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Comunicar ou silenciar: O pesquisador, a Inteligência Artificial e o dever público da ciência

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CONTEÚDO

ARTIGO ORIGINAL

DENDASCK, Carla Viana [1] 

DENDASCK, Carla Viana. Comunicar ou silenciar: O pesquisador, a Inteligência Artificial e o dever público da ciência. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano. 11, Ed. 08, Vol. 01, pp. 126-139. Agosto de 2026. ISSN: 2448-0959. Disponível em: https://www.nucleodoconhecimento.com.br/comunicacao/comunicar-ou-silenciar, DOI: https://doi.org/10.5281/zenodo.22018911

RESUMO

Este artigo examina a posição do pesquisador diante do ambiente contemporâneo de comunicação, aqui denominado sociedade vaporizada, e da irrupção da inteligência artificial generativa. Argumenta-se que a inteligência artificial, ao apresentar-se como um oráculo que nunca hesita, aprofunda a crise da autoridade do conhecimento, mas também oferece instrumentos ao pesquisador que souber usá-la com discernimento. Discute-se, em seguida, a cultura do silêncio que afasta o cientista do espaço público e o seu custo, bem como a crise de saúde mental que atravessa a vida acadêmica. Por fim, sustenta-se que comunicar o conhecimento deixou de ser tarefa acessória e tornou-se dever ético e público, e que a voz autoral é o núcleo irredutível que distingue o pesquisador da máquina. Propõe-se um conjunto de princípios para a reconstrução da presença da ciência na esfera pública.

Palavras-chave: Inteligência Artificial, Comunicação científica, Esfera pública, Saúde mental na academia, Ética da ciência.

1. INTRODUÇÃO

Os dois artigos que antecedem este descreveram um ambiente, a sociedade vaporizada (Dendasck, 2026), em que o conhecimento perde a possibilidade de ser localizado, e uma consequência, a erosão simultânea da autoridade científica por dentro e por fora. Resta a pergunta prática que dá sentido a todo o percurso: o que deve fazer o pesquisador diante desse quadro? Este artigo enfrenta essa pergunta, e o faz num momento em que uma nova variável, a inteligência artificial generativa, reorganizou de vez os termos do problema.

A tese que desenvolvo é a de que o pesquisador se encontra hoje diante de uma escolha que já não pode adiar: comunicar ou silenciar. Silenciar, refugiando-se na segurança do círculo dos pares, deixa o espaço público entregue à desinformação e aos oráculos automáticos. Comunicar, por sua vez, exige aprender a habitar um ambiente hostil sem trair o rigor que define o próprio conhecimento. Para sustentar esse argumento, examino primeiro o que a inteligência artificial faz à autoridade do saber, discuto em seguida a cultura do silêncio e o seu custo, abordo a crise de saúde mental que a acompanha e, por fim, proponho os princípios de uma comunicação científica à altura do seu dever público.

2. A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL COMO ORÁCULO

A inteligência artificial generativa introduziu uma figura inédita na história da relação humana com o conhecimento: uma fonte que responde a qualquer pergunta, sobre qualquer assunto, de forma imediata, fluente e articulada, e que quase nunca admite não saber. É essa última característica que a torna, ao mesmo tempo, tão útil e tão perigosa. O especialista humano hesita, pondera, reconhece os limites do que sabe; a máquina, ao contrário, entrega com a mesma segurança a informação correta e a invenção, pois não distingue, em sua operação, uma da outra.

A razão dessa indiferença à verdade é hoje bem compreendida. Modelos de linguagem operam por predição estatística: geram a sequência de palavras mais provável a partir de imensos volumes de texto, sem qualquer compreensão daquilo que dizem. Bender e colaboradores (2021) cunharam, para descrevê-los, a imagem do papagaio estocástico, uma entidade que recombina fragmentos de linguagem de modo convincente, mas sem sentido nem intenção. Daí decorre que a fluência da máquina não é indício de conhecimento: ela pode ser igualmente fluente ao afirmar o verdadeiro e o falso, porque não distingue um do outro, apenas o que é mais provável do que é menos. Confundir fluência com competência é o equívoco fundamental que a inteligência artificial induz, e desfazê-lo é a primeira tarefa de quem pretende usá-la com juízo.

Esse traço produz um deslocamento profundo na relação com a autoridade. Habituado a receber respostas prontas e confiantes, o usuário tende a conferir à máquina uma credibilidade que ela não necessariamente merece, e a dispensar as instâncias humanas de verificação que antes mediavam o acesso ao saber. As chamadas alucinações, os erros que a inteligência artificial apresenta com a mesma fluência das verdades, deixam de ser falhas ocasionais e tornam-se um risco estrutural, sobretudo quando o usuário não dispõe de conhecimento prévio para detectá-las. A máquina desintermedia o especialista, colocando-se entre a pergunta e a resposta sem os anteparos que garantiam a confiabilidade do conhecimento humano.

Seria um erro, no entanto, concluir daí uma condenação simples da tecnologia. A mesma inteligência artificial que ameaça a autoridade do saber pode ser, nas mãos do pesquisador competente, um instrumento poderoso: para revisar a literatura, para organizar ideias, para traduzir conceitos complexos em linguagem acessível, para explorar hipóteses. A diferença entre a ameaça e a ferramenta não está na máquina, mas em quem a utiliza e com que discernimento. Para quem sabe avaliar criticamente o que recebe, a inteligência artificial amplia a capacidade de trabalho; para quem não sabe, ela substitui o pensamento por uma imitação convincente dele. O problema, portanto, retorna ao humano: à sua formação, ao seu senso crítico, à sua capacidade de julgar.

Há, ainda, um risco mais insidioso, que não é o do erro pontual, mas o da atrofia. Ao delegar sistematicamente à máquina o trabalho de buscar, sintetizar e formular, corremos o perigo de desaprender a fazê-lo por conta própria. Carr (2011) já advertira que os meios digitais remodelam os hábitos cognitivos de quem os usa, e a inteligência artificial generativa leva esse efeito a um novo patamar, ao terceirizar não apenas a memória, mas o próprio ato de pensar. Uma geração que recorra ao oráculo para toda pergunta pode ganhar respostas e perder a capacidade de formulá-las, um empobrecimento silencioso que só se percebe quando já avançou. Preservar a competência humana de pensar, mesmo dispondo da máquina, torna-se, assim, uma tarefa formativa urgente.

No terreno específico da ciência, esses riscos assumem forma aguda. Já se multiplicam textos acadêmicos gerados por máquina, por vezes com referências inteiramente fabricadas, citações a trabalhos que não existem apresentadas com a mesma naturalidade das verdadeiras. Um sistema de validação já fragilizado encontra na inteligência artificial um novo vetor de contaminação, capaz de produzir, em escala industrial, a aparência do conhecimento sem a sua substância. Distinguir o texto que resulta de pesquisa daquele que apenas a imita torna-se, para editores, revisores e leitores, um desafio adicional, e mais uma razão pela qual a responsabilidade autoral, longe de ser dispensável, se firma como o último critério confiável.

3. A VOZ AUTORAL COMO NÚCLEO IRREDUTÍVEL

Se a inteligência artificial faz cada vez melhor aquilo que é técnico, produzir texto correto, resumir, informar, impõe-se perguntar o que, no trabalho intelectual, permanece irredutivelmente humano. A resposta que proponho é a voz autoral. A máquina pode gerar um texto sobre qualquer tema, mas não tem nada a dizer: não parte de uma experiência vivida, não sustenta um ponto de vista formado ao longo de uma trajetória, não arrisca uma interpretação pela qual se responsabilize. Ela combina o que já foi dito; não diz o que ainda não foi dito a partir de um lugar próprio.

A voz autoral é justamente esse lugar próprio: a perspectiva singular de quem pensou um problema por dentro, errou, corrigiu-se e chegou a uma compreensão que é sua. No ambiente vaporizado, em que a informação genérica se tornou abundante e gratuita, é essa voz que se torna rara e, por isso, valiosa. O pesquisador que apenas repassa informação compete, em desvantagem, com a máquina que a repassa mais depressa; o pesquisador que oferece uma interpretação autoral, ancorada em experiência e responsabilidade, oferece algo que a máquina não tem como produzir. Reconhecer isso reorienta a tarefa da comunicação científica: não se trata de competir com a inteligência artificial no terreno da informação, mas de ocupar o terreno em que ela não pode entrar, o do sentido, do juízo e da autoria.

A voz autoral distingue-se da produção da máquina também por um traço decisivo: a responsabilidade. Quem assina um texto responde por ele, expõe-se ao erro, aceita ser corrigido e compromete a própria reputação com o que afirma. A máquina não responde por nada, porque não há nela ninguém a quem imputar o que produz. Ora, boa parte da confiança que depositamos no conhecimento repousa justamente nessa possibilidade de responsabilização: confiamos em quem tem algo a perder ao mentir ou ao errar. Ao retirar a responsabilidade da equação, a inteligência artificial retira também um dos fundamentos da confiança, e é por isso que a autoria humana, longe de se tornar dispensável, torna-se mais preciosa, pois reintroduz no circuito do saber alguém que responde pelo que diz.

Convém precisar o que se entende por autoria, para não idealizá-la. Não se trata de originalidade absoluta, que nunca existiu, pois todo pensamento se apoia no que outros pensaram antes. Trata-se de apropriação: o modo como um sujeito assimila o que recebeu, submete-o à prova da própria experiência e devolve algo transformado, que carrega a marca de quem o pensou. A máquina recombina sem apropriar-se, porque não há nela um sujeito para quem aquilo que se recombina faça diferença. É essa apropriação, e não a novidade em si, que a comunicação científica deve cultivar e tornar visível como o seu diferencial diante da produção automática.

4. A CULTURA DO SILÊNCIO

Diante de um ambiente hostil, a reação mais comum do pesquisador tem sido o recuo. Instalou-se, na academia, uma verdadeira cultura do silêncio, sustentada por razões compreensíveis mas de consequências graves. Muitos cientistas evitam o espaço público por temor da exposição, da deturpação de suas palavras, do ataque pessoal, ou por acreditarem que se dirigir ao grande público é atividade menor, indigna do verdadeiro trabalho intelectual, quando não francamente arriscada para a carreira.

Há, ainda, um receio mais sutil e mais honroso: o de que simplificar seja trair. O pesquisador sabe que o seu objeto é complexo, cheio de ressalvas e incertezas, e teme que traduzi-lo em linguagem acessível signifique deformá-lo. Esse escrúpulo, legítimo em sua origem, converte-se, porém, em álibi para a omissão. Pois a alternativa ao silêncio não é a vulgarização, e sim a tradução responsável, aquela que simplifica a forma sem falsear o conteúdo, e que confia no público a capacidade de compreender o essencial. Recusar-se a traduzir, em nome da complexidade, é abandonar o espaço público justamente a quem não tem escrúpulo algum em simplificar até a mentira.

Esse desprezo pela comunicação tem raízes antigas na própria cultura acadêmica. Durante muito tempo, o cientista que se dirigia ao grande público foi visto com suspeita pelos pares, como se a clareza fosse sinal de superficialidade e a popularidade, prova de leviandade. O fenômeno é conhecido o bastante para ter recebido nome, o de um efeito segundo o qual divulgar seria incompatível com a seriedade científica. Trata-se de um preconceito custoso, que puniu justamente os cientistas dispostos a partilhar o saber e ajudou a esvaziar o espaço público das vozes mais qualificadas. Superá-lo é condição para que a comunicação deixe de ser vista como traição ao rigor e passe a ser reconhecida como uma de suas formas mais altas.

Existem, por fim, silêncios estruturais, que não decorrem de escolha individual, mas de desigualdades no acesso à palavra pública. Pesquisadoras mulheres, cientistas negros e vozes de grupos historicamente marginalizados enfrentam, ao se exporem, hostilidades adicionais e específicas, que tornam o custo do falar ainda mais alto. Reconhecer que o silêncio tem também essa dimensão é necessário para que a defesa da comunicação não recaia ingenuamente apenas sobre o indivíduo, ignorando as condições desiguais em que cada um decide falar ou calar.

5. O CUSTO DO SILÊNCIO

O silêncio do especialista não deixa o espaço público vazio; entrega-o. Cada pergunta que o cientista se recusa a responder será respondida por outro, e esse outro será, com frequência, o influenciador sem formação, o vendedor de pseudociência ou o oráculo automático que nunca hesita. O vácuo deixado pela autoridade legítima não permanece vácuo: é preenchido pela autoridade ilegítima, que não tem os mesmos escrúpulos nem os mesmos compromissos.

As consequências desse abandono não são abstratas. Na pandemia, ficou trágicamente claro o preço do silêncio e da lentidão da ciência frente à velocidade da desinformação: recomendações falsas circularam sem contraditório à altura, e decisões tomadas com base nelas custaram vidas. O conhecimento tem, portanto, uma responsabilidade pública que decorre da sua própria natureza: quem sabe algo que pode salvar ou proteger não é neutro ao decidir calar. O silêncio, nessas circunstâncias, não é prudência nem modéstia; é uma omissão com consequências. Passar do silêncio à presença deixa de ser uma questão de gosto ou de vocação e torna-se uma exigência ética.

Essa responsabilidade não é invenção contemporânea, mas um traço antigo da figura do intelectual, a quem sempre coube não apenas produzir saber, mas dar testemunho público dele nos momentos em que isso importa. O que muda, no ambiente vaporizado, é a urgência e a dificuldade da tarefa: nunca foi tão necessário que o conhecimento se faça presente na esfera pública, e nunca foi tão difícil fazê-lo ouvir. Diante disso, o silêncio do especialista adquire um peso moral que ele nem sempre percebe. Quem detém um saber capaz de proteger vidas e escolhe calar, por comodidade, por medo ou por desdém do público, participa, por omissão, do resultado.

É verdade que essa exigência precisa ser formulada com equilíbrio, para não se converter em culpabilização de quem já trabalha no limite. Não se cobra de cada pesquisador que se torne uma figura pública, nem que responda a tudo; cobra-se que a comunidade científica, como corpo, não abandone o espaço comum, e que aqueles em condições de falar não se calem por mera comodidade quando o silêncio tem preço alheio. A responsabilidade é, aqui, mais coletiva do que individual, e é justamente por isso que ela exige instituições, e não apenas heróis isolados.

6. A SAÚDE MENTAL DO PESQUISADOR

Não se pode exigir que o pesquisador ocupe o espaço público sem reconhecer as condições em que ele hoje trabalha. A vida acadêmica atravessa uma crise de saúde mental amplamente documentada, feita de sobrecarga, precarização, competição sem trégua e da pressão incessante por produzir. A esse quadro soma-se, no ambiente vaporizado, uma nova fonte de sofrimento: a comparação permanente com a visibilidade alheia, em que o pesquisador silencioso mas rigoroso se sente eclipsado pelo comunicador de grande audiência e pouca profundidade.

Duas figuras da psicologia contemporânea desse mal-estar merecem menção. A primeira é a síndrome do impostor, a sensação persistente de não ser competente o bastante, de que o próprio êxito é fruto de engano, que assola sobretudo os mais qualificados e os inibe de se expor. A segunda é o esgotamento, o burnout, resultado de uma cobrança que não cessa e de um trabalho cujo sentido se perde sob o peso das métricas. Exigir que o pesquisador comunique sem cuidar de quem comunica seria acrescentar mais uma tarefa a quem já está sobrecarregado. Por isso, a defesa da presença pública da ciência precisa vir acompanhada de uma ressignificação do que conta como impacto e como valor, que reconheça a comunicação como parte legítima e valorizada do trabalho, e não como um encargo a mais, gratuito e arriscado.

Agrava esse quadro a natureza do próprio ambiente em que se pede ao pesquisador que se exponha. As redes não apenas dispersam a atenção; expõem quem nelas fala a uma hostilidade muitas vezes coordenada e pessoal, que atinge de modo desproporcional as mulheres e as minorias. Turkle (2015) mostrou como a comunicação mediada por telas, ao substituir a conversa pela troca de mensagens, empobrece o vínculo humano e facilita a agressão que a presença física inibiria. Pedir ao cientista que habite esse espaço sem lhe oferecer amparo, nem institucional nem emocional, é expô-lo a um desgaste que muitos, com razão, preferem evitar. Cuidar de quem comunica é, portanto, parte inseparável de qualquer política que pretenda trazer a ciência de volta ao debate público.

Cuidar de quem cuida do conhecimento significa, na prática, redistribuir o peso. Enquanto a comunicação pública for um acréscimo voluntário à jornada já esgotante do pesquisador, ela permanecerá privilégio de poucos e fonte de adoecimento para quem a assume. Reconhecê-la como trabalho, com tempo, formação e apoio próprios, é a única maneira de torná-la sustentável. Não se constrói uma cultura de presença pública sobre a exaustão individual; constrói-se sobre condições que permitam falar sem que o falar custe a saúde de quem fala.

7. O CONHECIMENTO COMO BEM COMUM

Subjaz a tudo o que foi dito uma convicção que convém explicitar: a de que o conhecimento é um bem comum, e que comunicá-lo é um ato de responsabilidade pública, e não um favor. A tradição do pensamento sobre a esfera pública, associada sobretudo a Jürgen Habermas (2003), sustenta que uma sociedade democrática depende de um espaço em que os cidadãos possam deliberar sobre os assuntos comuns a partir de informação e de argumentos, e não de manipulação. Ora, sem a presença do conhecimento qualificado nesse espaço, a deliberação pública fica à mercê da desinformação, e a própria democracia se enfraquece.

Comunicar a ciência é, nesse sentido, um ato político no sentido nobre do termo: não partidário, mas relativo à vida da pólis, à capacidade de uma comunidade de governar-se com lucidez. O pesquisador que se dispõe a traduzir e a partilhar o que sabe não abandona o seu papel de cientista; cumpre-o em sua dimensão cívica. E fá-lo por meio de uma ética da tradução, que respeita ao mesmo tempo a verdade do conteúdo e a inteligência do público, recusando tanto a arrogância que despreza o leigo quanto a demagogia que o engana. É essa ética que transforma a comunicação de uma habilidade acessória numa responsabilidade central.

Compreender o conhecimento como bem comum implica reconhecer que o pesquisador é também um cidadão, e que a sua competência não o isenta das responsabilidades da cidadania, antes as amplia. O especialista dispõe de algo escasso e valioso, a capacidade de distinguir o que se sabe do que se supõe, e essa capacidade, num tempo de confusão generalizada, é um recurso público. Guardá-la apenas para o círculo dos pares, quando ela poderia orientar decisões coletivas, é uma forma de privatizar aquilo que deveria ser partilhado. O pesquisador que traduz o que sabe para o debate público não se rebaixa: exerce, na sua forma mais plena, a vocação cívica do conhecimento.

8. PRINCÍPIOS PARA UMA CIÊNCIA QUE FALA

Do diagnóstico decorrem princípios práticos, que aqui apenas enuncio, e que a formação do pesquisador deveria incorporar. O primeiro é a identidade como âncora: num ambiente que dispersa tudo, a consistência de uma voz reconhecível, fiel a si mesma ao longo do tempo, é o que permite construir confiança contra a corrente da vaporização. O segundo é conhecer as plataformas sem se deixar consumir por elas: usar as suas ferramentas sem adotar a sua lógica, o que significa recusar a servidão à métrica e ao imediatismo mesmo quando se ocupa o seu terreno.

O terceiro princípio é a distinção entre comunidade e audiência: a audiência consome e dispersa-se; a comunidade vincula-se e permanece. Construir comunidade, e não apenas acumular seguidores, é criar os laços duráveis que resistem à lógica do vapor. O quarto é o uso discernido da inteligência artificial, como ferramenta que amplia o trabalho autoral, jamais como substituto do juízo. E, para além do pesquisador individual, impõe-se uma transformação institucional: as universidades, as agências de fomento e os sistemas de avaliação precisam reconhecer e valorizar a comunicação pública do conhecimento, em vez de tratá-la como distração ou risco. Não se pode exigir do indivíduo uma coragem que as instituições punem. Uma ciência que fala depende de instituições que a autorizem, a protejam e a recompensem por falar.

A mudança institucional que se impõe extrapola a universidade. As agências de fomento precisam contar a comunicação pública entre os produtos legítimos da pesquisa que financiam; o jornalismo científico, tão fragilizado, precisa ser fortalecido como ponte entre a ciência e a sociedade; e a própria sociedade civil tem parte na tarefa, ao valorizar e proteger as vozes que se dispõem a esclarecer. Trata-se, no fundo, de um pacto: não se pode exigir do pesquisador individual uma coragem que o sistema pune, nem esperar que a ciência fale enquanto as estruturas em torno dela premiam o silêncio. Uma ciência que fala é uma construção coletiva, que depende de decisões deliberadas em cada um desses níveis.

Um princípio complementar diz respeito à forma. Comunicar bem não é despejar no espaço público o conteúdo acadêmico tal como foi concebido para os pares, mas encontrar, para cada público e cada canal, a forma que o torne compreensível sem o falsear. Cada meio tem a sua linguagem, e ignorá-la é garantir a inaudibilidade; dominá-la, sem servir-lhe cegamente, é a arte da tradução responsável. O pesquisador não precisa converter-se num produtor de conteúdo no sentido raso do termo, mas precisa aprender que a mesma verdade se diz de muitos modos, e que escolher o modo adequado ao interlocutor é parte do respeito devido tanto à verdade quanto a quem se dirige.

9. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Percorrido o argumento, retorna-se à escolha que o intitula. O pesquisador do nosso tempo pode silenciar, e assim entregar o espaço público à desinformação e aos oráculos automáticos, ou pode comunicar, e assim disputar, em condições adversas, o direito da verdade a ser ouvida. Sustentei que essa segunda via, embora difícil, é a única compatível com a responsabilidade pública do conhecimento, e que ela se apoia num núcleo que nenhuma máquina pode ocupar: a voz autoral, o juízo formado, a presença de alguém que responde pelo que diz.

Convém, enfim, afastar duas tentações opostas. A primeira é a do triunfalismo tecnológico, que espera que a própria tecnologia resolva os problemas que criou, como se bastasse aperfeiçoar os algoritmos para restaurar a confiança perdida. A segunda é a do desânimo, que, diante da força da dispersão, conclui que nada há a fazer senão lamentar. Entre uma e outra, este artigo defende uma posição de responsabilidade ativa: reconhecer a gravidade do quadro sem render-se a ele, e agir, com os meios disponíveis, para reconstruir as condições de uma vida intelectual pública.

A sociedade vaporizada não será revertida; é o ambiente em que doravante viveremos. Mas ambiente não é destino. Dentro dele, é possível reconstruir pontos de ancoragem, de identidade, de vínculo, de tempo, de responsabilidade, que devolvam ao conhecimento a autoridade legítima que a dispersão lhe retirou. Essa reconstrução não caberá à tecnologia, que é parte do problema tanto quanto pode ser da solução, mas às pessoas, aos pesquisadores dispostos a falar e às instituições dispostas a apoiá-los. Comunicar, hoje, é resistir à evaporação do sentido. E é uma resistência que só se faz com presença humana, que é, no fim, a única coisa que a máquina não tem como oferecer.

REFERÊNCIAS

BAUMAN, Zygmunt. Modernidade líquida. Rio de Janeiro: Zahar, 2001.

BENDER, Emily M. et al. On the dangers of stochastic parrots: can language models be too big? In: Proceedings of the 2021 ACM Conference on Fairness, Accountability, and Transparency. Nova York: ACM, 2021. p. 610-623.

CARR, Nicholas. The shallows: what the internet is doing to our brains. Nova York: W. W. Norton, 2011.

DENDASCK, Carla Viana. Comunicação científica e intelectual na era das redes sociais, da inteligência artificial e da sociedade vaporizada: uma travessia entre o congresso acadêmico e o feed infinito. São Paulo: [s.n.], 2026.

HABERMAS, Jürgen. Mudança estrutural da esfera pública. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 2003.

HAN, Byung-Chul. Sociedade do cansaço. Petrópolis: Vozes, 2015.

NICHOLS, Tom. The death of expertise: the campaign against established knowledge and why it matters. Oxford: Oxford University Press, 2017.

TURKLE, Sherry. Reclaiming conversation: the power of talk in a digital age. Nova York: Penguin Press, 2015.

NOTA 

Este artigo deriva e desenvolve, em texto reelaborado, argumentos originalmente apresentados em Dendasck (2026), obra da própria autora, aqui citada como fonte para preservar a integridade acadêmica e evitar a publicação duplicada.

INFORMAÇÕES SOBRE OS AUTORES 

[1] Doutorado em Comunicação e Semiótica pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP). Doutorado em Psicologia e Psicanálise Clínica. Mestrado em Ciências da Religião pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Mestrado em Psicanálise Clínica. Graduação em Ciências Biológicas. Graduação em Teologia. Atua há mais de 15 anos com Metodologia Científica (Método de Pesquisa) na Orientação de Produção Científica de Mestrandos e Doutorandos. Especialista em Pesquisas de Mercado e Pesquisas voltadas a área da Saúde. ORCID: https://orcid.org/0000-0003-2952-4337. Lattes: https://lattes.cnpq.br/2008995647080248. 

Contribuição dos autores:

Carla Viana Dendasck: Responsável exclusivo por todas as etapas de elaboração da obra, abrangendo de forma integral a concepção da ideia central, o planejamento metodológico, a coleta e análise analítica dos dados, a interpretação crítica dos resultados, além da redação completa, revisão e finalização do manuscrito.

INFORMAÇÕES SOBRE O MATERIAL

Conflito de interesse: 

N/A.

Agradecimentos:

N/A.

Financiamento:

N/A.

Nota de presença de IA:

N/A.

Informações sobre Direitos Autorais e Licença:

Este é um artigo de Acesso Aberto distribuído sob os termos da Creative Commons Attribution License, que permite uso, distribuição e reprodução irrestritos em qualquer meio, desde que o autor e a fonte originais sejam creditados.

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  • ISSN (versão eletrônica): 2448-0959
  • Licença Creative Commons: Este trabalho está licenciado com uma Licença Creative Commons – Atribuição 4.0 Internacional.

Histórico da Publicação:

Material recebido: 17 de julho de 2026.

Material aprovado pelos pares: 22 de julho de 2026.

Material editado aprovado pelos autores: 18 de agosto de 2026.

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