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Valor-notícia das publicações da Marinha do Brasil: um estudo do house-organ Nomar

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL 

OLIVEIRA, Andreza Rebelo Cruz [1], OLIVEIRA, Luiz Fernando de [2]

OLIVEIRA, Andreza Rebelo Cruz. OLIVEIRA, Luiz Fernando de. Valor-notícia das publicações da Marinha do Brasil: um estudo do house-organ nomar. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 07, Ed. 07, Vol. 05, pp. 190-223. Julho de 2022. ISSN: 2448-0959, Link de acesso: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/comunicacao/house-organ-nomar

RESUMO

A comunicação interna de uma organização, realizada por meio de um house-organ (ou revista institucional), é primordial para alinhar valores da instituição. Além disso, cria e reforça a imagem organizacional. Desta forma, o artigo tem como esta questão norteadora: quais são os critérios de noticiabilidade usados para a elaboração da pauta da revista? Assim, tendo como foco os critérios de noticiabilidade definidos por Traquina, este artigo objetiva identificar e analisar os valores-notícia mais utilizados pelo setor de comunicação, para a escolha do conteúdo que figura nas capas dos exemplares do house-organ Nomar. Recorrendo à metodologia do Estudo de Caso, foram avaliadas notícias das capas do periódico a partir de uma amostra de três edições, veiculadas no período de julho a setembro de 2020. Para fundamentar teoricamente este trabalho, realizou-se a consulta bibliográfica em todas as etapas da pesquisa. Além disso, a autora executou também uma entrevista semiestruturada com um jornalista do órgão, com o intuito de verificar os mais recorrentes critérios de noticiabilidade. Como resultado desta análise, conclui-se que o valor notícia está sujeito sempre aos interesses e necessidades do profissional de comunicação e do órgão informativo. Ficaram claros, portanto, variados critérios de noticiabilidade utilizados na revista Nomar, mas três se destacaram no conteúdo selecionado: a novidade, a relevância e o tempo.

 Palavras-chave: Comunicação Interna, Critérios de Noticiabilidade, Valor Notícia, Periódico Nomar.

1. INTRODUÇÃO

Apesar de todas as transformações ocorridas na prática da profissão jornalística nos últimos anos, a apuração, a redação, a edição e a difusão da notícia ainda são consideradas práticas tradicionais e consolidadas. E no que diz respeito à comunicação nas organizações, o trabalho do jornalista vai ainda além, pois precisa se preocupar com a disseminação da imagem da instituição à qual pertence.

Diante do importante papel do jornalista para a organização, lançou-se a seguinte pergunta-problema para house-organ (ou revista institucional) Nomar: quais são os critérios de noticiabilidade usados para a elaboração da pauta da revista? Para analisar a seleção dos fatos merecedores de virar notícia ­na revista institucional, é fundamental evidenciar que essa escolha subjetiva é baseada em um processo complexo que envolve uma série de critérios de noticiabilidade adotados pelos profissionais da comunicação.

Desta forma, o objetivo do estudo é identificar e analisar os valores-notícia mais utilizados pelo setor de comunicação, para a escolha do conteúdo que figura nas capas dos exemplares do house-organ Nomar.

A apresentação desses critérios poderá auxiliar na compreensão do trabalho realizado pelos profissionais da comunicação que, em determinadas situações, não conseguem explicar por que alguns fatos se transformam em notícias e outros não, “para além de respostas vagas do tipo ‘o que é importante’ e/ou ‘o que interessa ao público’” (TRAQUINA, 2005, p. 62).

Paradoxalmente, Traquina (2005, p. 63), baseado em estudo sobre os conteúdos dos media noticiosos, afirma: “As notícias apresentam um ‘padrão’ geralmente bastante estável e previsível”. Portanto, identificar e classificar os variados valores-notícias pode tornar mais ágil a tomada de decisão na produção e na seleção de notícias.

Sobre o conceito de noticiabilidade, Traquina (2005, p. 63) explica: “É o conjunto de critérios e operações que fornecem a aptidão de merecer um tratamento jornalístico, isto é, possuir valor como notícia”. Temer (2007, p. 58) apresenta uma definição parecida. Para a autora, é o “conjunto de atributos que se exige para que um fato adquira uma existência pública”.

Deste modo, para compreender como uma determinada produção jornalística procura se enquadrar aos critérios de noticiabilidade, este trabalho analisou três exemplares da revista Nomar, de julho, de agosto e de setembro de 2020. A seleção dos periódicos para análise utilizou-se do critério de serem os últimos exemplares publicados antes da reestruturação que ocorreria nos meses posteriores, abarcando, a partir de então, além do público interno, também o externo.

A escolha do objeto de estudo (Nomar) justifica-se pelo fato de o referido veículo de comunicação ser o primeiro periódico do Centro de Comunicação Social da Marinha do Brasil e consequentemente um dos meios de comunicação mais tradicionais da instituição, que permanece até hoje em circulação.

Para chegar a este objetivo, o trabalho apresenta em sua primeira parte um esforço mais bibliográfico para uma definição teórica do campo da comunicação interna, da comunicação organizacional e da comunicação integrada. O estudo de caso sobre a revista Nomar envolveu quatro notícias e os critérios de noticiabilidade utilizados. Todas as publicações analisadas estavam na capa e abrangiam diferentes temas.

2. METODOLOGIA DE PESQUISA

A pesquisa foi estruturada com base na perspectiva metodológica do “estudo de caso”. Segundo Yin (2005, p. 32), estudo de caso é uma inquirição empírica com a finalidade de analisar o fenômeno contemporâneo dentro de um contexto da realidade, quando a fronteira entre o fenômeno e o contexto nem sempre é fácil de discernir.

Para fundamentar teoricamente este trabalho, a consulta bibliográfica foi essencial e esteve presente em todas as etapas da pesquisa, desde a construção da problemática a ser estudada, até a busca de interpretações da temática focalizada.

Além disso, por meio de entrevista, foram coletadas informações da jornalista e capitã-tenente Ellen Franciana Vieira Silva, editora-chefe do departamento de produção e divulgação do veículo Nomar.

Para a realização da entrevista, foi utilizado roteiro semiestruturado que, conforme Soncini, Stevanato e Fortes (1998, p. 12) as entrevistas “semiestruturada”, ou também conhecida como “em profundidade”, “dão ampla liberdade para o entrevistador, que não tem um roteiro rígido a seguir, bem como ao entrevistado, que pode responder livremente sobre o tema que é lançado pelo entrevistador”.

A interação entre a pesquisadora e a entrevistada ocorreu por meio de telefone, no dia seis de novembro de 2020, com a opção de não disponibilizar previamente o roteiro da entrevista para que as respostas fossem espontâneas. As perguntas realizadas na entrevista foram elaboradas em conjunto com o professor Luiz Fernando de Oliveira, com o intuito de compreender a rotina de trabalho até o lançamento do periódico, bem como, os critérios de noticiabilidade que são utilizados pela equipe de jornalistas para selecionar o que é divulgado ou não na revista. As perguntas foram estas:

  1. Quais os critérios de noticiabilidade usados para elaboração de pautas na revista?
  2. Por que esses critérios foram definidos?
  3. O que é importante divulgar sobre a Marinha?
  4. Como é a equipe de produção da revista?
  5. Como a equipe de produção da revista obtém as informações a serem divulgadas?
  6. Qual o público-alvo da revista?

A partir das respostas coletadas, foi realizada uma análise inicial. Preliminarmente, as informações indicaram que os jornalistas da revista Nomar possuem, pelo menos, três critérios que norteiam as escolhas do que será publicado ou não. No entanto, os parâmetros utilizados para responder à questão norteadora foram aqueles construídos e estabelecidos por Traquina que tratam sobre os critérios de noticiabilidade

3. DESENVOLVIMENTO

3.1 COMUNICAÇÃO INTERNA

Segundo Ochoa (2014, p. 111), “a comunicação interna é a forma oficial da organização estabelecer o diálogo entre a empresa e o público interno”. O conceito de público interno é visto, aqui, de acordo com a classificação de Andrade (1994, apud NASCIMENTO, 2016, p. 92), como aquele que é formado pelos colaboradores e familiares. Desta forma, além dos prestadores de serviços permanentes e temporários, algumas organizações incluem os familiares como parte da audiência.

No caso estudado, os familiares fazem parte do público-alvo, pois eles convivem com o Universo da Marinha. O plano de comunicação social da Força Naval, inclusive, considera que é importante que a família do militar esteja bem-informada. Afinal, eles são os maiores multiplicadores da imagem organizacional que a instituição pretende disseminar para a sociedade (BRASIL, 2015).

Façamos inicialmente uma diferenciação entre a comunicação interna e o endomarketing. Embora ambos tenham o intuito de estabelecer o diálogo do público interno com a organização, os dois termos não são sinônimos, pois apresentam características diferentes. A comunicação interna leva em consideração o diálogo e a humanização da empresa, ao possibilitar que o público interno tenha voz e seja ouvido, por meio dos canais de comunicação. Diferentemente do endomarketing, que reforça a imagem da organização por meio de estratégias de marketing e trata o público de dentro da corporação como clientes. Desta forma, busca motivá-los a exercer melhor as atividades de trabalho. Por isso que as duas diferentes ações devem ser usadas em situações distintas (OCHOA, 2014).

Para Kunsch (1999, p. 77) o objetivo da comunicação interna é “propiciar meios para promover maior integração dentro da organização, compatibilizando os interesses desta e dos empregados, mediante o estímulo ao diálogo, à troca de informação e experiências e à participação de todos os níveis”. Ou seja, as pessoas envolvidas no processo comunicacional assumem um caráter participativo. Conforme Nascimento (2016, p. 29), o foco está na valorização das pessoas que trabalham na organização “fazendo com que atuem de forma conjunta, colaboradores se sentirão partícipes do processo”.

É por meio dessa compatibilização dos interesses entre as partes que a organização “consegue reforçar e repassar valores e disseminar informações” (OCHOA, 2014, p. 111). Afinal, o público interno precisa estar bem inteirado ao planejamento estratégico para melhor desempenhar suas atividades e ser capaz de disseminar a mensagem que a organização tem interesse em compartilhar. Qualquer ruído na comunicação interna pode afetar, por exemplo, a imagem que a organização deseja transmitir. Não é à toa que as organizações investem em ações internas para refletir de forma positiva exteriormente. Como explica Curvello (2012, p. 22), a organização coordena ações com o objetivo “de ouvir, informar, mobilizar, educar e manter coesão interna em torno de valores que precisam ser reconhecidos e compartilhados por todos e que podem contribuir para a construção de boa imagem pública”.

Lemos (2011, p. 156), conforme citado por Sant’ana (2013, p. 20), apresenta três pilares que formam a base da prática de uma comunicação interna:

A comunicação interna contemporânea é complexa e abrangente em muitos aspectos. Na revolução dinâmica que se vem experimentando dia a dia, a comunicação interna deve considerar três grandes fundamentos: orientar-se para o cidadão nas organizações, estando atenta à ambiência em que se dá, quer interna, quer externa; promover o conhecimento sobre a cultura organizacional e o envolvimento das lideranças com o planejamento e a disseminação das mensagens; ser ágil, verdadeira e parte de um sistema de comunicação integrada. Só assim ajudará as organizações a alcançar seus objetivos e, ao mesmo tempo, oferecerá ao público interno a possibilidade de também alcançar seus próprios objetivos (LEMOS, 2011, p. 156, apud SANT’ANA, 2013, p. 20).

Tais considerações demonstram que a comunicação dentro de uma organização deve ser abordada de forma estratégica. Isto é, as informações precisam ser adequadas com a missão, visão e valores. No caso estudado, fruto de um instrumento de comunicação interna da Marinha do Brasil, a missão, a visão e os valores estão previstos no plano de comunicação social, e serão abordados posteriormente no Estudo de Caso. O documento foi criado em consonância ao Manual de Comunicação Social da Marinha.

Diante disso, é importante considerar a cultura organizacional e perceber que ela está fortemente relacionada ao planejamento estratégico. Para isso é fundamental o engajamento dos funcionários. Conforme Brum (2003, p. 34), “o grande desafio das empresas, hoje, é transformar funcionários em aliados, sem esquecer que uma estrutura empresarial democrática depende basicamente da liberdade da informação, do incentivo à criatividade e do livre curso das ideias”.

No contexto militar-naval, há uma gama de estilos de liderança. Cada um trata a democratização da informação de forma diferente. Dois desses estilos são relevantes para o estudo. Na liderança autocrática, por exemplo, a comunicação entre as diferentes hierarquias ocorre apenas de líder para liderado, ou seja, há um desinteresse na opinião dos subordinados. No entanto, há outro tipo de liderança, chamada de democrática. Nesse caso, o líder dispensa parte da autoridade formal, incentiva os liderados a participarem das tomadas de decisão e aproveita as ideias sugeridas (BRASIL, 2013).

Cada situação vai exigir um diferente estilo de liderança. A liderança autocrática, por exemplo, é usada em uma situação de guerra, em que as tomadas de decisões devem ser rápidas e não é possível ouvir o subordinado. Já a liderança democrática pode ser usada para objetivos estratégicos. Vale ressaltar que os componentes do grupo, para contribuir, devem ter conhecimento técnico-profissional (BRASIL, 2013). Pode-se observar que esse último estilo de liderança é observado na revista analisada, uma vez que há participação de militares que fazem parte de postos e graduações de níveis hierárquicos inferiores.

De outra parte, a comunicação interna está diretamente relacionada com as transformações sociais resultantes do contexto contemporâneo e vai além do uso de diversos meios para informar e alcançar os empregados.

(…)é possível definir um novo olhar para a “antiga” disciplina da comunicação interna: esta passa a ser, agora, uma efetiva forma de gestão baseada primordialmente na construção do diálogo, a partir do qual é possível estabelecer-se um sentido mais significativo tanto para a empresa quanto para os empregados. É uma visão que privilegia a conversa, o ouvir, a convivência, menos voltada para a dimensão do comando-controle que estivemos acostumados no passado e mais aberta a criar valor a partir da experiência, criatividade e inovação daqueles que fazem parte da organização. (CARRAMENHA; CAPPELLANO; MANSI, 2015, p. 298 e 299).

Como se fosse uma espécie de sistema de mão dupla, por se tratar de uma “troca de informação que, se bem-feita, proporciona a satisfação de ambas as partes” (BRUM, 2003, p. 32). Diante desse contexto, a transparência é um item que deve ser levado em consideração. Conforme Brum (2003, p. 96), “a desmotivação é quase sempre gerada pela desinformação e pelo desconhecimento, por parte do funcionário, em relação à empresa ou a uma determinada situação interna”. A autora explica ainda que, ao ser omisso em informar o empregado daquilo que está acontecendo, o processo interno pode, até mesmo, ser prejudicado, uma vez que, não sendo munidos de informações nos canais formais da organização, os colaboradores receberão informações pelo acesso informal (BRUM, 2003).

Por canal formal, entende-se aquele que procede da estrutura organizacional. Conforme Nascimento (2016, p. 48), “a rede formal é a comunicação pensada deliberadamente, de forma oficial, sobre os procedimentos, as normas e as condutas de uma organização”. Já o canal informal é mais conhecido como “rádio peão” ou “rádio corredor”, isto é, no grupo do whatsapp, no facebook, por exemplo. Para Nascimento (2016, p. 25), “a rede informal advém dos relacionamentos entre os indivíduos de uma organização e pode ou não seguir as diretrizes da rede formal”.

Não adianta esconder o que está acontecendo com a empresa. É essencial mostrar a realidade dos fatos e dar voz aos anseios dos trabalhadores nos canais internos. Também é importante o cuidado com as diversidades no ambiente de trabalho, propiciando sempre uma convivência harmoniosa entre todos. A comunicação interna, em suma, não deve focar somente na transmissão da informação, mas, sim, na construção de um diálogo com o público interno (NASCIMENTO, 2016, p. 24).

É importante frisar que a falta de um canal oficial (ou rede formal) de comunicação pode disseminar informações prejudiciais à organização. De acordo com Brum (2003), até mesmo mensagens curtas e simples estão sujeitas a sofrerem alterações. “Uma informação que é transmitida de boca em boca, por um certo número de indivíduos, sofre alterações cumulativas, ao longo do caminho, até tornar-se algo inteiramente distinto do que era na sua origem” (BRUM, 2003, p. 33).

Por outro lado, quando os canais e instrumentos oficiais cumprem os papéis aos quais estão sujeitos, os colaboradores se sentem parte importante da organização e tal envolvimento é capaz de gerar uma motivação, conforme explica Brum (2003):

No momento em que uma empresa decide democratizar a informação internamente, permitindo que os funcionários saibam mais sobre a empresa, seus processos, seus mercados, seus produtos, seus serviços, suas metas e desafios, faz com que eles se sintam parte do processo e, portanto, determina um nível maior de motivação pelo simples fato de colocá-los numa posição de maior importância (BRUM, 2003 p. 32).

Outro conceito fundamental relacionado à comunicação interna diz respeito ao fluxo de informações entre as partes da organização. Curvello (2012) apresenta quatro: o fluxo ascendente, fluxo descendente, fluxo horizontal e, como o advento de tecnologias como o e-mail e as intranets, o fluxo transversal.

O fluxo descendente ocorre quando as lideranças cascateiam as informações corporativas para os demais colaboradores. Conforme Curvello (2012, p. 23), “na comunicação empresarial, de forma geral, prevalece o fluxo descendente, com as informações se originando nos altos escalões e sendo transmitidas ao quadro de funcionários, por meio de inúmeros canais, entre eles os clássicos boletins ou jornais da empresa”. Essa forma de fluir a comunicação é essencial, pois “a partir do momento em que o funcionário passa a conhecer verdadeiramente a empresa na qual trabalha e o que pensa a sua Direção, sente-se desempenhando um papel determinante para a manutenção e o crescimento dessa empresa” (BRUM, 2003, p. 97).

De acordo com Curvello (2012, p. 23), “o fluxo ascendente se caracteriza pelas informações, geralmente sugestões, críticas e apelos, oriundos dos funcionários e dirigidas à direção”. Um dos exemplos dados pelo autor são as colaborações de funcionários em jornais da empresa (CURVELLO, 2012). Esse processo inverso permite que a “direção da empresa possa conduzir a sua gestão com base em dados reais, além de poder contar com a visão dos funcionários sobre aspectos do seu dia a dia” (BRUM, 2003, p. 32).

No fluxo horizontal, ou também chamado de lateral, a comunicação se dá entre funcionários que pertencem ao mesmo setor e/ou departamento e ocupam posições equivalentes na organização. Nascimento (2016, p. 27) cita como exemplo, a “troca de informações entre um diretor comercial e um administrativo”. Por fim, o fluxo transversal acontece entre empregados de diferentes hierarquias. “Um exemplo é a comunicação direta entre a direção e os colaboradores da produção” (NASCIMENTO, 2016, p. 27). Esses dois últimos ocorrem quase sempre no campo informal (CURVELLO, 2012).

No Estudo de Caso que será abordado posteriormente, o fluxo descente é que mais se assemelha à atividade desenvolvida pela equipe de jornalistas responsável pela revista Nomar. O house-organ é um veículo de comunicação que circula dentro das organizações militares. Ele serve de porta-voz entre chefes e subordinados, de maneira que a comunicação ocorre do topo para a base da pirâmide organizacional.

Embora a comunicação se dê de cima para baixo, ainda é possível considerar que exista uma via de mão dupla. Além do periódico abordar notícias de oficiais generais, que compõem o topo da hierarquia militar, como promoções de almirantes, também noticia a vida dos sargentos e capitães-tenentes, por exemplo, que são de nível hierárquico mais baixo, considerados praças e oficiais intermediários. Essa secção da revista chamada “diário de bordo” trata da decisão do militar de ingressar na Marinha e da trajetória na organização. Além disso, traz o relato de como o militar se sente em relação à Instituição.

Outra secção, conhecida como “Destaque nas Mídias”, em que o veículo pode dialogar com o público, é a publicação que a revista faz em relação aos posts mais curtidos em cada rede social (Facebook, Instagram, Twitter e YouTube). A interação nas redes sociais e os maiores cliques mostram o que os demais, fora até mesmo da hierarquia militar, consideram de mais interessante.

Nessa medida, essas definições a respeito de canais formais e informais e dos fluxos (descendentes, ascendentes, horizontais, transversais) são primordiais para a elaboração de estratégias de comunicação interna. Para o atingimento das metas e dos objetivos, os empregados precisam estar alinhados com o que o mundo fora da organização espera dela em termos de responsabilidades históricas, sociais, culturais, ambientais, entre outras. A grande dificuldade é “passar a bola para o outro” e alinhar a mensagem de maneira que haja uma única empresa e uma única voz.

Em síntese, a comunicação interna é planejada em torno de propósitos claramente definidos, para viabilizar toda a interação possível entre a organização e seus colaboradores, lançando mão de metodologias e técnicas de comunicação institucional e até da comunicação mercadológica. Evidentemente, na medida em que ela se desenvolve no âmbito de uma comunicação integrada, com políticas globais estabelecidas, estratégias delineadas e programas de ação voltados prioritariamente para todo o pessoal interno, tenderá a ser muito mais eficiente e eficaz. Será pensada, planejada e avaliada constantemente, não ocorrendo simplesmente de forma fortuita. (KUNSCH, 1999, p. 77)

Para garantir o alcance da missão organizacional e manter diálogo com o público interno, “a organização deve pensar em ferramentas que possibilitem o diálogo e a participação dos funcionários, para podermos aumentar a produtividade e melhorar os indicadores internos.” (NASCIMENTO, 2016 p. 130). Estas são algumas das ferramentas utilizadas: jornais internos, e-mails, intranet, quadro de avisos, mídias eletrônicas (rádio e TV), comunicados etc. Melo (2012, p. 173), citado por Ochoa (2014, p. 113) apresenta ainda mais exemplos:

As principais ferramentas de comunicação interna são: o jornal interno, com até 12 páginas e em formato tabloide; a newsletter, produção digital capaz de integrar várias mídias; a revista, cumpre função semelhante a do jornal, mas as matérias são mais profundas e o apelo visual é maior; o boletim, com informações breves e pontuais; os folhetos, colocados em locais estratégicos para divulgação; a rádio, que pode ser ao vivo ou gravada, mas na maioria das vezes é online; a intranet, local onde a empresa pode promover o autorreconhecimento; os manuais, que ajudam a reforçar procedimentos, conceitos; os vídeos, utilizados para assuntos que devem ser repetidos. Apesar de incluir a TV corporativa e os programas de incentivo como ferramentas de comunicação interna, Melo as descreve como ações de endomarketing (MELO, 2012, p. 173, apud OCHOA, 2014, p. 113).

Algumas dessas ferramentas, como os manuais de ambientação, kits de boas-vindas e manuais de ética e conduta, buscam a integração dos colaboradores. Enquanto os blogs internos e intranets tem o intuito de promover a participação e o envolvimento (NASCIMENTO, 2016). Segundo Ochoa (2014, p. 113), de forma geral, “as mídias de interesse interno devem ter periodicidade definida e têm como principais objetivos promover a valorização, a mobilização e o relacionamento com os públicos internos”.

Para a implantação das ferramentas de comunicação interna, é necessária a criação de um plano. Este documento irá conter: diagnóstico da situação; avaliação de quais os instrumentos a utilizar (impressos, eletrônicos a aproximativos); definição de objetivos do plano; ferramentas; perfil editorial, periodicidade, frequência e distribuição; e mensuração dos resultados (NASCIMENTO, 2016, p. 135).

3.2 COMUNICAÇÃO ORGANIZACIONAL

Margarida Maria Krohling Kunsch foi a precursora do uso da expressão “comunicação organizacional” na década de 1980. A autora inicialmente considera que “ela abrange todos os tipos de organizações – públicas, privadas ou do terceiro setor” (KUNSCH, 2012, p. 21). Com essa perspectiva abrangente, Kunsch (2012, p. 21) conceitua o termo comunicação organizacional “como parte integrante na natureza das organizações. Trata-se de um fenômeno que acontece dentro das organizações e pode ser estudado de diversas maneiras”.

Para Moraes (2016), há o modo tradicional e o contemporâneo para enxergar a comunicação organizacional. Segundo o autor, “por muito tempo, a comunicação nas organizações se resumiu em divulgar e controlar as informações. Entendia-se a comunicação organizacional como a divulgação de informações de uma empresa para com seus clientes e, vagamente, para seus funcionários” (MORAES, 2016, p. 3). Atualmente, porém, o termo carrega um conceito mais amplo: “processo de comunicação que ocorre em uma organização e suas mediações, sendo esta privada ou pública, em que todos os seus públicos de interesse são considerados, havendo planejamento nos âmbitos interno e externo” (MORAES, 2016, p. 3).

Portanto, deixou de ser um processo unilateral de informações e tornou-se sinônimo de interação, diálogo e tornar algo comum a outras pessoas (MORAES, 2016). Essa definição é reforçada por Kunsch (2003, apud NASCIMENTO, 2016) no que diz respeito à necessidade de alcançar um equilíbrio de interesses entre a organização e o público vinculado a ela. Segundo Kunsch, o estudo do fenômeno de comunicação nas organizações “analisa o funcionamento e o processo comunicacional com relação aos diversos públicos existentes” (KUNSCH, 2003, p. 149, apud SANT’ANA, 2013, p. 17).

É interessante observar também a importância da comunicação organizacional para estabelecer a imagem da organização como explica (FILHO, FERRAZ, 2015):

Uma das grandes funções da comunicação organizacional atualmente é a de manter a construção e a manutenção da imagem da organização perante seus públicos. A imagem organizacional forma, atualmente, um importante patrimônio, tratando-se de um dos ativos intangíveis mais valorizados pelas organizações. A preocupação com a análise dos bens intangíveis surgiu desde o momento em que se observou que existem empresas cujo valor da marca é superior ao seu valor contábil (FILHO, FERRAZ, 2015, p. 857).

Diferentemente de uma empresa, que vende produtos e busca vantagem competitiva no mercado, os produtos que são divulgados pela Marinha produzem ativos intangíveis. Isso quer dizer que a revista Nomar, um dos veículos de comunicação da instituição, “vende” uma imagem positiva da Força Militar perante a população brasileira, cuja credibilidade foi conquistada ao longo de anos e já está consolidada.

Essa imagem é um patrimônio impossível de ser mensurado e está associada a várias conquistas alcançadas. Estas são algumas delas e foram tratadas no Plano de Comunicação (Brasil, 2015): os avanços tecnológicos obtidos, as significativas contribuições para a indústria nacional e para a Academia, os empregos diretos e indiretos gerados pelos Projetos Estratégicos (como o Programa Nuclear, o Desenvolvimento de Submarinos, a construção de vários tipos de navios e o desenvolvimento de Sistemas de Gerenciamento).

Para que os objetivos sejam alcançados, a comunicação precisa ser planejada de forma estratégica. Dessa forma, os canais para disseminar informações precisam funcionar em conformidade com a missão, visão e os valores. “É comum a afirmação de que a comunicação tem uma função estratégica de resultados. Isto é, ela tem que agregar valores e ajudar as organizações a cumprirem sua missão e concretizarem sua visão” (KUNSCH, 1999, p. 78 e 79).

Pensando na gestão da comunicação organizacional, muito se tem por aprender. Na prática, muitas vezes ela é gerida muito mais com ênfase nas tarefas do que nos processos. Sua função terá que ser muito mais abrangente e proativa. Como parte integrante da gestão estratégica, ela deverá auxiliar a organização a fazer a leitura das ameaças e das oportunidades presentes na dinâmica do ambiente global, avaliando a cultura organizacional, e pensar estrategicamente as ações comunicativas. Essas ações deverão atingir principalmente aqueles públicos estratégicos (stakeholders) que transcendem o âmbito local, atingindo mesmo dimensões interculturais com organizações de outros países, face à realidade da sociedade global (KUNSCH, 1999, p. 79 e 80).

De acordo com Nascimento (2016, p. 18), o pensamento estratégico é essencial, pois “facilitará o entendimento das necessidades dos públicos, as tendências na opinião pública e o gerenciamento de crises de imagem”. Como se fosse uma espécie de ideias antecipadas, o planejamento é considerado uma das etapas primordiais, na perspectiva da comunicação organizacional, uma vez que é capaz de definir as metas e prioridades, conforme conceitua Kunsch (2003, apud NASCIMENTO, 2016):

O planejamento estratégico permite às organizações encontrar o melhor caminho para o direcionamento de suas atividades, tendo por base as oportunidades e as ameaças detectadas no ambiente externo, o reconhecimento de suas competências essenciais, vantagens competitivas internas e externas e a sua capacidade de planejar, pensar criticamente e administrar a implementação das decisões e ações elaboradas para o alcance dos resultados, cumprimento da missão e visão (KUNSCH, 2003, p. 237, apud NASCIMENTO, 2016, p. 18).

Porém, para que o planejamento estratégico assuma de fato um papel relevante para alcance das metas estabelecidas, “as organizações devem entendê-la não somente como uma simples ferramenta, mas como uma das bases da administração estratégica” (NASCIMENTO, 2016, p. 18). Não basta pautar-se por ações isoladas de comunicação, centradas no planejamento tático para resolver questões, gerenciar crises e gerir produtos sem uma conexão com a análise ambiental e as necessidades do público de forma permanente e pensada estrategicamente (KUNSCH, 1999, p. 78).

Tal postura, na perspectiva da comunicação organizacional, está relacionado também com cultura organizacional, cujo intuito é “fazer com que os colaboradores possam participar do planejamento estratégico, além de construir e manter bons relacionamentos” (NASCIMENTO, 2016, p. 18). Segundo Filho e Ferraz (2015, p. 860), “se a comunicação faz parte da estratégia, ela deve estar diretamente associada ao dia a dia da organização, incluindo todas as pessoas que fazem parte dela”. Kunsch (1999, p. 87) também colabora com essa perspectiva. Segundo a autora, “a valorização das pessoas e da cultura corporativa, isto é, dos processos de gestão participativa são também pontos essenciais para eficácia comunicacional”.

Nesse contexto, compreendemos a cultura organizacional como um “elemento norteador das organizações, (…), pois orienta os comportamentos dos indivíduos (…) em uma unidade de sociedade empresarial específica, repleta de construções/desconstruções das relações sociais” (CRUZ, 2007, p. 195). Para Bueno (2003, p. 4, apud CRUZ, 2007, p. 195), a comunicação “é o espelho da cultura empresarial e reflete, necessariamente, os valores das organizações”.

O conceito de cultura também pode ser captado a partir de duas linhas teóricas básicas. Na primeira é concebido como sistema de ideias no qual os campos social e cultural são distintos, mas inter-relacionados. Na segunda, é tido como sistema sociocultural, e a cultura é percebida como componente de um sistema social, manifestada em comportamentos e produtos de comportamentos (CURVELLO, 2012, p. 29).

Por isso que precisamos considerar que a cultura organizacional está diretamente ligada à cultura da sociedade, de modo que as duas caminham juntas. Assim sendo, ela influência nas ações de divulgação que devem ser planejadas em conjunto com os gestores, buscando sinergia na comunicação para que a imagem da organização seja uma só, além de estreitar laços com a sociedade, por meio dos públicos de interesse. “Partindo do pressuposto de que a diversidade da cultura existe em todas as sociedades, não é possível esquecer que cada indivíduo também traz consigo sua cultura, sua personalidade. Nas organizações, não é diferente” (SANTOS; FREITAS, 2015, p. 362).

Cruz (2007) destaca que a cultura organizacional, deve atuar em conformidade com a comunicação organizacional, isto é, não pode ser vista de forma isolada ou fragmentada, desconsiderando uma visão sistêmica. Nesse sentido, Kunsch (2003, apud NASCIMENTO, 2016, p. 23), aponta para uma outra terminologia para facilitar a cooperação da comunicação nas empresas: a comunicação integrada.

3.3 COMUNICAÇÃO INTEGRADA 

De acordo com Moraes (2016 p. 11), a comunicação organizacional integrada “surge para suprir os anseios dos empresários, funcionários, clientes, comunidade e terceirizados. Compilar em um só sistema o conhecimento de todas as áreas que competem a comunicação social” (MORAES, 2016, p. 11). A comunicação integrada é outra importante contribuição teórica trazida por Kunsch:

Entendemos por comunicação integrada uma filosofia que direciona a convergência das diversas áreas, permitindo uma atuação sinérgica. Pressupõe uma junção da comunicação institucional, da comunicação mercadológica, da comunicação interna e da comunicação administrativa, que formam o mix, o composto da comunicação organizacional (KUNSCH, 2003, p. 150, apud SANT’ANA, 2013, p. 17).

Esse conceito composto por outros quatro tipos de comunicação (institucional, mercadológica, interna e administrativa), quando observados separadamente “cada um possui objetivos distintos, mas, de forma integrada, devem estar articuladas na política de Comunicação Organizacional” (OLIVEIRA; MOURÃO; PENNINI, 2015, p. 25).

Por meio da sinergia, ela visa uma construção de identidade corporativa forte e sintonizada. Cruz (2007, p. 199) aponta que, “apesar das diferenças e das especificidades de cada setor e dos respectivos subsetores cuja soma de todas as atividades redundarão na eficácia da comunicação nas organizações, a partir de ações estratégicas e táticas de comunicação”. Dessa forma “o desafio consiste, então, em considerar as particularidades das diversas áreas de gestão e os níveis intermediários que se relacionam, estando em constante interação” (CRUZ, 2007, p. 200).

3.4 ESTUDO DE CASO: PERIÓDICO NOMAR

O instrumento de comunicação descrito neste artigo é o periódico Nomar, ou chamado de house-organ, da instituição militar da Marinha do Brasil, usado como ferramenta de comunicação interna que já existe na organização há mais de cinquenta anos. Nesse período, passou por diversas fases.

Com periodicidade semanal, a revista surge em 29 de outubro de 1965, intitulada de “Notícias da Marinha”. O periódico estava, na época, sob a responsabilidade do Serviço de Relações Públicas, vinculado diretamente ao gabinete do comandante da Marinha. O perfil inicial do informativo era composto por decretos, por normas e por apenas uma ilustração na capa como mostra a figura 1, a seguir, conforme a jornalista e capitã-tenente Ellen Franciana Vieira Silva, editora-chefe do departamento de produção e divulgação da revista Nomar (SILVA, 2020, em entrevista à autora).

Figura 1: Primeira capa do Nomar, em 1965

Primeira capa do Nomar, em 1965
Fonte: Arquivo Centro de Comunicação Social da Marinha – Revista Notícias da Marinha, ano 1, n. 1, 1965

Em nove de junho de 1967, quase dois anos depois, a revista passou a se chamar Nomar. A mudança que ocorreu na edição 84, apresentada na figura 2, não foi a única. Com o passar dos anos, a periodicidade foi sofrendo alterações e tornou-se um exemplar mensal a partir de janeiro de 1975. “Da mesma forma, a proposta gráfica foi sendo alterada, em função de novos recursos tecnológicos, da evolução da comunicação social e, principalmente, da renovação de ideias” (HISTÓRICO, 2009).

Figura 2: Nomar edição 84, página 1

Nomar edição 84, página 1
Fonte: Arquivo Centro de Comunicação Social da Marinha – Revista No Mar, ano 3, n. 84, 1967

Um dos itens que permaneceu ao longo dos anos foi a definição do público-alvo, voltado exclusivamente para dentro da organização. E abrange desde os militares da ativa quanto os que estão na reserva (aposentados), servidores civis e dependentes. Tanto é que a linguagem usada é muito própria do militarismo. A editora-chefe Ellen cita um exemplo de abreviatura comum: “Contra-almirante que é o posto, a gente coloca como ‘C Alte’” (SILVA, 2020, em entrevista à autora).

O conteúdo abrange “o trabalho marinheiro, divulgando os fatos e as atividades da Marinha, contribuindo para um rico acervo histórico da Instituição” (HISTÓRICO, 2009). A essência do informativo é basicamente o que acontece na Marinha, mas não pode ser comparado a um mural de empresa, afinal, por se tratar de assuntos operativos e de defesa nacional, não estão restritos à organização: muitas vezes o meio de comunicação chega, até mesmo, nas mãos do público externo.

A edição de setembro de 2020, por exemplo, possui doze páginas e 1,5 mil exemplares impressos. O periódico costuma ser distribuído nas Organizações Militares da Marinha estabelecidas por todo território nacional, em feiras e eventos da Marinha e enviado para o Centro de Comunicação Social do Exército e da Força Aérea Brasileira. Curiosamente, hoje se imprime a mesma quantidade que no início da criação do periódico. Mas, de acordo com Histórico (2009), a tiragem chegou a 45 mil. Segundo a editora-chefe, a tiragem diminuiu, pois vivemos em um mundo digital e a Marinha acompanha essa tendência, além dos fatores de acessibilidade e economicidade (SILVA, 2020, em entrevista à autora).

Conforme a entrevistada, a “família naval foi contra a extinção do impresso, afinal precisamos atender à demanda do nosso público, mais resistente a essa mudança e acostumado a comprar jornal” (SILVA, 2020, em entrevista à autora). Além da revista impressa, o informativo vai por mailing eletrônico para alguns militares cadastrados. E pode ser encontrada no site da Marinha do Brasil.

A fim de garantir agilidade na divulgação, a publicação conta atualmente com sua versão digital disponibilizada na Página Oficial da Marinha na Internet e na Intranet. Foi também implementada, no site, a seção “Nomar Online”, meio pelo qual são disseminadas e, periodicamente atualizadas, notícias recentes de interesse da Instituição, que muitas vezes se constituem em uma antecipação dos artigos do “NOMAR” a ser impresso (HISTÓRICO, 2009).

O setor responsável, atualmente, pelo periódico é o Centro de Comunicação Social, órgão central do Sistema de Comunicação Social da Marinha. São eles que recebem notícias escritas por jornalistas militares ou servidores civis, diariamente, de vários locais do Brasil, para publicação na sessão, chamada de “Nomar Online”. A partir daí são pinçadas notícias para entrar no impresso. De acordo com a entrevistada, a principal pergunta que norteia a seleção é esta: O que de mais importante aconteceu nesse mês? Quanto aos principais critérios utilizados, Ellen destacou: relevância, notoriedade e atualidade (SILVA, 2020, em entrevista à autora).

A divisão de redação é composta por três jornalistas. Um é responsável por receber as notícias do Brasil inteiro. Nesse caso, o tipo de texto é semelhante a uma nota de no máximo três parágrafos, acompanhado de fotos com bom enquadramento e nitidez. Outro jornalista seleciona as notícias para colocar em uma pré-pauta da revista, para ser avaliada. Além disso, esse profissional é responsável por apurar as informações e aprofundar o tema. E o terceiro jornalista é o editor-chefe, responsável por supervisionar e definir o que será realmente inserido no periódico. As pautas ainda passam pelo olhar de dois oficiais da Marinha, o chefe de departamento e o diretor do Centro de Comunicação Social, com o objetivo de realizarem a revisão de definições e termos militares que podem ter sido mal colocados (SILVA, 2020, em entrevista à autora).

Antes da análise dos critérios de noticiabilidade do veículo, vale destacar os aspectos que norteiam o plano de comunicação social da organização pesquisada. Conforme Brasil (2015, p.3), o plano busca a otimização das ações de divulgação, de modo a nortear e ampliar os esforços para disseminar informações necessárias para a consecução da missão da instituição frente ao público interno, que é carinhosamente considerado a família naval. Este é propósito dessas ações: “fortalecer o moral e preservar a coesão interna, valorizando a profissão e estimulando o orgulho de integrar a Marinha do Brasil, além de desenvolver a mentalidade de Comunicação Social” (BRASIL, 2015, p. A-1).

O documento é fruto de uma comunicação integrada que ressalta a importância da sinergia entre todos os integrantes da Marinha e o alinhamento com a missão, a visão e os valores da organização militar. Um aspecto da missão, que merece destaque, é “preparar e empregar o poder naval, a fim de contribuir para a defesa da pátria”. Dessa forma, uma ação a empreender é reforçar a mensagem da relevância do militar para os assuntos de defesa da nação. O plano de comunicação social traz também a visão da Marinha:

A Marinha do Brasil será uma Força moderna, equilibrada e balanceada, e deverá dispor de meios navais, aeronavais e de fuzileiros navais compatíveis com a inserção político-estratégica do nosso País no cenário internacional e, em sintonia com os anseios da sociedade brasileira, estará permanentemente pronta para atuar no mar e em águas interiores, de forma singular ou conjunta, de modo a atender aos propósitos estatuídos na sua missão (BRASIL, 2015, p. 1).

Por fim, estes são os valores destacados pela organização: transparência; agilidade; precisão e unicidade de discurso. Cada membro do público interno, ou seja, os militares e servidores civis, ativos ou inativos, e seus familiares, precisa estar em sintonia com esses itens, de maneira que eles funcionem como uma caixa de ressonância, espalhando mensagens positivas sobre a Marinha. E esse é o grande desafio do profissional de comunicação social, pois atua na conscientização desse público interno (BRASIL, 2015).

3.5 CRITÉRIOS DE NOTICIABILIDADE PERIÓDICO NOMAR

Partindo do princípio teórico sobre comunicação organizacional e comunicação interna, este artigo analisa a natureza das notícias veiculadas na página inicial do periódico Nomar. Para tanto, a pesquisa examinou as edições número 939, de julho de 2020, 940, de agosto de 2020 e 941, de setembro de 2020.

Na edição de número 939, conforme figura 3, datada de julho de 2020, o meio de comunicação veicula duas notícias na capa. A primeira (40 anos de ingresso da Mulher na Marinha – a força de uma escolha) ressalta a importância da mulher para a corporação. É um exemplo clássico do valor-notícia empatia. Esse é um critério abordado por Pinto (2009).

De acordo com a autora, a notícia atrai mais o leitor quando cria uma identificação das pessoas com a situação abordada. E quanto maior o número de pessoas que são contagiadas por esse efeito, mais importante ainda ela se torna.

Nesse caso, a empatia se dá na exposição de cada conquista alcançada e no reforço da imagem de uma instituição envolvida em oferecer condições iguais a ambos os gêneros, visando atender o princípio da isonomia. Um exemplo disso foi citado na matéria que aborda a possibilidade das mulheres de alcançar as graduações mais altas dentro da hierarquia naval. Neste caso, o periódico registra a existência das duas únicas mulheres brasileiras que são oficiais-generais.

Além da possibilidade de ascensão na carreira, a notícia destaca a ideia de reconhecimento profissional e valorização da atuação profissional da mulher. Dessa forma, a notícia cumpre o papel de criar uma identificação da Corporação com o público feminino e de demonstrar que está sintonizada com as mudanças que ocorrem na sociedade.

Figura 3: Nomar edição 939, página 1

Nomar edição 939, página 1
Fonte:https://www.marinha.mil.br/sites/all/modules/nomar_julho2020/book.html

O valor-notícia ineditismo observado nessa capa também está presente no texto da notícia, como apresenta a figura 4, pois está relacionado ao pioneirismo da Marinha diante das demais Forças com o ingresso da mulher na carreira militar-naval. Afinal, a mensagem tem o intuito de reforçar o recado de que militares femininas têm espaço e, não só isso, como também podem alcançar altas patentes, exercer cargos de chefia e concorrer como os homens, em igualdade de condições a funções de destaque. E tudo isso se deu primeiramente com a Força Militar Naval e depois se estendeu às demais Forças Militares.

O fator tempo é outro valor-notícia presente nesta notícia, reportada na figura 4. É possível fazer estas verificações em textos jornalísticos que citam as palavras “completa” ou “comemora”, indicando um fato inédito que aconteceu nesta mesma data, porém, há vários anos. É, portanto, um assunto importante do passado que merece destaque no presente. Alguns acontecimentos funcionam como um “cabide” para pendurar a notícia (TRAQUINA, 2015). “O próprio fator tempo é utilizado como gancho para justificar falar de novo sobre esse assunto” (TRAQUINA, 2015, p. 81). Neste caso, estamos nos referindo aos 40 anos do ingresso da mulher na instituição.

Figura 4: Nomar edição 939, página 4 e 5

Nomar edição 939, página 4 e 5
Fonte: https://www.marinha.mil.br/sites/all/modules/nomar_julho2020/book.html

Ainda sobre a notícia das mulheres, também foi verificado o valor notícia significância, que possui duas interpretações, “uma diz respeito à relevância do acontecimento, isto é, o impacto que poderá ter sobre o leitor ou os ouvintes; a segunda interpretação tem a ver como a proximidade, nomeadamente a proximidade cultural” (GALTUNG E RUGE, 1965, apud TRAQUINA, 2005, p. 71).

Neste caso, a proximidade cultural justifica-se pela necessidade de informar o público-alvo de tudo o que ocorre no universo da Instituição. Dessa forma, a notícia demonstra a preocupação da Força Armada com relação ao bem-estar das militares femininas e desperta o sentimento de orgulho e colaboração, por meio de ações que as façam sentirem-se valorizadas, destacando o desempenho daquelas que se sobressaem.

Outro assunto frisado na capa da edição de número 939, conforme figura 3, é “Prosub: Base de Submarinos da Ilha da Madeira é inaugurada no Rio de Janeiro”. Neste caso, o critério presente é a novidade, de forma que a novidade apresentada é o evento de inauguração. Aquilo que é “novo” é um dos itens primordiais para os jornalistas. De acordo com Traquina (2015 p. 81), “o mundo jornalístico interessa-se muito pela primeira vez”.

Diante disso, observa-se a existência também do critério tempo, desta vez, na forma de atualidade (TRAQUINA, 2015). Pode-se afirmar que a inauguração mencionada na notícia ocorreu em julho, mesmo mês de veiculação da revista. Desta forma, a atualidade está ligada às notícias que chegam aos responsáveis da comunicação interna em um dead-line. Após o prazo determinado para o fechamento da edição, a informação já deixaria de ser atual para os leitores, pois o acontecimento se tornaria antigo. Inclusive, o plano de comunicação da Marinha prevê: “As matérias que forem recebidas com mais de três dias úteis de atraso em relação à data de ocorrência do evento que retratam serão descartadas.” (BRASIL, 2015).

Além disso, a relevância está presente, pois, os avanços tecnológicos obtidos, dos militares e servidores civis envolvidos no Programa de Desenvolvimento de Submarinos (PROSUB) é capaz de proporcionar significativa contribuição para a indústria nacional e para a academia, impactando ambos positivamente, até porque, há possibilidade de geração de empregos diretos e indiretos com o programa.

Figura 5: Nomar edição 939, página 6 e 7

Nomar edição 939, página 6 e 7
Fonte: https://www.marinha.mil.br/sites/all/modules/nomar_julho2020/book.html

Na edição 940, de agosto de 2020, como mostra figura 6, a manchete chama a atenção para a retomada do assunto do submarino. A capa tem como título: “Submarino ‘Riachuelo’ – prova de mar com navegação independente”. Neste aspecto, verifica-se a inclinação da revista para os valores-notícia de novidade, de tempo, de proximidade cultural, além da relevância.

Figura 6: Nomar edição 940, página 1

Nomar edição 940, página 1
Fonte: https://www.marinha.mil.br/sites/all/modules/nomar_940_ago20/book.html

Especificamente o valor-notícia novidade está presente a partir do momento que há algum elemento novo (TRAQUINA, 2015). Essa constatação fica mais fácil ao ler o texto jornalístico, que trata da primeira navegação independente do submarino, conforme apresenta a figura 7, a linha de apoio da manchete destaca: “Mais uma etapa importante foi cumprida no âmbito do Programa de Desenvolvimento de Submarinos (Prosub)”.

Assim, essa notícia traz algo novo e de certa forma atual para os leitores. Pode-se observar que o acontecimento foi em agosto e divulgação do meio junto ao público receptor ocorreu no mesmo mês. Por isso, também é possível apontar o critério tempo do ponto de vista da atualidade, ou seja, é uma matéria que não poderia ser publicada muito tempo depois do ocorrido.

O critério de proximidade cultural é observado ao verificar que o texto jornalístico apresenta uma linha do tempo, para que o público note a evolução da implementação da tecnologia. Aquisição, construção, testes e operação de equipamentos das forças militares fomentam a base industrial de defesa nacional. O fator proximidade cultural justifica-se pelo fato de estarem utilizando siglas específicas do meio militar. Com isso, provavelmente, só entenderá as informações na totalidade quem faz parte do universo da Marinha.

Por isso, na notícia, também é identificado o valor-notícia relevância. O qual, segundo Galtung e Ruge (1965, apud Traquina, 2005, p. 80): “este valor-notícia determina que a noticiabilidade tem a ver com a capacidade do acontecimento incidir ou ter impacto sobre as pessoas, sobre o país, sobre a nação”. Nesse caso, a base industrial fortalece o poder marítimo do país e as aspirações da sociedade estimulando a confiança na instituição.

Figura 7: Nomar edição 940, página 6 e 7

Nomar edição 940, página 6 e 7
Fonte: https://www.marinha.mil.br/sites/all/modules/nomar_940_ago20/book.html

A edição número 941, conforme figura 8, de setembro de 2020, trata do “Plano Estratégico da Marinha – Visão de médio e longo prazos, com gestão eficaz, transparência e participação da sociedade”. Nesse caso, os valores-notícia relevância ganham destaque por estar se referindo a algo tão essencial para a Marinha. O documento noticiado afeta toda a corporação, uma vez que trata de um assunto de defesa e requer orçamento público.

Figura 8: Nomar edição 941, página 1

Nomar edição 941, página 1
Fonte: https://www.marinha.mil.br/sites/all/modules/nomar_941_set2020/book.html

No texto jornalístico, apresentado na figura 9, percebe-se, de forma ainda mais evidente, a relevância, uma vez que o plano estratégico tem contribuições não só para defesa nacional como para o desenvolvimento econômico, social, tecnológico e industrial do país, bem como contempla empreendimentos acadêmicos, impõe a capacitação de pessoal e contém investimento em pesquisas.

O fator tempo também está presente. Esse critério é verificado como valor-notícia na forma da atualidade. Logo, o fato tem que ser atual para virar notícia, caso contrário, perde a validade e passa a ser um acontecimento velho. Nesse caso, a entrega do Planejamento Estratégico ocorreu no mesmo mês que a divulgação da edição de setembro.

A figura do presidente da República, Jair Bolsonaro, no texto jornalístico, descrito na figura 9, aponta para o impacto do documento e para um outro critério, o da notoriedade, também conhecido como proeminência. Esse valor-notícia trata do nome e a posição da pessoa envolvida na notícia. Traquina (2005, p. 80) ressalta que “o que o Presidente da República faz é importante”. Para Galtung e Ruge (apud Traquina, 2005, p. 79) “quanto mais o acontecimento disser respeito às pessoas de elite, mais provavelmente será transformado em notícia”. No entanto, a Editora-chefe Ellen ressalta que o “fato” sempre é o item mais importante a ser considerado. Em outras palavras, a personalidade não sobrepõe a notícia (SILVA, 2020, em entrevista à autora). Mesmo assim, o fato de ser o presidente agrega mais valor-notícia ao fato.

Figura 9: Nomar edição 941, página 6 e 7

Nomar edição 941, página 6 e 7
Fonte: https://www.marinha.mil.br/sites/all/modules/nomar_941_set2020/book.html

Nas edições analisadas da revista Nomar, foi possível, então, identificar que os critérios de noticiabilidade são os mais variados, mas todos fazem parte de uma lista de valores que Traquina (2005, p. 63) chama de “‘padrão’ geral bastante estável e previsível”. Isso significa que pouco varia: geralmente as notícias orbitam sob os mesmos critérios, inclusive o padrão utilizado pode agilizar o trabalho do jornalista ao tornar mais prática a seleção do que realmente se tornará notícia (TEMER, 2007).

Deve-se considerar que uma notícia, nem sempre, contém um único critério. Pelo contrário, na maioria das vezes, há uma diversidade de valores-notícia envolvidos. Isso é um bom sinal, pois quanto mais critérios estão agregados, mais valor à informação possui e maior é a relevância dela para a sociedade.

Sobre esse assunto, Galtung e Ruge (1965, apud Traquina, 2005, p. 73) explicam: “Um acontecimento será tanto mais noticiável quanto maior número de valores possuir, embora, não seja uma regra absoluta”. Traquina (2005, p. 90) acrescenta ainda: “Cada dia jornalístico é um novo dia. Há dias ricos em acontecimentos com valor-notícia e outros dias pobres em acontecimentos com valor notícia”.

Dado isso, observa-se que a novidade, a relevância e o tempo pontuam o trabalho jornalístico da comunicação interna da revista Nomar. Ou seja, os fatos noticiados obedecem aos critérios e esses critérios procuram justificar a produção da notícia por meio do emissor, neste caso, o profissional de comunicação e o órgão a que pertence.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Diante das análises realizadas, verifica-se que as notícias do periódico Nomar passam por um processo de construção e seleção, em que na redação, os valores-notícia servem para possibilitar a rotina produtiva dos jornalistas que compõem a organização.

Traquina baseado na visão de Pierre Bourdieu cita a metáfora sobre os valores-notícia serem como óculos pelos quais os jornalistas enxergam os acontecimentos (BOURDIEU, 1997, p. 12, apud TRAQUINA, 2005, p. 77). Esses profissionais da comunicação são, portanto, os responsáveis por definir se um determinado assunto possui valor-notícia, consequentemente se ele é capaz de se tornar matéria noticiável.

Quanto ao questionamento inicial – qual os valores-notícia usados pela revista Nomar? – ficou clara a detecção de variados critérios. Mas vale ressaltar os três principais critérios de noticiabilidade que pautam a revista pesquisada: o tempo do ponto de vista da atualidade; a novidade; a relevância, ou, o impacto do fato sobre a nação. Sobre este último valor-notícia, cabe destacar que sempre está relacionado aos acontecimentos inéditos do aspecto positivo.

O valor-notícia muito importante que foi abordado é o fator tempo. Traquina (2015) explica que esse critério tem diferentes abordagens. A primeira se refere à atualidade. Mas também pode estar relacionado a um fato que “já teve lugar no passado”, como o dia da morte de alguém importante, por exemplo, o Presidente egípcio Anwar Sadat assassinado, ainda que tenha ocorrido há 20 anos, pode ser notícia sempre naquela mesma data, ano após ano (TRAQUINA, 2015, p. 82). Dessa forma, há propagação de dias importantes ao longo do ano.

No caso da Marinha, a organização possui duas datas que merecem destaque, pois, conforme a editora-chefe da revista, são eventos sempre abordados na revista Nomar: o Dia do Marinheiro, em 13 de dezembro e a Batalha Naval do Riachuelo, em 11 de junho (SILVA, 2020, em entrevista à autora). Assim, essas datas funcionando, segundo Traquina (2005, p. 81), como “‘cabides’ para pendurar a notícia”. Logo, estarão sempre em pauta no veículo de comunicação interno da Instituição.

Nas edições analisadas do periódico Nomar, foi possível, então, detectar que fatos novos, atuais e que se relacionam com a defesa do país são os principais elementos que integram a vida militar e consequentemente pontuam o trabalho jornalístico na Marinha do Brasil. Inclusive o rigor dos valores-notícia está fortemente ligado à lógica de escolha pelo que é mais interessante para a organização. Isso ocorre, sobretudo, pois o meio de comunicação Nomar se trata como órgão da casa (house-organ).

Dessa forma, as características do periódico estão totalmente voltadas ao contexto da comunicação interna, mas, em simultâneo, é pensado a partir dos parâmetros da rotina jornalística, sendo considerado um produto de jornalismo institucional. Na elaboração e na execução mensal, leva em consideração os valores-notícia determinados nos estudos de jornalismo. Esses profissionais trazem para a atuação do setor de comunicação os princípios e as rotinas comuns ao jornalismo, contribuindo para os objetivos e metas determinados no plano de comunicação estratégica da organização.

A editora-chefe Ellen Franciana Vieira Silva da revista confirma o interesse em fortalecer a comunicação na organização. De acordo com ela, a construção do periódico é feita pensando naquilo que é de interesse para o público interno, composto pelos militares da ativa, reserva, servidores civis e dependentes. Silva cita mais alguns exemplos de notícias que geralmente são divulgadas pensando nessas pessoas, como a capacitação dos militares e servidores; as aquisições de veículos, armamentos e tecnologias; operações conjuntas e exercícios envolvendo um quantitativo de colaboradores (SILVA, 2020, em entrevista à autora).

A pesquisa, portanto, contribuiu para o entendimento sobre o papel de um jornalista na comunicação interna. Nesse sentido, demonstrou-se que a revista é responsável por possuir uma linguagem capaz de gerar a valorização da profissão militar-naval e aqueles que a compõem acabam também fortalecendo e preservando a imagem institucional que a Marinha pretende passar.

Considerando que a imagem organizacional é um patrimônio, a Força Naval desfruta, atualmente, de um respeitável índice de confiança junto aos brasileiros. Essa imagem positiva, transmitida por meio da revista Nomar, é um ativo intangível para a Marinha. Diante disso, as notícias, assim como os critérios de noticiabilidade que as acompanham, são influenciadas pela necessidade de exaltar a instituição e vão pender para a manutenção dos índices de credibilidade junto à sociedade.

Para pesquisas posteriores, sugiro que, além de refletir pontualmente sobre um produto específico, seja lançado o olhar para outros meios de comunicação da organização, que venham a contribuir com reflexões sobre a atuação dos jornalistas na seleção dos critérios de noticiabilidade e de que forma isso impacta na vida do público interno.

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YIN, Robert K. Estudo de Caso: planejamento e métodos. 2 ed. Porto Alegre: Bookman, 2001.

[1] Graduada em Comunicação Social – Jornalismo pelo Centro Universitário Estácio De Santa Catarina. ORCID: 0000-0003-4937-3417.

[2] Orientador.

Enviado: Março, 2022.

Aprovado: Julho, 2022.

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Andreza Rebelo Cruz Oliveira

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