Uma Interpretação da “A Escola Com que Sempre Sonhei sem Imaginar que Pudesse Existir” com Bases nas Concepções Epistemológicas: Histórico-Cultural, Construtivista, Humanista e Inteligências Múltiplas

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SANTOS, Alan Ferreira dos [1]

SANTOS, Alan Ferreira dos. Uma Interpretação da “A Escola Com que Sempre Sonhei sem Imaginar que Pudesse Existir” com Bases nas Concepções Epistemológicas: Histórico-Cultural, Construtivista, Humanista e Inteligências Múltiplas. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 02, Vol. 01. pp 635-641, Abril de 2017. ISSN:2448-0959

RESUMO

Utilizando o livro “A Escola Com que Sempre Sonhei Sem Imaginar que Pudesse Existir”, de Rubem Alves, o presente trabalho teve como objetivo despertar uma reflexão crítica a respeito das relações de ensino-aprendizagem nas diferentes vertentes epistemológicas, aplicando a visão de cada proposta pedagógica com o livro estudado. Foram escolhidas as abordagens Histórico-Cultural, Construtivista, Humanista e Inteligências Múltiplas.

Método: A pesquisa é de cunho qualitativo havendo um levantamento bibliográfico das variadas vertentes.

Objetivo: Compreender a multiplicidade das relações de ensino e aprendizagem por meio de um panorama sinóptico.

Conclusão: Cada profissional deve se utilizar das abordagens propostas ou de outras, para melhor compreender a sua prática e ter maior eficácia.  

Palavras Chaves: Epistemologia, Psicopedagogia, Psicologia da Educação.

INTRODUÇÃO – A ESCOLA COM QUE SEMPRE SONHEI…

O livro é baseado na experiência vivida pelo autor e educador Rubem Alves quando entrou em contato com a Escola da Ponte em Portugal. Ao ter contato com esta escola, o educador percebeu que seus desejos e anseios em relação a educação eram atendidos de forma plenamente satisfatória na Escola da Ponte, afinal, o foco desta escola é centrado no aluno. Após passar alguns dias nesta escola portuguesa, Rubem Alves começa a publicar artigos no Jornal Correio do Povo em Campinas. Todos estes artigos foram reunidos neste livro que expressa o encanto do autor com as práticas de ensino adotadas pela Escola da Ponte.

A Escola da Ponte possui uma base pedagógica comprometida com o aluno, sempre buscando desenvolver a autonomia e a felicidade de seus alunos. Pode-se dizer que é uma escola que segue os pressupostos epistemológicos de Carl Rogers, pai do Humanismo. Durante o livro, Rubem Alves vai tendo contato com os alunos e professores, com suas rotinas em sala de aula, sempre deslumbrado com tudo o que vê, afinal, ele nunca viu nada parecido antes, visto que as escolas brasileiras não adotam estas práticas de ensino-aprendizagem centradas no aluno.

ARTICULAÇÃO DO TEXTO COM AS ABORDAGENS: HISTÓRICO-CULTURAL, CONSTRUTIVISMO, HUMANISMO E INTELIGÊNCIA EMOCIONAL NA RELAÇÃO ENSINO E APRENDIZAGEM

ABORDAGEM HISTÓRICO-CULTURAL

O surgimento da Escola da Ponte e da Pedagogia Histórico-Cultural se originaram principalmente, por uma necessidade de suprir as carências que a escola tradicional não supria. A escola tem como prioridade o aluno, torná-lo um ser civilizado que atue na sociedade de acordo com as suas regularidades e que estas sejam exercidas de forma consciente e crítica para um melhor convívio social. Isso se assemelha de ampla forma a pedagogia de Paulo Freire (2014) pelo fato de que esta vem com o intuito de formar indivíduos com a capacidade de senso crítico, e com a finalidade de dar ao sujeito um “insight” sobre a sua própria existência. Essa “tomada de consciência” produz no ser social o requerimento dos seus direitos de forma crítica e lúcida, e essa é a finalidade tanto da Escola Freiriana quanto a da Ponte.

Não podemos deixar de notar um aspecto de extrema importância que é a educação a partir do indivíduo, não deixando de lado os aspectos sociais, políticos e socioeconômicos de cada sujeito. O aprendizado se constitui para as necessidades dos humanos, partindo de sua realidade subjetiva. Além disso, a instrução realmente se concretiza quando os educandos entram em contato com um conhecimento que realmente necessitam, que vá favorecê-los de tal forma que aumente o seu interesse, dedicação e compreensão sobre o que esta sendo absorvido. O grande elemento propulsor de ambas escolas é o acréscimo de fazer com que o educando esteja mergulhado dentro do conhecimento e que este não seja apenas abstrato, mas que partilhe de algo concreto e que esteja sendo vivenciado por cada pessoa, ou seja, no final das contas, aprender cidadania, história, física, ciências, português e etc., a partir da sua realidade material. Essa forma de aplicação é eficaz não só pelo aprendizado adquirido, mas pela dinâmica aplicada que produz ideias e pensamentos. Isso é relevante porque o conhecimento não é um acúmulo, mas sim uma informação que é recebida, repensada e a partir disso aplicada de forma inteligente, o que pode ser denominado de “reciclagem da informação”.

Com relação a forma de pensar a escola, a abordagem Histórico-Cultural entende essa instituição como uma ferramenta das organizações governamentais, que tem por finalidade contribuir apenas para uma determinada estratificação social, a intervenção dentro das particularidades escolares tende a favorecer a camada desfavorecida, indo de encontro ao equilíbrio, em oposição aos opressores. Por outro lado, a Escola da Ponte tem um olhar sobre o indivíduo de formalizá-lo para o mundo e não para a sociedade. O maior erro em grande parte das escolas é capacitar os alunos para a sua sociedade e não para o seu mundo. No primeiro caso é gerar pessoas que vão ao encontro de um bom trabalho, onde produzam economicamente dando altos contributos as indústrias e o mínimo as camadas menos favorecidas, o que nos faz refletir sobre como a Escola da Ponte e a sua relação com Pedagogia de Paulo Freire (2014) tem a habilidade de formar seres pensantes e que estejam se construindo mutuamente, sendo professor e ao mesmo tempo aprendiz. Educar para o mundo é ter ideias inovadoras, um pensar fluente e sem interrompimentos por preceitos estereotipados, raciais, xenofóbicos e individualistas.  Em síntese, o ideal é formar o ser para conviver com as diferenças e não apenas essas, mas também patológicas, como síndrome de down e autismo, educar para que possamos conviver com as diferenças na escola, em casa, no trabalho e em todos os âmbitos da vida, essa lógica é fundamental para vincularmos a própria inclusão social que se dá por meio da participação do excluído à todas atividades das quais a sociedade o inibiu. Essa recapitulação dos ideais do ser humano tanto filosófico quanto moral e ético é uma das marcas dentro da escola que a abordagem Freiriana e a Escola da Ponte introduzem de forma sistemática, espontânea e experiencial, fazendo com que isso não seja só aprendido, mas sim se torne o próprio indivíduo. Isso vem por meio da experiência correlacionada com a educação, interação com o grupo e o reconhecimento de todos como humanos com as suas capacidades e particularidades, como ser único e singular.

Portanto, apesar dos pressupostos epistemológicos na atuação do professor em sala de aula serem diferentes, como na escola da ponte ser apriorista com o professor sendo apenas um facilitador, sendo requerido pelo os alunos quando estes sentem necessidade, auxiliando, dando suporte e explicando os modos de pesquisa, e por outro lado a abordagem Paulo Freiriana ser relacional fazendo com que o professor faça uma problematização sobre algum tema e aspecto, ambas tem muito para se relacionar em muitos parâmetros. O mais importante a enfatizar é que as duas são voltadas para o indivíduo com o objetivo de formá-lo a partir da sua subjetividade experiencial e para as suas reais necessidades, não apenas singulares, como também do grupo, desenvolvendo o senso de construção mútua, solidariedade e consequentemente, um sujeito mais voltado para as causas sociais, que pense e analise de forma crítica e imponha o seu conhecimento de forma útil para que assim possa ser exercido, não exercendo conceitos arcaicos e idealizados, se tornando, assim, um ser social que participe ativamente dos movimentos sociais e políticos, que saiba se manifestar e resguardar os seus direitos.

ABORDAGEM CONSTRUTIVISTA

Em princípio, a abordagem construtivista não foi desenvolvida para ser um método ou teoria da aprendizagem, sua proposta foi de oferecer elementos para a compreensão do desenvolvimento cognitivo humano em função de estágios estruturais pelos quais passam os seres humanos na construção de sua capacidade inteligente. O conhecimento é o resultado de uma interação da pessoa com o meio a partir de estruturas que o ser humano já possui. Nesse dinamismo dois processos estão em constante interação: O primeiro é dado pela assimilação, processo pelo qual o sujeito age sobre o objeto, modificando-o, e a partir do que o sujeito já traz o objeto ganha significado para ele, assimilando-o em função de sua estrutura cognitiva; O segundo se dá pela acomodação, em que o sujeito acomoda o objeto transformado em seu repertório cognitivo (PIAGET, 2012). Piaget não tinha proposto uma teoria da aprendizagem e sim uma proposta epistemológica. Nela, cabe ao professor ser um facilitador da aprendizagem, criando situações e propiciando condições para que o sujeito entre em contato com o mundo a sua volta, provocando situações de desequilíbrio em que os processos de assimilação e acomodação possam ser mobilizados pelos sujeitos. Fazendo um paralelo com a reflexão proposta por Rubem Alves sobre a Escola da Ponte, onde se observa que o principio básico é a não interferência no crescimento da criança e nenhuma pressão sobre ela. O professor tem um papel de facilitador como na abordagem construtivista, mas sem criar nenhuma condição para que isso aconteça, precisa ser um processo natural e no tempo que a criança estabelece. Segundo Mizukami (2013) este modo de ensino apresenta características da Abordagem classificada como cognitivista onde se estuda o modo como os indivíduos percebem, aprendem, lembram e representam as informações que a realidade fornece. Tem como principais objetos de estudo a percepção, o pensamento e a memória, procurando explicar como o ser humano percebe o mundo e como se utiliza do conhecimento para desenvolver diversas funções cognitivas como: falar, raciocinar, resolver situações-problema, memorizar, entre outras.

Podemos classificar esta abordagem como não diretiva, pois o professor é um facilitador da aprendizagem, trabalhando com o conhecimento que o aluno já possui por suas experiências vividas. Tendo em vista que a Escola da Ponte retrata uma abordagem Humanista, pelo qual fica evidente que a proposta da escola, através dos professores, deve criar condições para que os alunos possam tornar-se pessoas de iniciativa, de responsabilidades, capazes de aplicar o seu aprendizado para a resolução de seus próprios problemas (MIZUKAMI, 2013).

ABORDAGEM HUMANISTA

Em uma de suas crônicas, Rubem Alves (2001) faz uma analogia entre a crítica de Karl Marx em relação à linha de produção e o modo como as escolas transformam os seus alunos em meros formandos, todos iguais e vindos de uma mesma fôrma. De fato, esta analogia é completamente coerente, em seu sentido de crítica, com o pensamento de Carl Rogers sobre a educação. Segundo Mizukami (2013, p. 38) “o homem não nasce com um fim determinado, mas goza de liberdade plena e se apresenta como um projeto permanente e inacabado. Não é um resultado, cria-se a si próprio”. Com esta afirmação, fica evidente que a escola tradicional comete equívocos ao fazer a sua “linha de produção pedagógica”, pois cada um de nós nasceu livre para construir o seu próprio conhecimento segundo cada experiência subjetiva com o mundo.

Rubem Alves (2001) faz uma pergunta: “Por que é que, a despeito de toda pedagogia, as crianças têm dificuldades em aprender nas escolas? ” (p. 48) e dando logo em seguida uma resposta para a sua pergunta diz “Porque nas escolas o ensinado não vai colado a vida, isso explica o desinteresse dos alunos pela escola” (p. 48).

O sentido da vida para nós é uma realidade subjetiva, ou seja, segundo a nossa percepção de mundo e nossas experiências criamos um sentido único para nossas atitudes. O desejo de aprender está completamente ligado a isso. Nós só aprendemos aquilo que faz sentido e é útil para nós. A Escola da Ponte deixa Rubem Alves admirado, pois nela, os alunos não têm um programa específico para aprender. Cada um constrói o seu conhecimento, segundo aquilo que faz sentido para si. A indisciplina que também foi citada pelo autor, é resultado de uma tentativa de ensino forçada (ALVES, 2001). A criança não vê sentido em disciplinar-se, se aquilo que ela tem de aprender não é aquilo que realmente deseja saber, portanto os esquemas mentais existentes não são fortalecidos, a escola deve produzir o oposto, o desenvolvimento máximo das capacidades de cada indivíduo.

ABORDAGEM DA INTELIGÊNCIA EMOCIONAL

Usando a abordagem da Inteligência Emocional de Daniel Goleman (2012), irei comparar e mostrar as diferenças e semelhanças entre essa abordagem. Essa abordagem pode parecer de início um pouco confusa por falar de emoção e inteligência, duas coisas que logo de início parecem ser totalmente distintas uma da outra.

Essa abordagem igualmente mencionada no livro, demonstra que a criança tem toda capacidade de se autodesenvolver a partir do momento em que se é treinado todos os dias, assim obtém ideias novas e criativas, de uma forma construtivista relacional. Essa nova forma de ensino em que a criança é quem estabelece seu tempo e também o que vai aprender, é uma forma dela estabelecer o que é realmente importante. A criança tem toda capacidade de aprender sem ser num método tradicional, onde fica sentada em sua mesa e o professor ensina a matéria que lhe foi proposta por uma autoridade maior. Na Escola da Ponte mencionada no livro quase não há regras, apenas existe uma grade onde está todo o conteúdo que deve ser desenvolvido pelo aluno naquele período, é uma escola integral e o professor atua como observador, ele está presente para caso o aluno tenha alguma dúvida.

Como o próprio Goleman (2012) já mencionou, o professor apenas precisa ver o que a criança precisa. É importante apontar que na abordagem da Inteligência Emocional diz que o aluno é quem se autodesenvolve, estando mais disposto para os desafios diários e também para lidar melhor com as outras pessoas e saber desenvolver aquilo que pensa. Isso não apenas durante o período em que essa pessoa fica em sala de aula, mas também quando essa já está pronta para o mercado de trabalho. Pessoas que sabem lidar com desafios e também resolver grandes problemas sem dificuldades, acaba se destacando dos demais.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Ficou evidente que há diversas Pedagogias que podem ser utilizadas nas relações de ensino-aprendizagem. Cada proposta pedagógica tem sua forma de lidar e compreender o papel do aluno e do professor. É importante ressaltar que não há uma abordagem correta. Cada profissional deve se utilizar das abordagens propostas ou de outras, para melhor compreender a sua prática e ter maior eficácia.

REFERÊNCIAS

ALVES, Rubens. A Escola com Que Sempre Sonhei sem Imaginar Que Pudesse Existir. 1. ed. Campinas: Papirus, 2001

FREIRE, Paulo. Pedagogia da esperança: um reencontro com a pedagogia do oprimido. Editora Paz e Terra, 2014.

GOLEMAN, Daniel. Inteligência emocional. Editorial Kairós, 2012

MIZUKAMI, M. G. Ensino: as abordagens do processo. São Paulo: EPU, 2013.

PIAGET, J. Seis Estudos de Psicologia. Trad. Maria Alice Magalhães D’ Amorim e Paulo Sérgio Lima Silva; 25ª edição. Rio de Janeiro: Forense Universitária, 2012.

[1] Graduando curso de Psicologia – Universidade Paulista (Unip).

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