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O Aluno Surdo e Ouvintismo Curricular: Discutindo Pretensões de Inclusão

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CONTEÚDO

NEGRÃO, Josué de Souza

NEGRÃO, Josué de Souza. O Aluno Surdo e Ouvintismo Curricular: Discutindo Pretensões de Inclusão. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 07, Vol. 06, pp. 126-131, Julho de 2018. ISSN:2448-0959

Resumo

O Ouvintismo Curricular é denunciado como uma prática colonialista que, por meio das “políticas de representações dominantes da normalidade”, exercem poder sobre a linguagem, as identidades e sobre os corpos dos surdos (SKLIAR, 2005, P. 7). O presente trabalho, tendo por objetivo investigar Ouvintismo Curricular suas influências na formação do aluno surdo, tem sua pesquisa fundamentada na necessidadede discussões e reflexões que conduzam ao entendimento sobre os pensamentos e práticas relacionadas ao Ouvintismo Curricular que está aquém das pretensões e propostas das Políticas de Inclusão. A metodologia utilizada é a Pesquisa Qualitativa que contempla o caráter subjetivo dos processos e dos fenômenos. “Ela se preocupa, nas ciências sociais, com um nível de realidade que não pode ser quantificado”. (MINAYO, 2001, p. 22).O método materialista histórico dialético utilizado se fundamenta por sua característica de consideração do movimento e da contraditoriedade do mundo, dos homens e de suas relações. É um“método de interpretação da realidade, visão de mundo e práxis” (PIRES, 1997). O desenvolvimento do trabalho está organizado em duas partes: Ouvintismo Curricular: Como é pensado – trata sobre a construção da superioridade dos que se enquadram nos padrões de Normalidade sobre os que nele não se encontram enquadrados; e Ouvintismo Curricular: como é praticado – trata sobre as práticas nocivas engendradas de acordo com essa consideração de superioridade pelos padrões de Normalidade. Os resultados encontrados das discussões realizadas indicam que o Ouvintismo Curricular tem como base a ideia de supremacia do ouvinte sobre o surdo por meio da manutenção social do modelo de Normalidade, do Conhecimento Oficial(ouvintista) legitimado como ideal, assim como das visões sociais impróprias construídas sobre o surdo (clínica e religiosa).

Introdução

A atualidade escolar diante das demandas das Políticas de Inclusão suscitam muitas discussões sobre as Pretensões de Inclusão postuladas e a funcionalidade das práticas já consideradas inclusivas. Uma dessas discussões é sobre o Ouvintismo Curricular, suscitada principalmente por Skliar (1998) que o denuncia como Prática Colonialista – uma tentativa de tonar o surdo mais parecido com o ouvinte, ou seja, um surdo Ouvintizado ou Normalizado.

O Ouvintismo Curricular, conforme a discussão proposta por Skliar (2013) é um exercício de poder de uma hegemonia ouvintista sobre a formação do surdo na academia, de forma geral. Isso é porque segundo certa pretensão de inclusão, para contemplar o aluno surdo em seu aprendizado bastaria que o currículo Escolar fosse adaptado tendo seus direcionamentos de conteúdo apenas “transportados” para o ensino do surdo.

No entanto, essa ideia de inclusão não somente não contempla o surdo na sua formação como a prejudica, pois deixa de considerar aspectos fundamentais do Estar Sendosurdo, sua forma de concepção do conhecimento peculiar à do ouvinte por conta da sincronização dos demais sentidos que não o da audição, assim como não enfatiza que as metodologias que contemplam o surdo em seu processo de aprendizagem são necessárias as visoespaciais.

Diante dessas problematizações, este trabalho pretende estimular discussões e reflexões que conduzam ao entendimento sobre como o Ouvintismo Curricular está aquém das pretensões e propostas de Inclusão. Nesse sentido, como central, traz- se o seguinte questionamento: Como superar o Ouvintismo Curricular diante das atuais demandas inclusivas? Assim, problematizar o Ouvintismo Curricular discutindo sua superação é fundamental para que as propostas e pretensões de inclusão do surdo sejam práticas efetivas visando à sua Plena Formação como Sujeito Social.

Ouvintismo Curricular: Como é pensado

Ouvinte: que houve; que usa o sentido físico da audição. Ismo: movimento; corrente; doutrina; tendência. Etimologicamente pode-se dizer que Ouvintismo é uma corrente ou doutrina do ouvinte. O Ouvintismo Curricular, portanto, pode ser considerada doutrina de imposição de pensamentos e práticas ouvintista sobre a Formação do surdo, uma tendência de forçamento de sua Normalização. O Ouvintismo Curricular é denunciado por Skliar (2013) como um tipo de prática colonialista que tem seu marco no na crença Iluminista da perfeição.

Nos contextos sociais persiste a ideia errônea de uma representação iluminista do normal, do perfeito, do ouvinte. A sociedade, a família, a escola continuam traçando representações contra qualquer tipo de contestação possível ( SKLIAR, 2013, p. 11).

No contexto social atual, segundo o autor, os surdos vivem em condição de subordinação à supremacia ouvinte, como se vivessem numa terra que não a sua. Essa prática colonialista que são produzidas e reproduzidas sob a “ideia de supremacia do ouvinte” (p.13) encontra apoio no “fracasso” escolar que é atribuído ao surdo assim como o é a condição de incapaz. Condição essa que somente existe na Concepção equivocada construída pelo Ouvintismo.

O ouvintismo – as representações dos ouvintes sobre a surdez e sobre os surdos – e o oralismo – a forma institucionalizada do ouvintismo – continuam sendo, ainda hoje, discursos hegemônicos em diferentes partes do mundo. Trata-se de um conjunto de representações dos ouvintes, a partir do qual o surdo está obrigado a olhar-se e a narrar-se como se fosse ouvinte. (SKLIAR, 1998, p. 15).

A ideia de supremacia do ouvinte sobre o surdo tem sua base nos padrões de perfeição ou de Normalidade instituídos fortemente a partir dos discursos iluministas. Assim, o surdo com suas especificidades referentes ao sentido da audição é construído como inferior ao ouvinte. No entanto, o que os “padrões de perfeição” não consideram é a capacidade de comunicação do surdo. Comunicação que é, no abissal propósito de utilização dos sentidos físicos, o propósito- fim para o convívio social. Assim, a questão já não é o sentido da audição, mas a Capacidade de Comunicação que deve ser central nessa discussão.

Acredito que, dessa forma, a norma padrão ouvinte seja uma verdade legitimada sobre os sujeitos surdos, constituindo-os como corpos a corrigir e modelando-os para a normalização. Os surdos ficam aos caprichos da norma, e entram em cena as estratégias do corpo a corrigir, a ser normalizado, fora dos padrões normalizadores.(REZENDE, 2010, p. 87)

A partir de então pode- se perceber que uma das bases do pensar e do fazer ouvintista imposta ao surdo, como se somente fosse possível existir e desenvolver-se como ouvinte. Essa padronização nega qualquer consideração que se faça sobre o surdo como comunicador efetivo, pois valoriza, sobretudo, o discurso que tem na palavra oralizada boa parte de sua força. Trata-se de protecionismo de poderes para preservação do controle sobre o que se pretende também legitimar válido, ou ainda, que ouse ocupar lugar no território já ocupado.

Tratando-se de currículo, já são muitas as discussões levantadas sobre sua característica de “arena de conflitos” socioculturais, um instrumento assediado por diversas formas de poder por ter em si a capacidade de influenciar as formações pessoais (concepções, pensamentos e práticas) ainda bem cedo no locus escolar. É sabido também que é um Molde- Síntese do que se pretende produzir como mão – de- obra para o mercado e sobre que pessoas “formar” para o convívio social. Por trás desse discurso de qualificação e desenvolvimento de habilidades está, perceptivelmente, a pretensão do controle. Assim

É oportuno questionar as narrativas que posicionam os sujeitos surdos – principalmente aquelas que atravessam o campo do currículo- como narrativas melhores, corretas, verdadeiras, já que instituem significados a partir de ideias particulares sobre saberes, conhecimentos, cultura, língua e outros assuntos (MONGERSTERN, 2010, P. 5).

O currículo, assim, como campo de conflitos é movimentado por meio da consideração de um Conhecimento Oficialque, de per si,já denota o Protecionismoque há em volta dos padrões já estabelecidos e impostos por hegemonia. Assim, a reflexão primária sobre currículo é ainda pertinente: A quem interessa os conteúdos curriculares atuais? A resposta mais imediata a essa questão é: Aos poderes dominantes e ao modelo que projetam como mão- de- obra e como cidadão. Interesses estes que estão implícitos e/ou explícitos sob a forma de direcionamentos no Currículo.

O Ouvintismo Curricular deriva assim da concepção errônea de supremacia de um grupo social sobre o outro, de uma cultura sobre a outra ou mesmo de um indivíduo sobre o outro. Um dos maiores problemas dessa concepção no contexto educacional é os professores serem influenciados por ela e incidem no risco de, não tendo consciência sobre esta, legitima-la na prática docente. Dentre as razões para isso

Talvez a mais importante seja que quase todos os educadores vêm de uma comunidade que é maioria e se baseiam num modelo médico/ religioso da surdez – não é apenas seu trabalho educar, mas também tratar e salvar (KYLE, 2013, P. 16).

A despeito da visão médico/ religiosa da surdez, o Currículo deve ser influenciado por conflitos que instiguem a inserção da visão socioantropológica do surdo que tem base na diferença, pois é a que mais se aproxima da realidade vivenciada pelo surdo. Não se trata, porém, de uma proposição de arranjo curricular visando a um tipo de “resposta palatável” ao surdo, mas de discutir o currículo no sentido de superar o Ouvintismo Curricular, oportunizando tanto o surdo como o ouvinte, assim como a todos os Diferentes no Complexo das Diferenças.

Considerações finais

O Ouvintismo Curricular como movimento de imposições de pensamentos e práticas ouvintes sobre o aluno surdo influencia negativamente sua formação pessoal e acadêmica. Pessoal, porque, ao seguir os padrões de Normalidade pretende construir o surdo como se fosse ouvinte. Acadêmica, porque, ao pretender que o aluno surdo se desenvolva como ouvinte, nega sua forma visoespacial de percepção, o que resulta na falta de acesso ao conhecimento e formação.

O Ouvintismo Curricular como forma de pensar é construído segundo os moldes iluministas de perfeição e normalidade potencializados pela crença de superioridade de um grupo sobre o outro ou de um indivíduo sobre o outro. Já o Ouvintismo Curricular como prática aparece nas ações de descaso e indiferença demonstrados pelo docente em sala de aula em relação ao aluno surdo.

A superação do Ouvintismo Curricular virá com as contínuas discussões e esclarecimentos que se obtêm por meio de pesquisas como essa que denunciam os padrões de Normalidade como influenciadores de pensamentos de superioridade do ouvinte sobre o surdo, assim como práticas acadêmicas que não oportunizarão o aluno surdo em sua aprendizagem. Essa superação virá, em suma, pela consideração do aluno surdo pelas instituições de educação como um Diferente no Complexo das Diferenças.

Referências

BAUMAN, Zygmunt, 2001. Modernidade Líquida/ Zygmunt Bauman; tradução Plínio Dentzien. – Rio de janeiro: Zahar, 2001.

CRUZ, José Ildon Gonçalves da.& DIAS, Tárcia Regina da Silveira. Trajetória Escolar do surdo no ensino superior: condições e possibilidades. Rev. Bras. Ed. Esp., Marília, v.15, n.1, p.65-80, jan.-abr. 2009.

REZENDE, Patrícia Luíza Ferreira. Implante Coclear na constituição dos sujeitos surdos. Tese de Doutorado (Educação). Programa de Pós-Graduação em Educação/PPGE, Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2010.

SKLIAR, Carlos. Atualidade da educação bilíngue para surdos: processos e projetos pedagógicos / Carlos Skliar (org.) -4 ed. Porto Alegre: Mediação, 2013.

SKLIAR, Carlos. A surdez: um olhar sobre as diferenças. Porto Alegre: Medição, 1998.

 

 

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