Alterações da linguagem na criança autista e o impacto social: A importância da instrumentalização familiar

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ARTIGO DE REVISÃO

SBERVELIERI, Tânia [1], DIAS, Rosane Edmaig Arruda [2]

SBERVELIERI, Tânia. DIAS, Rosane Edmaig Arruda. Alterações da linguagem na criança autista e o impacto social: A importância da instrumentalização familiar. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 10, Vol. 10, pp. 21-35. Outubro de 2019. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/educacao/alteracoes-da-linguagem

RESUMO

O Transtorno do Espectro Autista é um distúrbio do neurodesenvolvimento caracterizado por alterações qualitativas das interações sociais e da comunicação e por um repertório de interesses e atividades restrito, estereotipado e repetitivo. Desde o início dos primeiros relatos científicos até a atualidade, há o consenso de que a linguagem é um dos sinais clínicos mais evidentes no autismo em suas características de aquisição, desenvolvimento e peculiaridades, evidenciando a importância da comunicação na vida desses indivíduos. Em função das características neurobiológicas e da complexidade de fatores ambientais, pais e familiares necessitam de apoio e medidas interventivas que os auxiliem para o enfrentamento emocional nas situações cotidianas de estresse e frustração nas dificuldades comportamentais, linguísticas e\ou cognitivas de seus filhos. Esse artigo tem como objetivo correlacionar os distúrbios da comunicação da criança autista e seu impacto na família, justificando a importância de um olhar contemplativo na clínica desses indivíduos.

Palavras-chave: Autismo infantil, linguagem.

1. INTRODUÇÃO

O autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento, no qual ocorre uma ruptura nos processos fundamentais de socialização, comunicação e aprendizado. Esses transtornos são coletivamente conhecidos como Transtornos Invasivos do Desenvolvimento² (TID).

Desde Kanner e Baltimore (1944), um consenso envolve os diversos autores que se dedicaram a estudar essa patologia: a atribuição da linguagem em um papel central de sua descrição. Dentre as dificuldades descritas estão: a inversão pronominal (substituição do uso da primeira pessoa do singular pela terceira), a rigidez de significados (a dificuldade em associar diversos significativos a um único significante) e o fato de que as alterações mais significativas dizem respeito às funções comunicativas de linguagem .

Outros autores como Berry e Eisenson (1956) referem-se à ecolalia, alterações de timbre e prosódia, fala como autoestimulação e sem função comunicativa e uso instrumental de outras pessoas, como características da linguagem do autista.

Ingram (1975) menciona aspectos típicos desses indivíduos como a repetição imediata mais comum que a tardia, inversão pronominal, afirmação indicada pela repetição, frases incompletas e agramaticais e compreensão aparentemente prejudicada.

Segundo Bouton (1976), geralmente os problemas de linguagem do autista tornam-se mais evidentes em torno dos dois anos de idade, fase em que se espera um maior desenvolvimento da criança.

Alguns pesquisadores (WETHERBY e GAINES, 1952; LANCY e GOLDSTEIN, 1982; SIGMAN e UNGERER, 1984) buscaram desenvolver instrumentos investigativos para atenuar as interferências das dificuldades da linguagem nas áreas do desenvolvimento neuropsicológico, demonstrando a importância da linguagem na investigação clínica.

A relação entre Autismo Infantil e a síndrome de Asperger tem sido frequentemente discutida na comunidade científica, onde trabalhos pressupõem características de alterações da linguagem comuns entre os dois quadros (SZATMARI, 1986; GOODMAN, 1989 e GATH, 1989) além do conceito que na síndrome de Asperger não ocorrem distúrbios severos da linguagem, possibilitando através desse aspecto a caracterização da síndrome (VOLKMAR e COHEN, 1985 e STEVES e MOFFIT, 1988). Essa proposta vem de encontro à tendência atual de considerar a linguagem não mais apenas uma das características do Autismo Infantil, mas um fator subjacente a ele (FERNANDES, 1994).

Ocorrem divergências conceituais e terminológicas no que diz respeito aos distúrbios da linguagem, muitas vezes dificultando o consenso científico. Características como a fala ecolálica e as inversões pronominais são alvos com diferentes atribuições.

Este estudo tem por propósito trazer a reflexão do papel do uso funcional da linguagem da criança autista em suas necessidades e contextos sociais, correlacionando suas dificuldades comunicativas nas relações familiares.

2. DISCUSSÃO

O Autismo Infantil descrito por Kanner em 1943, o define com uma condição com características comportamentais bastante específicas (perturbações das relações afetivas com o meio, solidão autística extrema, inabilidade no uso da linguagem para a comunicação, presença de boas potencialidades cognitivas, aspecto físico aparentemente normal, comportamentos ritualísticos, início precoce e incidência predominantemente no sexo masculino) e que foram rapidamente absorvidas pela comunidade científica. A abordagem etiológica sustentada por Kanner , salientou a existência de uma distorção do modelo familiar, que ocasionaria alterações no desenvolvimento psicoafetivo do autista, decorrente do caráter altamente intelectual dos pais dessas crianças. Apesar desta proposição, o autor não deixou de assinalar que algum fator biológico existente na criança poderia estar envolvido, já que as alterações comportamentais eram observadas precocemente, o que dificultaria a aceitação puramente relacional.

Embora atualmente as comprovações científicas determinem os constituintes neurobiológicos do autismo, a hipótese da teoria afetiva é preconizada e difundida na teoria psicanalítica. Segundo Tustin (1991), as descobertas produzidas a partir das observações do comportamento dos bebês autistas, sugerem que o autismo deve ser compreendido como condição patológica, visto que são observáveis reações do neonato ao meio.

Em estudo subsequente, Tustin (1994) reafirmou que a existência de uma abordagem puramente relacional para o autismo não poderia explicar a precocidade das manifestações comportamentais relatadas pelos pais, levando à hipótese da predisposição da criança como possível desencadeador da condição patológica.

Em contrapartida a essas evidências que justificam a precocidade das manifestações clínicas, os conceitos teóricos sobre o Autismo vêm se modificando ao longo dos anos, onde abordagens que buscam uma etiologia orgânica, o caracterizam prioritariamente por falhas cognitivas, perceptuais e sociais (RUTTER, 1978 ).

Klyn (1994) propôs a hipótese que os prejuízos nos mecanismos biológicos encontrados em indivíduos autistas relacionados à adaptação social podem levar a quadros fenotípicos altamente heterogêneos associados aos quadros de Transtornos Globais do Desenvolvimento (TGD).

Tamanaha, Perissinoto e Chiari (2008) descrevem que algumas entidades científicas têm buscado a criação de diretrizes por meio de comitês para que fonoaudiólogos identifiquem crianças portadoras de tais condições o mais precocemente possível, estabelecendo critérios de avaliação, diagnóstico e tratamento terapêutico eficazes. Segundo as autoras, a busca de critérios diagnósticos tem se evidenciado nas últimas décadas, possibilitando a esses profissionais o fortalecimento de sua prática baseada em evidências clínicas, na assessoria educacional e na área de pesquisa.

Segundo Kupfer (2000), não existe nem mesmo um consenso no que concerne às diferenças entre psicose infantil e autismo infantil em relação à etiologia, nem mesmo uma definição unívoca de suas diversas manifestações.

Dentro do quadro de alterações engendradas pelo autismo, destaca-se a polêmica relativa à linguagem que é percebida como ausente ou como ecolálica, provavelmente em virtude do estigma da patologia. Essa concepção foi estabelecida nos primeiros registros de Kanner (1943) que fundamentou sua publicação na linguística estrutural americana, definindo a linguagem como comunicação, dificultando a possibilidade de pensar-se na ecolalia como indício de uma linguagem em constituição. Vale ressaltar que a posição de Kanner influenciou muitos estudos posteriores e em diversos campos disciplinares.

Para a psicanálise freudlacaniana, o autismo se produz de uma falha na construção subjetiva da criança, destacando-se os efeitos produzidos sobre a linguagem, os quais se configuram como algum tipo de obstáculo ou dificuldade em seu percurso linguístico (LASNIK-PENOT, 1997).

A criança ao adquirir a Linguagem se constitui como sujeito (DE LEMOS, 2000, 2003, 2004 apud BARROS, MELLO e CARVALHO). De acordo com a autora, no percurso linguístico da criança, três polos de funcionamento são concebidos: o outro (concebido como instanciação da língua), a língua (em seu funcionamento estrutural) e a própria fala da criança. Numa primeira posição (denominada espelhamento), a fala da criança é constituída por fragmentos incorporados da fala do outro, ou seja, destaca-se nas produções verbais infantis, o retorno de fragmentos de enunciados produzidos pelo outro em situações diversas. Na segunda posição, cadeias verbais são convocadas (metonimicamente) na fala da criança e se cruzam produzindo substituições (metafóricas) entre significantes, em vários pontos previsíveis de cadeias. São essas formas de funcionamento linguístico que provocam a ruptura de cadeias verbais, dando lugar ao aparecimento de diversas produções verbais, como paralelismos, os vários tipos de erros e produções insólitas ou estranhas e cujo desaparecimento paulatino caracteriza a terceira posição, coincidindo com a presença na fala da criança de pausas, reformulações, correções (provocadas pela fala do outro) e autocorreções.

Isto permite afirmar que a criança se divide entre a posição de sujeito que fala e a posição de sujeito que escuta sua própria fala.

Para FranchI (1976 apud Teles et all), adquirir a fala significa muito mais do que adquirir um conjunto de regras: “aprender a falar é dominar e desenvolver sistemas de regras formais recursivas, que permitem a partir de elementos iniciais mais simples, construir estruturas abstratas que se realizem em infinitas orações, servindo às mais diversas necessidades de manifestação das experiências humanas”. Além disso, a linguagem é uma atividade constitutiva, um processo contínuo de elaboração e reelaboração de categorias, de valores, de pensamentos. Dentro dessa concepção, o natural da relação interlocutora estabelecida entre criança e o outro é o jogo dialógico estabelecido, a construção de significação, a inversão de papeis enunciativos , a singularidade dos sujeitos.

Segundo Lier-De-Vitto (1995) apud Delfratte,Santana e Massi (2009) , o papel do outro é significativo, pois esse outro é determinante ou responsável pela entrada da criança na linguagem. É através do outro e da interação com ele estabelecida que se assume a “matriz intersubjetiva”. Para Albano (1990) a criança necessita de quatro condições básicas e imprescindíveis para o desenvolvimento da linguagem. A primeira seria a predisposição para brincar, a segunda a existência de pelo menos um sistema sensório motor íntegro (audiovisual ou viso manual). A terceira, o ambiente onde a linguagem faça parte de rotinas significativas. A quarta a presença de uma língua com mecanismos gramaticais de referência.

Para Fernandes (2006), a partir dos 2 anos de idade, a criança passa a ajustá-las. Para que ocorra as trocas a criança deve ter habilidades conversacionais básicas, mostrando a capacidade de ter início na fala e interagir, assim como trazer resposta adequadamente para manter a interação.

Segundo De Vitto (1995), a criança em fase de aquisição fala sozinha sem o intuito de interação. Essa ecolalia pode ser considerada não apenas como repetição, mas como indício da entrada da criança na língua, ou seja, de que ela não tem o domínio sobre o que está dizendo. Diferentemente da ecolalia dita normal diferencia-se do contexto patológico pela continuidade de ser e por ser muitas vezes a única fala da criança autista. Justamente por constituir a única fala da criança, muitos pais, inicialmente, até se iludem com relação à linguagem da criança, acreditando que ela fala, mas aos poucos a família vai percebendo que sua fala não é dirigida ao outro, o que não permite constituí-la como falante.

Nos últimos anos, a importância da percepção, da atitude e do envolvimento dos pais em relação ao desenvolvimento de seus filhos tem sido mencionada por alguns estudiosos. Um deles aponta para uma relação direta entre a qualidade da relação pais\filhos e de identificação de relações sociais, comportamentais e comunicativas, satisfatórias (CIA e COL., 2006).

As alterações de comunicação em indivíduos do espectro autista são severas e na literatura aparecem como uma das primeiras preocupações dos pais dessas crianças (ARTIGAS, 1999).

Outra questão fundamental é a percepção dos pais com relação à aceitação de seus filhos por outras pessoas. Estudos revelam que a estigmatização pode levar à depressão, à auto estima reduzida e ao isolamento social.Nesse sentido o impacto gerado no contexto familiar pode acarretar efeitos negativos para o processo comunicativo (SPERRY & SYMONS, 2003).

Um levantamento de artigos publicados nos últimos cinco anos, evidenciou que o número de estudos envolvendo famílias não corresponde ao que seria esperado quando se considera o impacto da criança autista na dinâmica familiar ou a importância da participação familiar para o diagnóstico e os processos de intervenção e educação ( FERNANDES,2009).

Algumas propostas de intervenção têm relatado sucesso a partir de orientações dirigidas ao aperfeiçoamento da relação pais-filhos²¹ ²² no sentido de ampliação das habilidades comunicativas³³ e da redução dos comportamentos inadequados (INGERSOLL, 2010).

Segundo Fernandes, Balestro e Molini-Avejonas (2011), orientações à mães realizadas em curtos períodos de tempo, contribuíram para o ambiente comunicativo da criança e para o entendimento familiar a respeito das habilidades e dificuldades das crianças.

Diversos países publicam manuais de orientação a pais, mas esses estão ancorados aos sintomas, não reportando às peculiaridades do quadro nem tão pouco a estudos prévios para identificar as dificuldades.

Tendo em mente que a partir da percepção dos pais, seja possível atuar e compreender questões relevantes quanto às dificuldades de comunicação de cada criança, Balestro e Fernandes (2012) desenvolveram um instrumento para levantamento de aspectos específicos em relação às questões familiares (comunicação, estresse e dificuldades emocionais) na presença de crianças do espectro autista.

O formato do estudo baseou-se na percepção dos pais de crianças com dificuldades de linguagem, envolvendo questões de estigmatização\rotulação por eles mesmos, por outras crianças, por outros adultos e por membros da família.

O questionário utilizado não objetivou a descrição da comunicação da criança propriamente dita, mas teve seu foco direcionado à perspectiva do cuidador a respeito das dificuldades comunicativas, nas diversas situações de relacionamento social, dividido em quatro domínios.O primeiro, da impressão dos pais e\ou cuidadores sobre eles próprios em relação aos seus filhos, o segundo sobre a percepção dos pais e |ou cuidadores em relação à aceitação das pessoas para com seus filhos, o terceiro sobre a atitude dos pais e\ou cuidadores com seus filhos e o quarto sobre a impressão dos pais e/ou cuidadores em relação aos seus filhos. Segundo as autoras, o primeiro domínio constituiu a metade do questionário, pois para elas a percepção é algo que interfere no processo comunicativo, possibilitando tanto valorizar como depreciar o investimento e o desempenho na relação diádica.

Os resultados da aplicação sugerem que os pais e\ou cuidadores percebem as dificuldades de seus filhos, identificando as questões relativas à comunicação. Além disso, permite a análise da singularidade dos sintomas e seu significado para o contexto familiar.

Fávero e Santos (2005) realizaram uma pesquisa bibliográfica na literatura científica com o objetivo de investigar a ocorrência de alterações na dinâmica destas famílias, decorrente de um estresse parental crônico, buscando identificar temas convergentes nos artigos publicados, que possibilitaram caracterizar a inferência da sobrecarga decorrente dos cuidados especiais exigidos pela criança autista sobre os cuidadores diretos e o funcionamento familiar. Indubitavelmente, famílias que se encontram em circunstâncias especiais, promotoras de mudanças nas atividades de vida diária e no funcionamento psíquico de seus membros, se depararam com uma sobrecarga de tarefas e exigências que podem suscitar situações potencialmente indutoras de estresse e tensão emocional.

Segundo Lipp e Guevara (1994), o estresse pode provocar tanto sintomas físicos como psicológicos. Os possíveis efeitos psicológicos das reações de estresse são: ansiedade, pânico, tensão, angústia, insônia, alienação, dificuldades interpessoais, dúvidas quanto a si próprio, preocupação excessiva, inabilidade de relaxar, tédio, ira, depressão e hipersensibilidade emotiva.

Famílias de autistas revelam um nível geral alto de preocupação e bem estar de suas crianças depois que seus pais não puderem providenciar mais cuidados para eles. O prejuízo cognitivo é um dos focos de estresse dos pais nas inabilidades linguísticas e cognitivas do filho autista Koegel e colaboradores (1992).

Para Tunali e Power (1993) é comum o achado de dificuldades de mães de crianças autistas prosseguirem sua carreira profissional devido ao tempo excessivo da demanda de cuidados que a criança necessita e à falta de outros cuidadores. Dentro dessa análise, Moes e colaboradores (1992) relacionaram que pais estavam ativamente comprometidos com sua atividade profissional fora de casa, enquanto as mães eram as cuidadoras primárias.

Em outro estudo com o objetivo de investigar o impacto de crianças autistas sobre a saúde mental de suas mães e a morbidade psiquiátrica menor, muitas famílias relataram sobrecarga emocional, física e financeira e no total cerca de 33% das mães apresentaram um transtorno psiquiátrico menor. As mães com mais anos de estudo puderam utilizar recursos melhores para procurar ajuda (SHU, LUNG e CHAN, 2000).

No estudo de Gay (1997) a concepção de vida familiar normal foi de difícil compreensão para muitos pais de crianças autistas de alto funcionamento. Seu entendimento de uma vida familiar normal estava associado a fatores como as suas próprias habilidades de socializar-se, a qualidade emocional de suas interações com os membros da família, os rituais e rotinas que abrangem suas percepções que fazem famílias normais. Entre as ameaças a estas atividades notou-se a presença de tendências agressivas de seus filhos.

A partir dos dados apresentados, foi possível detectar que o estresse dos pais de crianças autistas apareceu associado a fatores como prejuízo cognitivo da criança, gravidade dos sintomas e as tendências agressivas do filho. Porém o fator medidor desse estresse que, quando percebido, favoreceu um melhor ajustamento familiar.

Os estudos oferecem consistência à hipótese de sobrecarga emocional, física e financeira no cuidado com o portador de necessidades especiais, principalmente nas mães dessas crianças, além de uma dificuldade na representação da ideia de uma vida normal.

Vale ressaltar que a sintomatologia do estresse abrange tanto aspectos físicos como psicológicos.

A não ser pela menção à busca de suporte social não foi possível aprender nos trabalhos revisados, os modos ou estratégias de enfrentamento utilizados diante da situação estressora.

Aparece um questionamento sobre a apropriação da concepção de normalidade da vida familiar. Em decorrência do acometimento da criança, acredita-se na necessidade de uma ressignificação dos papeis de cada membro da família no processo de adaptação dos pais e da criança na situação presente.

Programas de orientação familiar podem favorecer o desenvolvimento da criança autista, bem como a diminuição do quadro de estresse comum a esses familiares.

Em relação à comunicação, que geralmente encontra-se severamente prejudicada na criança autista, pode-se propiciar aos cuidadores alternativas para a comunicação funcional, através de jogos que propiciem comportamentos interativos. Segundo a perspectiva cognitivo-desenvolvimental aludindo à teoria da Mente (TRAVIS e SIGMAN, 1998), crianças autistas apresentam falhas em exibir responsividade típica às emoções dos outros, sugerindo falência na função de um sistema especializado na interpretação e resposta de sinais de emoção. A utilização de jogos para auxiliar a interação entre crianças e seus pais e irmãos, pode tornar lúdico e representar uma alternativa interessante de enfrentamento da dificuldade de comunicação. Outros instrumentos auxiliares para a comunicação têm sido amplamente empregados, como o TEACCH (Treatment and Education Of Autistic related Communication Handicapped Children), baseado em apoios visuais como fotografias, desenhos e palavras; com o objetivo de suprir falhas na relação familiar para a comunicação das necessidades pessoais da criança.

O aconselhamento informativo também pode ser positivo para essas famílias, pois pode tornar esses pais mais solidários com os outros familiares, além é claro de favorecer de forma clara e informativa as manifestações da criança, seus limites, além é claro de suas potencialidades.

Programas de treinamento comportamental para os pais podem favorecer esses cuidadores para situações de responsividade e motivação; auxiliando na redução do estresse familiar. Nesse caso, informações claras sobre a síndrome e suas manifestações dentro da escola e na família podem contribuir para a melhora da criança.

O uso de medicação (neurolépticos) pode auxiliar na qualidade de vida dessas crianças, melhorando a agitação psicomotora e no comportamento e consequentemente diminuir o estresse parental. Segundo estudos, a irritabilidade presente no quadro sintomatológico do autista é um preditor para os pais optarem pela medicação de seus filhos.

Como estratégias de enfrentamento, o acesso à serviços de assistência social competente, podem favorecer a diminuição do estresse familiar. Programas educacionais inclusivos, estilo de vida confortável para a família e acesso a terapias especializadas, são fatores atenuantes do estresse familiar.

O processo terapêutico familiar também foi comprovadamente positivo para essas famílias. O anseio dos pais é encontrar um espaço que possa favorecer o acolhimento educacional e terapêutico para a criança autista, para que esses possam continuar sua vida, trabalhando e dando aos outros filhos, quando existem, o tempo e o amor necessários (AMY, 2001). Através da relação terapêutica, busca-se uma reconstrução das relações significativas com os outros, abrindo-se espaço para abordar os ideais, frustrações e idealizações para lidar com as condições especiais desse filho.

Cada ser humano reage de modo particular diante de uma situação estressora. A forma de enfrentamento, coping, é uma dessas formas de reação peculiar para lidar com crises e adversidades, no contexto de sua cultura, sociedade e época, aliviando os aspectos negativos das situações de estresse (FAVERO e SANTOS, 2005). Nesse contexto, a resiliência pode ser definida como a resistência ao estresse, apesar da exposição a eventos estressores. Nesse contexto, duas variáveis se correlacionam: a resiliência e o suporte social. Segundo Gill e Harris (1991), indivíduos que percebem altas intensidades de suporte social, sentem-se mais fortalecidos.

Segundo Tunali e Power (1993), cuidadores diretos (pais ou seus substitutos) acabam por criar formas para enfrentar as dificuldades de comunicação com as crianças autistas, possibilitando-lhes alternativas de satisfação.

3. CONSIDERAÇÕES FINAIS

A criança autista em sua manifestação precoce, apresenta alterações do neurodesenvolvimento em graus variáveis, determinando ao longo de sua vida, dificuldades significativas nas áreas social, comunicativa e cognitiva, impactando severamente no convívio com sua família.

Sua evolução pode estar relacionada não só a fatores neurobiológicos, mas principalmente as oportunidades e intervenções multidisciplinares que lhe sejam propícias.

Estudos têm enfatizado a importância do diagnóstico precoce, comprovando na atualidade que medidas interventivas especializadas podem ser bastante positivas na minimização do impacto cognitivo e comportamental desses indivíduos ao longo de suas vidas.

Sua etiologia, apesar de exaustivamente pesquisada, não está completamente definida. A Neurociências aliada à genética e às ciências comportamentais têm tentado trazer o conhecimento aos variados profissionais que atuam em sua prática clínica e educacional, suas manifestações e especificidades, promovendo no campo clínico as condutas de tratamento mais adequadas.

Apesar das diferentes linhas terapêuticas preconizadas, o senso comum dos profissionais envolvidos no Transtorno do Espectro Autista, deve considerar na sua prática clínica, não só a criança autista, mas principalmente seus pais, irmãos e familiares, entendendo a importância desse olhar contemplativo para o equilíbrio emocional e psíquico desses indivíduos.

Lidar diariamente com as dificuldades cognitivas, de linguagem e do comportamento da criança autista podem levar esses familiares ao estresse e tensão emocional, não contribuindo para o desenvolvimento da criança autista e impedindo que as relações familiares estejam preservadas.

Apesar dos tratamentos preconizados na atualidade, sabe-se que o Autismo é uma condição patológica, com suas características e peculiaridades e que no decorrer de sua vida, precisará de suporte médico e terapêutico.

Acolher esses pais é uma questão primordial, pois seus medos e dúvidas são geradores de desequilíbrio familiar.

Observa-se comumente na prática médica e terapêutica o olhar sobre a criança autista, negligenciando os sintomas e manifestações comportamentais de seus familiares.

Portanto cabe aos profissionais clínicos, terapêuticos e educacionais o favorecimento de situações de Orientação e Acolhimento Familiar, buscando propiciar o equilíbrio emocional dos familiares, a motivação necessária à construção de novos comportamentos e ajustes sociais, objetivando o pleno desenvolvimento da criança autista em suas potencialidades.

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[1] Pós Graduação em Alfabetização, Leitura e Escrita e Distúrbios da Aprendizagem e Neuropssicopedagogia Institucional.

[2] Especialização em Neuropsicopegadogia e Educacão Especial inclusiva. Especialização em Pós Graduação em gestão educacional. Graduação em Licenciatura Plena em História. Graduação em Licenciatura Plena em Pedagogia.

Enviado: Agosto, 2019.

Aprovado: Outubro, 2019.

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