Angola: Olhares e Pensares Sobre a Educação no Ensino Técnico e a Atuação dos Professores Brasileiros

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Angola: Olhares e Pensares Sobre a Educação no Ensino Técnico e a Atuação dos Professores Brasileiros
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COSTA, Camila Catarina Kielman Ferreira Aguiar [1], REIS, Sandreane Vidal de Moraes [2]

COSTA, Camila Catarina Kielman Ferreira Aguiar; REIS, Sandreane Vidal de Moraes. Angola: Olhares e pensares sobre a educação no Ensino Técnico e a atuação dos professores brasileiros. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 01, Edição 11,  Vol. 08, pp. 258-275. Setembro de 2016. ISSN: 2448-0959

RESUMO

Um país onde a diversidade cultural é expressa através de dialetos e lendas, onde o advento de uma guerra, nascida pela disputa do poder, trouxe um significativo atraso na continuidade do processo de Educação e consequentemente uma ruptura no incremento da formação profissional, a Angola pós-guerra se encontra atualmente em uma estrutura de Reforma no Ensino Técnico Profissionalizante (RETEP), com a expressiva contribuição de estrangeiros, sobretudo de brasileiros.  Porém, mesmo munidos da tecnologia de ponta em equipamentos nas oficinas e laboratórios dos Institutos Médios Politécnicos, antigos obstáculos comprometem a progressão da RETEP, limitando o desenvolvimento acadêmico do corpo discente. Contudo, a atuação de professores brasileiros que se dispuseram a abraçar a causa da Educação Técnica Profissionalizante em Angola, trouxe novas expectativas e bons resultados, que ainda hoje envolve a todos os participantes.

INTRODUÇÃO

O Ensino Profissional Médio Técnico, de suma importância para um país que necessita se reerguer e se alto sustentar, abriu as portas para uma nova realidade que acompanha o renascimento de uma sociedade fragilizada após trinta anos de guerra.

Mesmo sendo um país bem abastecido de recursos naturais, como reservas minerais e de petróleo, Angola é ainda carente de profissionais capacitados para lidar com esses e outros recursos. Indispensável seria mergulhar na ideia de que uma parceria com países interessados em atuar na área da Educação Técnica Profissional, pudesse ser o ponto de partida para um resgate.

É parte fundamental deste processo a construção de um caráter individual de aceitação frente ao novo, tendo em vista a possibilidade de que a mão de obra estrangeira seria imperativa no auxílio da reconstrução do país. Ou seja, saber que a necessidade de trazer profissionais de outras nações, poderia dar um rumo às tantas ideias que surgiam.

A chamada Revolução Silenciosa, que ocorre atualmente nos Institutos Médios Politécnicos do país, é a realização de um Projeto que envolve a transferência tecnológica entre professores estrangeiros, sobretudo brasileiros, e o corpo docente angolano. A atuação brasileira também se fez necessária em salas de aula, alcançando também o corpo discente. O principal enfoque deste Projeto é a formação e capacitação profissional que habilitam o jovem para desempenhar uma função no mercado de trabalho e posteriormente prosseguir com seus estudos no Ensino Superior, assim como assegurar a formação de professores nos níveis pedagógicos, didáticos, técnico e organizacional.

Na primeira fase do Projeto, a construção de Institutos Técnicos e seu aparelhamento formaram a base necessária para que mais e mais estudantes se mostrassem interessados em prosseguir na nova estrutura de ensino. Somado a isso, a chegada em Angola de profissionais brasileiros para integrar o corpo docente dos Institutos, fez com que o quadro de professores angolanos fosse rapidamente preenchido, talvez pelo leque de novas oportunidades que surgia. Para os brasileiros recém-chegados em Angola, cabia entender que diariamente seriam acometidos por desafios, adaptações e recompensas de diversas formas.

ANGOLA: UMA NAÇÃO, UM FRAGMENTO.

Angola é atualmente um país onde se vê a grandeza de um bem equipado Shopping Center a poucos metros de casas simples e minúsculas, apelidadas de cubículo, construídas com a combinação de tijolos manuais, resto de contêineres e cortinas servindo como porta principal. Tudo isso em meio aos inúmeros canteiros de obras a céu aberto que ganharam espaço na nova urbanização e sociedade ressurgida.

Após a guerra, tanto as lideranças governamentais quanto a população civil se viram inseridos em um mundo que, diferente deles, não parou de evoluir e que não teve seu crescimento tecnológico interrompido ou defasado. O atual livre acesso à internet e as redes sociais trouxe à tona os fatos que ocorriam fora dos limites da guerra, e esses fascinantes novos conceitos de realidade precisaram com urgência adentrar e passar a fazer parte do cotidiano de um país que despertava.

Diferente da elite emergente, que detinha grande poderio econômico e que puderam enviar seus filhos para estudar na Europa, os filhos do povo, que permaneceram no país durante os conflitos, precisavam ressurgir e se firmar na nova sociedade que começava a caminhar.

Para os que ficaram, existiam os Centros de Formação Profissional, que desde o início do século XIX tentavam sem sucesso se firmar, implantando políticas educacionais primitivas como forma de dar uma rápida resposta às necessidades dos setores econômicos e sociais. Essa formação inteiramente básica começou a dar sinais de falência desde o surgimento oficial em 1977.

Nas áreas rurais, a destruição contínua da infraestrutura escolar, provocava absentismo generalizado dos professores e um baixo índice de frequência por parte dos alunos. Com a guerra o governo estava incapaz de atender a necessidade de investimento para a construção de novas escolas, assim como manter o corpo docente que em sua maioria se apresentava desprovido de habilidades necessárias ao exercício da profissão.

Durante 27 anos (1975-2002) Angola foi acometida por uma guerra civil que começou imediatamente após esse país africano tornar-se independente do domínio de Portugal, ocasionando uma disputa interna pelo poder entre os partidos do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA) e a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA). O MPLA foi o partido do então Presidente da República, Engenheiro José Eduardo dos Santos, que exerce o cargo desde 21 de Setembro de 1979 e para o qual foi reeleito em 02 de Setembro de 2012.

Nesse período mais de 500 mil compatriotas foram mortos e grande parte da população forçada a migrar de seus municípios para outras localidades, dentro e fora do país. Somando isto ao crescente recrutamento de crianças-soldado para a utilização nas frentes de combate, elevando consideravelmente o índice de evasão escolar, paralelamente ligado a diminuição do interesse por parte do governo nas questões que envolvessem a Educação.

Apesar do processo de pacificação só ter início oficialmente em 04 de Abril de 2011, após a assinatura do “Protocolo de Entendimento” (termo angolano para “Tratado de Paz”) entre o governo e a UNITA, dois anos antes já se apresentava sinais de que guerra tenderia para o seu término e que os angolanos começariam o processo de reconstrução econômica e social interna, passando a apresentar propostas para uma Educação fragilizada e quase inexistente no país.

Após reuniões para a reformulação do Ministério da Educação de Angola, três grandes desafios passaram a colocar-se ao nível do setor:

A necessidade de se criar um sistema eficaz de Formação Técnico Profissionalizante (FTP);
A necessidade de expandir e generalizar o acesso a um maior número de cidadãos ao ensino primário e a FTP;
A necessidade de levar a FTP aos jovens sem negligenciar a inserção social e profissionalizante dos grupos menos favorecidos.

Além disso, foi determinante como princípio geral da Lei da Escolaridade em Angola a definição da língua portuguesa como a língua oficial, com viabilidades de recursos aos dialetos africanos, tais como: Kikongo, Umbundo e Kimbungo.

Diante das dificuldades encontradas ao longo dos anos e com toda a reformulação do sistema governamental em vigor, viu-se a necessidade de definir e aprovar estratégias para uma intervenção completa no Sistema Educacional. A ideia era criar um projeto inovador que apresentasse a:

Reforma curricular dos cursos técnicos profissionalizantes;
Reabilitação e a criação de infraestrutura;
Aparelhamento dos laboratórios e oficinais;
Especialização e o aumento do corpo docente.

ENSINO TÉCNICO: O CAMINHO PARA A RECONSTRUÇÃO.

No ano 2000, tendo em vista a preparação técnica inserida a uma Política Educacional Reformulada, voltada para jovens candidatos a empregos e/ou trabalhadores, e para responder às necessidades do país, a luz da tecnológica, dá-se o surgimento da Reforma do Ensino Técnico Profissionalizante (RETEP) que implica na criação de uma rede de Institutos Médios Politécnicos e na reabilitação das escolas técnicas já existentes.

Com isso, em pouco tempo, surgem em todas as províncias de Angola a concretização e materialização desse Projeto. Majestosos prédios escolares, bem aparelhados de oficinas, laboratórios, quadra poliesportiva, anfiteatro e salas de aula bem equipadas. Os Institutos aparecem como uma nova esperança para muitos jovens que a tempos não sonhavam com o futuro dentro do limite da República.

Inicialmente a RETEP contou com verbas provenientes do Programa de Investimentos Públicos, o que mais tarde se associou a uma linha de financiamento de Israel e posteriormente da China. Muitos dos Institutos que atualmente funcionam em Angola foram construídos por mãos de obra chinesa que ainda atua na manutenção e preservação desses prédios.

Para promover uma ligação formal do aluno ao mundo empresarial e ao mercado de trabalho, a RETEP propunha ainda:

A introdução da disciplina de Projeto Tecnológico;
O ensino da informática em todos os cursos;
Realização de provas de aptidão profissional para conclusão dos cursos.

Em Janeiro de 2000 foi assinado o primeiro contrato de prestação de serviço, de cerca de 50 milhões de dólares americanos, com uma empresa portuguesa. O objetivo era promover o desenvolvimento mútuo de relações institucionais e a colaboração integra com o projeto RETEP.

Nesse período se iniciaram as reuniões no Ministério de Educação e Cultura para as atividades de levantamento dos programas de ensino, cursos, sistemas de avaliação, cargas horárias, o estudo de projetos de infraestrutura, mobiliários, equipamentos didáticos, ferramentas de ensino, entre outros.

De setembro de 2000 a janeiro de 2001 começou o processo de organização dos planos curriculares dos seis cursos que foram escolhidos como áreas de formação:

Construção civil;
Eletricidade e Energia;
Eletrotécnica e Telecomunicações;
Informática;
Mecânica;
Química.

Cada um desses cursos foi estruturado para ter duração de três anos e desde então obrigatórios em todo o país, sendo organizados da seguinte forma:

Construção civil e obras públicas:

Desenhador projetista;
Técnico de obras;
Saneamento e hidráulica;
Estruturas de concreto armado e fundações;
Estradas;
Edificações;Técnico de topografia.

Eletricidade, Eletrônica e Telecomunicação:

Técnico de eletrônica industrial e automação;
Técnico de eletrônica e telecomunicações;
Técnico de eletrônica/áudio, vídeo e TV;
Técnico de energia e instalações elétricas.

Formação em Informática:

Técnico de gestão e sistemas informáticos;
Técnico de mecatrônica;
Técnico de informática;

Formação Mecânica:

Técnico de mecânica;
Operador de manutenção industrial
Operador de máquinas e motores.

Formação de Química:

Técnico de química industrial;
Técnico de química/petroquímica;
Controlador de ambiente e qualidade.

Após a conclusão da 9ª classe, que no Brasil é conhecida como último ano do Ensino Fundamental, o aluno ingressa sequencialmente no Ensino Médio Técnico e além de continuar com a formação geral (português, matemática, física, química), pode escolher um entre os seis cursos da RETEP e concluir a etapa pré-universitária já com certificado de formação profissional.

A ideia principal da RETEP era capacitar o individuo para que ao ingressar na universidade pudesse estar também atuando em indústrias, canteiros de obras e prestação de serviço técnico, para acelerar o desenvolvimento econômico e cultural do país.

Para que os cursos pudessem atender a nova reformulação da RETEP deu-se a instalação dos seguintes laboratórios e oficinas: informática, multimídia, eletrônica, robótica, hidráulica, máquinas elétricas, construção civil, telecomunicações, pneumática, física e química e práticas oficinais (para aprendizado na execução de formas de pilares e vigas, testes de concreto, entre outros estudos).

Porém, em meio a tantas estratégias dinâmicas e bem estruturadas, projetadas para solucionar as carências do Ensino Profissionalizante no país, havia ainda a necessidade da contratação de profissionais dispostos e se dedicar de maneira interina à nova realidade de uma nação que despertou para uma reforma urgente na Educação, mas que ainda precisava de auxilio para alavancar o processo.

ANGOLA E BRASIL: UMA PARCERIA OU UM RESGATE?

Foi então que um Projeto revolucionário, surgido de uma ideia brasileira em Angola, de montar uma empresa de prestação de serviços de qualidade nas áreas de docência, formação de docentes, certificação, consultoria técnica e de gestão, ganhou espaço e se concretizou em um contrato de três anos.

Com isso, a empresa selecionada que foi contratada teria que levar profissionais brasileiros para o continente africano e o pré-requisito para que pudessem se adequar ao sistema que a RETEP propunha, era que tivessem disposição para se doar completamente à educação profissional de alunos angolanos, em tempo integral.

Tendo início em meados de 2007 até o final de 2011, a parceira Brasil/Angola, foi bem aceita. O Brasil, com seus atletas do futebol e as novelas que passam nas emissoras de Angola, tem um ponto forte de aceitação e carisma, e não poderia ser diferente tendo com eles os próprios brasileiros atuando numa área fragilizada e sedenta de novas oportunidades. A ideia de ter o Brasil auxiliando no desenvolvimento da Educação trouxe novas esperanças para a massa estudantil que até então só assistia em silêncio e a distancia.

O foco principal desta parceria era passar para os angolanos os conhecimentos técnicos profissionais, com demonstrações práticas, aulas expositivas, reuniões, visitas técnicas em indústrias, fábricas e canteiros de obras, para que os mesmos pudessem atuar futuramente no ensino, levando adiante o conhecimento adquirido no período e tornar possível a agilidade no processo de reconstrução do país.

Os profissionais que foram sendo aprovados no processo seletivo feito pela empresa no Brasil, após chegar a Angola eram encaminhados aos Institutos Médios Politécnicos situados em todas as províncias do país. Como se tratava de ministração de disciplinas de curso técnico, para os profissionais que fossem atuar nas salas de aula, laboratórios e oficinas, sendo eles técnicos em edificações, eletrotécnicos, tecnólogos e os graduados em Arquitetura, Química, Biologia, Física, Engenharias civil, mecânica e elétrica, não foi exigida à formação acadêmica ou a especialização na área de docência.

Porém, para cada Instituto onde existisse um grupo de professores brasileiros, foi designado um professor gestor do ramo da Pedagogia, também selecionado no Brasil, para assisti-los e auxiliá-los diariamente. Isso fez com que os novos professores tivessem acesso às metodologias e técnicas para construção de planos de aula, ementas, entre outras incumbências.

Para garantir ainda mais a seriedade do processo, cada professor, incluindo o professor gestor de cada grupo, ficava responsável pela confecção de um relatório mensal contendo fotos em anexo, que era entregue ao Ministério da Educação de Angola, para que o impacto causado pela atuação brasileira nos Institutos pudesse ser acompanhado mês a mês.

O relato de cada professor trazia à tona a realidade de que toda a semana mais e mais ações surgiam, à medida que iam aparecendo as barreiras que estavam há muito tempo acomodadas no cotidiano dos professores e alunos. Barreiras estas que gritavam, por exemplo, quando a cada tentativa de entrava nos laboratórios a falta de energia elétrica os fazia retornar para a sala de aula convencional.

Muitas vezes isso levava o professor a interromper a aula para solicitar a alguém que ligasse o gerador. Como num caso separado em Luanda, onde um professor brasileiro, sem ter resposta aos inúmeros pedidos para inserção de postes de eletricidade que alimentassem a rede de energia do Instituto que ele trabalhava, foi pessoalmente à sede da Empresa de Distribuição de Energia Eléctrica (EDEL), responsável pela distribuição de energia elétrica em Angola, saindo de lá com a autorização para o serviço. Em poucos dias, dezenas de postes de iluminação estavam fazendo parte da paisagem.

Atitudes como estas traziam cada vez mais os alunos para perto desses educadores proativos. Isto também serviu para resgatar no âmago angolano a necessidade de voltar a ter esperança no próprio desejo de mudança.

A parceria nascida da convivência entre os locais e os estrangeiros, fez com que alguns paradigmas fossem revisados e moldados para nova realidade de que, naquele período, o professor brasileiro se tornava, sem perceber, um modelo. Sendo necessário a retomada de antigos valores varridos pelas circunstancias. Como poderia adentrar um sistema totalmente novo de Educação se o intelecto inconsciente estava paralisado na frase: “Isso é Angola. É mesmo isso! ”, isto é, “Nascemos assim. Não há o que se fazer”. Essa é uma realidade conhecida e vivenciada por uma população castigada, mas forte para reerguer-se.

OS PROFISSIONAIS: ANGOLA x BRASIL

Os professores angolanos que estavam em Angola no momento em que os brasileiros começaram a ingressar nos Institutos, não eram acostumados à realidade da internet, da energia elétrica disponível, dos equipamentos de audiovisual usados em sala de aula, das gincanas, da utilização do lúdico como metodologia de ensino e das novas propostas de aprendizagem.

Metade da formação dos professores angolanos que entravam, nos Institutos era proveniente dos Centros de Formação Profissional, anterior a RETEP, e outra metade tinha concluído os estudos técnicos na Rússia ou em outro país.

A grande maioria dos professores que integravam o corpo docente de um Instituto, como por exemplo, de Construção Civil e Instalações e Energia Elétrica, não estava cursando Engenharia na universidade, e sim Direito. Ou seja, eles apenas passavam o conhecimento que aprenderam na básica formação técnica, sem a valorização das especializações por área de atuação. Isso acabou se tornando o carro chefe para a consolidação dos professores brasileiros na apresentação de produto para o Ministério da Educação de Angola, pois vários minicursos foram oferecidos aos docentes angolanos, visando o aperfeiçoamento do que eles próprios ensinavam.

Muitas vezes o professor tendia para um curso diferente na universidade, por não se sentir o profissional que o certificado de formação técnica explicitava. Isso trouxe por muito tempo uma insatisfação acomodada.

Com a convivência diária e quase que em tempo integral das duas nações, houve a integração necessária para se identificar e conhecer as carências e prioridades que cada Instituto apresentava. Não só os alunos, mas professores angolanos se mostravam interessados em interagir com esse “novo” método de ensino que, para além da sala de aula, levava as classes para dentro das fábricas, em visitações técnicas nas aulas de automação e robótica, e para dentro dos canteiros e obra, para que visualizassem a concretagem de uma laje, nas aulas de Construção Civil.

Porém, antigas tradições iam de encontro à disposição e à vontade de muitos deles em acelerar o processo da reconstrução do país. Uma delas é a cultura do óbito, que é quando alguma pessoa morre em Angola e a família providencia comes e bebes para um velório que leva alguns dias ou uma semana inteira, mesmo já tendo ocorrido o enterro. Com isso, os parentes e amigos da pessoa falecida, podem faltar trabalho e aula durante todos os dias do óbito, sem que haja repreensão por parte dos patrões ou professores, no caso de alunos.

Um dos maiores desafios encontrados no dia-a-dia do trabalho de profissionais brasileiros em Angola, foi sem dúvida a constante falta de luz. Isso porque a utilização de equipamento em sala de aula que necessite de pontos de saída de energia é quase que obrigatório. Muitos brasileiros tiveram que reaprender a trabalhar apenas com o giz e o quadro negro ou preparar power points e esperar a oportunidade de um gerador em funcionamento no Instituto, para ministrar as aulas. No Brasil, ao se dar uma aula de anatomia humana em Biologia, um vídeo sobre o assunto ou apresentação em Datashow já representa o básico que se pode ter. Em Angola, a mesma aula de anatomia não é dada ou simplesmente é baseada na leitura das partes do corpo, ficando a imaginação a critério de cada um.

Os laboratórios de informática e de práticas oficinais entregues pela RETEP, estavam repletos de equipamentos novos e materiais para os ensaios, porém nunca tinham sido usados desde a inauguração. O motivo disso era a falta de professores capacitados para adentrarem aos laboratórios de modo a desenvolver a práxis do processo de ensino.  Muitos professores de Construção Civil não conheciam os softwares necessários ao curso e a matriz curricular que ministravam.

Com isso, houve uma iniciativa brasileira de transferência tecnológica onde os professores angolanos, durante o período de recesso escolar, continuariam no Instituto e teriam o acompanhamento dos profissionais brasileiros para juntos abrirem as portas dos laboratórios e começarem o processo de familiarização com as máquinas ali depositadas. A ideia era fazer com que os angolanos aprendessem, por exemplo, o programa Auto CAD, no caso do curso de Construção Civil, e na volta às aulas passassem a utilizar o computador para ensinar aos alunos a desenhar as plantas de forma gráfica e não mais à mão livre.

A força de vontade deles era o que impulsionava muitos brasileiros a querer se envolver a cada dia em novas estratégias, para adequar os fundamentos da RETEP a própria realidade de Angola.

Se para o profissional brasileiro que antes nunca tinha estado em uma sala de aula havia comoção e vontade de fazer mais, com os próprios licenciados experientes não foi diferente. Diante de tantas limitações e dificuldades muitos deles tiveram que reavaliar seu conceito como docente, ao pensar na volta para a realidade do Brasil.

Uma das coisas que mais chama a atenção e que faz toda a diferença na forma de avaliação é a quantidade de pontos que um aluno pode ter em um só teste ou prova. No Brasil o limite máximo que uma pessoa pode alcançar é a nota dez. Em Angola, o valor máximo é vinte. E essa quantidade de pontos tornou confusa a adaptação de muitos professores brasileiros, pois o que para eles seria uma boa nota, na verdade era o mínimo, em Angola.

PROFESSORES BRASILEIROS, ATÉ ONDE A AJUDA CHEGA?

Uma das metas que os brasileiros apresentaram ao Ministério da Educação e que procuravam cumprir mensalmente eram as atividades de integração nos Institutos. Isso fazia com que houvesse mobilização tanto de alunos quanto de professores e essas atividades permeavam a introdução de: feiras culturais, olímpiadas de matemática, disputas tecnológicas entre os Institutos da RETEP, torneios esportivos, entre outros. A ideia era trazer algo diferente e inovador para uma cultura formal e acostumada ao ciclo dos testes e provas como única forma de avaliação.

Esse tipo de integração sócio cultural, nunca tinha sido imposto em nenhum Instituto ou Escola anteriormente, e no começo surgiu como obstáculo para a concretização das ações de cada meta, pois o receio frente ao novo fazia com que os angolanos recuassem a cada nova apresentação de proposta.

A primeira Feira das Nações organizada por uma equipe brasileira de professores, apesar da atenção e do apoio direcionados ao acontecimento, não obteve os resultados esperados. A preparação de eventos como este, tão comuns em escolas brasileiras, se fez necessária em Angola pela observância de que temas que não tivessem haver com a cultura africana, eram facilmente descartados. A política interna de cada instituição, devido às dificuldades em se obter fontes de pesquisa, obrigava a utilização do método empírico como único modelo de apresentação de resultados. Isso acontece porque, tanto o corpo discente quanto o docente são pouco familiarizados com os sites de busca na internet, e fazer e avaliar um trabalho cujo tema possa ser pesquisado com o avô dentro de casa se torna mais viável do que sair a procurar de uma Biblioteca Pública, que são quase inexistentes.

Para que o advento da Feira das Nações fosse enxergado como inovação acadêmica e não como entrave, diversas estratégias tiveram de ser tomadas. Uma delas foi a de levar a Direção do Instituto envolvido, a ideia de que uma Rede de Televisão Nacional pudesse estar transmitindo para todo o país os melhores momentos do evento. A visão do status que seria gerado por essa transmissão, foi um dos pontos positivos para o aceite da atividade da Feira, porque a disputa entre os Politécnicos era inerente ao processo de mantenedor da RETEP. Após o sorteio dos países selecionados, os professores brasileiros passaram ao acompanhamento diário dos alunos, e prevendo as dificuldades que poderiam ser encontradas no decorrer do processo, foi disponibilizado para eles um material de pesquisa impresso, com textos, cartazes informativos, fotografias de comidas, roupas tradicionais e pontos turísticos. Foi feito também um esquema semanal para ensaios das coreografias de dança típica, para o dia da apresentação, e reuniões semanais com os líderes de turma.

Porém, mesmo com todo esse estímulo, a maioria dos alunos e professores angolanos não demonstrava se importar com a atividade e regularmente traziam queixas e apresentavam problemas em se relacionar com outros temas que não fosse a própria África. Muitos se perguntavam qual o real motivo da necessidade de se estudar outras culturas e isso trouxe uma desaceleração, gerando a possibilidade do cancelamento da Feira.

Tendo em vista essas e outras dificuldades e para não haver a anulação da meta institucional, os professores brasileiros não viram alternativa se não aceitar um pedido da Direção angolana do Instituto e reunir os alunos para comunicar que, as turmas vencedoras também receberiam prêmios em dinheiro, além dos pontos nas notas de algumas disciplinas.

Com esse incentivo, houve a retomada da mobilização interna de cada turma e a Feira aconteceu. Porém, com deficiente resultado final, não havendo pesquisas além daquelas que tinham sido impressas e entregues para os alunos no início. Apenas esse material estava sendo apresentado ao júri, e se encontrou a disposição em cima das bancadas de exposição nas tendas de cada país. Não houve acompanhamento dos outros docentes, e algumas discordâncias fizeram com que muitos não comparecessem, alegando que a Feira seria um meio de desviar o foco das disciplinas do Ensino Técnico. Para muito, ajudar em uma nova missão acadêmica soava como desnecessário, e muitos projetos foram extirpados no meio do processo de desenvolvimento. A própria sociedade não entendia o motivo de se fazer algo novo e “revolucionário” como uma Feira de Ciências ou um torneio de matemática.

Para muitos, a própria cultura angolana bastava e fugir da aula convencional inserindo uma peça de teatro anual sobre a encenação do alambamento (noivado tradicional em Angola), satisfazia.

Contudo, mesmo com tantas barreiras, tradições e padrões que pareciam inabaláveis, o povo angolano sempre respeitou a iniciativa brasileira de mudança e adequação, encarando tudo como forma de bem feitorias e compromisso com o futuro de Angola.

CONCLUSÃO

A necessidade de uma renovação de estrutura ministerial, sobretudo na área da Educação, atraiu e gerou benefícios com a fusão de culturas, ecoando por todo território angolano. O que tornou viável a parceria entre Angola e Brasil foi o próprio desejo nacional de mobilização popular, inerente deste os tempos pré-coloniais, em prol do fortalecimento o país.

Mesmo com toda essa avalanche de novas propostas e tendo em mãos projetos revolucionários de melhoria educacional, é de se levar conta que não existiam condições financeiras ideais para o início do Projeto RETEP, apesar de patrocínios recebidos. Porém, a coragem com que o governo avançou com esse Projeto grandioso, ainda em momentos finais de guerra, traz a reflexão que nem sempre é necessário um grande orçamento para que uma ideia saia do papel. O projeto da RETEP prossegue com muito êxito e também com muitas dificuldades.

Mas até que ponto os brasileiros contribuíram para o processo de formação?

Não era fácil para uma população marcada pela guerra, tentar reanimar dentro de si mesma a vontade de crescer e de interagir com o novo mundo que nascia. Apesar de que estratégias e projetos surgiam a todo o momento e com carga total, de que adiantaria lançar essas propostas aprovadas nas mãos de antigos combatentes que deixaram a zona de conforto vivenciada para as novas gerações? O certo seria que houvesse primeiro a mudança na reestruturação pessoal de cada individuo. Talvez fosse necessário mais tempo. Mais dedicação. Mais métodos de transferências tecnológicas a esses milhares de jovens sedentos por conhecimentos.

A riqueza de uma nação está nos seus cidadãos desde que possuam os instrumentos necessários ao seu desenvolvimento. E não seria diferente com Angola, pois, através de notícias obtidas em redes sociais, é admirável saber que alunos que foram encaminhados ao estágio durante a estadia brasileira nos Institutos, hoje estão empregados e muitos já assumiram cargos de importância dentro de fábricas, empreendimentos, hospitais e indústrias, num país que segue em obras.

APÊNDICE

Apresentação de dança típica da Índia. 1ª Feira das Nações do Instituto Médio Politécnico de Cacuaco, Luanda. Ano 2011.
Apresentação de dança típica da Índia. 1ª Feira das Nações do Instituto Médio Politécnico de Cacuaco, Luanda. Ano 2011.
Oficina de Práticas Oficinais do Curso de Obras e Construção. Civil: Aula de confecção de maquete. Ano 2010.
Oficina de Práticas Oficinais do Curso de Obras e Construção. Civil: Aula de confecção de maquete. Ano 2010.
1º aula no Laboratório de Informática, após a conquista brasileira da instalação de energia elétrica no Instituto. Ano 2010.
1º aula no Laboratório de Informática, após a conquista brasileira da instalação de energia elétrica no Instituto. Ano 2010.
TRANSTEC: Transferência Tecnológica entre professores brasileiros e angolanos. Aula de Energia e Instalações Elétricas. Ano 2010.
TRANSTEC: Transferência Tecnológica entre professores brasileiros e angolanos. Aula de Energia e Instalações Elétricas. Ano 2010.
Visita técnica em obras. Alunos de Construção Civil. Ano de 2010.
Visita técnica em obras. Alunos de Construção Civil. Ano de 2010.
Aula de Instalações Elétricas. Professor brasileiro em um Instituto Médio Politécnico de Luanda. Ano 2011.
Aula de Instalações Elétricas. Professor brasileiro em um Instituto Médio Politécnico de Luanda. Ano 2011.
1º Curso de AutoCAD para alunos e professores. Ano 2010.
1º Curso de AutoCAD para alunos e professores. Ano 2010.
Entrega de Certifica do Curso de AutoCAD. Primeira turma de alunos dos Instituo Médio Politécnico de Angola. 2010
Entrega de Certifica do Curso de AutoCAD. Primeira turma de alunos dos Instituo Médio Politécnico de Angola. 2010
Marcas da guerra civil. Casa situada na província de Benguela.
Marcas da guerra civil. Casa situada na província de Benguela.
Vista do Instituto em Cacuaco, Luanda. Ano 2010.
Vista do Instituto em Cacuaco, Luanda. Ano 2010.
Grua transportadora feita pelos alunos de Energia e Instalações Elétricas para a apresentação na Feira EDUCA ANGOLA. 2010
Grua transportadora feita pelos alunos de Energia e Instalações Elétricas para a apresentação na Feira EDUCA ANGOLA. 2010
Apresentação de seminário: alunos de Instalações Elétricas.
Apresentação de seminário: alunos de Instalações Elétricas.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ALEXANDRE, Valentim (1979), Angola, Origens do Colonialismo Português Moderno (1822-1891), Sá da Costa Editora, Lisboa;

CARMO, Hermano (2000), Hipóteses sobre o Contributo dos Portugueses no Processo de Reabilitação Pós-Guerra, Revista Discurso, Universidade Aberta, Lisboa;

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VVAA (2004), A Reformado Ensino Técnico-Profissionalizante, implementação do Projeto RETEP, Ministério da Educação, Luanda;

ZAU, Maria Ermelinda (2007), Uma Revolução Silenciosa em Angola, Ministério da Educação, Luanda.

[1] Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Faculdade de Tecnologia e Ciência – FTC, Arquiteta e Urbanista pela Universidade Salvador – UNIFACS

[2] Especialista em Metodologia do Ensino, Master Business Administration em Educação Cognitiva: Gestão da Aprendizagem Mediada, Pedagoga pela Faculdade de Educação da Bahia.

Como publicar Artigo Científico
Especialista em Metodologia do Ensino Superior pela Faculdade de Tecnologia e Ciência – FTC, Arquiteta e Urbanista pela Universidade Salvador – UNIFACS Arquiteta e Urbanista graduada pela Universidade Salvador - UNIFACS e pós-graduada em Metodologia do Ensino Superior pela Faculdade de Ciências e Tecnologia - FTC. Possui experiencia em Angola, onde atuou como professora do Ensino Técnico Profissionalizante de Construção Civil no Instituto Médio Politécnico de Cacuaco, em Luanda, nos anos de 2010 e 2011. Nesse período participou do deenvolvimento de Projetos Arquitetônicos para o Grupo Aldeia, empresa angolana, sendo a responsável pela crianção dos Stands para a Feira Educa Angola. Também em Luanda, foi coordenadora do programa de Monitores do Curso de Desenho assistido por computador, no mesmo Instituto. No Brasil, trabalha em seu escritório de Arquitetura e integra o corpo docente do IFBA - Instituto Federal da Bahia, campus Brumado, ministrando disciplinas no curso Técnico em Edificações. É também Autora do livro QUANDO O DIA AMANHECE CINZA, publicado em 2009 pela Editora Kalango.

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  1. Camila, gostei de ler seu artigo o qual me levou de volta a Benguela (Lobito) e Sumbe, províncias onde também atuei como gestor, professor líder e docente em 2010 e 2011. As lembranças são muito boas, a experiência super gratificante; eu faria de novo aquele trabalho, mesmo com todas as dificuldades que você pontua no seu magnífico artigo. Pena que o projeto não foi adiante com os brasileiros, mesmo com a exigência das comunidades atendidas, ao que comentam, por questões políticas. Em 2010, o projeto vencedor do Educa Angola foi a Planta Piloto de Biodiesel, criação do professor Juraci, também baiano, engenheiro químico da nossa equipe de Lobito. Foi um projeto multidisciplinar, onde também atuaram nossos alunos de Metalomecânica e Manutenção Industrial. Continuo na atividade docente, na área de mecânica industrial. Vamos em frente, a luta pela educação de qualidade é árdua, vários interesses estão em jogo, alguns deles nada têm de útil para as comunidades. Mas, os que têm compromisso com a formação integral do ser humano sabem o caminho que devem trilhar e os obstáculos que terão de ser vencidos. Isso é o que nos move. Grande abraço, sucesso.

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