Educação de Jovens e Adultos (EJA) – Século XXI: Diversas Formas de Aprender e Ensinar ao Longo da Vida

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Educação de Jovens e Adultos (EJA) – Século XXI: Diversas Formas de Aprender e Ensinar ao Longo da Vida
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OLIVEIRA, Irabel Lago de [1]

OLIVEIRA, Irabel Lago de. Educação de Jovens e Adultos (EJA) – Século XXI: Diversas Formas de Aprender e Ensinar ao Longo da Vida. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 04, Vol. 02, pp. 34-45, Abril de 2018. ISSN:2448-0959

Introdução

Aprendizagem é o meio pelo qual o indivíduo pode desenvolver suas capacidades, habilidades e competências, tornando-a significativa ao se transformar e se modificar.

Ao longo de décadas as formas de aprender têm sido analisadas e discutidas por inúmeros estudiosos. Hoje é possível fragmentar essas técnicas de aprendizagens em duas linhas de estudo: os teóricos comportamentais, conhecidos como behavioristas, e os teóricos cognitivistas, chamados de interacionistas.

Os teóricos comportamentais, como Skinner (1904-1990), acreditam que a aprendizagem é resultante de fatores externos, estímulos ambientais ou reforços, ou seja, quando as observações ao mundo externo causam mudanças no comportamento do indivíduo. Há uma resposta ao estímulo recebido, por isso a teoria é conhecida como estímulo-resposta. Conforme Lakomy (2008, p. 24), para que a aprendizagem aconteça, a teoria comportamental considera os seguintes fatores:

– A capacidade do aluno de elaborar associações condicionadas por meio de estímulos e respostas na aquisição de um novo comportamento;

– A lei do exercício ou da prática, ou seja, a constância dos exercícios e da prática com o objetivo de reforçar a aprendizagem;

– A importância da motivação relacionada com a recompensa positiva (elogio verbal ou escrito pelo professor), que estimula a aprendizagem, ou a punição (advertência verbal ou escrita), que enfraquece o comportamento ou resposta não desejada;

– A relevância de estabelecer similaridade entre os problemas resolvidos, bem como repetição para favorecer o insight e a transferência de aprendizagem.

As teorias cognitivas estão embasadas nos conceitos pesquisados e apresentados pelos estudiosos Jean Piaget (1896-1990) e Lev Vygotsky (1886-1934). Conforme Lakomy (2008), elementos como a maturação biológica, o conhecimento prévio, o desenvolvimento da linguagem, o processo de interação social e a descoberta da afetividade são primordiais para aquisição da aprendizagem. Durante o processo de aprendizagem, opondo-se à teoria behaviorista, os aprendizes são seus próprios agentes, que constroem novos conhecimentos ao interagir com os ambientes externos e internos, usarem suas experiências passadas, buscarem e reorganizarem informações, refletirem e tomarem decisões.

Lakomy (2008) cita quatro fatores na teoria Piagetiana causadores do desenvolvimento cognitivo na criança. Contudo, é importante salientar que, apesar de Jean Piaget ter se preocupado como era originado o conhecimento humano (construtivismo psicogenético), e não educacional, seus trabalhos muito cooperaram e continuam cooperando para a análise e estudo de ideias e estratégias de ensino no espaço escolar:

– O fator biológico, em particular o crescimento orgânico e a maturação do sistema nervoso, ou seja, um indivíduo só pode apreender um determinado conhecimento se estiver intelectualmente maturo e, assim, preparado para recebê-lo;

– Os exercícios e as experiências adquiridas na ação da criança sobre os objetos;

– As interações sociais que ocorrem por meio da linguagem e da educação;

– O fator de equilibração das ações que estimula a criança a encontrar respostas para novos problemas – situação que gera, primeiramente, uma situação de desequilíbrio quando cabe a criança incorporar aquilo que lhe é novo – processo de assimilação -, seguido pela busca de equilíbrio, que é obtido quando a resposta certa é incorporada a sua estrutura interna – processo de acomodação. (LAKOMY, 2008, p. 30).

Para Vygotsky, o contexto social e o desenvolvimento cognitivo humano são inseparáveis no processo de aprender. Assim, sua teoria é conhecida como sociointeracionista. Faz-se necessário observar que Vygoksty enfatiza as contribuições da cultura, da interação social e da linguagem e, por outro lado, Piaget evidencia os processos estruturais e biológicos no desenvolvimento cognitivo humano. Contudo, ambos contribuíram intensamente e suas pesquisas permanecem valiosas nas investigações e questões constantes para a percepção do processo de aquisição do conhecimento.

Sob a influência de Piaget e Vygotsky, vários estudiosos desenvolveram o método de ensino-aprendizagem chamado construtivismo. Sendo o conhecimento algo inacabado, a abordagem construtivista defende que o indivíduo participa da construção do seu conhecimento interagindo com o seu mundo físico e social, um processo constante e diário. A aprendizagem acontece quando o aluno modifica não apenas aquilo que já possuía, mas quando também se apodera do novo, interpretando-o e inserindo-o ao seu mundo. Lakomy (2008, p. 45) afirma que no construtivismo “o indivíduo aprende quando consegue apreender um conteúdo e formular uma representação pessoal de um objeto da realidade”.

A autora cita ainda alguns dos pressupostos da abordagem construtivista, como: aprender não é o resultado do desenvolvimento, mas é o desenvolvimento cognitivo ou aquisição de conhecimento; o desequilíbrio facilita a aprendizagem, assim os “erros” dos alunos precisam ser percebidos como resultado de suas percepções, não devendo ser ignorados; o raciocínio abstrato é a força motora da aprendizagem, ou seja, estamos sempre buscando organizar e generalizar experiências ou conhecimentos por meio de representações simbólicas; e a sala de aula deve ser vista como uma comunidade educativa engajada em atividades de discussão, reflexão e tomada de decisões, pois a comunicação entre os elementos do processo educativo estimula o pensamento. É tendo como base esses pressupostos que uma escola deve construir os seus objetivos para a adoção do construtivismo.

Para Knowels (1980 apud CANÁRIO, 2013, p. 55), “Ensinar, como praticar a medicina, é em sua maior parte, uma questão de cooperar com a natureza das pessoas”. Na pedagogia clássica e tradicionalista, o aprendizado era de total responsabilidade do professor; ele era o detentor do saber e, por isso, o ensino e a aprendizagem eram considerados dependentes um do outro. Segundo Sacristán e Pérez Gomes (2000, p. 87), professor da Universidade de Málaga, na Espanha,

[…] os sistemas escolares que temos hoje são do século XIX, adaptados às exigências de uma sociedade que não tem nenhuma relação com a atual. A aprendizagem exigida hoje é de ordem superior, e a escola que temos é dedicada a transmitir informação e pedir que os alunos acumulem, retenham e reproduzam informação.

Dessa forma, diante da globalização, as exigências do mercado de trabalho e a permanente competitividade criada pelo mundo tecnológico, a formação continuada e o ensinar e aprender tornaram-se elementos primordiais de sobrevivência na sociedade moderna. Além do fato de essa sociedade exigir pessoas com uma formação crítica, autônoma, ativa, reflexiva e com competências desenvolvidas, prontas para serem colocadas em prática. Obviamente, esse novo contexto desencadeou a busca por novas abordagens para ensinar e aprender, tanto para a geração adulta como para aquela que já nasce em uma era completamente tecnológica.

Portanto, diante da necessidade de novas abordagens educacionais no século XXI, urge apreender que o professor não é mais o único detentor do conhecimento, seu papel agora deve ser o de um facilitador e mediador da aprendizagem. Sacristán e Pérez Gomes (2000, p. 62) afirmam ainda que “O mais importante é a pedagogia” e cita como exemplo a necessidade do pesquisador (educador) focar no desenvolvimento de competências. Então, à frente dos imensuráveis desafios da sociedade contemporânea, a abordagem pedagógica escolhida para novas formas de aprendizagem precisa levar o indivíduo até as suas competências de resolver problemas, tomar decisões, ter ideias, pensar, criticar, agir e ter uma mente autônoma diante da complexidade do mundo moderno. Assim, a educação possibilitará ao indivíduo descobrir seu potencial, desenvolver suas habilidades, confirmar e usar suas competências adquiridas na educação extra-escolar e na própria vida, seguindo também para uma condição técnica e profissional mais qualificada.

Pedagogia X Andragogia

De acordo com o conceito da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura – UNESCO (2009), a alfabetização é a habilidade para identificar, entender, interpretar, criar, calcular e se comunicar mediante o uso de materiais escritos vinculados a diferentes contextos. Assim, ser alfabetizado não representa apenas dominar o básico da leitura, da escrita e das operações matemáticas. Nos tempos atuais, aprendizagem contínua em todas as fases da vida é essencial para enfrentar os desafios do século XXI, da sociedade e do mundo do trabalho. É preciso lembrar sempre que um dos seus maiores desafios é continuar a formação cidadã para um mundo em constante transformação.

A Pedagogia é considerada a arte de ensinar crianças e jovens, seguindo um modelo no qual a proposta educacional é centrada no professor como o único detentor do conhecimento, os conteúdos são separados da experiência do aluno e das realidades sociais, a aprendizagem é mecânica e baseada em memorizações. Nesse modelo tradicional prevalece uma educação formal e acrítica, na qual o aprendente tem um completo papel de submissão.

O grande educador e filósofo Paulo Freire (1972) acreditava em uma pedagogia libertadora e crítica, dentro da qual defendia uma nova forma de relacionamento entre professores, estudantes e sociedade, pois assim seria possível alcançar uma educação para a decisão e responsabilidade social e política. Para Freire (1972), o espaço pedagógico é um texto para ser constantemente lido, interpretado, escrito e reescrito.

O termo Andragogia, segundo Canário (2013), foi introduzido nas ciências educacionais na década de 1960 por Knowles (1980 apud CANÁRIO, 2013). Desde então as discussões em torno das teorias e ideias sobre a educação de adultos são embasadas nas concepções andragógicas. Segundo Lesne e Minvielle (1990 apud CANÁRIO, 2013), naquela época percebia-se necessário ter o perfil pessoal dos adultos para que, assim, conhecendo suas especificidades, planejasse as ações educativas de forma também específica.

Canário (2013) apresenta uma oposição entre a pedagogia e a andragogia na visão de alguns críticos da educação. Há uma discussão estabelecendo um antagonismo entre a pedagogia e a andragogia, de forma positiva para a andragogia e negativa para a pedagogia. Contudo, o autor cita a visão de Knowels (1980 apud CANÁRIO, 2013), na qual admite que o modelo pedagógico constitui uma parte do modelo andragógico: “[…] o modelo pedagógico é um modelo ideológico que exlclui todas as hipóteses andragógicas, enquanto que o modelo andragógico é um sistema de hipóteses que compreende as hipóteses pedagógicas.” (KNOWLES, 1980 apud CANÁRIO, 2013, p. 67).

De Aquino (2007 apud CARVALHO; CARVALHO, 2010, p. 83), sobre esse antagonismo, afirma que:

A grande discussão hoje existente nos meios universitários e de educação continuada é se a pedagogia é uma forma adequada para o ensino e aprendizagem de adultos ou se a andragogia, uma abordagem que considera a postura crítica e a necessidade da experimentação, seria capaz de trazer resultados melhores para esse grupo particular de aprendizes.

Nosso entendimento é de que existe um contínuo, no qual a pedagogia, também conhecida com aprendizagem direcionada, posiciona-se em uma extremidade, enquanto a andragogia (aprendizagem facilitada) encontra-se em outra. De modo a se ter eficácia e eficiência no processo de aprendizagem, é necessário que professores e organizações educacionais sejam capazes de se mover ao longo desse intervalo e encontrar a combinação correta entre as duas abordagens.

É possível, por meio da Tabela 1, (anexa) analisar os traços específicos das duas abordagens, tanto da Pedagogia como da Andragogia, percebendo que uma pode completar a outra ou ser utilizada, conforme a situação, uma progressão, sem antagonismo.

Tabela 1 – Design: Pedagogy X Andragogy

PEDAGOGY ANDRAGOGY
Climate Researcher-oriented, formal, competitive Mutuality, respectful, collaborative, informal
Planning By teacher Mechanism for mutual planning
Diagnosis of Needs Biological development, social pressure by teacher Mutual self-diagnosis
Formulation of Objectives Postponed application by teacher Mutual negotiation
Design Logic of the subject matter; content units Sequenced in terms of readiness; problem units
Activities Transmittal techniques Experiential techniques (inquiry)
Evaluation Subject-centered by teacher Mutual re-diagnosis of needs; mutual measurement of program

Fonte: Knowles (1984 apud EBERLE; CHILDRESS, 2007).

Heutagogia

A heutagogia parece estar além da pedagogia e da andragogia, talvez um avanço de ambas as formas de aprender diante de um mundo informatizado, oferecendo informações instantâneas e com muito fácil acesso. Essa abordagem propõe uma autoaprendizagem direcionada e flexível, respeitando a forma de aprender do indivíduo. Knowles (1970 apud HASE; KENYON, 2000, p. 8) definiu autoaprendizagem como:
O processo no qual os indivíduos tomam a iniciativa, com ou sem a ajuda de outros, para o diagnóstico de suas necessidades de aprendizagem, formulando metas de aprendizagem, identificando os recursos humanos e materiais para a aprendizagem, a escolha e implementação de estratégias de aprendizagem e avaliação dos resultados de aprendizagem.

Nesse modelo educacional, embasado em muita flexibilidade, o professor fornece recursos, contudo é o aluno que define o que e como a aprendizagem deve ocorrer, além de selecionar aquilo que realmente seja relevante para a sua aprendizagem. Para Hase e Kenyon (2000, p. 57), a heutagogia “aborda questões sobre a adaptação humana à medida que entramos no novo milênio”. Esses autores afirmam ainda que os professores devem centrar-se também na capacidade do aluno em adquirir conhecimentos, e não focar apenas na transmissão de conteúdos disciplinares, ou seja, pensar mais sobre o processo do que sobre o conteúdo, dando oportundiade ao aluno de enxergar seu mundo sob sua ótica, ao invés de destacar apenas o mundo do professor. E permitir que esses indivíduos sejam proativos envolvidos em todo o seu processo de aprendizagem, tornando-se cidadãos plenos.

A abordagem heutagogical surgiu com o uso da internet para a realização de cursos, entretanto suas técnicas podem e devem ser aplicadas em qualquer espaço educacional, já que proprocionam um desenvolvimento da capacidade para a aprendizagem ao longo da vida. A Tabela 2 compara o aprendizado tradicional e heutagogical.

Tabela 2 Comparison of traditional and heutagogical learning

TRADITIONAL CLASSROOM HEUTAGOGICAL LEARNING ENVIRONMENT
Student Role Share information Self-determined learning
Teacher Role Present information; Manage classroom Empowers student learning and provides resources
Content Basic literacy with higher-level skills building on lower-level skills Meaningful, purposeful learning experiences which are relevant to learners’ needs
Curriculum Characteristics Breadth
Fact retention
Fragmented knowledge and disciplinary separation
Flexible curriculum with double-looped learning opportunities
Social Characteristics Independent learning Independent and collaborative learning
Role for Technology Drill and practice
Direct instruction
Facilitates exploration, collaboration, and self-actualization
Assessment Fact retention
Traditional tests
Self-diagnosis; knowledge application

Fonte: Adaptado de Grabe e Grabe (1998 apud EBERLE; CHILDRESS, 2007).

Parece que, de alguma forma, a heutagogy amplia ainda mais a abordagem andragógica, apresentando-se como uma extensão do conceito andragógico, conforme afirma Blaschke (2012). Segundo essa autora, na andragogia, currículo, perguntas, discussões e avaliações são projetados pelo instrutor de acordo com as necessidades dos alunos, e na heutagogy o aluno define o curso de aprendizagem, concepção e desenvolvimento do mapa de aprendizagem, de currículo para avaliação (HASE, 2000). Heutagogy enfatiza o desenvolvimento de recursos, além de competências (andragogia).

A Tabela 3 apresenta uma visão geral de características que ajudam a demonstrar maneiras em que a heutagogy baseia-se e estende-se na andragogia.

Tabela 3 – Heutagogy as a continuum of andragogy. Fonte: Blaschke (2012).
Tabela 3 – Heutagogy as a continuum of andragogy. Fonte: Blaschke (2012).

Na Tabela 4 é possível analisar os traços específicos e suas diferenças entre cada forma de aprender discutidas anteriormente.

Tabela 4 – Características da Pedagogia x Andragogia x Heutagogia

PEDAGOGIA

(aprendizagem centrada no professor)

ANDRAGOGIA(aprendizagem centrada no aprendiz) HEUTAGOGIA(aprendizagem do século XXI)
Os aprendizes são dependentes. Os aprendizes são independentes e autodirecionados. Os aprendizes demandam o autoaprendizado.
Os aprendizes são estimulados de forma extrínseca (recompensa, competição, etc.). Os aprendizes são motivados de forma intrínseca (satisfação gerada pelo aprendizado). Os aprendizes são estimulados individualmente por suas competências.
A aprendizagem é caracterizada por técnicas de transmissão de conhecimento (aulas, leitura designadas). A aprendizagem é caracterizada por projetos inquisitivos, experimentação, estudos independentes. Abordagem ideal para as necessidades de aprendizagem das pessoas que lidam diretamente com as novas tecnologias.
O ambiente de aprendizagem é formal e caracterizado pela competitividade e por julgamentos de valor. O ambiente de aprendizagem é mais informal e caracterizado pela equidade, respeito mútuo e cooperação. O ambiente de aprendizagem está alinhado com a Internet, aplicações multimídias e ambientes virtuais.
O planejamento e a avaliação são conduzidos pelo professor. A aprendizagem deve ser baseada em experiências. O aprendiz tem autonomia sobre o seu aprendizado (autoaprendizado).
A avaliação é realizada basicamente por meio de métodos externos (notas, testes e provas). As pessoas estão centradas no desempenho em seus processos de aprendizagem. As pessoas estão centradas no desempenho em seus processos de aprendizagem.

Fonte: Adaptado de JARVIS (1985, apud DE AQUINO, 2007, p. 70).

Literacia e as Tecnologias da Comunicação e Informação

Literacia é o desenvolvimento de competências referentes ao domínio de escrita, leitura e cálculo. Segundo Ávila (2005, p. 38), “o conceito foi alargado de modo a assegurar outras competências consideradas fundamentais, ou chave, nas sociedades contemporâneas”. Na sociedade moderna, rotulada como a sociedade da informação e do conhecimento, a ausência dessas competências em um indivíduo o afasta de uma vida social ativa e mais justa. Dessa forma, a falta de desenvolvimento das competências de literacia proporciona imensas desigualdades sociais.

Para Perrenoud (2003, p. 6), “a competência está relacionada com o processo de mobilizar recursos como conhecimentos, capacidade e estratégias em diversos tipos de situações e especialmente em situações problemáticas”. Esse autor lembra ainda que o conhecimento antecede a competência, a competência não se opõe aos saberes, contudo competência não é aquisição de conhecimentos, fato que só ocorre quando há aprendizagem e prática da sua utilização.

É necessário criar condições estimulantes para que as competências sejam desenvolvidas, pois aulas bem planejadas apenas transmitem saberes e bons resultados de exercícios apresentados pelos alunos, e segundo Perrenoud (2003), trabalham somente algumas de suas capacidades. O autor afirma que, “para desenvolver competências é necessário colocar o aluno em situações complexas, um problema a resolver, uma decisão a tomar, um projeto a conceber e desenvolver” (PERRENOUD, 2003, p. 59). Aqueles educadores com uma formação construtivista dos saberes, em sintonia com as novas pedagogias e com as teorias construtivistas, têm uma maior facilidade de cooperarem para o desenvolvimento de competências.

Dessa forma, o processo de ensino-aprendizagem requer meios que facilitem o desenvolvimento sociocognitivo, ratificando assim o valor da diversidade metodológica, pois, conforme sejam as competências a serem desenvolvidas, há maneiras diferenciadas de trabalhá-las, despertando maior interesse e motivação do aluno. Nesse cenário, o conhecimento das tecnologias se apresenta como elemento de destaque.

Kenski (2010), em seu livro Tecnologias e Ensino Presencial e a Distância, define tecnologia como “um conjunto de conhecimentos e princípios científicos que se aplicam ao planejamento, à construção e à utilização de um equipamento em um determinado tipo de atividade” (KENSKI, 2010, p. 18). E ainda acrescenta que para construir qualquer equipamento – seja uma caneta esferográfica ou um computador –, o homem precisa pesquisar, planejar e criar tecnologias.

Dependendo do contexto, a tecnologia se apresenta de diferentes formas:

– As ferramentas e as máquinas que ajudam a resolver problemas;

– As técnicas, conhecimentos, métodos, matérias, ferramentas e processos usados para resolver problemas ou facilitar a solução desses problemas;

– Um método ou processo de construção e trabalho, como a tecnologia de manufatura, a tecnologia de infraestrutura ou a tecnologia espacial;

– A aplicação de recursos para a resolução de problemas;

– O termo tecnologia também pode ser usado para descrever o nível de conhecimento científico, matemático e técnico de uma determinada cultura;

– Na economia, a tecnologia é o estado atual de nosso conhecimento de como combinar recursos para produzir produtos desejados. (GEBRAN, 2009, p. 10).

São consideradas tecnologias, também conhecidas como Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC): os computadores pessoais, as câmeras de vídeo e foto (analógicas), a câmera digital, os diversos suportes para armazenar dados, como disquete, CD, DVD, HDs, cartões de memória e pen-drives, a telefonia móvel, a TV por assinatura, o correio eletrônico (e-mail), a internet, a captura eletrônica ou digitalização de imagens (scanners), TV e rádio digitais, as tecnologias sem fio (wireless) etc.

Nas últimas décadas do século XX, assistiu-se a um grande movimento de mudanças nas organizações sociais, políticas, econômicas, científicas e culturais. Esse movimento impulsionou e foi impulsionado pelos avanços das pesquisas, das descobertas científicas e do desenvolvimento dos mais sofisticados meios de informação e comunicação, e pelas complexas interrelações do mercado internacional, cada dia mais globalizado. Dessa forma, essas mudanças no mundo contemporâneo proporcionaram novas exigências para o mundo do trabalho, como a necessidade de uso das tecnologias como condição de acesso à informação e ao mercado. Tornamo-nos, assim, uma sociedade em permanente mudança.

Para Castells (2002), a revolução das tecnologias da informação; a crise econômica tanto do capitalismo quanto do estadismo e sua subsequente reestruturação; e o florescimento de movimentos sociais e culturais, como o feminismo, o ambientalismo, a defesa dos direitos humanos e das liberdades sexuais etc., paralelos e ao mesmo tempo independentes, geraram uma nova forma das relações de produção, de poder e de experiências, produzindo uma nova sociedade.

Estamos vivendo nessa nova sociedade que está se organizando e reorganizando de acordo com as características da sociedade em rede da globalização da economia e da virtualidade, as quais produzem novas e mais sofisticadas formas de exclusão. Urge adentrarmos nessa sociedade de forma crítica, na tentativa de compreender seus instrumentos e dinâmicas de mobilização e expansão, apropriando-nos e utilizando seus recursos e meios de interação para a emancipação humana.

É interessante salientar que as atividades realizadas pelo uso da comunicação, mediada pelo computador, oferecem ao estudante uma compreensão rápida e ampla do mundo no qual está inserido, enriquecendo a formação de conhecimento em várias áreas de estudo.

Portanto, inserir o cidadão em sua educação ao longo da vida no âmbito das tecnologias torna-se uma necessidade humana de sobrevivência global no século XXI, como citam Araújo e Freitas (2007, p. 94):

As profundas alterações no mundo do trabalho, advindas dos processos de globalização, vêm redefinindo novas formas de exercício profissional, com o requerimento de um novo perfil de trabalhador, o que implica a assimilação de novos estilos, novas competências e habilidades, para o exercício de funções mais flexíveis […] Nesse processo, cada vez mais os indivíduos necessitam fazer transições entre antigas e novas formas de trabalho, para operar com outros saberes, outras concepções e outros métodos nas suas relações no e com o trabalho.

Dessa maneira, diante de imensas mudanças do mundo moderno, do surgimento de novos polos de trabalho e da invasão das Tecnologias da Informação e Comunicação (TIC) em nossas vidas, necessita-se também mudar a forma de ensinar e aprender. E, ainda mais, percebe-se que sem o desenvolvimento das competências de literacia, o método de ensino aplicado não agirá sozinho e a aprendizagem por meio das tecnologias fica inviável, fator de inclusão social, pois sendo a literacia um resultado das sociedades desiguais, trata-se de uma profunda análise e discussão sobre maneiras de incluir pessoas excluídas em uma sociedade cada vez mais concorrente e desigual, afinal não apenas a educação escolar é um elemento fundamental para a realização da vocação humana, mas a educação em sentido amplo, em consonância com as demandas da atualidade.

Referências

ARAÚJO, Bohumila; FREITAS, Kátia Siqueira de (Coord.). Educação a distância no contexto brasileiro: experiência em formação inicial e formação continuada. Salvador: ISP/UFBA, 2007. p. 101-118.

ÁVILA, Patrícia Durães. A literacia dos adultos: competências-chave na sociedade do conhecimento. 2005. 545 f. Tese (Doutorado em Sociologia) – Instituto Superior de Ciências do Trabalho e da Empresas do Instituto Universitário de Lisboa (ISCTE/IUL), Lisboa, 2005.    Disponível em: <https://repositorio.iscte-iul.pt/bitstream/10071/577/1/A%20literacia%20dos%20adultos_Patr%C3%ADcia%20%C3%81vila.pdf >. Acesso em: 15 dez. 2013.

BLASCHKE, Lisa Marie. Heutagogy and lifelong learning: a review of heutagogycal practice and self-determined learning. IRRODL, v. 13, n. 1, p. 56-71, jan. 2012. Disponível em: <http://www.irrodl.org/index.php/irrodl/article/view/1076/2087>. Acesso em: 12 out. 2013.

CANÁRIO, Rui. Educação de adultos: um campo e uma problemática. 4. ed. Lisboa: EDUCA, 2013.

CARVALHO, Jair Antonio; CARVALHO, Marlene Pedrote. Andragogia: considerações sobre a aprendizagem do adulto. REMPEC. Ensino, Saúde e Ambiente, v. 3, n. 1, p. 78-90, abr. 2010. Disponível em: <http://www.ensinosaudeambiente.com.br/edicoes/volume%203/artigo5>. Acesso em:

CASTELLS, Manuel. A Era da informação. São Paulo: Paz e Terra, 2002.

DE AQUINO, Carlos Tasso Eira. Como aprender: andragogia e as habilidades de aprendizagem. São Paulo: Pearson Prentice Hall, 2007.

EBERLE, Jane; CHILDRESS, Marcus. Heutagogy: it isn’t your mother’s pedagogy any more. National Social Science Association, 2007. Disponível em: <http://www.nssa.us/journals/2007-28-1/2007-28-1-04.htm>. Acesso em: 20 nov. 2013.

FREIRE, Paulo.  Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro:  Paz e Terra, 1972.

GEBRAN, Mauricio Pessoa. Tecnologias educacionais. Curitiba: ESDE, 2009.

HASE, Stewart; KENYON, Chris. From andragogy to heutagogy. Southern Cross University, 2000. Disponível em: <http://pandora.nla.gov.au/nph-wb/20010220130000/http://ultibase.rmit.edu.au/Articles/dec00/hase2.htm>. Acesso em: 27 nov. 2013.

KENSKI, Vani Moreira. Tecnologias e ensino presencial e a distância. Campinas, SP: Papirus, 2010

LAKOMY, Ana Maria. Teorias cognitivas da aprendizagem. 2. ed. Curitiba: IBPEX, 2008.

ORGANIZAÇÃO DAS NAÇÕES UNIDAS PARA A EDUCAÇÃO, A CIÊNCIA E A CULTURA (UNESCO). O desafio da alfabetização global. 2009.

PERRENOUD, Pierre. Porquê construir competências a partir da escola? 2. ed. Porto, Portugal: Asa Editores, 2003.

SACRISTÀN, J. G.; PÉREZ GOMES, A. I. Compreender e transformar o ensino. 4. ed. Porto Alegre: Artmed, 2000.

[1] Licenciada em Letras com Inglês pela UNIFACS, especialista em EJA, Educação a Distância, Tecnologias e Educação e Mestre em Educação e Sociedade pelo ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa

 

Licenciada em Letras com Inglês pela UNIFACS, especialista em EJA, Educação a Distância, Tecnologias e Educação e Mestre em Educação e Sociedade pelo ISCTE - Instituto Universitário de Lisboa

2 COMENTÁRIOS

  1. Muito bom! E como estou fazendo uma disciplina como aluna especial de do mestrado de EJA, cai como uma luva nos estudos e interpretações.
    Obrigada!!!!

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