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Concepções e inovações da logística no setor automotivo no Brasil e nos EUA

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

CATARINO, Sergio Alvim [1]

CATARINO, Sergio Alvim. Concepções e inovações da logística no setor automotivo no Brasil e nos EUA. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 06, Vol. 01, pp. 178-187. Junho de 2025. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/engenharia-de-producao/concepcoes-e-inovacoes, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/engenharia-de-producao/concepcoes-e-inovacoes

RESUMO

A logística é frequentemente descrita como o “motor invisível” da indústria automotiva – um componente crítico que raramente aparece para o público, mas cujo funcionamento eficiente é essencial para que a engrenagem do setor não pare. No setor automotivo é fundamental para o funcionamento e competitividade das organizações. Cada veículo produzido envolve um complexo ecossistema logístico: são milhares de peças provenientes de diversos fornecedores ao redor do globo, sincronizadas para chegar às linhas de montagem no momento exato, além da distribuição dos automóveis prontos até concessionárias em diferentes mercados. Desta feita, esse estudo justifica-se pela necessidade de constantes proposições que possam fornecer conhecimento sobre as tecnologias e inovações que estão sendo efetivadas no processo logístico, especialmente, por meio da comparação de diferentes países. Assim, por meio da pesquisa bibliográfica, bem como, de fontes de mercado, esse estudo objetivou promover uma atualização e comparação das concepções e inovações da logística no setor automotivo do Brasil e dos Estados Unidos. Os resultados apontaram que no Brasil, superar deficiências logísticas é fundamental para alavancar a competitividade do parque automotivo nacional. Nos Estados Unidos, manter a liderança industrial passa por inovar constantemente nas soluções logísticas e assegurar resiliência frente a um mundo em mudança.

Palavras-chaves: Logística, Setor automotivo, Indústria.

1. INTRODUÇÃO

Historicamente vista como uma atividade de suporte, a logística vem ganhando status estratégico dentro das montadoras. A capacidade de gerir cadeias de suprimentos globais com eficiência e agilidade tornou-se fonte de vantagem competitiva.

Para se manterem competitivas no atual ambiente de negócios em constante mudança, cada vez mais empresas se concentram em competências essenciais. Em vez de desenvolver capacidades internas nas diversas disciplinas de logística, como planejamento de transporte, gestão de armazéns e tecnologia da informação, as empresas estão optando por terceirizar serviços logístico (Yang, 2025).

Nas últimas décadas, a logística deixou de ser um aspecto operacional secundário para tornar-se parte integrante da estratégia de negócio das montadoras. O emblemático sistema Just-in-Time (JIT), popularizado pela Toyota, mostrou como uma logística afinada pode reduzir estoques e custos, entregando peças na fábrica somente quando necessário para a produção. Essa sintonia fina entre logística e manufatura elevou a eficiência industrial a novos patamares. Por outro lado, a extrema dependência de fluxos sincronizados tornou as cadeias mais vulneráveis a qualquer disrupção. Um mero atraso na entrega de um componente crítico pode parar uma linha de montagem inteira, evidenciando que logística e produção caminham lado a lado – o desempenho de uma depende diretamente da outra.

Hoje, executivos do setor automotivo reconhecem que a gestão da cadeia de suprimentos é tão crucial quanto o desenvolvimento de novos produtos. Decisões logísticas impactam prazos de lançamento de veículos, custos de fabricação e até a qualidade percebida pelo cliente (por exemplo, pela disponibilidade de modelos nas concessionárias). Empresas líderes passaram a investir em equipes e sistemas dedicados à gestão logística, elevando o diretor de supply chain a um papel-chave nos organogramas. Além disso, indicadores econômicos comprovam a relevância dessa área: nos EUA, estima-se que a logística responda por cerca de 8% do PIB, enquanto no Brasil essa fatia chega a aproximadamente 12–13%, em grande medida devido a ineficiências que encarecem o escoamento de produtos. Esse diferencial revela que, onde a logística é menos eficiente, ela se torna um gargalo competitivo. Em suma, otimizar a logística automotiva não é apenas uma questão de economia de custo, mas de garantir a competitividade e a continuidade do negócio em um mercado global altamente integrado (Daudt; Willcox, 2025).

Este artigo avalia o papel estratégico da logística no setor automotivo contemporâneo, destacando como inovações tecnológicas e novas prioridades estão transformando essa função. Apresenta-se um comparativo entre o mercado logístico automotivo no Brasil e nos Estados Unidos, com dados atualizados até 2024, incluindo indicadores econômicos (faturamento, volumes, empregos, investimentos). Discutem-se também tendências emergentes – da Logística 4.0 e integração digital à busca por sustentabilidade, além dos desafios e lições aprendidas no período pós-pandemia. A abordagem adotada é reflexiva, embasada em dados e na visão de especialistas do setor, para contextualizar a importância da logística como esse motor invisível que impulsiona toda a indústria automotiva.

2. BRASIL X ESTADOS UNIDOS: UM COMPARATIVO DO MERCADO LOGÍSTICO

Embora Brasil e Estados Unidos tenham indústrias automotivas de tamanhos bastante distintos, em ambos a logística desempenha papel central. Em termos de faturamento, estima-se que o mercado de logística automotiva nos EUA movimente cerca de US$ 39,4 bilhões ao ano (dados de 2024), ao passo que no Brasil esse montante gira em torno de US$ 9,37 bilhões (aproximadamente R$ 45–50 bilhões). Ou seja, a escala do mercado logístico automotivo norte-americano é aproximadamente quatro vezes maior que a brasileira, refletindo não só o maior volume de produção de veículos nos EUA como também a amplitude geográfica e de consumo desse mercado. Para contextualizar, os Estados Unidos fabricaram cerca de 11,9 milhões de veículos em 2024, enquanto o Brasil produziu em torno de 2,5 milhões no mesmo ano, diferença significativa que naturalmente se traduz em mais cargas de peças e veículos a serem movimentadas no mercado americano. Ainda assim, ambos os países apresentam expectativas positivas de crescimento no segmento: projeções indicam taxas de expansão anual em torno de 7% até 2030, impulsionadas por investimentos em capacidade logística e pelo aquecimento da demanda pós-pandemia (Reportlinker. 2025).

A infraestrutura logística difere consideravelmente entre os dois países. Nos EUA, há uma extensa integração multimodal: ferrovias de carga são amplamente utilizadas para longas distâncias (inclusive em vagões especializados para automóveis), complementadas por rodovias de alta qualidade e sistemas eficientes de centros de distribuição. Já no Brasil, apesar de avanços recentes, a logística depende predominantemente do transporte rodoviário – responsável pela maior parte do fluxo de veículos e autopeças, devido às limitações históricas em ferrovias e hidrovias. Esse desequilíbrio contribui para custos mais elevados e gargalos: a já citada diferença em que o custo logístico no Brasil absorve cerca de 12–13% do PIB, frente a 8% nos EUA, ilustra o impacto de uma infraestrutura menos eficiente. Em termos de empregos, ambos os mercados sustentam um amplo contingente de trabalhadores: desde motoristas de caminhão, operadores de empilhadeiras e pessoal de armazém, até engenheiros de logística e especialistas em planejamento (Araújo, 2023).

O setor de logística automotiva envolve transportadoras dedicadas (por exemplo, empresas de cegonhas e operadores 3PL especializados), operando em estreita parceria com as montadoras. Nos EUA há uma forte presença de provedores logísticos consolidados e tecnologia de ponta em armazéns; no Brasil, apesar de empresas de logística igualmente robustas, os investimentos têm focado em ampliar a capacidade de armazenagem próxima às fábricas, melhorar a gestão de frotas e adotar sistemas digitais para ganhar eficiência (Yang, 2025). Já o mercado logístico automotivo brasileiro é menor e enfrenta mais desafios de infraestrutura em comparação ao norte-americano, porém ambos reconhecem a logística como elemento estratégico para a competitividade da indústria. À medida que o Brasil busca modernizar sua logística (com melhorias em portos, ferrovias e digitalização de processos) e os EUA inovam em direção a cadeias cada vez mais inteligentes e resilientes, as diferenças tendem a diminuir. O intercâmbio de boas práticas entre os dois mercados, seja na implantação de novas tecnologias ou em modelos de parceria entre montadoras e operadores logísticos, beneficia toda a cadeia automotiva global.

É necessário abordar a existência de tecnologias, inovações e concepções que estão ocorrendo neste setor, e estão sendo aderidas com grande ênfase dentro do contexto norte americano, e, consequentemente se expandido para demais países como o Brasil, como por exemplo, a logística 4.0 e a sustentabilidade. A chamada Logística 4.0 representa a incorporação de tecnologias da Indústria 4.0, Internet das Coisas (IoT), Big Data, inteligência artificial, automação robótica, entre outras – aos processos logísticos. No setor automotivo, isso se traduz em cadeias de suprimentos altamente conectadas e inteligentes. Sensores IoT e sistemas telemáticos permitem rastreamento em tempo real de peças em trânsito, enquanto algoritmos de IA analisam grandes volumes de dados para prever demandas, identificar riscos de atrasos e otimizar rotas de transporte. Ambientes de manufatura e centros de distribuição também passam por transformação: veículos guiados autônomos e robôs de armazém já realizam movimentações internas de componentes com eficiência e precisão, reduzindo erros e acelerando entregas dentro das fábricas (Cabral Filho, 2023).

Uma peça fundamental da Logística 4.0 é a integração digital de ponta a ponta. Isso implica conectar montadoras, fornecedores, transportadores e concessionárias em plataformas compartilhadas de informação, garantindo visibilidade total do fluxo de materiais. A Logística 4.0 tem como premissa fundamental a reestruturação integral das operações logísticas, contemplando desde o planejamento estratégico até a gestão de estoques, por meio da incorporação de tecnologias emergentes voltadas à otimização do fluxo de suprimentos, incluindo matérias-primas, produtos em processo e produtos acabados, com o propósito de atender de forma mais eficaz às exigências do mercado consumidor. Nesse escopo, os objetivos centrais da Logística 4.0 consistem na modernização da gestão, com ênfase na mitigação de gargalos operacionais, na redução de desperdícios e no encurtamento do lead time, ao mesmo tempo em que se busca a minimização dos custos sem comprometer os padrões de qualidade. Assim, configura-se como uma abordagem estratégica voltada à maximização da eficiência dos processos logísticos no contexto da competitividade organizacional contemporânea (Cabral Filho, 2023).

Cabral filho (2023, p.88) ainda menciona que a logística 4.0 vem acompanhada de algumas tendencias centrais,  que devem considerar o nível de serviço logístico, que incluem ações desde a pré-transação até a pós transação, onde são observadas as qualidades “com que os fluxos de bens e serviços são gerenciados e é o desempenho oferecido pelos fornecedores aos seus clientes, constituindo-se nesse resultado líquido de todos os esforços logísticos da firma”, além disso as tecnologias e as terceirizações, que consequentemente perpassarão pela inclusão da sustentabilidade.

Tradicionalmente, o transporte de peças e veículos contribui significativamente para as emissões de carbono e outros impactos ambientais. Caminhões movidos a diesel, longas distâncias rodoviárias e embalagens descartáveis são fatores que elevam a pegada ecológica da cadeia de suprimentos. Diante da pressão por práticas mais verdes e das metas globais de combate às mudanças climáticas, montadoras e fornecedores logísticos estão buscando formas de tornar suas operações mais sustentáveis. Isso inclui investir em frotas de caminhões menos poluentes (como veículos elétricos ou a gás natural), otimizar rotas para reduzir quilometragem e consumo de combustível, aumentar o uso de modais com menor emissão (ferroviário ou hidroviário em vez de somente rodoviário) e adotar embalagens retornáveis ou materiais recicláveis no transporte de componentes.

Nas estratégias de sustentabilidade logística, ganha destaque o conceito de economia circular e de logística reversa. Por exemplo, já se observa a logística sendo empregada para recolher e reciclar peças ou baterias ao fim da vida útil, reinserindo materiais na cadeia produtiva e reduzindo resíduos. Alguns fabricantes implementam programas de remanufatura de componentes (como motores ou turbocompressores), o que exige uma coordenação logística para trazer de volta os itens usados até as fábricas de recondicionamento. Essas iniciativas não apenas reduzem o impacto ambiental, mas também podem gerar economia de custos e receita com novos serviços (Brasil, 2024).

No Brasil, foi elaborado em 2024 o Plano Diretor de Logística Sustentável (PLS), com ações voltadas para 6 eixos (Fig. 1). Conforme estabelece o art. 7 º da Portaria nº 8.678, de 2021, a elaboração e implementação do PLS são obrigatórias. Desse modo, todos os órgãos e entidades no âmbito da Administração pública federal direta, autárquica e fundacional devem elaborar e implementar seu respectivo PLS seguindo o modelo de referência constante desta publicação.

Figura 1- Eixos temáticos do PLS no Brasil

Fonte: Brasil, 2024.

O Plano de Logística Sustentável (PLS) configura-se como um instrumento relevante para a promoção do desenvolvimento sustentável no âmbito da Administração Pública, na medida em que contribui para a redefinição de paradigmas relacionados à gestão interna e exerce influência sobre o mercado fornecedor. Com isso, estimula iniciativas de impacto socioambiental, impulsiona a inovação e favorece a adoção de padrões mais responsáveis de consumo, produção e descarte (Brasil, 2024).

Apesar do crescente discurso em torno de logística verde, os dados mostram que ainda há um longo percurso para que a sustentabilidade esteja totalmente integrada às decisões da cadeia. Uma pesquisa recente indicou que apenas 37% das empresas automotivas consideram a pegada de carbono como critério significativo em suas decisões na cadeia de suprimentos atualmente. Além disso, somente 13% das organizações conseguiram ampliar de forma consistente suas iniciativas de sustentabilidade logística no último ano, reflexo, em parte, de que durante a crise recente o foco das empresas esteve voltado à manutenção das operações básicas, com projetos ambientais ficando em segundo plano. Agora, com as cadeias se estabilizando no pós-pandemia, espera-se que a sustentabilidade retorne ao topo da agenda das montadoras (Capgemini, 2025).

Como aponta Alexandre Audoin, especialista do setor automotivo na Capgemini (2025), as montadoras precisarão desenvolver “uma estratégia de cadeia de suprimentos de longo prazo, inteligente e orientada por dados”, construída em parceria com novos atores (incluindo startups) e incorporando a circularidade como elemento essencial para cumprir as exigências regulatórias e metas climáticas. Em outras palavras, sustentabilidade logística não se resume a projetos isolados – ela deve permear toda a cadeia, do fornecedor ao cliente final, como parte da visão estratégica da empresa.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A logística consolidou-se como o motor invisível que impulsiona a indústria automotiva. Seja na fábrica, onde garante o suprimento preciso de milhares de componentes, seja no pós-venda, assegurando que veículos cheguem aos consumidores no tempo certo, a logística permeia todos os aspectos do setor.

No Brasil, superar deficiências logísticas é fundamental para alavancar a competitividade do parque automotivo nacional. Nos Estados Unidos, manter a liderança industrial passa por inovar constantemente nas soluções logísticas e assegurar resiliência frente a um mundo em mudança.

No contexto pós-pandêmico e diante da transição para uma economia de baixo carbono, as montadoras que conseguirem alinhar suas cadeias de suprimentos às novas exigências socioeconômicas e ambientais tendem a obter vantagem competitiva. Tal alinhamento implica a incorporação efetiva da transformação digital, a integração de critérios ambientais em todas as etapas logísticas e a construção de cadeias resilientes, capazes de responder a disrupções sem comprometer sua funcionalidade. Nesse cenário, a logística automotiva, anteriormente considerada uma função secundária, assume papel central na consolidação do desempenho industrial. Assim como a calibração precisa de um motor influencia diretamente o rendimento de um veículo, a eficiência e a robustez dos processos logísticos determinam, em grande medida, a competitividade das montadoras. O aprimoramento estratégico dessa infraestrutura intangível, com base em inteligência operacional, sustentabilidade e planejamento de longo prazo, configura-se como elemento crucial para a consolidação do setor automotivo no século XXI.

REFERÊNCIAS

ARAUJO, M.F. Logística da soja no Brasil e nos Estados Unidos: análise comparativa dos custos de transporte no período de 2010 a 2020. Pontifícia Universidade Católica de Goiás, 2023.

Brasil. Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos. Secretaria de Gestão e Inovação. Plano diretor de logística sustentável : 2024 / Ministério da Gestão e da Inovação em Serviços Públicos, Secretaria de Gestão e Inovação.- Brasília : Diretoria de Normas e Sistemas/SEGES/MGI, 2024.

CABRAL FILHO, D. A. Gestão logística e a tendencia da logística 4.0. Editora Atena. São Paulo, 2023.

CAPGEMINI. Industria automotiva. Encontrado em: https://www.capgemini.com/. Acesso de janeiro a junho de 2025.

DAUDT, G; WILLCOX, L.D. Industria automotiva: agendas setoriais para o desenvolvimento, visão 2035. BNDS, 2025. Encontrado em: https://web.bndes.gov.br/bib/jspui/bitstream/1408/16241/1/PRCapLiv214167_industria_automotiva_compl_P.pdf. Acesso em maio de 2025.

REPORT LINKER. Logistics Industry, 2025. Encontrado em: https://www.reportlinker.com. Acesso em junho de 2025.

YANG, Y.H. The Development of Logistics Services in the Unites States. Journal of Operations and Supply Chain Management Volume 8 Number 2 p 23 – 35, 2025.

[1] Pós-graduado em Engenharia Logística na Faculdade Anhanguera; Graduado em Gestão da Qualidade pelo Centro Universitário UMA. ORCID: 0009-0007-3232-7891.

Material recebido: 11 de maio de 2025.

Material aprovado pelos pares: 13 de junho 2025.

Material editado aprovado pelos autores: 13 de junho de 2025.

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Sergio Alvim Catarino

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