ARTIGO ORIGINAL
DENDASCK, Carla Viana [1]
DENDASCK, Carla Viana. Da modernidade líquida à sociedade vaporizada: Não-localização, atenção e o futuro da comunicação do saber. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 08, Vol. 01, pp. 97-110. Agosto de 2026. ISSN: 2448-0959. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/comunicacao/modernidade-liquida, DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.22002631
RESUMO
Este artigo propõe e desenvolve o conceito de sociedade vaporizada como chave de leitura da atual transformação na comunicação do conhecimento. Partindo da noção de modernidade líquida, de Zygmunt Bauman, e da reflexão de Paul Virilio sobre a velocidade e a possibilidade de presença, sustenta-se que o estágio contemporâneo não se define apenas pela fluidez dos vínculos, mas por algo mais radical: a perda da possibilidade de localizar o saber, a autoridade, a identidade e a confiança. Em diálogo com Byung-Chul Han e com a tradição crítica que remonta a Guy Debord, discutem-se a economia da atenção, a dispersão da identidade e a temporalidade de um presente perpétuo. Conclui-se examinando as implicações desse quadro para a comunicação científica, na qual o especialista perde os pontos de ancoragem que antes sustentavam a sua autoridade, e propõe-se que compreender a vaporização é condição para reconstruí-la em novas bases.
Palavras-chave: Sociedade vaporizada, Modernidade líquida, Comunicação científica, Economia da atenção, Desinformação.
1. INTRODUÇÃO
A forma como o conhecimento circula transformou-se, nas últimas duas décadas, de modo mais profundo do que em todo o século que as precedeu. As instituições que por muito tempo garantiram a validação e a distribuição do saber, a universidade, o periódico revisado por pares, a imprensa especializada, deixaram de ser o caminho obrigatório entre quem produz e quem recebe a informação. Em seu lugar instalou-se um ambiente no qual qualquer conteúdo pode surgir em qualquer ponto, propagar-se em minutos e desaparecer sem deixar rastro de origem. O especialista, que antes falava de um lugar reconhecível e para um público que também o reconhecia, encontra-se agora numa arena sem contornos, em que disputa atenção com vozes que não têm formação, nem instituição, nem responsabilidade, mas que dominam a gramática do meio.
Este artigo argumenta que esse ambiente exige um conceito próprio, que aqui chamo de sociedade vaporizada (Dendasck, 2026), e que descrevê-lo com precisão é a condição para entender a crise contemporânea da autoridade do conhecimento. A tese que desenvolvo é a de que não basta caracterizar a nossa época como veloz, fluida ou saturada de informação. O que verdadeiramente a distingue é a impossibilidade de localizar aquilo que circula, de atribuir-lhe origem, autoria e responsabilidade. Para sustentar essa afirmação, retomo primeiro as duas linhagens teóricas que tornam o conceito pensável, a modernidade líquida e a crítica da velocidade; em seguida, defino a sociedade vaporizada; e, por fim, examino o que ela faz com a atenção, com a identidade e com a experiência do tempo, para então extrair as consequências desse quadro para a comunicação científica.
Não se trata de um diagnóstico abstrato. A pandemia de 2020 funcionou como um laboratório em escala planetária desse novo regime de comunicação: pela primeira vez, uma questão científica de vida ou morte foi debatida, em tempo real, diante de bilhões de pessoas, num ambiente já dominado pela lógica das redes. Viu-se então, com nitidez, o que significa uma sociedade em que a informação verdadeira e a falsa competem sem árbitro, em que a autoridade do especialista é contestada por qualquer voz com alcance, e em que o pânico e a esperança circulam mais depressa do que a evidência. O que a pandemia revelou não foi uma anomalia passageira, mas a forma madura de um ambiente que já vinha se constituindo, e que este artigo se propõe a nomear.
2. DA LIQUIDEZ À VOLATILIZAÇÃO: BAUMAN E VIRILIO
Zygmunt Bauman (2001) ofereceu a imagem que, por duas décadas, melhor descreveu a condição contemporânea. A modernidade, argumentou, passou de um estado sólido, feito de estruturas duráveis, papéis fixos e vínculos vitalícios, para um estado líquido, em que instituições, laços e identidades perderam a forma estável e se tornaram provisórios. O emprego para a vida inteira cedeu lugar ao contrato temporário; a identidade herdada, ao projeto permanentemente refeito; o compromisso duradouro, à conexão que se desfaz com um toque. Bauman (2004) mostraria, ainda, como essa liquefação atinge a própria vida afetiva, convertendo relações em vínculos leves, mantidos apenas enquanto convêm.
É decisivo, porém, notar o que o líquido conserva. Um líquido tem coesão, ocupa um volume mensurável e pode ser contido; adapta-se ao recipiente, mas não deixa de existir como matéria localizável. Uma relação líquida continua sendo uma relação, ainda que efêmera; uma identidade líquida continua sendo uma identidade, ainda que instável; um consenso líquido continua sendo um consenso, ainda que frágil. A liquidez descreve aquilo que perdeu a rigidez, não aquilo que perdeu a existência. Guardar essa distinção é o que permite reconhecer que o estágio atual já não é bem descrito por ela.
A reflexão de Paul Virilio (1999) torna-se aqui indispensável, ainda que formulada antes das redes sociais. Ao estudar os efeitos da aceleração técnica sobre a experiência humana, Virilio observou que a velocidade não altera apenas a relação com o espaço e o tempo, mas a própria possibilidade de presença. Aquilo que se move depressa demais perde a capacidade de ser localizado, e o que não se pode localizar escapa ao julgamento, à avaliação e à responsabilização. A velocidade, nessa leitura, é uma forma de poder, distribuída de modo desigual entre quem a controla e quem apenas a padece. Reunindo a intuição de Bauman sobre a perda de forma e a de Virilio sobre a perda de lugar, chega-se ao limiar de um estado que nenhum dos dois chegou a nomear, mas que a cultura digital tornou cotidiano.
3. O CONCEITO DE SOCIEDADE VAPORIZADA
Proponho o conceito de sociedade vaporizada (Dendasck, 2026) para nomear o estágio que sucede à modernidade líquida. A passagem do líquido ao vapor não é de grau, e sim de natureza. O vapor não tem forma própria nem se deixa conter sem pressão constante; dispersa-se no ar até tornar-se indistinguível do ambiente que o cerca; e, sobretudo, existe de maneira simultânea em toda parte e em lugar nenhum. Não está aqui nem ali: está, ao mesmo tempo, em todos os pontos, num estado de dispersão que inviabiliza qualquer localização precisa. Transposta para a circulação do saber, essa imagem descreve com exatidão o que ocorre quando o conhecimento, a autoridade, a identidade e a confiança se tornam tão difusos e tão rapidamente circulantes que já não possuem uma sede institucional estável à qual se possa recorrer.
O traço que define a sociedade vaporizada não é, portanto, a velocidade em si, mas a impossibilidade de localização que dela resulta. O ponto merece ênfase porque é o que separa este conceito do diagnóstico da liquidez. Uma informação falsa, na era líquida, ainda podia ser rastreada até uma origem, com esforço e método; havia um autor, uma data, um ponto de partida. Uma informação falsa vaporizada, ao contrário, surge simultaneamente em centenas de contas, sem autor identificável, sem ponto de origem localizável, sem possibilidade de responsabilização. Não há a quem atribuir, não há o que corrigir na fonte, porque não há fonte. É esse traço, mais do que qualquer outro, que torna a desinformação contemporânea tão resistente às ferramentas concebidas para um mundo em que tudo tinha lugar.
Ancorar qualquer coisa nesse ambiente, uma afirmação, uma reputação, um consenso, passa a exigir um esforço contínuo que a maioria das pessoas não está em condições de realizar. E não por falta de inteligência ou de vontade, mas porque o sistema inteiro foi desenhado para favorecer a circulação sobre a ancoragem, o efêmero sobre o duradouro e o engajamento instantâneo sobre a atenção sustentada. A vaporização, nesse sentido, não é um acidente do meio digital nem um efeito colateral a ser corrigido: é a sua lógica constitutiva, aquilo para o qual as plataformas foram, desde o princípio, otimizadas.
Convém insistir em que a metáfora do vapor não é mero ornamento retórico. Ela é escolhida por descrever, com precisão, um conjunto de propriedades verificáveis do ambiente informacional contemporâneo: a ausência de forma estável, a dispersão que impede a contenção, a simultaneidade que dissolve a noção de origem. Assim como o vapor exige pressão constante para não se dissipar, também a verdade, o vínculo e a reputação, na sociedade vaporizada, só se sustentam mediante um esforço permanente de recondensação, que a maioria dos atores não tem como manter. O que antes era garantido pela estrutura passa a depender do trabalho incessante do indivíduo, e o que não é constantemente reafirmado simplesmente se evapora.
4. O PARADOXO DO ACESSO E A RUPTURA GERACIONAL
Um dos efeitos mais contraintuitivos da sociedade vaporizada é aquilo que se pode chamar de paradoxo do acesso. A promessa que acompanhou a expansão da internet era a de que, tornando toda a informação disponível a todos, o resultado seria uma população mais bem informada e mais capaz de julgar. O que se observou foi, em larga medida, o contrário. A abundância ilimitada de informação, quando desacompanhada de critérios de hierarquização e de confiança, não produz esclarecimento, mas sobrecarga e paralisia. Quanto mais vozes disputam a atenção em pé de igualdade aparente, mais difícil se torna, para o indivíduo comum, distinguir a competente da incompetente, a honesta da interessada, a verificada da inventada. O acesso, que deveria emancipar, com frequência desorienta, porque oferece o conteúdo sem oferecer o critério para avaliá-lo.
A esse paradoxo soma-se uma ruptura geracional no modo de consumir informação. Para uma parcela crescente da população, sobretudo entre os mais jovens, a porta de entrada para o conhecimento do mundo deixou de ser o jornal, o livro ou mesmo o mecanismo de busca, e passou a ser o fluxo das redes sociais, com sua lógica de recomendação algorítmica e sua estética do fragmento. Nesse regime, a informação não é procurada, é servida; não se organiza por relevância epistêmica, mas por potencial de engajamento; e chega desprovida dos marcadores que antes sinalizavam a origem e a credibilidade da fonte. Uma geração que se informa assim não é menos inteligente do que as anteriores, mas foi formada num ambiente que a ensinou a confiar em sinais, a popularidade de quem fala, a segurança aparente com que afirma, o alinhamento com o que já se pensa, que pouco têm a ver com a solidez daquilo que se diz. Compreender essa ruptura é indispensável a qualquer projeto de comunicação do saber, pois não se alcança um público falando a partir de pressupostos que ele já não compartilha.
5. A TRANSPARÊNCIA QUE DISPERSA: HAN E DEBORD
A sociedade vaporizada aprofunda tendências que a teoria crítica já vinha rastreando. Guy Debord (1997), ao descrever a sociedade do espetáculo, mostrara que a vida moderna se organiza em torno da imagem, e que o rebaixamento decisivo vai do ser ao ter, e do ter ao parecer: o que se possui só conta se aparece, e o que se vive só vale se é exibido. A cultura das redes leva esse diagnóstico ao extremo, pois nela a existência social passa a depender inteiramente da exibição contínua.
Byung-Chul Han (2017) deu a essa condição uma formulação atual. A exigência contemporânea de transparência total, de expor tudo, medir tudo e tornar tudo visível, não produz mais verdade, e sim mais ruído e mais controle. Quando tudo precisa aparecer para existir, a superfície toma o lugar da profundidade, e a comunicação se converte em exposição sem interioridade. Han (2015) havia mostrado, ainda, que o sujeito contemporâneo se esgota ao explorar a si mesmo sob o imperativo do desempenho, tornando-se, a um só tempo, senhor e servo da própria produtividade. Somadas ao conceito aqui proposto, essas observações compõem um quadro coerente: uma sociedade que exige visibilidade permanente, que dispersa tudo o que exibe e que exaure quem tenta acompanhá-la. A transparência prometida não ancora nada; ao contrário, vaporiza, porque multiplica os pontos de emissão sem oferecer nenhum critério para distingui-los.
Convém notar que essa dispersão não é apenas sofrida pelos indivíduos; ela é ativamente produzida pela arquitetura das plataformas. O que se apresenta como espaço neutro de livre circulação é, na verdade, um ambiente cuidadosamente projetado para maximizar o tempo de permanência e a interação, e essa finalidade comercial determina, em silêncio, o que se torna visível e o que se afunda no esquecimento. A vaporização tem, nesse sentido, um endereço econômico: serve aos interesses de quem lucra com a atenção capturada, e por isso não deve ser tratada como um destino tecnológico inevitável, mas como o resultado de escolhas de projeto que poderiam ter sido, e ainda podem ser, outras.
6. A ECONOMIA DA ATENÇÃO
Se nada se fixa, a atenção é a primeira faculdade a sofrer. As plataformas que hoje intermediam a maior parte do nosso contato com a informação não são espaços neutros: são arquiteturas projetadas para capturar e reter a atenção, e o fazem alternando estímulos com rapidez suficiente para impedir que qualquer conteúdo seja acompanhado até o fim. A cada rolagem de tela, o ambiente recompensa o novo e penaliza a demora, treinando no usuário um modo de atender ao mundo que privilegia o fragmento sobre o conjunto e a reação sobre a reflexão.
A consequência é que a profundidade, que sempre exigiu permanência, torna-se um esforço quase contrário à natureza do meio. Ler um argumento longo, seguir um raciocínio que se desdobra, sustentar a dúvida até que ela amadureça, tudo isso pressupõe uma atenção contínua que o ambiente vaporizado desestimula a cada instante. Não se trata de um defeito moral do indivíduo, e sim de um efeito estrutural: a economia da atenção transformou o tempo de foco humano em mercadoria escassa, e a disputa por essa mercadoria seleciona, entre todos os conteúdos possíveis, exatamente aqueles que menos favorecem o pensamento demorado. É um ambiente hostil, por construção, àquilo de que o conhecimento mais depende.
As implicações extrapolam o âmbito individual. Uma sociedade cuja atenção coletiva foi fragmentada perde, em alguma medida, a capacidade de deliberar, pois a deliberação exige que um número suficiente de pessoas sustente, ao mesmo tempo e por tempo bastante, o foco sobre um mesmo problema complexo. Quando a atenção se dispersa em milhões de fragmentos efêmeros, os temas que exigem paciência, a ciência entre eles, ficam estruturalmente desfavorecidos frente aos que oferecem gratificação imediata. Não é exagero dizer que a economia da atenção redistribui, de maneira silenciosa, o poder de definir o que a sociedade considera importante.
7. A IDENTIDADE EM DISPERSÃO
A mesma lógica que fragmenta a atenção dispersa a identidade. Numa sociedade vaporizada, as perguntas quem fala e de onde fala tornam-se cada vez mais difíceis de responder. A autoridade que antes vinha ancorada em uma instituição, um título, uma trajetória verificável, passa a competir, em condições de igualdade aparente, com vozes desprovidas de qualquer lastro, que conquistam visibilidade pela adequação ao ritmo e ao tom do meio, e não pela solidez do que afirmam. O algoritmo não distingue o especialista do impostor; distingue o que retém atenção do que não retém.
Emerge daí uma figura epistêmica nova, a do comunicador cuja autoridade não deriva do que sabe, mas de quantos o seguem. A métrica substitui a competência como critério de credibilidade, e o número de seguidores passa a funcionar como uma espécie de prova social do valor de quem fala. Para o especialista, o efeito é duplamente adverso: ele perde o monopólio da palavra legítima e, ao mesmo tempo, é medido por uma régua, a do engajamento, que não foi feita para o que ele tem a oferecer. Ter identidade sólida, nesse ambiente, deixa de ser um dado herdado da posição institucional e passa a ser uma conquista permanente, sustentada dia após dia contra a corrente da dispersão.
Esse achatamento entre a voz competente e a voz vazia não significa, é preciso dizer, que toda hierarquia de saber fosse justa ou que o público comum seja incapaz de discernimento. Significa, mais precisamente, que os sinais pelos quais se costumava reconhecer a competência, o vínculo institucional, a credencial, a trajetória, deixaram de ser visíveis ou de ser valorizados no novo ambiente, e ainda não foram substituídos por sinais igualmente confiáveis. O problema não é que o público escolha mal, mas que lhe foram retirados os instrumentos com que escolher bem.
8. A TEMPORALIDADE DO VAPOR
Há, por fim, uma transformação da própria experiência do tempo. A sociedade vaporizada vive num presente perpétuo, em que o que aconteceu há uma semana já é passado remoto e o que acontecerá amanhã não convoca nenhum planejamento. O fluxo incessante de novidades comprime o horizonte temporal a um agora que se renova sem cessar e não deixa sedimentar nada. Sem duração, enfraquecem-se todas as operações que dependem do tempo: a construção paciente de uma reputação, a maturação de um argumento, a formação de um consenso e, sobretudo, a confiança, que só se estabelece quando algo permanece estável por tempo suficiente para ser posto à prova e resistir. O conhecimento, que é por natureza um empreendimento de longo prazo, cujos resultados se acumulam e se corrigem ao longo de gerações, encontra-se assim submetido a um ambiente que trabalha, em cada detalhe de seu funcionamento, contra a sua própria temporalidade.
Essa compressão temporal tem um efeito específico e grave sobre a confiança. A confiança é, por definição, uma aposta que se faz no tempo: confia-se em quem se mostrou constante, em quem manteve a palavra ao longo de repetidas ocasiões, em quem se deixou verificar e resistiu à verificação. Num presente perpétuo, sem antes nem depois estáveis, faltam justamente as condições em que a confiança se forma e se testa. O resultado é uma sociedade que oscila, paradoxalmente, entre a credulidade instantânea, acreditar de imediato no que circula, e a desconfiança generalizada, não acreditar em nada nem em ninguém, duas faces da mesma ausência de duração.
9. IMPLICAÇÕES PARA A COMUNICAÇÃO DO SABER
As consequências desse quadro para a comunicação científica são diretas e graves. O especialista formou-se e legitimou-se dentro de um sistema que pressupunha a localização: a instituição que o abriga, o periódico que o publica, a comunidade de pares que o avalia. Toda a sua autoridade repousava sobre pontos de ancoragem verificáveis. Ao migrar para o ambiente vaporizado, ele perde esses pontos e passa a disputar atenção num terreno cujas regras favorecem precisamente aquilo que a ciência não pode oferecer: a resposta instantânea, a certeza sem ressalva, a afirmação simples o bastante para circular sem atrito. A cautela, a dúvida metódica e a ressalva, que são virtudes epistêmicas, tornam-se desvantagens competitivas.
Instala-se, assim, um paradoxo cruel: nunca houve tanta informação disponível e, ao mesmo tempo, tanta dificuldade em saber em quem confiar. O acesso universal, que se anunciava como promessa de esclarecimento, converteu-se em um oceano sem bússola, no qual a abundância de vozes, longe de facilitar o discernimento, o torna quase impossível para quem não dispõe de tempo e de método para navegar. No campo da saúde, esse efeito adquire consequências materiais, quando uma recomendação falsa, vaporizada em milhares de contas, alcança mais gente e mais depressa do que qualquer esclarecimento de fonte responsável, que chega tarde, chega complexo e chega sem o apelo do formato feito para engajar.
A esse cenário acrescenta-se uma assimetria de recursos entre quem produz desinformação e quem produz conhecimento. Fabricar uma afirmação falsa é barato, rápido e livre de qualquer exigência de método; produzir uma afirmação verdadeira é caro, lento e submetido à revisão e à prova. No ambiente vaporizado, essa assimetria se converte em vantagem competitiva para o falso, que circula sem os custos que oneram o verdadeiro, e que se molda sem pudor ao formato que mais engaja. O especialista, além de haver perdido o seu lugar de fala, corre atrás num terreno inclinado contra ele, obrigado a competir por atenção com quem não tem compromisso algum com a exatidão.
Diante disso, as estratégias herdadas de comunicação da ciência mostram-se insuficientes, porque foram concebidas para um mundo em que bastava ocupar o lugar de autoridade para ser ouvido. Quando o próprio lugar se dissolve, é preciso reconstruir a autoridade por outros meios, que não dependam de uma ancoragem institucional que o ambiente já não reconhece. Compreender a sociedade vaporizada não é, portanto, um exercício meramente descritivo: é a condição para pensar qualquer estratégia de comunicação do conhecimento que pretenda resistir à dispersão, em vez de ser tragada por ela. Não se trata de vencer o meio em seu próprio jogo, mas de identificar, dentro dele, os pontos em que ainda é possível criar duração, vínculo e confiança.
Há, ainda, uma dimensão propriamente democrática nessa questão. Uma sociedade livre depende de que os cidadãos possam formar juízos informados sobre os assuntos comuns, e isso pressupõe a existência de fontes de conhecimento reconhecidas como confiáveis por um público amplo, para além das divisões de opinião. Quando a autoridade do saber se vaporiza, e cada grupo passa a ter os seus próprios especialistas, os seus próprios fatos e a sua própria realidade, erode-se o terreno comum sobre o qual a deliberação pública se torna possível. A crise da comunicação científica não é, portanto, apenas um problema dos cientistas: é um problema da própria vida em comum, que depende de alguma base compartilhada de realidade para não se dissolver em tribos incomunicáveis.
10. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo sustentou que a atual transformação na circulação do saber pede um conceito próprio, distinto da modernidade líquida que a antecede. A sociedade vaporizada nomeia um estado em que o saber, a autoridade, a identidade e a confiança perdem não apenas a forma fixa, como na liquidez, mas a própria possibilidade de localização, o que os torna difíceis de ancorar, de verificar e de responsabilizar. Fragmentada a atenção, dispersa a identidade e dissolvida a duração, o ambiente contemporâneo trabalha contra as condições de que o conhecimento depende para se constituir e para ser reconhecido como legítimo.
Reconhecer esse quadro é o primeiro passo, e não o último. Se a vaporização é a lógica do ambiente, a tarefa que se impõe a quem se preocupa com o destino público do conhecimento é a de reconstruir, em novas bases, pontos de ancoragem capazes de resistir à dispersão, âncoras de identidade, de vínculo e de tempo, sem as quais a autoridade legítima do saber não tem como se sustentar. As estratégias possíveis para essa reconstrução, no âmbito da comunicação científica e da formação do pesquisador, são objeto de trabalhos subsequentes, dos quais este artigo pretende ser o fundamento conceitual.
Vale, por fim, uma ressalva contra o pessimismo fácil. Reconhecer a vaporização não implica lamentar um passado idealizado, em que a autoridade do saber repousava também sobre exclusões e privilégios que não merecem nostalgia. O ambiente vaporizado trouxe consigo aberturas reais: deu voz a quem não a tinha, aproximou a ciência de públicos antes inalcançáveis e desfez monopólios que mereciam ser desfeitos. A tarefa não é restaurar o que passou, mas construir, dentro das novas condições, formas de ancoragem que combinem a abertura conquistada com a confiabilidade perdida. É um problema de projeto, e não de saudade.
REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
BAUMAN, Zygmunt. Amor líquido: sobre a fragilidade dos laços humanos. Rio de Janeiro: Zahar, 2004.
DEBORD, Guy. A sociedade do espetáculo. Rio de Janeiro: Contraponto, 1997.
DENDASCK, Carla Viana. Comunicação científica e intelectual na era das redes sociais, da inteligência artificial e da sociedade vaporizada: uma travessia entre o congresso acadêmico e o feed infinito. São Paulo: [s.n.], 2026.
HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.
HAN, Byung-Chul. Sociedade da transparência. Petrópolis: Vozes, 2017.
VIRILIO, Paul. A bomba informática. São Paulo: Estação Liberdade, 1999.
NOTA
Este artigo deriva e desenvolve, em texto reelaborado, argumentos originalmente apresentados em Dendasck (2026), obra da própria autora, aqui citada como fonte para preservar a integridade acadêmica e evitar a publicação duplicada.
INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES
[1] Doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Doutorado em Psicologia e Psicanálise Clínica. Mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mestrado em Psicanálise Clínica. Graduação em Ciências Biológicas. Graduação em Teologia. Atua há mais de 15 anos com Metodologia Científica (Método de Pesquisa) na Orientação de Produção Científica de Mestrandos e Doutorandos. Especialista em Pesquisas de Mercado e Pesquisas voltadas a área da Saúde. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2952-4337. Lattes: https://lattes.cnpq.br/2008995647080248.
Contribuição dos autores:
Carla Viana Dendasck: Responsável exclusivo por todas as etapas de elaboração da obra, abrangendo de forma integral a concepção da ideia central, o planejamento metodológico, a coleta e análise analítica dos dados, a interpretação crítica dos resultados, além da redação completa, revisão e finalização do manuscrito.
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Histórico da Publicação:
Material recebido: 17 de julho de 2026.
Material aprovado pelos pares: 20 de julho de 2026.
Material editado aprovado pelos autores: 18 de agosto de 2026.


