O “Adolescer” e a Experiência de Adoecimento por Câncer

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RODRIGUES, Allane Cristina Cosme [1]

TAVARES, Ana Beatriz [2]

TEIXEIRA, Ana Isaura Benfica [3]

RODRIGUES, Allane Cristina Cosme; TAVARES, Ana Beatriz; TEIXEIRA, Ana Isaura Benfica. O “Adolescer” e a Experiência de Adoecimento por Câncer. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Edição 05. Ano 02, Vol. 01. pp 784-798, Julho de 2017. ISSN:2448-0959

RESUMO

Este artigo consiste em uma revisão sistemática, a qual objetiva analisar e revisar as produções científico-acadêmicas relacionadas à experiência de adoecimento por câncer na fase da adolescência, bem como suas repercussões biopsicossociais; além disso, almeja auxiliares psicólogos e profissionais de saúde no manejo clínico de adolescentes adoecidos por câncer e, possivelmente, auxiliar em novas pesquisas. Para tanto, foi feito o levantamento de parâmetros que auxiliassem na busca e construção do Corpus da pesquisa, de forma que, foram excluídas, as obras as quais não estavam em língua portuguesa e que tivessem sido publicadas antes do ano de 2009, descartando, também, qualquer publicação que não caracterizasse artigo científico. De acordo com os parâmetros estabelecidos e bases de dados pesquisadas, foi perceptível a escassez de publicações acerca da questão de pesquisa deste trabalho; sendo de grande relevância também o instrumento da “escuta” diferenciada, assim como a necessidade de repensar o manejo dos profissionais para lidarem com a “dualidade” do adolescer e adoecer. O fator da espiritualidade aparece como um dos mecanismos de enfrentamento da doença mais presentes nos artigos revisados.

Palavras-chave: Adoecer, Adolescer, Adolescência, Câncer.

INTRODUÇÃO

De acordo com Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva (INCA), o Câncer – conjunto de doenças – origina-se por condições multifatoriais, sendo o ponto em comum entre as variadas tipologias, o fato de células potencialmente invasivas crescerem sem ordem, atingirem os tecidos, órgãos e poderem, ainda, espalhar-se para todo o corpo. Quanto aos procedimentos terapêuticos propostos, estes podem ser, segundo KOVACS et al. (2008), no livro “Temas em Psico-Oncologia“: quimioterapia, radioterapia, imunoterapia, hormonioterapia, cirurgias, entre outros; podendo ter fins curativos e/ou paliativos.

Ao fenômeno Câncer é atribuída relevância devido ao perfil epidemiológico – grave problema de saúde pública – que essa patologia vem apresentando (MINISTÉRIO DE SAÚDE, 2007). Inclusive, porque, esse complexo denominado Câncer, pode atingir pessoas em quaisquer das fases do desenvolvimento humano: infância, adolescência, adultez e velhice.

O foco deste trabalho é investigar a experiência do câncer na adolescência. E, para tanto, a partir de pesquisas a arcabouços teóricos, buscaram-se trabalhos que versassem sobre o adoecimento por câncer, assim como sobre o adolescer. Compreende-se que ao tratar-se de adoecimento por câncer em adolescentes, faz-se interessante atentar ao que Kohlsdorf (2010) pontua principalmente no que se refere à “necessidade de estudos que investiguem temas essenciais e pouco avaliados como […] experiência do adolescente”.

Assim, com base nos resultados encontrados – até então – acerca do/dos impacto/repercussões do câncer na adolescência; de toda complexidade envolvida nos tratamentos propostos; do déficit de materiais on-line disponíveis acerca deste tema e buscando entender a experiência de adoecimento por câncer na adolescência, faz-se necessária a ampliação das pesquisas na área objetivando atualizar a literatura para revisar os estudos realizados até então e, possivelmente, fornecer suporte aos profissionais que trabalham nesse contexto. Afim também de expandir o conhecimento sobre esse processo e, desse modo, contribuir para ter-se intervenções mais efetivas.

Portanto, cumpre esclarecer, neste escrito, que a questão de pesquisa aqui proposta emergiu da seguinte indagação: “Como se dá a experiência do adoecimento por câncer na adolescência, e quais as repercussões psicossociais deste nessa fase?”.

Levando-se em consideração tal questão de pesquisa, apresentaremos em seguida uma apresentação teórica sobre o câncer e o adolescer.

REVISÃO TEÓRICA

Câncer: caracterização conceitual e epidemiológica

De acordo com Brasil (2010, apud SIQUEIRA, 2015, p.14 ):

O câncer corresponde a um grupo de várias doenças caracterizado pela proliferação descontrolada de células anormais e que pode ocorrer em qualquer local do organismo. Diferentemente do câncer de adulto, o câncer infanto-juvenil geralmente afeta as células do sistema sanguíneo e os tecidos de sustentação, enquanto que as do adulto afetam a do epitélio, que recobre os diferentes órgãos (câncer de mama, câncer de pulmão). O surgimento do câncer no adulto também difere dos tumores na infância e adolescência, em relação à etiologia. A limitação de evidências científicas não permite observar claramente a etiologia e os fatores de risco associados com causas externas ou ambientais; naquele, porém que tais riscos podem claramente ser associados a, por exemplo, fumo e câncer de pulmão.

SIQUEIRA et al (2015), ao mencionar Straub (2005) e Brasil (2012), relata que há dados os quais revelam que entre as idades de 10 a 14 anos há mais prevalência para o desenvolvimento de câncer infanto-juvenil. O autor traz a consideração de que a prevenção da doença é um desafio e que para atingir satisfatoriamente o seu objetivo deve ter ênfase no diagnóstico precoce e orientações terapêuticas de qualidade. Pontua, ainda, as características de rapidez no que se refere ao crescimento e invasão do Câncer, mencionando os possíveis tipos de tratamento, complexos e, por vezes, mutiladores: cirurgias, quimioterapia e radioterapia, além de combinações como aquelas que envolvem transplantes de medula óssea.

O adolescer e a experiência de adoecimento por câncer

Ao se tratar da adolescência, é percebível, ao analisar a literatura, que a significação de tal fase é intimamente ligada ao parâmetro etário. KOLLER et al (2014), na obra Trabalhando com Adolescentes, por exemplo, traz essa discussão baseando-se nos apontamentos da Organização Mundial de Saúde (OMS), do Ministério de Saúde, do IBGE e de autores os quais dedicaram-se à pesquisas que envolvam o tema adolescer. A autora referida indica a fragilidade da definição em critérios cronológicos para tal fase, já que, segundo as publicações consultadas pela mesma, o ciclo vital está em constante processo de mudança e desenvolvimento, não se podendo ater apenas ao fator tempo para delimitá-lo em etapas distintas. É pontuado, ainda, que essa variedade de concepções e dificuldade para chegar a uma definição exata reflete a diversidade da adolescência.

Damásio e Rodríguez (2014), também na mesma obra, caracteriza a adolescência como etapa do desenvolvimento em que há experimentação de diversos papéis sociais, vivências de novas formas de interação social, desenvolvimento de habilidades e adoção de novas normas de conduta. Entende-se, então, que ocorre um desenvolvimento de forma global, em todos os níveis (fisiológico, psicológico e social), e que as novas habilidades adquiridas, principalmente cognitivas, desencadeiam a reflexão acerca de si mesmo e do outro.

É importante ressaltar que durante muito tempo a adolescência foi descrita apenas como período de mudanças corporais/biológicas – puberdade – as quais alteravam altura, forma, desenvolvimento físico e sexual. Tais modificações, por sua vez, preparariam o jovem para a chamada vida adulta, alcançando a inserção social, profissional e econômica.

Ou seja, em consonância com o exposto até então, dois critérios (biológico e social) definem início e final, respectivamente, do adolescer. Porém, não só o biológico e o social são capazes de determinar e definir o período em que a adolescência é vivenciada. Calligris (2000) traz uma reflexão e comparação da adolescência como sendo uma “moratória”, pois não se é mais criança e nem se é adulto. Durante esse meio termo, acontecem diversas mudanças, tanto físicas como psicológicas, e há também uma busca incessante pela identidade.

Logo, levando-se em consideração essas descrições do adolescer, e ao basear-se em Weiner (1976), percebe-se que o diagnóstico e o tratamento do câncer podem interferir – de forma evidente – nas principais tarefas da referida fase, tais como as que propiciam o ajustamento à maturação física, sexual, a obtenção da independência econômica e psicológica dos pais e o planejamento do futuro educacional e profissional. Outros autores, ao que parece, também concordam com a ideia anterior, como exposto a seguir:

A experiência de câncer na adolescência traz dificuldades referentes ao ajustamento à nova realidade frente ao cotidiano da doença e ao contexto do cuidado terapêutico hospitalar. Tal vivência confronta-se à descoberta do corpo, à construção da identidade, à busca por autonomia e liberdade. É nesse cenário que ocorre o diálogo tênue entre vida-morte, muitas vezes, afastando o adolescente do seu convívio habitual e desencadeando fragilidades, incertezas, conflitos e inseguranças nele, em sua família e nos profissionais de saúde (VALLE & FRANÇOSO, 1999; MENOSSI, ZORZO & LIMA, 2012 apud SIQUEIRA, 2015, p.14 ).

Confirma-se isso, de fato, em Ozella (2003) Apud Rezende et al, 2011, p.56, ao discorrer sobre a ideação acerca do adolescer presente em nossa sociedade: os adolescentes não são vistos como seres passíveis de adoecer e sim como seres em fase de crescimento físico, emocional e intelectual. Ter câncer, então, durante o período da adolescência, pode representar a frágil relação do sujeito, inclusive, levando a significações, tal como a de morte antecipada.

Apreende-se, logo, com a pesquisa, que o câncer na adolescência, levando em conta as especificidades desta, pode produzir impacto tanto no desenvolvimento físico, quanto no emocional (SEITZ; BESIER; GOLDEBECK, 2009); além das repercussões do ponto de vista psicossocial, as quais envolvem: qualidade de vida, ajustamento psicológico, sistemas de suporte, alterações da imagem corporal, sexualidade, educação, esperança e complicações do tratamento (ABRAMS; HA‑ ZEN; PENSON, 2007)

Tendo em conta, então, a diversidade de conceituações, optou-se neste trabalho pela definição proposta por Ozella (2013) no que se refere à adolescência não como uma etapa específica e natural da vida e sim como uma construção histórica, uma vez que, segundo o autor, o homem, historicamente, a criou como representação, fato social e psicológico. E, desse modo, ao se definir a adolescência, se atribui à mesma uma significação e interpretação social.

DESENVOLVIMENTO

MÉTODO

Delineamento do Estudo

A pesquisa classificar-se-á como uma revisão sistemática de literatura com objetivo descritivo-exploratório acerca da literatura especializada sobre a experiência de adoecimento por câncer na adolescência. Sobre a pesquisa de revisão de literatura, Sampaio e Mancini (2007, p.84 ) afirma que:

São particularmente úteis para integrar as informações de um conjunto de estudos realizados separadamente sobre determinada terapêutica/ intervenção, que podem apresentar resultados conflitantes e/ou coincidentes.

Em relação ao tipo de pesquisa, esta se classificará como sendo de cunho qualitativo, visto que trabalhará com o universo dos significados, dos motivos, das crenças e dos valores, através da literatura. No que se refere ao nível de pesquisa, categorizar-se-á como descritiva- exploratória e propositiva isto porque visará uma maior familiaridade com o problema.

Procedimentos Metodológicos de Construção do Corpus da Pesquisa.

Para a construção do Corpus da pesquisa, buscou-se seguir os seguintes parâmetros:

  • Parâmetro temático: A busca bibliográfica foi conduzida por meio do uso das seguintes palavras-chaves: Adolescente e Câncer, Câncer na adolescência e Adolescente com Câncer;
  • Parâmetro cronológico: Terá a seleção de artigos científicos dos últimos seis anos (2009-2015), com temas relacionados ao adoecimento de adolescentes por câncer;
  • Parâmetro de fontes: Terá como base de dados o BVS-PSI (Scielo e Pepsic);
  • Parâmetro linguístico: Para o levantamento bibliográfico de obras, serão selecionados apenas artigos científicos, escritos em língua portuguesa.

De forma que, foram excluídas, as obras que não sejam de língua portuguesa, que tenham sido publicadas antes do ano de 2009, descartando quaisquer publicações que não sejam artigos científicos.

No levantamento de dados, ao lançar os descritores, foram encontrados dezessete artigos científicos de acordo com os parâmetros previamente estabelecidos, porém, apenas cinco contemplavam a questão de pesquisa deste trabalho.  Logo, foi preciso alterar o parâmetro cronológico. Antes, a busca abarcava aqueles compreendidos nos últimos cincos anos, restringindo a Análise do Corpus da Pesquisa, sendo necessário, portanto, inserir produções publicadas entre 2009 -2015. Segue a tabela quantitativa dos artigos encontrados com o parâmetro cronológico estabelecido anteriormente:

Tabela 1: Caracterização da busca realizada com o parâmetro cronológico estabelecido anteriormente (2010-2015)

Bases Eletrônicas PePSIC ScIELO TOTAL
Selecionados 4 1 5
Não Selecionados 0 12 12
TOTAL 4 13 17

Fonte: Tabela elaborada pelas autoras.

Com isso, após a inclusão de mais um ano no parâmetro cronológico, pôde-se ampliar um pouco mais a busca do material para a construção do Corpus da pesquisa. Seguindo os parâmetros temáticos já estabelecidos anteriormente, e alterando o parâmetro cronológico, foram encontrados treze artigos científicos da base de dados Scielo, porém apenas um contemplou o tema relacionado à questão de pesquisa norteadora deste trabalho. Na base de dados do Pepsic, foram encontrados cinco os quais estavam dentro dos parâmetros estabelecidos, e desses cinco, todos contemplaram o tema da questão de pesquisa. Segue a tabela quantitativa referente à busca de artigos científicos:

Tabela 2: Caracterização Quantitativa dos Artigos Científicos

Bases Eletrônicas PePSIC ScIELO TOTAL
Selecionados 5 1 6
Não Selecionados 0 12 12
TOTAL 5 13 18

Fonte: Tabela elaborada pelas autoras.

Percebe-se então, o déficit de artigos científicos que versem sobre o adoecimento de adolescente por câncer nas bases de dados que foram mencionadas no parâmetro de fontes, principalmente no que se refere à área da psicologia, pois durante a busca do material viu-se que a enfermagem foi uma das áreas da saúde que mais buscou sobre o tema. Segue a tabela qualitativa referente aos artigos científicos selecionados e analisados:

Tabela 3: Caracterização Qualitativa dos Artigos Científicos Analisados

ANO TÍTULO NOME DOS AUTORES MÉTODO OBJETIVO
2009 O “adolescer” e o adoecer: vivência de uma adolescente com câncer. Adryene Milanez Rezende

Virgínia Torres Schall

Celina Maria Modena

 

Estudo de caso, com perspectiva qualitativa, ancorado pela abordagem fenomenológica. Descrever a vivência da adolescência e do câncer, discutindo a importância da Casa de Apoio para acolher os sujeitos nessa trajetória.
2011 O câncer na adolescência: vivenciando o diagnóstico. Adryene Milanez Rezende

Virgínia Torres Schall

Celina Maria Modena

Pesquisa qualitativa com abordagem fenomenológica. Compreender os processos psicossociais dos pacientes desde o surgimento da doença até as repercussões da descoberta.
2013 A criança e o adolescente em casa de apoio: projetando vivências. Adryene Milanez Rezende

Patricia de Paula Santos

Ana Cristina Magalhães Cerqueira

Julio Lapertosa Viana

Celina Maria Moderna

Estudo qualitativo Identificar e minimizar o impacto da doença (câncer) através de técnicas projetivas, nas relações psicossociais.
2014 Câncer na adolescência e suas repercussões psicossociais: percepções dos pacientes. Itala Villaça Duarte

Iolanda de Assis Galvão

Pesquisa qualitativa, com metodologia de análise de conteúdo. Entender e compreender a vivência do câncer e suas particularidades.
2015 Espiritualidade, religiosidade e crenças pessoais do adolescente com câncer. Verônica de Moura Souza

Heloisa Cristina Figueiredo Frizzo

Michelle Helena Pereira de Paiva

Regina Szylit Bousso

Alvaro da Silva Santos

Pesquisa qualitativa, do tipo descritiva e exploratória. Analisar a compreensão dos adolescentes a respeito da espiritualidade, religiosidade e crenças pessoais presentes em sua vida, devido ao câncer e como estratégia de enfrentamento da doença.
2015 Percepção de adolescentes com câncer: pesquisa fenomenológica. Hilze Benigno de Oliveira Moura Siqueira

Andressa Karina Amaral Plá Pelegrin

Rodrigo Ramon Falconi Gomez

Talita de Cássia Raminelli da Silva

Fátima Aparecida Emm Faleiros Sousa

Estudo qualitativo, exploratório descritivo, fundamentado na abordagem fenomenológica. Compreender como os adolescentes com câncer, percebem e vivenciam a dor (física, emocional, psicológica)

Fonte: Tabela elaborada pelas autoras.

O artigo “Espiritualidade, religiosidade e crenças pessoais do adolescente com Câncer” trata-se de uma pesquisa bibliográfica qualitativa, de caráter descritivo-exploratório norteada por um roteiro de entrevista. Ratificando o objetivo desta – já exposto na tabela acima – nota-se que esse escrito objetiva contribuir com a Comunidade Científica e com os profissionais da área da saúde, bem como tem o intuito de incitar novas pesquisas acerca do tema para que se possa relacionar a qualidade de vida dos pacientes adoecidos por câncer. São pontuados, ainda, as intervenções terapêuticas propostas e seus efeitos colaterais, assim como a eleição de recursos de enfrentamento baseados nas vivências analisadas.

O artigo “Câncer na adolescência e suas repercussões psicossociais”, pesquisa de cunho qualitativo, retrata a adolescência, considerando-a período de descobertas e transformações cursando com o impacto e repercussões psicossociais de adolescentes acometidos por câncer. Traz claramente seu objetivo: auxílio aos profissionais da saúde que lidam com Oncologia.

O escrito intitulado “O “adolescer” e o adoecer: vivência de uma paciente com câncer”, estudo de caso, reproduz, sob a perspectiva fenomenológica, a vivência de uma adolescente portadora de câncer e seus desdobramentos, como descritos a seguir: importância da Casa de Apoio como espaço de vínculo e manutenção de laços sociais; mecanismos de defesa adaptativos e recursos de enfrentamento associados às experiências do adolescer; bem como a atuação do profissional psicólogo na Oncologia.

No artigo “Percepção de adolescentes com câncer: pesquisa fenomenológica” há o estudo exploratório-descritivo em um hospital de São Paulo, que tem por objetivo a compreensão de como os adolescentes acometidos por Câncer, percebiam e vivenciavam a dor, seja ela física ou emocional. Esse estudo deu-se através de entrevistas fenomenológicas. Ao término do estudo, pôde-se observar o quão importante é valorizar a narrativa de vida e de experiências trazidas pelos adolescentes, de forma que a equipe de saúde possa dar essa devida importância, pois quando se tem uma escuta humanizada, o sujeito pode sentir-se acolhido, proporcionando, então, o estabelecimento de vínculo entre a tríade paciente-equipe-família.

Em “O câncer na adolescência: vivenciando o diagnóstico”, pesquisa qualitativa com abordagem fenomenológica, tem como objetivo principal descrever como os adolescentes vivenciam o diagnóstico de câncer. Para isso, realizaram-se entrevistas abertas e individuais em adolescentes que estavam em uma Casa de Apoio. Após a realização das entrevistas e transcrição das falas dos adolescentes, tendo em vista que se utilizou da abordagem fenomenológica para a análise dessas falas, foi percebido um déficit em relação à escuta que os profissionais possivelmente ofereciam. Sabendo que durante a fase da adolescência ocorrem diversas mudanças, e que o adoecimento por câncer nessa etapa torna o “adolescer” um período marcante, os autores concluem que se faz necessário uma escuta diferenciada pelos profissionais, para com os adolescentes.

Em “A criança e o adolescente com câncer em Casa de Apoio: projetando vivências”, tem por objetivo propor a utilização de técnicas projetivas como elemento de expressar sentimentos e vivências, que muitas vezes são sentidas e vivenciadas pelas crianças e pelos adolescentes, porém, muitas das vezes não são externalizadas, e tendo em vista a escassez de profissionais que se propõe a realizar uma escuta do adolescente/criança, têm-se as técnicas projetivas como instrumento de grande valia, uma vez que permitem a expressão e a projeção de vivências, que lhes causam dor e sofrimento.

Verificou-se, logo, que todos versam sobre as vivências de adolescentes na condição de pacientes oncológicos – e suas particularidades – buscando compreende-las. Observa-se como ponto convergente a finalidade, constante em todos os artigos revisados, de corroborar a necessidade de manejo humanizado pelos profissionais os quais lidam com esses adolescentes, cursando com a construção de vínculos e fornecimento de suporte dentro dessa dinâmica relacional. Percebe-se, também, a fenomenologia como sendo a abordagem mais usada e a que mais tem buscado sobre o tema em questão: Câncer na adolescência. Tendo em vista que, de acordo com Holanda (2003) citado por REZENDE et al. (2011, p.57): “A fenomenologia permite compreender como os indivíduos vivenciam a doença e como atribuem significados a essa experiência.”, é notória a importância dessa abordagem enquanto intercessor  para a compreensão do “adolescer”.

Esses pontos observados como núcleo em comum no material encontrado apontam para a possibilidade de abertura de categorias para discussão (com exceção da abordagem fenomenológica).

RESULTADOS E DISCUSSÕES

Após a leitura e análise dos seis artigos selecionados, foi possível eleger as seguintes categorias para discussão, tendo em vista que as mesmas estão presentes como temas discutidos em todos os artigos analisados.

Sendo tais: (1) Efeitos colaterais: físicos, psicossociais e emocionais; (2) A espiritualidade como recurso de enfrentamento.

Efeitos colaterais: físicos, psicossociais e emocionais

É notório como tal categoria foi extremamente trazida por todos os artigos, tendo em vista os impactos e os efeitos que o adoecimento por câncer na adolescência trazem para o sujeito nessa fase complexa, o qual enfrenta diversos questionamentos e inquietações, principalmente devido à indefinição de inserção em uma dada fase, uma vez que não se é mais criança e nem adulto o suficiente para ser tratado como tal.

Dentre os efeitos colaterais citados nesta categoria, tem o físico, o qual está densamente relacionado aos impactos causados pelos tratamentos, que incluem a radioterapia, quimioterapia, imunoterapia, procedimentos cirúrgicos, intubações, drenagens, punções, entre outros; resultando, principalmente, na alteração da autoimagem. De forma que, para além das repercussões orgânicas, os efeitos adversos do adoecimento e tratamento, atinjam o âmbito psicossocial e emocional do adolescente adoecido por câncer.

Quanto às implicações psicossociais, percebeu-se que a forçada adaptação à nova rotina de hospitalização, modificando, na maioria das vezes, o estilo de vida e hábitos comuns da fase juvenil, é um resultado claro do adoecimento por câncer e necessidade de realização de tratamento. Esta doença, apesar dos avanços técnico-científicos, carrega rótulos e tem sido associada diretamente à ideia de morte. Logo, o sujeito que vivencia a fase do adolescer – concebida socialmente como vital, produtiva e preparatória para o futuro – tem influências impactantes no que refere-se à esfera psicológica e social, já que correlacionam-se às representações sociais e às restrições às atividades cotidianas do sujeito.

Sobre os efeitos os quais dizem respeito à parte emocional, que esse contexto – tido como extremamente ameaçador da vida e de sonhos e objetivos – observou-se que tal apresenta-se como mobilizador de sentimentos, destacando-se angústia, medo e ansiedade. Assim como os sentimentos de tristeza e solidão, os quais afetam, de acordo com os estudos, tanto no processo terapêutico, quanto no processo de vida e de enfrentamento à doença de câncer durante a fase da adolescência. Isso, pois, muitas vezes, a percepção e vivência desta doença de forma negativa, fazem com que o adolescente se feche ainda mais para possibilidades de enfrentamentos positivos. Dando ênfase, também, à questão relacionada ao fato dos profissionais não disponibilizarem espaço de expressão e nem escutatória diferenciada para esses adolescentes, os quais, muitas vezes, sofrem a dor física, emocional e psicossocial concomitantemente.

A Espiritualidade como recurso de enfrentamento

Este é um tema que vem se constituindo como desafiador e crescente, principalmente no que se refere à sua análise científica: contribuição da espiritualidade como mecanismo frente ao adoecimento por câncer e os tratamentos propostos.

Para o levantamento dessa categoria, foram observadas produções (estudos em enfermagem), as quais, apesar de não serem da área da Psicologia, transpassam o viés psicológico, uma vez que retratam um dos mecanismos de enfrentamento do adolescente adoecido por câncer.

Na maioria dos escritos foram perceptíveis definições teóricas do tema espiritualidade as quais relacionam-se, destacadamente, ao autoconhecimento; à transcendência pessoal; história espiritual; fé e crença. Porém, trazem nos resultados das pesquisas, que quando vistas na prática são reduzidas ao ato de possuir fé em Deus.

No processo de enfrentamento de doenças crônicas, tem sido focalizada – de forma crescente em pesquisas – a influência de fatores que agem como recursos adicionais ao tratamento e abordagem da doença, auxiliando na cooperação e adesão ao mesmo. Logo, encontrou-se nos artigos selecionados, a espiritualidade como campo florescente de investigação e discussão de estudiosos da área, uma vez que é uma forma adicional dos adolescentes – em conjuntura com família e equipe – encontrarem recursos para lidar com as dificuldades encontradas no cotidiano durante o percurso do adoecimento e sofrimento consequente deste.

Dessa forma, observou-se que os escritos trazem a espiritualidade como expressão de identidade, de aspirações e propósitos de vida associadas às próprias experiências. Sendo, então, estrutura de alívio de sofrimento, na medida em que desencadeia a transformação da perspectiva da doença grave e ameaçadora, resultando no conforto emocional; servindo como geradora do sentimento de esperança e elevação da autoestima e autoconceito; isto é, dando procedência ao enfrentamento positivo do contexto de adoecimento e do inesperado.

CONCLUSÃO

O adoecimento por câncer, independente da etapa da vida, pode se apresentar como gerador de sofrimento e repercutir, de forma impactante, no estilo de vida, bem como as modificações na autoimagem decorrentes dos procedimentos terapêuticos os quais, em sua grande maioria, são invasivos e pode debilitar – do ponto de vista orgânico, emocional e psicológico – o sujeito.

Entendendo, logo, o adolescer como fase repleta de mudanças, de cobranças, construção e conflitos, observou-se que ao ser vivenciado junto à doença – tida socialmente como ameaçadora da vida (câncer) – emerge a necessidade de cuidado especializado voltado ao acolhimento, escuta e compreensão do paciente e do seu processo de adoecimento.

Assim sendo, ficam as indagações: qual seria o papel do profissional da saúde, independente da especialidade, frente ao contexto de adoecimento? Qual a importância dada pelos profissionais à bagagem histórica trazida pelo paciente? Até que ponto a indefinição de inserção em uma dada fase (quando não se é mais criança e ainda não se pode ser considerado adulto) pode interferir no acolhimento e no cuidado ao paciente?

Almeja-se, portanto, com este trabalho, que em um futuro próximo, possam se multiplicar estudos referentes a este tema os quais visem auxiliar profissionais no seu manejo diário e no exercício de sua profissão, assim como, sem parecer utópico, beneficiar diretamente os pacientes viventes dessa dualidade (adolescer versus adoecer por câncer) para que eles possam ser vistos sob a ótica da humanescência, ou seja, levando-se em consideração suas particularidades e histórias de vida, não apenas rotulados por seus diagnósticos.

REFERÊNCIAS

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[1] Graduanda em Psicologia pela Universidade Potiguar

[2] Graduanda em Psicologia pela Universidade Potiguar

[3] Orientadora. Mestre em Psicologia. Professora da Universidade Potiguar

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