota Alterations in Inflammatory Bowel Disease: Friends or Enemies? Nutrients, v. 14, n. 15, p. 3049, 1 jan. 2022.
MCDERMOTT, A. J.; HUFFNAGLE, G. B. The microbiome and regulation of mucosal immunity. Immunology, v. 142, n. 1, p. 24–31, 1 mai. 2014.
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RINNINELLA, E. et al. Food Additives, Gut Microbiota, and Irritable Bowel Syndrome: A Hidden Track. International Journal of Environmental Research and Public Health, v. 17, n. 23, p. 8816, 27 nov. 2020.
RODRIGUEZ-PALACIOS, A. et al. The Artificial Sweetener Splenda Promotes Gut Proteobacteria, Dysbiosis, and Myeloperoxidase Reactivity in Crohn’s Disease-Like Ileitis. Inflammatory Bowel Diseases, v. 24, n. 5, p. 1005–1020, 15 mar. 2018.
SUEZ, J. et al. Artificial sweeteners induce glucose intolerance by altering the gut microbiota. Nature, v. 514, n. 7521, p. 181–6, 2014.
YAN, J. et al. Toxic effects of the food additives titanium dioxide and silica on the murine intestinal tract: Mechanisms related to intestinal barrier dysfunction involved by gut microbiota. Environmental Toxicology and Pharmacology, v. 80, p. 103485, 1 nov. 2020.
INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES
[1] Bacharel em Nutrição. ORCID: https://orcid.org/0009-0006-7559-401X.
[2] Mestranda em Nutrição e Metabolismo (FMRP/USP). ORCID: https://orcid.org/0009-0003-6715-4610. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/5760897210222212.
[3] Pós-Doutorado em Biologia Celular (UFMG), Doutorado e Mestrado em Bioquímica (UFV), Aprimoramento Profissional em Epidemiologia e Saúde Coletiva (UFV), Graduação em Nutrição (FASE). ORCID: https://orcid.org/0009-0004-5381-2683. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/6707481729140150.
[4] Mestre em Saúde Coletiva; Especialista em Saúde do Adolescente; Bacharel em Nutrição. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9992-3205. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4365532148776858.
[5] Doutora em Ciências da Saúde (UFSJ), Mestra em Desenvolvimento Regional (UEMG), Pós-graduação Lato Sensu em: Nutrição Clínica, Preceptoria no SUS, Gestão da Clínica na Atenção Primária à Saúde, Gestão da Política Nacional de Alimentação e Nutrição (FIOCRUZ). Especialista em Saúde Coletiva (ASBRAN). Graduada em Nutrição (UFOP). ORCID: https://orcid.org/0000-0003-1445-8234. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/6357944937802023.
Contribuição dos autores:
Vinícius Penoni Silva:Concepção, Conceituação, Planejamento, Curadoria de dados, Análise Formal, Metodologia, Validação, Visualização, Escrita – rascunho original, Escrita – revisão e edição.
Bruna Tábata Bernardes: Concepção, Conceituação, Planejamento, Curadoria de dados, Análise Formal, Metodologia, Validação, Visualização, Escrita – rascunho original, Escrita – revisão e edição.
Larissa Froede Brito:Conceituação, Validação, Escrita – rascunho original, Escrita – revisão e edição.
Tulio Gonçalves Gomes: Conceituação, Supervisão, Validação, Escrita – rascunho original, Escrita – revisão e edição.
Juliana Mara Flores Bicalho: Conceituação, Supervisão, Validação, Escrita – rascunho original, Escrita – revisão e edição.
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Os autores não possuem conflito de interesse.
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- ISSN (versão eletrônica): 2448-0959
- Licença Creative Commons: Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.
Histórico da Publicação:
Material recebido: 11 de setembro de 2025.
Material aprovado pelos pares: 13 de maio de 2025.
Material editado aprovado pelos autores: 27 de outubro de 2025.









Uma resposta
Saudações aos autores desta pesquisa e a Equipa Editorial desta revista. É na verdade uma grande contribuição para a ciência e o conhecimento no geral. Fiquei muito feliz ao ler a forma como trouxeram a abordagem e as colocações. Parabéns!