ARTIGO ORIGINAL
MEIRA, Gabriela de Figueiredo [1], CASTILHO, Ana Virginia Santana Sampaio [2], MENDES, Rharessa Gabrielly Ferreira [3], VITÓRIO, Tainah Aiko Hayashi [4], CASTRO, Marcelo Salmazo [5], TRENCH, Leonardo de Aguiar [6], D’ALESSANDRO, Danielle dos Santos [7], SALES-PERES, Silvia Helena de Carvalho [8]
MEIRA, Gabriela de Figueiredo et al. Avaliação da afetividade negativa no desempenho escolar de adolescentes vulneráveis após a pandemia da Covid-19. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 09, Vol. 01, pp. 24-43. Setembro de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/odontologia/avaliacao-da-afetividade, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/odontologia/avaliacao-da-afetividade
RESUMO
Estudos indicam que a afetividade exerce um papel fundamental no desempenho escolar, especialmente no que diz respeito à saúde mental e ao bem-estar dos adolescentes. Este estudo teve como finalidade avaliar a afetividade negativa no desempenho escolar de adolescentes vulneráveis após a pandemia da COVID-19. A presente pesquisa transversal envolveu 183 estudantes de 15 e 16 anos matriculados no ensino médio, residentes em uma área caracterizada por vulnerabilidade social. O desempenho escolar foi avaliado por meio da média das notas obtidas no semestre pelos adolescentes. A afetividade negativa foi mesurada pela escala Depression Anxiety and Stress Scale (DASS-21). O uso de serviços odontológicos foi avaliado por meio da frequência, o tipo e o motivo da consulta. Dados sobre dor dentária, demográficos e econômicos também foram coletados. O escore médio da escala que mede a afetividade negativa (DASS-21) foi de 15,9 ± 14, sendo a média de estresse de 6,05 ± 5,19; ansiedade de 4,74 ± 4,63 e depressão foi 5,08 ± 4,12. A média da nota da disciplina de português dos participantes 6,04 ± 2,25 e na disciplina de matemática foi 6,56 ± 2,30. Entre os adolescentes, 42 (22,9%) relataram dor dentária nos últimos 6 meses. Houve uma correlação negativa entre a afetividade negativa e o desempenho nas disciplinas de matemática (cp= -0,63; p< 0,05) e português e (cp= -0,33; p<0,05). O estresse, a ansiedade e a depressão foram capazes de afetar o bem-estar social e emocional dos adolescentes, prejudicando de forma significativa o desempenho escolar após a pandemia da COVID-19.
Palavras-chaves: Adolescentes, Escolaridade, Depressão.
1. INTRODUÇÃO
A pandemia da COVID-19, provocada pelo novo coronavírus SARS-Cov-2, trouxe alterações significativas em escala global, em razão de sua elevada transmissibilidade e taxa de mortalidade. (OPAS/OMS, 2022). As orientações emitidas pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em parceria com os governos, resultam em um amplo isolamento social, na limitação da circulação de pessoas e em alterações significativas na rotina de indivíduos de todas as idades (WHO,2020).
No contexto educacional, instituições de ensino, como escolas e universidades, precisaram adaptar suas diretrizes sendo que o principal desafio para os docentes consistiu em aprender a utilizar novas tecnologias para garantir o processo de aprendizagem dos estudantes (Apolinário; Carvalho, 2024). O ensino remoto foi rapidamente adotado pelo sistema educacional como a solução mais viável para assegurar aos estudantes o direito à educação (Dias, 2021), possibilitando que o aprendizado ocorresse fora do ambiente escolar. Assim, aspectos de ambiente doméstico pouco favorável aos estudos, baixa renda, falta de acesso à internet e excesso de tarefas repercutiram de forma significativa na qualidade de vida desse grupo populacional (Dias; Ramos, 2022; Rebelo,2024).
Neste cenário, pesquisas indicam que as restrições adotadas durante a pandemia contribuíram para o aumento de ansiedade, depressão e estresse, além de impactarem negativamente o desempenho escolar dos adolescentes (Apolinário; Carvalho, 2024; Dias; Ramos, 2022; Silva; Oliveira, 2017). Estima-se que entre 10 a 20% das crianças em todo o mundo enfrentam algum tipo de transtorno ou dificuldade relacionada à saúde mental, sendo que quase metade dos casos em adolescentes tem início antes dos 14 anos de idade. O suicídio ocupa a terceira posição entre as principais causas de morte de jovens na faixa etária de 15 a 29 anos de idade (OPAS/OMS, 2024). Esses achados corroboram uma revisão sistemática conduzida por Magson et al. (2020), que investigou os efeitos da privação social e da solidão na saúde mental de crianças e adolescentes. Com o fechamento das escolas, tanto o isolamento quanto a sensação de solidão se intensificaram, elevando o risco de depressão, sendo que períodos mais prolongados de solisão estão associados a maior probabilidade de desenvolvimento de transtornos mentais (Magson et al., 2020; Miliauskas; Faus, 2020).
Assim, é fundamental incentivas ações preventivas voltadas à promoção de saúde, bem como orientar famílias e professores (Loades et al., 2020). Ressalta-se então a importância do apoio a essa população em ambientes familiares, comunitários e escolares (ONU, 2021; OPAS/OMS, 2007). Diversas ações foram implementadas nas escolas envolvendo professores e alunos, evoluindo para programas que ultrapassam o ambiente escolar e passaram a ser reconhecidos e apoiados como estratégias a serem incentivadas em todo o território nacional. (Apolinário; Carvalho, 2024).
Entende-se que as escolas possam ser ambientes propícios para ações de promoção de saúde (Gomes, 2009). Segundo a Organização Mundial da Saúde, escolas que atuam como promotoras de saúde criam um ambiente favorável ao bem-estar, incentivando tanto a educação quanto a saúde de professores, funcionários, alunos e da comunidade. Essas instituições desenvolvem práticas voltadas à promoção do bem-estar, atividades recreativas e programas de apoio social e emocional, ultrapassando os limites físicos da escola. A Organização Pan-Americana da Saúde recomenda esse modelo, incentivando a cooperação entre os setores de educação e saúde para aprimorar a qualidade de vida de crianças, adolescentes, familiares e comunidades. As ações incluem orientação para escolhas e comportamentos saudáveis, bem como estímulo à reflexão crítica sobre valores e condutas, como o objetivo de favorecer o desenvolvimento integral dos estudantes (OPAS/OMS, 2007; Gomes, 2009). Os docentes precisam estar capacitados para atuar como promotores da saúde, de modo que a educação contemple não apenas o desenvolvimento intelectual por meio de avaliações, mas também a habilidade de identificar impactos psicológicos nos adolescentes, reconhecendo que o bem-estar é parte integrante da saúde geral (Gomes, 2009).
A relação entre saúde e escola durante a adolescência é influenciada por diversos fatores, uma vez que os adolescentes enfrentam desafios que dificultam a permanência na escola. Entre esses desafios, destacam-se as longas distâncias até as instituições de ensino, as condições econômicas precárias das famílias, os custos relacionados à educação, a falta de atendimento a alunos com necessidades especiais, a precariedade da infraestrutura escolar e as ausências frequentes de professores. Um dos grupos mais afetados são de alunas adolescentes, o que constitui um desafio para manter as mesmas na escola principalmente no nível secundário, devido a gravidez precoce e o casamento prematuro. Esses fatores desestimulam a frequência e elevam o abandono escolar (Garcia et al., 2024; Oliveira et al., 2024; Gomes, 2009).
Além dos fatores psicossociais, a saúde geral, incluindo a saúde bucal, emerge como um componente crítico que pode interferir na vida acadêmica dos estudantes (Quadro et al., 2020). A dor de dente é uma condição prevalente que afeta negativamente a qualidade de vida, podendo levar à dificuldade de concentração, irritabilidade e absenteísmo escolar, o que, consequentemente, prejudica o desempenho dos alunos (Alvarenga et al., 2022). Estudos indicam que problemas de saúde bucal não tratados podem estar associados a piores indicadores de saúde mental e a um rendimento escolar inferior em adolescentes (Quadro et al., 2020). Portanto, a saúde bucal não deve ser vista de forma isolada, mas como parte integral do bem-estar do estudante e um fator relevante no contexto educacional.
A identificação precoce de problemas mentais e de outras condições de saúde que afetam o bem-estar é essencial para orientar o tratamento e a prevenção do agravamento do problema. Compreender os diversos fatores que influenciam a saúde dos adolescentes permite gerar informações fundamentadas em evidências científicas, possibilitando o desenvolvimento de estratégias para promoção de saúde e transformando o espaço escolar em um local propício para o bem-estar da população. Portanto este estudo teve como objetivo avaliar a afetividade negativa no desempenho escolar dos adolescentes vulneráveis após a pandemia da COVID-19, investigando também a potencial influência de aspectos de saúde bucal neste cenário.
2. METODOLOGIA
2.1 DESENHO DO ESTUDO
O presente estudo caracteriza-se como observacional transversal e foi conduzido com adolescentes com idades entre 15 e 16 anos, em duas escolas estaduais de ensino médio da zona norte de Bauru. Bauru, localizada no interior de São Paulo a cerca de 326km da capital do estado, é o município mais populoso do centro-oeste de São Paulo. Com sua área de 667,684 km² e a população estimada em 379.146 habitantes em 2022, a cidade possui aproximadamente 350 bairros e 10 administrações. Seu índice de desenvolvimento Humano- IDH é de 0,801 considerado muito elevado, ocupando assim a posição 20ª no estado de São Paulo (IBGE, 2023).
2.2 ASPECTO ÉTICOS
O estudo recebeu aprovação do Comitê de ética em Pesquisa com Seres Humanos (CEP) da Faculdade de Odontologia de Bauru, Universidade de São Paulo, sob o número 70618623.4.0000.5417. Os pais ou responsáveis pelos participantes assinaram o Termo de Consentimento Livre e Esclarecido- TCLE, enquanto os adolescentes firmaram o Termo de Assentimento- TALE.
2.3 SELEÇÃO DA AMOSTRA E CÁLCULO AMOSTRAL
A amostra foi selecionada por conglomerado em duplo estágio. Inicialmente foi obtida uma amostra de escolas de Ensino Médio da zona norte de Bauru, região que apresenta maior número famílias de baixa renda, bem como de vulnerabilidade social (Bauru, 2025). As escolas dessa região foram randomizadas por um pesquisador não envolvido na coleta de dados por meio do software WinPepi, selecionando duas escolas para composição da amostra. Cada escola apresentava 6 turmas de 1º e 2º anos do ensino médio, totalizando 12 turmas. Foram sorteadas três turmas em cada escola e todos os estudantes de 15 e 16 anos presentes nessas turmas receberam o convite para integrar a pesquisa.
A amostra foi comporta por 220 adolescentes que seria necessário para verificar diferenças de médias do desempenho escolar, considerando a estimativa de 14,5% de baixo desempenho (Rosa; Fernandes; Lemos, 2020), para obter 80% de poder estatístico e nível de significância de 5%.
Adolescentes que apresentavam alguma limitação física ou psicológica que pudesse comprometer a coleta de dados foram excluídos.
2.4 COLETA DE DADOS
Os dados foram coletados após a obtenção de aprovação do CEP e durante o 1° semestre de 2024 A coleta dos dados foi feita por meio de formulários auto aplicados usando o Google forms. Os alunos foram orientados quanto ao preenchimento dos formulários, que foram respondidos de forma individual por meio de tabletes. Essa metodologia justifica-se pelo fato, de que adolescentes apresentam dificuldade em compartilhar seus sentimentos e apresentam-se em período de autoafirmação, portanto medidas autorrelatadas permitem que suas opiniões possam ser expressas sem medo de julgamentos.
Os pesquisadores entraram em contato prévio com as escolas para marcar o dia da coleta e explicar os materiais e equipamentos que seriam utilizados, de forma a adequar as atividades da pesquisa ao calendário escolar e não prejudicar a rotina.
2.5 VARIÁVEIS
2.5.1 CARACTERÍSTICAS DEMOGRÁFICAS E SOCIOECONÔMICAS
A raça foi mensurada por meio da questão: Qual a sua cor ou raça? Com opções de resposta: branca, preta, amarela, para ou indígena (IBGE, 2022). Posteriormente categorizada por: brancos e não brancos (preta; amarela; parda; indígena). Os adolescentes responderam quanto ao sexo, como masculino ou feminino.
A escolaridade dos pais foi avaliada por meio da seguinte pergunta: Sua mãe estudou? Escreva até que série ou anos completos que estudou. Para análise dos dados esta variável foi recategorizada: até os 8 anos do estudo e mais de 8 anos do estudo.
2.5.2 USO DE SERVIÇOS ODONTOLÓGICOS
A utilização de serviços odontológicos foi avaliada em três perguntas: 1) Quando ocorreu a última visita ao dentista? menos de um ano ou mais de um ano; 2) Onde foi realizada a última consulta? Serviço público, consultório particular, plano de saúde/convênios, outros ou não sabe; 3) Qual motivo da última consulta? Revisão, prevenção ou check-up, dor, extração, tratamento, outros.
2.5.3 AVALIAÇÃO DO DESEMPENHO ESCOLAR
O desempenho escolar dos alunos, foi medido por meio da pontuação baseada nas médias semestrais das disciplinas de Matemática e Português. A pontuação das disciplinas varia de 0 a 10. As notas foram obtidas a partir do histórico escolar do aluno.
2.5.4 AFETIVIDADE NEGATIVA
A saúde mental foi avaliada por meio da afetividade negativa (depressão, ansiedade e estresse) e foi utilizada a versão brasileira Depression Anxiety and Stress Scale (DASS-21) – Short Form validado e adaptado para os adolescentes brasileiros (Patias et al., 2016). Os participantes responderam sobre o grau dos sintomas experimentados na última semana, por meio de uma escala tipo Likert de 4 pontos entre 0 (não se aplica a mim) e 3 (aplica-se muito a mim, ou a maior parte do tempo). Pontuações para depressão, ansiedade e estresse foram determinadas pela soma dos escores dos 21 itens.
2.5.5 DOR DENTÁRIA
Dor dentária foi avaliada pela pergunta: Nos últimos 6 meses você teve dor de dente? Não ou sim.
2.5.6 ANÁLISE DOS DADOS
A análise estatística foi conduzida no software JAMOVI. Inicialmente, realizou-se uma análise descritiva para resumir as características sociodemográficas, clínicas e de desempenho escolar da amostra, utilizando médias, desvios-padrão, frequências e porcentagens. Para testar a hipótese principal do estudo, a associação linear entre os escores de afetividade negativa e o desempenho escolar foi examinada por meio do coeficiente de Correlação de Pearson. Para comparar as médias entre dois grupos, utilizou-se o Teste T de Student, já a Análise de Variância (ANOVA) foi utilizada para comparações envolvendo 3 ou mais grupos. Para todas as análises, adotou-se um nível de significância de 5% (p < 0,05).
3. RESULTADOS
O estudo contou com a participação de 183 adolescentes, equivalente (56,83%) do total de adolescentes elegíveis (figura1). Destes 97 (53,0%) eram meninas e 86 (47,0%) meninos. Entre os participantes 106 (57,9%) eram não brancos e 77 (42,1%) brancos. A maioria dos participantes estavam cursando o 2º ano do ensino médio e as mães tinham até 8 anos de estudo 96 (52,5%). Quando questionados sobre o uso de serviço odontológico, 63 (34,4%) tinham ido ao dentista ao menos um ano antes da pesquisa. O motivo da consulta foi descrito pela maioria dos adolescentes como outros 49 (26,8%), seguido de tratamento restaurador 38 (20,8%), sendo 55 (30,1%) realizados em consultórios particulares. O escore médio do DASS-21 foi de 15,9 ± 14. A média de estresse foi de 6,05 ± 5,19; ansiedade de 4,74 ±4,63 e depressão foi 5,08 ± 4,12. A média dos alunos em português foi 6,04 ±2,25 e em matemática foi 6,56 ±2,30. Entre os adolescentes, 42 (22,9%) relataram dor dentária nos últimos 6 meses (Tabela. 1).
Figura1- Fluxograma da amostra

Tabela 1- Características demográficas, econômicas, uso de serviços odontológicos, dor dentária, afetividade negativa e dor dentária na amostra

Quando avaliado se a afetividade negativa esteve correlacionada com a nota média das disciplinas de matemática e português, foi verificado uma correlação negativa significativa (cp= -0,63; p< 0,05) para a disciplina de português e (cp= -0,33; p<0,05) (tabela 2). Os meninos apresentaram maior média do DASS-21 quando comparada com as meninas (p=0,66). A média do DASS-21 entre os adolescentes não brancos foi de 13,9 ± 3,15 (p= 0,17). A baixa escolaridade materna foi associada a maior média da afetividade negativa (p< 0,05). Os adolescentes que foram ao dentista devido a dor dentária, apresentaram pior afetividade negativa (p=0,15) quando comparados aos outros que foram ao dentista para tratamento restaurador, consulta de rotina e aqueles que nunca tinham realizado nenhum tratamento.
Tabela 2- Relação entre o desempenho escolar e a efetividade negativa, características demográficas, econômica, uso de serviços odontológicos e dor dentária

Os dados obtidos neste estudo revelaram que a afetividade negativa após a pandemia da COVID-19 foi capaz de afetar o desempenho escolar de estudantes de escolas públicas do ensino médio.
4. DISCUSSÃO
A afetividade negativa é um constructo multidimensional que envolve depressão, ansiedade e estresse, nossos resultados demonstraram que estes sintomas foram correlacionados ao baixo desempenho escolar. Resultados semelhantes foram encontrados por Baptista et al (2006), em que a intensidade dos sintomas depressivos apresentou correlação negativa com o desempenho escolar. Estes achados diferem do estudo de Horn, Silva, Patias (2021), em que os autores encontraram uma correlação negativa fraca entre o desempenho escolar com os sintomas de ansiedade/depressão nos escolares com 15 a 18 anos de idade, os autores destacaram que os alunos mais novos apresentaram mais estresse e as alunas apresentaram mais sintomas de ansiedade e depressão. A diferença dos achados pode estar relacionada ainda aos efeitos negativos das situações vividas durante o período de distanciamento social.
A saúde mental dos estudantes constitui em um elemento essencial na prevenção de doenças, e sua importância tornou-se ainda mais evidente durante a pandemia do COVID-19. Com o avanço da pandemia, medidas como o distanciamento físico e as restrições sociais foram rompidas, resultando em um grande impacto na vida dos estudantes e em sua saúde mental (Li, 2022). No nosso estudo a afetividade negativa após a pandemia da COVID-19 foi capaz de afetar o desempenho escolar dos adolescentes.
A adolescência é uma fase de maior vulnerabilidade a problemas de saúde mental, sendo que cerca de 75% dos adultos com transtornos psíquicos apresentam os primeiros sintomas antes dos 24 anos. Fatores como destruição, bullying e solidão estão entre os principais riscos para o desenvolvimento de depressão, ideação suicida, automutilação e transtornos alimentares nesse período (OPAS/ OMS, 2024; ONU, 2022). Nesse contexto, destaca-se a frequência com que a afetividade negativa é verbalizada pelos participantes do nosso estudo.
Flose et al. (2022) sugerem que o ambiente escolar acolhedor e dinâmico, que permita trocas de afeto, emoções e conhecimentos de forma livre de julgamentos entre educadores e alunos, influencia no desempenho escolar, confirmando a importância da afetividade nos estudantes.
No presente estudo consideramos apenas as disciplinas de português e matemática. O desempenho escolar no estudo citado, foi avaliado pela média das notas dos alunos do trimestre. Em um estudo transversal realizado com 466 crianças, os fatores socioeconômicos mostraram-se preditores importantes tanto no desempenho escolar quanto nas condições clínicas odontológicas. Além disso, a má condição dentária foi um preditor direto de baixo desempenho escolar (Mohamed et al. 2024).
Em relação ao uso de serviços odontológicos, os alunos que procuraram atendimento odontológico por motivo de dor dentária apresentaram maiores escores de depressão, ansiedade e estresse. Este achado pode ser justificado, uma vez que a dor dentária leva a limitação funcional, além de afetar o bem-estar social e emocional dessa população (Vasquez, 2015). Assim essa relação deve ser considerada um ponto importante do presente estudo, já que a saúde bucal, faz parte da saúde geral e qualidade de vida dos indivíduos, sendo necessárias investigações que possam elucidar o uso de serviços odontológicos e fatores emocionais na adolescência e principalmente, se essa relação pode mediar por exemplo o aprendizado de adolescentes, levando ao abandono escolar.
Apesar de não significativo, nossos resultados demonstraram que os meninos apresentaram maior ansiedade, depressão e estresse quando comparado as meninas. Leal et al. (2009) também não encontram diferença significativa para o DASS-21 entre o sexo. No entanto, Tully et al. (2009) encontraram que os meninos apresentaram maiores valores para o DASS-21 em relação as meninas, já os resultados de Horn et al. (2021) demonstraram o contrário. Nossos achados devem ser considerados que foram após a pandemia e o que vai ao encontro dos encontrado por Horn et al. (2021). A pandemia parece ter sido mais impactante na vida dos meninos. Outros estudos deverão ser conduzidos para esclarecer esse dado e dar o suporte necessário a este grupo de adolescentes.
Este estudo apresenta algumas limitações que devem ser citadas, a primeira é inerente ao número de participantes, já que foram excluídos os adolescentes com dados faltantes para alguma variável investigada, principalmente em relação as variáveis que compuseram o desfecho desempenho escolar. As notas foram solicitadas tanto aos participantes quanto à escola em que os adolescentes estavam matriculados, muitos não informaram, ou não tinham acesso ao histórico escolar e alguns desistiram de participar ao longo da pesquisa e outros abandonaram a escola antes do encerramento do semestre, o que limita a validade dos resultados. Vale ressaltar também que não existe um questionário padronizado para mencionar o desempenho escolar de adolescentes no Brasil, o que limita a comparação dos resultados.
É importante salientar, no entanto, que esse estudo é inovador na temática desempenho escolar, afetividade negativa e uso de serviços odontológicos, o que válida a responsabilidade dos profissionais de odontologia e pesquisadores quanto a importância da saúde bucal e sua relação com os vários aspectos da vida de adolescentes no ambiente escolar, trazendo uma perspectiva que vai além do consultório odontológico. A adolescência por sua vez, caracteriza-se por profundas alterações físicas, sociais e emocionais, associada a diversas situações que irão repercutir na vida adulta desses indivíduos.
Portanto, recomenda-se a realização de novos estudos que incluam um número maior de estudantes com diferentes faixas etárias, considerando sua relação com o desempenho escolar.
5. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este estudo demonstrou que a efetividade negativa como estresse, ansiedade e depressão foram capazes de afetar o bem-estar social e emocional dos adolescentes, atuando de forma significativa no desempenho escolar de alunos em situação de vulnerabilidade, após as consequências da pandemia da COVID-19. Esses achados reforçam a importância da saúde mental em contexto escolar, enxergando o aluno de uma forma integral, considerando não apenas o rendimento escolar.
A inclusão da dor dentária e do uso de serviços odontológicos como variáveis neste estudo foi um diferencial importante, mostrando a necessidade da saúde bucal no bem-estar geral e no processo de aprendizagem dos adolescentes, uma vez que os alunos que tiveram dor dentária apresentaram relação direta com scores mais elevados de depressão, ansiedade e estresse. O sofrimento físico e emocional decorrente da dor dentária compromete o engajamento escolar e seu rendimento.
Apesar das limitações amostrais dificuldades no acesso ao histórico de notas dos escolares, o estudo traz contribuições relevantes para a compreensão sobre a relação direta e importância de saúde e educação.
Por fim, os resultados desta pesquisa reafirmam a importância da escola como um espaço para ações de promoção e prevenção de saúde integral, sendo de suma importância educadores e profissionais qualificados para atuarem para garantir condições de aprendizagem e desenvolvimento que contribuam com a saúde e qualidade de vida.
DECLARAÇÃO DE FINANCIAMENTO
FAPESP- 2022/05123-2; 2023/07554-3; 2023/05647-4; 2024/15609-5 e CNPq- 302002/2022-70
AGRADECIMENTOS
Os autores agradecem ao CATO- USP (Centro Avançado Translacional do obeso) e à coordenadora Silvia Helena de Carvalho Sales-Peres por todo apoio. Também reconhecem o suporte financeiro da FAPESP (Processos 2022/05123-2; 2023/07554-3; 2023/05647-4; 2024/15609-5) e CNPq- (302002/2022-70), assim como a colaboração dos voluntários que participaram desta pesquisa.
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NOTA
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[1] Pós-doutorado em Ortodontia e Saúde Coletiva, Doutorado em Ortodontia e Saúde Coletiva, Mestrado em Ciências Odontológicas e Graduação em Odontologia. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-8285-8769. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3710771916871688.
[2] Doutorado em Ortodontia e Saúde Coletiva, Mestrado em Ortodontia e Saúde Coletiva e Graduação em Odontologia. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-0674-8522. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3190111040576882.
[3] Graduação em Odontologia pela Faculdade de Odontologia de Bauru Universidade de São Paulo FOB/USP. ORCID: https://orcid.org/ 0000-0002-1086-2021. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/ 7609365715738 940.
[4] Graduação em Odontologia pela Faculdade de Odontologia de Bauru, Universidade de São Paulo. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-1991-8116. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/1072020675349741.
[5] Mestrado em Ortodontia e Saúde Coletiva e Graduação em Odontologia. ORCID: https://orcid.org/0000-0002-9601-9069. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3688881718427258.
[6] Especialista em Dor Orofacial e DTM – CFO, Graduação em Odontologia – FOB-USP 2000. ORCID: https://orcid.org/ 0009-0008-7941-6127. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/0740250798047164.
[7] Graduação em Psicologia. ORCID: https://orcid.org/0009-0009-6475-0269. Currículo Lattes: https://lattes.cnpq.br/3940632057769786.
[8] Orientadora. Pós- doutorado em Saúde Pública na Kings College London, Doutorado em Biologia Oral pela Faculdade de Odontologia de Bauru, Mestrado em Odontologia em Saúde Coletiva pela Faculdade de Odontologia de Bauru, Graduação em Odontologia pela Faculdade de Odontologia de Lins. ORCID: 0000-0003-3811-7899. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/4138932339266553.
Material recebido: 30 de julho de 2025.
Material aprovado pelos pares: 11 de agosto de 2025.
Material editado aprovado pelos autores: 28 de agosto de 2025.








