Pesquisa em Contabilidade Gerencial: Oportunidades além do Mainstream

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VIEGAS, Pablo Gesto Araujo Rodrigues; OLIVEIRA, Jader Honorio Correa de

VIEGAS, Pablo Gesto Araujo Rodrigues; OLIVEIRA, Jader Honorio Correa de. Pesquisa em Contabilidade Gerencial: Oportunidades além do Mainstream. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 03, Ed. 08, Vol. 07, pp. 12-18, Agosto de 2018. ISSN:2448-0959

Resumo

Diante de constantes transformações e adaptações no âmbito corporativo, a contabilidade gerencial exerce um papel importante para o auxílio na tomada de decisões, logo, pesquisas e publicações científicas nessa área são relevantes. Baseado nesse contexto verificou-se por meio de leitura de artigos, do período entre 2001 e 2018, a corrente majoritária dos artigos publicados e suas possíveis oportunidades. As análises indicam uma corrente principal que seguem os principais jornais norte americanos também conhecidos como mainstream.

Introdução

O desenvolvimento da contabilidade gerencial tem sido objeto de estudo sob várias maneiras em diferentes enfoques. Uma dessas abordagens leva em consideração as mudanças ocorridas no mundo dos negócios que geram novos problemas e, em decorrência dessas mudanças, novas perspectivas ontológicas e epistemológicas vem sendo incorporadas às pesquisas (Frezatti, Aguiar, Wanderley e Malagueño, 2015). Outra abordagem seria a positivista, considerada a maior corrente atual dos periódicos (Martins, 2005).

O tema do presente trabalho é que a contabilidade gerencial, no âmbito internacional, tem apresentado diversas metodologias, teorias e abordagens, que são debatidas no estudo de Lourenço e Sauerbronn (2016, p. 102). Essas autoras propõem que a “construção do conhecimento em contabilidade gerencial pode abarcar um somatório de perspectivas diferentes, de forma a tornar esse conhecimento consistentemente mais abrangente e mais plural”. Entretanto, no Brasil, as mesmas autoras citam que a pesquisa em contabilidade gerencial ainda tem forte influência do mainstream do monoparadigma norte-amerciano, cujas pesquisas são fundamentadas na economia. Martins (2005) corrobora com essa ideia ao afirmar que caso alguma publicação brasileira queira ser aceita internacionalmente deve seguir esses princípios.

Esse artigo tem como objetivo principal identificar, por meio de revisão bibliográfica, oportunidades de pesquisa em contabilidade gerencial que vão além do mainstream do monoparadigma norte-americano. A relevância da pesquisa é uma análise de trabalhos em contabilidade gerencial sendo possível identificar as tendências e abordagens utilizadas nos atuais trabalhos na área e também possíveis oportunidades para pesquisadores futuros. O trabalho desenvolvido por Frezatti, Nascimento e Junqueira (2009), vem a corroborar com as possibilidades de pesquisa em contabilidade gerencial fora do paradigma econômico ou do monoparadigma norte-americano. Os mesmos autores ressaltam que as especificidades da contabilidade gerencial tornam a disciplina mais aberta para diferentes abordagens epistemológicas e que muitas questões de pesquisas não podem ser respondidas somente pela abordagem econômica.

O presente trabalho é divido em duas seções. A primeira visa discutir questões referentes a predominância do mainstream nas pesquisas acadêmicas e possíveis críticas e a segunda fará uma abordagem das oportunidades que vão além do mainstream do monoparadigma norte-americano nas pesquisas em contabilidade gerencial.

Discusões acerca do Mainstream

A pesquisa em Contabilidade Gerencial é, segundo Matins 2005, tipicamente influenciada pelo mainstream do monoparadigma norte-americano nas produções acadêmicas. O mainstream, basicamente, consiste nos periódicos norte-americanos de grande relevância (MARTINS, 2005), os quais são publicados em sua grande maioria trabalhos acadêmicos de contabilidade gerencial fundamentados no empirismo e no positivismo. No trabalho de Wanderley e Cullen (2012), os autores tratam essa linha de pesquisa como tendo uma visão objetiva do mundo, considerando o comportamento individual como determinístico, a utilização da observação empírica e uma metodologia de pesquisa positivista.

O mainstream foi objeto de discussão entre os autores Ittner e Larcker (2001) e Zimmerman (2001). Zimmerman (2001) discorda do trabalho Ittner e Larcker (2001) pelo fato de se utilizarem de fontes literárias não norte-americanas que estão fora do maisntream tradicional de pesquisas e porque o arcabouço de gestão baseada em valor foi todo fornecido por empresas de consultorias. Na percepção do autor Zimmerman, a pesquisa contábil na área gerencial tem sido em descrever fenômenos observados, ao invés de gerar novas teorias para predição de eventos, testá-las constantemente e apresentar fundamentação consistente nos trabalhos.

Autores, como Hopwood (2002), Lukka e Mouritsen (2002) e Luft e Shields (2002), possuem um entendimento diverso ao de Zimmerman, quanto à rigidez do uso do mainstream do monoparadigma norte-americano em pesquisas de Contabilidade Gerencial. Para esses autores o uso de produção de outros centros de pesquisas, como australiano, escandinavo e indiano devem ser considerados e deve ser levada em conta a heterogeneidade nas pesquisas em Contabilidade Gerencial, ou seja, o pluralismo. Outro aspecto abordado nesse entendimento diverso ao de Zimmerman é que a ciência econômica, característica do mainstream norte-americano, não pode explicar tudo e, outras ciências podem ser utilizadas nas pesquisas em Contabilidade Gerencial. Lourenço e Sauerbronn (2016, p. 108) também fazem menção à limitação do mainstream quando fazem a seguinte observação: “A teoria neoclássica é apta para prever em nível de mercado e não em nível de indivíduo, pois foi desenvolvida para prever tendências gerais de comportamento econômico, sem ter a intenção de explicar como indivíduos se comportam ou deveriam se comportar. Sob estas considerações, a teoria econômica neoclássica torna-se inadequada para os fins pretendidos pela contabilidade gerencial. Apesar dessa ampla limitação metodológica, a pesquisa contábil gerencial positiva, sob os pressupostos neoclássicos, é uma abordagem dominante nas escolas de contabilidade”.

De acordo com Frezatti, Aguiar, Wanderley e Malagueño (2015) a pesquisa em contabilidade gerencial no Brasil é predominantemente quantitativa e essa constatação se deu na análise de 43 artigos apresentados no Congresso USP de Controladoria e Contabilidade 2013 e de 28 artigos apresentados no Congresso ANPCONT 2013. Nesse mesmo trabalho a predominância da pesquisa quantitativa também é observada nos trabalhos apresentados no Management Accounting Section Midyear Meeting de 2013, nos Estados Unidos, onde de 67 trabalhos, 86%  são quantitativos e o oposto ocorre nos trabalhos apresentados no New Direction in Management Accounting, de 2012, na Europa, onde 41% dos 31 trabalhos apresentados são qualitativos. Isso mostra que no Brasil a linha do mainstream do monoparadigma norte-americano também tem bastante influência na academia brasileira.

Oportunidades fora do Mainstream para a pesquisa em Contabilidade Gerencial

A pesquisa em Contabilidade Gerencial, de acordo com o estudo de Frezatti, Aguiar, Wanderley e Malagueño (2015), é recente no país e a mesma vem se desenvolvendo ao longo dos últimos anos com o surgimento de novos programas de pós-graduação e com o aumento do número de eventos e de revistas científicas. Esses autores, em seu trabalho, fazem uma ponderação a respeito de se levar em consideração que, apesar da pesquisa em contabilidade gerencial ser global, não se pode negar que a influência local também é determinante na produção de pesquisas. De acordo com os autores a pesquisa demanda tempo para se consolidar e ter um elevado grau de conhecimento, qualidade. Nesse quesito, por exemplo, o Reino Unido e os países escandinavos já se encontram nesse patamar.

Lunkes et al. (2013) ao levantar dados sobre pesquisadores brasileiros concluíram que o número de doutores em contabilidade no País é muito baixo quando se compara com outros mercados e tal fato corrobora com o citado no parágrafo anterior, sendo uma oportunidade a ser trabalhada para a formação de mais doutores em contabilidade.

Theóphilo e Iudícibus (2005) desenvolveram uma crítica de natureza epistemológica com foco na produção cientifica onde 68% dos trabalhos analisados, de uma amostra de 238 trabalhos, não faziam referências a estudos anteriores sobre o mesmo tema/assunto abordado. Esse fato é caracterizado pelo os autores como trabalhos sem passado, pois despreza o inventário de estudos já realizados o que compromete o avanço do conhecimento na área assim como a sua edificação. A continuidade de um tema em pesquisa acadêmica deve buscar a ampliação do conhecimento e não ser uma mera replicação do mesmo, segundo os autores.

Outro aspecto que deve ser levado em conta é que a pesquisa em contabilidade gerencial precisa ser mais pluralista em termos de teorias, metodologia e métodos segundo Frezatti, Aguiar, Wanderley e Malagueño (2015). Os autores estimulam a sair da linha monoparadigmática para termos um ambiente mais heterogêneo, enriquecendo dessa maneira as pesquisas na área da contabilidade gerencial, saindo um pouco do predomínio da teoria econômica neoclássica. Lourenço e Sauerbronn (2016) também corroboram com esse viés no trabalho que elaboram para que as pesquisas tenham impacto e relevância na academia, sendo aplicadas e testadas nas empresas, ou seja, com efeitos práticos, o trabalho empírico não só deve ser útil, mas também de real aplicação, porque a sociedade demanda teorias executáveis segundo Mohrman and Lawler (2011, p. 10).

Uma crítica feita por Frezatti, Aguiar, Wanderley e Malagueño (2015) é que a pesquisa no Brasil precisa gerar inovações o que é uma das principais características da pesquisa.

O uso de artigos internacionais é de extrema importância para a formação de uma excelente base teórica. O rigor metodológico deve ser desenvolvido para que as pesquisas tenham relevâncias e sejam capazes de gerar contribuições teóricas e práticas à comunidade nacional e internacional.

Portugal, Nigri e Ferreira (2001) corroboram com as sugestões propostas pelos autores citados acima onde fazem uma proposta de libertar a Contabilidade de padrões que venham a restringir a inovação do conhecimento e incentiva a análise das demandas do usuário das informações contábeis para o desenvolvimento da ciência.

Conclusão

De acordo com os autores acima as oportunidades de crescimento de estudos no campo da Contabilidade Gerencial são diversas, desde que sejam exploradas as oportunidades citadas e não ficando somente presas ao mainstream do monoparadigma norte-americano, já que cada existe uma necessidade de adaptação das pesquisas aos valores e culturas de cada região. Portugal, Nigri e Ferreira (2001), por exemplo, no trabalho desenvolvido por eles apontam essa necessidade de libertar a contabilidade das amarras que a impedem de trazer inovações para a pesquisa e para os práticos e sem deixar de usar o rigor metodológico para se ter mais qualidade nas pesquisas de acordo com o trabalho desenvolvido por Frezatti, Aguiar, Wanderley e Malagueño (2015). Martins (2005) acrescenta a essa ideia que existem pesquisadores bons em criar, mas não tanto em comprovar e outros que pelo contrário tem grandes habilidades em comprovações empíricas; Sendo assim o autor afirma que pesquisas e provas possam ser feitas por positivistas para que normativistas produzam respostas que consequentemente precisaram de testes que irão demandar novas respostas e assim esse ciclo pode criar pesquisas mais úteis e pragmáticas.

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