Um estudo da qualificação da mão-de-obra na construção civil

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ARTIGO DE REVISÃO

SANTOS, Murilo Ferreira dos [1], MATOS, Tiago Vasconcelos de [2], MOÇA, Matheus Ferreira [3], SOUZA, Maxmiller Rodrigues de [4], MATUTI, Bruna Barbosa [5]

SANTOS, Murilo Ferreira dos. Et al. Um estudo da qualificação da mão-de-obra na construção civil. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 06, Ed. 02, Vol. 07, pp. 21-36. Fevereiro de 2021. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/engenharia-civil/estudo-da-qualificacao

RESUMO

A indústria da construção civil vem crescendo ultimamente no mundo e também no Brasil. Tem se destacado por sua importância econômica e social para um país, sendo responsável por gerar empregos e um produto interno bruto satisfatório. Contudo, apesar de seu crescimento ser notório, alguns entraves dificultam seu total poder avassalador na área de construção civil, sendo um deles a mão-de-obra não qualificada, pois ela contrata sem fazer uma avaliação na qualidade. Dentro deste contexto, este estudo procura trabalhar o tema: “a qualificação da mão-de-obra na construção civil”. Para a abordagem desse assunto, utilizou-se como objetivo geral, analisar a qualificação da mão-de-obra na construção e os objetivos específicos, abordar sobre o crescimento da indústria da construção civil, descrever sobre a qualidade da mão-de-obra na construção civil, analisar o despreparo da mão-de-obra na construção civil. O resultado desta pesquisa mostrou que os trabalhadores contratados pela construção civil apresentam certa carência na habilidade teórica e técnica na arte de construir, sendo que muitos aprenderam a partir de uma experiência empírica, o que contribui para um serviço sem qualidade.

Palavras-chave: Qualidade, mão-de-obra, construção civil.

1. INTRODUÇÃO

A indústria da construção civil é uma peça fundamental nas realizações de projetos e obras na sociedade, seja ela brasileira ou de outra nacionalidade, a indústria está sempre presente nas mudanças do espaço urbano, e conforme as metrópoles vão crescendo, surge a necessidade de novos edifícios, novos prédios, novos aquedutos, novas pontes e ruas, o que requerer todo um aparato científico e tecnológico na maneira de construir, a forma e a maneira como se constrói um edifício ou uma ponte devem ser considerados por aqueles que idealizam um patrimônio, seja ele público ou na esfera privada, pelo dono do patrimônio e por aquele responsável pela produção dele, não basta somente construir, é importante construir com qualidade e segurança, e mais, construir com economia (ALMEIDA et al, 2015).

A qualidade, segurança e economia devem estar presentes na vida e no trabalho de quem constrói. Se não houver esses principais fatores se colocará em risco a vida do homem e a vida econômica de quem manda construir (SLACK et al, 2012). A qualidade no construir tem sua fundamentação nos aparatos tecnológicos, técnicos e científicos. Dentre esses fatores se destaca a mão-de-obra qualificada, sendo esta a principal responsável por apresentar um trabalho de qualidade, segurança e economia (PALMISANO et al, 2006).

Tem ocorrido muitos desastres em edifícios ou outro tipo de construção, em que alguns motivos apontam para a desqualificação profissional e a falta de conhecimento necessário que se constrói, e quando não se tem conhecimento sobre aquilo que se está construindo, surge outro problema que é o desperdício de materiais, algo danoso para a economia da indústria da construção civil bem como para o próprio dono do patrimônio (BLANCO, 2010).

Partindo desse pressuposto, este trabalho procura apresentar como universo de pesquisa o tema: “a qualificação da mão-de-obra na construção civil”. O objetivo geral, descrever a qualificação da mão-de-obra na construção civil e seus objetivos específicos, abordar sobre a indústria da construção civil como geradora de empregos, descrever o despreparo da mão-de-obra na construção civil, analisar o baixo nível da qualificação da mão-de-obra na construção civil, procurando analisar como a qualificação da mão-de-obra tem se tornado um problema na qualidade da produção na construção civil. A escolha pelo tema parte do interesse em analisar o grau de estudo daqueles que trabalham na construção civil, seja ele pedreiro ou responsável pela obra, procurando compreender até que ponto uma mão-de-obra desqualificada pode influenciar na qualidade da produção e ao mesmo tempo na segurança daquilo que se está construindo, bem como desperdício de materiais que eventualmente acontece.

2. METODOLOGIA

Este trabalho é um estudo de revisão interativa de leitura, é um método que sintetiza pesquisas que já foram realizadas e desta forma obter conclusões a partir de um tema de interesse. Este estudo procurou apresentar clareza em pesquisas de natureza primária, buscando informações para contextualizar a extensão e significado do problema que procura discutir, tendo como foco o debate para possíveis soluções da problemática. Desta forma, houve uma busca em estudos já realizados em artigos, revistas científicas no SciElo e Scientific, sendo os descritores em: construção civil; mão-de-obra; qualificação; desqualificação; qualidade na produção. Os critérios de inclusão foram: ser artigos de pesquisas científicas, completos e disponíveis para leitura/análise. Alguns artigos foram descartados que apenas tinham uma abordagem sobre a indústria da construção civil, mas que não transparecia a abordagem da qualificação da mão-de-obra para fundamentar o estudo.

Na primeira etapa buscou-se pesquisar artigos e revistas científicas que estivessem em seus títulos, resumos e palavras-chave, descritores para a identificação e adesão aos objetivos do estudo. Na segunda etapa, foi realizada leitura dos conteúdos da publicação, identificando e transcrevendo as informações obtidas em um caderno a parte. Na terceira etapa, buscou-se executar uma análise e comparação dos dados a fim de identificar as convergências e divergências, semelhanças e validar os materiais bibliográficos cabíveis para a continuação do estudo, a qual se culminou na quarta etapa de confecção do texto para revisão.

3. RESULTADOS E DISCUSSÕES

3.1 A INDÚSTRIA DA CONSTRUÇÃO CIVIL COMO GERADORA DE EMPREGO

A construção civil é responsável pelo grande desenvolvimento nas grandes cidades modernas, tanto no nível mundial quanto no nacional, tanto no sentido econômico quanto no social e cultural, conforme a população nas cidades brasileiras vai crescendo, e as cidades também vão, muitas vezes esse crescimento não é planejado, fazendo com que a planta das cidades tenha uma ordenação desigual, prejudicando muitas vezes o fluxo do trânsito e a organização espacial urbana, com esse crescimento urbano, surge a necessidade de construir prédios, edifícios, pontes, teatros, arenas, ruas, entre outros setores que fazem parte das cidades (BOLAFFI, 2000). Neste contexto, a construção civil no Brasil vem crescendo e ganhando espaço no mercado, tendo grande participação no Produto Interno Bruto, provocando mudanças e tendências de crescimento no setor industrial, sendo geradora de empregos, o setor da construção civil é aquele que está sempre em crescimento, por mais que o país possa passar por certas crises econômicas, ele está sempre em alta devido a necessidade de haver grandes obras civis, sejam elas públicas ou privadas, a construção civil está sempre sendo requisitada nas grandes construções das cidades, ela gera subsídios econômicos para o país como também empregos (OLIVEIRA, 2012).

Santos et al (2016), enfatiza o crescimento da construção civil pelo devido motivo dela abarcar uma demanda bastante grande de construções no segmento residencial, de estradas, indústrias, entre outras, desta forma enaltece sua importância por ser importante a população, ao desenvolvimento das cidades e contribui para a economia do país, a indústria da construção civil tem se destacado também pela necessidade que a sociedade tem de estar sempre construindo, edificando, seguindo os projetos de mudanças que as cidades a cada ano implantam, sejam em uma ponte ou viaduto, seja em um estádio de futebol, ou outro empreendimento que requer o trabalho da construção civil.

Michelis (2015), afirma que algumas empresas investem pesado para que se tenha qualificação na mão-de-obra a fim de melhorar a produtividade. O crescimento da construção civil não ocorre apenas por um viés, é importante que ela invista também na qualidade da produção, isto tem a ver com a qualificação da mão-de-obra, pois não se pode construir por simplesmente construir, fazer o trabalho sem seguir um padrão de qualidade, é importante que a qualidade no modo de construir esteja presente, e isso passa pela mão-de-obra especializada. Hauser (2015), destaca o número considerável de pessoas que a construção civil absorve para trabalhar, sendo responsável por gerar empregos diretos e indiretos.

Apesar de o trabalho na construção civil ser mais pesado, requerendo força física, habilidade e técnica, ainda é o ramo em que as pessoas encontram emprego, em que não somente homens, mas devido à grande necessidade que tem ocorrido de desemprego, hoje também mulheres ocupam cargos de serventes, pedreiros e engenheiros na construção (MICHELIS, 2015). O mundo econômico tem sido cada vez mais exigente e competitivo. Desta forma, as empresas estão se adequando aos padrões de exigências e inovações do mercado. O trabalhador para poder acompanhar esse padrão precisa investir em si mesmo, por conta própria ou pela empresa, devendo se ajustar as crescentes mudanças e novidades tecnológicas, a fim de que possa conseguir uma vaga no mercado de trabalho dentro de sua área, visando um alto nível de competência e procurando responder às exigências do mercado, as empresas de construção civil têm investido pesado na qualidade de seus serviços, buscando aprimorar sua forma de trabalhar por meio de técnicas e tecnologia, além de uma mão de obra qualificada (CORDEIRO, 2005).

3.2 O DESPREPARO DA MÃO-DE-OBRA NA CONSTRUÇÃO CIVIL

Segundo Farah (2000), construir com qualidade e baixo custo vão muito mais além do que utilizar técnicas e materiais empregados, tem a ver com uma mão-de-obra qualificada. As empresas para alcançar seus objetivos ficam reféns da qualificação profissional, sendo esta responsável por determinada função ou setor de trabalho. Para Cordeiro (2005), é importante que se conheçam as necessidades e os fatores significativos para que haja um grau de comprometimento por parte da força trabalhadora, pontuando fatores que favoreçam a qualidade de vida no ambiente de trabalho, estratégias de capacitação para atender a qualificação dos funcionários.

É importante entender que a cultura brasileira não tem o hábito de estudar, não tão pouco é habituado à leitura, fatores que desenvolvem ricamente a parte intelectual do indivíduo. Desta forma, os indivíduos já cedo estão mais interessados em trabalhar do que estudar, sendo que muitas vezes o interesse pelos estudos já é tardio quando se pretende ter um espaço no mercado de trabalho. A qualificação da mão-de-obra muitas vezes parte do próprio indivíduo, em procurar fazer um curso técnico ou uma faculdade. São poucas as empresas que investem em seus funcionários, qualificando sua força de trabalho (CORDEIRO, 2005). Segundo Farah (2000), as empresas que investem em seus funcionários têm mais possibilidade de se manterem vivas no mercado. Algumas terão a chance de se estabelecer e crescer, resultado da valorização e qualificação da mão de obra.

No mundo competitivo empresarial, não se pode olhar somente por um viés. Não se pode montar uma empresa com equipamentos tecnológicos de alta capacidade e esquecer-se de qualificar a mão de obra trabalhadora, sendo que essa que irá fazer o diferencial competitivo (GOTO, 2012). No setor de construção civil alguns trabalhadores vão envelhecendo sem haver renovação de novos funcionários, o que dificulta a reposição no quadro de trabalhadores. Isso se deve à falta de incentivos por partes das empresas em atrair novos empregados ao setor de construção civil, é importante que tais empresas quebrem o paradigma de que os serviços são de extrema dificuldade, cansativo, totalmente braçal, sem a devida valorização do trabalhador pela empresa ou pela sociedade (CORDEIRO, 2005).

É importante ressaltar que em algumas partes do Brasil como sul e sudeste a construção civil pode ser encarada como última opção de emprego, pois nessas partes da região as pessoas têm um estudo mais avançado, diferente de outras regiões. Contudo, devido à crise de emprego pelo qual o Brasil passa, a construção civil tem sido um meio de saída para a empregabilidade de muitas pessoas que estão sem emprego e querem trabalhar (COSTA; PIASSA, 2016). Outro fator colocado em pauta por Ribeiro (2008) é o fato da necessidade de treinamento nas empresas quando novas tecnologias são inseridas no setor de trabalho, bem como programas que são feitos internamente pela empresa, em que se procura trabalhar a produtividade e a qualidade de cada setor, mostrando os resultados obtidos. Algumas técnicas que aparecem são também motivos para que haja novos treinamentos em determinadas áreas da empresa e para determinado fundamento (GOTO, 2012).

Muitos trabalhadores precisam ser treinados quando o trabalho não está saindo do jeito que foi planejado, ou quando se procura apresentar nos serviços ou produtos. No caso da construção civil o treinamento geralmente é para que o serviço apresente melhor qualidade nos resultados ou quando se está desperdiçando muito material, todo o pessoal que é empregado no setor da construção civil apresenta um perfil de escolaridade, e dentro de uma hierarquia, pode-se encontrar desde o servente até o arquiteto e engenheiro. É certo que em algumas construtoras, não é exigido do trabalhador sua capacidade intelectual de estudo, mas sim sua experiência prática de trabalhar, contudo, este estudo aponta que na construção civil existe falhas na forma de trabalhar que são cometidas tanto pelo profissional que opera quanto por aquele que idealiza e gerencia como no caso do engenheiro ou gestor da obra (CANTISIANI; CASTELO, 2017).

3.3 O BAIXO NÍVEL DA QUALIFICAÇÃO DA MÃO-DE-OBRA NA CONSTRUÇÃO CIVIL

Na construção civil a mão-de obra pode ser classificada segundo sua ordem hierárquica, sendo organizada por nível. O nível estratégico se refere aos intelectuais que pensam o trabalho, que elaboram projetos e gerenciam o trabalho. São compostos pelos construtores e incorporadores (patrões), que sabem o que irão fazer com a empresa, que estabelecem objetivos, apesar de serem engenheiro civis, muitas vezes não possuem nível superior. Esses profissionais geralmente são pessoas geniais e que possuem visão de trabalho, possuem facilidades para colocar pessoas em funções adequadas de trabalho, são profissionais que preveem o que pode dar errado ou não, têm a facilidade de gerenciar pessoas, que são elementos importantes para a empresa, pois desenvolvem capacidades de gerenciamento, onde delegam funções, processos e organizações (ROSSO, 2016). O nível intermediário apresenta um perfil de profissional que articula internamente entre os gestores e a produção. Nesse nível estão os engenheiros, bem como técnicos que atuam diretamente nos canteiros de obra. Neste nível estão também os arquitetos e os técnicos (CANTISIANI; CASTELO, 2017). O papel do engenheiro é realizar aquilo que foi idealizado como construir um prédio que outrora estava no papel. É importante que tal profissional saiba falar, conduzir bem suas palavras e flexibilidade, pois está tratando com pessoas e em diversas situações (ROSSO, 2016).

É importante ressaltar que por mais que este profissional possua uma graduação em engenharia, é importante que ele esteja sempre se especializando, pois o mundo ao seu redor está em constante mudança (CANTISIANI; CASTELO, 2017). O engenheiro é aquele profissional que estuda profundamente os projetos, adquire e gere materiais de construção, administra o trabalho da equipe, resolve problemas referentes a obra, toma decisões, procura garantir a qualidade do produto (ROSSO, 2016). Este profissional exerce atividades também de planejamento e elabora projetos, além de executar, dar manutenção e restauração em diversos segmentos como edifícios, estradas, portos, aeroportos, canais de navegação, túneis, instalações prediais, obras de saneamento, fundações, gerenciamento de sistemas de transporte, operação de estações de tratamento de água, barragem, entre outros (SIENGE, 2016). Esse ambiente e segmento de trabalho que o profissional engenheiro civil enfrenta em seu cotidiano, precisa ter o conhecimento necessário para poder manejar bem o seu trabalho, caso contrário o serviço sempre irá apresentar falhas e falta de recursos profissionais (COSTA; PIASSA, 2016).

O técnico que está nesse mesmo nível atua no planejamento de projetos, na execução e manutenção de obras. Ele atua fazendo levantamento de informações cadastrais, técnicas e de custos, que subsidiam a elaboração de projeto ou seu estudo de viabilidade (COSTA; PIASSA, 2016). Além de desenvolver os projetos arquitetônicos e de instalações, fornece informações necessárias à execução da obra. Nesta fase, ele implanta e gerencia os canteiros de obra, que pode alocar pessoas e contratar, que pode também desenvolver treinamentos, fiscalização e execução dos serviços, implantação de programas de qualidade e competência. O técnico faz parte da equipe de engenheiros e arquitetos, acompanha os projetos desenvolvidos pelos profissionais especializados, este profissional mesmo sendo técnico carrega consigo apenas um conhecimento médio, superficial e carece de um aprofundamento daquilo que ele está envolvido na esfera de trabalho (SIENGE, 2016).

Este é o nível operacional em que é caracterizado pela força de trabalho que opera e executa aquilo que foi projetado, arquitetado ou gerenciado, esta força de trabalho não necessita tanto de um nível escolar avançado no momento de sua contratação, pois tanto o pedreiro quanto o servente de pedreiro, ou até mesmo aquele chamado mestre de obras não é exigido um grau de estudo elevado quando é contratado (COSTA; PIASSA, 2016). Este nível operacional estão os mestres de obras, encarregados, pedreiros e serventes. Tais funcionários são operadores para resolver problemas concernentes à execução cotidiana e eficientes das tarefas, em que existe o contato direito com a produção, local onde as tarefas e operações são executadas. Tal nível está o maior número de funcionários que não possuem uma qualificação necessária, o que incorrerá em maiores índices de rotatividades e acidentes nos canteiros de obra (VIVANCOS, 2001).

Este nível apresenta uma mão-de-obra que trabalha nos canteiros de obras, construindo, armando e edificando aquilo que estava no papel dos arquitetos e engenheiros civis. Esta força de trabalho apresenta um contingente muito grande de trabalhadores e que não possui uma qualificação necessária para atuar no trabalho de edificações. Esse despreparo profissional aponta entre outros motivos para trabalhos mal elaborados, desperdícios de materiais, além de alta rotatividade dessa mão-de-obra, bem como acidentes de trabalho nos canteiros de obra (COSTA; PIASSA, 2016).

No que refere a qualificação do nível operacional na construção civil são encontrados três diferentes graus de qualificação, primeiro grau é de operários que não possuem qualificação profissional, no qual é requerida somente a experiência de trabalho, ou seja, sabe construir, tem noção de levantar uma casa de alvenaria ou edifício, o segundo grau são dos semi qualificados, que possuem aptidões para a automatização que lhe permite operar algum tipo de equipamentos mecânicos (britadeiras, betoneiras, entre outros equipamentos), e o terceiro grau se encontra os profissionais qualificados, que possuem capacidades já adquiridas em conhecimentos tecnológicos específicos, formação profissional, nível de escolaridade compatível ao ensino básico, possui capacidade para ler projetos, conhecimentos de operações matemáticos (BLANCO, 2010). Segundo Silva (2008), dentre estes três níveis de força operacional, os que se destacam como qualificados estão entre a minoria, o que se entende é que esta força operacional está fundada em uma mão-de-obra sem conhecimento técnico e metódico científico da área de engenharia, são pessoas que aprenderam na prática, de qualquer forma e de qualquer jeito.

3.4 O GRAU DE ESCOLARIDADE DA MÃO-DE-OBRA NA CONSTRUÇÃO CIVIL

No que se refere ao perfil do operário de construção civil, a maior parte que está empregada em São Paulo vem das regiões Norte e Nordeste, o que de igual modo se repete no Rio de Janeiro. Dados de 2012 apontam que a maioria da mão-de-obra que atua no ramo da construção civil é do sexo masculino, que se aproxima do valor de 92,54% do contingente empregado no setor. As mulheres são os 7,46% restantes (CIOCCHI, 2005). As regiões Sudeste e Sul comportam uma complexidade de trabalho, porque são regiões ricas e estão sempre se desenvolvendo, construindo, produzindo, comercializando, e este processo requer sempre uma mão-de obra como é o caso da construção civil, é importante considerar que estas regiões ocupam um percentual de pessoas com um grau de estudo muito maior que outras regiões do Brasil como é o caso do Norte e Nordeste. Essa transferência de mão-de-obra de uma região para outra, ocorre pelo fato de haver uma concentração de um percentual de alfabetizados e com um grau elevado de estudo de uma em relação à outra que é desprovida desses caracteres (CANTISIANI; CASTELO, 2017). Essa mão-de-obra que vem do Norte e se concentra na região do Sudeste apesar de ter um ofício como é o caso da construção civil, não se apresenta com um potencial de conhecimentos técnicos e metódicos para realizar as devidas tarefas que são exigidas pela área de construção civil. Apesar de possuírem uma prática, esta não consegue reverter as falhas deixadas pela falta de um conhecimento acadêmico (COSTA; PIASSA, 2016).

O homem tem sido o elemento que mais se vê neste tipo de trabalho, contudo, as mulheres aos poucos vêm se apresentando nos canteiros de obras, desempenhando o mesmo trabalho que o sexo masculino, ora porque ela está se emancipando, saindo da esfera privada para pública, da cozinha como muitos falam que “o lugar de mulher é na cozinha”, ora porque o mercado de trabalho hoje está com as portas abertas para todos, sejam eles homens ou mulheres, podem desempenhar as mesmas funções, desde que atendam às exigências da empresa contratante, ora porque atualmente existe uma escassez muito grande de emprego, em que por não encontrarem empregos em lojas, hospitais, escolas, asilos, lugar onde a mão-de-obra feminina encontra espaço, partem para outros tipos de segmentação em que é mais direcionam para o homem executar tais tarefas como motorista de ônibus, carretas, frentista, borracharias, construção civil, entre outros (CANTISIANI; CASTELO, 2017). Ainda Ciocchi (2005), este percentual de mulheres no setor da construção civil vem aumentando cada vez mais nos últimos anos, sendo alocada nos segmentos administrativos de maior qualificação, a mulher apresenta um nível de instrução escolar mais elevado do que o homem que são empregados no neste setor. Os trabalhadores estão nas faixas etárias de 30 a 39 anos (30,21% do total) e de 40 a 49 anos (22,04%).

No que diz respeito à escolaridade dos trabalhadores deste setor, conforme os dados da Organização Internacional do Trabalho, mais de 33% da mão-de-obra que ocupa a segmentação da construção civil é analfabeta funcional, pois desempenham funções auxiliares sem especialização. Conforme tais dados, em 2001, tal mão-de-obra só havia cursado até a sétima série do Ensino Fundamental, sendo tal percentual de 64,18% em 1988 (CIOCCHI, 2005). Neste contexto, a educação nesta mão-de-obra é carente, são pessoas que estão empregadas no segmento da construção civil, mas não sabem ler e nem escrever, ou quando não, mal sabem escrever o próprio nome. No sentido de construir um edifício não têm capacidade técnica quando se deve recorrer ao cálculo matemático, aritmético, calcular quantos sacos de cimento leva em uma laje de 100, entre outros problemas que no cotidiano do trabalho civil requer um conhecimento mais aprofundado (CANTISIANI; CASTELO, 2017). Faz-se necessário averiguar a formação dessa mão-de-obra, o melhor saldo está na contratação de indivíduo que têm o ensino médio completo (DIEESE, 2012). Esse nível de trabalhadores necessita de instrução formal, a qual não contempla qualificações específicas para o setor da construção civil.

3.5 ANÁLISE DO DESPREPARO DA MÃO-DE-OBRA NA CONSTRUÇÃO CIVIL

Este estudo mostrou que apesar da indústria da construção civil estar cada vez mais se expandindo no mundo e no Brasil, ela sofre de uma carência na mão-de-obra. Os trabalhadores que ocupam os canteiros de obra não possuem estudo, e no conhecimento sobre construção civil, muitos aprenderam no modo empírico sem entrarem em uma escola técnica. Isso na prática favorece a um serviço sem qualidade.

Segundo Schimidt (2014), a realidade brasileira apresenta uma deficiência ou ausência na formação de operários para o setor da construção civil. As qualificações a que o trabalho civil requer como misturar bem uma argamassa, empilhar tijolos de modo a evitar perdas, vibrar bem o concreto para garantir sua homogeneidade e cuidar das ferramentas, raramente são levadas em conta ou valorizadas. Esse tipo de trabalho é feito por qualquer pessoa sem o devido conhecimento específico e preparo profissional (SCHIMIDT, 2014). No que se refere a oferta, cursos e treinamentos, específico para este perfil profissional, são escassos e quando eles existem, são restritos às grandes e de oferta irregular (SCHIMIDT, 2014). Diante dessas condições pelas quais esses trabalhadores passam no setor da construção civil, ainda está o agravo dos trabalhadores não terem completado o Ensino Médio, e muitos não terem o Ensino Fundamental ou são analfabetos.

Neste contexto, é importante ressaltar a importância desses trabalhadores obterem uma formação acadêmica, entrar para as salas de aula, estudar ou voltar a estudar, ou se qualificar. Nunca é tarde para aprender, e para aqueles que já têm o ensino superior como os engenheiros e arquitetos, podem voltar a estudar fazendo uma especialização para aperfeiçoar seu trabalho. Algumas empresas para melhor sua mão-de-obra oferecem alguns treinamentos para o melhor desempenho da produção. Segundo Ferreira (2001), o programa de treinamento deve ter planos específicos, que apresentem técnicas e meios para a mão-de-obra desenvolver suas qualificações funcionais, que melhorem o desempenho das funções; que exerçam funções novas ou diferentes; visando a possibilidade de promoção. Os programas de treinamento devem ser formulados de modo a atender o aprimoramento técnico do empregado no processo de execução das tarefas; ao aperfeiçoamento individual do trabalhador que venha beneficiar a empresa (FERREIRA, 2001). Para Picchi (2000), não existe uma escola propriamente dita para a formação dos profissionais da construção civil. A escola em muitos casos tem sido a própria obra, o qual é realizado por meio de um processo desorganizado. Neste sentido, a ausência de uma mão-de-obra qualificada resulta em serviços de baixa qualidade, o que irá ocorrer retrabalho, defeitos, desperdício e improdutividade no setor de construção.

4. CONCLUSÃO

A partir da relevância deste estudo que se pautou sobre a importância de uma mão-de-obra qualificada para executar serviços com qualidade, a pesquisa encontrou apenas uma força operária que em sua maioria não sabe ler e escrever, apenas sabem os serviços de construção que aprenderam na prática, e que muitas vezes são contratados pela empresa de construção civil sendo o resultado desastroso para este setor. Este estudo mostrou que apesar do crescimento da indústria de construção civil nos últimos anos, houve um descompasso entre a oferta e a demanda de trabalhadores qualificados, pois os principais problemas enfrentados pelas empresas contratantes dessa força de trabalho é a falta de mão-de-obra qualificada. Neste sentido, a falta de trabalhadores qualificados tem gerado sérios problemas para as empresas da construção.

Este estado de desqualificação que a construção civil apresenta em sua força de trabalho tem afetado a eficiência e a redução dos desperdícios. Neste contexto, a empresa da construção civil tem sofrido com a alta rotatividade dos trabalhadores, porque quando uma turma de operários contratados não dá conta dos serviços, a empresa é obrigada a mandar embora e contratar nova remessa de funcionários. Esta pesquisa mostrou que apesar da importância que a indústria da construção tem, ela ocupa um espaço importante no mercado, mas não comporta uma mão-de-obra que seja qualificada para acompanhar a grande demanda que a todo tempo tem aumentado nesta área.

Na questão da necessidade de uma mão-de-obra qualificada na área da construção civil, as empresas devem fazer parcerias com escolas profissionalizantes e agregar seus profissionais para melhor qualificar seu trabalho, ou poderiam custear bolsas de estudos e colocar seus operários em escolas técnicas de construção civil.

REFERÊNCIAS

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[1] Especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho, Graduação em Engenheiro Civil.

[2] Graduação em Engenheiro Civil.

[3] Graduação em Engenheiro Civil.

[4] Graduação em Engenheiro Civil.

[5] Orientadora. Mestrado em Engenharia Civil, Especialização em Engenharia de Segurança do Trabalho, Graduação em Engenheiro Civil.

Enviado: Setembro, 2020.

Aprovado: Fevereiro, 2021.

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