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Engenharia geotécnica: Alicerce fundamental de todas as engenharias

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

BARROSO, Hermano Luis de Pinho

BARROSO, Hermano Luis de Pinho. Engenharia geotécnica: Alicerce fundamental de todas as engenharias. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 10, Ed. 11, Vol. 02, pp. 113-126. Novembro de 2025. ISSN:2448-0959. Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/engenharia-civil/engenharia-geotecnica, DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/engenharia-civil/engenharia-geotecnica

RESUMO

A Engenharia Geotécnica é apresentada como a base imprescindível sobre a qual se apoiam todas as obras de engenharia. Este artigo discute a importância dessa área, destacando que todas as construções dependem intrinsecamente do terreno em que se inserem, o que torna fundamental o conhecimento aprofundado do solo, das rochas e da água subterrânea para garantir segurança, economia e durabilidade das obras (Teixeira Duarte, 2021). São abordadas as diversas disciplinas que compõem a Geotecnia, incluindo Mecânica dos Solos, Mecânica das Rochas, Geologia de Engenharia, Hidrologia e Geotecnia Ambiental, e enfatizada a necessidade de uma abordagem interdisciplinar. Apresentam-se técnicas e ferramentas empregadas pelos engenheiros geotécnicos, como ensaios de laboratório, modelagem computacional, geotecnologia e instrumentação de campo, demonstrando como essas metodologias permitem analisar e prever o comportamento de solos e rochas em diferentes situações. Por fim, discute-se a importância de maiores investimentos em investigações geotécnicas e monitoramento, mostrando os ganhos para a sociedade em termos de segurança estrutural, prevenção de acidentes, otimização de custos e aumento da vida útil das obras.

Palavras-chave: Engenharia Geotécnica, Mecânica dos Solos, Fundações, Segurança das Estruturas, Sustentabilidade.

1. INTRODUÇÃO

Todas as obras de engenharia: edifícios, pontes, estradas, barragens, túneis, entre outras, dependem intrinsecamente do terreno onde se apoiam ou que estabilizam (Teixeira Duarte, 2021). Em consequência, o conhecimento detalhado do solo e a avaliação de sua interação com as estruturas são fundamentais para uma concepção adequada de projetos, garantindo a segurança e a durabilidade ao longo de sua vida útil (Teixeira Duarte, 2021). A Engenharia Geotécnica é o ramo da engenharia civil que fornece esta base técnica, estudando o comportamento dos solos e das rochas sob ações diversas e orientando as soluções de fundação e contenção mais seguras e eficientes.

Historicamente, a Engenharia Geotécnica consolidou-se como disciplina científica a partir do século XX, com os avanços da Mecânica dos Solos. Karl Terzaghi (1943), conhecido como o pai da Mecânica dos Solos, enunciou em 1936 o princípio da tensão efetiva, relacionando as tensões totais, a pressão da água nos poros e as tensões efetivas no solo (NPTEL, 2023). Esse conceito revolucionário permitiu explicar fenômenos de adensamento e resistência dos solos, lançando as bases para métodos de cálculo de fundações e estabilidade de taludes. Desde então, diversos pesquisadores e engenheiros, como Ralph Peck, Arthur Casagrande, entre outros, contribuíram com teorias e métodos (como o método observacional de Peck, 1969) que aprimoraram a capacidade de prever e controlar o comportamento dos solos em projetos de engenharia.

De acordo com a Sociedade Internacional de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ISSMGE), “tudo que não é suportado por solo ou rocha, voa, flutua ou cai” (Paula, 2016). Essa afirmação reforça que qualquer estrutura depende do suporte do terreno; se a fundação falhar, a estrutura inevitavelmente colapsa. Não por acaso, um relatório do National Economic Development Office no Reino Unido observou que mais de um terço dos projetos de construção que estouraram o orçamento tinham como um dos principais fatores contribuintes condições inesperadas do subsolo (Paula, 2016). Em outras palavras, a falta de reconhecimento geotécnico adequado é uma causa frequente de problemas e custos extras em obras de engenharia. Por outro lado, com análises apropriadas de mecânica dos solos e das rochas, os engenheiros geotécnicos podem antecipar a maioria dos problemas de construção e até mesmo evitar catástrofes (Paula, 2016).

Neste contexto, este artigo tem por objetivo evidenciar o papel essencial da Engenharia Geotécnica como alicerce para todas as demais engenharias, discutindo as competências técnicas requeridas do engenheiro geotécnico, as principais ferramentas e técnicas utilizadas na prática profissional e os benefícios diretos de se investir em estudos e soluções geotécnicas de qualidade. Serão apresentados exemplos e dados de casos reais, bem como contribuições de diversos autores nacionais e internacionais, de forma a embasar a discussão sobre a necessidade de valorização e investimento crescente na área geotécnica para o desenvolvimento seguro e sustentável da infraestrutura.

2. ENGENHARIA GEOTÉCNICA E SUA ABRANGÊNCIA INTERDISCIPLINAR

A Engenharia Geotécnica engloba um conjunto de disciplinas científicas e conhecimentos multidisciplinares. De acordo com Teixeira Duarte (2021), a Geotecnia abrange classicamente a Geologia de Engenharia, a Mecânica dos Solos e a Mecânica das Rochas, integrando conceitos dessas áreas para analisar o terreno e fornecer subsídios aos projetos (Teixeira Duarte, 2021). A Geologia de Engenharia foca na origem e na caracterização dos terrenos, incluindo mapeamento geológico e investigações de campo para entender a estrutura e composição do subsolo (Teixeira Duarte, 2021). Já a Mecânica dos Solos estuda as propriedades e o estado de equilíbrio dos solos: capacidade de suporte das fundações, compressibilidade, resistência ao cisalhamento, pressão de terra contra estruturas, estabilidade de taludes e outros aspectos fundamentais (Teixeira Duarte, 2021). Em paralelo, a Mecânica das Rochas analisa o comportamento dos maciços rochosos em termos de resistência, deformabilidade e tensões induzidas, sendo crucial para projetos que envolvem escavações em rocha, túneis e taludes rochosos (Teixeira Duarte, 2021).

Além dessas bases, o engenheiro geotécnico precisa dominar conceitos de Hidrologia e Hidrogeologia, pois a presença de água no solo é determinante no comportamento geotécnico. A água subterrânea influencia a pressão nos poros e a efetividade das tensões no solo, afetando a estabilidade de fundações e encostas. É comum que a variação do nível freático ou a infiltração excessiva de água provoquem redução de resistência e deslizamentos, de modo que a avaliação adequada das condições de drenagem e fluxos de água é parte integrante de um projeto seguro (Teixeira Duarte, 2021). Por exemplo, para evitar problemas, investigam-se os níveis freáticos, permeabilidade do solo e aplicam-se soluções de drenagem ou rebaixamento durante obras de escavação (Teixeira Duarte, 2021).

A Geotecnia Ambiental é outro campo emergente e crucial, lidando com problemas como a disposição de resíduos, contaminação de solos e estabilidade de barragens de rejeitos. Eventos trágicos como o colapso de barragens de rejeitos em Mariana (2015) e Brumadinho (2019), no Brasil, evidenciaram a necessidade de se considerar cuidadosamente os aspectos geotécnicos e ambientais nesses empreendimentos. No desastre de Brumadinho, por exemplo, o colapso de uma barragem de minério por liquefação dos rejeitos levou a 270 mortes e enorme impacto ambiental, tendo as investigações apontado monitoramento inadequado e falhas em corrigir problemas de estabilidade já conhecidos antes do acidente (SAALG, 2024). Esse caso ressalta a importância do conhecimento geotécnico aliado à engenharia ambiental para prevenir perdas humanas e danos ecológicos de grande magnitude.

Por fim, a interface com a Engenharia Estrutural é inerente à Geotecnia, dado que solo e estrutura interagem continuamente (solo-estrutura). Enquanto o engenheiro estrutural projeta elementos como vigas, pilares e lajes, é o engenheiro geotécnico que assegura que essas cargas serão transmitidas ao terreno de forma segura. A interação solo-estrutura requer entendimento mútuo: de um lado, as cargas estruturais impõem tensões ao solo; de outro, as deformações e a resistência do solo influenciam o desempenho da estrutura. Uma fundação subdimensionada ou apoiada em solo mal caracterizado pode causar recalques diferenciais indesejados, trincas e até colapso estrutural. Portanto, o geotécnico deve compreender princípios de engenharia estrutural para dimensionar fundações (rasas ou profundas) compatíveis com as características do solo e da superestrutura. De fato, fundações seguras dependem tanto do correto projeto estrutural quanto da adequada investigação e análise geotécnica (Teixeira Duarte, 2021). Assim, a Geotecnia atua como a base que sustenta e conecta múltiplas áreas, da geologia e hidrologia à estrutura, garantindo que as obras se apoiem em terreno confiável.

3. TÉCNICAS E FERRAMENTAS DA ENGENHARIA GEOTÉCNICA

O trabalho do engenheiro geotécnico apoia-se em uma variedade de técnicas de investigação, métodos de análise e ferramentas tecnológicas. A seguir, são destacadas algumas das principais abordagens empregadas na prática geotécnica:

  • Ensaios de Campo e de Laboratório: A caracterização geotécnica começa com a investigação do subsolo por meio de sondagens e coleta de amostras, seguida de ensaios tanto in situ quanto em laboratório. Os ensaios de campo incluem sondagens à percussão ou rotativas e testes de penetração, como o Standard Penetration Test (SPT), que fornece o índice NSPT de resistência dinâmica do solo (Teixeira Duarte, 2021). O SPT é amplamente utilizado no mundo todo há décadas por sua simplicidade e aplicabilidade em diversos tipos de solo (Teixeira Duarte, 2021). Além do SPT, podem-se realizar ensaios de cone (CPT/CPTu), ensaios pressiométricos, Vane test (palheta) para argilas moles, entre outros, a fim de determinar parâmetros como resistência não drenada, tensões in situ e deformabilidade do terreno (Engeduca, s.d). Em laboratório, são executados ensaios em amostras indeformadas para medir propriedades fundamentais: granulometria, limites de Atterberg (consistência), peso específico, índice de vazios, permeabilidade, compressibilidade (ensaio de adensamento) e resistência ao cisalhamento (ensaio triaxial ou direto) (Teixeira Duarte, 2021). Esses dados fornecem as bases numéricas para cálculos de capacidade de carga de fundações, previsão de recalques e verificação de estabilidade.
  • Modelagem Computacional: Com os parâmetros obtidos experimentalmente, o engenheiro geotécnico utiliza ferramentas computacionais para modelar o comportamento do solo e das estruturas de engenharia. Softwares baseados em métodos numéricos, como o Método dos Elementos Finitos (MEF), permitem simular cenários complexos de interação solo-estrutura, escavações ou fluxos de água. Por exemplo, é possível modelar a escavação de um túnel urbano e prever os deslocamentos no maciço e na superfície, avaliando a necessidade de contenções. Da mesma forma, simulações de provas de carga em estacas ou análises de estabilidade de taludes sob chuva intensa podem ser realizadas com maior precisão. A modelagem computacional tem se tornado cada vez mais sofisticada; atualmente, integra-se também ao BIM (Building Information Modeling), o que possibilita incorporar modelos geotécnicos 3D nos projetos desde as fases iniciais (Paula, 2016). Essa integração facilita a visualização de camadas de solo e elementos subterrâneos, auxiliando os projetistas a identificar potenciais conflitos ou riscos geotécnicos antes da construção. Como destacam Chandler e Morin, especialistas em geotecnia no Reino Unido, há uma riqueza de dados geotécnicos já coletados que muitas vezes fica subutilizada, iniciativas modernas buscam tornar esses dados mais acessíveis e úteis aos projetistas, economizando tempo e recursos e evitando surpresas durante a obra (Paula, 2016).
  • Geotecnologia e Sensoriamento Remoto: O termo geotecnologia refere-se ao conjunto de tecnologias aplicadas às geociências, incluindo sistemas de informação geográfica (SIG/GIS), técnicas de sensoriamento remoto e geofísica aplicada. Na engenharia geotécnica, essas ferramentas têm ganhado espaço para complementar a investigação direta. Imagens de satélite e fotografias aéreas permitem mapear feições do terreno, identificar zonas de instabilidade ou históricos de deslizamentos. Técnicas geofísicas como sísmica de refração, eletrorresistividade e GPR (radar de penetração no solo) podem endireitar a identificação de camadas de solo e rocha, lençol freático e cavidades sem a necessidade de muitas escavações ou sondagens. Além disso, tecnologias recentes como InSAR (Interferometria por Satélite) permitem monitorar deformações milimétricas do terreno ao longo do tempo, sendo úteis em obras lineares extensas (rodovias, ferrovias) e em taludes de grande porte, fornecendo alertas de movimentações potenciais antes que se tornem críticas. Assim, o uso combinado de geotecnologias amplia o conhecimento do subsolo em escala regional e auxilia no planejamento de investigações mais focadas, otimizando custos.
  • Instrumentação Geotécnica de Campo: Após o projeto e durante a execução e operação das obras, a instrumentação geotécnica desempenha papel vital no monitoramento e controle de desempenho. Consiste em um conjunto de sensores, equipamentos e técnicas instalados em campo para acompanhar o comportamento dos solos, rochas e estruturas geotécnicas em tempo real ou em leituras periódicas (Instituto Minere, 2023). Por meio de instrumentos como piezômetros (que medem a pressão da água nos poros do solo), inclinômetros (que medem deslocamentos horizontais em profundidade, indicando movimentações de taludes), extensômetros e marcos de recalque (que medem deformações e assentamentos), obtêm-se dados valiosos sobre a resposta da obra às cargas e condições ambientais (Instituto Minere, 2023). Esses dados são essenciais para avaliar a estabilidade e identificar comportamentos anômalos durante a construção ou uso da estrutura. Com um monitoramento adequado, os engenheiros podem detectar movimentos ou variações fora do esperado de forma antecipada, acionando medidas corretivas antes que ocorra um acidente (Instituto Minere, 2023). Entre os benefícios diretos da instrumentação estão: prevenção de rupturas repentinas, tomada de decisões técnicas embasadas em evidências, otimização de obras (permitindo, por exemplo, ajustar o ritmo de escavação conforme a resposta do terreno) e até redução de custos, evitando intervenções emergenciais muito mais dispendiosas (Instituto Minere, 2023). Em obras críticas, como: barragens, contenções em encostas habitadas, escavações profundas em áreas urbanas e fundações de edifícios altos, a instrumentação e o monitoramento contínuo não só garantem a segurança, mas também fornecem retorno valioso de informação, retroalimentando os modelos de cálculo com dados reais e aprimorando o conhecimento para projetos futuros.

Em conjunto, essas técnicas e ferramentas permitem ao engenheiro geotécnico analisar e prever o comportamento do solo e das rochas em diferentes situações, desde o estágio de projeto até a fase de operação das obras. A integração de métodos de investigação, tecnologias de modelagem e monitoramento garante uma abordagem mais confiável e pró-ativa, reduzindo as incertezas inerentes ao subsolo e contribuindo para o sucesso dos empreendimentos de engenharia.

4. IMPORTÂNCIA, INVESTIMENTO E BENEFÍCIOS DA GEOTECNIA PARA A SOCIEDADE

A Geotecnia, embora muitas vezes discreta e “invisível” aos olhos do público (pois seu trabalho se concentra no subsolo e nos alicerces das obras), é fundamental para a segurança e viabilidade econômica de praticamente todos os projetos de engenharia civil. Investir em estudos e soluções geotécnicas de qualidade traz ganhos diretos em múltiplos aspectos:

4.1 SEGURANÇA ESTRUTURAL E PREVENÇÃO DE ACIDENTES

Uma parcela significativa das falhas em obras pode ser atribuída a problemas geotécnicos. Fundações dimensionadas sem investigação adequada do solo podem assentar de forma desigual (recalque diferencial), levando à fissuração ou colapso de edifícios. Taludes naturais ou cortes em encostas sem estabilização podem deslizar e destruir casas e estradas. Um exemplo notável ocorreu nos Estados Unidos com a luxuosa Millennium Tower, em São Francisco: devido a desafios geotécnicos subestimados em seu projeto de fundação, a torre assentou cerca de 40 cm em apenas sete anos, causando inclinação e danos que demandaram reforços custosos (Paula, 2016). No Brasil, eventos trágicos como deslizamentos de encostas em épocas de chuvas intensas (por exemplo, em Petrópolis, 2022) e colapsos de obras de contenção ressaltam as consequências de subestimar problemas do terreno. Falhas geotécnicas costumam ter efeitos devastadores, pois ocorrem abruptamente e sem aviso se o monitoramento inexistir, diferentemente de algumas falhas estruturais que dão sinais prévios.

Portanto, a atuação diligente do engenheiro geotécnico, desde o projeto (com sondagens, ensaios e dimensionamentos conservadores) até a obra (com monitoramento e ajustes em tempo real), é crucial para evitar perdas humanas e materiais. Como citado anteriormente, mais de um terço dos projetos que estouram o orçamento identificam surpresas no subsolo como causa principal (Paula, 2016), o que muitas vezes está associado também a incidentes de segurança. Monitorar e conhecer o solo é sinônimo de prevenir acidentes e salvar vidas (Instituto Minere, 2023).

4.2 ECONOMIA DE CUSTOS E PRAZOS

O investimento em geotecnia representa geralmente uma fração pequena do custo total de um empreendimento, mas seu retorno financeiro pode ser enorme. Estudos internacionais demonstram que tipicamente gasta-se menos de 1% a 1,5% do orçamento de obra em investigações geotécnicas, o que tem se mostrado insuficiente em muitos casos, obras com estudo de solo deficiente tendem a enfrentar imprevistos e sobrecustos significativos (Ulrich, 2023). Por outro lado, quando se investe um pouco mais em estudos geotécnicos no início, os custos adicionais durante a construção caem drasticamente, gerando um retorno que pode chegar a 20 vezes o valor investido graças à redução de problemas não previstos e retrabalhos (Ulrich, 2023). Em termos práticos, uma investigação aprofundada pode revelar, por exemplo, camadas de solo mole que exigem remoção ou melhoramento antes da construção, solucionando isso no projeto, evita-se que a obra pare no meio para tratar patologias ou reforçar fundações, o que seria muito mais caro e demoraria mais. A otimização de projetos de fundação é outro ganho econômico: conhecendo bem o subsolo, o engenheiro pode escolher soluções mais eficientes (como optar por fundações diretas rasas onde possível, em vez de estacas profundas desnecessárias, ou dimensionar o comprimento de estacas exatamente para atingir a camada resistente, evitando comprimentos exagerados “por segurança”). Cronogramas também se beneficiam, condições geotécnicas imprevistas são uma das principais causas de atraso em obras, seja por colapsos durante escavação, seja por dificuldade de cravar estacas em terreno diferente do previsto. Antecipar esses cenários com sondagens e análises reduz atrasos e mantém o cronograma sob controle (Engeduca, s.d.).

4.3 DURABILIDADE E DESEMPENHO DAS OBRAS

Uma obra durável é aquela que exige pouca manutenção e se comporta adequadamente ao longo das décadas de operação previstas. A Geotecnia contribui diretamente para a longevidade das estruturas, ao garantir que não ocorram recalques progressivos excessivos, perda de capacidade portante ou outros mecanismos que degradem a construção. Por exemplo, em projetos rodoviários, a adequada compactação e estabilização de aterros e subleito resultam em pavimentos que sofrem menos deformações e patologias (trincas, afundamentos) com o passar dos anos (Engeduca, s.d.). Em edificações, ao se evitar esforços diferenciais decorrentes de subsidência do terreno, preserva-se a integridade da estrutura e dos acabamentos, reduzindo a necessidade de reparos. Em barragens, a Geotecnia bem aplicada previne fenômenos de erosão interna, infiltrações descontroladas e instabilidades que poderiam levar ao rompimento prematuro. Investigações geotécnicas e instrumentação de longo prazo funcionam como um “check-up” periódico da saúde da obra, permitindo detectar alterações lentas (como recalque gradual, aumento de poropressão ou movimentação milimétrica de taludes) e tomar medidas preventivas. Assim, a Geotecnia assegura que as obras alcancem (ou até superem) sua vida útil de projeto em condições de segurança, o que representa um ganho econômico e social significativo, estruturas duráveis significam menos gastos com reconstrução ou reforços, menor interrupção de serviços e melhor aproveitamento dos recursos naturais e financeiros investidos inicialmente.

4.4 SUSTENTABILIDADE E IMPACTOS SOCIOAMBIENTAIS

No cenário atual, busca-se não apenas construir obras seguras e econômicas, mas também sustentáveis e harmonicamente inseridas no meio ambiente. A Engenharia Geotécnica tem muito a contribuir nesse aspecto. Ao viabilizar soluções de fundação e contenção adaptadas às condições locais, minimizam-se movimentações de terra desnecessárias, explosões ou uso excessivo de materiais, reduzindo a pegada ambiental do projeto. Técnicas de melhoramento de solos in loco (como compactação, vibroflotação, colunas de brita, solo-cimento) frequentemente são preferíveis a remover grandes volumes de solo e importar material de empréstimo, economizando energia e diminuindo emissões. Na ocupação do território, estudos geotécnicos e mapeamentos de risco orientam um planejamento urbano mais seguro e sustentável, evitando construir em áreas suscetíveis a desastres naturais (encostas muito íngremes, solos orgânicos compressíveis em várzeas, regiões sujeitas à liquefação em sismos etc.) (Teixeira Duarte, 2021). Nesse sentido, a Geotecnia fornece subsídios técnicos para políticas públicas de uso do solo e gestão de riscos, contribuindo para comunidades mais resilientes. Em adição, na remediação de áreas contaminadas e na disposição de resíduos, a geotecnia ambiental desenvolve soluções para conter contaminantes no solo e proteger aquíferos, bem como projetar aterros sanitários e depósitos de resíduos industriais com barreiras impermeáveis e sistemas de drenagem que evitam a poluição. Todos esses aspectos mostram que um projeto bem embasado geotecnicamente não apenas é mais seguro e econômico, mas também gera benefícios sociais e ambientais, alinhando-se aos princípios de desenvolvimento sustentável.

Diante do exposto, fica evidente que a Engenharia Geotécnica é um pilar central da engenharia moderna. Quando suas recomendações são negligenciadas, as consequências podem ir de custos adicionais elevados até perdas trágicas de vidas e destruição do meio ambiente. Por outro lado, quando bem aplicada, a Geotecnia é sinônimo de prevenção, economia e confiabilidade, assegurando que as grandiosas obras da engenharia civil, visíveis ou enterradas, se assentem em bases sólidas.

5. CONCLUSÃO

A Engenharia Geotécnica cumpre um papel insubstituível como base para todas as demais engenharias, provendo o conhecimento e as ferramentas necessárias para que qualquer obra interaja de forma segura com o terreno. Ao longo deste artigo, foi ressaltado que desde as etapas iniciais de um projeto é imprescindível considerar os aspectos geotécnicos: conhecer o solo, suas variações e fragilidades, para então definir as melhores soluções de fundação, contenção e infraestrutura de terra. Os engenheiros geotécnicos, com sua formação multidisciplinar que abrange mecânica dos solos e rochas, geologia, hidrologia, meio ambiente e estruturas, atuam como verdadeiros guardiões da estabilidade das obras.

Investir em estudos geotécnicos de qualidade, em tecnologias de investigação e monitoramento, e na capacitação contínua desses profissionais deve ser encarado não como um custo adicional, mas sim como uma economia e um seguro para o empreendimento. Conforme discutido, o gasto relativo com investigações é baixo frente ao custo total de uma obra, porém os benefícios são altamente compensadores: em segurança, em redução de atrasos e retrabalhos, e no desempenho a longo prazo. Em um mundo onde os projetos de infraestrutura tornam-se cada vez mais arrojados e onde eventos extremos (climáticos, sísmicos) podem se intensificar, a necessidade de soluções geotécnicas inovadoras e confiáveis só tende a crescer.

Portanto, é fundamental difundir a consciência sobre a importância da Engenharia Geotécnica entre gestores, financiadores e a sociedade em geral, para que haja apoio e investimento adequados nessa área. Quando a Geotecnia é devidamente considerada, ganha-se em segurança da população, evitando-se acidentes; ganha-se em eficiência econômica, entregando obras no prazo e dentro do orçamento; e ganha-se em longevidade das construções, garantindo infraestrutura de qualidade para as futuras gerações. Em suma, a Engenharia Geotécnica pode ser vista como o alicerce invisível que sustenta o progresso, quanto mais sólida ela for, mais altas e duradouras poderão se erguer todas as outras engenharias.

REFERÊNCIAS

ENGEDUCA. A importância do conhecimento em geotecnia para engenheiros de obras. Engeduca Blog, [s.d.]. Disponível em: https://engeduca.com/a-importancia-do-conhecimento-em-geotecnia-para-engenheiros-de-obras/. Acesso em: 20 set. 2025.

INSTITUTO MINERE. Instrumentação Geotécnica: por que monitorar estruturas é essencial para a segurança de obras? Instituto Minere – Conteúdos, [2023?]. Disponível em: https://institutominere.com.br/instrumentacao-geotecnica-por-que-monitorar-estruturas-e-essencial-para-a-seguranca-de-obras/. Acesso em: 20 set. 2025.

PAULA, Gustavo. O que é Engenharia Geotécnica, e por que isto é tão crucial para a infraestrutura? Blog Mundo AEC – Autodesk. 18 dez. 2016. Disponível em: https://blogs.autodesk.com/mundoaec/engenharia-geotecnica-infraestrutura/. Acesso em: 15 set. 2025.

SAALG GEOMECHANICS. Tailings Dam Failures: Factors and Causes. Blog da SAALG, 30 maio 2024. Disponível em: https://www.saalg.com/post/tailings-dam-failures-factors-and-causes. Acesso em: 15 set. 2025.

TEIXEIRA DUARTE. A Importância da Geotecnia em obras de Engenharia. Notícias Teixeira Duarte Construção, 27 maio 2021. Disponível em: https://www.teixeiraduarteconstrucao.com.br/geotecnia-em-obras/. Acesso em: 14 set. 2025.

TERZAGHI, Karl. Theoretical Soil Mechanics. New York: John Wiley & Sons, 1943.

ULRICH, Bryan. O investimento em geotecnia e o retorno financeiro em empreendimentos de engenharia. [2023].

INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES

1 Pós-graduação em Engenharia Geotécnica; Pós-graduação em Engenheiro de Produção e Gerenciamento de Projetos; Pós-graduação em Engenharia de Segurança Do Trabalho; Graduação em Engenharia de Agrimensura. ORCID: 0009-0001-9819-3861.

Contribuição dos autores:

Hermano Luis de Pinho Barroso: único responsável por todas as etapas de desenvolvimento do artigo sobre a importância da Engenharia Geotécnica, atuando de forma integral desde a concepção do estudo (definição do tema e enfoque interdisciplinar) e o planejamento metodológico (seleção rigorosa de fontes e integração de conceitos clássicos e inovações). Conduziu a análise e interpretação de dados, exemplos e estudos de caso, demonstrando de forma crítica a influência da geotécnica na segurança, economia e sustentabilidade das obras. Por fim, foi o responsável pela redação completa do manuscrito, garantindo a organização lógica, a argumentação científica e a coerência do trabalho, o que consolida sua autoria total e exclusiva na produção.

INFORMAÇÕES SOBRE O MATERIAL

Conflito de interesse:

Não há conflito de interesse.

Agradecimentos e Financiamento:

Não há financiamento.

Informações sobre Direitos Autorais e Licença:

Este é um artigo de Acesso Aberto distribuído sob os termos da Creative Commons Attribution License, que permite uso, distribuição e reprodução irrestritos em qualquer meio, desde que o autor e a fonte originais sejam creditados.

Os nomes e endereços informados nesta revista serão usados exclusivamente para os serviços prestados por esta publicação, não sendo disponibilizados para outras finalidades ou a terceiros.

  • ISSN (versão eletrônica): 2448-0959
  • Licença Creative Commons: Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.

Histórico da Publicação:

Material recebido: 14 de outubro de 2025.

Material aprovado pelos pares: 10 de novembro de 2025.

Material editado aprovado pelos autores: 24 de novembro de 2025.

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Hermano Luis de Pinho Barroso

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