Muito além da fisgada: A ciência e o futebol na cobertura esportiva paraense

DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/comunicacao/muito-alem-da-fisgada
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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

SOUSA, André Laurent Souza Lopes [1], SANTOS, Ana Lucia Prado Reis dos [2], DENDASCK, Carla Viana [3], OLIVEIRA, Euzébio de [4], BAHIA, Mirleide Chaar [5]

SOUSA, André Laurent Souza Lopes. Et al. Muito além da fisgada: A ciência e o futebol na cobertura esportiva paraense. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 05, Ed. 03, Vol. 11, pp. 135-167. Março de 2020. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/comunicacao/muito-alem-da-fisgada

RESUMO

Reportagens relacionando ciência e futebol não são frequentes na cobertura esportiva do Pará. Compreender as causas deste problema é o principal objetivo do presente trabalho. A partir da revisão bibliográfica da ciência do esporte no futebol, evidenciou-se a interdisciplinaridade que há décadas contribui com estudos relevantes que não resultaram apenas no entendimento de problemáticas da modalidade, mas também no aumento de desempenho de jogadores e equipes de futebol. Em um segundo momento, o trabalho traz o diálogo entre cultura científica (VOGT, 2003) e o jornalismo, a partir das perspectivas dos jornalismos científico (BUENO, 2009) e esportivo (BUENO, 2005; MALULY, 2005), a fim de evidenciar a provocação de Messa (2005), que credita ao jornalismo esportivo de caráter científico, o jornalismo esportivo-científico, a possibilidade de ir além do entretenimento para torcedor-espectador. Mas, para isso, faz-se necessário compreender, a partir de entrevistas semiestruturadas, os fatores limitantes da cobertura esportiva no Pará e as razões para que a ciência tenha pouco espaço. Uma possibilidade para ampliar o conteúdo envolvendo ciência e futebol está na expertise e na relação entre jornalistas e os integrantes das comissões técnicas das equipes de futebol do Pará.

Palavras-chave: ciência do esporte, divulgação científica, jornalismo científico, jornalismo esportivo.

INTRODUÇÃO

Certa vez, um experiente radialista disse na transmissão da partida entre Paysandu e Castanhal, dia 25 de fevereiro, pelo Campeonato Paraense 2018, depois que Pedro Carmona foi substituído no primeiro tempo: “ele sentiu uma fisgada na coxa esquerda”. Na entrevista coletiva, após a partida, o então técnico do Paysandu, Dado Cavalcanti, mostrou preocupação com a entorse no joelho de Carmona. O clube não disponibilizou um médico para dar entrevista aos jornalistas.

A temporada estava ainda no começo. A equipe havia disputado só a nona das 61 partidas da temporada 2018 e já passara por mudança na comissão técnica (Dado Cavalcanti foi contratado para substituir Marquinhos Santos). No dia seguinte, Carmona foi diagnosticado com uma lesão no ligamento colateral medial (LCM). Na época, as manchetes destacaram a ausência de Carmona no treino, o resultado do exame e o tempo que ficaria em recuperação: 30 dias. Uma pista do que poderia ter ocasionado a lesão se resumiu a um escorregão no gramado.  Apesar de não ter sido submetido a uma cirurgia, Carmona levou mais tempo, cerca de três meses, para estar em condições de voltar a jogar.

Para Villardi (2004), constantes mudanças de comissões técnicas decorrem da necessidade dos clubes em obter resultados a curto prazo. Entretanto, estas mudanças modificam métodos de treinamento, tornando impossível o desenvolvimento de programa de trabalho individualizado, inclusive para grupo de atletas com características semelhantes.

O efeito de modificações abruptas da carga de trabalho e não observação da individualidade e da especificidade no treinamento, somados ou não a fatos predisponentes, podem provocar a rotura no equilíbrio entre a capacidade de absorção aos estímulos repetitivos e o limiar de cada indivíduo, determinando leões por uso excessivo (VILLARDI, 2004, p. 173).

A cobertura esportiva, em situações como essa, frequentemente desvia o caminho do bom jornalismo esportivo para o entretenimento. As causas da lesão perdem espaço para o tempo em que irá desfalcar a equipe. O espetáculo assume o protagonismo devido à facilidade da notícia atravessar a linha do entretenimento.

Assim como a lesão não pode ser vista isoladamente (VILLARDI, 2004), futebol e o esporte também não. A começar pela introdução da Educação Física no Brasil, que se assemelha aos interesses das classes dominantes dos países da Europa. Sofrendo, também, influência das teorias positivistas, a ideia de formar indivíduos fortes, saudáveis e importantes para o desenvolvimento da nação pode ser observada em leis, que surgiam com intenção de valorizar o espírito de nacionalismo. Nas palavras do Presidente Vargas, “incrementar a educação cívica das novas gerações, organizando a juventude por forma a constituir reserva facilmente mobilizável, sempre que houver objetivo patriótico a alcançar” (CASTELLANI FILHO, 2006, p. 89).

No período militar, quando essa intervenção se intensificou, além do nacionalismo, havia outras pretensões, tanto política quanto econômica. O novo campeonato foi usado também no Plano de Integração Nacional, servindo para integrar clubes de diversos estados brasileiros, colocando na competição equipes das regiões onde a Arena estava mal nas urnas, de forma a conquistar votos, o que levou ao incrível número de 94 clubes (de 21 dos então 22 estados) na edição do campeonato de 1979, nos tempos em que a Confederação Brasileira de Desportos (CBD) era comandada por Heleno Nunes. A construção de grandiosos estádios de futebol em regiões onde o esporte não era popular ou a Arena estava impopular, era muito frequente.

Futebol também já foi business, como disse certa vez Mário Gobbi, então presidente do Corinthians/SP, ao justificar a venda de três jogadores importantes da equipe que conquistou o Campeonato Paulista e a Copa do Brasil em 2009.  Quase dez anos depois, Gobbi classificou como uma frase muito forte pra cultura nossa, arrependeu-se e retirou o que disse. Porém, os aspectos econômicos continuam a entrar na composição do jogo e na cobertura da mídia. Uma reportagem do site “Valor Econômico” revela o tamanho desse mercado: a receita dos 22 principais clubes de futebol do país cresceu 2,7% em 2017. No ano anterior, o aumento foi ainda maior: 30%. Com isso, esses clubes somaram uma receita de R$ 5,11 bilhões. Os que conseguirem colocar as finanças em dia e adotar boas práticas de governança poderão formar uma elite dentro da elite do futebol brasileiro nos próximos anos, com reflexos decisivos no caixa e nos campos.

Desta forma, o objetivo central deste trabalho é compreender o porquê a cobertura esportiva paraense reservar tão pouco espaço para a ciência no esporte. A partir de revisão bibliográfica interdisciplinar da ciência do esporte no futebol, contextualiza-se o diálogo com conceitos de cultura científica e jornalismo, em especial o científico e o esportivo, que em um primeiro momento aparentam não ter ligações para além do jornalismo especializado, mas, como provoca Messa (2005): é possível fazer um jornalismo esportivo com caráter científico?

Dessa maneira, buscou-se conhecer o perfil dos jornalistas e radialistas que trabalham nos veículos de comunicação do Pará, compreender a rotina das redações e identificar os fatores que limitam e delimitam os assuntos que estarão em pauta na cobertura esportiva. Para isso, 16 profissionais que estão associados à ACLEP (Associação dos Cronistas e Locutores Esportivos do Pará) respondera entrevistas semiestruturadas.

Algumas constatações já eram esperadas, é bem verdade. A ciência do esporte não está nas pautas e o futebol de Clube do Remo e Paysandu Sport Club detêm hegemonia na cobertura esportiva paraense.

Porém, as análises dos dados ajudaram a desmontar duas hipóteses: a primeira de que os profissionais discordavam que a ciência estava presente no esporte e, por isso, não identificariam as formas como se manifesta no dia a dia dos treinamentos e nas partidas de futebol. O ponto central está na divergência que se estabeleceu está na percepção da audiência, onde o debate questiona se leitores, telespectadores e ouvintes têm interesse em ciência no esporte.

A partir dos diálogos deste trabalho é possível sugerir um primeiro passo para o jornalismo esportivo de caráter científico. A aplicação do conhecimento científico ao esporte é uma das funções dos profissionais que compõem as comissões técnicas das equipes de futebol. Logo, está na relação entre os jornalistas e radialistas e comissões técnicas um caminho para se chegar a este objetivo. Afinal, profissionais que tem ligações com academias e instituições de pesquisas no Pará são raros. É possível estabelecer uma relação não apenas de fonte jornalística, mas também de fonte de conhecimento científico, pautada também na cultura científica. É possível, sim, ir além da fisgada.

METODOLOGIA

Segundo a Associação de Cronistas e Locutores Esportivos do Pará (ACLEP), o estado tem cerca de 150 profissionais cadastrados e aptos a solicitar credenciamento em jogos organizados pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ou Federação Paraense de Futebol (FPF). De acordo com o art. 6º, parágrafo VII do Regulamento Geral de Competições da CBF, compete expressamente às federações aprovar as listas encaminhadas pelas entidades locais de classes representativas dos profissionais escalados para trabalhar, com o objetivo de credenciar e fiscalizar acesso ao estádio e gramado (CBF, 2019).

Apesar da dificuldade em precisar informações relevantes, como veículos de comunicação e programas esportivos que participam da cobertura das partidas de futebol organizadas pela FPF e CBF, a ACLEP apresentou um tímido panorama dos profissionais credenciados e associados que trabalham diretamente nas coberturas.

Tabela 1: Classificação das Funções de Profissionais

Função Quantidade
Repórter 36
Editor 20
Narrador 18
Comentarista 10

Fonte: ACLEP, 2019

A partir destes dados, selecionou-se 16 profissionais para a aplicação das entrevistas semienterradas. A escolha foi do tipo não probabilística, intencional por critérios de representatividade e acessibilidade (BRUYNE et al., 1977). O número de participantes foi definido com base no critério de saturação de dados, ou seja, ao se tornarem repetitivas as respostas, encerra-se a aplicação das entrevistas, uma vez que, “a pesquisa qualitativa pode usar recursos aleatórios para fixar a amostra. Isto é, procura uma espécie de representatividade maior do grupo dos sujeitos que participarão no estudo” (TRIVIÑOS, 1997, p. 132).

Este trabalho definiu como metodologia qualitativa a aplicação de entrevista semiestruturadas (semidiretiva ou semiaberta), em que “combinam perguntas abertas e fechadas, onde o informante tem a possibilidade de discorrer sobre o tema proposto” (BONI & QUARESMA, 2005, p. 75), observando o que propõe Lakatos (1996) em relação à escolha do entrevistado, a oportunidade da entrevista e a preparação do roteiro com as principais questões, e reconhecendo que se recebe o retrato que o informante tem do mundo, cabendo ao pesquisador avaliar o grau de correspondência as afirmações da realidade objetiva ou factual (BONI & QUARESMA, 2005). Assim, a entrevista semiestruturada, segue a linha teórica histórico-cultural (dialética), com objetivo de se determinar as rações diretas e indiretas, não favorecendo apenas a descrição dos fenômenos sociais, mas também explicação e a compreensão da totalidade, além de manter a presença consciente e atuante do pesquisador no processo de coleta de informações (TRIVIÑOS, 1987).

Para este trabalho, consideraram-se os seguintes critérios para a definição dos entrevistados (as): (i) Entrevistar no mínimo 10% dos profissionais credenciados ou sócios da ACLEP; (ii) Contemplar todos os tipos de veículos (TV, rádio, impresso e web); (iii) Entrevistar no mínimo uma mulher de cada tipo de veículo (TV, rádio, impresso e web); (iv) Considerar a integração de mídias (TV e web; impresso e web), diversificar as funções, atentando ao acumulo delas (repórter e apresentador; editor e produtor) e observar a experiência profissional (iniciantes, experientes e veteranos).

Desta forma, compôs-se uma amostragem heterogênea, com homens e mulheres que entraram recentemente no mercado de trabalhou ou se aproximam dos 50 anos de carreira; trabalham em rádios AM, FM e web, emissoras de TV comerciais e pública, jornais impressos que também estão distribuindo conteúdo também pela internet a partir de sites de notícias; iniciaram a carreira no rádio e estão na TV; formaram ou estão em formação acadêmica em Jornalismo ou outras áreas que não são ligadas à Comunicação Social, sem desprezar quem não teve oportunidade de passar pela Academia; e acumulam duas ou mais funções nas redações.

Tabela 2: Relação de profissionais entrevistados

Nome Função Veículo Idade Carreira Formação
Agripino Furtado Repórter Rádio Liberal 67 anos 47 anos Médio Completo
André

Júnior

Comentarista Rádio Metropolitana 27 anos 11 anos Superior Completo (Administração)
Andréia Espírito Santo Repórter Jornal Liberal 29 anos 9 anos Superior Completo (Jornalismo)
Bruna

Dias

Repórter Site DOL 30 anos 6 anos Superior Completo (Jornalismo)
Carlos Ferreira Colunista e Comentarista Jornal Liberal e TV Liberal 54 anos 38 anos Superior Completo (Ciências Sociais)
Carlos

Felipe

Editor Jornal Liberal e Site oliberal.com 29 anos 10 anos Superior Completo (Jornalismo)
Edson Carvalho Repórter e Apresentador TV Record 33 anos 11 anos Superior Completo (Jornalismo)
Guilherme Guerreiro Diretor administrativo e comercial Rádio Clube e RBA TV 59 anos 45 anos Superior Completo (Direito)
Lauany Chaliê Repórter Rádio Web Astral 31 anos 1 ano Superior Completo (Jornalismo)
Nome Função Veículo Idade Carreira Formação
Magno Fernandes Produtor e Comentarista Rádio Clube e Site radioclube.com.br 31 anos 14 anos Superior Incompleto (Jornalismo)
Marcelo Dinelly Produtor TV Liberal 28 anos 4 anos Superior Completo (Jornalismo)
Mariana Malato Editora e Apresentadora RBA TV 28 anos 5 anos Superior Completo (Jornalismo)
Marquinho Belém Comentarista Rádio Clube e TV Cultura 43 anos 7 anos Nível Técnico (Radialista)
Max

Sousa

Repórter Rádio CBN Amazônica 25 anos 5 anos Superior Incompleto (Jornalismo)
Paloma Andrade Coordenadora de transmissão TV Cultura 39 anos 18 anos Superior Completo (Jornalismo)
Valmir Rodrigues Narrador e apresentador Rádio Clube e TV Cultura 49 anos 32 anos Superior Incompleto (Jornalismo)

Fonte: Autoria própria, a partir de dados coletados nas entrevistas semiestruturadas.

Dessa maneira, foi possível conhecer o perfil e a rotina profissionais e identificar os identificar os fatores que limitam e delimitam os assuntos que estarão cobertura esportiva paraense.

RESULTADOS E DISCUSSÕES

O repórter Agripino Furtado do Liberal Esportes, programa da Rádio Liberal que tem mais de seis horas de programação divididas em quatro edições diárias, revela a dimensão do espaço destinado ao noticiário do futebol de Remo e Paysandu. Segundo o experiente radialista, o programa traz o noticiário de Paysandu e Remo, da Federação (paraense) Futebol, além dos resultados e tabelas de competições nacionais e internacionais. Além disso, “o programa ainda tem a participação de comentaristas que analisam as notícias e os fatos (esportivos) do dia” (FURTADO, 2019, informação verbal).

Entretanto, a cobertura esportiva não tem se apresentado, no Pará, exclusivamente jornalística. Para comentarista André Chaves Júnior, de 27 anos, o jornalismo e entretenimento estão presentes no programa Metropolitana Desportiva, da Rádio Metropolitana. Para Chaves Júnior, a parte do jornalismo esportivo é representada pela análise e a informação. Já a parte do entretenimento envolve o próprio futebol (CHAVES JÚNIOR 2019, informação verbal). Nesse sentido, Guilherme Guerreiro, diretor administrador e comercial de esportes da Rádio Clube e apresentador da RBA TV, há outra função a ser desempenhada que aproxima os profissionais de um show man.

Eu me vejo nesse mundo com a responsabilidade jornalísticas, apurando as notícias, mas a gente desenvolve o entretenimento. Temos a obrigação de cuidar da notícia, a base da credibilidade, com transparência e confiabilidade do publico. Mas temos que ter noção que estamos lidando com um produto que também é apaixonante (GUERREIRO, 2019, informação verbal).

Essa relação também existe na edição do programa produzida pela TV Liberal, afiliada Globo no Pará. Marcello Dinelly Júnior, produtor que iniciou a carreira na editoria de esportes da emissora há quatro anos, acredita que o Globo Esporte é um programa tanto entretenimento, quanto jornalístico. Para o jovem produtor, esporte não é jornalismo, é entretenimento, mas “as reportagens do Globo Esporte Pará são produzias e elaboradas nos dois níveis, porque não deixa de ser uma informação” (DINELLY JÚNIOR, 2019, informação verbal).

Avançando para a análise na web, ou seja, na internet, espaço marcado pelo entretenimento, o jornalismo foi absorvido como tal e passou a ter uma cara mais light, de acordo com a repórter Bruna Dias, do site Diário On-Line (DOL). A rotina de Dias prevê a produção de novos textos a partir das reportagens do jornal impresso do grupo, o Diário do Pará. Com isso, o texto jornalístico passa a apresentar características de entretenimento e “como o Diário já dá essas coisas mais de jornalismo, treino, e a gente reproduz, a gente acaba de fazer matérias frias, mais curiosidades” (DIAS, 2019, informação verbal).

Dessa forma, o jornalismo esportivo estaria prestando um serviço que Dejavite (2007) chama de Infotenimento. É o jornalismo que ao mesmo tempo traz uma prestação de serviço e propicia informação e entretenimento. O conteúdo sério é a reportagem que traz novas informações, aprofunda e critica, com a finalidade a reflexão. O entretenimento, o não sério, seria somente divertir, com humor, atraindo o receptor por tratar de assuntos mais leves, lights. Mas isso tem um risco: não trazer nada de novo, apenas algo velho, com outra roupagem.

Existe o cuidado em produzir conteúdos com linguagem mais leve também na TV. Edson Carvalho, da TV Record apresenta o quadro de esportes no Balanço Geral, diz que precisa fazer adaptações na linguagem, tornando-a mais simples, direta e até didática para não restringir o conteúdo ao público esportivo. (CARVALHO, 2019, informação verbal).

Jornalistas mais experientes, como o comentarista e colunista Carlos Ferreira, da TV Liberal e jornal O Liberal, também tem a missão de tornar o conteúdo mais leve. Para Ferreira, é necessário trabalhar nas duas perspectivas, do compromisso do jornalismo esportivo e o esporte, na perspectiva da leveza, na abordagem. Ou seja: “quando você cumpre sua obrigação? Quando você consegue seu recado com responsabilidade. E o entretenimento? Quando dá leveza e torna esse conteúdo atraente.” (FERREIRA, 2019, informação verbal).

Além disso, os dados confirmaram que a cobertura jornalística grandemente pautada no futebol de Clube do Remo e Paysandu Sport Club. Porém, é importante destacar que o programa matinal Camisa 13, da RBA TV, tem como regra editorial cobrir todas as competições e exibir, além das reportagens sobre o futebol de Remo e Paysandu, ao menos, duas reportagens sobre modalidades consideradas amadoras (como atletismo, futsal, basquete, vôlei) todos os dias.

Em outros veículos, a regra é condicionar o espaço às outras modalidades à ocasião e interatividade do torcedor. Max Sousa, produtor, locutor e apresentador do programa de rádio CBN Amazônia Esporte evidencia isto.

Foca não só em Remo e Paysandu, a gente foca em outras modalidades. O que mais vem à tona, o que está mais em foco mesmo é Remo e Paysandu. É o que chama mais a atenção, o que causa mais repercussão entre os torcedores. Como a gente abre mais para o público, no programa de esporte, é quando a gente mais ganha audiência. Mas no esporte, como é algo que envolve mais a paixão do paraense, Remo e Paysandu, é quando enche mesmo de mensagem (SOUSA, 2019, informação verbal).

Nesse sentido, a repórter do jornal O Liberal, Andréia Espírito Santo justifica a cobertura esportiva ter a maior parte de futebol centrada em Remo e Paysandu por dois motivos: a localização, na capital, e se tratar de dois grandes times do estado. Afinal, “isso chama a atenção e, no futebol, que é o principal esporte, a gente tem muita demanda nesse sentido” (ESPÍRITO SANTO, 2019, informação verbal).

É importante observar outro ponto importante revelado na análise dos dados, que identificou três principais fatores limitantes à cobertura esportiva. O primeiro é o número de pessoal, diretamente relacionado ao momento das empresas de comunicação. Segundo a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), foram 1.200 demissões, incluindo jornalistas, só no ano de 2016.

Além disso, as empresas de comunicação estão integrando as redações, a exemplo do que aconteceu na divisão de Esportes, do Grupo Globo. Roberto Marinho Neto, diretor executivo de Esportes, apresentou as mudanças na gestão, que incluíram a nova estrutura que integra, na mesma área, todas as atividades da TV Globo e da Globosat, ou seja: as redações do Globo Esporte, programas Sportv e globoesporte.com passaram a trabalhar de forma integrada. O fenômeno não é novo e estudos sobre a integração das mídias (MOHERDAUI, 2004) vem desde os anos 2000.

A reestruturação das redações e mudança na rotina dos jornalistas, com profissionais exercendo multitarefas, também é realidade nas redações dos veículos paraenses. A experiência mais recente foi a do grupo Liberal. A redação do jornal impresso recebeu a companhia da equipe da Rádio Liberal e passaram a produzir conteúdo para site liberal.com (substituindo o Portal ORM) na que foi autodenominada redação integrada. Carlos Fellip, que antes apenas editava o caderno de esportes do impresso, agora produz conteúdo para webjornalismo (MIELNICZUK, 2003). Na rotina, conteúdo produzido para o site é o factual e multimídia. Depois, o texto é ampliado e distribuído no jornal impresso (ARAÚJO, 2019, informação verbal).

Dessa forma, o tempo dedicado à externa para acompanhar treinos e partidas foi reduzido. “Isso fez com que os repórteres deixassem de acompanhar os treinos e os jogos, passando a depender as informações colhidas na internet ou repassadas pelas assessorias de imprensa dos clubes” (DIAS, 2019, informação verbal).

Agripino Furtado também cita “dificuldades para se deslocar nos treinamentos. São longe do centro e fica complicado você se deslocar. Às vezes a gente vai por conta própria” (FURTADO, 2019, informação verbal).

Para irem além da cobertura de treinos e jogos de Remo e Paysandu, os profissionais precisam fazer escolhas. As empresas de comunicação disponibilizam, no máximo, duas equipes exclusivas para a cobertura esportiva na TV, por exemplo. Para a editora e apresentadora do programa Camisa 13, da RBA TV, cobrir outras modalidades esportivas demanda esforço extra: “a gente cobre esporte amador. E ainda tem que adequar à agenda de Remo e Paysandu. A gente só tem dois repórteres” (MALATO, 2019, informação verbal).

A consequência é priorização da cobertura da dupla Remo-Paysandu e a redução do espaço para outras modalidades esportivas.

A gente trabalha a maior parte do ano com remo e Paysandu, o nosso forte mesmo é a dupla Re x Pa. A gente começa a trabalhar o esporte amador quando a gente não tem (Remo e Paysandu). […] Remo e Paysandu são os dois clubes, mas de toda a região norte, e o futebol, como é a maior paixão do brasileiro, também reflete isso. (DINELLY JÚNIOR, 2019, informação verbal).

O terceiro fator limitante revelado pelos dados da pesquisa mostra dificuldade financeira para custear viagens para outras cidades. “As rádios, por exemplo, precisam de patrocínio específico para este fim. Como nem sempre ocorre, também passa a receber o conteúdo disponibilizado pelas assessorias dos clubes” (CHAVES JUNIOR, 2019, informação verbal).

Diante deste cenário, fica evidente a dificuldade dos jornalistas e radialistas em observar, em um primeiro, a possibilidade de diversificar o conteúdo para além da cobertura do futebol de Remo e Paysandu. Além disso, inserir a ciência no discurso jornalístico não é unanimidade. Mas, faz-se importante discorrer sobre a ciência do esporte como elemento importante para o desenvolvimento do jornalismo esportivo com caráter científico.

Todos os entrevistados e entrevistadas concordaram com a afirmação “a ciência está presente no esporte”. A partir dessa constatação, exemplificaram as várias formas que a ciência do esporte se manifesta no dia a dia. São os impactos que a atividade esportiva tem no corpo, com os avanços da fisiologia que ajudaram a desenvolver treinamentos que resultam no melhor desempenho dos jogadores a partir de métodos de treinamentos e jogos; a evolução dos estudos do futebol não apenas na execução de movimentos, velocidade, força, mas também na mente. Outro fator está na medicina, com a prevenção de lesões e, como no caso do ex-jogador e comentarista da Rádio Clube, Marquinho Belém, 43, diagnóstico de doenças. Marquinho era jogador do Clube do Remo, em 2004, teve que suspender a carreira.

Teve aquela tragédia do Serginho (jogador futebol de 30 anos que teve parada cardiorrespiratória jogando uma partida, em 2004), no São Caetano. Depois disso, houve aquele estalo da medicina em fazer o eco cardiograma. Antes, só fazia um eletro e esteira, o teste de esforço. O eco é específico do coração. A medicina veio pra prevenir situações como aconteceu com o Serginho. Eu adquiri miocadiopatia hipertrófica assimétrica obstrutiva por causa do excesso de treinamento, que poderia resultar em uma parada cardíaca. Quanto mais eu treinava, mais meu coração crescia. Depois, de recuperado, pude voltar a jogar (SOUZA, 2019, informação verbal).

Outro ponto importante identificado na análise das entrevistas foi a relação existente entre jornalista e profissional de comissões técnicas dos clubes, em especial, as de Remo e Paysandu. Os jornalistas que pouco acompanham os treinos e partidas mantém o contato por telefone ou contam com a intermediação das assessorias de imprensa. Mas, quem está frequentemente nos estádios, tem uma relação mais próxima. Os repórteres setoristas, que acompanham exclusivamente um clube, conseguem estabelecer relações duradouras e, em alguns casos, de amizade. Porém, a maioria dos profissionais mantém o contato com a fonte dentro da rotina do deadline e das regras dos clubes, como afirma Edson Carvalho: dentro de uma limitação do próprio dia-a-dia, dos segredos que não são revelados. Muitas vezes o que eles trazem pra nossa realidade é algo de ponta, inovador. Não fazem questão de publicizar (sic), expor pra todo mundo” (CARVALHO, 2019, informação verbal).

Os profissionais paraenses divergem ainda em relação ao interesse do público por ciência no esporte. “Às vezes o torcedor não quer saber muito, quer saber se é bom de bola, jogador famoso ou sabe fazer gol. Torcedor não se liga muito, então a gente evita de falando dessa parte” (FURTADO, 2019, informação verbal). Porém, ainda que não tenha interesse, o leitor/ouvinte/telespectador/torcedor preciso ter acesso, como afirma Walmir Rodrigues: “Não acho que gosta. Mas ele precisa entender algumas coisas, entender o que acontece com determinados jogadores. É que precisa entender o quando interessa” (RODRIGUES, 2019, informação verbal). Afinal, “talvez ele (o torcedor) não tenha noção da dimensão que pode abranger a ciência e o esporte, talvez não tenha noção dessa ligação” (MALATO, 2019, informação verbal).

A CIÊNCIA DO ESPORTE

Aquela lesão de Pedro Carmona poderia levantar vários questionamentos para além do gramado de jogo: qual foi o mecanismo da lesão? Caso tenha sido realmente uma entorse, o jogador estava com equipamentos adequados? Executou algum movimento equivocadamente? O gramado estava ideal? Houve imprudência de Carmona ou do jogador adversário? A arbitragem foi permissiva com jogadas violentas? Caso não tenha sido uma entorse, houve sobrecarga de treinamentos na semana que antecedeu a partida? A mudança de comissão técnica pode ter contribuído? O jogador tem um histórico de lesões crônicas? A sequência de jogos pode contribuir para a lesão?

Diante de uma lesão desportiva, o maior foco é de interesse é o tempo que o atleta ficará afastado. Raramente se questiona como e por que ocorreu a lesão ou o que poderia ter sido feito para essa lesão ser evitada. Primeiro, é de suma importância que se entenda que a lesão de um atleta não pode ser um acontecimento meramente casual (VILLARDI, 2004, p.174).

A medicina tem contribuições para esse debate e para a ciência do esporte. Inklaar (1994) trata da importância da etiologia das lesões do futebol e dos diferentes programas preventivos reduzir a incidência e gravidade das lesões, levando em conta fatores de risco intrínsecos (flexibilidade articular, frouxidão ligamentar patológica e rigidez muscular, instabilidade funcional, lesões prévias e reabilitação inadequada) e de risco extrínsecos (carga de exercício no futebol, equipamento inadequado, condições do campo). Para Villardi (2004), as lesões de joelho causadas por trauma são comuns no futebol. Porém, a implementação de medidas preventivas nem sempre são simples. É preciso levar em conta a individualidade do atleta e a carga de treinamento. Mas o grupo de atletas é heterogênea, já que são oriundos de diversos estados ou países. E mais:

Medidas preventivas nem sempre são de fácil implementação por uma série de causas, e o binômio individualidade do atleta-carga de treinamento é uma das principais. Na maioria dos clubes de futebol, se pode observar uma população de atletas extremamente heterogênea. São indivíduos oriundos de diversos estados ou países, com história desportiva, somatótipos, idades, hábitos culturais e desportivos, estado nutricional ou progresso, os mais variáveis possíveis (VILLARDI, 2004, p. 172)

Compreender as causas das lesões no futebol é apenas um dos variados desafios que demandam estudos interdisciplinares, já que a modalidade envolve aspectos físicos, técnicos, táticos e psicológicos. A ciência do esporte, desde os anos 1980, tem apresentando estudos que ajudam a identificar e caracterizar particularidades. A partir dos estudos de Guerra e Barros (2004), é possível encontrar vasta conceituação do futebol (Shepart & Leatt 1987; Ekblom, 1993; Zeederber, 1996; Reilly 1996, Valquer & Barros, 2004).

Algumas conclusões físicas podem ajudar a compreender melhor a rotina de treinos nos clubes. Fisicamente, uma partida exige dos jogadores demandas fisiológicas múltiplas (como velocidade, força, flexibilidade e resistência). Foi possível, por exemplo, traçar um perfil do jogador. Se tratando de estatura e peso, a média é de 1,79cm e 76kg, respectivamente (Oberg 1984; Relly 1997; Shepard & Leatt 1987). Também se convencionou que os muitos treinadores costumam repetir em coberturas esportivas: treinar situação de jogo. Ou seja, treinamento, como o de velocidade, deve seguir as mesmas características das atividades realizadas durante a partida: 1) raramente os piques são superiores a 30 metros; 2) a grande predominância é entre 5 e 15 metros; 3) mais de 95% dos piques são sem bola; 4) o atleta inicia o pique das mais diferentes formas; 5) normalmente o pique termina com uma ação; 6) existe uma tendência dos laterais executarem piques mais longos (20-30 metros) e  dos atacantes, mais curtos (5-10 metros).

Como é perceptível na cobertura jornalística esportiva, os treinos compõem boa parte da produção do conteúdo. A partir da percepção dos treinos de velocidade, é possível compreender situações que acontecem em uma partida e nortear uma reportagem de TV ou comentário em transmissão de rádio, para exemplificar. Um lateral recém chegado ao clube que não teve sessão de treino de velocidade pode demonstrar lentidão durante uma partida? Qual seria a causa? Deficiência tática ou física?

Outras contribuições importantes vem da biomecânica, a disciplina derivada das ciências naturais, a que se ocupa de análises físicas dos sistemas biológicos, e consequentemente, de análises físicas dos movimentos do corpo humano como o padrão de chute e os movimentos necessários para que o jogador possa executar a ação (AMADIO & SERRÃO, 2004). A nutrição, juntamente com o treinamento e a saúde do jogador, contribui para o melhor desempenho em campo. Um exemplo:

[…] é preciso consumir carboidrato imediatamente após o término do jogo para que a reposição dos estoques de glicogênio muscular seja mais eficiente e rápida em até duas horas, já que nesse período as enzimas responsáveis pela ressíntese do glicogênio muscular estão mais ativas (GUERRA, 2004, p. 334).

A mente também vem recebendo a atenção dos estudos no campo do futebol. Armando Nogueira escreveu, em a Folha de São Paulo, em 1999 que “não só de pernas vive um grande time”. Para Ekblom (1995), apenas poucos atletas atingem a máxima perfeição. “O estresse decorrente do esforço físico e mental pode contribuir com lesões contusões e propiciar e agravar problemas de relacionamento entre membros da equipe e uma equipe de em desequilíbrio interno é um sério candidato à derrota e mais estresse” (BRANDÃO, 2004, p. 207).

Na arbitragem, estudos sobre percepção visual – a partir do nosso campo de visão, composto pela visão central fóvea (região da retina especializada em ver detalhes com nitidez) e a visão periférica (onde alguns eventos ao nosso redor podem passar despercebidos) – ajudaram a compreender a atuação de árbitros assistentes e reduzir erros de posicionamentos (OLIVEIRA et al., 2004).

Verheijen et al. (1999) realizaram estudos com três árbitros renomados e estudos sugeriram que os árbitros tomem decisões andando em vez de parados ou correndo. Ressaltam ainda que a melhor distancia, para maiores acertos de decisões, deve ser mantida entre o árbitro e as situações do jogo na faixa de 15 e 20 metros.

Ainda há estudos sobre futebol feminino, em que se concluiu que não é apropriado compararmos jogo masculino e jogo feminino em bases iguais. Todos jogam o mesmo jogo, com as mesmas regras, apenas os jogos são diferentes (KIRKENDALL, 2004). Em relação à formação de jogadores nas categorias de base, destaca-se a função educativa do treinador, não o limitando apenas à orientação do atleta em momentos do treinamento e da competição, mas em constante contato com o clube, pais e responsáveis pelo desenvolvimento da personalidade do atleta (GOMES & ERICHSEN, 2004).

Como é perceptível, a ciência do esporte pode explicar vários fenômenos no futebol. Mas, apesar do avanço dos estudos neste campo, ainda é preciso compreender o porquê a divulgação dessa produção científica ainda é restrita.

CULTURA CIENTÍFICA

As reflexões deste trabalho pretendem contribuir com não só com a comunicação, mas também com a divulgação científica. Como distingue Bueno (2010):

A comunicação cientifica visa, basicamente, à disseminação de informações especializadas entre os pares, com o intuito de tornar conhecidos, na comunidade cientifica, os avanços obtidos (resultados de pesquisas, relatos de experiências etc.) em áreas específicas ou a elaboração de novas teorias ou refinamento das existentes. A divulgação científica cumpre função primordial: democratizar o acesso ao conhecimento científico e estabelecer condições para a chamada alfabetização científica. Contribui, portanto, para incluir os cidadãos no debate sobre temas especializados e que podem impactar sua vida e seu trabalho (BUENO, 2010, p.1).

Tanto a comunicação quanto a difusão científica contribuem, dentre outros fatores, para um tipo particular de cultura que Vogt (2003) chama de espiral da cultura científica. Este espaço pode ser representado por uma espiral, acompanhando o desenvolvimento da ciência através das instituições voltadas para a sua prática e produção, facilitando a visualização e o entendimento, e definindo o que o autor chama de espaço ibero-americano do conhecimento.

Figura 1 – A espiral da cultura científica

Fonte: Vogt (2011, p. 10).

Dessa forma, é possível observar, no quarto IV, que jornalistas e cientistas são os destinadores da informação científica para a sociedade, assumindo papel fundamental na interlocução da cultura científica e o jornalismo. Ainda de acordo com Vogt (2011), o objetivo ideal do divulgador da ciência é que o conhecimento científico, como fenômeno cultural possa alcançar o nível de tratamento e vivência do futebol – em que poucos são os que efetivamente o jogam, mas são muitos que o entendem, conhecem suas regras, sabem como jogar, são críticos de suas realizações, com ele se emocionam e são por ele apaixonados.

Para isso são necessárias, além de talento, condições estruturais de apoio institucional, como recursos, planos de gestão, programas de educação e de formação, que cabem às políticas públicas estabelecer e fazer funcionar, com regularidade e eficácia. O fato de não jogar futebol não nos impede de amá-lo, de sermos amadores de sua prática, de praticá-lo sempre, mesmo que, na maioria das vezes, “só” pela admiração aficionada de torcedor. (VOGT, 2011, p 13).

O JORNALISMO

JORNALISMO ESPECIALIZADO

Para Tavares (2007, p. 42), jornalismo é uma prática social voltada para o “contar histórias”, onde, nos registros, estão o testemunho ou investigação, construção ou reconstrução de um acontecimento, ou saber. “O jornalista capta o mundo, conforma-o e informa-o através de um dizer. Diz-se sobre o mundo, para ele e, muitas vezes, por ele”.

Desta forma, o jornalismo é resultado, como diz Traquina (2001), de processos de interação social entre jornalistas, entre os jornalistas e a sociedade, e entre os jornalistas e suas fontes de informação. Esta interação, muito frequentemente, concretiza-se em uma unidade discursiva do sistema jornalístico: a notícia, um meta-acontecimento discursivo (RODRIGUES, 1993), que reporta um outro acontecimento, mas não qualquer acontecimento, mas um acontecimento notável, singular e concreto que rompe com a organização de uma realidade.

Já Sousa (2002, p. 13), jornalismo nada mais é do que “artefatos linguísticos que procuram representar determinados aspectos da realidade e resultam de um processo de produção e fabrico onde interagem, entre outros, diversos fatores”.   Há ainda uma conceituação mais direta:

Jornalismo é jornalismo, seja ele esportivo, político, econômico, social. Pode ser propagado em televisão, rádio, jornal, revista ou internet. Não importa. A essência não muda porque sua natureza é única e está intimamente ligada às regras da ética e ao interesse público (BARBEIRO; RANGEL, 2006, p. 13).

Porém, há uma categoria de jornalismo, o jornalismo especializado, que revela certos “acontecimentos invisíveis” a partir do processo de mediação.

A mediação, nesse sentido, apresenta-se como prática midiática de captar a realidade e transmiti-la a partir de um processo de produção próprio, sem fugir da ideia de interação comunicativa que a envolve. Percebemos assim, a mediação como um processo socialmente contextualizado, inserido numa lógica comunicativa mais ampla, que abrange diversos âmbitos de produção, recepção e de relação entre ambos (TAVARES, 2007, p.12).

Nesse sentido, os jornalismos científico e esportivo podem mediar “acontecimentos invisíveis” produzidos pela ciência do esporte e interesse público? Faz-se importante refletir sobre jornalismo esportivo e científico.

JORNALISMO CIENTÍFICO

Bueno (2009) lembra que a história da imprensa brasileira se coincide com os primórdios do jornalismo científico, como Hipólito da Costa, fundador do Correio Brasiliense, que manteve contato estreito com cientistas e produziu relatos e notícias nos campos da botânica, agricultura e medicina, além dos periódicos “O Fazendeiro” e “Chácaras e Quintais”.

O jornalismo científico, ao longo destes pouco mais de 200 anos de existência no Brasil, segundo Bueno (2012), evoluiu bastante, mas, se ganhou vulto e visibilidade, acumulou novos desafios que precisam ser prontamente enfrentados, não apenas a partir de uma melhor capacitação técnica, mas com espírito crítico e coragem. Dessa forma:

O jornalismo científico diz respeito ao processo de circulação de informações de Ciência, Inovação e Tecnologia (CI&T) formatada para atender a uma audiência não qualificada, ou seja, o público leigo.  Ele tem algumas características singulares: estas informações são, prioritariamente, veiculadas pelos meios de comunicação de massa e obedecem ao sistema de produção jornalística, ou seja, compõem o chamado discurso jornalístico. Desta forma, ele se distingue tanto da comunicação científica quanto da divulgação científica no seu sentido mais amplo, definindo-se como um de seus particulares (BUENO, 2012, p. 2).

Já Vera Lúcia Salles (1981) entende que o jornalismo científico é a informação veiculada pelos meios de comunicação de massa e transmitira em linguagem acessível ao grande público.

Como ressalta Bueno (2009), o analfabetismo científico, consequência da precariedade do ensino formal de Ciências no Brasil, mantém o “grande público” distante do jornalismo científico, que somado a pouca sensibilidade de editores e empresas de comunicação, resultam na ideia de que a Ciência, Tecnologia e Inovação, não interessam ao cidadão comum. Exceto em alguns casos espetaculares, assumindo uma narrativa sensacionalista, contribuindo ainda mais para a desinformação.

JORNALISMO ESPORTIVO

Já o jornalismo esportivo, talvez na concepção que se tem hoje, foi “inventado”, segundo Capraro (2011), pelo carioca Mario Rodrigues Filho, ainda com 23 anos, quando fundou, em 1931, um dos primeiros (de breve duração) jornais esportivos, “o Mundo dos Esportes”. Cinco anos depois, junto com ajuda financeira, incluindo a de Roberto Marinho, tornou-se o dono do Jornal dos Sports. Biógrafos de Mario Rodrigues Filho o evidenciam como uma das principais referências para o rompimento com o antigo modelo jornalístico que tratava dos esportes, caracterizado pela escrita rebuscada, conteúdo frívolo e análise sob uma ótica elitista (CASTRO, 1992 apud CAPRARO, 2011).

Ainda que tenha sido um dos primeiros cronistas dedicados exclusivamente ao futebol, tornando-se tão popular quanto os jogadores da época, além da popularização do futebol demandando mudanças na forma como o esporte era noticiado, o mais engajado em enaltecer as virtudes profissionais de Mario Filho foi o próprio irmão, Nelson Rodrigues, já consagrado teatrólogo e escritor:

Amigos, cada geração devia ter um Mario Filho, ou seja, um homem de larga evocação homérica. E, então, eis o que aconteceria maravilhosamente: – a história de uma geração passaria a outra geração, assim como a chama do círio passa a outro círio. Mas Mario Filho morreu e não ouvimos mais os grandes cantos do futebol (RODRIGUES, 1994, p. 174).

Antes mesmo de Mário Filho se consolidar como o pai do jornalismo esportivo “moderno”, outros profissionais já de dedicavam à cobertura de eventos esportivos. André Ribeiro (2007) considera “O Atleta”, publicado pela primeira vez em 1891, como marco do jornalismo esportivo em São Paulo e no Brasil. Outros periódicos paulistas também foram surgindo (como “O Sport”, “O Sportsman”, “A Pátria Esportiva”) décadas depois. Entretanto, os esportes que ganhavam destaque nas revistas e jornais eram o ciclismo, remo e turfe.

A imprensa da época não priorizava o futebol. Afinal, a capital paulista vivia intenso processo de urbanização e crescimento econômico, atraindo imigrantes para trabalhar na indústria e obras de infraestrutura. O futebol ainda era praticado como lazer, inclusive pelos estrangeiros.

Emplacar pautas relacionadas ao futebol naquele cenário de São Paulo era muito difícil. Mas fechar os olhos para o crescimento do futebol nas várzeas parecia um grave erro de avaliação dos responsáveis pelos principais jornais da época. Porém, como a elite também imperava nas redações, a criação da primeira Liga do Futebol Paulista, no final de 1901, com apenas cinco clubes da elite, virou notícia (RIBEIRO, 2007, p. 23).

No Rio de Janeiro, de acordo com Oliveira (2013), o cenário era semelhante ao da capital paulista. Até o início do século 21, só existiam duas equipes (Paysandu Cricket Clube e Rio Cricket and Atlhetic Association) que conquistaram a cobertura da imprensa local, ainda pouco interessava aos principais jornais da época divulgar notícias sobre futebol na então capital carioca.

O que chamava a dos jornalistas era o fato de uma partida terminar sem vencedores, como registrado em uma pequena nota do Correio da Manhã no primeiro jogo de foot-ball “mostrava a decepção do repórter com o resultado da partida, que terminou empatada em 1 a 1”. Acostumados à cobertura de competições como remo e turfe, que sempre tinham um vencedor, o jeito foi escrever que o placar esteve indeciso (RIBEIRO, 2007).

A atual cobertura do jornalismo esportivo, de acordo com Bueno (2005), está focada no esporte de competição. Trabalhar com jornalismo esportivo tem suas especificidades e é frequentemente confundido com o puro entretenimento. Além disso, a partir de um olhar atento, revela-se uma preocupação quase exclusiva com o futebol, resultando em um desproporcional espaço (e tempo) na mídia a despeito do número de praticantes das diversas atividades esportivas (BARBEIRO E RANGEL, 2006).

A mídia só contempla determinados esportes em grandes eventos internacionais, como os jogos Pan-americanos e as Olimpíadas, e ainda assim, destaca vencedores (os medalhistas), relegando os demais ao esquecimento, deixando de cumprir o seu papel de estimular as novas vocações e de valorizar o espírito de competição (BUENO, 2005, p. 21).

Além disso, Bueno (2005) acredita que a cobertura se limita a um espaço de ação limitada – pré, durante e pós-partida –, resultando em pautas pobres, endereçando-se para fofocas e intrigas, ainda que haja temas relevantes a serem tratados. O autor ainda destaca um terceiro pronto: a imprensa esportiva padece de uma miopia crônica, exibindo preconceito contra clubes e esportes de menor expressão, esquecida de que nossos principais valores foram revelados longe dos grandes centros. Sem contar com a preocupação com os jornalistas que buscam favorecer em comentários ou transmissões os times de maior torcida, quando não grandes centros. O quinto ponto, relacionado a qualidade da informação jornalística, associada à cobertura esportiva no Brasil. Segundo Bueno:

Não é raro encontrarmos resultados errados das partidas, títulos de matérias em oposição aos comentários e notícias, informações equivocadas sobre artilheiros, o que é absolutamente comum, desconhecimento sore regulamentos dos torneios e sobre a posição dos clubes nas tabelas. Nesse caso, há comentários surrealistas sobre situações que nunca irão se concretizar porque se apoiam em dados falsos. Improvisa-se bastante nessa área, o que é arriscado porque, na maioria dos casos, pelo interesse dos torcedores, essas informações são sobejamente conhecidas, o que só aumenta a falta de credibilidade dos que cobrem o esporte brasileiro (BUENO, 2005, p. 24).

O cenário é favorável para resultados diferentes. Segundo Maluly (2005), no jornalismo esportivo, o fato vem sempre antes (local e a competição já estão previamente marcados) e os jogadores já foram, na sua maioria, escalados. Ou seja: o repórter acaba dependendo apenas do desenrolar dos fatos. E isto pode ser estendido para treinos, biografias, preparativos e desfechos de noticiários. Afinal, no jornalismo esportivo, tudo que envolve o fato é importante para prender a atenção do público, dependendo da quantidade e da qualidade da informação que é transmitida.

Em qualquer disputa a reportagem pode ser feita de maneira agradável e interessante, se o repórter experiente tomar conhecimento antecipadamente das equipes, informar se e chegar ao local uma hora antes para a checagem final. Se esperar até que a competição comece para obter essas informações, o resultado de seu trabalho pode tornar-se desinteressante (HOHENBERG, 1981, p.391, apud MALULY, 2005, p. 47).

Ainda de acordo com Maluly (2005), a Internet facilita o acesso a dados antes de difícil acesso. Porém, destaca que a matéria fundamentada apenas pelo recurso das novas mídias é perigosa, pois, nem sempre, a informação colocada na internet é confiável. Os meios eletrônicos servem como instrumento de auxílio na busca de informações. O jornalista, neste caso, no papel de pesquisador, precisa observar a fonte divulgadora ou mesmo com outras fontes, seja ela humana ou bibliográfica, se o dado é válido.

É evidente que, neste contexto, publicações científicas (artigos, livros, teses e dissertações) são reconhecidas como fontes confiáveis para a produção de uma matéria. Mas, o autor alerta para o que chama de “especulação cientifica e tecnológica”. A novidade ou ineditismo trouxeram ao jornalismo uma desconfiança diante do que é divulgado, “já que os meios de comunicação de massa poderiam ser utilizados como divulgadores de duvidosas promessas ou falsas experiências, e não como divulgadores de ciência e tecnologia” (MALULY, 2005, p. 49). O jornalista precisa se desvincular disso e lançar mão em dados pesquisas e produções já comprovadas cientificamente para não cair no erro de produzir uma matéria mais publicitária do que jornalística.

Assim, o jornalismo esportivo se aproxima de um cenário real das competições, com personagens construídos por meio de fatos (e não ficcionais), e abre janelas para questionamentos mais alinhados com a realidade vivida pelo atleta. Outro caminho para a produção da reportagem é a comissão técnica, a equipe de apoio do atleta ou da equipe, que pode fornecer informações precisas (MALULY, 2005). Além disso, a tática da comissão técnica para uma competição, como a escalação, os meios de preparação (alimentação, concentração, altitude etc.) e as informações sobre outros atletas são fatores que influenciam no resultado e podem contribuir com a cobertura jornalística.

Não há como negar que uma das preocupações dos jornalistas é escolher um profissional que seja especialista no assunto, e não apenas um amigo ou colega. “Os especialistas são profissionais das mais variadas áreas do conhecimento (humanas, exatas e biológicas), e seus depoimentos sevem para esclarecimento de determinado assunto que não está claro para o jornalista” (MALULY, 2005, p. 57). Dessa forma, todas as pessoas envolvidas de forma direta ou indireta no esporte são fontes de informações para o repórter na cobertura esportiva. Porém, como observa Bueno (2005, p. 15), o esporte não pode ser visto como uma “atividade imune aos interesses econômicos, sociais, culturais e políticos. Isso causa a descontextualização que dificulta alguns entendimentos do que ocorre na modalidade”.

Esta atitude crítica diante da situação do desporto no Brasil e a divulgação do esporte como elemento cultural para o lazer e a saúde, entre outros valores, podem contribuir para a melhoria da qualidade de vida do brasileiro (MALULY, 2005, p. 59).

JORNALISMOS ESPORTIVO-CIENTÍFICO

De acordo com os estudos de Messa (2005, p. 3), partir da história do jornalismo esportivo brasileiro, observa-se que é mero entretenimento e tem 80% das temáticas noticiosas e das reportagens especializadas girado em torno de uma única modalidade desportiva que é o futebol. A partir disso, o autor lança um questionamento: “poderíamos conceber um jornalismo esportivo que não se restringisse apenas ao entretenimento do público leitor-torcedor?”

Seguindo a análise crítica de Messa (2005), a cobertura esportiva não prioriza o que é essencial para o público: “o jornalismo esportivo diário é, na realidade, um jornalismo de variedades amenidades, cujo tema não é o esporte em si, mas os seus conglomerados e atacantes (personagens) que compõem essa rede mercadológica” (MESSA, 2005, p. 3).

Isso corrobora com que Alsina (2009) caracteriza como a cultura de massa, estruturado na lógica de atender demandas de mercado. O mercado de entretenimento determina um número limitado de (apesar de muitos) produtos e uniformizados em conteúdo, que são vistos em série de retornos cíclicos do mesmo produto e na imitação de diversos outros. E o público está condicionado está condicionado nos seus gostos pelo resumo, “o que caracteriza a cultura de massas é a padronização e a repetição (ALSINA, 2009, p.198).

Por essa razão, Ivanissevich (2005) faz algumas ponderações quando o assunto é popularização da ciência através da mídia. Segundo a autora, há uma resistência da comunidade científica. Como os meios de comunicação são um negócio com um produtor a vender, no caso a informação, os empresários, que não necessariamente são jornalistas, tem como objetivo alcançar a maior margem de lucro possível em tempo recorde.

O sucesso das vendas ou a conquista de vários pontos no Ibope depende, entre outros fatores, de que tipo de informação é veiculada e de que forma ela é apresentada ao público. Assim, o que vai determinar quais notícias serão transmitidas não é certamente a vontade do cientista em divulgar seus resultados, mas o que o editor de TV, rádio, revista ou jornal e, às vezes, o que o gerente do setor comercial – considerar de maior interesse para aumentar a venda de seu produto (IVANISSEVICH, 2005, p. 14).

Entretanto, o referido autor reconhece que tentativas isoladas de divulgar o saber científico (através de aulas convencionais, peças de teatro, filmes, exposições, palestras) tem pouco impacto na população. Mas, se a ciência for veiculada na mídia pode alcançar milhões de pessoas em um só dia e “seria inútil ignorar um instrumento com esse poder de alcance cientistas e educadores deveriam considerá-lo um aliado – sempre atentos a seus vieses – em sua tentativa de divulgar ciência” (IVANISSEVICH, 2005, p. 28).

A linguagem dos artigos ou programas veiculados pela mídia é um fator determinante para o sucesso ou o fracasso da transmissão da informação. Espera-se dos jornalistas – especialistas em comunicação – que saibam escolher, selecionar, interpretar, resumir e traduzir a informação para o público. Para atingir a população, as notícias sobre ciência devem passar, como as de qualquer outra área, por esse processo. As dificuldades de interpretação e de edição pode-se acrescentar a variável tempo. Com certeza, ela tem significados diferentes para jornalistas e cientistas. Dificilmente, os cientistas compreendem a pressa aparentemente descuidada dos jornalistas. Estes, sobretudo os que trabalham em noticiários, sofrem com a ironicamente batizada “linda da morte” (deadline) (IVANISSEVICH, 2005, p.18).

Nesse contexto, a cobertura jornalista restringe-se, de acordo com Messa (2005), à identificação de um furo jornalístico, geralmente para escandalizar, produzir material efêmero e dispensável, resumindo-se à construção de imagens de atletas, grifes, patrocínio, imagens da torcida. A despeito disso:

Proponho um jornalismo esportivo de caráter científico. Não quero, em essência, manifestar um repúdio ao jornalismo esportivo factual, agora seria tarde demais para expurgá-lo. Pelo contrário, já parto do pressuposto de que há essa tendência praticamente irreversível, pois o público leitor já foi adestrado para isso. Seria como desiludi-lo de suas expectativas passionais. O que se pretende é tentar despertar outros ou novos ângulos de interesses ao leitor/espectador, a fim de suprir a demanda do conhecimento sobre os esportes. A proposta de um jornalismo esportivo-científico só tem razão de ser devido a essa conjuntura (MESSA, 2005, p. 4).

Mas, evidentemente, dentro da lógica da cultura de massa, Ivanissevich (2005) destaca que é necessário haver um alinhamento de interesses entre a divulgação científica e mídia. Ainda que o papel da mídia seja vender informação, é possível que o bom jornalista saiba escolher temas de interesse e os transmita de forma correta e atraente, valando-se de certos recursos, incrementando a qualidade do produto com credibilidade.

Para ser veiculada pela mídia, a ciência tem de ser capaz de despertar interesse, manter a atenção do leitor, ouvinte ou telespectador até o fim do artigo ou programa, e ser bem entendida pelo grande público (IVANISSEVICH, 2005, p. 21).

Nesse sentido, é importante analisar a última edição da pesquisa de Percepção Pública da Ciência e Tecnologia (C&T) no Brasil, do Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) que, em 2015, ouviu 1.962 jovens e adultos com idade acima dos 16 anos, em todas as regiões do País, entre vários aspectos, o interesse dos brasileiros por C&T.

A pesquisa concluiu que é alto índice de interesse declarado pela população por ciência e tecnologia como um todo ou por temas específicos que envolvem conhecimentos científicos e tecnológicos, incluindo abordagens sobre medicina e saúde ou meio ambiente.

Também é alto o interesse os brasileiros revelam ter, especificamente, por ciência e tecnologia, uma vez que a maioria da população (61%) se declara interessada (35%) ou muito interessada (26%). Além disso, ao que os entrevistados expressam ter por esporte ou arte e cultura. (CGEE, 2015), conforme a figura abaixo.

Figura 2: Percentual de entrevistados segundo o interesse declarado em ciência e tecnologia e em outros temas, 2015.

Fonte: Pesquisa sobre percepção pública da C&T no Brasil (CCGE, 2015).

Dessa forma, o interesse por Ciência & Tecnologia releva um caminho fértil para a Alfabetização Científica (DURANT, 2005) que designa o que público em geral deveria saber a respeito da ciência. Ivanissevich (2005) defende que é mito o desinteresse do público por ciência e precisa ser derrubado e que é possível confiar em uma divulgação científica de qualidade pode ser feita. E ainda: “mais do que uma alfabetização em ciência, o público precisa de bons intérpretes” (IVANISSEVICH, 2005, p. 28-29).

CONSIDERAÇÕES FINAIS

Messa (2005) e Bueno (2005) fizeram duras críticas à cobertura esportiva. Este, inclusive, acredita que falta competência para a mídia em tratar de assuntos especializados, como doping e leões esportivas, simplesmente porque a cobertura não assume caráter investigativo ou de pesquisa, contentando-se com fontes e declarações superficiais. Segundo o autor, “não há tempo e nem espaço para matérias de fôlego, porque jornalismo vive em função apenas dos torneios e das partidas” (BUENO, 2005, p. 21).

É preciso ir além da fisgada. O primeiro passo é compreender que o esporte, em especial o futebol, não pode ser tratado isoladamente, não observando o contexto em que está inserido. A partir das reflexões deste trabalho, foi possível perceber a ciência do esporte assumindo papel fundamental neste sentido. Os estudos desenvolvidos na medicina, fisiologia, biomecânica, nutrição, psicologia, entre outros, tem contribuído decisivamente para o desenvolvimento dos jogadores, das equipes e competições. Ao se aproximar do jornalismo científico, o jornalismo esportivo incorpora algumas particularidades que podem resultar em uma relação frutífera, como defende Messa (2005), na proposição de um jornalismo científico-esportivo.

No Pará, as comissões técnicas de Remo e Paysandu tem apostado em profissionais cada vez mais qualificados, com trajetória acadêmica. E, ao que ficou posto, pode ser a fresta para os jornalistas e radialistas não somente enfrentaram os fatores que limitam a cobertura esportiva, mas também garantirem a diversidade do conteúdo entregue ao telespectador, ouvinte ou leitor – que se mostrou, a partir de pesquisa, interessado muito mais em ciência e tecnologia do que o próprio esporte, contrariando o senso comum –, e contribuindo para desenvolvimento da cultura científica, já que cientistas e jornalistas são protagonistas na difusão do conhecimento produzido pela ciência para a sociedade (VOGT, 2011).

Seria o equilíbrio entre jornalismo esportivo e entretimento, afinal, como afirmam Barbeiro & Rangel, (2006), a essência do jornalismo é única e está ligada às regras da ética e ao interesse público. A partir das análises das entrevistas dos profissionais paraenses, identifica-se um cenário favorável em um aspecto importante: formação. Dos 16 entrevistados e entrevistadas, 14 chegaram ao ensino superior. Ainda que seja possível observar profissionais mais experientes buscando formação em áreas que não o da Comunicação, uma quantidade considerável da amostragem, em especial os que ingressaram no mercado há cerca 10 anos, tem formação em jornalismo. Apesar de uma das quatro instituições de ensino superior que ofertam curso presencial de jornalismo, no Pará, tenha a disciplina jornalismo esportivo no componente curricular, o cenário é favorável. E ao mesmo tempo urgente.

A cobertura esportiva é, desde os tempos de Mario Filho, reconhecida pela linguagem acessível e facilidade em contar histórias. Entretanto, precisa estar atenta ao que Bueno alertou sobre os riscos dos improvisos, que resultam em erros e comentários surrealistas sobre situações impossíveis. Paralelamente a isto, o interesse dos torcedores e a disponibilidade de outras formas de acesso à informação, só contribuem para falta de credibilidade de quem cobra o esporte no Brasil (BUENO, 2005).

Dessa forma, o jornalismo esportivo pode ser, também, um aliado na alfabetização científica. Mas não apenas isso. Como afirmou Maluly (2005), a divulgação como elemento cultural para o lazer e a saúde, e porque não a ciência, podem contribuir para a melhoria de vida do paraense, do brasileiro. Ir muito amém da fisgada.

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[1] Graduado em Comunicação Social, com Habilitação em Jornalismo, pela Universidade da Amazônia (UNAMA); Especialista em Comunicação Científica na Amazônia (FIPAM/NAEA), pela Universidade Federal do Pará (UFPA); Mestrando em Planejamento do Desenvolvimento, no Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU/NAEA), pela UFPA.

[2] Docente da Faculdade de Comunicação da UFPA; Mestre em Comunicação e Cultura Contemporâneas, pela Universidade Federal da Bahia; Doutora em Ciências da Informação e Estudos Midiáticos, pela Universidade Fernando Pessoa, Porto-Portugal.

[3] Teóloga. Doutora em Psicanálise Clínica. Pesquisadora do Centro de Pesquisa e Estudos Avançados, São Paulo, SP.

[4] Docente do Programa de Pós-graduação em Estudos Antrópicos na Amazônia (PPGEAA/UFPA). Doutor em Medicina/Doenças Tropicais. Docente e Pesquisador na Universidade Federal do Pará (UFPA). Pesquisador no Núcleo de Medicina Tropical (NMT/UFPA), Belém (PA), Brasil.

[5] Docente do Programa de Pós-graduação em Desenvolvimento Sustentável do Trópico Úmido (PPGDSTU), do Núcleo de Altos Estudos Amazônicos (NAEA), da Universidade Federal do Pará (UFPA); Mestre em Educação Física, pela Universidade Metodista de Piracicaba (UNIMEP); Doutora em Ciências: Desenvolvimento Socioambiental, pela Universidade Federal do Pará (UFPA).

Enviado: Março, 2020.

Aprovado: Março, 2020.

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