ARTIGO DE REVISÃO
SILVA, Igor Luís Lins [1]
SILVA, Igor Luís Lins. Transformações educacionais em pernambuco: A reforma de Carneiro Leão e seus desafios. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 05, Vol. 01, pp. 152-184. Maio de 2026. ISSN:2448-0959. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/historia/transformacoes-educacionais, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/historia/transformacoes-educacionais
RESUMO
Este estudo aborda a Reforma Educacional Carneiro Leão, promulgada em 1928 em Pernambuco, com objetivo de analisar suas implicações e impactos no sistema educacional local. A relevância do estudo reside na compressão das transformações sociais, políticas e econômicas que moldaram a educação no estado, especialmente em um contexto de transição do modelo agrário para um industrial. A pesquisa é de caráter qualitativo e bibliográfico, utilizando fontes secundárias que incluem obras de autores como Araújo e Sellarro. Os resultados indicam que a reforma buscou modernizar a educação, promovendo a formação docente e a criação de novas instituições educacionais. No entanto, a implementação enfrentou desafios significativos, como a resistência de setores conservadores e a escassez de recursos financeiros. As considerações finais destacam que, apesar de sua curta duração, a reforma de Carneiro Leão influenciou reformas educacionais posteriores e contribuiu para a formação de uma nova consciência educacional em Pernambuco, evidenciando a necessidade de uma educação inclusiva e adaptada às demandas sociais.
Palavras-chave: Carneiro Leão, Reforma educacional, Educação na República Velha.
1. INTRODUÇÃO
Os primeiros anos do século XXI trouxeram o contexto de um mundo cada vez mais globalizado, sobretudo por meio das inovações tecnológicas, estabelecendo uma conexão político-econômica e social. Com o advento da internet e suas demais plataformas sociais, possibilitou-se uma maior dinâmica no que tange à propagação do conhecimento e ensino. Tal conhecimento, antes restrito aos livros e jornais e estes, restritos às bibliotecas, passou a migrar, gradativamente, ao computador e, deste, ao aparelho celular.
Segundo Ijuim; Tellaroli, (2008), essa transformação na disseminação do conhecimento representa uma mudança significativa na forma como as informações são acessadas e compartilhadas. A pesquisa deles destaca como a tecnologia não apenas facilitou o acesso à informação, mas também alterou as dinâmicas de ensino e aprendizagem, permitindo uma interação mais rica e diversificada entre educadores e alunos.
Contudo, o Brasil da década de 2010 e a posterior, mesmo sendo um país emergente, ainda carece de muitas melhorias, principalmente na sua rede educacional de ensino público. Tais problemas são presentes no que se refere a falta de material didático, tanto do aluno quanto para o professor basear seu plano de ensino, como se encontra em uma matéria do Jornal Hoje, (2022a). Falta também, em alguns casos, a figura do professor em sala de aula (Jornal Hoje 2022b).
Segundo Dw, (2020), há casos de alunos que frequentam a escola, principalmente por conta da merenda, uma vez que carecem de alimentação adequada em casa. Essa realidade evidencia a importância da escola não apenas como espaço de aprendizado, mas também como um suporte essencial para a nutrição desses jovens, pois a mesma oferece além da educação uma refeição que pode ser a única do dia para muitos deles.
Além disso, esses alunos, ao adentrarem o meio escolar, acabam ficando fora da faixa etária adequada. Essa discrepância etária pode dificultar ainda mais o processo de aprendizagem, uma vez que os conteúdos abordados podem não se alinhar com suas experiências de vida. Não se pode desconsiderar, também, a questão do analfabetismo prático e funcional que assola 29% da população brasileira, segundo dados do (Prefeitura municipal de Jaraguá do Sul 2021).
Essa situação alarmante limita e compromete as oportunidades de emprego e a capacidade dos indivíduos de participar ativamente da sociedade.
Estes problemas atuais apontados e outros relevantes que também não foram abordados, como a falta de recursos didáticos e a formação inadequada dos professores geram muitas discussões que cabem ser debatidas e analisadas a fim de encontrar um melhor caminho para sua solução. Porém, daí se lança outras questões pertinentes, por exemplo: esses problemas no ensino público sempre existiram ou é algo presente, apenas na realidade atual? Qual foi o projeto e reforma voltada para o âmbito educacional brasileiro, especificamente no Estado de Pernambuco, entre os anos de 1928- 1929, que lidou com o problema em questão?
A justificativa para tal corte temporal é que, nesse período, o Brasil passou pela chamada” substituição de importações” e iniciou a sua industrialização, deixando de ser um país rural voltado para a exportação de café. Essas mudanças são características da velha república e foram fundamentais para a transformação do Brasil em um país moderno e industrializado, segundo Araújo (2009).
Em relação a escolha do Estado de Pernambuco se dá, não só pelo seu valor histórico remetente ao período colonial, como também por ser um estado atravessado por três subdivisões regionais: a zona da Mata com destaque para sua área litorânea, mais desenvolvida economicamente; agreste, que corresponde a zona de transição entre a zona da mata e o famosos sertão nordestino, área de clima semiárido, crise hídrica e com altas taxas de subdesenvolvimento presentes até os dias atuais, segundo Azeredo (2022).
Quanto ao autor da reforma Carneiro Leão[2] foi um intelectual, integrante do grupo de reformadores educacionais brasileiros do início do século XX. Era ferrenho crítico do modelo de ensino da época humanística e direcionado as elites, enquanto as classes baixas, cerca de 80% da população, estariam condicionadas a um ensino baseado em uma literatura retórica.
Carneiro leão defendia um ensino prático e científico, que melhor se encaixasse em um país em desenvolvimento industrial e com a república como sistema de governo, uma vez que, a escola deveria formar cidadãos eleitores e com trabalho técnico assalariado. Porém, a infraestrutura da rede de ensino estadual carecia, urgentemente, de uma restruturação no que tange a construção e modernização de ambientes escolares, bem como da renovação na carreira dos professores, conforme Machado e Silva (2007).
Realizou-se uma pesquisa qualitativa e bibliográfica, de caráter analítica, sobre o tema “O impacto das reformas educacionais de Carneiro Leão na carreira do professor pernambucano e na formação educacional de seus alunos”. Reforma essa instituída no ato nº1.239, de vinte e sete de dezembro de mil novecentos e vinte e oito, no estado de Pernambuco, pelo governador Estácio Coimbra.
Neste contexto, a Reforma Educacional Carneiro Leão, promulgada em 1928 em Pernambuco, surge como uma tentativa de modernizar a educação e responder às demandas de um país em transformação. Assim, o objetivo deste estudo é compreender o impacto dessa reforma no sistema educacional e na formação dos professores, além de avaliar sua relevância no contexto de transformações sociais e econômicas da época.
Também, conforme Araújo (2009) é importante frisar que, essa Lei teve uma curta duração devido ao contexto sócio-político da década de 1930, bem com o fim da era Coimbra em Pernambucano, mas que, de certa forma, influenciou reformas educacionais posteriores a ela.).
2. REFERENCIAL TEÓRICO
O pensamento Escolanovista adentrou o meio intelectual brasileiro através de seus intelectuais, que consumiam as obras literárias apresentadas com suas últimas Tendências Pedagógicas do mundo europeu, como o ideário da Escola Nova. A Escola Nova rompia com a Escola Tradicional, mantedora das estratificações sociais geradoras de sociedades oligárquicas.
A Escola Nova trazia o método intuitivo conhecido como o “aprender através das coisas” por um ensino prático-científico que prepararia o aluno para os serviços práticos, cada vez mais especializados da vida industrial, que crescia ao longo do século XX, (Araújo, 2002). O autor aponta também que, tais princípios definiam o movimento Escolanovista, presente, tanto nas obras de Carneiro Leão produzidas ao longo das primeiras décadas do século XX, como também no texto da Reforma Educacional Pernambucana n° 1.239/1928.
Conforme discutido por Péres (2021) em seu capítulo sobre [O Inspetor Geral da Instrução Pública de Pernambuco, João Barbalho Uchoa Cavalcanti, e a Educação Pública na Passagem do Império para a República] haviam reformas educacionais anteriores às de Carneiro Leão em Pernambuco, como, a de João Barbalho, entre os anos de 1874 a 1879. Elas traziam incentivo a participação da estudante feminina em sala de aula, como também a ampliação das turmas mistas na escola normal, instaurando o ensino passivo obrigatório e a liberdade de ensino.
Para Gatti (2021), em seu capítulo [A Formação Docente Feminina no Recife, no final do século XIX: Anúncios de progresso e futuro promissor] o incentivo à formação de professoras femininas já se encontrava presente no século XIX, por meio da criação da Escola Normal Feminina em Recife, conforme o artigo. 46 da lei Provincial n° 1.124 que instituiu a Escola Normal para Senhoras.
Conforme Araújo (2002), o Brasil passou por uma transição significativa da população rural para a urbana industrial, preparando o terreno para a Revolução de 1930. Durante o governo de Estácio Coimbra(1926-1930), a Escola Nova foi efetivada em Pernambuco, com a contribuição de figuras como Ulisses Pernambuco e Carneiro Leão, autor da reforma educacional no estado. As medidas propostas incluíam a revitalização da carreira do professor pernambucano e a formação de seus alunos, que estavam presentes tanto no texto de justificativa da reforma quanto na própria Lei n° 1.239, de vinte e sete de dezembro de mil novecentos e vinte e oito, a qual era organizada em 27 títulos, 61 capítulos e 424 artigos, segundo Araújo (2009). Dessa forma, a Reforma Educacional de Carneiro Leão não apenas refletiu as influências do movimento Escolanovista, mas também se inseriu em um contexto mais amplo de transformações sociais e educacionais no Brasil. A seguir, exploraremos as implicações dessas reformas na prática pedagógica e na implementação das novas diretrizes educacionais.
3. EDUCAÇÃO NA TERRA DOS ALTOS COQUEIROS: ERA ASSIM EM MEADOS E FINAIS DO SÉCULO XIX
O Brasil oitocentista vivenciou intensas mudanças em seus âmbitos Político, Social e Econômico. Ao longo do século XXI, o país passou de Colônia (1500- 1822) a Império (1822-1889) e, finalmente, consolidou-se como República em 15 de novembro de 1889. Durante esse período, diversas crises e revoltas assolaram a sociedade, e o problema educacional não se tornou um consenso. Muitas vezes, a implementação de uma cultura e educação atualizadas enfrentou barreiras, especialmente em um contexto que já refletia os ideais da Revolução Francesa (1789-1799) e os impactos da segunda fase da Revolução Industrial (1850-1945), conforme aponta Gatti (2021). Na província de Pernambuco, entre 1830 e 1860, havia uma quantidade ínfima de escolas primárias. Em relação ao nível médio, existiam apenas três instituições: o Liceu Provincial, o Ginásio Pernambucano e a Escola Normal, criada em ,1864, todas destinadas a meninos. Para as meninas, era impensável, na época, permitir que as chamadas “moças de família” frequentassem a escola pública diariamente, saindo da segurança de seus lares.
As meninas de famílias menos abastadas nem cogitavam em estudar. Para aquelas oriundas de famílias ricas, donas de engenho, havia alguns internatos, mas para moças humildes, não existia nenhuma escola pública. Somente no final do século XVIII a educação e a instrução feminina começaram a ganhar destaque, pois essas mulheres deveriam estar inseridas no projeto de modernização e civilização do país, além de estarem mais aptas a educar seus próprios filhos, devido ao seu “instinto materno” e à influência nas gerações posteriores.
Essa mudança de pensamento ocorreu com a criação da Sociedade Propagadora da Instrução Pública, em 11 de agosto de 1872. Como o nome sugere, essa sociedade, por meio do poder público, buscou difundir à população a instrução elementar, correspondente ao ensino primário, que era uma necessidade urgente. Em segundo plano, também se buscou desenvolver o ensino secundário e superior na província de Pernambuco (Gatti, 2021).
Com a contribuição dos patrocinadores se instalou escolas diurnas e noturnas em lugarejos como Pedra Mole e Macaco, também uma escola de ensino primário com quantidade expressiva de alunos e alunas, uma medida assertiva do conselho paroquial da proximidade. Bibliotecas também foram criadas apresentando livros, revistas e jornais doados da época. Outras localidades que passaram por medidas semelhantes foram: as paróquias centrais da Boa vista, São José e Santo Antônio, bem como nas mais distantes com várzea, Graças e Bom Jesus do Arraial novo (Gatti, 2021).
Outro fator importante na inserção da mulher na educação Pernambucana foi a circulação da “Revista Mensal da Instrução”, um veículo por meio do qual a Sociedade Propagadora da Instrução divulgava suas notas à sociedade. A edição de outubro de 1872 enaltecia a figura da mulher pernambucana, destacando que elas deveriam não apenas trabalhar no seio de seus lares, mas também se dedicar ao processo de reconstrução da pátria. Isso se devia ao seu valor de dedicação materna e à sensibilidade psicológica feminina, além de outras qualidades associadas a elas, como audácia, coragem e a capacidade de não se deixar abater pela ausência da figura masculina (Gatti, 2021). Os periódicos de cunho feminista da época como “Espelho das brasileiras”, “Myosotis”, “A Mulher”, “A Rosa” e “O Bouquet” também incentivam a maior participação da mulher na sociedade Pernambucana. Diante disso, as damas que atenderam ao chamado reivindicaram e se tornou concretizado através do Artigo 46. da Lei Provincial n° 1.124, a criação da Escola Normal para Senhoras, uma vez que, estas não tinham acesso à Escola Normal Oficial, exclusivas a formação de professores homens ao magistério primário, conforme Gatti (2021).
A Escola das Senhoras funcionou no mesmo prédio da Escola Normal Oficial, localizada na Rua da Praia, durante o período noturno. Nos primeiros anos, o número de alunas matriculadas ultrapassou 200, e muitas foram aprovadas nos exames de conclusão de curso, evidenciando que a seriedade a seriedade dos trabalhos era equivalente à dos homens, já que ambas as escolas contavam com os mesmos professores. Em 1875, uma medida polêmica foi a decisão da Escola Normal Oficial de permitir a matrícula feminina, resultando na formação de turmas mistas, o que gerou revolta entre os familiares das alunas (Gatti, 2021).
Para remediar tal clima de revolta foi permitido aos pais das estudantes acompanhá-las durante as aulas, como também se dividiu a sala de um lado sentavam os meninos e do outro, as meninas. A escola das mulheres já mudou de nome várias vezes assim como de endereço, atualmente localizada no casarão da Rua do Riachuelo, 464, com o nome de Escola Normal Pinto Júnior em homenagem a seu principal fundador, conforme Gatti (2021).
De acordo com Péres (2021), durante o Brasil Império (1822-1831), o curso superior era altamente valorizado como um meio de destaque social entre os membros da elite. A trajetória acadêmica iniciava-se no ginásio, seguindo para as escolas superiores. Ao concluir essa jornada, os estudantes tornavam-se intelectuais em diversas profissões como letras, jornalismo, política, administração e magistério tanto do nível secundário quanto superior. Também havia espaço para profissões liberais como membros do jurídico, médicos e engenheiros.
No período Joanino (1808-1821), enfermeiros e médicos eram formados em academias e hospitais militares. Com a ascensão de seu filho e sucessor ao trono, D. Pedro I, se enfatizou o ensino das carreiras jurídicas com a criação das faculdades de direito paulistana e recifense.
Nos anos finais do império de D. Pedro II, observou-se uma crescente no número de instituições voltadas a carreiras públicas e de cunho liberal, como a Escola Politécnica, a Escola de Minas, o laboratório de Fisiologia Experimental, além da existência de um hospital psiquiátrico. No entanto, essas instituições eram em minoria, no prevalecendo as de formação literária e profissional que ofereciam um ensino universalista e enciclopédico, restritos a elite. (Péres, 2021).
Na década de 1870, rompendo com ritmo cultural vigente, surgiram conquistas nas ciências da natureza na Escola do Recife, bem como nas ciências sociais, especificamente na Faculdade de Direito do Recife. Essas mudanças foram oriundas de um movimento intelectual que introduziu pensamentos filosóficos como o materialismo, evolucionismo e o idealismo, através de pensadores como Sílvio Romero e Tobias Barreto.
Ainda, segundo Péres (2021) na Faculdade de Direito do Recife, formou-se em 1867, uma figura pública e intelectual de grande prestígio na sociedade imperial: o Doutor João Barbalho Uchoa Cavalcante. Ele, lidando com as limitações de sua época, pavimentou o caminho para o que seria a Escola Nova moderna das décadas de 1920 e 1930. Nomeado pelo governador da província de Pernambuco, Henrique Pereira de Lucena[3], o Barão de Lucena, tornou-se diretor-geral da Instrução Pública de Pernambuco entre os anos de 1872 e 1887.
João Barbalho, junto a um grupo destacado de professores primários, por meio do Grêmio dos professores Primários daquele período, acreditava na necessidade de um método pedagógico moderno que revitalizasse a formação de mestres nas escolas normais, bem como o seu trabalho em sala de aula. Essa abordagem visava sair da rígida rotina do ambiente escolar, promovendo uma educação integral que englobasse a educação física, intelectual e moral.
O método mais famoso a ser propagado por eles foi o intuitivo, que apesar do seu fracasso posterior, apresentou bons resultados no que se refere à constituição de um professorado uniforme. Segundo Péres (2021), essa metodologia buscava uma abordagem mais prática e envolvendo no ensino, refletindo as necessidades educacionais da época.
Conforme (Péres, 2021), durante sua estadia na direção da Inspetora-Geral Pernambuco, a preocupação quanto a formação dos professores e a organização em sala de aula estava bem presente, quando se observa as mudanças estabelecida nas reformas dirigidas por ele nos anos de 1874, 1875 e 1879, como se observa no quadro[4] a seguir:
Quadro 1: Medidas das Reformas Educacionais em Pernambuco (século XIX)
| Quadro 1: | Medidas das Reformas Educacionais em Pernambuco (século XIX) |
| Ano | Medidas |
| 1874 | Consagração do ensino passivo obrigatório; liberdade de ensinar; regência mista nas escolas; regência de aulas de meninos confiadas às professoras; livre escolhas dos métodos; instrução das meninas comparada aos alunos; reorganização da escola normal, alargando os círculos dos estudos e melhorando a instrução pedagógica dos futuros professores; Novo plano de estudos do ginásio Pernambucano. |
| 1875 | Aumento para 3 anos a duração do curso da escola normal; Adoção de 7 professores catedráticos; caráter mais prático à escola, adotando um ensino mais científico e criando aulas anexas para a experimentação dos formandos. |
| 1879 | Aprofundamento das medidas adotadas na reforma de 1874, com a vinda dos chamados “professores adjuntos” para as salas numerosas do ensino simultâneo; adoção do “ensino intuitivo” dás“ lições das coisas” no ensino primário. |
Fonte: Péres (2021).
Nas medidas de 1874, é notável o estímulo à inserção da mulher na carreira de professora, bem como a inclusão das meninas no meio escolar. Além disso, houve incentivos para a abertura de escolas privadas e a escolha das famílias em recorrer ao ensino obrigatório passivo.
As reformas de 1875, inspiradas nas ideias positivistas e científicas, deram continuidade à profissionalização da carreira do professor, aliando teoria e prática. Essa reforma estabeleceu o estudo das ciências naturais e físicas na grade curricular, além de incorporar conceitos de psicologia e pedagogia de cunho experimental na Escola Normal. Tal movimento resultou na criação de aulas anexas a escola normal, que podem ser consideradas o embrião do que seria a escola de aplicação atual (Péres, 2021).
As medidas referentes a 1879, advindas do exponencial aumento do número de matriculados na rede pública se relaciona com as adotadas em 1874 com o fato do professor ministrar aulas simultâneas a um grande número de alunos. Em se tratando do professor, a preocupação acerca da formação deste, era de vital importância na escola pública, uma vez que, nos primeiros, quinquênios, a entrada no ensino primário se dava pelo liceu das artes e ofícios, além do docente, dever possuir uma “boa moral” para melhor ser avaliado na apresentação da folha corrida a polícia, segundo (Péres, 2021).
Em conclusão, a educação na Terra dos altos coqueiros, durante meados e finais do século XIX, passou por transformações significativas impulsionadas por reformas educacionais, como as de 1874, 1875 e 1879. A reforma de 1874 destacou a inserção da mulher na carreira docente e a inclusão de meninas na escola, promovendo maior equidade de gênero. As reformas de 1875 buscaram profissionalizar a carreira do professor, integrando disciplinas científicas à grade curricular, refletindo a transição do Brasil de um modelo agrário para um industrial. Apesar das barreiras enfrentadas, essas reformas foram fundamentais para moldar um sistema educacional mais incluso e qualificado, cujas lições permanecem relevantes na busca por uma educação que atenda a todos os cidadãos na contemporaneidade (Péres, 2021).
4. MOVIMENTO ESCOLANOVISTA PERNAMBUCANO: UMA ANÁLISE NO INÍCIO DO SÉCULO XX
O movimento conhecido como Escola Nova, ou Educação Nova, originou-se na Inglaterra do século XIX e se espalhou por todo o continente europeu. Este movimento trouxe uma pedagogia educacional oposta à Escola Tradicional. Ele enfatizava a preocupação com a criança e sua interação com a sociedade, além de focar no individualismo, partindo dos interesses da criança.
A Escola Nova valorizava métodos de ensino que promoviam a aprendizagem prática e científica, visando formar indivíduos como trabalhadores técnicos especializados e produtivos. Essa abordagem estava fundamentada no desenvolvimento das ciências psicológicas e biológicas (Araújo, 2002).
Em 1919, em Calais, na França, alguns educadores consideraram necessário organizar os principais pontos que qualificariam as características de uma Escola Nova. Assim, conforme critérios aplicados pelo Bureau Internacional dês Écoles Nouvelles, foram organizadas três seções, cada uma com dez itens, focando nas temáticas: organização das escolas e a vida física dos alunos; formação intelectual e educação moral. Para que uma instituição fosse considerada uma “nova escola “, não era necessário cumprir todos os trinta itens; bastava que quinze deles fossem contemplados.
As “novas escolas “deveriam ter uma organização semelhante à das famílias tradicionais da época, com a direção de um educador e, se possível, o auxílio de sua esposa. O regime de internato seria mais eficaz para garantir uma educação integral. O ensino prático, com destaque para atividades como carpintaria, cultivo de terra, criação de animais também deveria estar presente, assim as atividades livres, incluindo ginástica, esportes, excursões e acampamentos. A pedagogia prática estaria presente na escola, que funcionaria como seu laboratório conforme Araújo (2002).
Acerca da “formação intelectual”, há um foco na individualidade do aluno em relação ao assunto a ser estudado, partindo de seu próprio interesse, o que leva à formação profissional e resulta em uma especialização espontânea. Essa profissionalização do aluno é baseada no método científico de observar, gerar hipóteses, comprovar e aplicar os resultados, respeitando o tempo e a idade de cada estudante. Todas essas metodologias de ensino estariam fixadas nos turnos da manhã enquanto a da tarde seria livre ou destinada ao estudo dos assuntos com a quantidade de matérias relacionada à idade do estudante, permitindo que, em um mês, se estudassem poucas disciplinas.
No que tange à “formação moral”, assim como na “formação intelectual “, estimula-se a formação do pensamento autoconsciente, fundamentada na prática do pensamento crítico e da liberdade. Mediante o estudo e a constante reflexão sobre as leis do desenvolvimento espiritual, social e individual, formaria-se uma razão prática nos adolescentes. A maioria das escolas deveria possuir um ambiente higienizado e agradável aos olhos, além de promover a tolerância religiosa, visando o crescimento espiritual.
O pensamento escolanovista, presente em países da Europa e na América do Norte, foi introduzido no Brasil por intelectuais que liam grandes obras literárias e realizavam pesquisas sobre a temática. A Escola Nova representaria um modelo de educação baseado na reconstrução e desenvolvimento social a ser implementado no Brasil, uma vez que o problema educacional era o que mais urgentemente precisava ser resolvido no país, conforme Araújo (2002).
A introdução da Escola Nova no Brasil se conectaria com a vinda do liberalismo no país, que se inicia no período Imperial até o primeiro vintênio do século XX, uma vez que, este se mostra como uma doutrina que apresenta os princípios básicos da liberdade política, econômica e social. Esta primeira fase seria preparatória para a próxima que, ainda, viria a partir de 1920. Nesta primeira fase, instituições escolares escolanovistas, bem como a difusão de ideais da mesma, ainda, não estaria presente, porém já teria seu caminho pavimentado. Demonstrando-se como “uma educação liberal”, nada mais nada menos que o “liberalismo no setor da educação”.
A Escola Nova, simultaneamente, em que assume uma ruptura com a Escola Tradicional, carrega também uma posição política bastante opositora a das oligarquias dominantes da Velha República, mantedora da estratificação e ignorância da população, e que só mediante a instrução escolar seria superada. Defendiam que, a “função educacional” era também uma “função pública”, portanto, de responsabilidade do poder público, principalmente no que se refere a de subsídios fiscais para sua manutenção. Todos os cidadãos deveriam ter direito ao ensino público, bem como a obrigatoriedade de frequentar o meio escolar. Também trazem um olhar diferenciado para a formação profissional do professor bem com a sua remuneração que deveriam ser equivalentes a manter o prestígio e dignidade ao seu trabalho (Araújo, 2002).
Explanando o contexto político-social do Brasil, como também do mundo na década de vinte, deve-se apontar a influência da Grande guerra de 1914-1918, bem como da crise da bolsa de valores estadunidense, em 1929, em trazer uma nova etapa para o capitalismo mundial, fomentando a indústria nacional, especificamente no Brasil, a imigração e urbanização como também novas ideias econômicas, políticas e sócias vindos tanto da Europa como dos EUA (Araújo, 2002).
A independência do Brasil em relação aos bancos ingleses, assim como o sentimento de “republicanizar a república “, emergiu nesse contexto. Influências significativas surgiram com a criação do Clube Militar no Rio de Janeiro, da Liga Contra o Analfabetismo em 1915, da Liga Pela Defesa Nacional, também de 1915, dirigida por Olavo Bilac, Pedro Lessa e Miguel Calmon, e da Liga Nacionalista em São Paulo em 1916. Essas organizações defendiam a propagação das virtudes cívicas e dos interesses nacionais, além da promoção da instrução pública.
Além disso, eventos como a fundação do Partido comunista em 1922, a Semana de Arte Moderna do mesmo ano, a criação da Associação Brasileira de Educação em 16 de outubro de 1924, o Movimento Regionalista de 1926 e o Tenentismo, assim como as Conferências Brasileiras de Educação, que ocorreram em Curitiba de 1927 até Salvador em 1956, foram fundamentais. Todos esses eventos distintos, juntamente com ação irradiadora das faculdades de direito, especialmente da Faculdade de Direito do Recife, que foi o berço do pensamento propício à educação.
Esses movimentos e conferências, ao menos do ponto de vista educacional, se mesclaram e expuseram as ideias de Escola Nova, formatando reformas educacionais em importantes estados do Brasil, conforme Araújo (2002).
Sobre as reformas e seus estados de aplicação são apresentados:
Assim é que se verificaram as seguintes reformas: da instrução pública de São Paulo realizada por Sampaio Dória de 1920 a 1921; do Ceará, por Lourenço Filho, de 1922 a 1923; da Bahia, por Anísio Teixeira, em 1924; do Rio de Janeiro, então Distrito Federal, entre 1922 e 1926 cujo projeto foi elaborado a partir de um anteprojeto formulado por Fernando de Azevedo quando diretor- geral de instrução pública; Rio Grande do Norte, entre 1925 e 1928, por José Augusto Bezerra de Menezes; de Minas Gerais, em 1927, durante o período em que Francisco Campos era o secretário do Interior e Mário Casassanta, o inspetor geral da Instrução, auxiliares, portanto, da administração do presidente Antônio Carlos de Andrade do Paraná, de 1927 a 1928, por Lisimaco Costa, e, finalmente, de Pernambuco, por Antônio Carneiro Leão, em 1928. (Araújo, 2002, p. 44).
Acerca do trabalho de Carneiro Leão, antes de realizar a reforma educacional de Pernambuco, em 1928, já havia realizado a reforma no Distrito Federal da época, Rio de Janeiro, em 1926, que, dentre as reformas que ocorreram no Brasil oligárquico, foi a que mais obteve êxito e repercutiu em âmbito nacional. Medidas adotadas no texto da Reforma Pernambucana já se encontrava presente na reforma implementada no rio de janeiro, como se observa nas imagens[5] abaixo:
Figura 1: Alunos em aula prática de trabalhos manuais

Figura 2: Alunos em atividade de educação física

Figura3: Turma da escola rural de Guaratiba

Figura 4: Alunos em atividade de educação física

Na figura 1, observa-se que os trabalhos manuais são bastantes valorizados. A imagem apresenta uma turma inteira feminina de magistério em plena aula prática, utilizando madeira para aplicar o conhecimento adquirido nas escolas de ensino primário.
Essas práticas de trabalho manual, que seriam exigidas nas fabricas e em outras profissões que envolvem trabalho braçal, já eram incentivadas durante as aulas de educação física.
Como ilustrado na Figura 2, devido à carência de um espaço adequado para as práticas de educação física no ambiente escolar, centenas de alunos eram levados a campos de futebol, como o campo do Botafogo Futebol Clube. Nesses locais, os alunos utilizavam novos métodos propostos, como a sincronização dos movimentos corporais, organizando-se em colunas. Embora não estivessem vestidos com uniformes adequados para a prática de educação física, mas sim com o uniforme tradicional da escola, a preocupação com a saúde e higiene se fazia presente.
A figura 3 retrata uma turma da escola rural de Guaritiba, onde todos os alunos estão bem arrumados, usando roupas, sapatos e meias, cada um em sua cadeira, preparando copos de papel individualmente. Essa imagem reflete a atenção dada a saúde e à higiene no ambiente escolar (Machado e Silva, 2007).
Para Carneiro Leão, os cuidados com a saúde, o tratamento de doenças e a prevenção, ligados às atividades físicas, constituem os três fatores fundamentais para a saúde dos alunos. Nesse contexto, foram criados os chamados “pelotões da saúde” na maioria das escolas, onde um grupo de estudantes contribuía para manter a limpeza e a higiene da instituição, além de orientar outros alunos sobre o assunto.
Por último, umas não menos importante, a figura 4 apresenta o curso férias, também mencionado no texto da reforma educacional de Pernambuco 1928. Na imagem, os educadores em sua maioria mulheres, estão reunidos em um anfiteatro, embora o intuito fosse realizar um curso prático com madeira, a organização das cadeiras na sala de aula sugere que se tratava mais de um curso teórico, segundo Machado e Silva (2007).
Nos primeiros vinte anos do século XIX, Pernambuco já contava com obras literárias significativas, como “Educação” (1909), “O Brasil e a educação popular “(1916, primeira edição) e “Problemas de educação” (1919), todas de autoria de Carneiro Leão. Essas obras enfatizavam a relação entre riqueza e produção de um país, argumentando que essa riqueza advém da capacitação do povo por meio da instrução cívica x moral e profissional, todas fomentadoras do sentimento patriota.
Carneiro Leão denunciava os problemas sociais do Brasil, destacando a importância da educação popular, que deveria orientar e preparar a população para trabalhos mais produtivos. Em suas obras, ele chamava por mudanças tanto da parte da população quanto do poder público em relação à educação. Além disso, Leão apresentava um plano de reforma educacional para Pernambuco, que já havia sido esboçado entre 1915 e 1916, e que não era muito diferente da reforma instituída no ato n° 1.239, do governo de Estácio Coimbra (Araújo, 2002).
Também era preocupação a Carneiro Leão, não só a profissionalização como também, antevendo nas suas obras os direitos trabalhistas a questão de aposentadoria por trabalho prestado do operário brasileiro e que este deveria ser amparado pelo Estado, tendo acesso aos seus direitos, antevendo nas suas obras os direitos trabalhistas que viriam ser implementados uns vinte anos depois (Araújo, 2002).
Durante o governo de Sérgio Loreto (1922-1926), Ulysses Pernambucano dirigiu a Escola Normal Oficial de Pernambuco, onde foram introduzidos métodos educacionais alinhados à Escola Nova, como os métodos Montessori e Froebel, nos anos primários do ensino. Essa abordagem inovadora visava modernizar a educação e torná-la mais acessível e eficaz para os alunos. Em 1925, Pernambucano também foi o responsável pela criação do Instituto de Psicologia de Pernambuco, que proporcionou uma melhor compreensão da capacidade intelectual dos estudantes recifenses por meio de pesquisas e testes, integrando-se ao Departamento de Saúde e Assistência.
Além disso, Ulysses Pernambucano implementou diversas medidas que revolucionaram o sistema educacional da época. Entre essas novas inovações, destacaram-se a redução do número de alunos por sala de aula, a adoção de turmas e provas de seleção para o curso normal, e o aumento do curso de aplicação para o ensino prático na escola normal. Ele também instituiu prêmios para aplicação os concluintes do curso normal, criou jardins de infância e escolas para os alunos com necessidades especiais no Brasil, contribuindo significativamente para a evolução da educação em Pernambuco, conforme Araújo (2002).
A Escola Nova se efetivou, oficialmente, em Pernambuco, no Governo de Estácio Coimbra (1926-1930), em meio a mudanças políticas e culturais da época, como a decadência da monocultura da cana-de-açúcar, crescimento da indústria no meio urbano e de uma classe industrial na região, somado ao terreno de preparação para a revolução de 1930, resultante da crise econômica que assolou o mundo incluindo as oligarquias mineiras e paulistanas. Tendo como principais objetivos o ensino primário a toda população; o estímulo ao ensino técnico-profissional em suas diversas aplicações, incluindo a industrial; garantir a eficiência científica do ensino normal; criação da Diretoria Técnica de Educação, instituição gestora do sistema educacional responsável pelas normas e diretrizes da educação; revitalizar a carreira do professor bem como da qualidade do ensino; a expansão da escolaridade populacional dos 7 aos 14 anos também estava em voga (Araújo, 2002).
Todas essas inovações, no sistema educacional, presentes na gestão de Ulysses Pernambucano foram continuadas e, por vezes, na reforma educacional de Carneiro Leão de 1928. Reforma essa que, apesar de ser implantada em 1929 no governo Coimbra I, interrompida durante a revolução de 1930, sendo, posteriormente, retomada por Aníbal Bruno, diretor da Diretoria Técnica de ensino, futura Secretária de Saúde e Educação, segundo SELLARO (2013) em seu capítulo [Educação, Cultura e Sociedade em Pernambuco: Tradição e Regionalismo no Processo de Modernização (1920/1937).
O movimento escolanovista em Pernambuco, que emergiu no início do século XIX, trouxe uma revolução na educação ao desafiar os métodos tradicionais e priorizar a formação integral do aluno. Com foco na interação social e no desenvolvimento individual, as reformas educacionais desse período buscaram modernizar o sistema de ensino, apesar das barreiras como a resistência à mudança e a escassez de recursos. Essas iniciativas foram fundamentais para moldar uma nova consciência educacional na região. O legado do movimento escolanovista continua a ressoar nas discussões contemporâneas sobre educação, evidenciando a necessidade de um ensino inclusivo e adaptado às diversidades. Ao refletirmos sobre essa trajetória, é crucial reconhecer que a transformação educacional é um processo contínuo, que exige inovação e comprometimento para enfrentar os desafios atuais e garantir uma educação mais equitativa e eficaz para todos.
5. CARNEIRO LEÃO: IMPACTO NO SISTEMA EDUCACIONAL PERNAMBUCANO EM 1928
Carneiro Leão, que atuou como diretor da Instrução Pública do Distrito Federal de novembro de 1922 a novembro de 1926, foi convocado em 1928 para elaborar a reforma educacional em Pernambuco. Durante seu período no cargo, ele organizou uma reforma educacional significativa. Além disso, Leão ocupou o cargo de Secretário de Estado e negócios interiores de Pernambuco entre setembro de 1929 e setembro de 1930. Antes da implementação reforma, ele apresentou um texto de justificação ao secretário de Justiça e Negócios Interiores, Gennaro Guimarães, em dezembro de 1928. Esse documento foi publicado pela imprensa oficial do Estado sob o título “Organização da Educação de Pernambuco: justificação, lei orgânica, explicações e comentários, opiniões de associações e de imprensa”.
Para redigir a justificação e a subsequente reforma em Pernambuco, Carneiro Leão visitou diversas escolas no Recife e no interior do estado, especialmente na região do sertão. Durante essas visitas, ele contatou que a classe dos professores carecia de assistência e apoio adequados ao contexto pedagógico, contando apenas com uma fiscalização administrativa realizada pelos inspetores. Notou-se a ausência de uma inspeção técnica nas capitais, o que evidenciava a necessidade de melhorias no sistema educacional (Araújo, 2002).
Já no interior, o promotor de justiça desempenhava a função de fiscalização. O texto do ato adicional n° 1.239, datado de vinte sete de dezembro de mail novecentos e vinte e oito, era extenso e redigido de forma clara, apresentando 27 títulos, 61 capítulos e 242 artigos. Isso evidenciava o objetivo de seu autor em manter o controle sobre as diversas facetas do sistema educacional pernambucano, (Araújo, 2002).
No que diz respeito à formação dos professores, ou seja, à sua qualificação profissional, bem como à formação dos alunos desde os anos primários até o ensino superior, é importante observar os principais aspectos presentes no texto da reforma. Um deles é a preocupação em integrar o caráter científico do ensino e das atividades escolares com as práticas mais modernas dos centros educacionais avançados.
Além disso, havia uma preocupação com a boa aparência e a vitalidade dos alunos, resultantes dos cuidados com a saúde, promovidos por meio da educação física. A reforma também previu a criação da Diretoria Técnica de Educação, um órgão público que utilizaria medidas racionais para dirigir e orientar todos os aspectos relacionados à educação.
Outro ponto importante foi o rígido controle sobre o estado e o conteúdo dos materiais didáticos, a situação e a estrutura física das instituições de ensino, a higienização do ambiente escolar, o currículo e os métodos pedagógicos m a nomeação da equipe pedagógica, incluindo professores, incluindo professores e diretores, e a frequência dos estudantes também estavam sobe esse controle. Além disso, a reforma permitia que os professores tivessem acesso a férias fora do estado ou da capital, com a fiscalização exercida em várias fases do sistema escolar (Araújo, 2009).
Antes da reforma, cerca de 40% das vagas nas escolas eram ocupadas por cursos infantis destinadas a crianças menores de sete anos, o que gerava uma estagnação educacional e um número excessivo de alunos com mais de oito e menos de doze anos, analfabetos. Com a reforma, a pré-escola seria oferecida em jardins de infância, dividida em três períodos e seguindo as pedagogias de Montessori, Froebel e Decroly. Essa educação seria destinada a crianças de quatro a sete anos, nas escolas de aplicação anexas às escolas normais e em grupos escolares, quando apropriado.
Quanto ao ensino primário, que antes tinha uma duração de quatro anos, passaria a ter sete anos, sendo os cinco primeiros obrigatórios e os dois restantes opcionais para matrícula na escola normal. Este ensino também seria laico e gratuito para todas as crianças de sete a quatorze anos residentes em um raio de dois quilômetros da escola pública. Essa mudança visava melhorar a formação dos alunos e garantir uma educação mais inclusiva e acessível, conforme (Araújo, 2009).
No que tange à formação dos alunos nos anos iniciais da vida antes da reforma, cerca de 40% dos lugares nas escolas eram ocupados pelo curso infantil destinado para menores de sete anos, o que gerava uma estagnação educacional resultante em uma quantidade excessiva de maiores de oito e menores de 12 anos, analfabetos. Da reforma a pré-escola seria ministrada nos jardins de infância, fragmentado em três períodos e ministrados seguindo a pedagogia Montessori, Froebel e Decrolyseria destinadas às crianças de quatro a sete anos, especificamente nas escolas de aplicação, anexas as escolas normais, como também, nos grupos escolares, quando oportuno.
Também constaria o ensino primário laico e gratuito a todas as crianças de sete a quatorze anos residentes em um raio dois quilômetros da escola pública. Quanto ao ensino primário, este que tinha uma duração de quatro anos passaria a ter sete anos, sendo os cinco primeiros obrigatórios e essenciais e mais dois completares para aqueles interessados a se matricular na escola normal (Araújo, 2009).
No que tange à escola normal, havia uma elevação da idade de acesso, que antes era permitida aos onze ou doze anos, passando a ser aos quatorze anos, após a conclusão do quarto ano primário. A escola normal seria dividida em dois ciclos: o curso geral, com duração de três anos, apresentando matérias como Português, Francês, inglês, Geografia, matemática (Aritmética, Álgebra e Geometria), física, Química, História Natural, Anatomia e Fisiologia Humanas, Psicologia Geral, Desenho, Trabalhos Manuais (agulha, cartonagem, modelagem etc.), Música, Canto Coral e Educação Física.
O curso profissional incluiria disciplinas como Psicologia Experimental e Aplicada à Educação, Pedagogia Geral e Aplicada, Higiene Infantil e Escolar, Pluricultura, Arte Culinária, Economia Doméstica, Sociologia, Didática e Educação Física. Enquanto não houvesse um estabelecimento adequado organizado pelo Estado, o ensino secundário seria aplicado no Ginásio Pernambucano, conforme Araújo (2002).
Em relação à formação dos professores que ministrariam na escola normal e no ensino secundário, bem como dos inspetores e diretores de instituições de ensino, caberia a criação da Escola Normal Superior. Essa instituição anteciparia as faculdades de Filosofia, Letras e Ciências. Os professores do curso normal superior seriam admitidos mediante contrato ou concurso público. Aqueles que apresentassem um bom desempenho durante cinco anos poderiam ser promovidos a vitalícios. O curso teria uma duração de quatro anos, sendo dividido em dois ciclos, com as seguintes matérias: Anatomia e Fisiologia Humanas e Psicologia Geral.
No curso especial de dois anos, seriam oferecidas disciplinas como Psicologia Aplicada, Pedagogia Geral Aplicada e Comparada, Didática, Sociologia, Desenho e Trabalhos Manuais voltados para a educação secundária. Essa estrutura curricular visa garantir uma formação sólida e abrangente para os educadores, preparando-os para os desafios do ensino (Araújo, 2002).
As escolas de aplicação seriam criadas anexas à escola normal, possuindo um espaço destinado ao jardim de infância, bem como campos para jardinagem, pesquisas agrícolas e educação física. Paralelamente ao jardim de infância, também haveria classes para deficientes mentais nas escolas de aplicação, sob a gestão do professor de didática, cargo que, em sua maioria, não seja efetivo. Além disso, seriam criadas a biblioteca do professor e o museu pedagógico, além de medidas de assistência financeira para alunos carentes, por meio da Assistência Escolar de Pernambuco, um órgão público que supervisionava instituições escolares beneficentes através das caixas escolares, do fundo da escola e das ligas da bondade, conforme Araújo (2002).
Quanto às escolas técnicas-profissionais, estas estariam organizadas em masculinas e femininas. As masculinas teriam uma formação de quatro anos, com as seguintes seções: mecânica de precisão, tecidos, eletrotécnica, química industrial, agricultura, palha, vime, junco e bambu, tapeçaria e estofados, artes gráficas e pesca. As escolas femininas teriam a mesma duração, mas com seções voltadas para bordados e rendas, malharia, flores, chapéus, arte doméstica, criação de animais e agricultura, além de disciplinas como química Industrial, datilografia, taquigrafia, contabilidade e economia doméstica, que eram consideradas inusitadas para o público feminino.
Os professores dessas escolas técnicas profissionais seriam firmados em cursos anexos de mestres e professores nas escolas profissionais de maior desenvolvimento.
Também haveria cursos noturnos destinados ao ensino de emergência para adultos que não tiveram oportunidades anteriores de aprender as noções indispensáveis ao seu trabalho, com idade mínima de entrada de quatorze anos (Araújo, 2002).
Haveria o curso de férias direcionado aos professores do estado, município e federais e, principalmente, aos professores da zona rural, onde teriam duas oportunidades ao ano, uma em janeiro e outra em junho. O outro curso seria o de aperfeiçoamento, objetivando fornecer aos professores do ensino primário, nível estadual e municipal a oportunidade de melhorar seu conhecimento e técnicas de ensino. Este curso acontecia anualmente 3 vezes por semana, o que trazia uma oportunidade dos professores do interior vir para Recife, mantendo-se em sintonia com as atualizações da capital no que se refere ao quesito educacional, conforme Araújo (2002).
A reforma educacional de Carneiro Leão em Pernambuco, inspirada por suas experiências em São Paulo, visava modernizar o sistema educacional local através da introdução de novas metodologias e conteúdos. A proposta incluía a vinda de educadores paulistas, que traziam consigo práticas inovadoras e uma visão progressista da educação. No entanto, a implementação da reforma enfrentou desafios significativos, como a resistência de membros do sistema educacional local e a falta de recursos financeiros adequados. A introdução de temas controversos, como a educação e resistência, especialmente entre setores conservadores da sociedade, incluindo a Igreja Católica, que se opunha a essas inovações.
A situação se agravou com críticas de figuras influentes, como Gilberto Freyre, que questionou a competência dos educadores paulistas e alimentou um clima de hostilidade em relação ao governo e aos executores da reforma. Essa resistência culminou em protestos e críticas públicas, evidenciando a dificuldade de implantar mudanças significativas em um contexto social conservador. A reforma, embora ambiciosa e necessária para o avanço educacional, ilustra os desafios enfrentados por iniciativas progressistas em ambientes onde tradições e valores conservadores predominam, destacando a complexidade da transformação educacional em Pernambuco durante aquele período (Araújo, 2009).
A reforma educacional implementada por Carneiro Leão teve uma duração breve, em grande parte devido aos eventos de 1930 e à queda do Governo Coimbra. Apesar disso, diversas iniciativas significativas foram realizadas, incluindo a criação da Diretoria Técnica de Educação, das Escolas Técnicas Profissionais Feminina e Masculina, e da Escola de aplicação. Além disso, foram introduzidos cursos de férias, métodos ativos de ensino e uma nova estrutura curricular para a Escola Normal. Com a revolução de 1930, o sistema educacional do estado passou por transformações importantes sob a liderança do interventor Carlos de Lima Cavalcanti, que promoveu mudanças na equipe responsável pela educação.
Em seis de outubro de mil novecentos e trinta, o Dr. Arthur de Souza Marinho foi nomeado secretário da Justiça e Negócio Interiores, substituindo o Dr. Gennaro Guimarães, que havia retornado ao cargo após a saída de Carneiro Leão para o Rio de Janeiro. Na mesma data, o Dr. Luiz de Barros Freire foi designado como diretor da Educação Normal e, posteriormente, pelo ato n. 35 de 14 de outubro de 1930, assumiu também, de forma provisória, as funções de diretor técnico de Educação. Além disso, pelo ato n.29, de 13 de outubro de 1930, foram exonerados os professores que haviam sido trazidos de São Paulo para a implementação da reforma (Araújo, 2009).
A reforma educacional promovida por Carneiro Leão em 1928 foi um marco significativo na educação pernambucana, buscando modernizar o currículo e valorizar a formação dos professores em um contexto de transição social e econômica. Embora sua duração tenha sido breve, as mudanças implementadas influenciaram reformas subsequentes e contribuíram para a formação de uma nova consciência educacional no estado, refletindo a necessidade de um ensino prático e científico que atendesse às demandas de um país em desenvolvimento. Ao considerar o impacto dessa reforma, é crucial reconhecer não apenas suas realizações, mas também os desafios persistentes na educação inclusiva e transformadora que atenda às necessidades de todos os cidadãos pernambucanos, conforme Araújo (2009).
6. CONCLUSÃO
A análise da trajetória educacional em Pernambuco, desde os meados e finais do século XIX até a Reforma Educacional de Carneiro Leão em 1928, revela um panorama complexo e dinâmico, marcado por transformações sociais, políticas e econômicas que moldaram a educação no Estado. Na introdução, estabelecemos a importância de compreender o contexto histórico e as influências que levaram à
necessidade de reformas educacionais, destacando a luta por uma educação mais inclusiva e adaptada às demandas de uma sociedade em mudança.
No segundo capítulo, exploramos a realidade educacional na “Terra dos Altos Coqueiro”, onde as desigualdades sociais e a falta de infraestrutura escolar evidenciavam a urgência de uma reforma. A educação, muitas vezes restrita a uma elite, carecia de um modelo que atendesse às necessidades da população em geral, refletindo as tensões sociais da época. Essa análise nos permitiu entender as raízes das dificuldades enfrentadas pelo sistema educacional e a necessidade de uma abordagem mais equitativa.
O terceiro capítulo trouxe à tona o Movimento Escolanovista, que emergiu no início do século XX como uma resposta às limitações do modelo educacional tradicional. Esse movimento, que defendia uma educação mais prática e voltada para a formação integral do aluno, influenciou diretamente as propostas de Carneiro Leão. A busca por uma pedagogia que rompesse com a rigidez de ensino tradicional e promovesse a participação ativa dos alunos foi um passo crucial para a modernização da educação em Pernambuco.
Finalmente, no quarto capítulo, analisamos o impacto da Reforma Educacional Carneiro Leão, que, apesar de sua curta duração, introduziu mudanças significativas no sistema educacional pernambucano. A criação de novas instituições, a valorização da formação docente e a modernização do currículo forma marcos que refletiram a influência do movimento escolanovista e a necessidade de uma educação alinhada às demandas de um Brasil em desenvolvimento. A reforma não apenas buscou atender as necessidades da época, mas também lançou as bases para futuras Transformações educacionais.
Além das transformações positivas que a Reforma Educacional Carneiro Leão buscou implementar, é importante reconhecer as dificuldades enfrentadas em sua implementação, conforme discutido no terceiro capítulo. A resistência de setores conservadores da sociedade, a falta de recursos adequados e a necessidade de formação contínua para professores foram obstáculos significativos que limitaram a eficácia da reforma.
Essas dificuldades evidenciam que, apesar das intenções de modernização e inclusão, a realidade educacional em Pernambuco ainda era marcada por desigualdades e desafios estruturais que dificultavam a plena realização dos objetivos propostos. Assim, a análise da reforma não pode se restringir apenas aos avanços, mas deve também considerar as barreiras que impediram uma transformação mais abrangente e duradoura no sistema educacional do Estado.
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APÊNDICE – NOTA DE RODAPÉ
2. Antônio Carneiro Leão, educador e ensaísta, nasceu em Recife, PE, em 02/06/1887, faleceu no Rio de Janeiro, em 31/10/1966. Autor da reforma educacional em PE em 1928, foi também secretário de Estado do interior, justiça e educação do estado de Pernambuco (1929-1930). Para mais informações disponíveis no endereço eletrônico: https://www.academia.org.br/academicos/antonio-carneiro-leao/biografia.
3. Nomeado pelo imperador D. Pedro II presidente da capitania de Pernambuco entre os anos de 1872-1875. Publicado em: 11/11/2016; atualizada em: 19/09/2019. Acessado em: 25/06/2022. Disponível em: eletrônico:http://mapa.arquivonacional.gov.br/index.php/menu-de-categorias-2/297-partidos-politicos-no- periodo-imperial. Reveja essas informações desde formatação ABNT.
4. O quadro 1 foi elaborado pelo autor do artigo. As informações contidas no quadro foram extraídas de PÉRES (2021), mas a organização e a apresentação dos dados são de responsabilidade do autor.
5. Imagens extraídas de MACHADO, Maria Cristina Gomes- UEM. SILVA, Josie Agatha Parrilha da. Imagens Escolares da reforma educacional de carneiro leão no Rio de Janeiro (1922-1926). UNIANDRADE/ Faculdade Alvorada.
INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES
[1] Mestrando Profissional em Programa de Pós-Graduação Stricto Sensu Profissional em Ensino de História pela Universidade Federal de Pernambuco; Pós-Graduado Lato Sensu em História do Brasil pelo Centro Universitário da Vitória de Santo Antão; Pós-Graduado Lato Sensu em História do Cristianismo e do Pensamento Cristão pela Faculdade Batista do Rio de Janeiro – Seminário do Sul; Pós-Graduado Lato Sensu em Alfabetização e Letramento pela Faculdade Conexão; Pós-Graduado Lato Sensu em Psicopedagogia Clínica e Institucional pela Faculdade Focus; Pós-Graduado Lato Sensu em ABA – Análise Comportamental Aplicada ao Autismo pela Faculdade Focus; Pós-Graduado Lato Sensu em Docência no Ensino Superior pela Faculdade Focus; Graduado em Licenciatura Plena em História pelo Centro Universitário da Vitória de Santo Antão; Graduando em Licenciatura em Pedagogia pela Faculdade Única de Ipatinga. ORCID: https://orcid.org/0009-0001-4630-1015. Currículo Lattes: http://lattes.cnpq.br/3635519808899187.
Contribuição dos autores:
Igor Luís Lins Silva: Concepção e planejamento do estudo até a redação final do trabalho, incluindo todas as etapas de análise e interpretação dos dados históricos e científicos relacionado as transformações educacionais em Pernambuco: A reforma de Carneiro Leão e seus desafios.
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Não há conflito de interesse.
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- ISSN (versão eletrônica): 2448-0959
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Histórico da Publicação:
Material recebido: 27 de junho de 2024.
Material aprovado pelos pares: 13 de setembro de 2024.
Material editado aprovado pelos autores: 17 de maio de 2026.
