Religião e religiosidade – O pensamento antropocêntrico da igreja medieval

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ARTIGO ORIGINAL

RIBEIRO, Lucas de Castro [1]

RIBEIRO, Lucas de Castro. Religião e religiosidade – O pensamento antropocêntrico da igreja medieval. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 05, Vol. 02, pp. 150-154. Maio de 2019. ISSN: 2448-0959

RESUMO

Por toda história do mundo, precisamente a história da civilização ocidental, desde a Antiguidade Clássica notamos nos desdobramentos da história à presença do sagrado e da religião como ferramentas de um movimento que alicerça as relações de toda uma sociedade. A instituição de fé ao longo das eras adquiriu proporções grandiosas com a expansão de sua religiosidade, doutrinas e relações de poder, sendo na Idade Média o período em que à ascensão e influencia da Igreja Católica Apostólica Romana chegou perto demais dos céus com seus indicadores práticos. Foi nesse período em que a igreja entrou em colapso ideológico com seus próprios feitos. A busca por hegemonia religiosa, política, social e intelectual tomou o lugar da uma mensagem teocrática, e impulsionou o ego das elites clericais à anseios soberbos e ambiciosos. Nesse contexto, iremos analisar o pensamento antropocêntrico da igreja medieval em um recorte de tempo desde fins do século XI até o século XVI.

Palavras-chaves: História, Religião, Idade Média, Ideológico, Hegemonia.

INTRODUÇÃO

Por toda a Idade Média a igreja teve um papel de extrema presença e importância na história desse período, não só nas relações de poder, mas também na experiência com o sagrado e nas expressões de suas próprias ideologias. É sabido que às discussões acerca das relações de poder desde o início da Alta Idade Média no século V e até o final da Baixa Idade Média no século XV, notoriamente permeiam a história e os desdobramentos da igreja, mesmo que consideravelmente e naturalmente em dez séculos de Idade Média tivessem ocorrido inúmeras mudanças, divisões, guerras e abundantes tipos de experiências religiosas, que certamente moldaram o pensamento eclesiástico.

De fato, a instituição mais poderosa e influenciadora na Idade Média sempre foi a igreja, ao ponto de que quase toda cultura medieval construída ao longo dos séculos e quase toda produção, fossem baseadas na religiosidade e nas tradições. Por muito tempo aprendemos que esse período da história fora uma era de trevas, de paralisia cultural e danação. Certamente, um conhecimento incompleto que por tempos foi distribuído nas redes de ensino, nos livros didáticos e em outros meios de educação. Atualmente possuímos a cabeça um pouco mais aberta e compreensível para um entendimento sensível da Idade Média. Muitas áreas do desenvolvimento intelectual e da cultura artística alcançaram indicadores satisfatórios no período medieval, resultando em uma produção artística extremamente rica e com suas próprias características. Um dos sentimentos que mais obteve presença na era medieval foi a grande preocupação com a esfera religiosa, isso é claro, consequência da poderosa influência da Igreja Católica na vida do medievo.

Grande parte da população medieval, exceto uma parcela da nobreza e os clérigos, eram pessoas simples, camponeses, servos, escravos, e todo tipo de gente sem nenhum grau intelectual ou voz para qualquer tipo de ambição social. Pessoas que para à disposição da Igreja eram ignorantes, desvalorizadas e que constantemente precisavam por imposição assegurar à salvação de suas almas. É nesse cenário que entendemos que a igreja medieval era detentora do conhecimento de sua era, não apenas religioso, mas todo o tipo de conhecimento que sobressaia os conhecimentos práticos de um medievo servil.

DESENVOLVIMENTO

Em todos os lugares e departamentos a igreja tinha por necessidade transmitir seu pensamento. Na sociedade medieval por vezes fragmentada, a igreja tentava garantir não só a hegemonia na unidade de fé, mas também na política, cultura e educação, ditando o modo de nascer e morrer.

Para prosseguimos, destacamos é claro o papel positivo da Igreja Católica na Idade Média, no geral não podemos nos valer de certa presunção hipócrita afim de não reconhecermos os fundamentos de uma história bem documentada. O objetivo do presente artigo não é uma pesquisa tendenciosa que defraude séculos de história ou a religiosidade do caro leitor, porém, apenas restrinjo o pensamento da igreja medieval desde fins do século XI até o século XVI, e busco analisá-lo a partir de um viés antropocêntrico. Foi nesse período em que a instituição eclesiástica se aproximou com maior vigor e propositalmente da política, ou então do estado, e consequentemente rompeu as ligações religiosas com a sociedade laica, começando de forma consciente a dirigi-la e direcioná-la conforme seus dogmas incontestáveis.

As exegeses do sagrado que eram transmitidas pelas elites do alto clero medieval ao povo socialmente moribundo e espiritualmente desesperado, e que certamente era uma religiosidade disfarçada de um pensamento teocrático e abençoador, nada mais eram muitas vezes discursos que enalteciam o próprio poder do clérigo em nome da igreja, e ao mesmo tempo, ferozmente abusava da religiosidade da sociedade que não se enquadrava nas esferas das elites medievais, sabemos que toda forma de conhecimento era de posse da igreja, inclusive os saberes bíblicos.

Não tão somente por ignorância intelectual, mas também pelo controle efetivo da igreja sobre o conhecimento religioso, toda fé e crença em que os pobres medievais acreditavam e devotavam fora tão somente àquilo que era permitido pela igreja, ou seja, toda e qualquer devoção eram frutos do conhecimento que a própria igreja lhes transmitia. Nunca saberemos os anseios de pessoas que detinham o poder social e religioso, e mais que isso, o controle intelectual para de fato manobrar uma massa de fiéis a favor de egos clericais. O discurso poderia ser até teocrático, mas a sujeira por de baixo dos panos saía do coração do homem, o mesmo lugar em que a presença de Deus talvez tivesse se esvaído.

É contraditório pensarmos que por muito tempo a Idade Média foi descrita como um período de trevas, ao mesmo tempo em que nesse período esteve sobre o completo domínio da Santa Igreja. Se olharmos de forma mais sensível e humana para o exposto, será que os papas, o corpo clerical, ou então os santos, foram pessoas tão melhores que o mais miserável camponês daquele tempo?

Foi um período em que a Igreja Católica Apostólica Romana usou de todas as suas façanhas e armas para dominar por completo a sociedade medieval, buscando uma total subordinação por meio da coerção ideológica. Por mais que o clero se valia de uma presença fortemente imposta na sociedade e se apresentava como único mediador entre Deus e os demais, nem todos da massa medieval se sujeitavam aos infames preceitos da igreja. Os hereges como eram chamados, foram pessoas que não adotaram por completo a doutrina católica, e mais do que isso, expressavam alguma forma a insatisfação devido ao exacerbado acúmulo de poder e riqueza da elite clerical.

É interessante pensarmos que em primeiro momento, as heresias medievais foram às ações que mantiveram a força da unidade de fé, ao mesmo tempo em que gradativamente abalavam às estruturas da igreja medieval. A partir do século XII, houve um crescimento significativo das práticas heréticas, surgiam principalmente dos anseios da sociedade medieval uma ativa intensificação por liberdade religiosa e justiça social, por meio de verdades e realidades que estavam sendo questionadas e investigadas. De certa forma, podemos enxergar a força herética da sociedade medieval como uma maneira de sinalizar as corrupções e práticas desprezíveis do clero, e também, uma tentativa de mostrar que as elites da igreja medieval esqueceram por completo o verdadeiro sentido da igreja de Cristo.

Historicamente é descrito, e eu diria que a partir de um pensamento antropocêntrico que se erigiu no seio das elites religiosas da Idade Média, e isso antes mesmo do Renascimento dos nobres ou do Iluminismo, que ocorreu um forte impulso para a efetivação de diversos segmentos de práticas e atitudes que passavam longe de um sentimento verdadeiramente teocrático e religioso. Práticas que corromperam a igreja ainda mais e disseminaram o desajeito em lidar com os próprios problemas. Foi nesse cenário desastroso e desprezível que nasceram insurreições valorosas e almas dispostas a combater o incontestável, e mais que isso, quebrar paradigmas canonizados.

CONSIDERAÇÕES FINAIS

De fato, acredito ser no mínimo interessante analisar nesse recorte de tempo da Idade Média, algumas formas de reflexões acerca do mais importante fenômeno cultural na história da civilização ocidental, isto é, o poder e a busca pela ascensão da autoridade da igreja e sua decorrente imposição de valores religiosos.

Certamente uma linha de pensamento que tem o objetivo de instigar uma pesquisa mais aprofundada e antropológica, tornando o estudo acerca da História Medieval e as diferentes inspirações da igreja desse período, em um papel importante na crítica ao senso comum.

REFERÊNCIAS

FRANCO JR., Hilário. A Idade Média: Nascimento do Ocidente. 5 ed. São Paulo: Brasiliense, 2006.

LE GOFF, Jacques. As Raízes Medievais da Europa. Petrópolis: Vozes, 2007.

LE GOFF, Jacques. A Civilização do Ocidente Medieval. Volume I. Lisboa: Estampa, 1983.

MATTHEW, Donald. Grandes Civilizações do Passado. Europa Medieval. Barcelona: Folio, 2006.

WILLIAMS L., Paul. O Guia Completo das Cruzadas. São Paulo: Madras, 2007.

[1] Pós-graduado e Professor em História das Religiões.

Enviado: Fevereiro, 2019

Aprovado: Maio, 2019

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