Relato de experiência sobre o processo de psicoterapia em grupo com crianças de uma instituição escolar

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DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/processo-de-psicoterapia
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RELATO DE EXPERIÊNCIA

RÊGO, Luana Almeida de Lima [1]

RÊGO, Luana Almeida de Lima. Relato de experiência sobre o processo de psicoterapia em grupo com crianças de uma instituição escolar. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 08, Vol. 06, pp. 125-137. Agosto de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/processo-de-psicoterapia, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/psicologia/processo-de-psicoterapia

RESUMO

Este artigo trata-se de um relato de experiência sobre o trabalho desenvolvido durante o estágio supervisionado do Curso de Psicologia da Faculdade Evolução do Alto Oeste Potiguar – FACEP. Tem como objetivo contextualizar as experiências do exercício prático vivenciado pela autora em uma instituição escolar no desenvolvimento de um grupo de psicoterapia com alunos que são observados pelo estabelecimento de ensino como indisciplinados, sendo levantada a questão: qual a implicação do olhar da escola perante os sujeitos tidos como “alunos problemas”?  Durante a atividade de estágio, foi evidenciado pelos integrantes do grupo de psicoterapia a sensação de exclusão vivenciada no ambiente escolar por parte dos colegas e funcionários, enxergando-os como “alunos problemas”, desmotivando-os e causando um sentimento de angústia diante da situação instaurada.

Palavras-Chave: Psicologia, Aluno Problema, Psicoterapia em grupo, Instituição Escolar.

INTRODUÇÃO

O presente trabalho insere-se no âmbito do Estágio Supervisionado em Prática Psicológica do Curso de Bacharelado em Psicologia da Faculdade Evolução Alto Oeste Potiguar – FACEP, realizado no ano letivo de 2019.

A prática de Estágio Supervisionado tem por objetivo o desenvolvimento e o aprimoramento prático das teorias estudadas ao longo dos períodos curriculares do curso de psicologia, possibilitando ao estagiário a atuação, estudo e reflexão do exercício profissional pretendido, contribuindo de forma significativa para o desempenho adequado do futuro profissional de psicologia.

O Estágio Supervisionado II, em sua atividade prática, teve início em agosto de 2019, sendo finalizado em dezembro do mesmo ano, decorrendo em uma escola pública de séries iniciais do Ensino Fundamental, da cidade de Pau dos Ferros. Em ambas as instituições foi optado pela psicanálise como abordagem teórica norteadora de todo trabalho.

Este trabalho tem como objetivo a contextualização das experiências do exercício prático vivenciado pela autora enquanto estagiária em uma instituição escolar no desenvolvimento de um grupo de psicoterapia com alunos que são observados pela escola como indisciplinados, sendo levantada a questão: qual a implicação do olhar da escola perante os sujeitos tidos como “alunos problemas”?

A ESCOLA

O campo de estágio no qual foi realizado o trabalho é da rede estadual de ensino situada no município de Pau dos Ferros, no Rio Grande do Norte. O nome da Escola foi preservado para resguardar os membros da instituição.

A unidade escolar tem uma localização central permitindo um fluxo de alunos tanto do centro da cidade como de demais bairros, atendendo uma clientela na faixa etária de 06 a 14 anos de idade, pertencentes, em sua maioria, a classe média baixa, com pais que possuem em geral o ensino fundamental completo, frequentemente trabalhadores do comércio e trabalhadores autônomos, grande parte participativos ao que faz referência ao contexto educacional dos filhos enquanto alunos.

O corpo de funcionários é composto por vinte e nove profissionais: dez professores devidamente graduados em pedagogia, em sua maioria pós-graduados. Diretor, vice-diretor, coordenador pedagógico, supervisor, coordenador financeiro, professor de sala de vídeo, dois auxiliares de biblioteca, dois cozinheiros, dois auxiliares de serviços gerais, dois porteiros, dois vigias.

A instituição de ensino é dotada de ferramentas tecnológicas que facilitam o desenvolvimento do trabalho dos profissionais e qualidade da aprendizagem dos alunos, como; internet, notebooks, impressoras,  data-shows, caixas de som, câmera filmadora, microfones, além de recursos de apoio ao trabalho pedagógico como um amplo acervo de jogos educacionais, fantasias infantis e materiais de suporte às aulas.

Apesar de sua estrutura moderna, a escola ainda não atende a necessidades mínimas exigidas em relação ao aspecto físico, pois não dispõe de acessibilidade (parte das salas de aula, biblioteca e banheiros encontram-se no piso superior do prédio) e de espaço para lazer e para práticas de atividade física.

A escola realiza quinzenalmente encontros pedagógicos, com a finalidade de desempenhar a formação continuada com os professores, como também o planejamento das aulas desenvolvidas pelo corpo docente, discutido, nessa oportunidade, as queixas, apreensões e relatos sobre o dia a dia no ambiente escolar.

Pode-se observar, em decorrência das avaliações a nível interno, Estadual  e Federal, realizadas na instituição, que a mesma conta com resultados satisfatórios referentes ao ensino e aprendizagem, alcançando um bom nível de rendimento, indo em consonância com o seu objetivo geral que trata-se de desenvolver uma prática educativa que possa oportunizar as crianças uma alternativa escolar abera, flexível, dando prioridade à formação humana, através de uma nova metodologia que possibilite aos educandos a construção de conhecimentos e o desenvolvimento de habilidades que os tornem capazes de se integrarem na sociedade como sujeitos participantes, críticos e criativos.

A equipe (docente/pedagógica/gestora) depara-se com a situação da indisciplina, por parte de alguns alunos dos últimos anos, precisamente dois quintos anos da escola, mostrando-se descompromissados com a instituição e as situações propostas que lhe são atribuídas enquanto alunos, comprometendo, assim, a sua qualidade na aprendizagem e na formação enquanto sujeito crítico/reflexivo, como também, o rendimento do restante do grupo.

Dessa forma, o contexto vivenciado nessas turmas está sendo observado como um obstáculo ao trabalho pedagógico, os docentes encontram-se desgastados diante das várias tentativas de resgatar esse aluno para o campo da aprendizagem, os demais educandos estão se desprendendo dos objetivos propostos em sala de aula sentindo-se incomodados com a situação vivenciada.

Ao período destinado pela estagiária para observação no campo de estágio, pôde-se constatar a queixa relatada pela escola, notando que, os alunos motivadores de tal, vivenciam um ambiente de carência material como, também, experimentam uma situação de desestrutura familiar. Quanto aos aspectos relacionados a sua aprendizagem escolar, verifica-se que estes não têm as competências necessárias, no que se refere a aprendizagem, para o acompanhamento do que é proposto nas séries que estão matriculados.

ATIVIDADE DESENVOLVIDA

Durante o período de estágio supervisionado II, teve-se a possibilidade de adentrar a esfera que corresponde as práticas desenvolvidas pelo psicólogo, podendo desempenhar atividades pertinentes a sua função enquanto profissional.

O trabalho desenvolvido pela estagiária pautou-se no Código de Ética Profissional do Psicólogo (2005), tomando esse como base para o desenvolvimento de seu exercício prático a instituição escolar, principalmente, no que se refere o artigo II do citado código:

II. O psicólogo trabalhará visando promover a saúde e a qualidade de vida das pessoas e das coletividades e contribuirá para a eliminação de quaisquer formas de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão. (CÓDIGO DE ÉTICA PROFISSIONAL DO PSICÓLOGO, 2005, p. 07).

Ressalta-se a importância do sigilo profissional realizado nas atividades desenvolvidas durante o estágio no que diz respeito ao conteúdo obtido durante as sessões e o material produzido nas mesmas, compactuando assim com o que exige o Código de Ética Profissional do Psicólogo:

Art. 9º – É dever do psicólogo respeitar o sigilo profissional a fim de proteger, por meio da confidencialidade, a intimidade das pessoas, grupos ou organizações, a que tenha acesso no exercício profissional. (CÓDIGO DE ÉTICA PROFISSIONAL DO PSICÓLOGO, 2005, p. 13).

Para o andamento adequado das atividades desempenhadas, o trabalho de estágio contou com a supervisão da prática com reunião de equipe realizadas uma vez na semana, pelos professores da faculdade, na quais eram ouvidos e discutidos casos atendidos pelos estagiários, refletindo com embasamentos teóricos, a fim de orientar a prática correta nas conduções das atividades.

Nos encontros de supervisão, foram indicados e estudados textos, artigos, obras bibliográficas, vídeos a fim de nortear a condução dos casos, guiado pelas necessidades práticas e o que foi vivenciado no campo de estágio, proporcionando o aperfeiçoamento na capacidade de observação e interpretação da realidade de forma coesa entre a teoria estudada e a proposta de trabalho.

PSICOTERAPIA DE GRUPO NA INSTITUIÇÃO ESCOLA

A psicoterapia de grupo realizada na referida escola Estadual com crianças do 5º ano A e 5º B da instituição que apresentam indisciplina no contexto educacional. A atividade foi desenvolvida, fundamentada na psicanálise e efetivada com seis crianças (4 meninos e 2 meninas) com a faixa etária de 11 a 13 anos de idade. A psicoterapia aconteceu no laboratório de informática nas segundas e sextas-feiras em um período de 3 meses no contraturno das aulas, com sessões de aproximadamente 90 minutos.

A atividade de psicoterapia de grupo teve por objetivo proporcionar, por meio da psicoterapia, a descoberta, a transformação e o enriquecimento da forma de relacionamento interpessoal de todos os componentes do grupo por meio de um ambiente de suporte, respeito e empatia que conceda a cada indivíduo a possiblidade de se observar, se reconhecer e de se reinventar na relação com os demais.

Inicialmente, foi realizado a observação do ambiente de estágio, onde foi possível ser analisadas as questões apontadas pela instituição, posteriormente, foi feito um levantamento da demanda verificada para a formação do grupo de psicoterapia e em seguida realizada uma reunião com a equipe gestora, equipe pedagógica e professores dos alunos que se tornariam participantes do trabalho de estágio a fim de se explanar a proposta de estágio, elucidando possíveis dúvidas.

Foi solicitado à escola um encontro com os pais e/ou responsáveis das crianças integrantes do grupo com o propósito de informar sobre a atividade de estágio e a respeito da participação das crianças como membro do grupo de psicoterapia, oferecendo e mostrando a significância da participação dos filhos enquanto educandos e de sua pessoa enquanto pais.

Na formação do grupo de psicoterapia foi realizada a escuta de cada integrante atentando-se para os conteúdos que foram manifestados através das suas subjetividades, como também do que era compartilhado e construído no grupo.

Foi oferecido, do mesmo modo, a psicoterapia individualizada para os integrantes do grupo, quando esses julgassem necessário ou a própria estagiária, sendo essa realizada em um horário distinto do acordado para as sessões em conjunto.

REFLEXÕES TEÓRICAS SOBRE A PRÁTICA DO ESTÁGIO SUPERVISIONADO

Durante o período de estágio vivenciado em ambiente escolar foi observado que a maior parte dos pacientes que se fez presente ao longo da atividade curricular se constituiu de crianças, constando, dessa forma, a necessidade de se pesquisar e fazer um aprofundamento teórico do campo da clínica analítica infantil com o propósito de desenvolver um trabalho adequado em consonância com a abordagem teórica escolhida para o desempenho as atividades.

A clínica psicanalítica com crianças retrata uma área a qual o paciente não manifesta uma composição psíquica previamente determinada, como também, não apresenta o controle sobre a fala que possibilita o diálogo assentado meramente em seu discurso, mantendo, dessa forma, um laço bastante íntimo e dependente dos seus objetos reais, isto é, seus pais.

A análise com crianças foi propagada após os anos vinte, nesse contexto, segundo Roazen (1992), o panorama que foi delineado por Freud no que se refere a associação livre e a grande a importância da fala no cenário da análise não seria possível empregá-las com crianças, sobretudo, crianças com pouca idade. Porém, Golse (2005), afirma que é considerável a ponderação acerca de um recurso terapêutico com efeito psicanalítico no exercício com crianças, apesar de que esse deva ser realizado em um cenário peculiar e que fosse ajustável as variadas idades.

Em uma perspectiva histórica, torna-se intrigante a constatação que o primeiro atendimento analítico com crianças foi praticado exatamente pelo próprio Sigmund Freud, no trabalho do caso do “Pequeno Hans”, Golse (2005) expõe que a mesma, realmente, foi dirigida de forma indireta pela narrativa e informações que o pai do menino trazia sobre o filho, não sendo permitido o contato do paciente com o analista, dessa forma, Freud lança o primeiro modelo de análise infantil.

De forma genuína, conforme Aberastury (1996), o primeiro atendimento psicanalítico com crianças foi realizado, no decorrer da segunda guerra mundial, por Hermine von Hug-Hellmuth, a primeira mulher psicanalista que participou das “reuniões das quartas-feiras” promovidas por Freud para os debates sobre a Psicanálise.

Hermine von Hug-Hellmuth, de acordo com Aberastury (1996), discordou do mentor na compreensão da correlação entre pai e analista, alegando que a criança não declara aos pais de forma alguma os seus desejos e pensamentos que lhe eram intrínsecos e que a sinceridade psicanalítica do filho esbarraria no narcisismo parental, não sendo, assim, tolerada por seus genitores.

Hug-Hellmuth, compreendido por Avellar (2004), procurava meios de harmonizar os objetos advindos da psicanálise com os que eram imputados socialmente através da família e escola, empenhando-se no desvelamento dos segredos que a criança omitia de forma intencional dos responsáveis por sua educação.

A teórica, conforme Avellar (2004) preconizava que o analista ao trabalhar com crianças não necessitava esclarecer os impulsos inconscientes, necessitando apenas que esses fossem exprimidos em ações simbólicas, dispensando o percurso mediado pela fala, sendo imprescindível que o analista realizasse tanto a função de terapeuta como também daqueles que eram responsáveis por sua educação, em um objetivo de se alcançar a cura.

Dessa forma, observa-se que Hug-Hellmuth foi a primeira em admitir a capacidade de uma instalação de transferência entre a criança e o analista, em conformidade Avellar (2004), apesar da teórica não ter desenvolvido uma técnica específica, reconheceu a significante contribuição do brincar como instrumento clínico na técnica terapêutica com crianças e a importância do distanciamento de intervenções hostis do terapeuta no decorrer das interpretações.

De modo efetivo, a clínica analítica para crianças só começou a ser pensada depois da segunda década do século XX, com os estudos e os debates de teóricos como Anna Freud, Melanie Klein e Donald Winnicott.

Anna Freud, compreendido por Avellar (2004), afirmava que eram impraticáveis os fundamentos desenvolvidos pela psicanálise quando os mesmos eram direcionados a crianças muito pequenas, acreditava que a criança requer um tempo de análise para consentir o processo terapêutico e as dificuldades que lhe eram intrínsecas, adotando dessa forma uma postura analítica “pedagógica”.

A CLÍNICA ANALÍTICA COM CRIANÇAS

Melanie Klein foi uma psicanalista austríaca que se colocava em uma posição oposta a Anna Freud tanto em sua teoria quanto a sua técnica psicanalítica, segundo Rêgo (2018), defendia uma interposição mais analítica do que simplesmente terapêutica, argumentando que da mesma forma que era desenvolvida a psicanálise com adultos deveria ser realizada com criança, explorando sem receios o inconsciente do pequeno paciente, teorizando, assim, meios de viabilizar tal método.

Donald Winnicott, psicanalista inglês, surgiu como outro modelo psicanalítico de se compreender a criança, discutindo questões que não foram constatadas por Anna Freud e Melanie Klein. De acordo com Rêgo (2018), sua teoria, como a das teóricas anteriores, fundamentava-se no uso do brincar como instrumento de análise, diferenciava-se em sua obra ao compreender o brincar como um meio de se perceber a capacidade que a criança possuía nessa atividade.

Observando a importância da discussão acerca do tratamento analítico com crianças, Dolto (1985), sinalizava em seus seminários acerca do atendimento de crianças que “aqueles que postulam tornarem-se psicanalistas de crianças muitas vezes acreditam que é mais fácil do que atender adultos. Na realidade, é muito mais difícil”. Contata-se, assim, que a análise com crianças se configura como um trabalho complexo que necessita da atenção redobrada por parte do analista para um trabalho que venha ser significante para o sujeito.

PSICOTERAPIA DE GRUPO: “ALUNOS PROBLEMAS”

A indisciplina é um fenômeno que indica uma questão advinda do indivíduo ou de um grupo, essa não faz definições quanto a classe social, podendo ser avaliada tanto em escolas públicas quanto em escolas privadas. Oliveira (2005) afirma que, na tentativa de se conceber a realidade da indisciplina, torna-se necessário, romper com paradigmas sobre princípios e métodos pedagógicos, levando em consideração todo contexto em que a criança se encontra envolta.

No ambiente escolar, quando se trata da temática sobre indisciplina, deve-se lançar olhares com a devida atenção e solicitude, segundo Oliveira (2005), dessa forma, é viável a compreensão da dinâmica que rege do grupo, não “intervindo”, somente, no cerne que se retrata, mas na causa do problema, não centralizando a indisciplina no sujeito enquanto educando, considerando, também, as suas interações cotidianas.

De acordo com Andrada (2005), a psicologia no espaço escolar é uma grande aliada e, fundamentalmente importante, nesse exercício ao apresentar uma perspectiva clínica na investigação dos aspectos que resultam na indisciplina, no acolhimento da angústia dos profissionais da escola, da relação entre a instituição de ensino e a família.

Dessa forma, como ressalta Andrada (2005), torna-se necessário que o profissional em psicologia no ambiente escolar seja um questionador diante dessa indisciplina, procurando investigar o que essa está tentando enunciar, não encobrindo a manifestação, mas a tratando como um sintoma de algo que necessita ser elucidado, retomando a significância da vida em comum com o grupo em todos os contextos, re/tomando a consciência da importância si e do outro.

Segundo Mello (2012), o sintoma oferece ao sujeito a singularidade, chancelando sua unicidade, dessa forma, a psicanálise vem retratar o sintoma como uma “dor de existir”, não sendo motivo de impedimento do outro social, igualmente, não é visto, obrigatoriamente, uma indicação de enfermidade, assim, cada sujeito apresenta o seu sintoma com uma configuração particular de achar-se enquanto vivente, podendo ser causador de mais ou menos danos, mas estando permanecente presente em cada indivíduo.

Nessa perspectiva, Jacques Lacan (1992) vem discorrer sobre o sintoma afirmando que este:

É em si mesmo e de ponta a ponta, significação, ou seja, verdade, verdade posta em forma. Ele se distingue do indício natural pelo seguinte – ele já está estruturado em termos de significado e significante, com que isto comporta, ou seja, o jogo de significante. No próprio interior do dado concreto do sintoma já existe precipitação num material significante. (LACAN, 1992, p. 399).

Observa-se, desse modo, a indisciplina como um sintoma subjetivo que se manifesta na escola, apresentando um feedback infatigável e particular, suposto pelo sujeito diante de si com o discurso socialmente imposto. Cohen (2006) expõe que o sintoma subjetivo traz consigo características da atualidade e da cultura que gera o sujeito, compreendendo, assim, que alguma questão na queixa da indisciplina vem sempre configurada em uma ordem discursiva que conduz um excedente improvável de controle.

Assim, pode-se verificar, como discorre Cohen (2006) que em meio dos mais variados discursos que se compõem a subjetividade de uma criança, encontram-se inseridos o discurso pedagógico, inscrevendo-a no lugar de objeto, ocasionando uma prisão em uma situação de produto para amparar o Outro, este que pode ser representado pela família, sociedade ou a própria escola, observando, dessa forma, a criança como um excedente.

Nota-se, pois a importância de se refletir as particularidades do sintoma apresentado pelos alunos observados inicialmente, na sua relação com a indisciplina escolar apontada como fator de comprometimento  da qualidade do ensino e aprendizagem.

Dessa forma, a psicoterapia de grupo ocorreu em um contexto escolar, sendo motivada pela demanda advinda dos profissionais da escola e a alta procura por atendimento no serviço-escola demandado por essa instituição. Entre as principais queixas estavam a indisciplina, essa que dificultava o andamento das aulas comprometendo a aprendizagem dos alunos observados como indisciplinados e dos demais alunos.

Em acordo com a instituição, a estagiária realizou a observação do ambiente escolar, inclusive dos momentos de aula, posteriormente, foi realizada uma entrevista inicial com os professores, equipe gestora e pedagógica desses alunos e em seguida com os pais dos mesmos com a finalidade de colher informações que auxiliassem no andamento do trabalho a ser desenvolvido.

Ao concluir as entrevistas, o grupo de alunos foi convidado a um encontro, momento esse que a estagiária explicou a dinâmica da psicoterapia e escutou-os a fim de tomar conhecimento do desejo dos mesmos na participação do grupo. Segundo Kaes (2011), para que um grupo possa surgir é necessário que exista a precedência de um princípio desejante e organizador.

Foi explicado aos funcionários da escola sobre o funcionamento do grupo e o tempo de duração do mesmo. Desse modo, as sessões foram realizadas apenas com as crianças, duas vezes na semana, com noventa minutos de duração, resultando em dezoito sessões.

No grupo foi proporcionado o espaço de fala a cada integrante, oportunizando a sua livre expressão. Foi planejada uma dinâmica para cada encontro de acordo com as demandas que iam surgindo durante as sessões. Possibilitando assim o discurso de cada um, a construção de vínculos e que o princípio desejante circulasse no grupo de psicoterapia, observando esse como um espaço de escuta e fala de desejos, de subjetividades e de limites nas relações com os integrantes.

Todos os componentes participaram ativamente das atividades, integrando-se nas dinâmicas propostas, prevalecendo o diálogo como um espaço de pertencimento ao grupo, esse que foi percebido como um fenômeno que se problematiza por meio dos vínculos, das relações mútuas e do material psíquico partilhado, transitando a sua atuação como sujeito sempre presente.

Durante as sessões de grupo foi evidenciado pelos integrantes a sensação de exclusão vivenciada no ambiente escolar por parte dos colegas e funcionários, enxergando-os como “alunos problemas”, desmotivando-os e causando um sentimento de angústia diante da situação instaurada. A implicação do olhar da escola, perante os alunos que não correspondem às expectativas dos seus pressupostos educacionais, provoca nesses sujeitos uma sensação de rejeição, podendo desencadear o adoecimento metal.

Desse modo, a psicoterapia de grupo, apesar de não ter objetivos no alcance do insight e o conseguimento de mudanças previas de comportamentos das crianças, permitiu aos seus integrantes compartilhar seus sentimentos e aliviar as emoções que estavam relacionadas ao seu sintoma, alcançado, assim, o propósito traçado para a formação e desenvolvimento da psicoterapia grupal.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

O trabalho prático desenvolvido nas disciplinas de estágio supervisionado I e II, constituiu uma experiência riquíssima na minha formação. A ânsia pela atuação, pela experimentação do exercício prático foi uma motivação que me acompanhou ao longo dos períodos curriculares da graduação, alimentando diversas expectativas.

Experienciar esse momento envolveu diversos questionamentos, a desconstrução de certezas, a frustação de algumas fantasias e muito aprendizado. O desenvolvimento desse trabalho no espaço escolar foi desafiador desde o primeiro momento, no acolhimento dos pacientes; na realização da escuta do seu discurso; no levantamento da hipótese diagnóstica e no posicionamento adotado em direção ao tratamento.

Para a realização dessa atividade foi necessário recorrer as bases teóricas que norteou todo esse processo, nesse cenário a psicanálise, realizar um apanhado bibliográfico e efetuar estudos em torno no que se apresentava no ambiente prático do estágio, como também é importante pontuar o significante trabalho de supervisão na orientação dos trabalhos e na contribuição referente a condução dos casos apresentados pela estagiária.

O estágio supervisionado ao viabilizar o contato do estudante de psicologia com a prática profissional, contribuí, consideravelmente, para uma formação crítica e comprometida do estagiário com as demandas advindas da sociedade, proporcionando vislumbrar o cotidiano do futuro psicólogo, ampliando ainda, a compreensão das responsabilidades que são atribuídas ao seu trabalho.

REFERÊNCIAS

ABERASTURY, A. Psicanálise da Criança: teoria e técnica. Porto Alegre: Artes Médicas, 1982.

ANDRADA, E. G. C. Novos paradigmas na prática do psicólogo escolar. Psicologia: Reflexão e Crítica, 2005.

AVELLAR, L. Z. Jogando na Análise de Crianças: Intervir-Interpretar na Abordagem Winnicottiana. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2004.

COHEN, R. H. P. A lógica do fracasso escolar: Psicanálise & Educação. Rio de Janeiro: ContraCapa, 2006.

DOLTO, F. Seminário de psicanálise de crianças. Rio de Janeiro: Zahar Editores, 1985.

GOLSE, B. Sobre a psicanálise pais – bebê: narratividade, filiação e transmissão. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2005.

LACAN, J. O seminário – livro 8: a transferência. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

LACAN, J.  O seminário, Livro 17: O avesso da Psicanálise. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1992.

MELLO, L. C. S. Especificidades do sintoma segundo a Psicanálise de orientação lacaniana: do sofrimento a invenção. In Revista de Psicologia Plural, 2012.

OLIVEIRA, M. I. Indisciplina escolar: determinações, consequências e ações. Brasília: Liber-Livro-Editora, 2005.

RÊGO. L. A. L. O Brincar na Clínica Psicanalítica com Crianças. Trabalho de Conclusão de Curso em Psicologia – Faculdade Evolução Alto Oeste Potiguar-FACEP, Pau dos Ferros, 2018.

ROAZEN, P. Freud e seus discípulos. São Paulo: Cultrix, 1978.

[1] Pós-Graduada em Psicopedagogia. Pós-Graduanda em Alfabetização e Neurociências. Graduada em Pedagogia. Bacharela em Psicologia.

Enviado: Julho, 2021.

Aprovado: Agosto,2021.

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