Etnofarmacobotânica do município de Coari, Amazonas – Brasil

0
294
DOI: 10.32749/nucleodoconhecimento.com.br/biologia/etnofarmacobotanica
PDF

ARTIGO ORIGINAL

MALOSSO, Milena Gaion [1], CARVALHO, Romário Moreira de [2], SILVA, Fabrício de Freitas da [3], LIMA, Erivan de Souza [4], BARBOSA, Edilson Pinto [5]

MALOSSO, Milena Gaion. Et. al. Etnofarmacobotânica do município de Coari, Amazonas – Brasil. Revista Científica Multidisciplinar Núcleo do Conhecimento. Ano 04, Ed. 03, Vol. 11, pp. 146-157. Março de 2019. ISSN: 2448-0959.

RESUMO

O município de Coari encontra-se no coração da floresta amazonense, está praticamente inalterada, porém começando a sofrer ações antrópicas, acarretando na perda da biodiversidade local. A população coariense, habitualmente, utiliza plantas no tratamento de suas enfermidades, uma vez que estas se demonstraram capazes de curar as doenças que acometem a saúde humana. Como os levantamentos etnofarmacobotânicos são ferramentas utilizadas por cientistas para a seleção de plantas medicinais e, para evitar que o conhecimento tradicional se perca completamente no tempo, se justifica a realização de um levantamento etnofarmacobotânico junto a esta população, cujo objetivo é levantar o conhecimento tradicional sobre as plantas que são usadas como medicamento pela população deste município, o que é inédito. Nas 457 entrevistas realizadas com indivíduos deste município, utilizando o formulário semi-estruturado, foram citadas 28 plantas que são usadas como medicamento, onde 28,57% pertencem à família Lamiaceae, 7,14% Asteraceae, Malvaceae, Rutaceae e Zingiberaceae e 3,57% à das Anacardiaceae, Anonaceae, Arecaceae, Bignoniaceae Caprifoliaceae, Chenopodiaceae, Crassulaceae, Euphorbiaceae, Leg. Caesalpiniaceae, Liliaceae, Portulacaceae, Piperaceae. Onde 41,66% servem para inflamação, 29,16% para o estômago, 16,66% para febre, 12,5% para nervosismo, diarreia e fígado, 8,33% para pressão alta, infecção urinária, bronquite e verme, 4,16% para gastrite, insônia, pressão baixa, cólica, intoxicação alimentar, reumatismo, sinusite, diabete, anemia, hepatite, sarampo, pedra nos rins e na vesícula, e como fortificante. Deste total, 100% são utilizadas como chá, 3,5% como asseio e inalação. As plantas medicinais são importantes para a maioria das pessoas desta população acima de 40 anos, visto que, muitas vezes, representam à única alternativa de tratamento a eles acessível.

Palavras-chave: Levantamento etnobotânico, Plantas Medicinais, Coari, Amazonas.

1. INTRODUÇÃO

O município de Coari encontra-se situado no coração da floresta amazônica amazonense, que está praticamente inalterada, porém, começando a sofrer ações antrópicas tal grande o desmatamento de imensas áreas florestais pela PETROBRÁS onde se encontram as jazigas minerais para retirada de petróleo e gás natural, o que está levando à fragmentação de áreas imensas que, por consequência causam efeito de borda que acaba por levar à perda da biodiversidade local. Esta cidade possui uma área de 57.922 km2, situado na região do médio Solimões (Latitude: -4,085 e Longitude: -63,14139), é limitada pelo município de Codajás ao norte, Tapauá ao sul, Anori a leste e Tefé a oeste, e está a 463 km fluviais da cidade de Manaus, não havendo transporte por via terrestre para nenhum dos municípios vizinhos (Antunes, 1999). Atualmente, 67.096 pessoas vivem nesta área, sendo a maioria concentrada na região urbana, com baixo grau de escolaridade e que sobrevive da pesca e agricultura (IBGE, 2004). Devido a questões de logística, tal como longas distâncias da capital e demais municípios do interior do Amazonas mais desenvolvidos, dificuldade de acesso fluvial na época de seco e acesso terrestre inexistente e da recente instalação do único hospital e dos 17 postos de saúde no município em fevereiro de 2004, a população local desenvolveu, ao longo de suas gerações, um conhecimento sobre plantas medicinais para o tratamento e cura de suas doenças.

As diversas ciências que compreendem a área de saúde, tais como a fitoquímica e a farmacologia, entre outras, já comprovaram que as plantas têm propriedades medicinais (Simões et al., 2004; Castro et al., 2004), e são capazes de tratar e curar as mais diversas enfermidades que acometem a saúde humana (Lorenzi & Matos, 2002; Revilla, 2004). Desta forma, a realização de levantamentos etnobotânicos são, hoje em dia, ferramentas utilizadas por cientistas de todo o mundo como uma estratégia para a seleção de plantas medicinais (Albuquerque & Hanazaki, 2006), tendo em vista a relevância das mesmas para a saúde humana e animal, além da sua importância econômica no Brasil e no mundo, já que o valor dos produtos naturais obtidos a partir de plantas medicinais é gigantesco.

Existem quatro tipos básicos de bioprospecção etnofarmacobotânicas, a randômica, a etológica, a quimiotaxonômica e a etnodirigida. As investigações randômicas compreendem a coleta ao acaso de plantas para triagem fitoquímica e farmacológica (Calderón, et al, 2000). A abordagem quimiotaxonômica ou filogenética consiste na seleção de espécies de uma família ou gênero, para as quais se tenha algum conhecimento fitoquímico de pelo menos uma espécie do grupo (Silva & Cechinel Filho, 2002). A abordagem etológica é baseada no comportamento de animais (Alves & Rosa, 2006) e a etnodirigida consiste na seleção de espécies de acordo com a indicação de grupos populacionais específicos em determinados contextos de uso, enfatizando a busca pelo conhecimento construído localmente a respeito de seus recursos naturais e a aplicação que fazem deles em seu sistema de saúde e doença (Maciel et al., 2002).

A abordagem etnodirigida é extremamente relevante em ecossistemas como as florestas tropicais, que vêm sendo incessantemente devastadas e extremamente modificadas pela ação antrópica. Estes fatos levam à perda do conhecimento, acumulado por milênios, sobre o uso medicinal tradicional das plantas destas florestas pelas populações a elas associadas, visto que estas são forçadas a migrar para os centros urbanos mais próximos ou devido à miscigenação com a cultura de outras populações que podem estar sendo inseridas nos grupos populacionais tradicionais (Simões et al., 2004).

A Cidade de Coari é um exemplo de miscigenação de culturas entre populações distintas, pois, devido à descoberta de novas jazidas de petróleo e de gás natural neste município, em 1985, a PETROBRÁS vem desembarcando, diariamente, centenas de trabalhadores provenientes de todos os estados brasileiros, bem como de diversos países nesta cidade. Esses imigrantes se relacionam com a população típica desta região e, como trazem consigo, consequentemente, suas culturas, conceitos e conhecimentos tradicionais que, geralmente, são muito diferentes daqueles da população coariense que é simplesmente baseada no pesca, agricultura de subsistência, coleta e caça e uso de plantas medicinais para tratamento de sua saúde, com o passar dos anos, a miscigenação de culturas diversificadas pode levar à perda do conhecimento tradicional (Amoroso, 2002) sobre plantas medicinais da população local que, até poucos anos, vivia isolada nesta região geográfica. Infelizmente, este fato começa a ser observado na população local, uma vez que os indivíduos mais jovens da população coariense já não se tratam mais com ervas, mas sim, com fármacos produzidos por grandes indústrias farmacêuticas, prescritos por médicos e comprados nas drogarias recentemente instaladas da cidade.

Schultes (1994), chamou este processo de “queima da biblioteca”, propondo a conservação etnobotânica como uma forma de proteger o conhecimento destas comunidades sobre o uso de plantas medicinais. Assim, o objetivo deste trabalho é realizar um levantamento das plantas utilizadas como remédio pela população coariense, visto que não há nenhum registro deste tipo de levantamento nesta região, o que torna este trabalho inédito e urgente.

2. METODOLOGIA

Este trabalho foi aprovado pelo Comitê de Ética da UFAM e está registrado no Ministério de saúde, Conselho Nacional de Saúde, Comissão Nacional de Ética em Pesquisa – CONEP com o número de CAAE 0016.0.115.000 – 08.

Os indivíduos de cada domicílio foram abordados, esclarecidos a respeito da pesquisa e convidados a participar da entrevista semi-estruturada, através da abordagem etnodirigida. Primeiramente, foi apresentado o “Termo de Consentimento Livre Esclarecido”, retirado de Albuquerque & Hanazaki (2006), (Ficha 1) e, com o consentimento do entrevistado, aplicou-se o formulário semi-estruturado (Ficha 2).

Ficha 1: Termo de Consentimento Livre Esclarecido:

Nome do Projeto:

Nome do Responsável:

O estudo de que você está prestes a participar é parte de uma série de estudos sobre o conhecimento que você tem e o uso que você faz das plantas de sua região seja para alimentação, construção, lenha, medicina, etc., e não visa nenhum benefício econômico para os pesquisadores ou qualquer outra pessoa ou instituição. É um estudo amplo, que tem vários participantes, sendo coordenado pelo Laboratório de Estudos Botânicos e Biotecnologia Vegetal da Universidade Federal do Amazonas – ISB/Coari. O estudo emprega técnicas de entrevista e conversas informais, bem como observações diretas, sem risco de causar prejuízo aos participantes, exceto um possível constrangimento com nossas perguntas ou presença. Caso você concorde em tomar parte nesse estudo, será convidado a participar de várias tarefas, como entrevistas, listar as plantas que você conhece e usa da região, ajudar os pesquisadores a coletar essas plantas, mostrar, se for o caso, como você as usa no seu dia a dia. Todos os dados coletados com sua participação serão organizados de modo a proteger a sua identidade. Concluído o estudo, não haverá maneira de relacionar seu nome com as informações que você nos forneceu. Qualquer informação sobre os resultados do estudo lhe será fornecida quando este estiver concluído. Você tem total liberdade para se retirar do estudo a qualquer momento. Caso concorde em participar, por favor, assine seu nome abaixo, indicando que leu e compreendeu a natureza do estudo e que todas as suas dúvidas foram esclarecidas.

Data: ___/___/___.

Assinatura do participante ou impressão dactiloscópica.

Nome:_________________________________________________________________________

Endereço:______________________________________________________________________

Assinatura do Pesquisador:_________________________________________________________

Assinatura da(s) Testemunha(s):_____________________________________________________

Ficha 2. Formulário Semi-Estruturado desenvolvido pelos autores.

PARTE 1. IDENTIFICAÇÃO DO ENTREVISTADO

Nº da Ficha ( ) Data: ___/___/___

Nome: __________________________________ Apelido: _____________________

Sexo: ( ) Idade____ Bairro da Residência ____________ Anos de Residência ______

Ocupação: _____________________________________________________________

PARTE 2. RELAÇÃO DO ENTREVISTADO COM AS PLANTAS MEDICINAIS

Usa plantas medicinais? _______________ Há quanto tempo? ________________

Acredita nas plantas? ____________________________________________________

Com quem aprendeu a usar plantas medicinais? _______________________________

Conhece alguém que conheça muito bem as plantas medicinais? __________________

PARTE 3: SOBRE O MEDICAMENTO

1. Qual é o nome vulgar da planta?

2. Para doença o Sr. (ou Sra.) utiliza a planta?

3. Qual parte da planta (raiz, caule, folha, flor, fruto, etc.) é utilizada para fazer o preparo medicinal (chás, emplastos, pomadas, etc.)?

4. Também podem ser utilizadas outras partes da planta?

5. Outras substâncias são misturadas nos preparados?

6. Como o preparado é feito?

7. Como o preparado é administrado (via oral, nasal, epidérmica, venosa, etc.)?

8. Quais as quantidades de todos os ingredientes usados no preparado?

9. Qual é a dosagem do preparado para crianças (4 colheres de sopa por dia, trocar o emplastro 2 vezes por dia, etc.)?

10. Qual é a dosagem do preparado para os adultos?

11. Existe alguma diferença de dosagem para homens e mulheres?

12. Quais as condições de saúde do paciente para se aplicar a dosagem?

13. Quais são os princípios curativos presumidos de cada constituinte?

14. Este preparado tem algum cheiro ou cor?

15. Aonde o preparado deve ser mantido (na geladeira, no escuro, etc.)?

16. Quais os efeitos produzidos por cada ingrediente?

17. Quanto tempo deve durar o tratamento?

18. Quais os cuidados que devem ser tomados durante o uso do preparado (existe algum tipo de exigência comportamental especial a ser(em) observado(s) pelo paciente durante o tratamento restrições dietéticas, restrições na atividade regular, etc)?

19. O Sr. (a.) sabe ou conhece alguém que saiba aonde encontrar os ingredientes do preparado?

PARTE 4: SOBRE A PLANTA

01. Onde a planta ocorre (mata, campo, serra, etc)?

02. Como é o solo?

03. Qual a cor da flor, quando floresce?

04. Qual a melhor época para coletar?

05. Há alguma espécie que sempre ocorrem junto com essa planta?

06. Cresce melhor na sombra ou no sol?

07. Tem alguma planta que é muito parecida e pode ser confundida?

08. Tem algum cheiro específico?

09. Habito de crescimento?

10. Já fez muda dessa planta? Usou semente ou estaca? A pega é boa?

 

A Coleta de dados se deu de modo informal, possibilitando uma maior flexibilidade no contato entre entrevistado e o entrevistador que fez as anotações nas fichas. Após o término da entrevista, o pesquisador fez um relato da comunicação verbal de todas as questões abordadas.

A opção por esta forma de registro tem como objetivo evitar o constrangimento dos entrevistados frente ao fato de seu possível analfabetismo e ao uso de gravador, o que poderá contribuir para a omissão de informações importantes ou até mesmo, à recusa de participação neste projeto.

Como o levantamento etnobotânico envolve a coleta de dados e a coleta de plantas (Distasi, 1996), uma amostra de cada uma das plantas indicadas pela população local foi coletada, herborizada e classificada de acordo com a metodologia de Ribeiro et al, (1999) e depositada no herbório do Instituto de Saúde e Biotecnologia da Universidade Federal do Amazonas, em Coari.

Para ilustrar e auxiliar a identificação das espécies vegetais foram tiradas fotografias, com máquina digital, de todas as espécies mencionadas nas entrevistas. Para a análise final, todos os dados serão expostos na forma de tabela.

Foram entrevistados os indivíduos, tanto do sexo masculino como do sexo feminino, que tinham iguais ou mais de 40 anos de idade, que tenham crescido no município de Coari e que estejam de acordo em participar deste projeto. Estes critérios foram escolhidos para garantir que os indivíduos realmente tenham o conhecimento tradicional sobre plantas medicinais e realmente faça uso destas, para que possam indicar formas populares de uso, armazenamento, dosagem, entre outras características importantes que auxiliariam nas etapas de produção de um fármaco. Os indivíduos mais novos foram excluídos por já apresentarem o hábito de frequentar os postos de saúde e hospital e, por isso, já fazem uso de medicamentos comprados em farmácias e os indivíduos não naturais de Coari podem apresentar diferentes conhecimentos populares sobre plantas medicinais. De acordo com as estatísticas do IBGE (2004), no município de Coari, existem 10.290 indivíduos com idade igual ou superior a 40 anos. Estes indivíduos estão domiciliados em 10.563 residências (IBGE, 2004), distribuídas pelos 11 bairros do município. No entanto, estas residências são habitadas por muitas famílias migrantes, que cresceram em outras cidades do Amazonas e até mesmo em outros estados do Brasil e outros países e que, portanto, possuem uma cultura diferente no tocante ao sistema de cura de doenças por plantas medicinais. Por isso, o número de pessoas entrevistadas será restrito aos representantes de todas as famílias, que cresceram em Coari, compreendendo aos mais idosos de cada residência, com a participação dos demais membros da família. O critério para a escolha dos informantes foi bater de casa em casa onde haviam indivíduos com as características necessárias à pesquisa e que aceitassem participar da mesma.

De acordo com os cálculos de amostragem aleatória simples (Bolfarini & Bussab, 2005), o número indicado de pessoas a serem entrevistadas no município de Coari de 457 entrevistas.

3. RESULTADOS E DISCUSSÃO

A Tabela 1 mostra, em resumo, os principais dados coletados como os nomes popular e científico das plantas, bem como sua família, indicação, modo de uso e número de citações, obtidos durante as entrevistas realizadas neste trabalho.

TABELA 1: Nome Popular, Científico, Família, Indicação, Modo de uso e Frequência, pela população do Bairro do Espírito Santo, Coari-AM/Brasil.

Nome popular Científico Família Indicação Modo de uso Nº de Citações
Alfavaca Ocimum gratissimum L. Lamiaceae Pressão alta Chá 1
Algodão Gossypium barbadense L. Malvaceae Inflamação no útero Chá 1
Amor crescido Portulava pilosa L. Portulaceae Diarreia Chá 1
Arruda Ruta graveolens L. Rutaceae Inflamação na mulher, calmante, dor no estômago Chá 4
Babosa Aloe vera (L.) BURM. F. Malvaceae Gastrite Chá 2
Boldo Plectrantusbarbatus Lamiaceae Dor no estômago e fígado Chá 5
Boldo da folha grande Vernonia condensata L. Lamiaceae Febre, dor no estômago e fígado Chá 3
Caju vermelho Anacardium occidentale L. Anacardiaceae Calmante Chá 1
Cidreira Lippia alba (MILL.) N. E. Lamiaceae Insônia, pressão baixa, febre Chá 4
Corama Bryophyllum pinnantum (L.f.) OKEN. Crassulaceae Inflamação (rins, útero e baço) dor de estômago Chá 6
Elixir Paregórico Piper Callosum RUIZ & PAV. Piperaceae Dor no estomago e fígado Chá 1
Crajiru Arrabidaea chica (BONPL.) B. VERL. Bignoniaceae Inflamaçao Chá, asseio 4
Graviola Annona muricata L. Anonaceae Infecção urinaria inflamação no fígado Chá 2
Hortelã Mentha arvensis L. Lamiaceae Ameba, diarreia, fígado Chá 3
Hortelãzinho Mentha piperita L. Lamiaceae Calmante, cólica de bebê Chá 3
Jambu Acmella oleracea L. R. (K.) JANSEN. Asteraceae Inflamação da bexiga Chá 1
Japecanga Smilax japicanga GRISEB Liliaceae Pedra na vesícula e inflamação Chá 1
Laranja Citrus aurantium L. Rutaceae Dor no estômago Chá 1
Macela Egletes criscosa (L.) LESS. Asteraceae Febre, intoxicação alimentar e inflamação Chá 1
Malvarisco Plectranthus amboinicus (L.) SPRENG. Lamiaceae Inflamação, pressão alta, bronquite Chá 7
Mangarataia Zingiber officinale ROSCOE Zingiberaceae Reumatismos, sinusite Chá, inalação 1
Manjericão Ocimum basilium L. Lamiaceae Dor de cabeça Chá 1
Mão de vaca Bauhinia cheilantha (BONG) STEND Caesalpiniaceae Diabete Chá 1
Mastruz Chenopodium ambrosioides L. Chenopodiaceae Verme, fortificante, febre, bronquite asmática Chá 3
Pobre velho Costus spicatus (JACQ.) SW. Zingiberaceae Diabete, Infecção urinária Chá 3
Quebra pedra Phyllanthus niruri L. Euphorbiaceae Pedra nos rins Chá 5
Raiz do açaí Euterpe oleracea L. Arecaceae Anemia, diarréia, hepatite Chá 2
Sabugueiro Sambucus australis CHAM. & SCHLTD Caprifoliaceae Sarampo Chá 1

Fonte: Romário Moreira de Carvalho

Nas entrevistas realizadas, foram citadas 28 plantas principais que são usadas como medicamentos pela população coariense, sendo que 28,57% pertencem à família Lamiaceae; 7,14% as famílias Asteraceae, Malvaceae, Rutaceae, Zingiberaceae; 3,57% as famílias Anacardiaceae, Anonaceae, Arecaceae, Bignoniaceae, Caprifoliaceae, Chenopodiaceae, Crassulaceae, Euphorbiaceae, Leg. Caesalpiniaceae, Liliaceae, Portulacaceae e Piperaceae.

Das 28 plantas levantadas, 41,66% são indicadas para inflamação; 29,16% indicadas para dor no estomago; 16,66% indicadas para febre; 12,5% indicadas para diarréia, problemas no fígado e como calmante; 8,33% indicadas para pressão alta, infecção urinária, bronquite e verme; 4,16% indicada para gastrite, insônia, pressão baixa, cólica de bebê, pedra nos rins e vesícula, intoxicação alimentar, reumatismo, sinusite, diabete, fortificante, anemia, hepatite e sarampo. Deste total 100% são utilizadas na forma de chá, 3,5% para inalação e como asseio.

Plectranthus amboinicus (L.) SPRENG e Bryophyllum pinnantum (L.F.) OKEN foram às espécies mais frequentemente utilizadas pelos entrevistados desta pesquisa. Este fato indica que a probabilidade destas espécies possuírem atividades terapêuticas é muito alta, além do fato de a importância das famílias Lamiaceae e Crassulaceae já terem sido registradas em muitos outros estudos (Gonçalves et al., 2000; Albuquerque & Andrade, 2002; Ritter et al., 2002; Adigüzel et al., 2005; Costa et al., 2005; Torres et al. 2005; Vendruscolo et al., 2005; Morais et al., 2005; Mendes, et al., 2006; Muller, 2006; Silva et al., 2006 e Schmitt et al., 2003; Morais et al., 2005; Souza et al., 2005), que demonstraram a atividade e eficácia de várias espécies que as compõem.

4. CONSIDERAÇÕES FINAIS

Com isso, conclui-se que as plantas medicinais são de extrema importância para a grande maioria das pessoas da população coariense acima de 40 anos, visto que muitas vezes estas representam a única alternativa de tratamento dos males que as acometem devido ao fato de, além destas pessoas culturalmente apresentarem preconceito quanto ao uso do sistema público de saúde como os postos de saúde e hospitais ou ainda devido à falta de dinheiro para comprar fármacos, ocorre também que boa parte da população coariense reside em áreas de floresta situadas a longas distâncias de locais onde existam farmácias, precisando viajar por dias em rabetas para chegar em Coari ou em outras cidades do interior do Amazonas que possuam melhor infra-estrutura.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ADIGÜZEL, A.; GÜLLÜCE, M.; SENGÜL, M., OGUTCU, H., SAHIN, F.; KARAMAN, I. Antimicrobial Effects of Ocimum basilicum (Labiatae) Extract. Turkish Journal of Biology. v. 29, p. 155-160, 2005.

ALBUQUERQUE, U.P.; HANAZAKI, N. As pesquisas etnodirigidas na descoberta de novos fármacos de interesse médico e farmacêutico: fragilidades e perspectivas. Brasilian Journal of Phamacognosy. n. 6, p. 678 – 689, 2006.

ALBUQUERQUE, U.P.; ANDRADE, L.H.C. Uso de recursos vegetais da Caatinga: O caso do Agreste do Estado de Pernambuco (Nordeste do Brasil). Revista de Ciência e Tecnologia da America Latina. v. 27, n. 7, p. 336 – 346, 2002.

ALVES, R. R. & ROSA, I. L. From cnidarians to mammals: The use of animals as remedies in fi shing communities in NE Brazil. Journal Ethnopharmacology. v. 107, p. 259-276, 2006.

AMOROSO, M.C.M. Uso e diversidade de plantas medicinais em Santo Antônio do Leverger, MT, Brasil. Acta Botanica Brasilica. v. 16, n. 2, p. 189 – 203, 2002.

ANTUNES, C. Atlas geográfico escolar. 4ª ed. Rio de Janeiro : Scipione, 1999. 23 p.

BOLFARINI, H.; BUSSAB, W. Elementos de Amostragem – ABE Projeto Fisher. 1ª ed. São Paulo : Editora Blucher, 2005. 498 p.

CALDERÓN, A. I.; ANGERHOFER, C. K.; PEZZUTO, J. M. Forest plot as a tool to demonstrate the pharmaceutical potencial of plants in a tropical forest of Panamá. Economic. Botany. v. 54, p. 278 – 294, 2000.

CASTRO, H. G.; FERREIRA, F. A.; SILVA, D. J. H. da.; MOSQUIM, P. R. Contribuição ao estudo das plantas medicinais: Metabólitos Secundários. 1ª ed. Viçosa: UFMG, 2004. 113 p.

COSTA, L.C.B.; CORRÊA, R.M.; CARDOSO, J.C.W.; PINTO, J.E.B.P.; BERTOLUCCI, S.K.V.; FERRI, P.H. Secagem e fragmentação da matéria seca no rendimento e composição do óleo essencial de capim-limão. Horticultura Brasileira. v. 23, n. 4, p. 956-959, 2005.

DI STASI, L.C. Plantas medicinais: arte e ciência. Um guia de estudos interdisciplinar. 1ª ed. São Paulo : UNESP, 1996. 230 p.

GONÇALVES, M.C.R.; MOURA, L.S.A.; RABELO, L.A.; BARBOSA-FILHO, J.M.; CRUZ, H.M.M.; CRUZ, J. Produtos naturais inibidores da enzima HMG CoA redutase Natural products inhibitors of HMG CoA reductase. Revista Brasileira de Farmácia, v. 81, n. 3, p. 63-71, 2000.

IBGE, Resultados da Amostra do Censo Demográfico 2000 – Malha municipal digital do Brasil: situação em 2001. Rio de Janeiro: IBGE, 2004.

LORENZI, H.; MATOS, F. J. A.; Plantas Medicinais no Brasil: Nativas e Exóticas. 1ª ed. Nova Odessa : PLANTARUN, 2002. 512 p.

MACIEL, M. A. M.; PINTO, A. C.; VEIGA JR. V. F.; GRYNBERG, N. F. Plantas Medicianis: a necessidade de estudos multidisciplinares. Química Nova. v. 25, n. 3, p. 429 – 438, 2002.

MENDES, B.G.; MACHADO, M.J.; FALKENBERG, M. Triagem de glicolipídios em plantas medicinais. Revista Brasileira de Farmacognosia, v. 16, n. 4, p. 568 – 575, 2006.

MORAIS, S. M., DANTAS, J. D. P.; SILVA, A. R. A.; MAGALHAES, E. F. Plantas medicinais usadas pelos índios Tapebas do Ceará. Revista Brasileira de Farmacognosia, v. 15, n.2, p. 169 – 174, 2005.

MULLER, V.D.M. Triagem antiviral de extratos vegetais: Fracionamento biomonitorado de Ilex paraguariensis A. St. Hil. Aquifoliaceae (erva-mate). 2006. 151 p. Dissertação. (Programa de Pós-Graduação em Farmácia) – Departamento de Farmácia, Florianópois.

REVILLA, J. Cultivando a saúde em hortas caseiras e medicinais. 1ª ed. Manaus : INPA, 2004. 101 p.

RIBEIRO, J. S.; HOPKINS, M. J.G.; VICENTINE, A.; SOTHERS, C.A.; COSTA, M.A. da S.; BRITO, J.M de; SOUZA, M.A.D. de; MARINS, L.H.P.; LOHMANN, L.G.; ASSUNÇÃO, P.A.C.L.; PEREIRA E.V. da C.; SILVA, C.F. da, MESQUITA, M.R.; PROCÓPIO, L.C. Flora da Reserva Ducke: Guia de identificação das plantas vasculares de uma floresta de terra-firme na Amazônia Central. 1ª ed. Manaus : INPA, 1999. 816 p.

RITTER, M.R.; SOBIERAJSKI, G.R.; SCHENKEL, E.P.; MENTZ, L.A. Plantas usadas como medicinais no município de Ipê, RS, Brasil. Revista Brasileira de Farmacognosia, v. 12, n. 2, p. 51-62, 2002.

SCHULTES, R.E. Burning the library of Amazônia. The Sciences, v. 34, n. 2, p. 24 – 31, 1994.

SCHMITT, A.C.; ALMEIDA, A.B.P.F.; SILVEIRA, T.A.; IWAKURA, C.T.; MENDES, K. F.; SILVA, M.C. Avaliação da atividade antimicrobiana in vitro da planta Bryophyllum pinnatum Kurz (Folha-da-Fortuna) colhida em Várzea Grande, Mato Grosso/ Brazil. Acta Scientiae Veterinária. v. 31, n. 1, p. 55-58, 2003.

SILVA, M.L.; CHECHINEL FILHO, V. Plantas do gênero Bauhinia: composição química e potencial farmacológico. Química Nova, v. 25, n. 3, p. 449 – 454, 2002.

SILVA, M.S.; ANTONIOLLI, A.R.; BATISTA, J.S.; MOTA, C.N. Plantas medicinais usadas nos distúrbios do trato gastrintestinal no povoado Colônia Treze, Lagarto, SE, Brasil. Acta Botanica Brasilica, v. 20, n. 4, p. 815 – 829, 2006.

SIMÕES, C.M.O.; SCHENKEL, E.P.; GOSMANN, G.; MELLO, J.C.P.; MENTZ, L.A.; PETROVICK, P. R. Farmacognosia, da planta ao medicamento. 1ª ed. Florianópolis : UFRGS: Florianópolis, 2004. 1102 p.

SOUSA, P.J.C; ROCHA, J.C.S.; PESSOA, A.M.; ALVES, L.A.D; CARVALHO, J.C.T. Estudo preliminar da atividade antiinflamatória de Bryophillum calycinum Salisb. Revista Brasileira de Farmacognosia, v. 15, n. 1, p. 60 – 64, 2005.

TORRES, A.R.; OLIVEIRA, R.A.G.; DINIZ, M.F.F.M.; ARAUJO, E.C. Estudo sobre o uso de plantas medicinais em crianças hospitalizadas da cidade de João Pessoa: riscos e benefícios. Revista Brasileira de Farmacognosia, v.15, n. 4, p. 373-380, 2005.

VENDRUSCOLO, G.S.; KATES, S.M.K.; MENTZ, L.A. Dados químicos e farmacológicos sobre as plantas utilizadas como medicinais pela comunidade do bairro Ponta Grossa, Porto Alegre. Revista Brasileira de Farmacognosia, v. 15, n. 4, p. 361 – 372, 2005.

[1] Doutorado, Professora Associada II.

[2] Aluno do Curso de Bacharelado em Biotecnologia, Discente.

[3] Aluno do Curso de Bacharelado em Biotecnologia, Discente.

[4] Graduado em biotecnologia, Técnico do Laboratório de Cultura de Tecidos Vegetais.

[5] Doutorado, Docente – Estatístico.

Enviado: Março, 2019

Aprovado: Março, 2019

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here