Gravidez na Adolescência e Acompanhamento Psicoterapia: Estudo de Caso

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CONTEÚDO

BRAIMIS, Katia [1]

BRAIMIS, Katia. Gravidez na Adolescência e Acompanhamento Psicoterapia: Estudo de Caso. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 2, Vol. 1. pp 658-673, Abril de 2017. ISSN 2448-0959

RESUMO

Este trabalho de conclusão de estágio contém as informações do estágio realizado no Serviço de Psicologia do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio. Para o desenvolvimento do trabalho foram realizadas 14 sessões de psicoterapia individual com uma única paciente adolescente. Atendimentos feitos todas as quartas-feiras no horário das 17:00 horas as 17:50 horas. No primeiro encontro estava presente a genitora da paciente, quando foi realizada a entrevista de anamnese. A partir desta entrevista foi possível investigar, conhecer e identificar a demanda da paciente e elaborar a proposta de intervenção. As intervenções foram realizadas através da escuta psicanalítica. A entrevista da anamnese foi baseada no modelo e procedimento recomendados pela psicanalista Arminda Aberastury.

Palavras-chave: Psicologia, Psicanálise, Adolescente, Vínculo Mãe e Filha.

1. INTRODUÇÃO

O presente trabalho surgiu da necessidade de fazer o estágio de ênfase realizado no Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio, no Serviço de Atendimento de Psicologia, atendimento de crianças, adultos e idosos, para aperfeiçoar os conhecimentos teóricos na prática e assim preparando efetivamente para a conclusão do curso de psicologia e o início das atividades na nova profissão, tendo supervisão semanalmente e ali colocando todas as dúvidas e formas de proceder com o paciente.

O atendimento psicoterápico foi realizado com um único paciente adolescente, do seu início até o momento de sua desistência ao tratamento psicoterapêutico. Foram realizadas 14 sessões individuais embasadas na Teoria Psicanalítica.

A procura por psicoterapia foi feita pela genitora da paciente, onde apontou como demandas, os maus resultados na escola, distração, ouvir músicas como funk, e não conversar com ninguém da família, exceto, com o pai e irmãs da genitora. A mãe tem a religião evangélica e quer que a filha também se enquadre dentro dos ditames daquela religião. Conflitos entre mãe e filha, brigas constantes, falta de diálogo, atitudes de manipulação entre elas, falta de vinculo mãe-filha. A mãe projeta em sua filha todas as suas perspectivas de vida que tinha na adolescência e deixou de fazer, e, por outro lado, temos a adolescente, que está em uma fase de rebeldia, e traz juntamente com essa fase o seu histórico de vida como o sentimento de abandono pelo pai, a falta de vínculo com sua genitora, refletindo em suas atitudes de busca de satisfazer o seu ego, mantendo relacionamentos fantasiosos com o sexo masculino e com poucas amizades com o sexo feminino. A adolescente desenvolveu uma estrutura emocional precária onde busca apenas o prazer, fugindo da sua realidade, fugindo do desprazer. Tornou-se uma pessoa manipuladora onde tenta persuadir as pessoas para estarem sempre apoiando todas as suas atitudes. Usa de sua beleza, do seu sorriso e carisma para estar conquistando amizades, relacionamentos com meninos, e consequentemente obtém a atenção das pessoas, mesmo que seja, uma atenção ilusória, relacionamentos com base em obter vantagens e não amizades e relacionamentos sinceros. E, quando a paciente se confronta com essa realidade busca a fuga, e assim não mantém contato com a realidade, fugindo do sentimento da dor.

O trabalho efetuado com a paciente foi embasado na Teoria Psicanalítica, segundo a qual:

“A Psicanálise terapêutica é um método de pesquisa da verdade individual para além dos acontecimentos cuja realidade não tem outro sentido para um sujeito salvo a maneira pela qual ele foi associado e por ela se sentiu modificado”. (Mannoni, 2004, p.09).

Ainda, sobre a definição do termo psicanálise:

“O termo psicanálise é usado para se referir a uma teoria, a um método de pesquisa de investigação e uma prática profissional. Enquanto teoria, caracteriza-se por um conjunto de conhecimentos sistematizados sobre o funcionamento da vida psíquica. Freud publicou uma extensa obra, durante toda a sua vida, relatando suas descobertas e formulando leis gerais sobre a estrutura e o funcionamento da psique humana. A Psicanálise, enquanto método de investigação, caracteriza-se pelo método interpretativo, que busca o significado oculto daquilo que é manifesto por meio de ações e palavras ou pelas produções imaginárias, como os sonhos, os delírios, as associações livres, os atos falhos. A prática profissional refere-se à forma de tratamento – A Análise – que busca o autoconhecimento ou a cura, que ocorre desse autoconhecimento. Atualmente, o exercício da Psicanálise ocorre de muitas outras formas. Ou seja, é usada como base para psicoterapias; aconselhamento, orientação; é aplicada no trabalho com grupos, instituições. A Psicanálise também é um instrumento importante para a análise e compreensão de fenômenos sociais relevantes: as novas formas de sofrimento psíquico, o excesso de individualismo no mundo contemporâneo, a exacerbação da violência, etc.” (Bock et al, 2001, p. 91/92).

2. CONSIDERAÇÕES SOBRE A TEORIA PSICANALÍTICA

A teoria da personalidade foi mais influenciada por Sigmund Freud do que por qualquer outra pessoa. A Psicanálise foi a primeira teoria formal sobre a personalidade e continua sendo a mais conhecida. A sua influência foi tão profunda que, mais de um século depois da proposição da sua teoria, ela continua sendo a estrutura para o estudo da personalidade, apesar da sua natureza polêmica. Dentro dos vários conceitos que essa teoria traz do consciente e do inconsciente, encontramos entre eles os mecanismos de defesa, recursos esses que foram utilizados pela paciente.

Mecanismos de Defesa – Estratégias que o ego utiliza para se defender da ansiedade provocada pelos conflitos da vida cotidiana. Os mecanismos de defesa envolvem negações ou distorções da realidade.

Freud postulou vários mecanismos de defesa e observou que raramente utilizamos apenas um. Em geral, nos defendemos da ansiedade utilizando vários deles ao mesmo tempo. Para Freud, as defesas precisam, até certo ponto, estar sempre atuando. Assim como todos os comportamentos são motivados por instintos, todo comportamento é defensivo no sentido de defender contra a ansiedade. A intensidade da batalha dentro da personalidade pode flutuar, mas nunca para. (DUANE, P. SCHULTZ, Editora Cengage Learning, 2011)

Além da teoria psicanalítica freudiana utilizada para o embasamento ao atendimento da paciente, também foram utilizados como referência da teoria de Donald W. Winnicott, para assim explicar e entender os conflitos na formação de vínculo de mãe e filha. Essa dificuldade de vínculo entre mãe e filha é trazida constantemente pela paciente nas sessões. Para esse autor, no estudo de bebês a palavra-chave é dependência. Os bebes só começam a ser sob certas condições e no início, como dependência é absoluta, eles precisam de uma mãe que esteja tão identificada com eles, que seja capaz de atender prontamente às suas necessidades. Os bebês vêm a ser de modos diferentes conforme as condições sejam favoráveis ou desfavoráveis. Com o cuidado recebido da mãe a continuidade da linha da vida do bebê se mantém e ele experiência uma “continuidade do ser” (Winnicott, 1960).

O processo de amamentação, os espaços de tempo entre as mamadas, o tempo entre uma forma de segurar e outra vão “construindo um registro de continuidade de um ser que é mantido, respeitado, não invadido. Não ser invadido significa ser compreendido a partir do que poderíamos chamar de “visão de mundo do bebê”, o que é possível pela adaptação ativa do meio maternante” (Guimarães, 2001, p.29).

Se a mãe proporciona uma adaptação suficientemente boa, a linha de vida da criança é perturbada muito pouco por reações à intrusão.  A falha materna prolongada provoca fases de reação à intrusão e as reações interrompem o ““continuar a ser” do bebê, gerando uma ameaça de aniquilamento. Todas as experiências que afetam o bebê são armazenadas em seu sistema de memória, possibilitando a aquisição de confiança no mundo, pelo contrário, de falta de confiança (Winnicott,1978). (MONTEIRO, 2004, p.25).

2.1 PSICANÁLISE NA ADOLESCÊNCIA

Tendo vários estudiosos e teóricos dentro desse enfoque, a psicanálise na adolescência, foi escolhida para estar embasando este trabalho, a Arminda Aberastury que é uma das referências, no estudo e observação na psicanálise de crianças e adolescentes. Arminda Alberastury dedicou seu trabalho a esse momento de transformação da criança para adolescente. Uma mudança física e psicológica. No âmbito biológico a mudança do corpo, a perda daquele corpo infantil, o aparecimento das características corporais de um adulto, que gera o luto pela perda da infantilidade. Essa transição também psicológica em que mudanças de pensamentos, atitudes e comportamentos, um momento delicado na vida humana, em que se deseja tornar-se adulto, porém o luto de ter que deixar de ser criança e perder com isso todo aquele aparato do ser criança. Arminda Aberastury evidencia essas mudanças em seu livro “Adolescência Normal: um enfoque psicanalítico”

A Adolescência é um momento crucial na vida do homem e constitui a etapa decisiva de um processo de desprendimento. Esse processo atravessa três momentos fundamentais: o primeiro é o nascimento, o segundo surge ao final do primeiro ano om a eclosão da genitalidade, a dentição, a linguagem, a posição de pé e a marcha, o terceiro momento aparece na adolescência” (1990, p.15).

A consequência final da adolescência seria um conhecimento de si mesmo como entidade biológica no mundo, o todo biopsicossocial de cada ser nesse momento de vida. (Aberastury e Knobel, 1989, p 30).

A busca incessante de saber qual a identidade adulta que se vai constituir é angustiante, e as forças necessárias para superar esses microlutos e os lutos ainda maiores na vida diária obtém-se das primeiras figuras introjetadas, que formam a base do ego e do superego desse mundo interno do ser. (Aberastury e Knobel, 1989, p.35).

Ainda são sintetizadas as características da adolescência pelos autores Aberastury e Knobel (1981), que seguem:

  • Busca de si mesmo e da identidade;
  • Tendência grupal;
  • Necessidade de intectualizar e fantasiar;
  • Crises religiosas, que podem ir desde o ateísmo mais intransigente até o misticismo mais fervoroso;
  • Deslocalização temporal, onde o pensamento adquire as características de pensamento primário;
  • Evolução sexual manifesta, que vai do auto-erotismo até a heterossexualidade genital adulta;
  • Atitude social reivindicatória com tendências anti ou associais de diversa intensidade;
  • Contradições sucessivas em todas as manifestações da conduta, dominada pela ação, que constitui a forma de expressão conceitual mais típica deste período da vida;
  • Uma separação progressiva dos pais;
  • Constantes flutuações do humor e do estado de ânimo.

 3. DESENVOLVIMENTO

  • Caracterização dos Casos

1) Identificação da entidade: Serviço de Psicologia do Centro Universitário Nossa Senhora do Patrocínio.
2) Definição da área do estágio: Atendimento psicoterapêutico com ênfase na psicanálise.
3) Justificativa pela escolha da área de concentração: O atendimento psicoterapêutico embasado na teoria psicanalítica é uma possibilidade de compreensão da subjetividade, que traz as demandas dos pacientes de forma a compreender o seu desenvolvimento psíquico, e assim poder acolher e ajudar em suas dores, crenças e consequentemente, gerando maior qualidade de vida.
4) Identificação do problema ou necessidade verificada: Dificuldade de entrar em contato com a realidade, dor pelo distanciamento do genitor, falta de vínculo com a genitora, criação ilusória e idealizada de relacionamentos com o sexo oposto, busca de atenção e carinho.

  • Informações obtidas durante a anamnese:

Idade: 15 anos
Gestação: 08 meses –  foi indesejada, período de brigas e discussões com o companheiro.
Nascimento: parto normal, a mãe foi vê-la após dois dias do nascimento, não queria pegar a filha.

Desenvolvimento: A paciente nasceu com boa saúde, foi amamentada apenas por um mês. A mãe não desejou a amamentação e também negou a E., por um período de dois dias, só após esse período que, foi ver e carregar a sua filha.  O nome foi escolhido por ser bíblico e significa “Deus Conosco”. Era um bebê chorão e teve refluxo, começou a engordar muito, comia demais. A introdução de alimentos pastosos ocorreu aos 03 meses e os sólidos ocorreu aos 05 meses. Foi para a creche com 05 meses e aos 08 meses começou a comer sozinha. Sono agitado, até hoje, começou a dormir sozinha com 04 anos, com paninhos, chupeta e ursos, estes usa até hoje.  Chupou chupeta até os 08 anos. Engatinhou com 08 meses e os primeiros passos foram dados com 1 ano e meio. O controle dos esfíncteres se iniciou com 01 de idade, já usava o pinico. O início da fala também começou com 01 ano de idade. Aos dois anos de idade já falava, andava e controlava totalmente os esfíncteres. Porém, aos 05 anos voltou a fazer xixi na cama, e até hoje tem certas noites que, também não controla os esfíncteres e faz na cama. Foi uma criança sociável, brincava com outras crianças. Aos 06 anos de idade foi para a escola, não houve nenhum problema de adaptação, gostava de ir para escola. Não apresentou problemas de adaptação, interação e aprendizagem. Gostava de pintar, desenhar, inclusive na escola, desenvolvia bons trabalhos e começou a ler e escrever com 07 anos, a leitura com pouco de dificuldade. Essa dificuldade de leitura se apresenta até hoje. Aos 09 anos começou a apresentar muito medo de barulho de estouro de bexigas e injeção e permanece até a presente data. Menstruou aos 13 anos. Não sofreu nenhum tipo de cirurgia. Fez tratamento com fonoaudióloga. Tem uma convivência boa com professores, amigos e parentes.

Saúde: boa.
Naturalidade: Itu.
Escola: Escola Estadual Professor Salathiel Vaz de Toledo.

4. PROCEDIMENTOS, MATERIAL E/OU INSTRUMENTOS

O presente trabalho foi desenvolvido através de 14 sessões psicoterapêuticas individuais com a paciente, com embasamento na teoria psicanalítica. Iniciou o tratamento com a entrevista anamnese, conforme proposta da psicanalista Arminda Alberastury, com a genitora. Posteriormente, foram realizadas as sessões, onde foi realizado o procedimento de escuta psicanalítica, e as devidas pontuações nos momentos necessários. Foram oferecidos jogos, porém, a paciente preferiu falar sobre as suas angústias, decepções e tristezas do seu dia a dia.

Sobre a escuta na psicanálise:

“A importância da escuta na psicanálise vai se evidenciando na medida em que percorremos os textos freudianos. As recomendações da técnica, assim como os desenvolvimentos teóricos, apontam sempre para a preocupação de Freud de que a psicanálise não perca o que a diferenciava das demais possibilidades terapêuticas: o valor dado ao autoconhecimento e à liberdade pessoal. O que visa ser escutado na psicanálise resulta em uma psicanálise da escuta. Os lapsos, os sonhos, as repetições, os sintomas; enfim, as formas de subjetividade – livres de uma classificação ou de rótulos – abrem espaços de singularidade“ (ALONSO, 1988).

Sobre a entrevista inicial:

“Aberastury, (1982), solicita explicitamente que a entrevista inicial seja realizada com ambos os pais e sem a criança/adolescente. Acredita que a Aliança precisa ser formada com os pais antes de receber o paciente, não havendo necessidade de mobilizar na criança ansiedades inerentes ao processo analítico, se ela não terá indicação para o tratamento, se os pais não quiserem seguir com o terapeuta consultado ou não se mostrarem motivados. A autora não considera conveniente finalizar a entrevista com os pais sem ter conseguido os seguintes dados básicos que julga imprescindíveis de serem conhecidos antes de conhecer a criança: 1) motivo da consulta, 2) história da criança, 3) como transcorre um dia de sua vida atual, um domingo, um feriado e o dia do aniversário, 4) como é a relação dos pais entre si, com os filhos e com o meio familiar imediato. Acredita que essas informações são cruciais para o entendimento da patologia da família e da criança, dando subsídios para sua observação durante a primeira hora do jogo”. (GASTAUD, 2008)

5. ANÁLISE

O presente caso clínico de atendimento psicoterapêutico individual se iniciou com a entrevista inicial, ou seja, a anamnese dentro dos ditames do ensinamento da psicanalista Aberastury. Trata-se do primeiro contato com os genitores da paciente adolescente, que neste contexto vamos chama-la de E., conforme ensina a psicanalista se faz necessário o conhecimento da demanda que os pais trazem do filho (a), criar um clima de confiança e credibilidade entre os genitores e o terapeuta. A primeira entrevista é diferente da primeira sessão terapêutica, naquela conhecemos os pais e suas insatisfações e preocupações com o comportamento de seu (s) filho (a) (s), onde comparecerem apenas os genitores, não há contato com a criança ou adolescente. Na primeira sessão, já ocorre o primeiro contato com o paciente, que acompanhava a mãe.

Na anamnese foi conversando sobre alguns aspectos da vida de E., uma entrevista sobre a vida da paciente foi realizada com a genitora, entrevista essa que pergunta se desde a gestação até os dias atuais da vida da paciente, também dentro do padrão proposto pela psicanalista aqui já mencionada, Arminda Aberastury (1982).

Além da entrevista, a genitora trouxe para a terapeuta as preocupações que tem com sua filha. Iniciando a conversa, trouxe o problema de aprendizado na escola, conta que suas notas estão vermelhas, que não se atenta aos estudos, e, que acredita que tenha algum problema neurológico e isso seria a causa do não rendimento escolar. Traz também que sua filha é apenas uma menina ingênua e preocupa-se com as companhias que está andando, com as músicas que está ouvindo, (funk), e a genitora relata que essas músicas não deveriam ser ouvidas por evangélicos, a religião da família é evangélica. Conta também que sua filha é negra, muito bonita, veste roupas inadequadas e com isso chama muito a atenção de seu marido, que não é o pai de E., que isto a incomoda muito, já pediu para a paciente deixar de usar essas roupas, mas a mesma não obedece.  Acrescenta que deixou de cursar a faculdade de assistente social no período noturno para cuidar melhor de sua filha, que ficava sozinha em casa com o padrasto.

Pode-se observar no relato da genitora que existe um conflito entre ela e sua filha, uma competição com E., projetando o que gostaria de ser, uma mulher bonita, estudada e atraente.

Na primeira sessão em que ocorreu o encontro com a paciente e a mãe, esse momento foi muito frutífero, a mãe mostrou suas emoções, revoltas, frustrações e preocupações com a filha. Preocupação com a perda nas escolhas, tem consciência de que, com uma escolha, tem sempre uma perda e traz em sua fala a atribuição de suas escolhas e perdas pessoais à sua filha, ocorrendo aqui o movimento da projeção. O movimento da projeção é um de vários mecanismos de defesa, dentro da teoria psicanalítica, se dá quando envolve a atribuição de um impulso perturbador a outra pessoa ou coisa, projeta no outro todas as frustrações e sentimentos que não foram elaborados dentro da subjetividade do indivíduo. A paciente tentava falar, mas não conseguia. O movimento da genitora é atribuir aos outros todas as suas frustrações, mostra uma grande dificuldade em assumir a responsabilidade por suas escolhas e projeta no outro as culpas.

Na sessão seguinte com a presença exclusiva da paciente, foi possível  conversar com mais tranquilidade momento em que foram colocados os sentimentos, pensamentos e questionamento da paciente, ocorrendo uma empatia imediata, sentiu-se à vontade para estar expressando seus sentimentos, chorou muito e evidenciou a falta de amor e carinho que sente com relação aos seus genitores, para esclarecer, seus pais são separados, demonstra uma magoa muito grande com relação ao seu genitor, conta que ele não a procura,  que mora longe, não telefona, não manda mensagem, que sente muita falta da presença dele, pois eram muito ligados antes da separação. Conta que não existe nenhum tipo de carinho ou amor com relação à sua mãe e que esta a crítica constantemente, seja pelo cabelo, pela roupa, pela postura, pelo sorriso e finaliza dizendo que sente que a mãe compete com ela. Aqui podemos observar a simbologia que a filha representa com a identificação do que a mãe gostaria de ser, pois parece que a mãe se sente destituída dos atributos da filha tanto físicos como da possibilidade de fazer escolhas, escolhas essas que teve que abrir mão na adolescência, por isso a rivalidade e ciúmes da filha. A principal demanda que a paciente traz é falta de afeto dos pais, destacando que existem apenas cobranças e ainda comenta que o pai, nas poucas vezes que conversam, fala apenas que deve ler muito e estudar, apenas isso.

A paciente parece buscar a atenção e o carinho em pessoas estranhas, tenta preencher o vazio que sente com amizades e relacionamentos ilusórios, para assim estar satisfazendo o seu ego.

Continuando as sessões, a empatia foi aumentando e com a segurança estabelecida na terapeuta, consequentemente a paciente traz mais demandas como, o ilusório envolvimento com um rapaz que conheceu pela internet.  Criou uma fantasiosa relação de amor com o rapaz, as conversas eram diárias através do aplicativo WhatsApp.  Atribuiu a ele toda a esperança de mudar de vida, sair de casa, casar e ir morar fora do país. Um relacionamento apenas embasado por ela, não se conheceram pessoalmente, mas tinha a certeza que ele seria o homem de sua vida e que ia tira-la daquela situação.

Por várias vezes tentou um encontro real com o amado, porém, foram infrutíferas essas tentativas, não houve encontro real, ele sempre arrumava uma desculpa, ele sempre arrumava uma desculpa, apesar de morarem em cidades próximas. Após sete meses nesse movimento, o rapaz iniciou um namoro com outra adolescente, ela descobriu visualizando mensagens no facebook. A paciente ficou muito triste, por pouco tempo, logo em seguida arrumou outros meninos, outras paixões, como se buscasse outras possibilidades de investimento amoroso e fuga da realidade que vive. Observa-se que mantém o movimento de busca de atenção e carinho nas pessoas, e assim tentando satisfazer o seu ego, preenchendo, mesmo que seja de forma fantasiosa, compensar o que não recebe de seus familiares, principalmente de seu pai.

Todos esses relacionamentos são de certa forma apenas vistos assim apenas pela paciente, o outro envolvido não enxerga dessa forma, ela utiliza o corpo como forma de conseguir atenção externa, pois é uma moça muito bonita e a sensualidade atrai o sexo oposto, porém não percebe que o outro muitas vezes não busca um envolvimento afetivo, mas somente de ordem sexual. Esse é o movimento da paciente, criar um mundo de fantasias, assim não entra em contato com sua realidade, evitando o contato com a dor.

O ego, conforme os ensinamentos de Freud consideram que o papel do ego é como um mediador constante entre a realidade e as demandas insistentes do id. O ego é a parte racional da personalidade que precisa controlar e adiar as demandas do Id, equilibrando-as com as circunstâncias do mundo. (DUANE e SCHULTZ, 2011)

A paciente mostra muito sofrimento no âmbito familiar, não gosta de morar com a mãe e seu padrasto. Tem um irmão mais velho, que não se relaciona bem com ele, este não mora com a família. Gosta muito de ficar na casa do avô e tias, porém, sua genitora não permite que more ou fique durante o dia na casa deles. A rotina da paciente é ir à escola, limpar a casa e ir à noite à igreja.

Quanto aos estudos, estuda o necessário, sabe que tem que estudar bem mais, mas não tem vontade e nem animo, pois fica muito cansada, porque limpa a casa, faz comida e lava as roupas para ajudar a sua mãe.  Aqui é outro ponto de queixa, conta que não há reconhecimento, nunca está bom, a mãe sempre se queixa, nunca se satisfaz. Para aliviar todas essas tensões, desvia a sua vida para um mundo irreal, criando relacionamentos virtuais e físicos, buscando a atenção, carinho, elogios e motivações que não tem em seu contato familiar e outras pessoas, principalmente na figura do homem, tentando compensar o não recebido do pai na figura dos meninos. Neste comportamento, observamos que quem faz a projeção é a própria paciente, projeta suas carências no outro, buscando o que não teve de seu pai nos seus parceiros masculinos.

A paciente traz também a ausência de afinidade, carinho e amor por sua genitora. Não existe qualquer tipo de sentimento bom com referência à sua mãe, traz nas sessões, que não quer ficar próxima, abraçar, beijar sua genitora, que não sente falta nenhuma da mesma. Com esse relato observamos que o vínculo mãe e filha, está muito comprometido pelas expectativas que ambas criaram sobre o outro, o vínculo entre elas está mais focado numa competição. O toque, a forma de carregar e o olho no olho entre mãe e filha não existiram, pois no início de infância de E., a mãe referiu que nunca deu muita atenção à filha, buscava sua satisfação através de passeios com o marido, ela ficava sob o cuidado de outros familiares. A gravidez foi turbulenta, e os cuidados com o bebê foram pouco praticados pela mãe.

Segundo, a teoria de Winnicott, no estudo de bebês a palavra-chave é dependência. Os bebês só começam a ser sob certas condições e no início, com a dependência e absoluta, eles precisam de uma mãe que esteja tão identificada com eles, que seja capaz de atender prontamente as suas necessidades.

Os bebes vêm a ser de modos diferentes conforme as condições sejam favoráveis ou desfavoráveis. Com o cuidado recebido da mãe a continuidade da linha da vida do bebê se mantém e ele experiência uma “continuidade do ser”. (Winnicott, 1960).

O processo de amamentação, os espaços de tempo entre as mamadas, o tempo entre uma forma de segurar e outra vão “construindo um registro de continuidade de um ser que é mantido, respeitado, não invadido. Não ser invadido significa ser compreendido a partir do que poderíamos chamar de “visão de mundo do bebê”, o que é possível pela adaptação ativa do meio maternante” (Guimarães, 2001).

Se a mãe proporciona uma adaptação suficientemente boa, a linha de vida da criança é perturbada muito pouco por reações à intrusão. A falha materna prolongada provoca fases de reação à intrusão e as reações interrompem o “continuar a ser” do bebê, gerando uma ameaça de aniquilamento. (Winnicott, 1978).

Todas as experiências que afetam o bebê são armazenadas em seu sistema de memória, possibilitando a aquisição de confiança no mundo, ou pelo contrário, de falta de confiança (Winnicott, 1999).

De acordo com os relatos da genitora, na entrevista anamnese e com as falas da paciente no ambiente psicoterapêutico pode-se observar que não foi estabelecido um ambiente facilitador ao desenvolvimento da criança como a teoria de Winnicott ensina. A gravidez não foi desejada, o ambiente não foi propício para o desenvolvimento e maturação do bebê. A forma de acolher a criança foi desfavorável à criação do vínculo mãe e filha. Pode-se chegar à conclusão que a mãe não foi suficientemente boa e consequentemente gerou um sentimento na paciente de falta de confiança, de amor, de sentimentos bons, pois ela teve que se adaptar às necessidades da mãe, ou do ambiente e não o contrário como deveria ocorrer, e adaptando-se à uma reação em que além do outro ter dificuldade em demonstrar afeto, é muito insatisfeito.

O trabalho da psicoterapia é desconstruir esses sentimentos e fazer com que a paciente consiga ressignificar essas lembranças, sentimentos que traz para novas relações que façam bem à ela, fazendo-a entrar em contato com a   realidade, vivendo e superando suas dores e assim ter um convívio sadio com sua genitora. Esse trabalho não deu continuidade em virtude da desistência pela mãe da paciente na psicoterapia, que ao perceber o vínculo estabelecido entre a terapeuta-paciente não conseguiu sustentar a análise, buscando destruir a relação com obstáculos a trazer a filha a mesma (não dá dinheiro para condução, não traz, críticas a terapeuta). Mesmo a paciente se posicionando em relação à mãe, enfatizando o desejo de continuar o trabalho, a mãe interrompeu, aspecto que demarca a dificuldade da mãe em lidar com alguém interferindo em seu controle sobre a filha.

SÍNTESE E CONCLUSÃO

Trata-se de uma paciente adolescente que traz os problemas da própria fase de desenvolvimento com o agravante de sua história de vida, criou um mundo ilusório e fantasioso, e assim não entrava em contato com suas frustrações, dores, carências.

Usou mecanismos de projeção, fuga da realidade, busca na figura do outro suprir todas as suas necessidades que não foram atendidas pelos seus genitores, principalmente no sexo oposto, através de sua beleza e sensualidade, conquista o carinho, atenção e amor do outro, afetos esses que não recebeu de seu pai. Sendo que, para o outro era apenas uma relação social e para a paciente tratava-se um relacionamento amoroso. Fugindo de sua vida real, criando um mundo próprio, uma vida paralela, e assim não entrava em contato com a dor. Vive em um mundo de ilusões, foi a maneira que achou de não sofrer.

A falta de atenção de seu pai, a repressão que sua mãe exerce sobre ela, a falta de vínculo entre mãe e filha são as demandas da paciente. Busca nos amigos a identificação que gostaria de ter de seu pai, usa de seu carisma e beleza para obter o carinho, atenção que não tem de seu genitor. Cria um mundo ilusório para fugir da realidade e nesse mundo a busca é apenas do prazer, fugindo assim da dor, da realidade de sua vida, a forma que achou para viver “bem”. Desenvolveu também uma maneira de manipular as pessoas e assim evitar frustrações, faz com que as pessoas acreditem nela, usando de seu poder de convencimento, através da docilidade, fragilidade e vítima da situação que apresenta ter e ser, e também usa de seus atributos de beleza para estar convencendo o sexo aposto e conquistando assim seja qual for o seu objetivo, consequentemente, deixando de entrar em contato com a realidade e assim evita a dor.

Os conflitos no vínculo de mãe e filha é uma das principais demandas da paciente. Não expressa nenhum tipo de afetividade boa com relação a sua mãe. Mostra a sua indiferença, não quer nenhum tipo de conversa, contato físico com aquela.

Observou-se que é uma adolescente com certa rebeldia e manipulação, porém também muito carente e perdida em suas atitudes e escolhas. Quer buscar satisfazer as suas carências fora do âmbito familiar, e, sim em amigos e principalmente em amigos do sexo masculino. O seu mundo gira em torno das conquistas amorosas, em que busca resolução dos conflitos vividos com os pais, e na maioria das vezes são ilusórias, criando relacionamentos fictícios que trazem consequências para sua vida, podendo inclusive trazer o risco de repetir os mesmos conflitos que a mãe. Não quer entrar em contato com a sua realidade de vida, busca o prazer e foge do desprazer.

A paciente tem a necessidade de desenvolver uma estrutura emocional mais madura para enfrentar a sua realidade, para isso, se faz necessário a continuidade no tratamento com sessões de psicoterapia, mas a mãe interrompeu o tratamento ao se deparar com o vínculo estabelecido entre terapeuta e paciente.

 REFERÊNCIAS

ABERASTURY. A; e COLS. Adolescência. Porto Alegre: Artes Médicas, 1990.

ABERASTURY, A; KNOBEL.M. Adolescência Normal: um enfoque psicanalítico. Porto Alegre: Artes Médicas, 1989.

ALONSO, S.L. (1988). A Escuta Psicanalítica. Disponível em: www.uol.com.br/percurso/mais/pcs01/artigo0120htm. Acesso em 28 Nov 2016.

BOCK, Ana; FURTADO, Odair; TEIXEIRA, Maria, Psicologias Uma Introdução ao Estudo da Psicologia. Ed 13ª. São Paulo: Saraiva, 2001.

DUANE, P; SCHULTZ, S.E. Teorias da Personalidade. São Paulo: Cengage Learning, 2011.

GASTAUD, Marina. A Entrevista Clinica Psicanalítica. Disponível em:. https://online.unisc.br/see/index.php/barbaroi/article/download/494/618. Acesso em: 07/ Out 2016.

MACEDO, Mônica Kother; FALCAO, Carolina. A escuta na psicanálise e a psicanálise da escuta. Psychê. São Paulo,  v. 9, n. 15, p. 65-76, jun.  2005. Disponível em: <http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-11382005000100006&lng=pt&nrm=iso>. Acesso em:  28  nov.  2016.

MANNONI, MAUD. A Primeira Entrevista em Psicanalise.  Ed 2ª.  Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

MONTEIRO. M. Um coração para dois: a relação mãe e bebê cardiopata. 2004.103 f. Tese (Mestrado em Psicologia) – Psicologia clínica, Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro. 2004. (PUC-Rio – Certificação Digital n. 0115546/CA).

[1] Formanda em Psicologia.

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