ARTIGO ORIGINAL
DENDASCK, Carla Viana [1]
DENDASCK, Carla Viana. A erosão da autoridade científica: Da validação institucional à desinformação em rede. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 08, Vol. 01, pp. 111-125. Agosto de 2026. ISSN: 2448-0959. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/comunicacao/erosao-da-autoridade-cientifica, DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.22018657
RESUMO
Este artigo examina a erosão da autoridade científica no ambiente contemporâneo de comunicação, que denomino sociedade vaporizada. Argumenta-se que essa autoridade, historicamente ancorada em um sistema institucional de validação, a revisão por pares, o congresso, a comunidade de especialistas e a temporalidade lenta da ciência, foi corroída simultaneamente por dentro e por fora. Por dentro, pela lógica produtivista, pelas revistas predatórias, pela crise de reprodutibilidade e pela distorção métrica dos sistemas de avaliação. Por fora, pela arquitetura da desinformação, pela figura do influenciador como autoridade epistêmica, pelo antiintelectualismo e pela conversão da ciência em território de disputa política. Discute-se, ainda, o caso brasileiro, e conclui-se que reconstruir a confiança no conhecimento exige compreender a dupla origem dessa crise.
Palavras-chave: Autoridade científica, Comunicação científica, Desinformação, Revisão por pares, Polarização.
1. INTRODUÇÃO
Durante a maior parte da era moderna, o público comum não precisava avaliar por conta própria a validade de uma afirmação científica. Bastava-lhe saber de onde ela vinha. A universidade, o periódico revisado por pares, a academia de ciências e a imprensa especializada funcionavam como instâncias que diziam, em nome de todos, em quem confiar e o que levar a sério. A autoridade da ciência não residia na eloquência de um indivíduo, mas na cadeia institucional que respaldava o que ele afirmava. Essa cadeia está hoje rompida, e este artigo se dedica a compreender como isso ocorreu.
A tese que sustento é a de que a erosão da autoridade científica não tem uma causa única, e sim duas ordens de causas que se reforçam. De um lado, fissuras internas ao próprio sistema de validação, que, ao ser submetido à pressão produtivista e à lógica métrica, passou a minar a própria credibilidade que deveria garantir. De outro, pressões externas nascidas do novo ambiente de comunicação, a que chamo sociedade vaporizada (Dendasck, 2026), no qual a informação circula sem origem localizável e a autoridade do especialista compete, em pé de igualdade aparente, com qualquer voz de grande alcance. Para desenvolver o argumento, reconstruo primeiro como a autoridade científica foi edificada, examino em seguida as suas fraturas internas e externas e, por fim, discuto as particularidades do caso brasileiro.
A questão não é acadêmica no sentido pejorativo do termo. Dela depende a capacidade de uma sociedade de tomar decisões coletivas informadas sobre tudo aquilo que exige conhecimento especializado, da saúde pública às políticas ambientais. Quando a autoridade legítima do saber se dissolve, o vácuo não é ocupado por um ceticismo saudável e universal, mas por autoridades substitutas, com frequência menos qualificadas e mais interessadas. Entender a erosão descrita a seguir é, portanto, condição para preservar a própria racionalidade da vida pública, e não um exercício restrito ao interesse dos cientistas.
2. COMO SE CONSTRUIU A AUTORIDADE CIENTÍFICA
A autoridade da ciência moderna nunca foi um dado natural; foi uma construção histórica, feita de instituições e de procedimentos. O seu núcleo é a revisão por pares, o dispositivo pelo qual uma afirmação só se torna conhecimento reconhecido depois de submetida ao escrutínio crítico de outros especialistas capazes de avaliá-la. A esse mecanismo somam-se o congresso científico, que por muito tempo funcionou como a ágora onde os pares se encontravam, debatiam e legitimavam mutuamente o seu trabalho, e a lenta construção de reputação dentro de uma comunidade que conhece a trajetória de cada um dos seus membros.
Robert Merton (1973) descreveu esse funcionamento como um ethos, um conjunto de normas que regulam a atividade científica: o universalismo, que julga as afirmações por seu mérito e não por quem as faz; o comunalismo, que trata o conhecimento como patrimônio comum; o desinteresse, que subordina o ganho pessoal à verdade; e o ceticismo organizado, que submete toda afirmação à dúvida metódica. Esse ethos não descrevia apenas regras morais, mas a própria fonte da autoridade: a ciência era confiável porque nenhuma afirmação escapava ao crivo coletivo, e porque o método valia mais do que a autoridade de qualquer indivíduo isolado.
Vale sublinhar que essa autoridade era, por desenho, impessoal e coletiva. O prestígio de um cientista individual derivava de sua inserção numa comunidade que o avaliava continuamente, e não de sua capacidade de convencer diretamente o público leigo. O congresso, os periódicos e as sociedades científicas funcionavam como uma teia de reconhecimento mútuo, em que a reputação se construía lentamente e podia ser perdida diante dos pares. Era um sistema lento, exclusivo e imperfeito, mas dotado de uma virtude decisiva: separava, com razoável eficácia, a afirmação respaldada da afirmação gratuita, e retirava do indivíduo isolado o poder de se autoproclamar autoridade.
Convém lembrar que esse sistema é, ele próprio, uma conquista histórica relativamente recente. A revisão por pares tal como a conhecemos consolidou-se sobretudo ao longo do século XX, e a figura do periódico científico como árbitro da validade resultou de um longo processo de institucionalização. Reconhecer essa historicidade importa por duas razões: mostra que a autoridade científica não é um absoluto intocável, e sim um arranjo que já foi diferente e pode voltar a sê-lo; e adverte, ao mesmo tempo, que desmontá-lo sem colocar nada de melhor no lugar não é libertação, mas regressão a um estado em que prevalecia a afirmação mais alta, e não a mais bem fundamentada.
Há, ainda, uma dimensão temporal frequentemente esquecida. A ciência é lenta por construção. A revisão, a replicação, o debate e a maturação de um consenso exigem tempo, e essa lentidão não é um defeito, mas uma garantia: é o intervalo em que o erro pode ser detectado e corrigido antes que se converta em verdade estabelecida. A autoridade científica repousava, portanto, sobre pontos de ancoragem verificáveis, a instituição, o periódico, os pares, e sobre uma temporalidade paciente. Guardar essa descrição é indispensável, porque é exatamente cada um desses fundamentos que o ambiente contemporâneo dissolve.
3. AS FISSURAS INTERNAS: QUANDO O SISTEMA MINA A SI MESMO
Seria cômodo atribuir a crise da autoridade científica apenas a inimigos externos. A honestidade, porém, obriga a reconhecer que a erosão começou dentro do próprio sistema. A crescente exigência de produtividade, condensada na fórmula publicar ou perecer, deslocou o eixo da avaliação da qualidade para a quantidade. O pesquisador passou a ser medido pelo número de artigos e de citações, e não pela solidez ou pela relevância do que produz, com o resultado previsível de que a forma passou a importar mais do que o conteúdo.
Desse solo brotaram distorções graves. Multiplicaram-se as chamadas revistas predatórias, publicações que cobram taxas dos autores e simulam revisão por pares sem de fato exercê-la, e cuja existência foi mapeada, entre 2010 e 2017, pela lista organizada pelo bibliotecário Jeffrey Beall. Ao lado delas, instalou-se a chamada crise de reprodutibilidade: uma parcela significativa de resultados publicados não se sustenta quando outros pesquisadores tentam repeti-los. Já em 2005, John Ioannidis alertava, em ensaio que se tornou célebre, para as razões estruturais pelas quais boa parte dos achados publicados poderia estar equivocada (Ioannidis, 2005). Quando o próprio sistema de validação passa a certificar o que não se confirma, ele corrói, com as próprias mãos, a confiança que o legitimava.
O agravamento dessas fissuras produziu ainda um fenômeno de retração. O número crescente de artigos retirados de circulação após a publicação, por erro ou por fraude, tornou-se sintoma visível de um sistema sob pressão, e casos de manipulação e de fabricação de dados, embora minoritários, ganharam ampla repercussão e alimentaram a suspeita generalizada de que a ciência não seria mais confiável do que qualquer outra forma de opinião. Trata-se de uma conclusão injusta, pois a existência de mecanismos de autocorreção é justamente o que distingue a ciência das crenças que nunca se corrigem. Mas, no ambiente vaporizado, a correção pública de um erro é lida menos como sinal de saúde e mais como confissão de falência, invertendo-se o sentido daquilo que deveria inspirar confiança.
A isso se acrescenta a distorção métrica. Índices como o fator de impacto e, no Brasil, os estratos do sistema Qualis, criados para orientar a avaliação, tornaram-se fins em si mesmos, moldando as escolhas dos pesquisadores e das instituições segundo a geometria da pontuação, e não segundo a busca do conhecimento. O saber passou a ser produzido, em parte, para satisfazer o sistema de medida, e não o inverso. As fissuras internas importam porque desmentem a narrativa simplista de uma ciência pura atacada de fora: antes de ser contestada, a autoridade científica já havia enfraquecido a si mesma.
4. O ACESSO E A DESINTERMEDIAÇÃO
A segunda transformação decisiva foi a do acesso. Durante séculos, o conhecimento científico permaneceu trancado atrás de barreiras institucionais e comerciais, acessível apenas a quem pertencia à universidade ou podia pagar pelas assinaturas dos periódicos. O movimento do acesso aberto, cujas declarações fundadoras remontam ao início dos anos 2000, entre elas a de Budapeste, em 2002, propôs-se a derrubar essas barreiras, sob a promessa legítima de democratizar o saber.
O efeito, contudo, foi ambíguo. Ao tornar o conhecimento amplamente disponível, o acesso aberto também retirou dos antigos guardiões o monopólio da distribuição, sem que se constituísse, em seu lugar, um novo sistema de hierarquização confiável. Quando tudo se torna disponível ao mesmo tempo, o trabalho de separar o sólido do frágil, que antes era feito pelas instituições antes que o conteúdo chegasse ao público, passa a recair sobre cada leitor individualmente, na exata escala em que se torna impossível realizá-lo. É o paradoxo do acesso: a abundância de informação, desacompanhada de critérios de confiança, não produz mais esclarecimento, mas mais desorientação. A desintermediação prometia liberdade e entregou, junto com ela, um oceano sem bússola, no qual o especialista deixou de ter um lugar reservado e passou a ser apenas mais uma voz entre milhões.
Ademais, o próprio acesso aberto engendrou uma nova forma de barreira. Ao deslocar o custo da publicação do leitor para o autor, por meio das chamadas taxas de processamento de artigos, ele substituiu o filtro do dinheiro para ler pelo filtro do dinheiro para publicar, beneficiando quem dispõe de financiamento e penalizando quem não o tem. A promessa de democratização conviveu, assim, com a criação de novos privilégios, e o ecossistema resultante tornou-se terreno fértil para as revistas predatórias, que exploram comercialmente a necessidade de publicar. A desintermediação revelou-se, uma vez mais, ambígua: aquilo que abriu portas também abriu brechas por onde se infiltrou o oportunismo.
5. A ARQUITETURA DA DESINFORMAÇÃO
Se a desintermediação abriu o terreno, a desinformação organizou-se para ocupá-lo. É um erro tratá-la como mero acúmulo de enganos individuais. A desinformação contemporânea tem arquitetura: é produzida, distribuída e monetizada segundo uma lógica que se aproveita, com precisão, das características do ambiente vaporizado. Nele, a mentira não precisa de autor identificável nem de origem localizável; surge simultaneamente em incontáveis pontos e circula sem que se possa responsabilizar ninguém por ela.
No centro dessa arquitetura emerge uma figura epistêmica nova, a do influenciador, cuja autoridade não deriva do que sabe, mas de quantos o seguem. A métrica de audiência substitui a competência como critério de credibilidade, e o número de seguidores passa a operar como uma prova social do valor de quem fala. Sob essa lógica, a pseudociência prospera não apesar de ser falsa, mas porque é atraente: ela oferece certezas simples, promessas de resultado e narrativas emocionalmente satisfatórias, tudo aquilo que a ciência responsável, feita de ressalvas e incertezas, não pode oferecer. E as plataformas, otimizadas para maximizar o engajamento, amplificam justamente o que gera reação, sem qualquer compromisso com a verdade do que amplificam. A desinformação, assim, não é um ruído acidental no sistema: é um produto adaptado ao ambiente, e muitas vezes mais bem adaptado do que o próprio conhecimento verdadeiro.
Convém lembrar que a fabricação da dúvida sobre a ciência não é invenção da era digital. Naomi Oreskes e Erik Conway (2010) documentaram como, décadas antes das redes sociais, campanhas organizadas e financiadas por interesses econômicos semearam deliberadamente a incerteza sobre fatos científicos consolidados, do tabaco à mudança climática, valendo-se da linguagem da própria ciência para descreditá-la. O ambiente vaporizado não criou essa estratégia; apenas a industrializou e a barateou, colocando ao alcance de qualquer ator, e não mais só de grandes corporações, os meios de produzir dúvida em escala. A desinformação contemporânea é, nesse sentido, a democratização de uma arma antiga, agora disparada de todos os lados ao mesmo tempo.
A velocidade e a carga emocional completam essa vantagem. Um amplo estudo sobre a difusão de notícias nas redes constatou que as informações falsas se propagam de maneira mais ampla, mais rápida e mais profunda do que as verdadeiras, sobretudo porque exploram a novidade e despertam reações intensas como a surpresa, a indignação e o medo (Vosoughi; Roy; Aral, 2018). A verdade, quase sempre mais complexa, mais qualificada e menos espetacular, corre em desvantagem numa competição cujas regras premiam exatamente aquilo que ela não pode ser. Não se trata de azar circunstancial, mas de uma característica estrutural do ambiente: o falso, livre do compromisso com a exatidão, molda-se sem resistência ao formato que mais engaja.
6. QUANDO O ESPECIALISTA SE TORNA INIMIGO
Há um estágio em que a contestação da autoridade científica deixa de ser ceticismo e se converte em hostilidade. Tom Nichols (2017) descreveu esse fenômeno como a morte da expertise: não a simples ignorância, que sempre existiu, mas a recusa ativa de reconhecer que alguns sabem mais do que outros sobre determinado assunto. Nessa inversão, questionar o especialista deixa de ser um direito legítimo e passa a ser exibido como uma virtude, e o conhecimento acumulado é reinterpretado como arrogância ou como interesse disfarçado.
Essa hostilidade encontra terreno fértil na sociedade vaporizada, em que a autoridade institucional, já enfraquecida por dentro, é apresentada como suspeita por princípio. O especialista, antes respeitado por sua formação, é reenquadrado como parte de uma elite distante ou de uma conspiração de interesses. As consequências não são apenas retóricas. No campo da saúde, a desinformação mata: recomendações falsas sobre tratamentos, vacinas e prevenção, disseminadas com mais alcance e mais rapidez do que qualquer esclarecimento responsável, traduzem-se em decisões que custam vidas. A conversão do especialista em inimigo é talvez o sintoma mais grave da erosão que este artigo descreve, porque ela não apenas ignora a autoridade do saber, mas a combate ativamente.
Esse antiintelectualismo alimenta-se, também, de uma retórica que opõe o saber comum, apresentado como autêntico, ao saber especializado, apresentado como elitista e corrompido. Nessa oposição, a própria complexidade do conhecimento passa a ser interpretada como evidência de má-fé: se o especialista não oferece uma resposta simples, é porque estaria escondendo algo. Trata-se de uma armadilha lógica poderosa, porque explora uma verdade parcial, a de que especialistas de fato erram e de fato têm interesses, para chegar a uma conclusão falsa, a de que, por isso, o conhecimento especializado não valeria mais do que o palpite. Desarmar essa armadilha exige reconhecer com honestidade os erros da ciência sem abrir mão da distinção entre saber e opinar.
A essa dinâmica soma-se uma assimetria de esforço com frequência subestimada. Produzir uma afirmação falsa custa segundos; refutá-la com rigor exige levantar dados, contextualizar e explicar nuances, um trabalho lento e ingrato que, quando finalmente chega, já não alcança o mesmo público nem desperta o mesmo interesse. O especialista que se dispõe a corrigir a desinformação encontra-se, assim, numa corrida perdida de antemão, obrigado a gastar muito para desfazer o que se produziu com quase nada. Essa desproporção explica por que a simples presença de vozes qualificadas nas redes não basta para conter a maré: o problema não é a ausência de resposta, mas uma economia de esforço radicalmente desfavorável a quem se compromete com a verdade.
7. BOLHAS, CÂMARAS DE ECO E A CIÊNCIA COMO TERRITÓRIO DISPUTADO
A dispersão da autoridade não deixa o público num vácuo; distribui-o em bolhas. Eli Pariser (2011) chamou de bolha dos filtros o efeito pelo qual os algoritmos, ao selecionar o que cada um vê com base no que já lhe agrada, encerram o indivíduo num universo informacional que apenas confirma as suas crenças prévias. Cass Sunstein (2017) analisou o correlato social desse fenômeno, a câmara de eco, em que grupos que só conversam consigo mesmos radicalizam progressivamente as próprias posições, por falta de qualquer contato com a divergência.
O efeito sobre a ciência é devastador, porque a evidência deixa de ser avaliada por seu mérito e passa a ser julgada por sua procedência: aquilo que vem do outro lado torna-se automaticamente suspeito, por mais sólido que seja. A ciência converte-se, assim, em território disputado, alinhada não a critérios epistêmicos, mas a identidades políticas, de modo que aderir ou rejeitar um dado científico passa a funcionar como marcador de pertencimento a um grupo. Nesse quadro, a comunicação entre bolhas quase se interrompe, pois já não existe um terreno comum de fatos compartilhados sobre o qual a discordância possa se desenrolar de forma produtiva. Sem esse chão comum, o debate público se fragmenta em tribos que não conseguem sequer discordar, porque não partem da mesma realidade.
O que torna esse quadro particularmente resistente é o fenômeno da cognição motivada. Diante de uma evidência que ameaça a identidade do grupo a que pertence, o indivíduo tende não a revisar a crença, mas a rejeitar a evidência, e faz isso com tanta mais habilidade quanto mais instruído é, pois dispõe de mais recursos para racionalizar a recusa. Segue-se um resultado desconcertante para quem confia no poder dos fatos: apresentar mais dados a quem já rejeitou uma conclusão por razões identitárias costuma reforçar a rejeição, e não desfazê-la. A comunicação científica que ignora essa dinâmica, e insiste em vencer pela mera quantidade de evidência, arrisca-se a falar apenas para quem já concordava de antemão.
8. O CASO BRASILEIRO
As dinâmicas descritas assumem, no Brasil, contornos próprios. No plano interno da ciência, o país construiu um sofisticado sistema de avaliação, apoiado na Plataforma Lattes, que registra a trajetória de cada pesquisador, e no sistema Qualis, que classificava os periódicos e, por extensão, a produção. Esse arranjo, ao mesmo tempo em que organizou e deu escala à pós-graduação nacional, aprofundou a lógica métrica, prendendo o pesquisador entre a exigência de produzir para o sistema e o desejo de produzir conhecimento relevante. A reformulação e a descontinuidade dos critérios do Qualis, nos anos recentes, deixaram muitos pesquisadores num limbo, sem saber por qual régua seriam medidos.
Esse arranjo produziu no país um duplo dano à figura do pesquisador. Internamente, ele se viu constrangido a moldar a própria produção à lógica da pontuação, muitas vezes fragmentando resultados e privilegiando a quantidade, para sobreviver num sistema que assim o exigia. Externamente, viu a sua palavra ser publicamente contestada não por outros especialistas, mas por vozes sem qualquer credencial, amplificadas pelo alcance das redes. Preso entre uma régua interna distorcida e uma hostilidade externa crescente, o cientista brasileiro tornou-se um caso exemplar do esvaziamento da autoridade aqui descrito, e também, por isso mesmo, um observatório privilegiado das saídas possíveis.
No plano externo, o Brasil viveu de forma aguda a conversão da ciência em campo de batalha política, sobretudo durante a pandemia, que funcionou como laboratório nacional de todas as dinâmicas aqui descritas. A desinformação em saúde circulou por um ecossistema robusto de plataformas, aplicativos de mensagem e influenciadores, alcançando escala e velocidade que o esclarecimento científico não conseguiu acompanhar. O especialista brasileiro viu-se, simultaneamente, pressionado por um sistema interno de avaliação distorcido e hostilizado por um ambiente externo que passou a tratá-lo como adversário. O caso brasileiro não é, portanto, uma exceção às tendências globais: é uma de suas manifestações mais intensas, e por isso mesmo especialmente instrutiva.
9. CONSIDERAÇÕES FINAIS
Este artigo procurou mostrar que a erosão da autoridade científica é fruto de uma convergência, e não de uma causa isolada. Por dentro, o sistema de validação enfraqueceu-se ao submeter-se à lógica produtivista e métrica, gerando revistas predatórias, crises de reprodutibilidade e incentivos distorcidos. Por fora, o ambiente vaporizado dissolveu os pontos de ancoragem, a instituição, o periódico, os pares, sobre os quais essa autoridade repousava, e abriu espaço para a arquitetura da desinformação, para a figura do influenciador, para o antiintelectualismo e para a fragmentação do público em bolhas incomunicáveis.
Reconhecer essa dupla origem é a condição para qualquer reconstrução. Não se restaura a confiança no conhecimento apenas defendendo-se das ameaças externas, se as fraturas internas permanecerem abertas, nem apenas reformando os sistemas internos de avaliação, se o ambiente externo continuar a premiar a mentira sobre a verdade. A tarefa é, portanto, dupla e difícil: recuperar a integridade do sistema que produz o conhecimento e, ao mesmo tempo, aprender a comunicá-lo num ambiente que lhe é estruturalmente hostil. É desse segundo desafio, o do pesquisador diante das redes e da inteligência artificial, e das estratégias possíveis para enfrentá-lo, que se ocupa o trabalho subsequente a este.
Convém, por fim, resistir tanto ao pânico quanto à nostalgia. A autoridade científica que se erodiu nunca foi perfeita, e boa parte de sua abertura recente, o acesso ampliado, a contestação de monopólios, a exigência de transparência, representa ganho genuíno e irreversível. O problema não é que a autoridade tenha sido questionada, mas que, ao ser questionada, não tenha sido substituída por um critério melhor, e sim, muitas vezes, pela pura ausência de critério. Reconstruí-la não significa, portanto, restaurar o antigo lugar de fala do especialista, mas inventar novas formas de merecer confiança num ambiente que já não a concede por herança. É esse o trabalho que se anuncia, e para o qual este artigo pretende ter oferecido o diagnóstico.
REFERÊNCIAS
BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.
DENDASCK, Carla Viana. Comunicação científica e intelectual na era das redes sociais, da inteligência artificial e da sociedade vaporizada: uma travessia entre o congresso acadêmico e o feed infinito. São Paulo: [s.n.], 2026.
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MERTON, Robert K. The sociology of science: theoretical and empirical investigations. Chicago: University of Chicago Press, 1973.
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SUNSTEIN, Cass R. #Republic: divided democracy in the age of social media. Princeton: Princeton University Press, 2017.
VOSOUGHI, Soroush; ROY, Deb; ARAL, Sinan. The spread of true and false news online. Science, v. 359, n. 6380, p. 1146-1151, 2018.
NOTA
Este artigo deriva e desenvolve, em texto reelaborado, argumentos originalmente apresentados em Dendasck (2026), obra da própria autora, aqui citada como fonte para preservar a integridade acadêmica e evitar a publicação duplicada.
INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES
[1] Doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Doutorado em Psicologia e Psicanálise Clínica. Mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mestrado em Psicanálise Clínica. Graduação em Ciências Biológicas. Graduação em Teologia. Atua há mais de 15 anos com Metodologia Científica (Método de Pesquisa) na Orientação de Produção Científica de Mestrandos e Doutorandos. Especialista em Pesquisas de Mercado e Pesquisas voltadas a área da Saúde. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2952-4337. Lattes: https://lattes.cnpq.br/2008995647080248.
Contribuição dos autores:
Carla Viana Dendasck: Responsável exclusivo por todas as etapas de elaboração da obra, abrangendo de forma integral a concepção da ideia central, o planejamento metodológico, a coleta e análise analítica dos dados, a interpretação crítica dos resultados, além da redação completa, revisão e finalização do manuscrito.
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- ISSN (versão eletrônica): 2448-0959
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Histórico da Publicação:
Material recebido: 17 de julho de 2026.
Material aprovado pelos pares: 21 de julho de 2026.
Material editado aprovado pelos autores: 18 de agosto de 2026.




